12.6.25

A Ciência da Cruz - 1a parte

 

Acompanhemos a teologia mística de S. João da Cruz em companhia de Sta. Teresa Bendita da Cruz (Edith Stein).

 

A noite dos sentidos

 

Introdução ao significado da noite

 

“A casa da qual sai a Esposa representa a parte sensível da alma; está sossegada porque todos os desejos se acalmaram. A alma conseguiu de lá sair porque Deus mesmo a libertou: por esforço próprio não o teria conseguido” (STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo: Loyola, 1988, p. 45).

O desapego é designado como “noite”, que a alma deve atravessar. Há uma tríplice perspectiva: ponto de partida, caminho e fim.

Ponto de partida: desejo das coisas deste mundo, que a alma deve renunciar; a renúncia a coloca numa escuridão espessa, comparável a um nada (daí o nome “noite”).

Caminho: da fé; tenebroso e seguro. Caminho porque conduz à união com Deus; noite escura se comparado ao entendimento claro da razão natural. A fé nos leva a conhecer algo que não chegamos a ver claramente.

Objetivo final do caminho é uma noite: nesta terra, mesmo atingindo a união bem-aventurada, Deus permanece escondido de nós. Assim como a noite cósmica, a noite mística tem períodos e graus variáveis de escuridão. A fé é a escuridão da meia-noite, porque neste ponto acham-se apagados a atividade dos sentidos e o entendimento natural da razão. Quando a alma encontra o próprio Deus, “é como se rompesse em sua noite a alvorada do dia da eternidade” (cf. Ibid., p. 46).

 

A entrada ativa na noite, forma de seguir a cruz

 

Ponto de partida é a “noite escura dos sentidos”: o que importa é a mortificação do desejo de todas as coisas. Não se trata de extinguir a percepção dos sentidos, o que é impossível. O que deve mudar é nossa atitude fundamental em face do mundo sensível.

O ser humano se vê preso ao mundo por mil laços, se deixa levar pelas tendências e desejos em suas ações e condutas, na alimentação, no vestuário, no trabalho, no repouso, nos divertimentos e lazeres, e também na vida social; sentimo-nos felizes quando não encontramos obstáculos extraordinários (viver sem dificuldade alguma não é possível).

O início da “noite escura” traz uma total novidade: o “sentir-se em casa” neste mundo, tão natural e agradável, os prazeres que proporciona, o desejo deles e sua aceitação, tudo isso que constitui e representa o nosso cotidiano é, aos olhos de Deus, escuridão, incompatível com a Luz divina. Na alma, tudo isso tem de ser cortado pela raiz, se nela se quiser dar lugar a Deus. Corresponder a esse imperativo é abrir luta contra a natureza humana (como ela se encontra na condição caída, considerando-a já remediada, porém insuficiente para a plena e verdadeira felicidade) (cf. Ibid., pp. 47-48).

O império do desejo na alma é realmente escuridão: a concupiscência cansa e atormenta a alma, deixando-o na escuridão; mancha-a e esgota-lhe as forças; rouba-lhe o espírito de Deus, de quem se afastou pela entrega ao espírito animal. Lutar contra a concupiscência ou tomar sobre si a cruz significa entrar ativamente na noite escura.

São João da Cruz dá as seguintes instruções: 1) manter sempre vivo o desejo de em tudo imitar a Cristo, vivendo conforme sua vida (meditá-la); 2) renunciar a qualquer prazer que se ofereça aos sentidos e até afastá-lo de si, caso não contribua para a honra e glória de Deus.

Para mortificar e apaziguar as quatro paixões naturais, que são o prazer, a esperança, o temor e a dor: inclinar-se não ao mais fácil, mas ao mais difícil; não ao mais saboroso, e sim ao mais insípido; não ao mais repousante, mas ao trabalhoso; não ao que consola, mas ao desconsolo; não ao mais alto e preciso, mas ao mais desprezível; não a querer coisa alguma, mas a nada querer; não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; desejar a pobreza de tudo que há no mundo, por amor a Cristo.

O simples aceitar a cruz não leva ainda à morte na cruz; para atravessar inteiramente a noite é preciso que o homem morra para o pecado. O homem não pode crucificar-se a si próprio: a noite ativa tem que ser completada pela noite passiva, pelo próprio Deus.

 

A noite passiva como crucifixão

 

Deus trata as almas dos principiantes como mãe carinhosa, fazendo que suas práticas espirituais (oração, meditação, mortificação) sejam acompanhadas de abundantes alegrias e consolações. Esse júbilo torna-se motivo de pronta entrega às práticas espirituais; eles não notam a imperfeição que há nisso, nem as numerosas faltas que cometem na prática das virtudes.

Com exemplos concretos, o santo prova que, nos principiantes, os pecados capitais se transferem para a ordem espiritual: a soberba espiritual, porque se gabam de suas graças e virtudes, olhando com desdém para os demais, e preferindo aconselhar os outros a ouvir conselhos; a avareza espiritual (nunca lhes parece demasiado o que possuem de livros, crucifixos, rosários etc.)

A fim de se desacostumarem, é preciso que sejam privados do leite das consolações e alimentados com substância mais sólida; então Deus os priva do manancial da doce água espiritual.

Não se trata aqui da consequência de pecados e imperfeições, mas da aridez purificadora da noite escura, por três sinais: 1)  a alma não sente prazer nas criaturas; 2) a alma se lembra continuamente de Deus, pensando que não serve a ele, mas que volta atrás (a alma não se preocuparia com seu estado, caso sua aridez fosse consequência de sua tibieza e indiferença: na aridez purificadora, predomina sempre o desejo de servir a Deus, o espírito se fortifica, enquanto os sentidos, por falta de prazer, sentem-se fracos e sem energia); 3) a impossibilidade para a alma, de meditar e discorrer com o entendimento e com a ajuda da imaginação, como fazia (Deus começa a comunicar-se, não mais por meio dos sentidos, mas o faz puramente no espírito, com um ato simples de contemplação, a que não chegam os sentidos interiores e exteriores da parte inferior: a morte do homem carnal verifica-se antes do alvorecer da vida nova). 

Não é exagero chamar de crucifixão os sofrimentos das pessoas nesse estado. À aridez junta-se o medo de se suporem em caminho errado, pensam que para elas acabou-se o bem espiritual e que Deus as abandonou. Devem ter paciência e perseverar na oração, contentando-se apenas com a atenção amorosa e sossegada em Deus, sem preocupações, tentativas ou desejos de saboreá-lo ou senti-lo.

Somente mais tarde a alma reconhecerá que Deus quis purificá-la pela noite dos sentidos e submeter estes últimos ao espírito, e o lucro que teve por “sair sem ser notada”, isto é, que se tornou livre da escravidão dos sentidos, desprendeu seus desejos das criaturas e os dirigiu para os bens eternos. A “noite sensível” se tornou para ela porta estreita que conduz à vida.

Poucos chegarão ao ponto da noite do espírito, mas os proveitos da primeira noite já são bem grandes: a alma ganha em conhecimento próprio, chega a reconhecer a própria miséria, não mais descobre bem algum em si mesma e aprende a apresentar-se com mais reverência diante de Deus. Então se lhe manifesta o entendimento da grandeza e sublimidade de Deus. A libertação e todos os recursos e apoios de ordem sensível lhe permite receber iluminações e tornar-se acessível à verdade.

A alma é incapaz de ter ideia de Deus pelo pensamento discursivo, de fazer progresso por meio do pensamento reflexivo auxiliado pela imaginação. A aridez e o vazio tornam a alma humilde. O orgulho de outrora desaparece, por não encontrar a alma em si mesma coisa alguma que ainda lhe sirva de estímulo a olhar os outros com desdém; despertam-se agora no próprio coração, amor e estima por eles.

A alma está consciente de suas misérias e não pode se ocupar com os outros; sentindo seu próprio desamparo, há de tornar-se modesta e obediente; desejará ser orientada para colocar-se no caminho certo. A avareza espiritual é radicalmente curada: não mais encontrando gosto em nenhum exercício espiritual, torna-se comedida e há de fazer o que faz unicamente por amor a Deus, sem procurar nisso satisfação pessoal. O mesmo se dá com todas as perfeições. Desse modo, desparecem também a confusão e a inquietação, penetrando na alma profunda paz e contínua lembrança de Deus. Somente o receio de desagradá-lo permanece.

A noite escura se torna escola de todas as virtudes: ensina a resignação e a paciência, pela observância fiel da vida espiritual, mesmo sem consolo e gosto; a alma alcançará o puro amor a Deus enquanto agir conforme sua vontade; a perseverança em todas as contrariedades lhe assegura ânimo e fortaleza. A purificação completa de todas as inclinações e desejos sensíveis leva a alma à liberdade de espírito, em que amadurecem os frutos do espírito, e essa liberdade garante abrigo e segurança contra os três inimigos (o demônio, o mundo e a carne), que nada poderão contra o espírito, porque a alma “saiu sem ser notada”. A casa está em profunda paz, uma vez que as paixões se acalmaram e a sensibilidade adormeceu, pela aridez.

A alma escapou, encontrou o caminho do espírito, dos adiantados, a via iluminativa onde o próprio Deus lhe serve de mestre, sem a própria cooperação da alma. Ela encontra-se em estado de transição. A contemplação lhe causa alegria puramente espiritual, da qual os sentidos purificados também participam. Às vezes, ela volta à meditação; as alegrias alternam-se com dolorosas provações.

Antes de entrar na noite do espírito, a alma experimentará, além da aridez e do vazio, dolorosas e profundas provações, causadas por penosas tentações: o espírito da impureza e o da blasfêmia apoderam-se da sua imaginação; o espírito mentiroso lhe causa escrúpulos, confusões e perplexidades.

Mesmo as almas mais adiantadas se ressentem ainda de muitas imperfeições habituais, das quais deverão ser libertadas pela noite do espírito; os sentidos serão também completamente purificados, pois neles é que residem as raízes das imperfeições.

À medida que morre o homem carnal é que se dá a ressurreição do homem espiritual. Esse admirável e novo nascimento foi apenas insinuado até agora.


 

San Juan de la Cruz (1675), de Francisco Ruiz Gijón


 



 

Nenhum comentário: