14.6.25

São Boaventura e o Itinerário da Mente a Deus

  

Síntese da teologia mística do Doutor Seráfico

 

Introdução

 

Quando deixa Paris e se torna “sucessor de São Francisco” na Ordem, Boaventura, que havia sido curado quando criança depois de um voto da mãe ao Poverello de Assis, tem uma experiência espiritual transformadora no Monte Alverne, e então escreve o Itinerário da mente para Deus.

Entre S. Boaventura e S. Agostinho há uma afinidade de gênios como raramente acontece. Para um como para outro, “a visão cristã do mundo expressa-se por uma compreensão unitária do saber e da vida, coroada por uma leitura mística da existência” (DE BONI, Luis Alberto. “Apresentação” in: SÃO BOAVENTURA, Brevilóquio. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 22). “A ideia de uma unidade indivisível da sabedoria cristã é uma preocupação genuinamente agostiniana, que Boaventura defende contra a nova compreensão aristotélica da espiritualidade cristã” (RATZINGER, Joseph. La teologia de la historia de San Buenaventura. Madrid: Encuentro, 2004, p. 201). Para Boaventura:

 

existe um saber único, a sapientia Cristiana, a cognitio fidelis, que supondo como base: a luz de nossa razão natural, se prolonga na luz da fé; dela deriva a especulação teológica, para terminar no êxtase da contemplação, como cume da única ascensão em diversas etapas (GONZALES CARDEDAL, Olegario. Misterio Trinitario y existência humana: Estudio histórico teológico em torno a San Buenaventura. Prólogo de Xavier Zubiri. Madrid: Rialp, 1965, p. 28).

  

O Itinerário da mente a Deus

 

Prólogo (razão do Itinerário):

 

Em busca da paz, da plena serenidade da união com Deus, Boaventura retira-se para o Monte Alverne e aí descobre os seis estádios que podem levar até o êxtase em Deus. Só depois de longo exercício de oração, purificação e amor de Cristo é possível entrar neste itinerário.

 

Capítulo I

 

As criaturas são uma escada para Deus, seja o mundo externo, o mundo interno e o mundo transcendente. Em cada um deles, Deus se manifesta em dois níveis, segundo a profundidade de nosso exame: por meio dessas realidades ou nessas realidades. Por meio delas são conhecidos os efeitos da ação divina; nelas, mostra-se a própria atividade de Deus em exercício, e atinge-se de algum modo a própria natureza divina. Os 3 setores assim se desdobram em 6 grupos de considerações, objeto de cada um dos capítulos.

Deus, pelos vestígios: Nos seres materiais, o poder, a sabedoria e a bondade de Deus se manifestam de 3 modos: pela ordem que rege o universo, pela finalidade que preside à história humana, e pela gradação ascendente dos seres, que lançam o espírito na direção do Infinito.

 

Capítulo II – Deus, nos vestígios:

 

O conjunto dos seres materiais é conhecido pelos nossos sentidos, através de atos de apreensão, deleitação e adjudicação. Temos na apreensão uma analogia da geração do Verbo pelo Pai; a deleitação sugere e explica como no Verbo, o conhecimento supremo, está a plenitude da felicidade; finalmente, o juízo, pela universalidade e valor absoluto de certas afirmações, mostra-nos que o seu fundamento é Deus.

 

Capítulo III – Deus, pela imagem:

 

O espírito, imagem de Deus, inclui a memória, a inteligência e a vontade. A memória retém o conhecimento dos princípios racionais imutáveis, sendo imagem da eternidade divina. A inteligência, quando define até o fim um ente, ou quando vê a força indestrutível de certas afirmações, é levada necessariamente a Deus, Verdade que explica tais conhecimentos. A vontade, no ato de escolher um bem, supõe a existência do Bem supremo, a plenitude da felicidade que ela busca em todos os seus atos. Memória, inteligência e vontade refletem a vida trinitária: um conhecimento, latente na memória, torna-se ideia explícita na inteligência, e suscita imediatamente o amor.


Capítulo IV – Deus, na imagem:

 

Cristo reparou a natureza humana, dando-lhe de novo a graça e as virtudes teologais. “Por muito que alguém seja iluminado pela luz da natureza e da ciência adquirida, não pode entrar em si, para em si próprio se ‘deleitar no Senhor’, a não ser por meio de Cristo que diz: ‘Eu sou a porta’”.

Neste degrau, a alma dispõe-se para os êxtases mentais pela devoção, pela admiração e pela exultação. O espírito fica “hierático”, isto é, purificado, iluminado e plenificado. Para este degrau de contemplação concorre especial e principalmente a consideração da Sagrada Escritura, divinamente comunicada, como a Filosofia para o degrau anterior.

Os três sentidos espirituais da Escritura: o tropológico, que purifica em ordem à honestidade da vida; o alegórico, que ilumina em ordem ao esclarecimento da inteligência; o anagógico, que plenifica mediante os arroubos mentais, e as percepções suavíssimas da sabedoria.

Nossa mente, repleta das luzes intelectuais, é habitada pela Sabedoria divina, como morada de Deus; fica sendo sua filha, esposa e amiga; fica sendo membro da cabeça que é Cristo, irmã d’Ele e coerdeira; fica igualmente sendo templo do Espírito Santo – templo fundado pela fé, erguido pela esperança, e consagrado a Deus pela santidade da mente e do coração.



Capítulo V – Deus, pelo Ser:

 

Pode-se contemplar a Deus não só fora de nós e dentro de nós, mas também acima de nós. Deus é “aquele que é”. “O próprio Ser [ipsum esse]” é em si de tal maneira certíssima, que não se pode pensar que não exista” [Retomada do argumento ontológico, mas na sequência da prova agostiniana pela verdade]. O próprio Ser, na sua máxima pureza, não se concebe senão por afastar totalmente o não-ser. O Ser é aquilo que a inteligência primeiramente conhece. [Não conhece diretamente, mas de modo implícito e dinâmico: só conhecemos as coisas existentes porque há o Ser; Boaventura não defende o ontologismo, pois segundo ele, nem o êxtase proporciona visão direta de Deus].

O Ser Puro é sumamente uno (“Ouve, Israel...”), e Princípio universal de toda a multiplicidade. “Está dentro de todas as coisas, mas não incluída; fora de todas as coisas, mas não excluída; acima de todas as coisas, mas não sobreerguida; e debaixo de todas as coisas, mas não subposta”.

 

Capítulo VI – Deus, no Bem:

 

O mais profundo e íntimo conhecimento de Deus vem pela consideração do bem. Deus é necessariamente o Bem [o Amor], porque o Ser é o primeiro Bem, e a soma de todos os bens. O Sumo Bem é sumamente difuso de si mesmo; tem de se dar no Sumo Bem, desde toda a eternidade, a produção atual e consubstancial, e de hipóstase tão nobre como a que a produza à maneira de geração e espiração.

Pela suma comunicabilidade do Bem, tem de existir a Trindade do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Neles, em razão da Suma Bondade, é necessário existir a suma comunicabilidade. Pela suma comunicabilidade, a suma consubstancialidade; pela consubstancialidade, a suma configurabilidade.

Nossa mente contempla em Cristo, Filho de Deus, a nossa humanidade tão maravilhosamente exaltada, e tão inefavelmente unida à Divindade.

 

Capítulo VII – O êxtase:

 

Atingido o cume sublime, o espírito humano nada mais pode. Resta que Ele mesmo se revele, no silêncio e para além de todo o conhecimento humano. A inteligência suspende-se “na treva” e apagam-se todas as representações mentais. Fica o espírito, e nele, Deus e o amor. “É necessário que se deixem todas as operações intelectivas, e que todo o ápice do amor se transfira e se transforme em Deus”.

“Morramos pois e entremos na treva; imponhamos silêncio às preocupações terrenas, às paixões e imaginações; passemos com Cristo crucificado ‘deste mundo para o Pai’ [...]”

 

"São Boaventura ingressando na Ordem Franciscana" (1628), 
de Francisco de Herrera, o Velho

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