7.6.25

Meditações trinitárias e filioquistas

 

A paradoxal necessidade da Caridade Trinitária

 

Conhecida a Revelação, vislumbra-se com a inteligência contemplativa, além das clássicas analogias psicológicas de Santo Agostinho, a necessidade amorosa da Santíssima Trindade e a ordem das Pessoas, como viu Ricardo de São Vítor. O Pai gera necessariamente o Filho, porque a Caridade é o que há de mais excelente e divino, e é interpessoal, exigindo uma Segunda Pessoa Divina, para ser plena, digna de Deus.

Da Caridade do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai procede necessariamente o Espírito Santo, como Amigo condileto, porque o Amor perfeito e sobreabundante das duas primeiras Pessoas divinas exige ser testemunhado por e compartilhado com Outrem igualmente Perfeito.

São Três Coeternos, mas esta é a ordem exigida pela Revelação da Caridade e a distinção das propriedades hipostáticas: o Monarca, o Herdeiro imediato e o Co-Herdeiro imediato e mediato.

Assim como o Espírito testemunha e se compraz no Amor do Pai e do Filho, o Pai testemunha e se compraz no Amor do Filho e do Espírito, e o Filho testemunha e se compraz no Amor do Pai e do Espírito.

Dos Três não procede uma quarta pessoa divina (e assim ao infinito: de quatro, a quinta, etc.). Sabemo-lo pela Revelação, e pela conveniência teológica: a Trindade já “encerra” suficientemente a unipluralidade da paradoxal Caridade supersubstancial, totalmente livre e necessariamente emanada da Fonte e Origem da Trindade, que é o Pai (Caridade que nos livra e nos constrange).

O Espírito Santo é, na Trindade, a Pessoa Dom, de tal modo que, se a propriedade hipostática do Pai implica o transbordamento infinito, e a do Filho, a gratidão perfeita, a do Espírito implica um paradoxal e positivo “não” desejar nada para Si, mas o atribuir toda a Glória ao Pai e ao Filho, uma vontade de “diminuir” (da qual aquela de São João Batista e de todos os santos é uma imitação), prorrompendo em infinitos e eternos louvores ao Nome inefável de Deus.

Tais louvores são os “Nomes Divinos”, cada qual manifestando aspectualmente a Infinitude Divina. Tais “Nomes” (ou “Ideias”) não são outras infinitas pessoas divinas, mas são as infinitas “glórias” (ou “luzes” incriadas) pelas quais as criaturas intelectuais poderão ver a Deus por toda a Eternidade; as infinitas “línguas de fogo” pelas quais os Profetas e os Apóstolos falaram em nome de Deus; as infinitas “águas” ou graças que jorram desde o seio do fiel batizado; e ainda as infinitas “boas obras” (“energias”) preparadas para os santos desde a Eternidade.

 

A processão do Espírito Santo e o Filioque

 

            Segundo Santo Tomás, na S.Th. I, q.36, a.2:

 

Es obligatorio decir que el Espíritu procede del Hijo. Pues, si no procediera de El, de ninguna manera podría distinguirse personalmente de El. [...]

 

[...] si en el Hijo y en el Espíritu Santo no se encontraran más que dos relaciones con las que cada uno se relacionara con el Padre, dichas relaciones no serían opuestas entre sí; como tampoco lo serían aquellas con las que el Padre se relaciona con ellas. Por eso, así como la persona del Padre es una, así también se seguiría que la persona del Hijo y del Espíritu Santo sería una, teniendo dos relaciones opuestas a las dos relaciones del Padre. Esto es herético y anula el contenido de la fe en la Trinidad. Por lo tanto, es necesario que el Hijo y el Espíritu Santo estén relacionados entre sí con relaciones opuestas.

 

[...] en Dios no puede haber más relaciones opuestas que las relaciones de origen. Y las relaciones opuestas de origen lo son por el principio y por lo que emana del principio. Por lo tanto, hay que decir o que el Hijo procede del Espíritu Santo, y esto no lo sostiene nadie; o que el Espíritu Santo procede del Hijo, y esto es lo que nosotros confesamos. Esto está en armonía con el concepto de procesión de ambos. Se dijo (q.27 a.2 y 4q.28 a.4), que el Hijo procede intelectualmente como Palabra. El Espíritu Santo procede voluntariamente como amor. Y es necesario que el amor proceda de la Palabra; pues nada amamos si antes no lo hemos albergado en nuestra mente concibiéndolo. Resulta evidente así y por eso que el Espíritu Santo procede del Hijo.

 

[...] los mismos Griegos entiendan que la procesión del Espíritu Santo guarde alguna relación con el Hijo. Pues admiten que el Espíritu Santo es Espíritu del Hijo y que procede del Padre por el Hijo. Algunos de ellos admiten incluso que es del Hijo y que emana de El: sin embargo, no admiten que proceda. Y esto se debe, al parecer, o a la ignorancia o a la insolencia. Porque, si se pensara correctamente, se podría dar uno cuenta de que entre todas las palabras que indican origen, la más extendida es procesión. Pues la utilizamos para indicar, cualquier origen: como del punto procede la línea; del sol, el rayo; de la fuente, el arroyo. Y lo mismo en otras muchas cosas. Concluyendo: De cualquier palabra referida al origen, puede deducirse que el Espíritu Santo procede del Hijo.

 

            Sobre a processão do Pai e do/pelo Filho, explica Leandro Bezerra:

 

α Como de um só Princípio

 

[...]

 

Fócio argumenta em sua Mistagogia [...] que o Espírito Santo não precisa proceder do Filho para ser realmente distinto d’Ele, uma vez que só o fato de o Filho proceder do Pai por geração, mas o Espírito Santo proceder por espiração, já seria suficiente para distingui-los realmente entre si. Portanto, seria supérfluo dizer que o Espírito Santo procede do Filho.

 

Resposta: O argumento de Fócio supõe que a geração se opõe à espiração, pois supõe que, pelo fato do Filho ser gerado, mas não espirado, então podemos concluir que o mesmo se distingue realmente do Espírito realmente do Filho. Portanto, o Filho e o Espírito Santo se distinguem entre si por uma suposta relação de oposição entre a geração e a espiração.

 

No entanto, devemos dizer que tal raciocínio é errôneo, e os próprios seguidores de Fócio o admitem implicitamente, pois admitem que não há oposição real entre o Pai engendrar e espirar, do contrário o Pai se dividiria em duas Pessoas divinas pelo fato de engendrar e espirar. Ora, sabemos que o Pai se constitui enquanto Pai por aquilo que tem de subsistente incomunicável, ou seja, pela Paternidade e se só o Pai é Espirador, e a espiração se opõe à geração, como querem os focinianos, então o Pai será um subsistente incomunicável em relação à Filiação e subsistente incomunicável também em relação à Espiração passiva, com efeito, estaria dividido em duas Pessoas divinas, o que repugna. Mas, como ensinam todos os teólogos, o Pai se constitui como uma só Pessoa e, no entanto, é Paternidade e Espiração Ativa ao mesmo tempo. Portanto, se segue que a geração e a espiração não podem ser relações opositivas, pois se o termo sujeito da processão que é a geração eterna (ou seja, a Paternidade) pode ser realmente idêntico ao termo sujeito da relação que é a espiração (ou seja, a Espiração ativa), então as duas relações não podem ser opositivas, caso em que o Filho pode ser Filho e Espirador (e não só pode, mas deve...).

 

β Sobre as fórmulas ex Filio & per Filium

 

Por fim, no que diz respeito à fórmula a Patre per Filium, usada por notáveis teólogos Orientais, como São Cirilo de Alexandria, São Máximo, o Confessor, e São João Damasceno, devemos dizer que é correta e adequada, desde que não seja vista indicativa de uma doutrina intermédia sobre a processão do Espírito Santo, uma terceira opção em comparação a quem usa “procede do Pai e do Filho” e quem usa “procede do Pai”. Pensar assim seria incorrer em engano. É que, segundo a nossa compreensão, a fórmula que traz per Filium diz o mesmo que a fórmula Filioque, conquanto com uma ênfase na relação opositiva da Paternidade como sendo o Princípio das demais relações. É assim que a fórmula é correta e adequada, se com ela quisermos indicar que a Pessoa do Pai é o Princípio que não procede de nenhum outro Princípio, mas é errônea se com ela quisermos indicar que a processão do Espírito Santo é uma processão mediata, ou seja, que se dá proximamente pelo Filho e só remotamente pelo Pai, vez que isso implicaria na existência de um duplo princípio na processão do Espírito Santo, o que não podemos admitir sob todas as luzes, visto que apareceria, na Santíssima Trindade, uma quarta Pessoa, o que é herético e delirante.

 

Portanto, o Espírito Santo deve proceder com igual imediatez do Pai e do Filho, pois ambos são o mesmo Princípio do Espírito Santo, a mesma Espiração Ativa, e só se pode falar corretamente acerca da Espiração ativa do Espírito Santo em termos mediatos se considerarmos o Pai e o Filho como relações opositivas de origem, ou seja, se considerarmos que entre o Pai e o Filho se dá uma relação de oposição por onde o Pai é ingênito e não-principiado, mas o Filho é gerado e principiado pelo Pai. Ou seja, o Pai, que não é originado, gera o Filho, e o Filho, que é originado, espira o Espírito Santo. Com efeito, aqueles que espiram, enquanto relações de oposição, são Espiradores segundo modos diversos, porque o Pai é o Princípio do Espírito Santo sem ter origem, e o Filho, que é o mesmo Princípio do Espírito Santo com o Pai (a mesma Espiração Ativa com o Pai), tem origem no Pai enquanto relação de oposição. Assim sendo, só há mediatez no sentido de a Pessoa do Pai, enquanto Pai, ser o Princípio do Filho, e só depois, enquanto Princípio Espirador, ser Princípio do Espírito Santo. Mas aqui não se trata de uma mediação na própria emanação do Espírito Santo. É por isso, aliás, que o Filho pode, juntamente com o Pai, ser um só Princípio de espiração (spiratio activa), porque o Pai espira o Espírito Santo (spiratio passiva), porque o Pai espira o Espírito Santo não enquanto se constitui como Pai, mas como Princípio Espirador, o que não se opõe, repita-se pela milésima vez, à espiração pelo Filho.

 

(BEZERRA, Leandro. Do Verbo Encarnado: Cristologia Segundo o Tomismo Escolástico. Brasília: Ed. do Autor, 2023, pp. 372-374; destaques do autor)

 

A fórmula dogmática da definição florentina, que diz “[procede do Pai e do Filho] como de um mesmo Princípio”: 1) não pretende negar que o Pai é o Princípio e a Fonte de toda a Trindade (“monarquia”); 2) pretende justamente negar que o Filho seja um outro [um segundo] Princípio do Espírito Santo!

A triadologia tomista (de base agostiniano-boeciana): 1) não considera – na sua lógica interna – que a “espiração comum” seja uma propriedade hipostática ou um ato comum da essência – Santo Tomás fala de “dois espirantes” e “uma espiração”, e mantém, como propriedades hipostáticas, a paternidade, a filiação e a processão (espiração passiva no Espírito Santo); 2) não pretende – em sua lógica – confundir, com a “espiração comum”, as Pessoas do Pai e do Filho numa só realidade – de modo análogo a como a geração do Filho e a espiração/processão do Espírito pelo Pai não o divide em duas realidades; 3) não entende a “relação” como a categoria (“acidente”) aristotélica, mas como o conceito, desenvolvido na teologia latina (Santo Agostinho, Boécio) de “relação transcendental”, equivalente à essência como um “referir-se absolutamente a”.

É possível que a declaração (explicativa) florentina tenha alguma insuficiência (equívoco?), ao explicar que “Princípio”, em relação ao Filho, deva ser entendido como aitía. Mas a interpretação como “duas causas” é insustentável e autocontraditória! Se a fórmula quer expressar 1 só Princípio, então não poderiam ser 2... Trata-se de entender como a principalidade própria do Pai é participada ao Filho na comum espiração do Espírito Santo (para atender ao que seria justo na teologia grega). E de como sem esta participação não se pode distinguir a geração da processão ou o Filho e o Espírito Santo mais do que nominalmente (para atender a um aspecto que a teologia grega não vislumbrou). Para o católico, esta participação está de algum modo significada no através do/pelo Filho”       dos Padres gregos pré-cisma; mas ela parece “mais” do que o “manifestar” o Espírito ou o “repousar do” Espírito (sobre o Filho).

Para um diálogo teológico frutuoso – além da mera comunicação de doutrinas estabelecidas –, ambos os lados teriam de ceder. Pelo lado católico: a) flexibilização da declaração florentina explicativa (que para a teologia católica do magistério não goza da mesma infalibilidade da fórmula da definição, mesmo estando no bojo do Decreto); b) melhor conceituação da “espiração comum” (ekporeiestai + proienai?), revisando a ideia do “amor do Pai e do Filho”. Pelo lado ortodoxo: a) sobretudo chegar a admitir que o Filho possa ter uma principialidade participada na origem do Espírito Santo (isto é praticamente todo o problema); b) e assim relativizar a importância de sua triadologia e magistério oficial pós-cisma.

 

"Santíssima Trindade" (1620), de Hendrick van Balen

As analogias trinitárias e o Filioque

 

A analogia da Trindade com o “Pensamento”, a “Palavra” e o “Sopro” – analogia fundamental, pois bíblica – favorece o Filioque. “Pensamento” aí é o “pensar” do Pai – que não se distingue da Pessoa do Pai –, enquanto “Palavra” é o “Pensado”. “Sopro” e “hálito” não se distinguiriam de “voz”, porque esta implica propagação física como os primeiros.  E “Palavra” (Logos) seria mais exatamente o “conceito” enquanto imagem ou palavra intelectual inefável (pré-judicativa), verbo cordial, que é o objeto primordial da inteligência. “Sopro” é voz manifestativa, é o vento impetuoso ou a brisa suave das teofanias, é o amor ardente de Jesus na Ceia e seu último suspiro na Cruz, o fogo purificador, é o “gemido inefável” dos fiéis...

Obviamente, em Deus não há movimento temporal, não há distância reflexiva entre o pensar e o afirmar, não há locução física (silente ou vocalizada pra fora). É uma analogia. Numa mente infinita e eterna, inteligir é simultaneamente apreender e afirmar amorosamente tudo sobre o apreendido, sem movimento abstrativo, judicativo e raciocinante. Assim, a Palavra é o Pensamento (Pensado) ou Verbo inefável da mente do Pai e o Sopro é o Espírito que é exalado do coração do Pai junto com o Pensamento, e retorna ao coração junto do Pensamento, na medida em que a Imagem é ratificada pelo Espírito da Verdade. A dinâmica (eterna) do Espírito é a dinâmica do juízo enquanto ato simultâneo do intelecto que afirma a identidade do Pensante e do Pensado e do coração que depõe a fruição amorosa do Amante no Amado.

Em Deus, o Pai, intelecto e coração (vontade enquanto afeto intelectual) são uma só coisa (e são a essência divina), mas no mistério da intencionalidade do Pai [Fonte e Origem da Trindade], a Verdade e o Amor são outras duas Pessoas divinas! De modo que haveria uma indiferença entre origem e manifestação eternas: pelo pensar do Pai, a origem do Espírito é o Pai, porque Ele procede pela Imagem do Pai (o Espírito é Espírito do Pai); pelo amar do Pai, a origem é também (e [co]principalmente) o Filho, porque Ele procede (eternamente) para a Imagem do Pai enquanto é objeto do seu amar (o Espírito é Espírito do Filho).

 

* * *

 

Quando o Pai intelige a Si, Ele gera o Filho e o conhece como sua Verdade (Imagem) e também como seu Bem amabilíssimo; amando o Filho, seu amar é proceder o Espírito Santo, conhecido como Dom de si para o Filho, Dom amabilíssimo como o Filho.

Quando o Filho Se intelige, Ele conhece que é a Imagem/Verdade do Pai, ou que o Pai é a Realidade do qual Ele é Imagem (a Luz da qual Ele é o Reflexo); amando o Pai, seu amar é proceder participativamente o Espírito Santo [enquanto é Fim do amor paterno, pois o Bem é a causa do amor], conhecido como amabilíssimo como o Pai. Para o Filho, as outras duas Pessoas são: a Realidade correlata da sua intelecção, e o Dom do Pai que seu coração devolve gratamente.

Quando o Pai ama o Filho e lhe dá o Espírito, ama o Espírito ao lhe dar o Filho como Amigo; quando o Filho ama o Pai e lhe devolve gratamente o Espírito, ama o Espírito ao lhe dar o Pai como Amigo. Assim, o Espírito é o Amigo condileto do Pai e do Filho.

Quando o Espírito Santo se intelige, sua intelecção é a visão de que Ele é o Selo (autenticador) do Pai sobre o Filho, e o Dom pelo qual o Pai se compraz no Filho e o Filho é grato ao Pai. Quando o Espírito Santo ama o Filho, conhece-O como Verdade amabilíssima do Pai e retorna amorosamente ao Pai, conhecido como Realidade amabilíssima da Verdade. Para o Espírito Santo, as outras duas Pessoas são a Verdade e a Realidade amabilíssimas de sua intelecção, e seu amor é entreter-se com ambas.

Em suma, o inteligir e o amar das Pessoas Divinas é sempre o da Essência Divina desde a “perspectiva” (sic) das Pessoas. O primeiro inteligir e o primeiro amar, do Pai, inauguram o mistério da Trindade. Seguem-nos os das outras duas Pessoas. Sempre é um inteligir a Essência Divina desde Si e amá-la em Outro por Outro e com Outro.

Ó mistério de Eterno Amor! Louvado seja, pelos séculos dos séculos, o Deus Uno e Trino!

 

A modo de conclusão: o conhecimento e amor trinitários e a pessoa humana

 

O Pai “Se” conhecer é gerar imediatamente o Filho. Não podemos imaginar que o Pai “primeiro olha pra Si” e “depois”, então, “gera sua Imagem ou Verbo”. Não! O Pai se conhece diretamente no Filho, gera diretamente o Verbo “só pelo fato”, por assim dizer, de ser Deus – ainda que o saibamos apenas pela Revelação. O Pai “Se conhecer” é gerar e ver-Se no Filho.

Nem podemos imaginar que, “depois”, o Pai “considera que o Filho é Deus” e então faz proceder o Espírito Santo como Dom de Amor Infinito ou Divino. Não! O Pai ama diretamente procedendo o Espírito Santo “só pelo fato” de ser Deus e gerar o Filho – sabemo-lo por Revelação.O Pai se conhece, portanto, diretamente no Filho [com o Espírito] – e com o Filho, no Espírito.

Nem o Filho “Se” conhece como Deus e “depois”, então, “Se compara” com o Pai e vê que é Filho ou que foi gerado. Não! O Filho se conhece diretamente no Pai [com o Espírito] – e no Espírito, com o Pai.

Nem o Espírito Santo “Se" conhece como Deus e “depois”, então, “se percebe como ‘meio’ (sic) de intelecção e amor do Pai e do Filho”. Não! O Espírito Santo se conhece diretamente no Filho com o Pai e no Pai com o Filho.

 

* * *

 

Os atos divinos intratrinitários e pessoais estão incursos nas relações, e as relações não supõem os “relatos”, como se “primeiro” (logicamente) existisse o Pai, “depois” o Filho e “então” o Pai conhecesse o Filho e, “ainda depois”, o amasse procedendo o Espírito. Ou como se o Filho “primeiro” existisse (sic) – “depois”  (logicamente) do Pai – e “então” conhecesse o Pai e, “ainda depois”, amasse-O procedendo por participação o mesmo Espírito com o que é amado (por ser o Amado ou Fim do amar paterno). Ou como se o Espírito “primeiro” existisse – “depois” (logicamente) do Pai e do Filho – e “então” conhecesse e amasse o Pai e o Filho.

As Relações são a Vida Eterna da Essência divina [a Vida que é a Essência Divina], tal como manifesta desde a visão beatífica de Cristo (e dos santos na glória), e como vislumbrada pela teologia e a mística dos cristãos. A Vida da Essência Divina é, em e por si mesma, Vida interpessoal ou trinitária, tal como a Revelação e a pureza do coração permitem ver: “Deus é Amor”.

Não se trata de um amor interpessoal segundo uma analogia com a relação “eu-tu” das individualidades psico-orgânicas. Tais relações sempre supõem as individualidades (psico-orgânicas) já existentes, as quais, “então”, entram em relação (categorial ou “acidental”).É preciso pensar no “Eu” pessoal das relações amorosas formalmente espirituais do “amor ao próximo como a si mesmo” [fundado no amor a Deus sobre todas as coisas]. Este “Eu” não é “eu” de um “tu” [não são dois indivíduos da espécie animal racional e política marcada pela separação da condição caída], mas é “Eu” de outro “Eu” pessoal, ou seja, se coloca na perspectiva do outro, “vê com os olhos do outro”, ou então “se vê no outro” (como na “pericórese” ou “circumincessão” trinitária).

Não é o “Eu [Sujeito/Consciência] transcendental” da filosofia idealista moderna nem a “Humanidade” do positivismo e da maçonaria, nem o “Homem Novo” do socialismo: isto são sucedâneos baratos do dito acima. Nem sequer é a “condição búdica” universal latente que implica uma “compaixão universal”: este amor é um amor superior da condição psico-orgânica caída que não pode superar tal condição positivamente.

O “Eu” pessoal é a mesmíssima realidade do indivíduo animal racional, porém realmente elevado sobre a “carne” ou justificada [ideal próprio do ser humano enquanto tal, porém de fato inalcançável sem a Graça; ideal regulador no Antigo Testamento], que reconhece a mesma natureza humana não só no que ela tem de “miséria”, mas na sua vocação comunitária interpessoal, onde todos têm os bens materiais a serviço de todos e cada qual é respeitado como “outro de si” em sua dignidade espiritual.

Neste sentido, a pessoa humana, em seu “Eu” profundo, não “começa” sendo um ego psico-orgânico e “então” entra em relação com os demais egos. Ela é em e desde si mesma – uma condição que só pode ser aprendida pela Revelação e a educação e adquirida pela Graça e a virtude, porque em nossa condição de fato não vivemos ordinariamente ou por nós mesmos “desde o nosso ser pessoal” – alguém “vertido” aos demais enquanto outros “Eus” (mesmo quando os demais não querem amar reciprocamente ou não vivem na dimensão deste “Eu”).

Nenhum comentário: