A noite
passiva do espírito
Fé,
contemplação escura e despojamento
Pela noite dos sentidos, sabemos que chega
um momento em que a alma perde o gosto pelas práticas espirituais e por todas
as coisas terrenas; deve ser conduzida à escuridão e ao vazio total,
apegando-se à Fé. A Fé lhe coloca o Cristo pobre, humilhado, crucificado e
abandonado na cruz pelo próprio divino Pai. Na pobreza e abandono de Cristo, a
alma reconhece sua própria situação: aridez de espírito, repugnância e trabalho
extenuante são a “pura cruz espiritual” que lhe é oferecida.
A cruz lhe servirá de cajado para conduzi-la ao
cume da montanha. Ao reconhecer que Cristo, em sua extrema humilhação e
aniquilamento na cruz, realizou a maior das obras – a reconciliação da
humanidade com Deus –, a alma compreenderá que o aniquilamento, sensitivo e
espiritual, há de conduzi-la à união com Deus. Como Cristo se entregou nas mãos
do Pai, a alma deve entrar nas trevas da fé, o único caminho para Deus,
participando assim da contemplação mística, “lampejo na escuridão”,
sabedoria secreta de Deus, conhecimento obscuro e geral: o único que condiz com
o Deus incompreensível que ofusca a razão e lhe parece trevas.
Mesmo após longo exercício na vida espiritual, a
alma se acha ainda cheia de imperfeições e necessita de grande purificação para
estar apta à união. A purificação não é somente noite, é também pena e
tormento, por duas razões: a sublimidade da Sabedoria divina, e a
impureza e baixeza da alma. Na contemplação, Deus lhe aperta e tritura a
substância espiritual, mergulhando-a em profunda escuridão, que a alma se sente
dissolvendo. Parece que foi abandonada e é detestada por Deus. Deus humilha a
alma para depois elevá-la. Às vezes, parece que a alma está no inferno, ou
desce viva à mansão dos mortos.
A
contemplação deixa a alma em tão grande solidão e abandono a ponto de ela não
poder encontrar consolo nem apoio em qualquer doutrina ou mestre espiritual, [...]
parece-lhe que os outros não veem o que ela vê e sente, dizendo aquilo sem
compreendê-la. [...] enquanto o Senhor não terminar de purificá-la, conforme
Ele o queira fazer, nenhum remédio lhe serve de alívio na dor. Isso há de durar
até que o espírito seja suave, humilde e purificado e se torne tão sutil,
simples e delicado que possa unir-se ao Espírito de Deus, no grau de união
amorosa que a misericórdia divina quiser conceder” (STEIN,
Edith. A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo: Loyola,
1988, p. 107).
Essa purificação geralmente
demora anos, ainda que com interrupções. Então a alma pensa que os sofrimentos
terminaram para sempre, como antes se pensou que não acabariam. Mas pode voltar
às dores, embora o espírito não se modifique. Com a inibição das energias,
nesse estado penoso, a alma cessa de elevar o coração e o espírito a Deus, na
oração, como antes fazia. E quando ora, o faz tão sem força que lhe parece que
Deus não a ouve. Esse é o momento de calar-se e humilhar-se, suportando com
paciência a purificação. Deus é quem age passivamente na alma; ela nada pode,
nem rezar, nem assistir com atenção ao culto divino, tampouco às demais coisas
e negócios temporais. Quanto mais pura for a luz divina que entra na alma,
tanto mais a deixa obscurecida, esvaziada e aniquilada. Mas quando a luz
espiritual encontra na alma onde refletir, então se a vê muito mais claramente
do que antes de entrar na escuridão. Essa luz faz com que a alma conheça e
penetre com grande facilidade e universalidade qualquer coisa superior ou
inferior que se lhe apresente (cf. Ibid., pp. 108-109).
A vontade também deve ser purificada e destruída,
para chegar, pela união de amor, àquele amor inteiramente puro, que transcende
qualquer tendência ou sentimento naturais da vontade. Esta terá de ser deixada
em aridez e angústia. A memória deve ficar livre, a capacidade sensível deve
interiorizar-se e afinar-se ao abandono de todas as coisas. Essa noite tira
o espírito do seu modo ordinário de perceber as coisas para conduzi-lo ao modo
divino, alheio ao humano proceder.
Inflamada
em amor e transformação
A alma se livra das imperfeições por meio de um
processo de abrasamento: o amor é o fogo que faz a alma incandescer e arder sem
cessar. Pela purificação escura, a alma estará especialmente preparada
para a união. A purificação da alma pelo fogo espiritual do amor, intenso e
tenebroso, prepara-a para a o amor e a graça de Deus. É a luz da Sabedoria
divina. Algumas vezes, a mística e amorosa Sabedoria de Deus, além de inflamar
a vontade, também toca e ilumina a razão, dando-lhe certos conhecimentos e
luzes divinos. Crer pode aí significar voltar-se para a realidade de Deus, à
parte de qualquer verdade de Fé (cf. p. 114).
Antes de a contemplação ser percebida pela
inteligência como conhecimento, ela é experimentada pela vontade como amor. A
capacidade receptiva da inteligência só pode receber o conhecimento de modo
puro e passivo, o que não poderia fazer sem estar purificada; por isso, a alma
sente menos o toque da inteligência do que a paixão do amor. E para isso não é
preciso que a vontade esteja tão purificada das paixões, pois estas ajudam a
sentir o amor apaixonado. Essa inflamação de amor, por vir do Espírito Santo, é
diferente da mencionada na noite dos sentidos: agora ela é percebida
pelo espírito, embora com a participação dos sentidos. Todos os sofrimentos
sensíveis parecem nada, ainda que sejam maiores que na primeira noite dos
sentidos, pois a alma no íntimo nota a falta de um grande Bem que não pode
ser comparado com nenhum outro. Pelos sofrimentos da noite do espírito, a
alma renova sua juventude, como a da águia (cf. Sl 102, 5). A inteligência
humana, pela iluminação sobrenatural, torna-se divina; o mesmo se dá com a
vontade, unida à divina vontade e ao divino amor, e com a memória, toda
transformada e renovada por Deus.
Todos os erros da alma costumam ser provocados
pelas suas tendências, gostos, raciocínios. Impedidas essas operações e
movimentos, a alma fica assegurada contra seus erros. As faculdades do
espírito, enquanto não purificadas, só conseguem receber as coisas
sobrenaturais de modo comum e natural. É preciso que sejam purificadas e
aniquiladas, para que percam esse modo humano de agir, e fiquem dispostas para
receberem, sentirem e fruírem o que é divino.
Deus a conduz como a um cego. No sofrimento a alma
recebe força de Deus (quando age e goza mostra suas fraquezas e imperfeições).
A alma vai se purificando e tornando-se mais cautelosa e sábia. A causa
principal da segurança é a própria sabedoria escura. Ela está sob a
proteção da face de Deus contra as conspirações dos homens (cf. Sl 30, 21). “A
alma logo há de notar em si a firme resolução de jamais fazer algo que
reconheça ofender a Deus e de nada omitir daquilo em que julga poder
prestar-lhe serviço” (Ibid., pp. 117-118).
A sabedoria
mística é secreta por ser
misteriosamente infundida por Deus; e porque tem a propriedade de esconder a
alma em si, envolver e absorver a alma em seu abismo secreto que a faz ver
claramente como está extremamente afastada e distante de toda criatura. A alma
fica em profunda e vasta solidão, onde não pode chegar nenhuma criatura humana,
bebendo nas fontes da ciência e do amor.
Por essa secreta
contemplação, sem saber como, a alma sobe e se apossa dos bens e tesouros do
céu. Como na escada os degraus servem para subir e descer, nesta secreta
contemplação, as mesmas comunicações que elevam a Deus humilham a alma em si
mesmo. Nesse caminho, a alma está sujeita a altos e baixos; à prosperidade
segue-se sempre alguma tempestade ou aflição. Parece ter sido dada à alma tal
bonança para preveni-la e robustecê-la para a penúria seguinte. Após a miséria
e o tormento, segue-se a abundância e a tranquilidade (cf. p. 119).
Está-se sempre a subir e
a descer. A causa disso é que o estado de perfeição consiste no perfeito amor a
Deus e o desprezo de si mesmo; dessa forma, não pode deixar de ter essas duas
partes, o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo. Portanto, a alma
há de primeiro ser exercitada num e noutro, sendo por Deus humilhada até que se
habitue perfeitamente a essas duas espécies de conhecimento. Cessará esse subir
e descer, chegando enfim à união com Deus.
A escada secreta
É a “contemplação escura”.
A contemplação é “escada” principalmente porque é “ciência” de amor,
conhecimento infuso e amoroso de Deus, que vai ilustrando e enamorando a alma,
até elevá-la, de grau em grau, ao Deus Criador.
1º degrau do amor: faz a alma adoecer em seu próprio bem. A alma
morre para o pecado e para todas as coisas que não são Deus. 2º degrau do
amor: faz a alma buscar incessantemente a Deus. 3º degrau do amor: estimula
a alma a agir e lhe dá calor, para que não desfaleça; a alma considera pequenas
as obras heroicas que possa fazer pelo Amado, escassas, as numerosas, e breve o
longo tempo em que O serve; por causa do incêndio
de amor em que vai ardendo; se fosse possível
aniquilar-se mil vezes por Deus, ela ficaria consolada; ela torna-se convicta
de que é pior que todas as outras almas. 4º degrau do amor: causa na
alma um habitual “suportar sem fatigar-se”. O amor faz com que as coisas
grandes e pesadas nada lhe pareçam. O espírito tem muita força e mantém a carne
sob domínio. Nem deseja pedir favores a Deus, pois vê que já os recebeu em
abundância. Só se preocupa em verificar como poderá servir a Deus pelo que ele
merece em agradecimento às Suas misericórdias. 5º degrau do amor: faz a
alma desejar e cobiça a Deus impacientemente; seu único pensamento é o de
encontrar o Amado. 6º degrau do amor: a alma corre ligeiramente para
Deus e com frequência sente sua proximidade. Grande dilatação da caridade,
quase completo o processo de purificação. 7º degrau do amor: as almas
alcançam de Deus tudo quanto lhes apraz pedir. 8º degrau do amor: a alma
apodera-se do Amado e a Ele se une. 9º degrau do amor: perfeitos, que
ardem no amor de Deus com muita suavidade. Ardor cheio de doçura e deleite,
produzido pelo Espírito Santo em razão da união com Deus. 10º e último degrau
da escada secreta do amor: já não mais pertence a esta vida (visão
beatífica) (cf. pp. 120-122).
O disfarce da alma
Protege a alma contra seus adversários, o demônio,
o mundo e a carne. A Fé é uma túnica interior de excelsa
brancura, que ofusca a vista de qualquer inteligência; o demônio não vê
a alma, nem ousa prejudicá-la. A Esperança é o gibão verde, com o
qual a alma se liberta e se defende do mundo; tudo que é terreno lhe
parece “murcho, seco, morto e sem valor”, comparado à Vida Eterna; a alma se
despoja de todos os trajes do mundo, só olhando para Deus e alcançando tudo o
que espera. O Amor é a toga vermelho-viva, com a qual a
alma fica amparada e escondida da carne, porque onde existe o verdadeiro amor a
Deus não cabe o amor a si mesmo ou aos seus próprios interesses (cf. pp.
122-124).
A Fé esvazia
e obscurece a inteligência de todos os seus conhecimentos naturais, dispondo à
união com a Sabedoria divina; a Esperança esvazia e afasta a memória de
toda a posse de criaturas e a põe naquilo que espera; a Caridade esvazia
e aniquila as inclinações e tendências da vontade por qualquer coisa que não
seja Deus e as põe somente nEle.
A escuridão permitiu à alma caminhar protegida das
ciladas do demônio, porque toda a comunicação infusa é comunicada secretamente
à alma, sem sua colaboração. É somente por meio das faculdades sensíveis que o
demônio percebe e compreende o que há na alma. Quanto mais espiritual, menos a
comunicação será inteligível ao demônio. Na venturosa noite, a alma foi
agraciada com a contemplação solitária e secreta, incompreensível à parte
sensível, imperturbável (cf. pp. [aqui o
tratado da Noite Escura é interrompido].

Nenhum comentário:
Postar um comentário