Síntese da
teologia mística do Doutor Seráfico
Introdução
Quando deixa Paris e se torna “sucessor de São Francisco” na Ordem,
Boaventura, que havia sido curado quando criança depois de um voto da mãe ao
Poverello de Assis, tem uma experiência espiritual transformadora no Monte
Alverne, e então escreve o Itinerário da mente para Deus.
Entre S. Boaventura e S. Agostinho há uma afinidade de gênios como
raramente acontece. Para um como para outro, “a visão cristã do mundo
expressa-se por uma compreensão unitária do saber e da vida, coroada por uma
leitura mística da existência” (DE BONI, Luis Alberto. “Apresentação” in: SÃO
BOAVENTURA, Brevilóquio. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 22). “A ideia de
uma unidade indivisível da sabedoria cristã é uma preocupação genuinamente
agostiniana, que Boaventura defende contra a nova compreensão aristotélica da
espiritualidade cristã” (RATZINGER, Joseph. La teologia de la historia de
San Buenaventura. Madrid: Encuentro, 2004, p. 201). Para Boaventura:
existe um saber único, a sapientia Cristiana, a cognitio fidelis, que supondo como base: a luz de nossa razão natural, se prolonga na luz da fé; dela deriva a especulação teológica, para terminar no êxtase da contemplação, como cume da única ascensão em diversas etapas (GONZALES CARDEDAL, Olegario. Misterio Trinitario y existência humana: Estudio histórico teológico em torno a San Buenaventura. Prólogo de Xavier Zubiri. Madrid: Rialp, 1965, p. 28).
O Itinerário
da mente a Deus
Prólogo
(razão do Itinerário):
Em busca da
paz, da plena serenidade da união com Deus, Boaventura retira-se para o Monte
Alverne e aí descobre os seis estádios que podem levar até o êxtase em Deus. Só
depois de longo exercício de oração, purificação e amor de Cristo é possível
entrar neste itinerário.
Capítulo I
As
criaturas são uma escada para Deus, seja o mundo externo, o mundo interno e o
mundo transcendente. Em cada um deles, Deus se manifesta em dois níveis,
segundo a profundidade de nosso exame: por meio dessas realidades ou nessas
realidades. Por meio delas são conhecidos os efeitos da ação
divina; nelas, mostra-se a própria atividade de Deus em
exercício, e atinge-se de algum modo a própria natureza divina. Os 3 setores
assim se desdobram em 6 grupos de considerações, objeto de cada um dos
capítulos.
Deus, pelos
vestígios: Nos seres materiais, o poder, a sabedoria e a bondade de Deus se
manifestam de 3 modos: pela ordem que rege o universo, pela finalidade que
preside à história humana, e pela gradação ascendente dos seres, que lançam o
espírito na direção do Infinito.
Capítulo II
– Deus, nos vestígios:
O conjunto
dos seres materiais é conhecido pelos nossos sentidos, através de atos de
apreensão, deleitação e adjudicação. Temos na apreensão uma analogia da geração
do Verbo pelo Pai; a deleitação sugere e explica como no Verbo, o conhecimento
supremo, está a plenitude da felicidade; finalmente, o juízo, pela
universalidade e valor absoluto de certas afirmações, mostra-nos que o seu
fundamento é Deus.
Capítulo
III – Deus, pela imagem:
O espírito,
imagem de Deus, inclui a memória, a inteligência e a vontade. A memória retém o
conhecimento dos princípios racionais imutáveis, sendo imagem da eternidade
divina. A inteligência, quando define até o fim um ente, ou quando vê a força
indestrutível de certas afirmações, é levada necessariamente a Deus, Verdade
que explica tais conhecimentos. A vontade, no ato de escolher um bem, supõe a
existência do Bem supremo, a plenitude da felicidade que ela busca em todos os
seus atos. Memória, inteligência e vontade refletem a vida trinitária: um
conhecimento, latente na memória, torna-se ideia explícita na inteligência, e
suscita imediatamente o amor.
Capítulo IV
– Deus, na imagem:
Cristo reparou a natureza humana, dando-lhe de novo
a graça e as virtudes teologais. “Por muito que alguém seja iluminado pela luz
da natureza e da ciência adquirida, não pode entrar em si, para em si próprio
se ‘deleitar no Senhor’, a não ser por meio de Cristo que diz: ‘Eu sou a
porta’”.
Neste
degrau, a alma dispõe-se para os êxtases mentais pela devoção, pela admiração e
pela exultação. O espírito fica “hierático”, isto é, purificado, iluminado e
plenificado. Para este degrau de contemplação concorre especial e
principalmente a consideração da Sagrada Escritura, divinamente comunicada,
como a Filosofia para o degrau anterior.
Os três
sentidos espirituais da Escritura: o tropológico, que purifica em ordem à
honestidade da vida; o alegórico, que ilumina em ordem ao esclarecimento da
inteligência; o anagógico, que plenifica mediante os arroubos mentais, e as
percepções suavíssimas da sabedoria.
Nossa
mente, repleta das luzes intelectuais, é habitada pela Sabedoria divina, como
morada de Deus; fica sendo sua filha, esposa e amiga; fica sendo membro da cabeça
que é Cristo, irmã d’Ele e coerdeira; fica igualmente sendo templo do Espírito
Santo – templo fundado pela fé, erguido pela esperança, e consagrado a Deus
pela santidade da mente e do coração.
Capítulo V
– Deus, pelo Ser:
Pode-se
contemplar a Deus não só fora de nós e dentro de nós, mas também acima de nós.
Deus é “aquele que é”. “O próprio Ser [ipsum esse]” é em si de tal
maneira certíssima, que não se pode pensar que não exista” [Retomada do
argumento ontológico, mas na sequência da prova agostiniana pela verdade]. O
próprio Ser, na sua máxima pureza, não se concebe senão por afastar totalmente o
não-ser. O Ser é aquilo que a inteligência primeiramente conhece. [Não conhece
diretamente, mas de modo implícito e dinâmico: só conhecemos as coisas
existentes porque há o Ser; Boaventura não defende o ontologismo, pois
segundo ele, nem o êxtase proporciona visão direta de Deus].
O Ser Puro
é sumamente uno (“Ouve, Israel...”), e Princípio universal de toda a
multiplicidade. “Está dentro de todas as coisas, mas não incluída; fora de
todas as coisas, mas não excluída; acima de todas as coisas, mas não
sobreerguida; e debaixo de todas as coisas, mas não subposta”.
Capítulo VI
– Deus, no Bem:
O mais
profundo e íntimo conhecimento de Deus vem pela consideração do bem. Deus é
necessariamente o Bem [o Amor], porque o Ser é o primeiro Bem, e a soma de
todos os bens. O Sumo Bem é sumamente difuso de si mesmo; tem de se dar no Sumo
Bem, desde toda a eternidade, a produção atual e consubstancial, e de hipóstase
tão nobre como a que a produza à maneira de geração e espiração.
Pela suma
comunicabilidade do Bem, tem de existir a Trindade do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo. Neles, em razão da Suma Bondade, é necessário existir a suma
comunicabilidade. Pela suma comunicabilidade, a suma consubstancialidade; pela
consubstancialidade, a suma configurabilidade.
Nossa mente
contempla em Cristo, Filho de Deus, a nossa humanidade tão maravilhosamente
exaltada, e tão inefavelmente unida à Divindade.
Capítulo
VII – O êxtase:
Atingido o cume sublime, o espírito humano nada
mais pode. Resta que Ele mesmo se revele, no silêncio e para além de todo o
conhecimento humano. A inteligência suspende-se “na treva” e apagam-se todas as
representações mentais. Fica o espírito, e nele, Deus e o amor. “É necessário
que se deixem todas as operações intelectivas, e que todo o ápice do amor se
transfira e se transforme em Deus”.
“Morramos pois e entremos na treva; imponhamos
silêncio às preocupações terrenas, às paixões e imaginações; passemos com
Cristo crucificado ‘deste mundo para o Pai’ [...]”

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