Biografia
Lúlio era um homem casado e mundano. Diz ele:
“Apesar da ajuda que recebi dos anjos e das pregações dos religiosos, cheguei a
ser o pior dos homens e o maior pecador desta cidade e de todas as redondezas”
(Llibre de
contemplació, Cap.
XXXVII n. 26). Sofreu uma profunda conversão aos 30 anos, quando compunha rimas
para uma dama pela qual estava apaixonado e apareceu-lhe Cristo Crucificado
(que voltou a aparecer outras 4 vezes). Isto o moveu ao propósito de
entregar-se ao martírio e à conversão dos infiéis (muçulmanos).
Para cumprir seu propósito, ele aprendeu a
língua e filosofia árabes, estudou filosofia e teologia, e elaborou um método,
conhecido como “Arte” (foram várias versões), que, segundo ele, seria capaz de
convencer racionalmente os infiéis da verdade cristã. Quis mover o papa e
príncipes cristãos para a fundação de vários mosteiros onde fosse aprendida a
língua dos infiéis para o envio em missão. Aos 40 anos decide se dedicar
inteiramente à contemplação e retira-se para o monte Randa, em suas
propriedades perto de Mallorca, onde terá a “iluminação” pela qual é conhecido
como “Doutor Iluminado”.
No monte
Randa [...] Ramon Llull teve uma visão que mudaria para sempre sua forma de
pensar. Fazendo vida de eremita, apenas interrompida pela chegada dos serviçais
que lhe traziam comida, viu um jovem pastor que cuidava de um rebanho de
ovelhas. Bastou um breve aceno ao moço para que, num piscar de olhos, Ramon
compreendesse que a missão de sua vida era escrever o melhor livro escrito até
então, um livro tão potente cuja simples leitura faria convencer qualquer
descrente da verdade dos dogmas cristãos. [...] Mas a Arte não é um fim em si
mesmo. Lúlio não quer passar à posteridade apenas pelas suas ideias ou pelas
suas composições literárias. O que o move é servir a Deus. E a melhor maneira
de servi-Lo é promovendo a conversão dos gentios (M. BUADES, Josep. Doutor Iluminado: Guia Introdutório à vida e obra de Raimundo Lulio [Ramon
Llull] [Portuguese Edition] [p. 39]. Edição do Kindle).
Sua esposa não suportava seu estilo de vida e
eles então se separam. Passa alguns anos ensinando línguas e sua “Arte”, para a
conversão dos infiéis. O Papa João XXI (o lisboeta e lógico Pedro Hispano)
aprovou sua obra em 1276. Entre 1283 e 1285 escreveu sua obra Blanquerna, romance autobiográfico, onde “traça uma
reforma completa da Igreja e apresenta na pessoa de Blanquerna o ideal do
matrimônio cristão, as normas de educação dos filhos e as figuras do monge, do
bispo e até do papa” (ESTEVE, Jaulent. Raimundo Lúlio: Um único pensamento e um único amor [Portuguese Edition]. Instituto Brasileiro
de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" [Ramon Llull]. Edição do
Kindle). Menciona a renúncia de Blanquerna ao papado, o que parece ser uma
alusão a Celestino V. No Blanquerna encontra-se
a importante parte mística O livro do Amigo e do Amado.
Em 1288 é autorizado a ensinar a Arte na Universidade de Paris. Não tem boa
acolhida, mas ao conhecer o averroísmo latino e sua tese da “dupla verdade”,
começa a lutar com todas as forças contra essa heresia. Em seu desejo do
martírio, vai a Gênova, onde, aos 60 anos, passa por sua maior crise
espiritual: teme ser assassinado pelos sarracenos ou ser preso perpetuamente.
Sofre escrúpulos e quase se desespera, mas parte para Tunis em 1293. Discute
com os sábios na rua, é preso e expulso. Em 1301, no Chipre, é acolhido pelos
Templários. Se, a princípio, pensava que a conversão deveria sempre ser um ato
de liberdade, por essa época começou a pensar que, com a recusa do diálogo
pelos adversários, a Cristandade teria o direito de obrigá-los (ao diálogo)
pela força. Depois embarcará para Bugia, na Argélia, onde começa a pregar nas
ruas que a lei de Maomé é falsa e a ensinar sobre as razões da Santíssima
Trindade ao mufi da cidade. Fica preso por 6 meses, é expulso, naufraga perto
de Pisa.
O Concílio de Vienne (1311-1312) atende
alguns dos seus pedidos: decreta que os Hospitalários promovam a cruzada e
erige as cátedras de árabe, grego, hebraico e caldeu nas universidades de
Paris, Oxford, Bolonha e Salamanca. Em 1314 volta a Tunis, prega nas ruas, e
redige novas obras. Vai depois a Bugia, onde é apedrejado pela multidão, e fica
meio morto e abandonado. Recolhido por genoveses que voltavam à Europa, morre
no navio, já próximo de sua Mallorca, nos inícios de 1316.
Lúlio, ao
longo dos anos, esforçou-se por purificar sua sabedoria a fim de que, limpa de
todo erro ou ignorância, unificasse, num simples olhar, toda a verdade
cognoscível. Ao mesmo tempo, seus inúmeros trabalhos, lutas e afãs, parecendo
multidão, na realidade refletem apenas uma só coisa: um amor puro e empenhado,
Lúlio foi um homem simples que viveu de um único pensamento e de um único amor
(JAULENT, op. cit).
O papa Pio IX concedeu a Lúlio, em 1847,
culto próprio e as honras de Bem-aventurado (Beato).
A “Arte”
As
diversas “Artes” constituem um único projeto epistemológico:
o
estabelecimento de uma nova ciência, universal, inexistente na ordo scientiarum escolástica, que possibilitaria a solução das
graves anomalias que o seu autor detectava na ciência escolástico-aristotélica,
antes de tudo, a sua inaplicabilidade à argumentação em favor dos conteúdos dos
artigos da fé cristã, mas também a sua impotência para fundamentar todas as
ciências sobre bases sólidas e concordes com esses conteúdos (RUIZ SIMON, Josep Maria. A Arte de Raimundo Lúlio e a teoria
escolástica da Ciência. Tradução
de Fernando Salles. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência
“Raimundo Lúlio”, 2004, p. 23).
Sua “arte” tinha
como objetivo “provar a existência da Santíssima Trindade, tanto em Deus como
em toda a criação” (COSTA, Ricardo da; PARDO PASTOR, Jordi. “Ramon Llull
(1232-1316) e o diálogo inter-religioso. Cristãos, judeus e muçulmanos na cultura ibérica medieval”.
Disponível em: https://www.ricardocosta.com/artigo/ramon-llull-1232-1316-e-o-dialogo-inter-religioso-cristaos-judeus-e-muculmanos-na-cultura).
Um dos tópicos mais importantes da Arte é a abordagem das contradições aparentes e a
“teoria dos pontos transcendentes”. A contradição aparente ou não-existente
aparece devido: 1) à altura ou dificuldade do objeto e 2) à limitação da
potência cognoscitiva, incapaz de alcançar por suas próprias forças a realidade
desse objeto. E desaparece quando o entendimento alcança a verdade – a
realidade – do objeto, superando a aparente contradição que leva à dúvida. A
superação produz-se: a) quando o intelecto transcende as potências inferiores
(os sentidos e a imaginação) que o arrastam para a contradição, e encontra em
si mesmo, e segundo sua própria natureza, a verdade; ou b) quando o
entendimento se transcende a si mesmo e, por cima das suas possibilidades,
alcança uma verdade relativa às realidades superiores (cf. RUIZ SIMON, op. cit., pp 130-131).
A gnosiologia de Lúlio inclui o conhecimento
pela via do excessus mentis, que S.
Boaventura assim havia definido: “uma forma excessiva de conhecer, não na qual
o conhecedor excede o que é conhecido, mas na qual o conhecedor é levado para
dentro do objeto... elevando-se acima de si mesmo” (Questiones disputatae de scientia Christi). O lugar clássico da descrição desse modo
de conhecimento é a primeira parte do capítulo VII dos Nomes Divinos de S. Dionísio Areopagita:
Embora a
nossa inteligência tenha a capacidade intelectiva de captar as realidades inteligíveis, não obstante a união que nos permite alcançar aquilo que
nos supera esteja muito acima da natureza da nossa inteligência.
Conformando-nos a essa união, pois, é como havemos de pensar a divindade.
Sobre a demonstrabilidade dos artigos de Fé,
estão associados à dialética de cunho platônico que Raimundo Lúlio assume no
lugar da dialética escolástico-aristotélica: para
Lúlio, o homem – fiel ou infiel – tende naturalmente ao conhecimento de Deus. Mas
isto não significa que o intelecto possa atingi-lo por suas próprias forças. A
fé é a condição de possibilidade do conhecimento dos artigos, mas o
entendimento que crê adquire esse conhecimento exercendo a atividade que lhe é
própria: a fé permitiria que o entendimento possa entender naturalmente aquilo
que o excede. O Espírito Santo permite que o entendimento humano entenda aquilo
que o excede. Mas esta inteleção é realizada pelo intelecto “naturalmente”.
Porque nessa intelecção, os artigos de fé não ocupam o lugar de principia per se nota, mas, primeiramente, o de suposições, e,
depois, o de conclusões (como na dialética de Platão).
* * *
Gostaria de fazer duas observações a respeito das ideias gnosiológicas
de Lúlio. Primeiramente, deve ficar claro que, embora o conhecimento teológico
ou possibilitado pela fé faça com que a inteligência conheça desde seus “próprios
poderes” intensificados pela luz da Revelação, isto não é suficiente para
garantir que a transmissão intelectual das verdades de fé será capaz de
convencer o interlocutor (destas verdades) somente pela razoabilidade da
argumentação, senão que esta (razoabilidade) deverá suscitar um ato germinal de
fé no ouvinte. Em segundo lugar, o conhecimento místico ou pelo excessus mentis é uma elevação da inteligência a uma condição
estritamente sobrenatural, isto é, não só quanto ao conhecimento de um conteúdo
advindo da Revelação, mas, sobretudo, quanto ao próprio modo de conhecer, unido
a Deus (podemos dizer que é o que os manuais de teologia espiritual – ou teologia
mística e ascética – chamam de “contemplação infusa”).
A Mística
Ao estudar o islamismo, Lúlio teve contato
com o sufismo. Os sufis tinham desenvolvido técnicas de concentração que lhes
permitiriam, supostamente, um contato direto com Deus:
Ibn Arabi
foi um dos principais pensadores sufistas. Em seus escritos concluiu que ao
conhecimento pode chegar-se por duas vias paralelas e compatíveis: a via lenta
da razão, a qual, passo a passo, avança para conclusões cada vez mais
complexas; e a via rápida da iluminação, com a que Deus nos transmite toda a
sabedoria humana no mesmo breve instante que uma centelha demora para iluminar
o céu. O misticismo luliano não é apenas fruto de experiências
extra-sensoriais. Ramon Llull deveu conhecer e estudar (ou pelo menos assim se
desprende da leitura de seus textos) a obra de Ibn Arabi, considerado um dos
pais do sufismo (M. BUADES, op. cit., p. 40).
Ibn Arabi também influenciou a ideia de Lúlio, de que as grandes religiões monoteístas tinham uma base comum, entre outras coisas, pelos atributos que assignam à Divindade:
o sábio
árabe reconhece que o Alcorão bebe da mesma tradição religiosa dos outros povos
do Livro. Inclusive, chega a afirmar que aquilo em que os judeus e cristãos
acreditam é para eles tão verdadeiro quanto o que os muçulmanos creem
baseando-se no Alcorão. Palavras sem dúvida revolucionárias para um século XIII
marcado pelas guerras de religião e cujo relativismo cultural possivelmente
tenha influenciado na escrita do Livro do gentio e dos três sábios
(1274-83). Porém – e essa é uma grande diferença entre os dois pensadores –,
enquanto para Lúlio esta unidade de base das três religiões monoteístas tem de
conduzir necessariamente para uma unificação de todos os credos no cristianismo
(o único que o maiorquino considera plenamente verdadeiro), Ibn Arabi adota uma
postura mais próxima dos valores que dominam na nossa época, ou seja, os de um
multiculturalismo que prega a coexistência pacífica de todas as fés e culturas,
sem impor a superioridade de umas sobre as outras (Ibid., pp. 40-41).
* * *
Outras observações, agora a respeito da
teologia mística e “ecumênica” de Lúlio. Em primeiro lugar, Lúlio não parece distinguir
o que Garrigou-Lagrange chamou de “pré-mística natural” (em que pela vida virtuosa,
a devoção religiosa, através de técnicas de relaxamento e meditação e, em
última instância, pela graça implícita, chega-se a um sentimento de união com
Deus: oração de gosto ou quietude, oração de recolhimento ou estar absorto, que
são eventos da quarta morada teresiana), e a mística sobrenatural propriamente
dita (que se dá no regime da graça explícita e a partir dos eventos da quinta
morada). Depois, Lúlio parece um “perenialista” avant la lettre, mas, em
sua defesa, ele só considera as grandes religiões monoteístas (ele interpreta o
sufismo em termos monoteístas, e não panenteístas), e pensa que seu reto entendimento
apontaria para a fé católica. Por fim, penso que o testemunho heroico de Lúlio
é teologicamente mais valioso que suas concepções místicas, ainda que suas
meditações espirituais não sejam desprovidas de inspiração e caridade ardente,
como se poderá ver abaixo.
Apêndice 1: Passagens de O Livro do Amigo e do Amado
Excertos de LULL, O Livro do
Amigo e do Amado. São Paulo: Escala
“Blanquerna sentiu o desejo de compor o Livro do Amigo e do Amado, no qual o amigo fosse cristão fiel e
devoto, e o amado fosse Deus. Enquanto Blanquerna pensava nisso, lembrou-se que
certa vez, quando era papa, um sarraceno contou-lhe que os sarracenos têm
alguns homens religiosos, e entre os outros e aqueles que são mais estimados
entre eles, encontram-se umas pessoas chamadas ‘sufis’, que têm palavras de
amor e breves exemplos e que oferecem aos homens grande devoção; são palavras
que precisam de explicação; pela
explicação o entendimento se eleva para o alto e pela elevação multiplica e
aumenta a vontade em devoção” (pp. 17-18).
“18. O amigo perguntou ao intelecto e à vontade quem estava mais perto
do seu amado; ambos correram, chegando mais depressa ao seu amado o intelecto
do que a vontade”.
“32. As condições do amor são: que o amigo seja resignado, paciente,
humilde, temeroso, diligente, confiante e que se aventure em grandes perigos
para honrar o seu amado. E as condições do amado são que seja verdadeiro,
liberal, piedoso, justo para com seu amigo”.
“39. [...] Desde que vi o meu amado nos meus pensamentos nunca se
ausentou dos meus olhos do corpo, porque todas as coisas visíveis me
representam o meu amado”.
“56. Perguntaram ao amigo: ‘Quais são as tuas riquezas’ Respondeu: ‘As
penúrias que suporto pelo meu amado’. ‘E qual é o teu descanso?’ ‘O
desfalecimento que me dá amor’. ‘E quem é o tem médico?’ ‘A confiança que tenho
no meu amado’. ‘E quem é o teu mestre?’ Respondeu e disse que são as
significações que as criaturas dão ao seu amado”.
“67. O amigo dizia ao seu amado: ‘Tu és tudo e por todo lado e em tudo;
e com tudo te desejo todo para que tu sejas todo eu’. O amado: ‘Não me podes
ter todo sem seres parte de mim’. E o amigo disse: ‘Tem-me todo e eu todo a
ti’. O amado respondeu: ‘E o que terá o teu filho, o teu irmão e o teu pai?’ O
amigo disse: ‘Tu és o tal todo que podes chegar a ser todo de cada um que se dá
a ti todo”.
“100. Perguntaram ao amigo que sinal trazia o amado em seu estandarte.
Ele respondeu que de um homem morto. Perguntaram-lhe então por que trazia tal
sinal. Respondeu: ‘Porque foi um homem morto e crucificado, e para que aqueles
que se gabam de serem seus amantes seguissem o seu escravo”.
“358. ‘Diz louco: o que é a religião?’ Respondeu: ‘Limpeza de pensamento
e desejo de morrer para honrar o meu amado e renunciar ao mundo para que não
haja obstáculo na sua contemplação e para dizer a verdade das suas honras”.
* * *
Apêndice 2: Sobre a astrologia de Raimundo
Lúlio
Excerto de LLULL, O novo tratado de Astronomia. Tradução de Esteve Jaulent. São Paulo: Instituto Brasileiro de
Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" [Ramon Llull], 2011.
“Pergunta-se: O homem possui liberdade contra
as constelações superiores? Solução: A liberdade é instrumento da vontade, que
é uma parte da alma humana, conjunta que é ao corpo. Por isso no homem a
liberdade é uma das partes do homem, e assim é instrumento natural para a
escolha, assim como são os ouvidos para ouvir e os olhos para ver. Ainda que as
constelações superiores sejam instrumentos naturais para o favorecimento ou o
desfavorecimento, todavia não são instrumento conjuntos com os corpos dos
homens nem são partes dos mesmos. Por isso o homem, com sua livre vontade,
vence os efeitos das constelações. Disto temos experiência; se um homem tem
apetite a algum ato natural pela sede ou pela fome, pode, com sua vontade,
obrigar o ato de tal maneira que o ato não provenha da potência, embora a
constelação lhe dê o apetite” (pp. 178-179).
* * *
Apêndice 3: Lúlio sobre o Anticristo
Excertos de LLULL, Livro contra o
Anticristo. Trad. Hubert Jean Cormier. São Paulo: Instituto Brasileiro de
Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2016.
“O Anticristo será um homem tão mau e
perverso contra a verdade que, da mesma maneira que será amante da maior
falsidade e erro, assim também será contrário à maior verdade nos dizeres e nas
obras” (p. 32).
“Tão fortemente se multiplicarão os erros e
os trabalhos no mundo e tão grandes serão a malícia e a falsidade do
Anticristo, e tão pouca será a devoção e a caridade que se terá para com Deus e
o próximo, que, se antes do Anticristo vir, não nos prepararmos e dispusermos a
combatê-lo, assim como também às suas consequências, seguir-se-á grandioso dano
naqueles que viverão no seu tempo, e a nós não será dada a glória pelo mérito
que poderíamos ter ao restaurar grande parte dos danos que o Anticristo causaria
se, antes de sua chegada, não se fizer a preparação...” (p. 33).
“O Anticristo será um rei muito poderoso no
mundo e ofertará de diversas maneiras dons aos homens para que caiam em erros.
Um desses falsos dons será a liberdade, considerada como um hábito da vontade
que se encontraria mortificada pela Fé, pela Esperança, pela Caridade, pela
Justiça, pela Prudência, pela Fortaleza e pela Temperança. Desta maneira
estariam mortificados os atos das virtudes que serão declinados pela privação e
exaltados pelos atos pecaminosos, pelos vícios e pelos hábitos das potências da
alma. A oferta de dons do Anticristo terá como resultado a privação da
liberdade para entender, amar e lembrar, e por isso o entendimento terá mais
fortemente como objeto a imaginação das coisas sensuais do que à Caridade, à
Justiça e às coisas intelectuais. E a lembrança terá como objeto muito mais as
coisas e as prosperidades deste mundo do que a Bem-Aventurança do século
futuro. Desta forma poder-se-á repreender ao Anticristo pelos seus dons, devido
à má obra consequente contra o ato das Dignidades Divinas e das virtudes
criadas; tal será a obra contra os Princípios pelos quais o homem é criado,
recriado e sustentado neste mundo e no outro. Assim será demonstrado que o
Anticristo não será Deus, nem profeta, nem filho da Caridade e da Justiça.
Juntamente com os dons que ofertará o
Anticristo, convém lembrar que os dons que ofertou neste mundo nosso Senhor
Jesus Cristo, pois o Anticristo dará terras, cavalos, vestidos, cidades,
castelos e outras coisas semelhantes a estas, mas não dará Fé, Esperança,
Caridade, etc., e nem dará a si mesmo coisas como pobreza, humildade,
paciência, tormentos e morte, por amor e salvação de seu povo. Nosso Senhor
Jesus Cristo deu pobreza, humildade, justiça, caridade, paciência, etc., para
recriar-nos e por seus dons, que foram dons de Si mesmo, deu-nos atos de Fé,
Esperança, Caridade, etc. Por isso, comparando-se os dons que Jesus Cristo nos
deu, segundo a celestial Bem-aventurança, com os que ofertará o Anticristo, que
serão contrários à vida eterna, poder-se-á vencer o Anticristo e seus dons, por
esta contrariedade” (pp. 95-96).
“Aos homens que acreditarem nele (no
Anticristo) e o adorarem como a um deus, prometerá muitas coisas neste mundo e
no outro, pois aos homens que amarem as bondades temporais prometerá saúde,
vida longa e filhos, satisfação dos trabalhos que tenham empreendido e muitas
coisas semelhantes a estas. E aos homens que amarem a glória celestial,
prometer-lhes-á dar conhecimento da Unidade e Trindade de Deus e da Encarnação
e união da natureza incriada e criada, e prometerá muitas outras coisas que
convém à glória de Deus; pois o Anticristo será contra a verdade da divina
Unidade e Trindade e da Encarnação e, por isso, suas promessas serão realizadas
de outra maneira, de tal modo que será coisa impossível ao homem dar glória a
Deus. Por isso pode o Anticristo ser contrariado em suas promessas mediante a
verdade significada pelos Princípios da Glória que os bem-aventurados darão à
Unidade, Trindade e Encarnação de Deus.
Jesus Cristo prometeu por meio das virtudes
gloriosas, e o Anticristo prometerá por meio dos vícios, bem-aventuranças neste
mundo e a glória no outro. Jesus prometeu maior glória através da pobreza do
que da riqueza e quis que seus apóstolos e discípulos fossem pobres. O
Anticristo fará o contrário, pois tornará ricos e bem-aventurados neste mundo
àqueles que nele crerem e obedecerem. Assim, da mesma forma que Jesus Cristo
prometeu fortemente a Bem-aventurança no outro século o Anticristo fará o
contrário, e é por isso que o Anticristo prometerá vencer, confundindo o que
nosso Senhor Jesus Cristo prometeu, como se as promessas do Anticristo fossem
contrárias aos atos das Dignidades Divinas e às virtudes criadas, e tudo o que
Jesus Cristo lhes prometeu será concordante” (pp. 97-98).
“O Anticristo atormentará e matará os homens
que o contestarem e que não crerem nele. Ora, Jesus Cristo sofreu tormentos
para que o povo acreditasse n'Ele e Lhe obedecesse. O Anticristo matará
impassivelmente homens, enquanto Jesus Cristo pacientemente sofreu dores muito
graves e morte vergonhosa. O Anticristo ameaçará tão terrivelmente os homens
que lhes tirará a caridade, multiplicando o temor à caridade e à justiça; Jesus
Cristo, no entanto, predicou humildemente a caridade, por isso, os hábitos da
liberdade, do temor e da caridade concordarão entre si, compreendendo-se a
morte e os tormentos que Cristo padeceu. Os tormentos e as mortes que o
Anticristo produzirá podem ser efetivamente reprendidos por suas mesmas obras.
Foi demonstrado que é mais conveniente Jesus
Cristo ser Deus do que o Anticristo. Dirá o Anticristo que ele é Deus, mas
mostrará por suas obras que ele não o é. Por isso matará os homens que não
acreditarem nele, dando a entender que não voltará a morrer por amor ao homem.
Por este motivo o Anticristo morrerá por morte não natural, demonstrando assim
que não é Deus, pois se o fosse, iria à morte pacificamente e não coagido.
[...] A morte horripilante, o temor e os tormentos que fará desabar sobre os
homens serão enormes. Conforme a pregação que nosso Senhor realizou na Montanha
das Bem-Aventuranças, não pediu que os homens se matassem, mas que se
convertessem e se esperasse a sua conversão e, além disto, quis garantir a
liberdade nos atos virtuosos, sem coagi-los por meio de tormentos, nem matando
pessoas, por isso, o Anticristo poderá ser confundido nas suas obras,
precisamente pelos tormentos que realizará nas pessoas” (pp. 99-100).

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