17.11.24

Notas sobre antropologia


1) O ser humano é, na visão aristotélico-tomista, um todo composto de corpo e alma (cf. S.Th. I, q.75). Na visão tripartite que aparece em São Paulo (cf. 1Ts 5, 23), e em autores com influência neoplatônica, o homem aparece como corpo, alma e espírito. Numa comparação imediata, o “espírito” desta segunda concepção corresponderia à função “racional”, irredutível à matéria, da “alma” da primeira concepção; e a “alma” (da segunda concepção) corresponderia às funções “sensitiva” e “vegetativa” (da primeira). A inteligência humana depende da sensibilidade corpórea para conhecer; na concepção de Zubiri, esta realidade é dita “inteligência senciente” (cf. trilogia Inteligência e realidadeInteligência e logos e Inteligência e razão).

 

2) Por ser inteligente, o homem é "pessoa", isto é, "substância individual de natureza racional", na clássica definição de Boécio. Na terminologia zubiriana, a "pessoa" é "suidade" (sic), porque por sua inteligência é uma “essência aberta” à realidade, incluindo a própria realidade, apreendida formalmente como "sua" (ao passo que as realidades não-pessoais só são materialmente suas/delas). Ser “pessoa” é possuir uma dignidade ontológica acima das “essências fechadas” ou não-inteligentes.

 

3) Na gnosiologia tomista, o objeto da inteligência é a "quididade das coisas sensíveis", mas também aparece como o "ser": “A verdade funda-se no ser da coisa, mais que na própria quididade, assim como o nome de ens impõe-se a partir do esse” (In I Sent., d.19, q.5, a.1). Em Zubiri, o objeto formal da inteligência é a "formalidade de realidade" ("formalidade" é o modo de "ficar" na apreensão), isto é, um conteúdo sensível "de suyo" ou que se atualiza na inteligência "desde si mesmo" (desde o próprio conteúdo), e não como algo feito pela inteligência (ao passo que o "estímulo" ou conteúdo sensível para a resposta é o objeto do "puro sentir" animal); a “realidade” apreendida leva a inteligência a concebê-la, afirmá-la e buscar seu fundamento além da apreensão. Essa “realidade” zubiriana é correlata do "ser" tomasiano, ao passo que Zubiri usa "ser" em outro sentido, como “atualidade da realidade no mundo” (algo correlato à "existência" temporal heideggeriana).

 

4) O homem tem uma inexorável “dimensão moral” pois necessita apropriar-se, com sua vontade livre, de “possibilidades” para realizar-se; e precisa justificar racionalmente as suas opções. A realidade como “possibilidade” a ser apropriada é a realidade como “bem”; a Possibilidade das possibilidades é o Bem supremo, o Fim que aperfeiçoa a realidade humana. O homem precisa discernir o Fim ou Sentido de sua vida: é o problema da “felicidade”.

 

5) O “corpo” é a “matéria” da “forma” que é a alma. A “matéria” é “princípio de individuação” na filosofia aristotélico-tomista; em Zubiri, é e “princípio de atualidade no mundo”. Na filosofia zubiriana, o corpo humano é fundamentalmente o "princípio de atualidade" ou de presença no mundo da realidade humana: trata-se do caráter “somático” do corpo; o corpo, ademais, é princípio de "organização" e "solidariedade" das partes. O corpo participa da dignidade da pessoa humana.

 

6) O homem tem um “conhecimento natural de Deus” (cf. S.Th. I, q.2, a.1, ad 1) e um “desejo natural de Deus” (cf. S.Th. I, q.12, a.1), na medida em que deseja ser feliz e Deus é seu Fim e Princípio. Este “conhecimento natural” é confuso e insuficiente, como diz Sto. Tomás: é “saber que alguém vem” e não “saber que Pedro vem”; daí a necessidade das demonstrações da existência de Deus efetuadas pela “teologia natural” (cf. S.Th. I, q. 2, a.3).

 

7) Em nossa época de secularismo, nem mesmo se admite “que alguém vem”, então, antes da “demonstração da existência de Deus”, faz-se conveniente uma “mostração” (sic) da dimensão humana em que o “problema de Deus” aparece: Zubiri chamou-a “dimensão teologal”, na qual aparece a constitutiva “religação” do homem à realidade e seu Fundamento.

 

8) A propósito da dimensão teologal, poderíamos falar de um suposto “sentido divino” no homem (Pe. Alphonse Gratry)? Poderíamos validar ou resgatar de algum modo o tipo de argumento que se convencionou chamar de “ontológico” (Sto. Anselmo et alii)? Como entender as reflexões da contemporânea “fenomenologia da religião” com sua ideia de “sagrado” (vide Mircea Eliade)? Ou a ideia do “sentimento religioso” (Schleiermacher, Rudof Otto, modernismo teológico)?

 

9) O significado do “desejo natural de Deus” (cf. Cf. CG, L. III, c. 25; c. 48; cc. 51-63) foi especialmente estudado, em nosso tempo, pelo teólogo Henri de Lubac, o qual identificou esse desejo com a própria natureza humana (cf. “O Mistério do Sobrenatural”). A Escolástica não fazia deste desejo ou “abertura a Deus” a própria natureza humana: esta era identificada como uma “potência obediencial”, e o desejo de Deus só poderia esclarecido pela Revelação divina da Graça.

 

10) A pessoa humana, inteligente e livre, é "imagem de Deus" (cf. Gn 1, 27) e esta imagem divina se manifesta no conjunto "homem-mulher": a razão objetiva é mais própria da masculinidade, o amor entranhável é mais próprio da feminilidade; Deus é natural e simultaneamente Sábio e Amoroso. O homem pleno é plenamente viril e chega a amar o próximo como uma mãe ama naturalmente a cria: "Jerusalém, Jerusalém...". A mulher plena é plenamente maternal e chega ao vigor espiritual manifesto no conceito hildegardiano de viriditas: "Quem é essa que avança...?" O amor conjugal entre o homem e a mulher é, desde o ponto de vista humano, “o arquétipo de todo amor” (Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 2).

 

11) Ainda segundo Zubiri, a pessoa humana se desdobra no mundo e no tempo em sua "personalidade", que é a "figura concreta" da sua realidade pessoal, o "ser" da sua realidade ou o "Eu". O ser do humano tem três dimensões, segundo Zubiri: individual, social e histórica. A sociabilidade é uma dimensão intrínseca ao homem (daí que Aristóteles falasse do homem como “animal racional e político”) e nela está incursa a possibilidade da “comunhão pessoal” ou “amizade”. Na historicidade humana radica a importância da “tradição”, como “entrega de possibilidades” para a vida humana.

 

12) A imagem do “homem clássico” foi assumida na antropologia cristã: a “Paideia” grega foi assimilada pela “Paideia cristã”, a começar pela Escola de Alexandria (vide as obras de Werner Jaegger) e, seguidamente, nas escolas monásticas e catedralícias. O ideal da República platônica (que deve ser entendido metaforicamente, e não em sentido literal, como faz a malíssima interpretação canônica) se cumpriu, na medida das possibilidades históricas, na Cristandade medieval.

 

13) Na criação originária do homem, Adão foi feito "um ser vivente" ("nefesh") do "argila do solo" e do "hálito" ("neshamah") divino (cf. Gn 2, 7). Já que o homem "é pó e deve [depois do pecado] voltar ao pó" e o "sopro deve voltar a Deus" (cf. Gn 3, 19; Ecl 12, 7), este "sopro" divino ("ruah" no Eclesiastes) não deve ser o "espírito" do homem, mas a presença do Espírito Divino no homem, num sentido ambivalente: enquanto presença criadora e conservadora/iluminadora do “espírito” em todo homem ou filho de Adão; e é também uma presença agraciadora no Primeiro Homem criado em justiça e santidade (e em todo homem adotado filialmente pela Fé em Cristo e a Graça batismal).

 

14) O homem é um “microcosmos”, porque sua natureza é um intermediário entre o intelecto puro e a sensibilidade animal. O homem participa da Luz Divina (a princípio uma luz "ordinária" e pré-beatífica) através do "intelecto agente", que é "algo de divino em nós" (Aristóteles, De Anima). Diz Sto. Tomás: "É portanto por Deus que a alma humana participa da luz intelectual, segundo o Salmo 4: 'Está marcada sobre nós a luz da tua face, Senhor'" (S. Th., q.79, a.4). E ainda: "A verdade é a luz do entendimento e o próprio Deus é a regra de toda verdade” (S.Th. I, q. 107, a.2). Penso que não há contraposição real entre a "iluminação" agostiniana e o "intelecto agente" aristotélico: o modo como a luz divina nos chega é o intelecto agente. Hugo de S. Vítor fala que a alma humana é “partícipe da substância intelectível” enquanto incorpórea, e é “inteligível” enquanto percebe com a imaginação e os sentidos (cf. Didascálicon, Livro II, cap. 3). Os Padres Gregos entenderam a causalidade eficiente do ponto de vista da “presença reluzente da causa no efeito” (cf. Xavier Zubiri, “O ser sobrenatural: Deus e a deificação na teologia paulina”).

 

15) Ao mesmo tempo, o “pó” de que somos feitos ressalta a importância da virtude fundamental da “humildade”, “a mais tenra, a mais velada e a mais bela das virtudes cristãs; o pulsar interno e duradouro da disposição espiritual para o servir a todas as coisas” (Max Scheler, Da Reviravolta dos Valores. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 23). A humildade é “a condição prévia, o pressuposto fundamental da autenticidade, da beleza e da verdade de todas as virtudes. É a ‘mãe e a cabeça’ de todas as virtudes específicas das criaturas” (Dietrich von Hildebrand, Nossa Transformação em Cristo, Cultor de Livros: São Paulo, 2017, p. 131). Fomos criados “do nada”, isto é, das possibilidades lógicas da Inteligência Divina (como diz o Beato Duns Scoto), e esta é a raiz da humildade.

 

16) A “queda” ou o “pecado original” (cf. Gn 3, 1-19) foi um desastre cósmico: como defenderam alguns Padres (na tese que se convencionou chamar de “alterismo”), a queda modificou a condição física da natureza humana, sem modificar seu caráter metafísico (de “animal racional”); o sofrimento, a injustiça, a violência e a morte ingressaram no mundo. As metodologias das ciências modernas não podem alcançar a condição adâmica e sequer a pré-diluviana – daí que, no fundo, seja irrelevante a questão da “evolução” (de ser verdadeira, é posterior a uma “involução” do homem e da terra inteira). A morte é um tremendo mistério antinatural. Só a Redenção da Paixão e Cruz de Cristo pode esclarecer o sentido do sofrimento e da morte (cf. João Paulo II, Salvifici Doloris).

 

17) A verdade filosófica da “subsistência” e “incorruptibilidade” da alma humana (cf. S.Th. I, q.75, a.2 & a.6) não é consoladora para a maioria das pessoas – além das razões filosóficas, a imortalidade da alma individual também foi dogmatizada pelo V Concílio Lateranense. Da imaterialidade do conhecimento não se depreende imediatamente uma subsistência pós-morte consciente, haja vista a dificuldade de Sto. Tomás para manter o conhecimento da alma separada (cf. S.Th. I, q.89, a.1). Mesmo o conceito metafísico do "ser comum" (obtido pela "separatio") está, num primeiro momento, ainda no nível da lógica pura e não da "realidade espiritual": a ontologia é "sobrematemática", porém "subespiritual". O "ser comum" é do âmbito "transcendental" mas não implica necessariamente a afirmação do "transcendente". 

 

18) O onto-lógico perpassa tudo sem ser coisa alguma, mas não é a princípio nada "fora" das coisas (como o "poder do real" zubiriano). Por isso, sem a luz da Revelação, foi e segue sendo possível interpretar a subsistência da alma em sentido religioso não-espiritual, i.e, subpessoal ou impessoal, a depender do contexto religioso: daí a existência "sombria" ou "onírica" no hades (ou no xeol); daí a "metempsicose" ou a reencarnação de elementos psíquicos nunca integrados numa personalidade formalmente espiritual cuja "vida" se situaria acima do devir temporal (da imersão na matéria); daí uma "libertação" dessas energias dispersivas que se cristalizam no "ego ("homem velho" cristão), com o mergulho num "espírito impessoal" (sic).

 

19) Por isso, também, as interpretações filosóficas negadoras da subsistência individual: daí o "feixe de impressões" que criam a "ilusão de uma consciência substantiva" (Hume); daí a “res cogitans” que só está certa de si no ato de pensar, e a "subjetualidade transcendental" moderna que esmaga o "eu empírico"; daí a moderna "vontade geral" (no sentido político de Rousseau, ou no ontológico de Schopenhauer), ou a nietzcheana "vontade de poder"; daí a "humanidade" do positivismo; daí a “consciência de classe” ou o “proletariado” marxista; daí o "espírito" identificado como "patrimônio imaterial" (cultural) nas modernas “ciências humanas”; daí o "inconsciente" freudiano ou o "inconsciente coletivo" junguiano; daí a “consciência transcendental” da fenomenologia" (Husserl) e o dasein da "ontologia existencial" (Heiddegger) ficarem na bifurcação da abertura à Transcendência (a depender de uma recepção cristã) e do existencialismo ateu.

 

20) O ateísmo cultural contemporâneo foi se constituindo paulatinamente: do ponto de vista cultural, desde o "espírito" naturalista e antropocêntrico no Renascimento; do ponto de vista da fundamentação filosófica, desde o germe cartesiano até a “maturidade” do ateísmo em Feuerbach. Daí que Nietzsche proclamasse, já no século XIX, a “morte de Deus”, o “nihilismo” e a chegada do “super-homem”. Daí o “drama do humanismo ateu” (cf. Henri de Lubac).

 

21) Efetivamente, a "consciência” não é uma "substância", mas uma relação intencional da inteligência a outra realidade que ela; a "verdade" é uma relação de adequação entre a inteligência e a realidade presente imaterialmente nela. A inteligência é algo que se faz consciente: "consciência" é co-atualidade do inteligente e do presente à inteligência. Somente o Inteligente Perfeito sempre tem consigo o Seu Verbo Verdadeiro idêntico a Si. A "incomunicabilidade" (sic) da "pessoa" e a sua "abertura" relacional na linha da natureza inteligente e livre são duas verdades que devem ser mantidas juntas.

 

22) Na ordem em que nos encontramos, a alma espiritual é criada por Deus na concepção: Deus eleva o primeiro estado psíquico pré-espiritual transmitido pelos pais – um "traducianismo" mitigado (não-herético) ajuda a entender melhor tanto o pecado original quanto o temperamento – à ordem transcendental do "ser". Esta criação da condição intelectual na alma é a primeira (e permanente e natural) "iluminação, à qual pode então ser “acrescida” a iluminação do Batismo, pela qual a alma é inserida na ordem transcendente sobrenatural, ao ser "convertida" ao Criador. A condição intelectual é a marca da dignidade ontológica da pessoa humana desde sua concepção, e ela existe em função da vocação à Vida divina.

 

23) As iluminações (ordinárias e extraordinárias) da vida mística intensificam a do Batismo, até a "alma ser sobrenaturalmente transformada em Deus por amor" (cf. S. João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo, livro II, cap. V), e poder adquirir o "Lumen gloriae" na Vida Eterna. Como se articulam a luz natural da inteligência e a Luz sobrenatural da Fé? Este é um problema que a Arte de Raimundo Lúlio buscou responder na Idade Média. O problema de fundo é o da articulação da natureza e do sobrenatural no interior do espírito humano. A resposta de Maurice Blondel, contra o “extrinsecismo” (sic), inaugurou a perspectiva da “nouvelle théologie”; o Pe. Pierre Rousselot ensaiou uma solução mais adequada (cf. Os olhos da Fé).

 

24) O chamado "intelecto possível" deve ser necessariamente individual, pois do contrário o fato da imortalidade da alma não se verificaria; mas o intelecto agente poderia ser único, embora esta não seja, para Sto. Tomás de Aquino, a posição de Aristóteles (cf. Sto. Tomás, A unidade do intelecto: Contra os averroístas, cap. IV, n. 83). Por isso, foi possível pensar, no Cristianismo, o "intelecto agente" como "o Verbo que ilumina todo homem" (Jo 1, 9) ou o "Mestre interior" (Sto. Agostinho); ou como a "semente divina" de Mestre Eckhart ou a "teofania" de S. Máximo Confessor e João Escoto Eriúgena. Devem ser afastadas as perspectivas gnosticista e panenteísta: o intelecto agente poderia ser a "parte incriada da alma" (sic) de Eckhart, mas não como um "ingrediente" nosso (no sentido de que garantiria necessariamente nossa salvação e divinização), mas como nosso "arquétipo" ou “imagem divina” particular.

 

25) A “sindérese”, que em Sto. Tomás é o “hábito dos primeiros princípios práticos/morais” (cf. S.Th. I, q.79, a.12De Veritate, q. 16), poderia ser associada a essa Luz Divina participada e supranatural (não “sobrenatural”, no sentido da Graça), como o faz S. Basílio em sua Regra (cf. também Ratzinger, Lectio magistralis na Aula Magna do Reitorado da Università degli Studi de Siena). A sindérese também pode ser chamada de “consciência” (moral), mas seria mais apropriado identificar a “consciência” como o ato que julga a ação realizada ou por realizar (cf. S.Th. I, q.79, a.13; De Veritate, q. 16). A “Lei natural” é “participação da Lei Eterna na criatura racional” (cf. S.Th. I-II, q.91, a.2); sobre a Lei natural, Sto. Tomás usa a mesma passagem do Salmo que ele refere ao intelecto agente: “Está marcada sobre nós a luz da tua face, Senhor"! Embora diga que Lei natural não é um hábito, mas “um produto da razão”, ele o associa à sindérese (cf. S.Th. I-II, q.91, a.2).

 

26) A “memória” e/ou o “coração” não devem ser vistos como candidatos a “terceira faculdade da alma” (além da inteligência e da vontade), mas sim como o próprio centro da alma, donde emanam e para onde refluem os atos intelectivos e volitivos. Na Escritura, o coração e a memória podem coincidir: a Virgem Maria “conservava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lc 2, 19. 51). A “memória” agostiniana, que ressoa a “reminiscência” platônica (enquanto fonte das intelecções atuais), é associada, nas analogias que faz com a mente humana, à Pessoa do Pai, o Princípio Imprincipiado na Trindade. A “memória” reaparece, por exemplo, em S. Boaventura (cf. Itinerário da mente a Deus, cap. III), e em S. João da Cruz (cf. Subida ao Monte Carmelo, Livro II, cap. VI), associada à virtude teologal da Esperança (a inteligência aparece associada à Fé e a vontade, à Caridade). Sto. Tomás a associa ao intelecto possível (cf. S.Th. I, q.79, a.7). A verdade como aletheia, o “não-esquecido”, e emet, “fidelidade” (de Deus) (cf. Zubiri, Inteligência e realidade), também associa o conhecido com o recordado e com a promessa a ser guardada.

 

27) O “sentimento” tem sido considerado um “ato” distinto da intelecção e da volição na filosofia moderna: ora como apreensor da “beleza”, como em Kant ou Zubiri; ora como apreensor do “valores”, como em Scheler; ora como “resposta afetiva” aos valores, como em Dietrich von Hildebrand. A filosofia clássica conheceu os afetos espirituais da vontade (cf. Juan Cruz Cruz, Intelecto y Razón, cap. IV: "Intelecto y sentimiento"), e podemos identificar o “coração” nos 3 atos da "vontade de fins” segundo Sto. Tomás (cf. S.Th. I-II, qq.8-12), isto é, o "simples querer", a "intenção" e a "fruição" (que correspondem respectivamente ao amor, desejo e gozo sensíveis). A relação entre o coração e a memória também aparece mais ligada à vida afetivo-moral na Escritura: "onde está teu tesouro [os “bens” ou possibilidades que guarda] aí estará também teu coração" (Mt 6, 21). Ainda: "é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações" (Mt 15, 19). Diz Diádoco de Fótico, “o coração gera, de seu recôndito, os pensamentos bons e não bons; não traz em sua natureza os pensamentos maus, mas adquiriu, depois do primeiro erro, o ‘hábito’ da lembrança do mal”. O coração e a memória merecem assim ser considerados o “centro de nossa personalidade”, o “núcleo de nosso Eu” (no sentido zubiriano acima: vide n.11).

 

28) Se a “verdade” é o transcendental associado à inteligência, e o “bem”, o transcendental associado à vontade (cf. Sto. Tomás, De Veritate, q.1., a.1), a “beleza” (sempre questionada como transcendental) poderia ser associada ao coração/memória, na medida em que representariam a fonte e a junção da inteligência e da vontade? Sto. Tomás identificara o bem e a beleza (cf. S.Th. I, q.5, a.4, ad 1; S.Th. I-II, q.27, a.1, ad 3): ambos estariam fundados na “forma”, mas difeririam, porque o bem tem razão de fim no qual o apetite descansa, enquanto o belo é o que agrada o entendimento e aquieta o apetite. O belo, ainda para Sto. Tomás, é uma “adequada proporção”. Esta relação entre o conhecimento e o apetite (a vontade) que há na “beleza” remete ao fundo mnemônico-cordial da alma. O “belo” é também, segundo Platão, “o que é feito segundo a Verdade eterna” (cf. Timeu); poderíamos dizer, o que é segundo a “reminiscência” das Ideias. O “sentimento” (ou o “coração”), para Zubiri, é a “acomodação à realidade”, e a realidade atualizada no “sentimento estético” (que não é um sentimento entre outros, mas o fundo de todos os sentimentos) atualiza a realidade como pulchrum (beleza). A beleza é uma “síntese” da verdade e do bem, uma ponte entre ambos, como uma forma não abstrata, mas concreta, plena.

 

29) A boa e verdadeira arte, a “bela arte”, consistiria não em imitar a beleza da natureza, mas em transfigurá-la: não no sentido de torná-la o que ela não é, mas sim de patentear suas possibilidades. A arte trabalha a matéria, “princípio de atualidade” da realidade, no sentido de criar “novas atualidades”. A arte não tem uma função teórica, mas exerce uma função pedagógica através da educação da sensibilidade e dos sentimentos (daí a “catarse” da qual fala Aristóteles em sua Poética); função que exerce inclusive apresentando o “feio” (o mau e falso) como tal, através da beleza técnica. Para os teólogos medievais, o belo revela a face gloriosa vindoura das criaturas materiais (cf. Étienen Gilson, Introdução às artes do belo); neste sentido, a “arte sacra” é a arte por antonomásia (é a arte originária, como diria até Walter Benjamin); sua função é nos remeter à Eternidade. 


30) A vontade, cujo ato é o amor, é a faculdade que dirige e encaminha para o bem: percebendo-o por meio do entendimento, experimenta complacência, que a move e inclina, suave e poderosamente, para o objeto amável, a fim de se unir a ele; e para tal, procura os meios mais convenientes (cf. São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, Livro I, cap. IV). O amor é como uma árvore "cuja raiz é a conformidade da vontade com o bem; o pé é a complacência; o tronco, o movimento ou impulso para o bem; as exigências, tentativas e esforços para o atingir são os ramos; a união e o gozo da posse é o fruto" (cf. Ibid., loc. cit.). A complacência já é amor, ainda que só o seu princípio, e somente o movimento ou efusão do coração que se segue é o verdadeiro amor em sua essência, segundo S. Francisco de Sales. A complacência é o despertar do coração, mas o amor é a sua ação: pela complacência, o coração estende as asas, e o amor é o seu voo, na imagem do santo.

 

31) Há fundamentalmente dois amores: o amor de Deus e do próximo, e o amor-próprio. Na fórmula agostiniana: “Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, L. XIV, XXVII). Somente onde Cristo reina, reina o verdadeiro amor entre os homens. A doutrina agostiniana das “duas cidades” é a doutrina bíblica dos dois caminhos (Dt 30, 10-20; Sl 1) e das “duas portas” (Mt 7, 13-14; Lc 13, 23-24). O amor ao próximo é a "prova" do amor a Deus (cf. 1Jo 4, 20-21). O autêntico amor “é uma disposição boa da alma, segundo a qual nada do que existe lhe é preferível ao conhecimento de Deus. E é impossível a alguém apaixonado pelas coisas terrestres alcançar este amor” (S. Máximo Confessor, Primeira Centúria de capítulos sobre o Amor, 1). 

 

32) É a "pureza do coração", da 6a bem-aventurança (cf. Mt 5, 8), cujo dom do Espírito Santo correspondente é a "inteligência", que permitirá ver a Deus (cf. Sto. Agostinho, Sobre o Sermão do Senhor na montanha). Como diz S. Isaac de Nínive, o coração é purificado "à custa de grandes esforços, através da privação de toda convivência com o mundo". Quem quiser purificar o coração, "tirará excelente proveito da invocação constante do santo nome de Jesus, contra os inimigos invisíveis" (Hesíquio, o Sinaíta). Como diz Guilherme de Saint-Thierry (cf. Carta de Ouro), o cristão perfeito se move pelo “affectus”, uma inteligência amorosa ou um amor intelectual.

 

"Ecce Homo" (1891), de Antonio Ciseri

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