A filosofia já foi definida, especialmente
a partir de Platão, como uma tentativa de articular “o uno e o múltiplo”, ou
seja, a ciência que busca apreender a pluralidade da experiência na unidade da
razão. Multiplicidade, unidade e a dualidade entre ambas (ou no próprio
interior das coisas múltiplas) é uma característica recorrente na história das
ideias filosóficas.
Essa estrutura ternária de “unidade,
multiplicidade e dualidade” nas ideias é um reflexo dessas condições presentes
na realidade: as coisas mesmas são em alguma medida “unas” (substâncias/entes,
essências/espécies), “múltiplas” (pluralidade de “acidentes”/“notas” e de indivíduos), e “duais” (ato e potência,
ser e essência, forma e matéria).
A Revelação cristã, ao abrir-nos o Mistério
de Deus, que é Uno e Trino, manifesta que esta estrutura ternária do pensamento
e da realidade está radicada na Santíssima Trindade, em Deus que é Pai, Filho e
Espírito Santo, e que é o Fundamento desta realidade.
Assim, este pequeno texto é um intento de
compreensão filosófico-teológica desta estrutura, em sua vinculação com a
Trindade Criadora ou em seu afastamento do Deus Uno e Trino, através do modo
como esta estrutura se expressou e se expressa no pensamento filosófico, na
realidade criada, na vida humana. No final, o texto trará uma consideração a
respeito dos aspectos espirituais implicados nesta estrutura.
1. A estrutura ternária na filosofia grega
A ideia aqui não é realizar um estudo
profundo do pensamento grego, mas simplesmente descrever as principais noções dos
primeiros filósofos, para abstrair esta estrutura ternária, que assim ficará
bem delineada.
a) Os milesianos
Tales, o iniciador da
filosofia da physis, afirmou pela primeira vez a existência de um
princípio único: a “água”. Também afirmou que “o mundo está cheio de deuses”. E
que “o ímã possui alma, porque é capaz de mover” (portanto, a alma é princípio
de movimento).
Segundo Reale, o “princípio” (termo que
Tales não usa) é: (a) fonte e origem de tudo; (b) sustento das coisas; (c) foz
ou termo último das coisas. Para Xavier Zubiri, em sua famosa nota sobre o “físico”
em Sobre la esencia, tal princípio foi denominado physis,
“natureza”, no sentido “daquilo que brota de si mesmo”, que “é raiz de suas
propriedades”. Para Aristóteles, na Metafísica, Tales tirou sua
convicção “da constatação de que o alimento de todas as coisas é úmido... de as
sementes de todas as coisas têm uma natureza úmida, e a água é o princípio da
natureza das coisas úmidas”. Segundo Nietzsche, Tales teria querido dizer que
“Todas as coisas são um”.
Anaximandro introduziu
o termo arché (“princípio”) para designar a physis. Seu princípio
era o ápeiron: o “ilimitado” ou “infinito” (o “sem forma”: peras
é o limite ou determinação interna; trata-se do “sem essência”), o
“indeterminado”, espacialmente e qualitativamente. O ápeiron é “divino”,
ao ser imortal e indestrutível (não um “Deus” pessoal); envolve, e rege todas
as coisas.
As coisas nascem por uma separação de
contrários do princípio uno: tal nascimento é uma “culpa” e uma “injustiça” (a
dos contrários que querem se impor), que é expiada no tempo, “juiz” que
assinala um limite a um e a outro dos contrários (provável influência órfica);
há um ciclo infinito (“eterno retorno”).
Para Anaxímenes, o
princípio é infinito (em grandeza), mas não indeterminado: é o “ar”. Do ar as
coisas segundo o grau de rarefação e condensação: dilatando-se origina o fogo,
condensando-se dá origem ao vento e depois às nuvens, e em grau maior de
densidade forma a água, depois a terra e as pedras, as outras coisas vindo
depois.
O ar se presta a variações melhor que
outras coisa; “nossa alma é ar”, e o ser vivo vive enquanto respira. O ar é
próximo do incorpóreo, é “invisível”, imperceptível, exprime a ausência de
limites; ele é também dotado naturalmente de movimento.
Anaxímenes acrescenta uma explicação
lógica do “processo” de formação das coisas: a condensação e a rarefação do ar
(causa dinâmica); a explicação de como a diferença qualitativa das coisas
deriva de uma diferença quantitativa do princípio originário.
A partir dos milesianos, podemos concluir:
(1) O “monismo” do “princípio único” ao
qual a realidade se reduz.
(2) O “naturalismo” imanentista, porém não
“materialista”, no sentido de que os pré-socráticos, em geral, estão aquém do
problema da distinção entre “matéria” e “espírito”.
(3) Mesmo com o monismo, aparece uma
graduação: (a) o monismo é uma unidade estrita em Tales; (b) há uma
certa dualidade no monismo de Anaximandro, pela separação dos
contrários (que retornam à unidade com o tempo juiz); (c) já há uma certa pluralidade
em Anaxímenes, com a derivação dos demais elementos a partir do
princípio aéreo.
b) Eleatas, Heráclito e Pitagóricos
Para Parmênides, há a “via da
verdade” (ou via do ser) e a “via da opinião dos homens” (ou via da aparência)”:
assim, a “única” realidade é o “ser” que subjaz às aparências/mudanças físicas.
Segundo Heráclito, “tudo muda”
(devir permanente), há uma “luta de opostos” em “guerra perpétua”, porém, há
uma “harmonia dos contrários”: a doença torna doce a saúde, a fome, a
saciedade, a fadiga, o repouso; não haveria justiça se não houvesse ofensa.
Ele afirma também que se deve “confessar
que todas as coisas são um”, que “os que vigiam tem um mundo comum, mas os que
dormem se voltam cada qual a seu mundo particular”.
Finalmente, o “fogo” é o arché que
manifesta simultaneamente o devir constante e a unidade de contrários.
Em Pitágoras, o princípio das
coisas é o “número”, mas o princípio dos números é o “ilimitado” (indeterminado
ou infinito) e o “limite” (determinante), que os números sintetizam. O universo
pitagórico é marcado pela “harmonia” dos elementos, e assim é um “cosmo” (ordem)
cognoscível ou inteligível (divino).
Ademais desta “pluralidade” de
elementos/números, a própria doutrina da “metempsicose” (reencarnação) também
acentua a “pluralidade” na/da existência.
Conclusões a partir dos eleatas, Heráclito
e dos pitagóricos:
(1) A “unidade”
permanece presente, especialmente em Parmênides, onde ela é forte; em Heráclito
há uma unidade subjacente ao conflito; e em Pitágoras a unidade numérica que se
pluraliza.
(2) Porém, acentua-se mais a “dualidade”:
(a) o ser único x a diversidade de opiniões (aparências); (b) os contrários em
guerra; (c) o limite x o ilimitado.
(3) Também aparece a pluralidade: (a)
das opiniões em Parmênides; (b) dos contrários em Heráclito (ademais da
infinita variação do devir constante); (c) dos números, obviamente, em
Pitágoras.
c) Anaxágoras, Empédocles e Atomistas
Em Anaxágoras, os elementos
são infinitos, as “homeomerias”: elas estavam mescladas caoticamente,
separaram-se e formaram várias formas (“há de tudo em tudo”), pela
“inteligência divina” (causa final), que é uma “inteligência impessoal” (Julián
Marías).
Os atomistas consideram que os
princípios são os “átomos”, as partes indivisíveis, de distintas formas, que
dão suas qualidades; movem-se em redemoinho e se unem de diversas formas,
produzindo as coisas (há muitos mundos). Cada um dos átomos tem os atributos do
ente de Parmênides.
Este é o primeiro “materialismo” estrito.
O movimento é sobretudo o “local”, e os átomos estão no “vazio” (o espaço,
não-ser relativo).
Para Empédocles, os princípios
são as “4 raízes” (os quatro elementos: ar, fogo, água e terra) eternas e
opostas. E o movimento se dá por outros dois princípios: o “ódio” que
separa e o “amor” que junta. Há a esfera mesclada, o ódio e separação, o
domínio do ódio, e o amor que reúne as coisas.
Conclusões a partir de Anaxágoras,
Empédocles e atomistas:
(1) A “pluralidade” é a tônica: (a)
as “homeomerias” em Anaxágoras; (b) os “4 elementos” em Empédocles; (c) a
diversidade de “átomos”.
(2) Mas aparece também a dualidade:
a inteligência e as homeomerias, o amor x o ódio, os átomos e o vazio.
(3) E a unidade: a “inteligência”,
a unidade pelo “amor”, cada átomo é como o ser parmenídico.
d) A filosofia grega clássica: Sócrates, Platão
e Aristóteles
Nestes três eminentes filósofos, irei me
ater ao essencial para esta investigação: a descoberta da “alma individual” em
Sócrates, das “Ideias” imutáveis e do “Bem” Divino em Platão, e da
“substancialidade” das coisas do mundo em Aristóteles.
Sócrates perguntava-se
pela natureza do “homem”: “o homem é sua alma”, enquanto a razão ou a sede de
nossa atividade pensante e eticamente operante (o corpo é “instrumento” da
alma). Daí que a tarefa principal da filosofia seria ensinar os homens a
cuidarem de sua alma. Há, em Sócrates, a esperança de “imortalidade”.
A “unidade” que interessa é a da alma, na
qual o mundo das coisas adquire seu sentido e seu valor. A “virtude” do homem
(a atividade que o aperfeiçoa) é o “conhecimento” (dos valores da alma, das
ações que a enobrecem), e o “vício” é a “ignorância”.
Platão descobre as
“Ideias”: as realidades sensíveis “participam” ou têm seu ser de “realidades
inteligíveis”, imutáveis e separadas das coisas (ex.: as diversas coisas
sensíveis “belas” participam da Ideia de “Beleza” etc.). Acima do mundo
inteligível das Ideias plurais, há a Ideia além de toda “essência”
(determinada), que é o “Bem”.
A articulação ou dualidade do mundo
sensível e do Mundo Inteligível não é conflitiva: o mundo diverso e “participado”
não é mau e não está, em si mesmo, em “conflito” com o céu das Ideias ou do
“Ser” imóvel; não é fruto de uma “queda”, mas, como se lê em Timeu, de
uma positiva e boa fabricação do Demiurgo, conforme as Ideias. Em A
República: o corpo é visto em seu papel de instrumento para a realização da
alma, com ela deve ser educado. A “metempsicose” em Platão não implica um
progresso necessário ou uma necessária participação da alma no mundo divino (uma gnose):
ele também apresenta o risco de uma condenação definitiva para o homem (tanto
no mito de República como nos mito de Fédon).
Em Aristóteles, as “4 causas”
retomam de maneira metafísica a temática dos “elementos”, em sua “pluralidade”.
As causas eficiente, formal, material e final “lembram” os elementos físicos: o
“fogo”, que funciona como “causa eficiente” (sic) que aquece e amolece a
“terra” dura ou o “material” (sic); a água molda ou “enforma” esta terra
amolecida e receptiva, adequando-a à ideia ou “fim”, representada pelo elemento
“aéreo” (o sopro ou “espírito”).
O “mundo” sensível em Aristóteles, através
da doutrina do “hilemorfismo”, pela qual todas as coisas sensíveis são formadas
de “matéria” e “forma”, possui, por esta última, aquela “inteligibilidade” dos
pitagóricos.
Se Sócrates descobre a alma como “imagem”
de um mundo superior, e Platão, a possibilidade de que esta alma adquira a
“semelhança” com este mundo divino, Aristóteles, observa o mundo enquanto
dotado de “vestígios” (S. Boaventura) desse mundo celeste: as “formas”,
causadas pelo “movimento” perene das Substâncias Separadas que movem os céus, e
pelo Motor Imóvel que move estas Substâncias.
A partir de Sócrates, Platão e Aristóteles,
há uma articulação e harmonização mais perfeita entre “unidade”, “dualidade” e
“pluralidade”, que pode ser vista muito bem nos dois que desenvolveram mais
sistematicamente o pensamento filosófico:
(1) Em Platão, a Unidade do Bem, a
pluralidade das Ideias e das almas e a dualidade de mundo inteligível e mundo
sensível.
(2) Em Aristóteles, a Unidade do Motor
Imóvel, a pluralidade das Substâncias separadas e formas substanciais, e a
dualidade do hilemorfismo.
* * *
Esta estrutura ternária, de unidade,
dualidade e pluralidade, está presente na filosofia originária dos gregos. Também
no helenismo: nos céticos prevalece uma unidade indiferenciada, bem
caracterizada pela afasia, nos estoicos e epicuristas vemos a dualidade e a
pluralidade: a dualidade de matéria e Logos divino, ou de átomos e
vazio, e a pluralidade de razões seminais ou de átomos infinitos. Ela é uma constante
na história das ideias da humanidade, como poderemos ver, e não é casual, por
exemplo, que o idealismo hegeliano manifeste esta estrutura, ou que sejam 3 as “críticas”
kantianas. Vejamos brevemente alguns exemplos nas religiões
orientais e na filosofia moderna.
No hinduísmo nós temos: (a) a unidade de brahman,
(b) a dualidade de atman e maya, (c) a
multiplicidade no mundo e os múltiplos deuses da via devocional. E no taoísmo: (a)
a unidade do tao indiferenciado, (b) a dualidade de yin e yang,
(c) a multidão de coisas.
No racionalismo nós temos: (a) o monismo substancial
de Spinoza; (b) o dualismo entre res cogitans e res
extensa em Descartes; (c) o pluralismo das mônadas
em Leibniz. E no empirismo: (a) o “nada” de substâncias em Hume; (b) o dualismo
entre o espírito e a percepção em Berkeley; (b) o pluralismo das qualidades
primárias em Locke.
Na realidade, esta estrutura, bem compreendida
em seus fundamentos, e tendo presente que seus momentos não são estanques e
incomunicáveis, explica toda a diversidade de sistemas
filosóficos, religiosos, políticos... Isto é assim porque a estrutura está radicada no Fundamento da realidade, que é Deus, Santíssima
Trindade, segundo a Revelação cristã. Também os erros se apoiam na estrutura da
realidade, porém enquanto ela foi corrompida pelo pecado, de acordo com a mesma
Revelação.
Esta estrutura expressa o Princípio
Divino, a alma e o mundo em face deste Princípio, e a pluralidade de almas e
coisas mundanas. As duas interpretações fundamentais dessa estrutura, que se
opõem, são o Cristianismo e aquilo que eu tenho chamado de “sistema do mundo”.
O primeiro tem uma interpretação unitária da
criação, na qual há a visão de três aspectos da realidade, que são
expressamente isso, ou seja, aspectos da riqueza do real: (a) monoteísmo em que
o Princípio Transcendente é Criador distinto da criação; (b) criação boa; (c) entes
subsistentes dependentes do Princípio.
Já o segundo interpreta a realidade em
três modalidades principais distintas, mas que compõem um único sistema de
ideias: (a) o agnosticismo da Transcendência (que redunda na dispersão na
multiplicidade de coisas); (b) o gnosticismo dualista (que na contemporaneidade
redunda no ateísmo); (c) e o monismo panenteísta.
Uma palavra sobre o "panenteísmo": o "panteísmo" se define pela identidade entre o divino e o mundo, enquanto no panenteísmo o mundo e o homem só são divinos pelo ápice, pelo "ser", pelo "espírito". Para aprofundamento, indico este meu artigo recente: https://ictys.blogspot.com/2020/07/sobre-o-panenteismo_11.html. Na realidade, é o conceito de "panenteísmo" que se aplica melhor a muito do que foi classicamente considerado como "monismo" ou "panteísmo", como o bramanismo ou o neoplatonismo, por exemplo.
Uma palavra sobre o "panenteísmo": o "panteísmo" se define pela identidade entre o divino e o mundo, enquanto no panenteísmo o mundo e o homem só são divinos pelo ápice, pelo "ser", pelo "espírito". Para aprofundamento, indico este meu artigo recente: https://ictys.blogspot.com/2020/07/sobre-o-panenteismo_11.html. Na realidade, é o conceito de "panenteísmo" que se aplica melhor a muito do que foi classicamente considerado como "monismo" ou "panteísmo", como o bramanismo ou o neoplatonismo, por exemplo.
2. A Revelação da Santíssima Trindade
a) O que é “Revelação”?
O Concílio Vaticano I assim definiu a
noção de “Revelação”:
A mesma Santa Igreja crê e ensina
que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza
pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas; pois as
perfeições invisíveis tornaram-se visíveis depois da criação do mundo,
pelo conhecimento que as suas obras nos dão dele[Rom 1,20]; mas que aprouve
à sua misericórdia e bondade revelar-se a si e os eternos decretos da sua
vontade ao gênero humano por outra via, e esta sobrenatural, conforme
testemunha o Apóstolo: Havendo Deus outrora falado aos pais pelos
profetas, muitas vezes e de muitos modos, ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo
Filho [Heb 1,1 s; cân. 1].
[...] Deus, em sua infinita
bondade, ordenou o homem para o fim sobrenatural, isto é, para participar dos
bens divinos, que estão inteiramente acima da compreensão humana [cf. 1 Cor
2,9; cân. 2 e 3].
A respeito desta
Revelação divina, diz ainda Santo Tomás de Aquino:
Para a
salvação humana foi necessário que, além das matérias filosóficas, cujo campo
analisa a razão humana, houvesse alguma ciência cujo critério fosse o divino. E
isto é assim porque Deus, como fim ao que se dirige o homem, excede a compreensão
à que pode chegar só a razão. […]. Mais ainda, o que de Deus pode compreender a
razão humana só, também precisa a revelação divina, já que, com a razão humana
só, a verdade de Deus seria conhecida por poucos, depois de muita análise e com
resultados plagados de erros. E, entretanto, do exato conhecimento da verdade
de Deus depende a total salvação do homem, pois em Deus está a salvação (S.Th. I, q1, a1).
O filósofo contemporâneo Xavier Zubiri nos
diz: “não está excluído a priori que [...] a realidade divina tenha
caracteres de manifestação que excedam o que a pura inteligência poderia dizer
acerca de Deus. E isto é o que num sentido mais temático pode e deve
chamar-se revelação” (ZUBIRI.
El problema filosofico de la historia de las religiones, Madrid:
Alianza, 1993, p. 82).
A respeito da Santíssima Trindade, o Catecismo
da Igreja Católica diz:
[...] “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16):
a própria essência de Deus é Amor. Ao enviar, na plenitude dos tempos, o seu
Filho único e o Espírito de Amor, Deus revela o seu segredo mais íntimo: Ele
próprio é eternamente permuta de amor: Pai, Filho e Espírito Santo; e
destinou-nos a tomar parte nessa comunhão (Catecismo da Igreja Católica,
n. 221)
O mistério da Santíssima Trindade é
o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. E,
portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. É
o ensinamento mais fundamental e essencial na “hierarquia das verdades de fé” [...]
(n. 234).
[...] É verdade que Deus deixou
traços do seu Ser trinitário na obra da criação e na sua revelação ao longo do
Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santíssima
constitui um mistério inacessível à razão sozinha e, mesmo, à fé de Israel
antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo (n. 237).
b) A Trindade e as estruturas ternárias da
realidade
A Revelação, ao manifestar a Vida íntima
de Deus, o Princípio, também manifesta a estrutura mais íntima da realidade
criada à imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Assim, do ponto de vista psicológico: (1)
a memória (no sentido agostiniano), onde habitam os princípios intelectivos e
morais da realidade, é a expressão espiritual do Ser que é o Pai; (2) a inteligência,
a expressão espiritual da Verdade que é o Filho; (3) e a vontade, a expressão
da Bondade que é o Espírito. De outra perspectiva: o coração, enquanto é o
termo da ação inteligente e volente, representa o Espírito Santo, união amorosa
do Filho/Verdade e do Pai/Bem.
Do ponto de vista natural, a matéria é:
(1) líquida, e o elemento "água" remete à "Fonte" que é o
Pai; (2) sólida, e o elemento "terra" remete à "Encarnação"
do Verbo; (3) gasosa, e o elemento "ar" remete ao "Sopro"
que é o Espírito. O "fogo" ("energia”, “ser”) e a
"luz" (“inteligibilidade”, “forma”) são condições transcendentais da
matéria e da criação.
Não é uma estrutura dialética de
"tese-antítese-síntese", mas são momentos complementares da
realidade: início, meio e fim. Tampouco são momentos estanques, porque as
Pessoas divinas, pela pericoresis, estão umas nas outras.
A “verdade”, tal como é apresentada por
Santo Tomás no seu De Veritate, também apresenta uma estrutura ternária
(não poderia ser diferente). Vejamos as definições que
o Doutor Angélico recolhe:
(1) A primeira definição assenta no que
precede a noção de verdade e fundamenta o verdadeiro: “Verdadeiro é o que é” (Agostinho);
“A verdade de qualquer coisa é a propriedade do ser que lhe foi assinalada”
(Avicena).
(2) A segunda assenta naquilo em que
formalmente se realiza a noção de verdadeiro: “A verdade é a adequação da coisa
e do intelecto” (Ysaac Israeli); “A verdade é a retidão perceptível só pela
mente” (S. Anselmo); “Definimos o verdadeiro quando dizemos que é aquilo que é
ou que não é aquilo que não é” (Aristóteles).
(3) A terceira assenta no efeito
consequente: “O verdadeiro é declarativo e manifestativo do ser” (S. Hilário);
“A verdade é aquilo pelo qual se mostra o que é” (Agostinho), ou “Aquilo pelo
qual julgamos as coisas inferiores” (idem).
Suas três definições decorrem das três
maneiras fundamentais em que consideramos a “verdade” (segundo Zubiri): (1)
verdade como “fidelidade aos fatos” (como oposta à “mentira”); (2) verdade como
“autenticidade” (como oposta à “falsidade”); (3) verdade como “revelação” (como
oposta à “dissimulação”).
Temos assim: (1) o ser verdadeiro em
sua efetividade, que remete ao Pai; (2) o ser verdadeiro em sua imagem
intelectual, que remete ao Filho; (3) o ser verdadeiro em sua abertura
comunicativa, que remete ao Espírito.
Do ponto de vista dos princípios intelectivos da
realidade:
(1) o Pai, chamado simplesmente “Deus”, o “Ser”
Subsistente, é o Fundamento do "princípio de identidade" (“O ser é e
o não-ser não é”);
(2) o Filho é o Fundamento do "princípio da
causalidade" (“Tudo que se origina tem uma causa”), pois se pode dizer
impropriamente que Ele é "causado" enquanto gerado eternamente, e Ele
é a Causa Exemplar de tudo, enquanto Logos ou Verbo Eterno;
(3) o Espírito Santo é o Fundamento do
"princípio da não-contradição" (“O ser não pode ser e não ser sob o
mesmo aspecto e ao mesmo tempo”): Amor Eterno que, na Trindade, une na
mesmidade divina e distingue na alteridade pessoal, e que, na economia da
salvação, santifica o pecador, torna forte o fraco, eleva o humilde, enriquece
o pobre de espírito...
Do ponto de vista dos princípios intelectivos morais:
(1) Deus é o Bem, é o Fim que nos atrai a realizar
o bem, e o Pai Nosso que nos livra do mal (“O bem deve ser feito e o mal deve
ser evitado”);
(2) o Filho, Imagem do Pai, é o Meio de Salvação (“O
mal nunca pode ser feito para obter o bem” ou “O fim não justifica os meios”);
(3) o Espírito é o Amor que acende o amor, que dobra
a dureza do coração e o faz sincero (“Faz aos demais o [bem] que queres que te
façam”).
3. O “sistema do mundo”
Diz S. João Evangelista em sua Primeira Epístola: “Porque
tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos
olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo
passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece
para sempre” (1Jo 2,16-17).
Com um excelente resumo, Cornélio à Lápide nos
ajuda a ter uma visão sinótica das concupiscências:
A serpente tentou Adão e Eva com três concupiscências:
a) com a concupiscência da carne, solicitando-lhe
para que comessem a fruta proibida;
b) com a concupiscência dos olhos, prometendo-lhes
falsamente que seus olhos se abririam;
c) com a concupiscência do orgulho, dizendo-lhes:
Sereis como deuses.
O demônio tentou a Jesus Cristo com três concupiscências:
a) com a concupiscência da carne, dizendo-Lhe: Mandai
que estas pedras transformem-se em pães;
b) com a dos olhos, dizendo-Lhe: Eu vos darei
todas essas coisas, se vos prostrardes diante de mim e me adorares; e
c) enfim, pela concupiscência do orgulho da vida,
quando lhe instou a que Se precipitasse desde o alto do pináculo do Templo,
prometendo-Lhe que os Anjos receberiam-No em suas mãos.
Esta tríplice concupiscência é contrária à Santíssima
Trindade:
a) a dos olhos, que é a avareza, é contrária a Deus
Pai; porque Ele é liberalíssimo e comunica sua essência e tudo o que tem ao
Filho, ao Espírito Santo e, por participação, às criaturas.
b) A concupiscência da carne é contrária ao Filho,
cuja geração não é carnal, mas espiritual.
c) O orgulho da vida o é ao Espírito Santo, que é
Espírito de humildade e de doçura.
a) As concupiscências
Seguindo a concupiscência dos olhos e a
avareza, a vida humana se move preferencialmente pelos sentidos externos,
especialmente a visão, e se atém à pluralidade dos entes do mundo
(que se convertem em ídolos), ignorando o Deus Transcendente, isto é, caindo no
agnosticismo.
Antes da Revelação Cristã, o agnosticismo da
Transcendência, somado à estranheza do mundo, redundava nas mitologias
politeístas; após o Cristianismo, o reconhecimento da bondade fundamental e da
ordem da criação material substitui o pensamento mítico fantástico ou
imaginativo pelo empirismo, o destino fatalista pelo deísmo,
e o oráculo pela lei da natureza.
Ainda, antes da Revelação da pessoa, a ignorância
da dignidade humana redundava na economia escravagista; mas a Modernidade, que
se tornou agnóstica das Pessoas Divinas, não pode prescindir da liberdade
pessoal na política e no comércio: eis o liberalismo [ideal de liberdade
da Revolução Francesa].
Atendendo à concupiscência da carne, a vida
humana se move preferencialmente em função das paixões (desejos), e se
atém à alternância entre a satisfação e a carência, ou à dúvida entre uma
opinião e outra, vivendo em conflito e negando a bondade da criação
presente, não vendo nela a “imagem” do Logos Divino, cuja Encarnação é
negada, como o qual se cai no dualismo gnóstico.
Antes da Revelação ou em conflito com a religião
católica enquanto religião, o gnosticismo era uma visão estritamente religiosa
revoltada contra o Deus criador deste mundo (Deus e mundo tidos como “maus”), postulando
uma divindade alternativa; depois da Revelação da mens humana como imagem de
Deus, da promessa do Reino e da glorificação do mundo material,
a negação do Logos Encarnado redundará na sobrevalorização da razão
humana (racionalismo), capaz de racionalizar os recursos, mensurar e
evidenciar a realidade, explicar tudo logicamente, alcançando a almejada paz.
Assim haverá uma transformação no próprio dualismo,
que se apresentará, primeiramente como o panteísmo de Spinoza, que
Jacobi considerará ateu [o que é certo, na medida em que nega o Deus
Transcendente Criador, que é o Único Deus verdadeiro], e depois se mostrará claramente
como ateísmo no socialismo, em busca da sociedade justa e igualitária
[ideal de igualdade da Revolução Francesa].
O dualismo se apresenta agora como: (a) dualismo entre
as condições presentes e a utopia (científica ou político-econômica);
(b) dualismo entre os revolucionários que lutam pela utopia e aqueles que se
interpõem em seu caminho. A propósito, para Eric Voeglin, as utopias modernas
revolucionárias teriam sido inspiradas pelo gnosticismo do “terceiro reino” do herético
abade medieval Joaquim de Fiori.
Através da soberba da vida (ou orgulho da
riqueza), a vida humana se move preferencialmente pela intuição sentimental,
e se atém à individualidade [supostamente] autossuficiente, negando [sutilmente]
o valor dos demais, o que é negar o Espírito Santo; por fim, o soberbo nega-se desesperadamente
a si mesmo.
Antes da Revelação da comunidade eclesial irmanada
no Espírito Santo, essa atitude só podia levar aos monismos negadores
do mundo sensível, e à religiosidade panenteísta [a divindade como “espírito”
do homem e “ser” do mundo], de afastamento orgulhoso do mundo [não para vencer
o amor-próprio com a Graça sobrenatural, mas para a dissolução da personalidade
na “divindade impessoal”]. Após a Revelação do Divino Paráclito, os “espíritos
[que se consideram] elevados”, pelo “contato com o numinoso” (Rudolf
Otto), devem agora “conduzir os destinos dos povos”, seja formando a imaginação
pela arte (romantismo), seja inserindo joio gnóstico na religião
do povo, seja influenciando uma política nacionalista [ideal de fraternidade
da Revolução Francesa].
O ápice da cosmovisão fundada na soberba da vida
são os totalitarismos do século XX (o nazismo e o comunismo).
Segundo Hannah Arendt, o tripé do totalitarismo é formado pela polícia, a
propaganda e o terror, e assim podemos constatar que a ordem da realidade é
substituída pela ordem ideológica sob vigia, o pensamento lógico-científico é
substituído pela retórica ideológica, e o tremendum (Otto) é substituído
pelo medo terrificante produzido pela liderança totalitária, que anula as
pessoas massificadas.
Obviamente, as concupiscências se interpenetram,
nas pessoas e nos subsistemas por elas gerados; é a perspectiva analítica que
requer as distinções acima. Os três subsistemas constituem, como já disse, um único sistema, que é o "sistema
do mundo".
b) Síntese
Este sistema do mundo aqui apresentado é confirmado
pela apresentação que S. Pio X faz do sistema filosófico do “modernismo” na
encíclica Pascendi. Suas três notas constitutivas são:
(1) agnosticismo;
(2) imanência do divino;
(3) "sentimento religioso".
Este sistema do mundo ou sistema modernista está radicado:
(1) na concupiscência dos olhos (no desejo de ter);
(2) na concupiscência da carne (no desejo de prazer);
(3) na soberba da vida (no desejo de poder).
Estas concupiscências corrompem:
(1) a faculdade da inteligência;
(2) a faculdade da vontade;
(3) o coração (o fundo da alma ou o próprio espírito,
que se perde).
E os símbolos máximos dessa corrupção aparecem
nomeados no Apocalipse como:
(1) a Besta da Terra (ou Falso Profeta);
(2) a Besta do Mar (o Leviatã);
(3) o Dragão.
Os partidos judaicos da época de Jesus também são
explicados pelo sistema do mundo:
(1) os fariseus (conservadores) e seu apego
à lei exterior;
(2) os saduceus (progressistas) e seu mundanismo,
a negação da ressurreição da carne;
(3) os zelotas (tradicionalistas) e seu orgulho
pelo Templo.
O sistema modernista é "a síntese de todas as heresias" precisamente porque suas características essenciais são as características essenciais do sistema do mundo. Assim, o sistema do mundo determina a tipologia de todas as heresias. Vejamos dois exemplos.
As heresias cruciais derrotadas nos primeiros concílios ecumênicos:
(1) Arianismo, que nega Deus Pai, ou o conhecimento de Deus, ao negar a Divindade de Cristo (na esteira do adocionismo);
(1) Arianismo, que nega Deus Pai, ou o conhecimento de Deus, ao negar a Divindade de Cristo (na esteira do adocionismo);
(2) Nestorianismo, que afirma a dualidade
de pessoas em Cristo, o que no fundo nega a Encarnação;
(3) Monofisismo, que afirma só a Natureza
Divina em Cristo, suprimindo-lhe a realidade humana/criada.
As principais heresias enfrentadas por
Santo Agostinho:
(1) Pelagianismo, que afirma as próprias
forças naturais, e não conhece a Graça como tal;
(2) Maniqueísmo (na esteira do docetismo e
dos gnosticismos do séc. II);
(3) Donatismo, que nega o perdão (na
esteira de Judas e do montanismo).
Para terminar, vejamos como as inclinações das concupiscências
podem ser vencidas com a Graça de Deus, e nossas faculdades reorientadas ao
Criador, para que façamos a Divina Vontade e não pereçamos com o mundo, mas permaneçamos
em Deus.
4. A modo de
conclusão: o combate espiritual
No primeiro domingo
da Quaresma, sempre ouvimos sobre as tentações de Cristo (cf. Lc 4,1-13; Mt
4,1-11). Nosso Senhor nos ensina as armas para vencer o Diabo: não dialogar com
o Tentador (o Diabo é muito astuto), mas tendo no coração e nos lábios a
Palavra de Deus, e colocando toda a confiança em Deus [sobre os vícios
capitais: cf. JOÃO CASSIANO. Instituições Cenobíticas (Parte II). Juiz
de Fora: Subiaco, 2015, pp. 123-316; Pe. PAULO RICARDO. Um olhar que cura:
terapia das doenças espirituais. 6a ed. São Paulo: Canção Nova, 2009, pp.
11-40].
Primeiramente, o
Diabo tenta Jesus pela gula e a solução fácil do milagre em proveito próprio. A
comida é a necessidade mais básica do ser humano, mas a resposta de Jesus
manifesta que o corpo não é a única realidade no homem: Nosso Senhor coloca
toda sua Esperança na Providência do Pai, confia-lhe a vida temporal, pois a
quem é fiel não faltarão os recursos, como indica a citação que Jesus faz do
Deuteronômio (8,3), em que Deus “provou” tanto seu povo fiel quanto seu amor
fiel no deserto, e lhe deu o maná do céu.
Quem luta contra a
gula e o comodismo não terá problemas com a luxúria, ensinam os Padres da
Igreja: quem não permite que o ventre o domine, quem não busca soluções fáceis,
não será vencido pelo demônio da luxúria ou desordem sexual. Estes dois vícios
capitais se referem à desordem da sensualidade e da vontade (que é tendente,
como ensina Zubiri), à busca do prazer corpóreo como o bem do homem. O jejum
nos permite, com o apoio da Graça, vencer a gula, e, em consequência, a
luxúria. Também a resposta de Cristo nos remete ao Pão da Palavra e ao Pão Eucarístico,
que recebemos na Santa Missa.
A segunda tentação
(em Mateus é a última) é da avareza (a promessa de todos os bens e reinos
terrenos): todos necessitamos, além do básico, de bens materiais para a boa
vida neste mundo, mas a tentação consiste em colocar toda a confiança nas
coisas visíveis e em sua posse, e no dinheiro que os obtém, o qual embota a
sensibilidade e a inteligência para as realidades invisíveis e sobrenaturais.
O apego ao dinheiro
é a fonte de todos os males, ensina a Escritura (1Tm 6,10); não se pode servir
a Deus e ao dinheiro (Mt 6). Este vício se refere à desordem da percepção e
da inteligência (que é senciente, como ensina Zubiri), que reconhece
a felicidade na posse de bens materiais e do dinheiro que os obtém. A esmola,
bem como a caridade em geral, nos permite, com a Graça, vencer a avareza; bem
como ver, além das aparências do pobre assistido, o Rosto do Senhor (cf. Mt
25).
A terceira tentação
(a segunda em Mateus) é da vanglória: o reconhecimento alheio é uma necessidade
psicossocial fundamental; mas a ostentação das próprias qualidades e virtudes é
uma deturpação da vocação e dos dons divinos (não se trata de uma vaidadezinha
infundada, mas da exibição orgulhosa das qualidades reais), e Jesus nos alerta
que devemos nos colocar sob o domínio de Deus, e não pensar que podemos
manipular a Graça.
Quem vence a
vanglória (e a avareza) não será tentado pela soberba, em que o homem se
apropria indevidamente da condição divina à qual é chamado, mas que não lhe é
um direito, e sim fruto da liberalidade divina e da cooperação amorosa e
humilde com a Graça. Este vício da vanglória se refere à desordem do coração,
do próprio espírito, que deixa de referir o bem humano ao Bem. Jesus,
manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.
A oração nos
permite, com a Graça, vencer a vanglória, porque ela dá a devida glória a Deus
e O reconhece como a Causa de todo o nosso bem. Diz Santo Irineu de Lyon que “a
glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”: então a
glória de Deus resplandece no homem que vive em Face de Deus, e não naquele que
se revolta contra Ele. A oração deve nos converter a Deus: por ela, assumimos a
Mente de Cristo e assim nos conhecemos como somos (cf. Rm 12,2-3),
revestindo-nos de humildade, permanecemos firmes na fé e vigilante contra o
demônio, para que sejamos exaltados por Deus à glória à qual nos chama (cf.
1Pe 5, 5-11).
Somente a pessoa
que ora e guarda seu coração em Deus é capaz de vencer a astúcia do Diabo, que
é capaz de se tornar até um exegeta (intérprete) da Escritura Sagrada para
fazer os filhos de Deus caírem (como, de resto, fazem todos os hereges);
somente quem reza se salva, diz Santo Afonso de Ligório.
Combatendo estes
três combates, combatemos indiretamente o vício capital da ira, o qual acomete
aos que estão lutando por satisfação do estômago e da genitália, pela segurança
financeira e pela fama e a falsa glória. Também combatemos os vícios capitais
da tristeza (a inveja pelo bem que não temos) e da acídia (a preguiça ou o
tédio espiritual pela insatisfação com os vícios anteriores não enfrentados com
resolução), e assim nos afastamos da desesperança a que estes vícios conduzem, e
a Fé nos guarda pelo poder de Deus para a salvação (cf. 1Pe 1, 5).

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