A paradoxal necessidade da Caridade
Trinitária
Conhecida a Revelação,
vislumbra-se com a inteligência contemplativa, além das clássicas analogias
psicológicas de Santo Agostinho, a necessidade amorosa da Santíssima Trindade e
a ordem das Pessoas, como viu Ricardo de São Vítor. O Pai gera necessariamente
o Filho, porque a Caridade é o que há de mais excelente e divino, e é
interpessoal, exigindo uma Segunda Pessoa Divina, para ser plena, digna de
Deus.
Da Caridade do Pai pelo Filho e
do Filho pelo Pai procede necessariamente o Espírito Santo, como Amigo
condileto, porque o Amor perfeito e sobreabundante das duas primeiras Pessoas
divinas exige ser testemunhado por e compartilhado com Outrem igualmente Perfeito.
São Três Coeternos, mas esta é a
ordem exigida pela Revelação da Caridade e a distinção das propriedades
hipostáticas: o Monarca, o Herdeiro imediato e o Co-Herdeiro imediato e
mediato.
Assim como o Espírito testemunha
e se compraz no Amor do Pai e do Filho, o Pai testemunha e se compraz no Amor
do Filho e do Espírito, e o Filho testemunha e se compraz no Amor do Pai e do
Espírito.
Dos Três não procede uma quarta
pessoa divina (e assim ao infinito: de quatro, a quinta, etc.). Sabemo-lo pela
Revelação, e pela conveniência teológica: a Trindade já “encerra”
suficientemente a unipluralidade da paradoxal Caridade supersubstancial,
totalmente livre e necessariamente emanada da Fonte e Origem da Trindade, que é
o Pai (Caridade que nos livra e nos constrange).
O Espírito Santo é, na Trindade, a Pessoa Dom,
de tal modo que, se a propriedade hipostática do Pai implica o transbordamento
infinito, e a do Filho, a gratidão perfeita, a do Espírito implica um paradoxal
e positivo “não” desejar nada para Si, mas o atribuir toda a Glória ao Pai e ao
Filho, uma vontade de “diminuir” (da qual aquela de São João Batista e de todos
os santos é uma imitação), prorrompendo em infinitos e eternos louvores ao Nome
inefável de Deus.
Tais louvores são os “Nomes Divinos”, cada
qual manifestando aspectualmente a Infinitude Divina. Tais “Nomes” (ou “Ideias”)
não são outras infinitas pessoas divinas, mas são as infinitas “glórias” (ou “luzes”
incriadas) pelas quais as criaturas intelectuais poderão ver a Deus por toda a
Eternidade; as infinitas “línguas de fogo” pelas quais os Profetas e os
Apóstolos falaram em nome de Deus; as infinitas “águas” ou graças que jorram
desde o seio do fiel batizado; e ainda as infinitas
“boas obras” (“energias”) preparadas para os santos desde a Eternidade.
A processão do Espírito Santo e o
Filioque
Segundo Santo Tomás, na S.Th. I, q.36, a.2:
Es
obligatorio decir que el Espíritu procede del Hijo. Pues, si no procediera de
El, de ninguna manera podría distinguirse personalmente de El. [...]
[...] si en el Hijo y en el Espíritu Santo no se encontraran más que dos
relaciones con las que cada uno se relacionara con el Padre, dichas relaciones
no serían opuestas entre sí; como tampoco lo serían aquellas con las que el
Padre se relaciona con ellas. Por eso, así como la persona del Padre es una,
así también se seguiría que la persona del Hijo y del Espíritu Santo sería una,
teniendo dos relaciones opuestas a las dos relaciones del Padre. Esto es
herético y anula el contenido de la fe en la Trinidad. Por lo tanto, es
necesario que el Hijo y el Espíritu Santo estén relacionados entre sí con
relaciones opuestas.
[...] en Dios no puede haber más
relaciones opuestas que las relaciones de origen. Y las relaciones opuestas de
origen lo son por el principio y por lo que emana del principio. Por lo tanto,
hay que decir o que el Hijo procede del Espíritu Santo, y esto no lo sostiene
nadie; o que el Espíritu Santo procede del Hijo, y esto es lo que nosotros
confesamos. Esto está en armonía con el concepto de procesión de ambos. Se dijo
(q.27 a.2 y 4; q.28
a.4), que el
Hijo procede intelectualmente como Palabra. El Espíritu Santo procede
voluntariamente como amor. Y es necesario que el amor proceda de la Palabra;
pues nada amamos si antes no lo hemos albergado en nuestra mente concibiéndolo.
Resulta evidente así y por eso que el Espíritu Santo procede del Hijo.
[...] los mismos Griegos
entiendan que la procesión del Espíritu Santo guarde alguna relación con el
Hijo. Pues admiten que el Espíritu Santo es Espíritu del Hijo y
que procede del Padre por el Hijo. Algunos de ellos admiten
incluso que es del Hijo y que emana de El: sin embargo, no
admiten que proceda. Y esto se debe, al parecer, o a la
ignorancia o a la insolencia. Porque, si se pensara correctamente, se podría
dar uno cuenta de que entre todas las palabras que indican origen, la más
extendida es procesión. Pues la utilizamos para indicar, cualquier origen: como
del punto procede la línea; del sol, el rayo; de la fuente, el arroyo. Y lo
mismo en otras muchas cosas. Concluyendo: De cualquier palabra referida al
origen, puede deducirse que el Espíritu Santo procede del Hijo.
Sobre
a processão do Pai e do/pelo Filho, explica Leandro Bezerra:
α Como de um só Princípio
[...]
Fócio argumenta em sua Mistagogia [...] que o Espírito Santo não precisa proceder
do Filho para ser realmente distinto d’Ele, uma vez que só o fato de o Filho
proceder do Pai por geração, mas o Espírito Santo proceder por espiração, já
seria suficiente para distingui-los realmente entre si. Portanto, seria supérfluo
dizer que o Espírito Santo procede do Filho.
Resposta: O argumento de Fócio supõe que a geração se opõe à espiração, pois
supõe que, pelo fato do Filho ser gerado, mas não espirado, então podemos
concluir que o mesmo se distingue realmente do Espírito realmente do Filho.
Portanto, o Filho e o Espírito Santo se distinguem entre si por uma suposta
relação de oposição entre a geração e a espiração.
No entanto, devemos dizer que tal raciocínio é
errôneo, e os próprios seguidores de Fócio o admitem implicitamente, pois
admitem que não há oposição real entre o Pai engendrar e espirar, do contrário
o Pai se dividiria em duas Pessoas divinas pelo fato de engendrar e espirar.
Ora, sabemos que o Pai se constitui enquanto Pai por aquilo que tem de subsistente
incomunicável, ou seja, pela Paternidade e se só o Pai é Espirador, e a
espiração se opõe à geração, como querem os focinianos, então o Pai será um
subsistente incomunicável em relação à Filiação e subsistente incomunicável
também em relação à Espiração passiva, com efeito, estaria dividido em duas
Pessoas divinas, o que repugna. Mas, como ensinam todos os teólogos, o Pai se
constitui como uma só Pessoa e, no entanto, é Paternidade e Espiração Ativa ao
mesmo tempo. Portanto, se segue que a geração e a espiração não podem ser
relações opositivas, pois se o termo sujeito da processão que é a geração
eterna (ou seja, a Paternidade) pode ser realmente idêntico ao termo sujeito da
relação que é a espiração (ou seja, a Espiração ativa), então as duas relações
não podem ser opositivas, caso em que o Filho pode ser Filho e Espirador (e não
só pode, mas deve...).
β Sobre as fórmulas ex Filio & per Filium
Por fim, no que diz respeito à fórmula a Patre
per Filium, usada por notáveis teólogos Orientais, como São Cirilo de
Alexandria, São Máximo, o Confessor, e São João Damasceno, devemos
dizer que é correta e adequada, desde que não seja vista indicativa de uma
doutrina intermédia sobre a processão do Espírito Santo, uma terceira opção em
comparação a quem usa “procede do Pai e do Filho” e quem usa “procede do Pai”.
Pensar assim seria incorrer em engano. É que, segundo a nossa compreensão, a
fórmula que traz per Filium diz o mesmo que a fórmula Filioque,
conquanto com uma ênfase na relação opositiva da Paternidade como sendo o
Princípio das demais relações. É assim que a fórmula é correta e adequada,
se com ela quisermos indicar que a Pessoa do Pai é o Princípio que não procede
de nenhum outro Princípio, mas é errônea se com ela quisermos indicar que a
processão do Espírito Santo é uma processão mediata, ou seja, que se dá proximamente
pelo Filho e só remotamente pelo Pai, vez que isso implicaria na
existência de um duplo princípio na processão do Espírito Santo, o que não
podemos admitir sob todas as luzes, visto que apareceria, na Santíssima
Trindade, uma quarta Pessoa, o que é herético e delirante.
Portanto, o Espírito Santo deve proceder com igual
imediatez do Pai e do Filho, pois ambos são o mesmo Princípio do Espírito
Santo, a mesma Espiração Ativa, e só se pode falar corretamente acerca da
Espiração ativa do Espírito Santo em termos mediatos se considerarmos o Pai e o
Filho como relações opositivas de origem, ou seja, se considerarmos que entre o
Pai e o Filho se dá uma relação de oposição por onde o Pai é ingênito e
não-principiado, mas o Filho é gerado e principiado pelo Pai. Ou seja, o Pai,
que não é originado, gera o Filho, e o Filho, que é originado, espira o
Espírito Santo. Com efeito, aqueles que espiram, enquanto relações de oposição,
são Espiradores segundo modos diversos, porque o Pai é o Princípio do Espírito
Santo sem ter origem, e o Filho, que é o mesmo Princípio do Espírito Santo com
o Pai (a mesma Espiração Ativa com o Pai), tem origem no Pai enquanto relação
de oposição. Assim sendo, só há mediatez no sentido de a Pessoa do Pai,
enquanto Pai, ser o Princípio do Filho, e só depois, enquanto Princípio
Espirador, ser Princípio do Espírito Santo. Mas aqui não se trata de uma
mediação na própria emanação do Espírito Santo. É por isso, aliás, que o
Filho pode, juntamente com o Pai, ser um só Princípio de espiração (spiratio
activa), porque o Pai espira o Espírito Santo (spiratio passiva),
porque o Pai espira o Espírito Santo não enquanto se constitui como Pai, mas
como Princípio Espirador, o que não se opõe, repita-se pela milésima vez, à
espiração pelo Filho.
(BEZERRA, Leandro. Do Verbo Encarnado:
Cristologia Segundo o Tomismo Escolástico. Brasília: Ed. do Autor, 2023, pp.
372-374; destaques do autor)
A fórmula dogmática da definição
florentina, que diz “[procede do Pai e do Filho] como de um mesmo Princípio”: 1)
não pretende negar que o Pai é o Princípio e a Fonte de toda a Trindade (“monarquia”);
2) pretende justamente negar que o Filho seja um outro [um segundo] Princípio
do Espírito Santo!
A triadologia tomista (de base
agostiniano-boeciana): 1) não considera – na sua lógica interna – que a “espiração
comum” seja uma propriedade hipostática ou um ato comum da essência – Santo Tomás
fala de “dois espirantes” e “uma espiração”, e mantém, como propriedades
hipostáticas, a paternidade, a filiação e a processão (espiração passiva no
Espírito Santo); 2) não pretende – em sua lógica – confundir, com a “espiração
comum”, as Pessoas do Pai e do Filho numa só realidade – de modo análogo a como
a geração do Filho e a espiração/processão do Espírito pelo Pai não o divide em
duas realidades; 3) não entende a “relação” como a categoria (“acidente”)
aristotélica, mas como o conceito, desenvolvido na teologia latina (Santo Agostinho,
Boécio) de “relação transcendental”, equivalente à essência como um “referir-se
absolutamente a”.
É possível que a declaração
(explicativa) florentina tenha alguma insuficiência (equívoco?), ao explicar
que “Princípio”, em relação ao Filho, deva ser entendido como aitía. Mas
a interpretação como “duas causas” é insustentável e autocontraditória! Se a
fórmula quer expressar 1 só Princípio, então não poderiam ser 2... Trata-se de
entender como a principalidade própria do Pai é participada ao Filho na comum espiração
do Espírito Santo (para atender ao que seria justo na teologia grega). E de
como sem esta participação não se pode distinguir a geração da processão ou o
Filho e o Espírito Santo mais do que nominalmente (para atender a um aspecto
que a teologia grega não vislumbrou). Para o católico, esta participação está
de algum modo significada no através do/pelo Filho” dos Padres gregos pré-cisma; mas
ela parece “mais” do que o “manifestar” o Espírito ou o “repousar do” Espírito
(sobre o Filho).
Para um diálogo teológico
frutuoso – além da mera comunicação de doutrinas estabelecidas –, ambos os
lados teriam de ceder. Pelo lado católico: a) flexibilização da declaração
florentina explicativa (que para a teologia católica do magistério não goza da
mesma infalibilidade da fórmula da definição, mesmo estando no bojo do
Decreto); b) melhor conceituação da “espiração comum” (ekporeiestai +
proienai?), revisando a ideia do “amor do Pai e do Filho”. Pelo lado
ortodoxo: a) sobretudo chegar a admitir que o Filho possa ter uma
principialidade participada na origem do Espírito Santo (isto é praticamente
todo o problema); b) e assim relativizar a importância de sua triadologia e
magistério oficial pós-cisma.
As analogias trinitárias e o Filioque
A analogia da Trindade com o “Pensamento”,
a “Palavra” e o “Sopro” – analogia fundamental, pois bíblica – favorece o
Filioque. “Pensamento” aí é o “pensar” do Pai – que não se distingue da Pessoa
do Pai –, enquanto “Palavra” é o “Pensado”. “Sopro” e “hálito” não se
distinguiriam de “voz”, porque esta implica propagação física como os
primeiros. E “Palavra” (Logos)
seria mais exatamente o “conceito” enquanto imagem ou palavra intelectual
inefável (pré-judicativa), verbo cordial, que é o objeto primordial da
inteligência. “Sopro” é voz manifestativa, é o vento impetuoso ou a brisa suave
das teofanias, é o amor ardente de Jesus na Ceia e seu último suspiro na Cruz,
o fogo purificador, é o “gemido inefável” dos fiéis...
Obviamente, em Deus não há
movimento temporal, não há distância reflexiva entre o pensar e o afirmar, não
há locução física (silente ou vocalizada pra fora). É uma analogia. Numa mente
infinita e eterna, inteligir é simultaneamente apreender e afirmar amorosamente
tudo sobre o apreendido, sem movimento abstrativo, judicativo e raciocinante. Assim,
a Palavra é o Pensamento (Pensado) ou Verbo inefável da mente do Pai e o Sopro
é o Espírito que é exalado do coração do Pai junto com o Pensamento, e retorna
ao coração junto do Pensamento, na medida em que a Imagem é ratificada pelo
Espírito da Verdade. A dinâmica (eterna) do Espírito é a dinâmica do juízo
enquanto ato simultâneo do intelecto que afirma a identidade do Pensante e do
Pensado e do coração que depõe a fruição amorosa do Amante no Amado.
Em Deus, o Pai, intelecto e
coração (vontade enquanto afeto intelectual) são uma só coisa (e são a essência
divina), mas no mistério da intencionalidade do Pai [Fonte e Origem da
Trindade], a Verdade e o Amor são outras duas Pessoas divinas! De modo que
haveria uma indiferença entre origem e manifestação eternas: pelo pensar do
Pai, a origem do Espírito é o Pai, porque Ele procede pela Imagem do
Pai (o Espírito é Espírito do Pai); pelo amar do Pai, a origem é
também (e [co]principalmente) o Filho, porque Ele procede (eternamente) para
a Imagem do Pai enquanto é objeto do seu amar (o Espírito é Espírito do
Filho).
* * *
Quando o Pai intelige a Si, Ele
gera o Filho e o conhece como sua Verdade (Imagem) e também como seu Bem
amabilíssimo; amando o Filho, seu amar é proceder o Espírito Santo, conhecido
como Dom de si para o Filho, Dom amabilíssimo como o Filho.
Quando o Filho Se intelige, Ele
conhece que é a Imagem/Verdade do Pai, ou que o Pai é a Realidade do qual Ele é
Imagem (a Luz da qual Ele é o Reflexo); amando o Pai, seu amar é proceder
participativamente o Espírito Santo [enquanto é Fim do amor paterno, pois o Bem
é a causa do amor], conhecido como amabilíssimo como o Pai. Para o Filho, as
outras duas Pessoas são: a Realidade correlata da sua intelecção, e o Dom do
Pai que seu coração devolve gratamente.
Quando o Pai ama o Filho e lhe
dá o Espírito, ama o Espírito ao lhe dar o Filho como Amigo; quando o Filho ama
o Pai e lhe devolve gratamente o Espírito, ama o Espírito ao lhe dar o Pai como
Amigo. Assim, o Espírito é o Amigo condileto do Pai e do Filho.
Quando o Espírito Santo se
intelige, sua intelecção é a visão de que Ele é o Selo (autenticador) do Pai
sobre o Filho, e o Dom pelo qual o Pai se compraz no Filho e o Filho é grato ao
Pai. Quando o Espírito Santo ama o Filho, conhece-O como Verdade amabilíssima
do Pai e retorna amorosamente ao Pai, conhecido como Realidade amabilíssima da
Verdade. Para o Espírito Santo, as outras duas Pessoas são a Verdade e a
Realidade amabilíssimas de sua intelecção, e seu amor é entreter-se com ambas.
Em suma, o inteligir e o amar
das Pessoas Divinas é sempre o da Essência Divina desde a “perspectiva” (sic)
das Pessoas. O primeiro inteligir e o primeiro amar, do Pai, inauguram o
mistério da Trindade. Seguem-nos os das outras duas Pessoas. Sempre é um
inteligir a Essência Divina desde Si e amá-la em Outro por Outro e com Outro.
Ó mistério
de Eterno Amor! Louvado seja, pelos séculos dos séculos, o Deus Uno e Trino!
A modo de conclusão: o
conhecimento e amor trinitários e a pessoa humana
O Pai “Se” conhecer é gerar
imediatamente o Filho. Não podemos imaginar que o Pai “primeiro olha pra Si” e “depois”,
então, “gera sua Imagem ou Verbo”. Não! O Pai se conhece diretamente no Filho,
gera diretamente o Verbo “só pelo fato”, por assim dizer, de ser Deus – ainda que
o saibamos apenas pela Revelação. O Pai “Se conhecer” é gerar e ver-Se no
Filho.
Nem podemos imaginar que, “depois”,
o Pai “considera que o Filho é Deus” e então faz proceder o Espírito Santo como
Dom de Amor Infinito ou Divino. Não! O Pai ama diretamente procedendo o
Espírito Santo “só pelo fato” de ser Deus e gerar o Filho – sabemo-lo por
Revelação.O Pai se conhece, portanto, diretamente no Filho [com o Espírito] – e
com o Filho, no Espírito.
Nem o Filho “Se” conhece como
Deus e “depois”, então, “Se compara” com o Pai e vê que é Filho ou que foi
gerado. Não! O Filho se conhece diretamente no Pai [com o Espírito] – e no
Espírito, com o Pai.
Nem o Espírito Santo “Se"
conhece como Deus e “depois”, então, “se percebe como ‘meio’ (sic) de
intelecção e amor do Pai e do Filho”. Não! O Espírito Santo se conhece
diretamente no Filho com o Pai e no Pai com o Filho.
* * *
Os atos divinos intratrinitários
e pessoais estão incursos nas relações, e as relações não supõem os “relatos”,
como se “primeiro” (logicamente) existisse o Pai, “depois” o Filho e “então” o
Pai conhecesse o Filho e, “ainda depois”, o amasse procedendo o Espírito. Ou
como se o Filho “primeiro” existisse (sic) – “depois” (logicamente) do Pai – e “então” conhecesse o
Pai e, “ainda depois”, amasse-O procedendo por participação o mesmo Espírito
com o que é amado (por ser o Amado ou Fim do amar paterno). Ou como se o
Espírito “primeiro” existisse – “depois” (logicamente) do Pai e do Filho – e “então”
conhecesse e amasse o Pai e o Filho.
As Relações são a Vida Eterna da
Essência divina [a Vida que é a Essência Divina], tal como manifesta desde a
visão beatífica de Cristo (e dos santos na glória), e como vislumbrada pela
teologia e a mística dos cristãos. A Vida da Essência Divina é, em e por si
mesma, Vida interpessoal ou trinitária, tal como a Revelação e a pureza do
coração permitem ver: “Deus é Amor”.
Não se trata de um amor
interpessoal segundo uma analogia com a relação “eu-tu” das individualidades
psico-orgânicas. Tais relações sempre supõem as individualidades
(psico-orgânicas) já existentes, as quais, “então”, entram em relação
(categorial ou “acidental”).É preciso pensar no “Eu” pessoal das relações
amorosas formalmente espirituais do “amor ao próximo como a si mesmo” [fundado
no amor a Deus sobre todas as coisas]. Este “Eu” não é “eu” de um “tu” [não são
dois indivíduos da espécie animal racional e política marcada pela separação da
condição caída], mas é “Eu” de outro “Eu” pessoal, ou seja, se coloca na
perspectiva do outro, “vê com os olhos do outro”, ou então “se vê no outro” (como
na “pericórese” ou “circumincessão” trinitária).
Não é o “Eu [Sujeito/Consciência]
transcendental” da filosofia idealista moderna nem a “Humanidade” do
positivismo e da maçonaria, nem o “Homem Novo” do socialismo: isto são
sucedâneos baratos do dito acima. Nem sequer é a “condição búdica” universal
latente que implica uma “compaixão universal”: este amor é um amor superior da
condição psico-orgânica caída que não pode superar tal condição positivamente.
O “Eu” pessoal é a mesmíssima
realidade do indivíduo animal racional, porém realmente elevado sobre a “carne”
ou justificada [ideal próprio do ser humano enquanto tal, porém de fato
inalcançável sem a Graça; ideal regulador no Antigo Testamento], que reconhece
a mesma natureza humana não só no que ela tem de “miséria”, mas na sua vocação
comunitária interpessoal, onde todos têm os bens materiais a serviço de todos e
cada qual é respeitado como “outro de si” em sua dignidade espiritual.
Neste sentido, a pessoa humana,
em seu “Eu” profundo, não “começa” sendo um ego psico-orgânico e “então” entra
em relação com os demais egos. Ela é em e desde si mesma – uma condição que só
pode ser aprendida pela Revelação e a educação e adquirida pela Graça e a
virtude, porque em nossa condição de fato não vivemos ordinariamente ou por nós
mesmos “desde o nosso ser pessoal” – alguém “vertido” aos demais enquanto
outros “Eus” (mesmo quando os demais não querem amar reciprocamente ou não
vivem na dimensão deste “Eu”).

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