Thursday, March 31, 2016

Vittorio Messori sobre o islã (3)

Islã/3

“A partir da metade do ano 600 (continuamos com o tema anterior) os árabes muçulmanos saem das bases egípcias e penetram no norte da África “latina”, superando o que havia sido a fronteira entre o Império romano do Oriente e do Ocidente.

Como ocorrera no Egito, as escassas tropas do Império bizantino quase não opuseram resistência, entre outras razões por estar completamente isoladas de suas bases no remoto Bósforo. Em contrapartida, as comunidades cristãs locais tentam organizar a defesa, provavelmente mais preocupadas com a fama de saqueadores e estupradores dos árabes que pelos aspectos religiosos. Com efeito, como já assinalamos e convém não esquecer, o islamismo era uma novidade absoluta, não muito compreensível, pois o profeta havia morrido há apenas dez anos e muitas partes do Alcorão ainda não haviam sido postas por escrito, estando confiadas à memória dos discípulos. Portanto, ainda não se havia forjado o conjunto de escritura e tradições muçulmanas que nós, com a consciência atual, conhecemos perfeitamente.

De todos os modos, as numerosas e poderosas comunidades judias se constituem em uma força secreta de apoio, de certa forma por ódio para com os cristãos e especialmente para com a Constantinopla que lhes humilhava, mas também por solidariedade semítica, ao ser os árabes do mesmo ramo linguístico e étnico. Os judeus atuaram habitualmente como quinta-colunistas para minar a resistência cristã. Também eram de origem semita os orgulhosos e belicosos berberes que nem sequer os romanos haviam conseguido domesticar. Apesar da comunidade “racial” com os árabes, os berberes se lhes opuseram, defendendo sua independência e tradições politeístas, havendo conhecido uma escassa ou nula evangelização. Estes berberes, que a tradição ocidental considerará como os muçulmanos mais fiéis, na realidade lutaram longo tempo contra a islamização e uma vez submetidos organizaram numerosas revoltas. Por fim, depois da conversão, deram uma mostra mais de sua independência ao criar um cisma inimigo fanático do islamismo oficial dos árabes.

"Santo Agostinho" (1480), de Botticelli
Quanto aos cristãos, suas condições no momento da ofensiva islâmica eram muito difíceis. Pouco mais de um século antes havia acabado a terrível dominação dos vândalos, que tinham irrompido na África romana a partir da Espanha, devastando a Hipona de Agostinho, morto durante o assédio da cidade. Como muitos dos povos bárbaros, também os vândalos haviam aceitado o Evangelho, se bem –em conformidade com seu direito– a conversão não era pessoal senão que era o chefe o que decidia por toda a tribo. Mas, como muitos dos outros povos germânicos, seu cristianismo era o ariano (o contrário do monofisismo dominante no Egito; no credo ariano, o Filho está submetido ao Pai e Jesus não é de natureza divina). O arianismo era ferozmente contrário ao catolicismo de obediência romana que se professava nessas províncias africanas, o que explica a devastação causada pelos vândalos ao longo de mais de cem anos nas comunidades cristãs pré-existentes.

E isso não era tudo. A partir do ano 300, essas mesmas regiões haviam conhecido outra heresia fanática, a de Donato, o bispo que se havia rebelado contra o metropolitano de Cartago mantendo a tese de que a Igreja estava reservada só aos justos, excluindo portanto os pecadores, para os quais não havia perdão.

Quando os árabes apareceram de repente no litoral, chegando desde o Egito, a Igreja ainda não havia sido curada de todas as feridas infligidas pelos vândalos e ainda abrigava em seu seio a guerrilha do donatismo. Além disso, os católicos representavam o pouco abundante substrato da população urbana de origem latina, que costumava estar composta pelos descendentes dos veteranos de guerra instalados por Roma em suas colônias. A população nativa, apenas salpicada pelo cristianismo (ou nem sequer tocada pelo Evangelho, como quase todo o território do que depois se chamou Marrocos, com exclusão de algum porto), mostrou-se disposta a acolher o convite desses outros semitas que chegavam a partir da Arábia e que faziam vislumbrar a possibilidade de um sonho longamente acariciado: devolver o mar aos estrangeiros que haviam vencido em Cartago. Muitos dos católicos latinos, dada a impossibilidade de deter as hordas muçulmanas, embarcaram rumo à Itália. Muitos outros caíram sob os muros das cidades assediadas, aprisionados algumas vezes pela traição dos judeus, mas também dos púnicos e dos berberes latinizados.

Aconteceu então o inevitável. Primeiro a Cirenaica, depois a Tripolitânia, depois as províncias da África, Numídia e Mauritânia caíram como castelos de cartas em poder do islã. Dado que, ao contrário do ocorrido no Egito, aqui não se chegou a acordos com as comunidades de cristãos, muitos deles foram massacrados, reduzindo-se ainda mais seu número, ou dizimados pelo êxodo e as batalhas. Os que permaneceram no país ficaram reduzidos a homens de segunda categoria e, sobretudo, foram esmagados com impostos impiedosos. Estes pareciam (e eram) muito mais iníquos que os também duros impostos do fisco bizantino, porque eram para benefício total e único dos muçulmanos.

Converter-se à nova fé significava ser cidadãos de pleno direito, ter abertas todas as carreiras, não pagar mais impostos; mais ainda, desfrutar do usuprado aos que seguiam sendo cristãos (ou judeus). Nestas condições não é de estranhar que a massa de renegados fosse tal como para por em dificuldades os próprios muçulmanos, já que cada cristão (ou judeu) de menos era um contribuinte a menos para espremer. Ademais, também aqui se trasladaram massas de imigrantes e se introduziu esse direito matrimonial já citado, segundo o qual os matrimônios mistos significavam novas gerações muçulmanas. A própria resistência dos berberes, que havia durado tanto tempo, acabou por ser destruída, ainda que os historiadores falem de tribos cristãs que resistiram heroicamente no deserto durante várias gerações.

Afinal caiu a cortina sobre a cristandade, entre outras causas porque não há que esquecer que o islamismo não é simplesmente uma fé, mas um modo de vida que abarca todas as atividades não só do culto, mas da vida cotidiana. Além disso, já que o Alcorão não podia ser traduzido, todos tinham que aprender a língua árabe. Essa língua se impôs tanto aos crentes em Alá quanto a todos aqueles –qualquer que fosse sua religião– que viviam nesses territórios. E a arabização significava, tarde ou cedo, a islamização.

Estas são, pois, as causas históricas da total desaparição (os últimos bispos nativos, como vimos, eram do ano mil) do cristianismo na África latina.

Esta foi a única ‘solução final’ dos crentes no Evangelho. No Egito ficou um ‘resto’ não desprezível de vida cristã entre os coptas. Tampouco na Ásia foi completa a desaparição: os monofisitas da Síria, os maronitas do Líbano, os nestorianos (depois caldeus) da Mesopotâmia e Pérsia, os armênios do Cáucaso seguiram sendo cristãos até nossos dias. Assim como permanecer heroicamente fiel ao Evangelho (se bem também aqui na versão monofisita) Etiópia, que soube resistir aos muitos intentos de islamização violenta que chegavam desde o norte, ao longo do Nilo, ou desde o oeste, através do mar Vermelho. Entre os historiadores se fala muito do fim do cristianismo na África ocidental mediterrânea, mas se costuma silenciar de todo a resistência indomável do mesmo cristianismo entre os miseráveis e desprezados etíopes (seu nome significa ‘cara queimada’) que, quando aceitaram o Evangelho, já não quiseram abandoná-lo.

Mas, se isto forma um quadro histórico que cada um pode reconstruir a seu gosto, o crente está chamado a ir além dos simples dados para se interrogar sobre seu significado, sobre o mistério da Providência. Sob este prisma, por que Maomé? Por que tanto êxito, normalmente a expensas da cruz, de sua meia lua? É um intento de compreender ao qual o cristão não pode se subtrair".


[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 54-59]

Vittorio Messori sobre o Islã (2)

Islã/2

“O profeta de Meca morreu no ano de 632. Apenas seis anos depois, o Califa (ou seja, “o sucessor”) Omar despoja os bizantinos de Jerusalém e no ano de 640 os muçulmanos entram no Egito. Um ano depois conquistam Alexandria, a grande metrópole convertida em importante patriarcado cristão. A corrida para o oeste continua e, depois de estender-se ao longo dos milhares de quilômetros do litoral mediterrâneo, no ano 711 os árabes atravessam o estreito de Gilbraltar para desembarcar na Espanha. Serão necessários sete séculos de luta para expulsá-los.

Reservando-nos a oportunidade de falar mais adiante das outras conquistas de extensíssimos territórios já cristianizados na Ásia, aqui queremos examinar a sorte desse norte da África que havia sido uma das primeiras regiões evangelizadas. Segundo a Tradição, o próprio são Marcos pregou a fé no Egito; e nas sedes episcopais dessa África mediterrânea se encontravam pastores da estatura de santo Agostinho. A atividade teológica nas cidades, principalmente em Alexandria, era extremamente rica e vivaz. No deserto abundavam os eremitas e os mosteiros nos que se vivia a ascese com dramática seriedade.

Como pôde acontecer que uma vida cristã semelhante se apagasse (com a parcial exceção do Egito) e que a fé surgida do Alcorão tenha podido cobrir tudo?

Na realidade, as coisas são muito mais complexas do que o que certas interpretações ainda pretendem. Não é que, como fulgurados pela Palavra que traziam os árabes, os cristãos repudiassem o Evangelho ao descobrir que a Verdade residia no Alcorão. A mudança religiosa veio (ao fim de séculos, e às vezes nem sequer por completo) com as campanhas militares e depois com a política social, fiscal e matrimonial.

Para entendê-lo, primeiro é preciso recordar que a islamização da África mediterrânea possui traços distintos no Egito e na parte restada da costa até o Atlântico. As duas partes haviam ficado divididas pela linha de demarcação entre o Império romano do Ocidente e o do Oriente. O Egito falava grego e mantinha relações com Constantinopla; as regiões ocidentais falavam latim e olhavam para Roma. Com a queda desta última, toda a África setentrional recaiu sob o Império bizantino, o qual, entretanto, só possuía o controle de alguma cidade costeira.

Os árabes não tiveram dificuldades em invadir estes territórios porque, tendo a Síria em seu poder, Bizâncio já não podia enviar reforços por via terrestre. A resistência também foi escassa porque os próprios cristãos egípcios acolheram os muçulmanos como libertadores. Aqui, como em outros lugares, os árabes encontraram populações dispostas a abrir-lhes as portas em nome da antiga rebelião do Oriente, e dos povos semíticos em particular, contra o Ocidente que, desde os tempos de Grécia e Roma, havia exercido sua hegemonia sobre populações orgulhosas de sua independência e sua cultura.

No Egito, além disso, davam-se condições especiais porque o patriarcado de Alexandria se havia afastado de Constantinopla por razões teológicas, atrás das quais se escondia uma antiga rivalidade. Os egípcios haviam escolhido o monofisismo (Cristo só possuía uma natureza, a divina), resistindo ao governo imperial que, remetendo-se aos decretos conciliares, pretendia afirmar o dogma ortodoxo da dupla natureza. A maioria do povo apoiava o clero monofisita, enquanto Bizâncio havia imposto sua hierarquia, chamada ‘melquita’.


Cruz copta

É sabido que, por uma lógica imutável, quando duas facções da mesma religião se enfrentam, cada uma delas prefere a vitória de outra religião antes que a da parte contrária. Assim ocorreu com os monofisitas do Egito em luta com os melquitas gregos. O islamismo ainda estava em período embrionário, os povos submetidos não sabiam bem de que se tratava, provavelmente lhes devia parecer outra seita judaico-cristã, já que em qualquer caso era claro seu monoteísmo e a reivindicação dos profetas bíblicos, assim como a grande veneração por Jesus e Maria.

Assim, chegou-se a uns acordos e as portas do Egito se abriram de par em par. Entre as primeiras medidas tomadas pelos árabes conta-se a supressão da Igreja imperial melquita, de modo que os bispos monofisitas obtiveram o mando da cristandade. Foi uma vitória pírrica porque também se aplicou o direito religioso muçulmano que nessa época dava seus primeiros passos: enquanto que os muçulmanos só estavam obrigados a pagar a esmola legal, a comunidade cristã –em troca da ‘proteção’ e do direito a continuar residindo em zona ocupada pelos islamitas– devia pagar taxas exorbitantes, cujo benefício ia parar inteiramente nos muçulmanos. E não só isso: os cristãos não eram cidadãos senão súditos; todas as carreiras na administração e no exército ficavam reservadas aos árabes crentes em Alá, que seguidamente se transladariam em massa à África para nutrir as exíguas tropas dos primeiros conquistadores.

Não se deve esquecer o direito matrimonial árabe que sempre foi um fator poderoso na lenta mais implacável islamização (como o é também hoje em dia na Euroga dos imigrados). Assim ocorre que uma mulher muçulmana não pode casar-se com um cristão ou um judeu, enquanto que um muçulmano pode casar-se com uma mulher cristã ou judia, e os filhos comuns são, por lei, muçulmanos. Além disso, para prosseguir com a erosão de sua comunidade, os cristãos foram proibidos de fazer proselitismo, assim como de construir novas igrejas e inclusive de restaurar as já existentes. Estas condições pioraram quando os turcos substituíram os árabes.

O resultado foi o que ainda persiste: os cristãos se estabilizaram em torno de dez por cento da população. Assim, apesar de tudo, o Evangelho não foi completamente desterrado do Egito durante os mais de treze séculos de dominação muçulmana. Junto às conversões por conveniência deram-se muitos casos nos quase, durante séculos, preferiu-se o martírio antes que renegar Jesus por Maomé.

Isto não ocorreu na zona ocidental do Egito, na África ‘latina’, onde a islamização foi completa, ainda que não tão rápida como muitos afirmam. Pelos historiadores árabes sabemos que todavia no século XI havia naquelas zonas bispos e algumas tribos que não haviam renunciado ao cristianismo.

As províncias imperiais da África (a atual Tunísia e parte da Argélia de hoje) e da Numídia (o resto da Argélia) estavam cristianizadas, mas quase somente o segmento cidadão de origem latina. As populações berberes quase não havia sido alcançadas pela evangelização. O cristianismo apenas havia chegado às duas Mauritânias, a bastante extensa região a ocidente de Numídia que chega até o Atlântico, a que constitui o Magreb e que corresponde à parte mais ao oeste da atual Argélia e todo o Marrocos. Esta era a ‘África esquecida’. A colonização romana ocorrera tendo como base a península tunisiana, à direita e à esquerda de Cartago. Só quando já era tarde e o império começava a desmoronar, decidiram criar as duas províncias da Mauritânia, que até o momento só haviam sido reinos federados. A precariedade da situação é mostrada pelo fato de que esta era uma das três zonas do império onde os romanos haviam construído um limes, uma fronteira fortificada, para defender-se das incursões chegadas do sul.

Muito poucos anos depois da conquista do Egito, os muçulmanos iniciaram o ataque contra estas províncias africanas da Numídia e Mauritânia. Encontrarão nelas uma cristandade debilitada e agitada, apesar do aparente esplendor. Delas não ficará nada. O porquê o saberemos no próximo capítulo”.


[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 50-54]

Comentário ao relato da criação (Gn 1,1--2,4)

Gênesis, capítulo 1

1. No principio, Deus criou o céu e a terra.

Pelo Verbo, o Pai criou as formas puras, ou anjos –que não são atos puros, porque receberam a existência–, e a matéria-prima, potência pura.

2. Ora, a terra estava vazia e vaga, e as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas.

A matéria era indeterminada, os anjos caídos se precipitavam no inferno, e o Espírito Santo guardava (simbolicamente) as formas que enformariam a matéria. A água, aqui, é um princípio do real, como a "água" de Tales, o primeiro filósofo, e não a substância composta H2O; "águas", no plural, é sinônimo do líquido amniótico: a criação, gestada pelo amor divino, está prestes a "rebentar as águas" (estourar a bolsa).

3. Deus disse: “Haja luz” e houve luz. 4. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. 5. Deus chamou à luz “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia.

Deus iluminou e justificou em graça os anjos que quiseram servir-lhe (o “dia”), separando-os dos anjos maus (a “noite”). Fim da primeira etapa da criação.

6. Deus disse: “Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas”, e assim se fez. 7. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, 8. e Deus chamou ao firmamento “céu”. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia.

Deus separa (simbolicamente) as formas entre as almas dos homens, que por serem espirituais pertencem ao “céu”, e as formas dos seres meramente materiais que estão abaixo do céu (abaixo do homem). Fim da segunda etapa da criação.

9. Deus disse: “Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente” e assim se fez. 10. Deus chamou ao continente “terra” e à massa das águas “mares”, e Deus viu que isso era bom.

Deus começa a organizar a realidade material, enformando-a e, assim, separando-a. O autor sagrado segue uma ordem ontológica, e não cronológica: os anjos, os homens, o mundo. E essa hierarquia é boa.

11. Deus disse: “Que a terra verdeje de verdura: ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente” e assim se fez. 12. A terra produziu verdura: ervas que dão semente segundo sua espécie, árvores que dão, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente, e Deus viu que isso era bom. 13. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia.

Deus criou, na matéria inerte, a vida vegetal, como expressão da pujança da criação. Fim da terceira etapa.

14. Deus disse: “Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; 15. que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra” e assim se fez. 16. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. 17. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, 18. para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. 19. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia.

A criação “posterior” do sol, da lua e das estrelas representam que o universo está ordenado em função da Terra e da pessoa humana, que são, assim, o “centro” ontológico do cosmos. Fim da quarta etapa.





"Criação dos animais" (1551-52), de Tintoretto

20. Deus disse: “Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, sob o firmamento do céu” e assim se fez. 21. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e as aves aladas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom. 22. Deus os abençoou e disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a água dos mares, e que as aves se multipliquem sobre a terra.” 23. Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia.

Deus criou os animais marinhos e as aves, que por não terem um local fixo de morada na terra, recordam ao homem que sua pátria definitiva não está aqui. Fim da quinta etapa.

24. Deus disse: “Que a terra produza seres vivos segundo sua espécie: animais domésticos, répteis e feras segundo sua espécie” e assim se fez. 25. Deus fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom.

Deus criou os animais terrestres, e o hagiógrafo os classifica em domésticos, selvagens e répteis. Os animais selvagens simbolizam a liberdade do homem frente à criação; os domésticos, dóceis e serviçais, simbolizam a condição de filho de Deus que tem o homem, que deve obedecer ao Pai; os animais que rastejam simbolizam e recordam ao homem a possibilidade de deixarem de ser filhos livres, e se tornarem escravos, pelo pecado.

26. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. 27. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. 28a. Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a.

O plural é uma revelação da Trindade. O homem é semelhante a Deus pelo domínio exercido sobre a criação, e porque o homem é “homem e mulher”, e será “filho; a “humanidade” também se define pela relação interpessoal.

28b. Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra.” 29. Deus disse: “Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. 30. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas” e assim se fez. 31. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia.

O domínio do homem sobre a criação era harmonioso. Toda a criação divina é muito boa –o obscurecimento dos anjos caídos não tem sua causa eficiente em Deus, mas em sua própria vontade (causa deficiente). A desarmonia só entrará na criação com o pecado original. Fim da sexta e última etapa da criação.


Capítulo 2

1. Assim foram concluídos o céu e a terra, com todo o seu exército. 2. Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, depois de toda a obra que fizera. 3. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a sua obra de criação. 4. Essa é a história do céu e da terra, quando foram criados.

Deus descansa na criação, se compraz nela; as criaturas, por sua vez, devem descansar em Deus. O culto é uma exigência para o ser criado, com anterioridade ao pecado e à necessidade do sacrifício.

Tuesday, March 29, 2016

Vittorio Messori sobre o Islã (1)

O desafio dos parentes próximos: o Islã da Meia Lua 

Islã/1 

"Observou o cardeal Martini, arcebispo de Milão, uma diocese onde os imigrados da África e Ásia são já centenas de milhares: o enfrentamento que nas décadas anteriores os católicos mantiveram com os marxistas será transferido para os muçulmanos. Assim, desmentindo todas as previsões dos que pensavam que o problema do terceiro milênio seria –para os crentes que ficam– o desafio do ateísmo e a secularização, aqui vemos que será o desafio de outra religião. E a menos “secular” de todas elas.

Não se tem enfatizado suficientemente que enquanto o marxismo era um judeu-cristianismo laicizado, o islamismo é um judeu-cristianismo simplificado. De ambos se pode dizer que, sem a mensagem dos profetas de Israel –desde Abraão até Jesus inclusive–, não teriam tido lugar ou teriam sido muito diferentes. Assim, o desafio para o cristão é novamente um “assunto de família”, o qual não é um consolo, dado que precisamente estes são os enfrentamentos mais insidiosos e violentos.

Começando por estas linhas, quiséramos apontar algumas das reflexões que recolhemos ao longo de muitos anos sobre a fé proclamada por Mohamed, “o digno de elogio”, ao que nossa língua chama de forma aproximada “Maomé”. Parece-nos que a histórica migração, da que agora só vemos o princípio, e que está levando a uma nova invasão muçulmana da Europa, justifica o espaço que pretendemos conceder ao tema. Mas, deixando à parte a atualidade cotidiana, interrogar-se acerca do islã é desde sempre um dos deveres principais do cristão consciente de sua fé.

O Alcorão, com efeito, é sobretudo um escândalo: o escândalo de um “Novíssimo Testamento” que declara superado o Novo Testamento cristão. Enquanto os crentes em Jesus estavam seguros de que com ele terminava a revelação divina começada com Abraão e Moisés, vemos aparecer uma religião que não só despoja a Jesus de seu caráter divino senão que, ainda desfazendo-se em respeitosos elogios para com ele, o relega à condição de penúltimo profeta, de anunciador de uma parte, mas não de toda a vontade divina, só completada com as palavras que nos chegam através do último e definitivo dos reveladores, Mohamed. Com este, os cristãos ficam relegados ao passado, gente da qual há que se compadecer porque, ainda que tenham avançado do Antigo ao Novo Testamento, ficaram aí, sem passar ao Alcorão, que se apresenta como a terceira parte das Escrituras, que começam na Torá judaica.

Ali onde nos primeiros séculos de expansão chegavam as hordas muçulmanas, só aos politeístas, aos pagãos, se lhes apresentava o dilema de converter-se e abandonar os ídolos ou ser exterminados. Não acontecia o mesmo com os judeus e cristãos, “o povo do Livro”, que eram submetidos a tributo e encerrados em seus anacrônicos guetos à espera de que se decidissem a aceitar a realidade e reconhecer que a história da salvação havia dado um passo adiante, que Abraão e Jesus não deviam ser abandonados senão superados.

Este é, pois, o escândalo –e o mistério– do Alcorão e da poderosa fé que conseguiu suscitar. Acostumados a olhar os judeus que seguiram sendo como gente com a visão encoberta, incapazes de vislumbrar os novos tempos, os cristãos viram-se, por sua vez, considerados como se estivessem parados na penúltima etapa, sem saber alcançar a última.

Por esta razão o islamismo poderia aparecer como mais crível que o cristianismo aos ocidentais que agora convivem com aquele.  Tempo atrás era a religião dos desprezados povos coloniais, e converter-se teria parecido uma extravagância indigna de um civilizado europeu. Agora, em contrapartida, começaram as conversões e em alguns países, como França, adveio quase um fenômeno de massas.

E isto acontece também porque, sob nossa perspectiva “progressista”, o último que chega nos parece sempre melhor que o que havia antes. Desde a estrela de Davi à cruz e à meia lua não existe quiçá um progresso contínuo? Precisamente por chegar depois de Moisés e Jesus Cristo, não será Mohamed o melhor?

No fundo, são os próprios cristãos os que apontaram esta ideia de progresso, de superação do judaísmo, para abrir-se à nova anunciada por Jesus. Nesta passagem da Torá aos Evangelhos tem origem a visão, que o Ocidente fez sua terminando por laicizá-la nas ideologias “progressistas”, de uma história como subida que leva sempre a novas conquistas.

O Alcorão pode assim impressionar a convicção –que hoje em dia está inscrita na mentalidade do homem moderno– de que o novo sempre é melhor que o velho. Se o proselitismo muçulmano sabe utilizar esta categoria do espírito ocidental, a perspectiva de uma Europa se não islamizada, ao menos profundamente influenciada por este credo chegado do deserto árabe, poderia parecer menos incrível. Ao menos, entende-se, para a escala humana.

Por outra parte, esta passagem teve lugar em várias ocasiões. Doze ou treze séculos atrás, muitos dos antepassados desses muçulmanos norte-africanos que vemos pulular hoje por nossas ruas eram cristãos. No Egito, no Magreb, na Síria, na Anatólia, nos Bálcãs, na própria Palestina, povos inteiros deram o passo –e para sempre, a menos que o queiram de outra forma futuros desígnios divinos– do Novo ao Novíssimo Testamento, de Jesus a Maomé. O islã também conheceu ilhas de resistência cristãs que duraram até nossos dias entre os armênios, os coptas monofisitas do Egito e Oriente Médio, os moçárabes ibéricos. E teve que se retirar de algumas regiões onde a vida cristã voltou a tomar o poder, sem que a islamização se arraigasse, como Espanha, Grécia, Sicília, Mata e boa parte dos Bálcãs.

Mas em outros lugares a meia lua foi mais forte que a cruz; e não só no campo de batalha (que, dentro de uma perspectiva cristã, significa pouco ou nada) senão naquilo que significa mais, nos corações. Uma vez conquistados para a nova fé, esses povos permaneceram, até o presente, fielmente inamovíveis. Ocorreu também nas Igrejas fundadas pelo próprio são Paulo na costa da Síria e na atual Turquia, na Anatólia. E se a espanhola mesquita de Córdoba há séculos se transformou em igreja católica, durante séculos a igreja de Santa Sofia de Constantinopla, rebatizada como Istambul, encontrava-se entre as mesquitas muçulmanas mais veneradas antes de ser transformada em museu.

O próprio Anuário Pontifício leva ainda as marcas do drama: junto aos bispos “residentes”, ou seja, os que estão à frente de uma diocese efetivamente existente, os bispos “titulares”, aparece uma lista dos présulos, ou seja, aqueles aos que se lhes atribuiu o “título” de uma diocese que há mais de mil anos ficou reduzida a um nome, já sem fiéis, que passaram todos às palavras do Alcorão.

Parece ser que só no norte da África –ilustre por ser terra de santos, de padres da Igreja e papas– contavam-se quase uns seiscentos bispados e ao menos havia igual número de regiões situadas a oriente do Egito. Fora algum ou outro núcleo de resistência (que, precisamente hoje, pela crise do Oriente Médio estão em vias de desaparição), quase não ficou nada da abundante semeadura do Evangelho. Todos os esforços para voltar a semear suas palavras resultaram estéreis. Em pouco mais de vinte anos, do 632 ao 656, sob os primeiros quatro califas que sucederam a Maomé, os homens do Alcorão se propagaram desde a Tripolitania ao oeste, até o Indo ao leste e ao norte até o mar Negro, regiões que eram em grande parte cristãs e onde a fé em Jesus acabaria por se extinguir.


Como isto pôde acontecer? Que enigmático significado pode vislumbrar o crente? Isto é o que gostaríamos de ver".


[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 45-50, grifos do original]

Leitura orante: Oitava da Páscoa

Segunda-Feira na Oitava da Páscoa

“Jesus foi ao encontro delas, e disse: ‘Alegrai-vos!’ [...] ‘Não tenhais medo’. [...]
Os sumos sacerdotes reuniram-se com os anciãos, e deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: “Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo, enquanto vós dormíeis” (Mt 28,9.10.12-13).

A atitude dos sumo sacerdotes é a atitude de todos aqueles que, conhecendo a verdade ou, ao menos, entrevendo a razoabilidade da fé cristã, preferem o comodismo e, não querendo abrir mão das prerrogativas da vida mundana, mentem para si mesmos, desacreditam os discípulos de Cristo, “não entram e não deixam entrar”. O quanto nós, os cristãos, preferimos, não uma soma de dinheiro, mas os consolos baratos do mundo, ao invés de seguir Nosso Senhor até a cruz? Cristo ressuscitou!, anunciemos com alegria, sem medo da filosofia estulta que nega a transcendência teoricamente, sem apego à miséria do dinheiro que a nega na prática, e corrompe a dignidade humana.



Imagem: “A Ressurreição” (1577-79), de El Greco






Terça-Feira na Oitava da Páscoa

“Jesus disse: ‘Não me segures. Ainda não subi para junto de meu Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’” (Jo 20,17).



A frase de Jesus, “não me segures”, dita à Madalena, não é uma espécie de bronca, como se a ação dela fosse despropositada; mas é que, com a Ascensão, a humanidade de Jesus, assumida plenamente na divindade, seria dela, e de todo cristão, de modo permanente, e não mais transitório. O que Jesus diz, portanto, é: “logo, logo, ter-me-á ininterruptamente, e seu desejo de não mais se afastar de mim, será plenamente realizado, alcançará seu propósito”. Ao subir, Jesus não se afasta de nós, pelo contrário!, está agora, sempre próximo. Não o deixemos!

Imagem: “Ressurreição” (1304-06), de Giotto


Quarta-Feira na Oitava da Páscoa

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles. Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía.
Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: ‘Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?’” (Lc 24,29-32).


“Resta qui con noi il sole scende già, / se tu sei fra noi la notte non verrà” (“Fica aqui conosco o sol se põe já, / se tu estás entre nós a noite não virá”), diz o belo hino da 1ª JMJ (Roma, 1986). Aqueles que experimentam o coração aceso com as palavras do Evangelho, e com os olhos da fé percebem o amor infinito de Deus na Eucaristia, já não podem duvidar da realidade da Ressurreição!, já não podem viver sem anunciá-la! Para nós, o viver é Cristo! A noite do pecado se abate mais uma vez sobre o mundo... Vem, Senhor, volta para que todos vejam que as Escrituras se cumpriram, para que todos reconheçam o Sol de Justiça!

Imagem: “Estrada para Emaús” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Quinta-Feira na Oitava da Páscoa

“‘Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho’” (Lc 24,39).

Jesus ressuscitou, não é um fantasma! É a vida humana inteira, corpo e alma, que ressuscitam, não só a alma, cuja imortalidade a filosofia já conhecia. Pela Encarnação e pela Ressurreição, Jesus devolve à matéria em geral, e ao corpo humano em particular, a dignidade que o pecado obscureceu. O realismo da passagem do Evangelho (aqui, como na passagem da pesca milagrosa do final do Evangelho de João, Jesus chega a comer peixe!) é tal, que nos indica que mesmo a dimensão orgânica do corpo participará da glória e da incorruptibilidade (e não só a dimensão somática, pela qual o corpo é princípio da presença da pessoa aos demais e no mundo).

Imagem: “A incredulidade de S. Tomé” (1634), de Rembrandt


Sexta-Feira na Oitava da Páscoa

“Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’ Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu uma roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar” (Jo 21,7).

 Aquele mesmo que havia negado o Senhor três vezes por medo, revela o que há verdadeiramente no seu coração: uma fé diligente. Como antes se lançara ao mar para pescar, e fora ao encontro de Jesus que caminhava sobre as águas, agora se lança, não mais por necessidade ou por medo, mas por amor. Um amor que ainda não era perfeito, mas que já havia se decidido a não mais abandonar o seu Senhor. Que seu exemplo nos encoraje a não nos abandonarmos ao pecado, mas a sempre acolhermos com prontidão a misericórdia de Cristo, que não cessa de nos amar e chamar.

Imagem: “Aparição no Lago Tiberíades” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Sábado na Oitava da Páscoa

“Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado.
E disse-lhes: ‘Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!’” (Mc 16,14-15).

Os apóstolos não acreditaram nas mulheres nem nos discípulos de Emaús, e só S. Tomé ficou com má fama! Mas Jesus confia o anúncio do Evangelho a estes homens, e eles têm a primazia na Igreja. Eles viveram com Jesus, eles O amavam, e se ainda não acreditavam plenamente em Sua Palavra, não haviam matado a fé no seu coração, e é por isso que Jesus lhes aparece, para devolver-lhes a confiança praticamente perdida. Que não permitamos que o nosso coração se endureça a ponto de não mais reconhecermos o Cristo que Se manifesta.

Imagem: “Aparição aos apóstolos” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Domingo na Oitava da Páscoa (Domingo da Misericórdia)

“‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos’” (Jo 20,22-23).

Fruto da Páscoa, da passagem da morte à vida, é o perdão dos pecados, obtido objetivamente na Cruz, mas que é aplicado subjetivamente através do sacramento da penitência da Igreja. Para que sejamos perdoados, precisamos ser humildes, para reconhecer nossos pecados e confessá-los ao sacerdote, delegado do bispo, sucessor dos apóstolos, além de cumprir a penitência imposta, que tem por finalidade não o perdão, mas a reparação das consequências do pecado na vida do fiel e da Igreja; são estas consequências que o fiel deverá sanar no purgatório, caso não se santifique plenamente, e é a elas que se aplicam as chamadas indulgências.

Imagem: “Os sete sacramentos II: Penitência” (1647), de Nicolas Poussin

Saturday, March 26, 2016

Leitura orante: Vigília Pascal

Primeira leitura e salmo:

“E Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança [...]’.
E Deus vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1,26.31).

“Quão numerosas são vossas obras, Senhor, / e todas fizestes com sabedoria” (Sl 103,24).

As reflexões iniciais são bastante metafísicas, mas delas será extraído um sentido espiritual prático.

A obra de Deus é sábia (Salmo) e boa (Gênesis): Deus é Inteligência e Amor infinitos, é a Verdade e o Bem absolutos, porque Ele é o Ser absoluto, “Aquele que é”, sem mais (cf. Ex 3,14). Ser Perfeitíssimo, está plenamente presente a Si pela sua Verdade, que é o Verbo, e é absolutamente amável, é o Bem perfeito, o Espírito Santo.

Um Deus assim só poderia ter criado um mundo bom e que reflete a Sua Verdade. A pessoa humana, “imagem” de Deus por sua inteligência espiritual e sua vontade livre, está chamada a reconhecer, pela razão, a Deus como sua origem, para que reconheça sua natureza (de onde “nasceu”) e verdade, e a dirigir-se ao Criador como sua meta, para que O encontre como seu fim, isto é, seu Bem, Aquele que pode plenificar suas potências e trazer-lhe a felicidade. Para isto está no mundo, “bom”, reflexo da sabedoria e bondade divinas, que nos conduz ao reconhecimento agradecido do nosso Pai.


Imagem: “Criação dos animais e criação de Adão” (1432-36), de Paolo Uccello



Segunda leitura e salmo:

“Pela tua descendência se dirão benditas todas as nações da terra, em prêmio por me haveres obedecido” (Gn 22,18).

“Senhor, minha parte na herança e minha taça” (Sl 15,5).

A fé obediente de Abraão, como antes a de Noé, começa a reconstruir a amizade que havia sido perdida por Adão. Na Encarnação e na Cruz de Cristo esta obediência alcançou sua plenitude, e a bênção dos descendentes de Abraão se revela como a graça, como o próprio Deus, cuja presença e companhia serão herdadas pelos fiéis.


Imagem: “Anjo impedindo Abraão de sacrificar Isaac” (1636), de Rembrandt








Terceira leitura e salmo:

“Israel viu com que poder a mão do Senhor agira contra os egípcios, e o povo temeu o Senhor, e eles creram no Senhor e em Moisés, seu servo” (Ex 14,31).


“Vós conduzireis este povo e o plantareis sobre a montanha que vos pertence” (Ex 15,17).

O Senhor libertou o Povo Judeu do Egito como prefiguração da Páscoa de Cristo, que nos liberta das garras do pecado e da morte. Manifestou seu poder e conduziu o Povo à terra da liberdade, que consiste na adoração a Deus, como fala Bento XVI (“Introdução ao Espírito da Liturgia”). Mas necessitou de Moisés: Deus só age através de seus servos; se em Cristo nos fez seus filhos, temos a responsabilidade de manifestar, com nossas vidas, o poder salvador de Deus, com uma vida santa, que seja um convite para que as demais pessoas venham a crer, para que elas vejam que o sentido da vida é adorar o Redentor do homem.

Imagem:  “Passagem do Mar Vermelho” (1481-82), de Cosimo Rosselli


Quarta leitura e salmo:

“[...] no meu eterno amor me compadeci de ti, diz o Senhor, teu Redentor.
[...] Ainda que os montes se abalem e os outeiros vacilem, a minha clemência não se afastará de ti, e a minha aliança de paz não vacilará, diz o Senhor, que te quer bem” (Is 54,8.10).

“Sua ira dura um momento, seu favor a vida inteira” (Sl 29,6).


O Senhor Deus ama sua Igreja com amor esponsal. Apesar dos pecados e das traições, Ele morreu de amor na Cruz, e sua misericórdia, ainda que por vezes não encontre eco em nossos corações, não tarda em remediar nossas infidelidades. A situação da Igreja é muito difícil, parece que os homens não mais escutam a Palavra de Deus, muitos pastores cometem traições terríveis, os fiéis vivem de acordo com a mentalidade do mundo... Crucificamos o Senhor com nossa idolatria, nosso adultério, mas sua Aliança é eterna, Ele virá nos salvar!







Quinta leitura e salmo:

“Vós todos, que estais com sede, vinde às águas. Mesmo sem dinheiro, vinde comprar e comer. [...] Por que gastar dinheiro com aquilo que não alimenta, e labutar por aquilo que não sacia?” (Is 55,1-2).

“Bebereis com alegria a água nas fontes da salvação” (Is 12,3).

Buscamos saciar a sede de felicidade de nosso coração na água lamacenta do pecado, da mundanidade. Não reconhecemos, como aquele centurião, ao ver a água e o sangue jorrarem do lado de Cristo, que Ele é o Filho de Deus Salvador! Ou como a samaritana, que Cristo é quem revela a verdade sobre nós! Ao lado de Cristo, morrer é lucro, como diz S. Paulo! Longe dEle, vivemos em débito, malgastamos o bem de nossa vida, como o filho pródigo. Seu amor é uma fonte que não seca, e é gratuito!, é a graça de Deus! Entreguemos nossas vidas nas mãos do Administrador Fiel, purifiquemo-nos na água viva de sua misericórdia!

Imagem: “Cristo e a mulher samaritana” (1308-11), de Duccio Buoninsegna



Sexta leitura e salmo:

“Por que, Israel, te encontras em terra inimiga, por que definhas em país estrangeiro [...]? É que abandonaste a fonte da sabedoria!
[...] endireita o teu caminho ao esplendor de sua luz” (Br 3,10.12-4,2b)

“A lei do Senhor é perfeita, faz a vida voltar; [...]
As decisões do Senhor são verdadeiras...” (Sl 18,8.10).

Como outrora chamava Israel, como outrora salvou o resto fiel, hoje o Senhor dirige estas palavras à sua Igreja, com a qual selou uma Aliança Eterna. Não pensemos que a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão significa que a Igreja conquistará, novamente, algum tipo de triunfo histórico. Isso não é necessário. As palavras do Senhor já se cumprem se existe um homem em estado de graça na Terra. Hoje, o mundo é um lugar inóspito para o cristão, perseguido de várias formas (inclusive fisicamente). Voltemos à luz, à sabedoria, à retidão, e o Senhor, que não abandona seus filhos, fará triunfar a verdade e a vida!

Imagem: “Judeus cativos na Babilônia” (1861), de Edward Harrison May



Sétima leitura e salmo:

“De todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos, eu vos purificarei. Eu vos darei um coração novo, e porei em vós um novo espírito. Eu tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” (Ez 36, 25b-26).

“Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 41,3).

Sem a graça de Deus, não podemos amar. Sem ela, não podemos viver nem mesmo de acordo com nossa natureza humana. Só no coração de Jesus habitou a plenitude da justiça, da santidade, e Ele, por Seu Espírito, redime-nos, purifica-nos do pecado; santifica-nos, comunica-nos Sua Vida divina; transforma nosso coração petrificado pela indiferença, num coração vivo e pulsante, que experimenta a dinâmica cruciforme da existência, doando-se aos demais, para que participem da vida no Espírito.

Imagem: “Sagrado Coração de Jesus” (1904), de Tarsila do Amaral







Epístola e salmo aleluiático:

“[...] pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4).

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 117,22).

Na Igreja primitiva, os catecúmenos eram batizados na Vigília Pascal, como hoje costuma-se fazer com os adultos. A Liturgia Pascal nos recorda que, para viver, é preciso dar morte ao pecado, descer com Cristo à água da pia batismal, que é uma pedra côncava, para recordar-nos que no batismo somos sepultados com o Senhor, e que esta pedra/pia é o fundamento da vida cristã para a qual emergimos. 


Imagem: “O Batismo” (1755), de Pietro Longhi