12.6.25

A Ciência da Cruz - 3a parte

 

A noite passiva do espírito

 

Fé, contemplação escura e despojamento

 

Pela noite dos sentidos, sabemos que chega um momento em que a alma perde o gosto pelas práticas espirituais e por todas as coisas terrenas; deve ser conduzida à escuridão e ao vazio total, apegando-se à Fé. A Fé lhe coloca o Cristo pobre, humilhado, crucificado e abandonado na cruz pelo próprio divino Pai. Na pobreza e abandono de Cristo, a alma reconhece sua própria situação: aridez de espírito, repugnância e trabalho extenuante são a “pura cruz espiritual” que lhe é oferecida.

A cruz lhe servirá de cajado para conduzi-la ao cume da montanha. Ao reconhecer que Cristo, em sua extrema humilhação e aniquilamento na cruz, realizou a maior das obras – a reconciliação da humanidade com Deus –, a alma compreenderá que o aniquilamento, sensitivo e espiritual, há de conduzi-la à união com Deus. Como Cristo se entregou nas mãos do Pai, a alma deve entrar nas trevas da fé, o único caminho para Deus, participando assim da contemplação mística, “lampejo na escuridão”, sabedoria secreta de Deus, conhecimento obscuro e geral: o único que condiz com o Deus incompreensível que ofusca a razão e lhe parece trevas.

Mesmo após longo exercício na vida espiritual, a alma se acha ainda cheia de imperfeições e necessita de grande purificação para estar apta à união. A purificação não é somente noite, é também pena e tormento, por duas razões: a sublimidade da Sabedoria divina, e a impureza e baixeza da alma. Na contemplação, Deus lhe aperta e tritura a substância espiritual, mergulhando-a em profunda escuridão, que a alma se sente dissolvendo. Parece que foi abandonada e é detestada por Deus. Deus humilha a alma para depois elevá-la. Às vezes, parece que a alma está no inferno, ou desce viva à mansão dos mortos.

 

A contemplação deixa a alma em tão grande solidão e abandono a ponto de ela não poder encontrar consolo nem apoio em qualquer doutrina ou mestre espiritual, [...] parece-lhe que os outros não veem o que ela vê e sente, dizendo aquilo sem compreendê-la. [...] enquanto o Senhor não terminar de purificá-la, conforme Ele o queira fazer, nenhum remédio lhe serve de alívio na dor. Isso há de durar até que o espírito seja suave, humilde e purificado e se torne tão sutil, simples e delicado que possa unir-se ao Espírito de Deus, no grau de união amorosa que a misericórdia divina quiser conceder” (STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo: Loyola, 1988, p. 107).

 

Essa purificação geralmente demora anos, ainda que com interrupções. Então a alma pensa que os sofrimentos terminaram para sempre, como antes se pensou que não acabariam. Mas pode voltar às dores, embora o espírito não se modifique. Com a inibição das energias, nesse estado penoso, a alma cessa de elevar o coração e o espírito a Deus, na oração, como antes fazia. E quando ora, o faz tão sem força que lhe parece que Deus não a ouve. Esse é o momento de calar-se e humilhar-se, suportando com paciência a purificação. Deus é quem age passivamente na alma; ela nada pode, nem rezar, nem assistir com atenção ao culto divino, tampouco às demais coisas e negócios temporais. Quanto mais pura for a luz divina que entra na alma, tanto mais a deixa obscurecida, esvaziada e aniquilada. Mas quando a luz espiritual encontra na alma onde refletir, então se a vê muito mais claramente do que antes de entrar na escuridão. Essa luz faz com que a alma conheça e penetre com grande facilidade e universalidade qualquer coisa superior ou inferior que se lhe apresente (cf. Ibid., pp. 108-109).

A vontade também deve ser purificada e destruída, para chegar, pela união de amor, àquele amor inteiramente puro, que transcende qualquer tendência ou sentimento naturais da vontade. Esta terá de ser deixada em aridez e angústia. A memória deve ficar livre, a capacidade sensível deve interiorizar-se e afinar-se ao abandono de todas as coisas. Essa noite tira o espírito do seu modo ordinário de perceber as coisas para conduzi-lo ao modo divino, alheio ao humano proceder.

 

Inflamada em amor e transformação

 

A alma se livra das imperfeições por meio de um processo de abrasamento: o amor é o fogo que faz a alma incandescer e arder sem cessar. Pela purificação escura, a alma estará especialmente preparada para a união. A purificação da alma pelo fogo espiritual do amor, intenso e tenebroso, prepara-a para a o amor e a graça de Deus. É a luz da Sabedoria divina. Algumas vezes, a mística e amorosa Sabedoria de Deus, além de inflamar a vontade, também toca e ilumina a razão, dando-lhe certos conhecimentos e luzes divinos. Crer pode aí significar voltar-se para a realidade de Deus, à parte de qualquer verdade de Fé (cf. p. 114).

Antes de a contemplação ser percebida pela inteligência como conhecimento, ela é experimentada pela vontade como amor. A capacidade receptiva da inteligência só pode receber o conhecimento de modo puro e passivo, o que não poderia fazer sem estar purificada; por isso, a alma sente menos o toque da inteligência do que a paixão do amor. E para isso não é preciso que a vontade esteja tão purificada das paixões, pois estas ajudam a sentir o amor apaixonado. Essa inflamação de amor, por vir do Espírito Santo, é diferente da mencionada na noite dos sentidos: agora ela é percebida pelo espírito, embora com a participação dos sentidos. Todos os sofrimentos sensíveis parecem nada, ainda que sejam maiores que na primeira noite dos sentidos, pois a alma no íntimo nota a falta de um grande Bem que não pode ser comparado com nenhum outro. Pelos sofrimentos da noite do espírito, a alma renova sua juventude, como a da águia (cf. Sl 102, 5). A inteligência humana, pela iluminação sobrenatural, torna-se divina; o mesmo se dá com a vontade, unida à divina vontade e ao divino amor, e com a memória, toda transformada e renovada por Deus.

Todos os erros da alma costumam ser provocados pelas suas tendências, gostos, raciocínios. Impedidas essas operações e movimentos, a alma fica assegurada contra seus erros. As faculdades do espírito, enquanto não purificadas, só conseguem receber as coisas sobrenaturais de modo comum e natural. É preciso que sejam purificadas e aniquiladas, para que percam esse modo humano de agir, e fiquem dispostas para receberem, sentirem e fruírem o que é divino.

Deus a conduz como a um cego. No sofrimento a alma recebe força de Deus (quando age e goza mostra suas fraquezas e imperfeições). A alma vai se purificando e tornando-se mais cautelosa e sábia. A causa principal da segurança é a própria sabedoria escura. Ela está sob a proteção da face de Deus contra as conspirações dos homens (cf. Sl 30, 21). “A alma logo há de notar em si a firme resolução de jamais fazer algo que reconheça ofender a Deus e de nada omitir daquilo em que julga poder prestar-lhe serviço” (Ibid., pp. 117-118).

A sabedoria mística é secreta por ser misteriosamente infundida por Deus; e porque tem a propriedade de esconder a alma em si, envolver e absorver a alma em seu abismo secreto que a faz ver claramente como está extremamente afastada e distante de toda criatura. A alma fica em profunda e vasta solidão, onde não pode chegar nenhuma criatura humana, bebendo nas fontes da ciência e do amor.

Por essa secreta contemplação, sem saber como, a alma sobe e se apossa dos bens e tesouros do céu. Como na escada os degraus servem para subir e descer, nesta secreta contemplação, as mesmas comunicações que elevam a Deus humilham a alma em si mesmo. Nesse caminho, a alma está sujeita a altos e baixos; à prosperidade segue-se sempre alguma tempestade ou aflição. Parece ter sido dada à alma tal bonança para preveni-la e robustecê-la para a penúria seguinte. Após a miséria e o tormento, segue-se a abundância e a tranquilidade (cf. p. 119).

Está-se sempre a subir e a descer. A causa disso é que o estado de perfeição consiste no perfeito amor a Deus e o desprezo de si mesmo; dessa forma, não pode deixar de ter essas duas partes, o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo. Portanto, a alma há de primeiro ser exercitada num e noutro, sendo por Deus humilhada até que se habitue perfeitamente a essas duas espécies de conhecimento. Cessará esse subir e descer, chegando enfim à união com Deus.

 

A escada secreta

 

É a “contemplação escura”. A contemplação é “escada” principalmente porque é “ciência” de amor, conhecimento infuso e amoroso de Deus, que vai ilustrando e enamorando a alma, até elevá-la, de grau em grau, ao Deus Criador.

1º degrau do amor: faz a alma adoecer em seu próprio bem. A alma morre para o pecado e para todas as coisas que não são Deus. 2º degrau do amor: faz a alma buscar incessantemente a Deus. 3º degrau do amor: estimula a alma a agir e lhe dá calor, para que não desfaleça; a alma considera pequenas as obras heroicas que possa fazer pelo Amado, escassas, as numerosas, e breve o longo tempo em que O serve; por causa do incêndio de amor em que vai ardendo; se fosse possível aniquilar-se mil vezes por Deus, ela ficaria consolada; ela torna-se convicta de que é pior que todas as outras almas. 4º degrau do amor: causa na alma um habitual “suportar sem fatigar-se”. O amor faz com que as coisas grandes e pesadas nada lhe pareçam. O espírito tem muita força e mantém a carne sob domínio. Nem deseja pedir favores a Deus, pois vê que já os recebeu em abundância. Só se preocupa em verificar como poderá servir a Deus pelo que ele merece em agradecimento às Suas misericórdias. 5º degrau do amor: faz a alma desejar e cobiça a Deus impacientemente; seu único pensamento é o de encontrar o Amado. 6º degrau do amor: a alma corre ligeiramente para Deus e com frequência sente sua proximidade. Grande dilatação da caridade, quase completo o processo de purificação. 7º degrau do amor: as almas alcançam de Deus tudo quanto lhes apraz pedir. 8º degrau do amor: a alma apodera-se do Amado e a Ele se une. 9º degrau do amor: perfeitos, que ardem no amor de Deus com muita suavidade. Ardor cheio de doçura e deleite, produzido pelo Espírito Santo em razão da união com Deus. 10º e último degrau da escada secreta do amor: já não mais pertence a esta vida (visão beatífica) (cf. pp. 120-122).

 

O disfarce da alma

 

Protege a alma contra seus adversários, o demônio, o mundo e a carne. A é uma túnica interior de excelsa brancura, que ofusca a vista de qualquer inteligência; o demônio não vê a alma, nem ousa prejudicá-la. A Esperança é o gibão verde, com o qual a alma se liberta e se defende do mundo; tudo que é terreno lhe parece “murcho, seco, morto e sem valor”, comparado à Vida Eterna; a alma se despoja de todos os trajes do mundo, só olhando para Deus e alcançando tudo o que espera. O Amor é a toga vermelho-viva, com a qual a alma fica amparada e escondida da carne, porque onde existe o verdadeiro amor a Deus não cabe o amor a si mesmo ou aos seus próprios interesses (cf. pp. 122-124).

A esvazia e obscurece a inteligência de todos os seus conhecimentos naturais, dispondo à união com a Sabedoria divina; a Esperança esvazia e afasta a memória de toda a posse de criaturas e a põe naquilo que espera; a Caridade esvazia e aniquila as inclinações e tendências da vontade por qualquer coisa que não seja Deus e as põe somente nEle.

A escuridão permitiu à alma caminhar protegida das ciladas do demônio, porque toda a comunicação infusa é comunicada secretamente à alma, sem sua colaboração. É somente por meio das faculdades sensíveis que o demônio percebe e compreende o que há na alma. Quanto mais espiritual, menos a comunicação será inteligível ao demônio. Na venturosa noite, a alma foi agraciada com a contemplação solitária e secreta, incompreensível à parte sensível, imperturbável (cf. pp.  [aqui o tratado da Noite Escura é interrompido].




Nenhum comentário: