Síntese da segunda parte da obra de S. Gregório de Nissa
“Neste
tratado místico, Gregório fornece um guia para a vida virtuosa em forma de um
retrato ideal de Moisés. Consiste em duas partes, que exigem dois tipos
diferentes de exegese escriturística. A primeira [...] dá atenção especial ao
sentido literal. A segunda parte é uma interpretação alegórica, na qual o
grande legislador e líder espiritual de Israel se torna o símbolo da
transformação mística e da ascensão da alma a Deus. Toda a obra mostra a
influência de Platão e Fílon” (QUASTEN, Johannes. Patrologia: A era de
ouro da literatura patrística grega: do Concílio de Niceia ao Concílio de
Calcedônia. Rio de Janeiro: CDB, 2023, pp. 404-5).
I
Moisés
nasceu quando o tirano havia ordenado matar os varões (Ex 1,6). Como imitaremos
com nossa livre escolha as circunstâncias do nascimento de Moisés?
Todo
ser sujeito à mudança não permanece idêntico a si mesmo, passa sempre de um
estado a outra. O feminino da vida, aquele que o tirano quer que sobreviva, é a
índole material e passional a que é conduzida, ao escorregar, a natureza
humana; o renovo varonil é o impetuoso e forte da virtude, que é hostil ao
tirano e por esse suspeito de rebelião contra seu poder.
Somos,
de certa forma, nossos pais: geramos a nós mesmos de acordo com o que queremos
ser; mediante a livre escolha, nos adaptamos ao modelo de varão ou fêmea,
virtude ou vício. No começo da vida virtuosa se encontra o nascer que provoca
tristeza ao inimigo; o livre-arbítrio faz o papel de parteira. Os sábios e
providentes pensamentos, que são os pais deste filho varão, protegem aquele que
põem na corrente em uma cesta para não afundar. Esta cesta é a educação, tecida
com diversas disciplinas; manterá flutuando sobre as ondas da vida aquele que
leva (Ex 2,3).
Quem
conseguir permanecer fora da instabilidade constante dos negócios humanos, que
imite Moisés e chore, pois as lágrimas são proteção segura para os que se
salvam através da virtude (Ex 2, 6).
A
filha do faraó, mulher sem filhos e estéril, representa a sabedoria pagã. A
cultura pagã é estéril, sempre grávida, porém sem jamais dar à luz em um parto.
Os frutos de sua filosofia são todos vazios e imaturos, abortados antes de
chegar à luz do conhecimento de Deus.
II
Quem
conviver com a rainha dos egípcios deve correr à que é mãe por natureza, da
qual Moisés não se separou no tempo de sua infância, pois foi alimentado com o
leite materno. Não devemos nos separar do leite da Igreja: os preceitos e
costumes da Igreja, com os quais a alma se alimenta e se fortifica.
Se
for necessário viver de novo no estrangeiro, tratar com a filosofia pagã, que
seja depois de ter afastado os perversos pastores do uso injusto dos poços (Ex
2, 17), depois de ter refutado os mestres da maldade pelo mau uso da educação.
IV
O
resplendor que ilumina a lama do profeta se acende de um arbusto de espinhos
(Ex 3, 1-6). Se Deus é a verdade (Jo 14, 6; 8, 12), e a verdade é a luz, o
caminho da virtude que nos conduz ao conhecimento daquela luz, que desceu até a
natureza humana, brilha como a luz de uma sarça da terra, que com seus
resplendores ilumina mais que todos os astros do céu. Esta passagem ensina o
mistério da Virgem: a luz divina, que graças a seu parto, ilumina a vida
humana, guardou incorrupta a sarça que ardia sem que a flor da virgindade se
secasse no parto.
A
definição da verdade: não errar no conhecimento do ser. O erro é uma ilusão que
se produz no pensamento a respeito do que não é, como se o que não existe
tivesse consistência, enquanto a verdade é um conhecimento firme do que
verdadeiramente existe. Alguém, depois de ter passado muito tempo em solidão,
embebido em altas meditações, conhecerá com esforço o que é verdadeiramente
existente, e o que é o não existente, isto é, aquilo que tem ser só em
aparência, ao ter uma natureza que não subsiste por si mesma (Ex 3, 14).
Moisés,
instruído pela teofania, compreendeu então que fora da causa suprema de tudo,
na qual tudo tem consistência, nenhuma das coisas que são captadas com os
sentidos e que se conhece com o pensamento tem consistência no ser. O
pensamento vê que nenhum dos seres é com tal suficiência que lhe seja possível
existir sem participar do ser. O que sempre é de igual forma, que não muda, é o
melhor; aquele que é participado por todos e que não fica diminuído com esta
participação, é o que verdadeiramente existe e cuja contemplação é o
conhecimento da verdade.
IX / X / XI / XII
O
ensinamento da verdade é acolhido segundo as disposições dos que recebem a
Palavra. Esta mostra a todos o que é bom e o que é mau. Quem é dócil àquilo que
lhe é mostrado tem a mente na luz; quem tem a disposição contrária e não aceita
que a alma olhe para a luz da verdade permanece na obscuridade da ignorância.
O
faraó não se endureceu por querer divino. Ser dirigido pela virtude e cair no
vício não se atribui a uma fatalidade estabelecida pelo querer divino: estas
diferenças no modo de viver surgem exclusivamente da livre escolha de cada um. Não
é uma irresistível força do alto que leva um a estar nas trevas e outro na luz:
nós temos dentro de nós, na nossa natureza e em nossa livre escolha, as causas
da luz e da escuridão, convertendo-nos naquilo que queremos.
Embora
a vida luminosa se apresente igualmente acessível a todos, os que caminham nas
trevas são empurrados à obscuridade do mal por suas práticas perversas,
enquanto os outros são iluminados pela luz da virtude. A dolorosa retribuição
pelo uso perverso da liberdade tem sua origem e causa em nós. Para quem vive
sem pecado, não existem as trevas, os vermos, a geena, o fogo (Mc 9, 43).
XIII / XIV / XV
Moisés
ou o que o imita elevando-se na virtude, com a iluminação recebida do alto,
considera como uma injustiça de sua parte não guiar os demais a uma vida livre.
Moisés infunde-lhes um desejo mais forte de liberdade, pondo diante deles a
gravidade dos padecimentos; perto de libertar o povo do mal, traz a morte a
todo primogênito egípcio (Ex 12, 29). Considerando a interpretação espiritual,
é mais razoável crer que o Legislador quis propor um ensinamento: quem se
empenha na luta da virtude contra o vício deve fazê-lo desaparecer em seus
primeiros brotos.
Quem
engendra o mal, antes do adultério, produziu o desejo; antes do crime, a
cólera; quem destrói o primogênito, destrói totalmente a descendência que o
segue, do mesmo modo que quem golpeou a cabeça da serpente matou, com o mesmo
golpe, o corpo que rasteja atrás. Isto não poderia acontecer se antes as
ombreiras das portas não tivessem sido borrifadas com o sangue que afugenta o
Exterminador (Ex 12, 23): pelo verdadeiro cordeiro, afasta-se a primeira
entrada do mal em nós; pois uma vez que o exterminador esteja dentro, não o
expulsaremos com um simples pensamento.
Mais
apropriada que a interpretação literal é a interpretação espiritual que exorta
aqueles que buscam uma vida libre através das virtudes a abastecer-se com a
riqueza estrangeira, para embelezar o divino templo do mistério com as riquezas
da inteligência, como fez o grande Basílio.
XVI / XVII / XVIII /
XIX
A
nuvem conduz ao mar (Ex 13, 21): o Espírito Santo conduz ao bem os que são
dignos. O que a segue atravessa a água, enquanto o guia abre nela uma passagem
estreita através da qual se caminha seguro até a liberdade, onde desaparece
debaixo da água aquele que perseguia para escravizar. Reconhece-se o mistério
da água a que alguém desce junto com todo o exército do inimigo e da qual
emerge só, depois de se afogar na água o exército inimigo (Ex 14, 26-30).
O
exército egípcio significa as diversas paixões da alma às quais se escraviza o
homem. Isto são os cavalos, os carros e os que montam; são os arqueiros, os
infantes e o resto do exército dos inimigos (Ex 14, 9). Nos três homens
montados no carro (Ex 14, 7), reconhecemos a tríplice divisão da alma:
racional, concupiscível e irascível. É necessário que quantos, no Batismo,
passam através da água sacramental, façam morrer na água todo o exército do
vício; a avareza, o desejo impuro, o espírito de rapina, a tendência à soberba
e à prepotência, o impulso à violência, a ira, o rancor, a inveja, os ciúmes...
Devemos afogar na água inclusive os maus movimentos da alma e suas sequelas. Comecemos
a vida nova sem resíduo de maldade. Afoguemos no Batismo salvador toda pessoa
egípcia, toda forma de maldade; devemos emergir sós, sem arrastar nenhum
estrangeiro.
XXII / XXIII / XXIV
A
montanha verdadeiramente escarpada e de difícil acesso designa o conhecimento
de Deus: a teologia.
Que
significa o fato de Moisés penetrar as trevas e nelas ver a Deus? O que se
narra aqui parece contrário à primeira teofania (Ex 20, 21). Então a Divindade
foi vista na luz; agora, nas trevas. Quanto mais se avança na contemplação,
mais se percebe que a natureza divina é invisível. Abandonando tudo o que é
visível, não só tudo o que está no campo da sensibilidade, mas também tudo
quanto a inteligência parecer ver, marcha sempre para o que está mais oculto,
até penetrar, com o trabalho intenso da inteligência, no invisível e incompreensível,
e ali vê a Deus. Nisto consiste o verdadeiro conhecimento do que buscamos, em
ver no não ver, pois o que buscamos transcende todo o conhecimento, totalmente
circundado pela incompreensibilidade como por trevas. Por esta razão disse o
elevado João que esteve nas trevas luminosas: a Deus nunca ninguém viu (Jo 1,
18), definindo com esta negação que o conhecimento da essência divina é
inacessível não só aos homens, senão também a toda natureza intelectual.
Moisés
cresce em conhecimento, confessa que vê Deus nas trevas, agora sabe que a
Divindade, por sua própria natureza, é algo que supera todo conhecimento e toda
compreensão (Ex 20, 21). Todo conceito, elaborado pelo entendimento com uma
imagem sensível para conhecer e alcançar a natureza divina, dá uma imagem falsa
de Deus, e não dá a conhecer o próprio Deus. Conhecê-lo consiste em não formar
nenhuma ideia d’Ele a partir das coisas conhecidas segundo a forma humana de
conhecer.
XXXVIII
Isto
é ver realmente a Deus: não encontrar jamais a saciedade do desejo. É
totalmente inevitável que quem o vir se inflame em desejos de o ver ainda mais.
Nenhum limite interromperá o progresso na ascensão a Deus, por não haver limite
no bem.
De
outro ponto de vista, a corrida é quietude. Coloca-te sobre a fenda (Ex 33,
21). Como a quietude é o mesmo que o movimento é o mais paradoxal de tudo. Quem
corre não está quieto e quem está quieto não marcha para cima; aqui, ao
contrário, o permanecer estável se origina do caminhar para cima. Quanto mais
sólida e firmemente alguém se mantém no bem, tanto mais consuma a corrida da
virtude. Quem é instável e vacilante quanto à base de suas convicções, por
carecer de uma segura estabilidade no bem, é sacudido pelas ondas e jamais
alcançará a virtude.

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