22.6.25

Sobre o Apocalipse de São João

 

Atualizado em 22/06/2025 (primeira versão de 20/01/2022)


Desde o princípio anunciei o futuro,

desde a antiguidade, aquilo que ainda não acontecera. 

Eu digo: o meu propósito será realizado, 

hei de cumprir aquilo que me apraz (Is 46, 10).

 

Sobre o Apocalipse de São João

 

Introdução

 

O Apocalipse de S. João é uma profecia apocalíptica e simbólica sobre a totalidade da história da Igreja e o fim do mundo, que toma os eventos da época do autor (a perseguição judaica e romana, e a vitória dos mártires) como símbolos dos acontecimentos históricos futuros e derradeiros: “Escreve, pois, o que viste, aquilo que está acontecendo e o que vai acontecer depois” (Ap 1, 19). O sentido literal do texto é imediatamente metafórico, velando tanto o significado histórico imediato (da época de S. João), quanto o futuro.

 

A visão preterista sobre o Apocalipse é inaceitável. Ela se baseia em dois pressupostos falsos: a) ou na convicção errônea de alguns Padres, de que a vitória da Igreja sobre a sinagoga apóstata e o império pagão perseguidor era uma realidade praticamente definitiva, que seria apenas confrontada por uma revolta final (convicção obviamente baseada na impossibilidade de adivinhar o futuro e na ignorância das dimensões geográficas mundiais); b) ou na convicção herética de alguns exegetas modernos, que não reconhecem o dom da profecia (ou até o sobrenatural de modo geral), e leem as “profecias” como descrições cifradas que o profeta faz do presente ou do passado próximo. O preterismo retira todo o peso de “revelação” do livro da Revelação!

 

A visão futurista é errônea também, porque ela fica sem critério interpretativo, ao não poder analogar os fatos da história de Israel e da Igreja primitiva com os fatos futuros da história da salvação, impedindo o discernimento de sua ocorrência quando estes já tiverem passado ou estejam se dando (neste segundo caso, depois do cumprimento histórico reconhecível de uma boa parte das profecias), bem como gerando uma série de interpretações fantasiosas, catastróficas (e desesperadoras) e até insanas, uns intentos patéticos de adivinhação (“chip da besta” e outras besteiras do gênero).

 

A visão espiritualista também é errônea, porque é francamente apenas uma variação mais elegante da falta de fé no dom profético e no drama histórico da salvação do mundo, reduzindo o combate espiritual a uma dimensão individualista, e o simbolismo profético a misticismo alegorista. Esse espiritualismo retira o peso espiritual específico da literatura apocalíptico-profética.

 

Entretanto, as visões ou interpretações errôneas, se não forem tomadas unilateralmente, podem ser reintegradas ao autêntico sentido literal e aos três sentidos espirituais da Escritura (que correspondem às vias purgativa, iluminativa e unitiva): a) a visão do passado da Igreja ilumina o sentido moral ou tropológico, ao nos apresentar a fortaleza heroica e a caridade perseverante dos apóstolos e mártires como paradigma e ideal moral a ser seguido; b) a visão espiritual, depurada do alegorismo individualista e anti-histórico, apresenta-nos as imagens apocalípticas precisamente como alegorias da história!, iluminando assim nossa inteligência para discernir os sinais dos tempos; c) finalmente, a visão do futuro, associada à vitória histórica da Igreja dos Apóstolos e mártires, enche-nos de Esperança na vitória final de Cristo, de desejo do advento do Reino, elevando nossas mentes e corações e conduzindo-os às místicas contemplação e suave degustação da Liturgia celeste.

 

O Apocalipse apresenta algumas séries setenárias: a) 7 bem-aventuranças apocalípticas (Ap 1, 3; 14, 13; 16, 15; 19, 9; 20, 6; 22, 7; 22, 14); b) as 7 “igrejas da Ásia” (Ap 1, 4 – 3, 22), que, como indicam o Venerável Bartholomäus Holzhauser, o Cardeal Billot e o Pe. Castellani, são as 7 eras histórico-geográficas da Igreja; c) os “7 selos” (Ap 6, 1-17; 8, 1), que correspondem a marcos conflitivos das 7 eras, que devem excluir as visões fantasiosas sobre os “4 cavaleiros do apocalipse”; d) as 7 “trombetas” (Ap 8, 6 – 9, 21; 11, 15), que, como indica o Pe. Castellani, são as grandes heresias e divisões da Cristandade (e da humanidade); e) os 7 “sinais” (Ap 12, 1 – 14, 13), que correspondem a uma recapitulação épica da história da Igreja; f) as 7 “taças” (Ap 15, 5 – 16, 21), que são 7 pragas do “Dia” do Senhor que se estende pela História da Igreja (não se referem apenas ao tempo do fim, embora esta ocasião deva conhecer um compêndio das pragas).

 

Ademais dessas séries setenárias, o livro começa com um prólogo (Ap 1, 1-8). Depois das “cartas às 7 igrejas”, e antes dos “7 selos”, há um primeiro interlúdio (Ap 4, 1 – 5, 14), em que S. João é a levado ao céu, e contempla o louvor celestial a Deus Pai Criador (capítulo 4) e ao Cordeiro Redentor (capítulo 5). Entre o sexto e o sétimo selos, há um segundo interlúdio, em que é “marcada” a fronte dos servos de Deus (capítulo 7). Entre a sexta e a sétima trombetas, há um terceiro interlúdio (Ap 10, 1 – 11, 14) – paralelo ao segundo interlúdio –, que narra a respeito do anjo que tem o livro aberto (capítulo 10), e das “2 testemunhas” (Ap 11, 1-14). Depois da recapitulação histórica e das “7 taças”, há um longo trecho sobre a prostituição e queda da “Babilônia” (Ap 17, 1 – 19, 10). Finalmente, há umas “visões” (Ap 19, 11 – 20, 10), que correspondem ou bem a uma segunda recapitulação épica da história da Igreja, ou bem a uma síntese do combate escatológico especificamente do tempo do fim (aqui se encontra o problema do “milênio”); a visão do Juízo final e do Reino de Deus definitivo (Ap 20, 11 – Ap 21, 5); e o epílogo (Ap 22, 6-20).

 

Os maiores “desastres apocalípticos” para a Igreja são de cunho espiritual; a última perseguição mais daninha à Igreja também é de cunho interno, é a da falsa profecia. O aspecto catastrófico bélico se refere à punição da parte da humanidade que é anticristã, e particularmente à punição da “Babilônia” ou cidade prostituída e apóstata. A última besta será derrotada por Cristo de modo humilhante. O Apocalipse é uma Revelação esperançosa.

 

As 7 bem-aventuranças apocalípticas

 

Feliz aquele que lê e aqueles que escutam as palavras da profecia e põem em prática o que nela está escrito, pois o Tempo está próximo (Ap 1, 3).

 

Ditosos os mortos, os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que eles descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham (Ap 14, 13).

 

[Eis que venho como um ladrão] Feliz aquele que vigia e conserva suas vestes, para não andar nu e para que não se enxergue a sua vergonha (Ap 16, 15).

 

[E o anjo me disse:] Escreve: Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro (Ap 19, 9).

 

Ditoso e santo quem participa da primeira ressurreição! A segunda morte não tem poder sobre eles. Eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele durante mil anos (Ap 20, 6).

 

[Eis que venho em breve] Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro (Ap 22, 7).

 

Felizes os que lavam suas vestes, pois assim poderão dispor da árvore da vida e entrar na cidade pelas portas (Ap 22, 14).


As 7 Igrejas

 

“O que vês, escreve-o num livro e envia-o às sete Igrejas, a Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia” (Ap 1, 11).

 

As “cartas às sete Igrejas” não são “sobre o que está acontecendo” à época de S. João, nem são sete cartas! Elas não existiram à parte do Livro do Apocalipse. O sentido literal é imediatamente metafórico, e tais Igrejas são as sete eras eclesiais. “O que acontecia” então correspondia exclusivamente à “Igreja de Éfeso” (era apostólica) e ao início da “Igreja de Esmirna” (era dos mártires), contemporâneas a S. João Evangelista. São João não enviou “sete cartas” àquelas localidades, mas escreveu o Livro do Apocalipse às Igrejas das sete eras, isto é, à Igreja de todos os tempos. Obviamente, os dados empíricos dessas localidades são reais, e devem ser entendidos, até para que possam ser aplicados metaforicamente aos sete tempos cristãos.


Cada carta se inicia com uma imagem que aparece no capítulo 1 e termina com uma alusão aos capítulos 19–22.







Os 7 selos




As 7 trombetas







As sete taças





Os 7 sinais





Quadro sinóptico











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