Thursday, October 05, 2017

Sta. Edith Stein sobre os anjos

Tradução de: STEIN, Edith. La estructura de la persona humana. 3a impressão. Madrid: BAC, 2007, pp. 124-126.


"Espíritos 'puros' finitos

Os que tradicionalmente têm sido denominados 'espíritos puros' são pessoas finitas. 'Finitas' não no sentido do fim temporal, senão, por um lado, por não existir desde toda a eternidade, mas haver sido criadas, e, por outro lado, porque seu ser é limitado: cada uma dessas pessoas é qualitativamente única, distinta de todas as demais. Estão, portanto, circunscritas a uma determinada substância e ao ser a ela correspondente, e assim, neste sentido, não superaram por completo a fixação [nota: “limitação”, nos termos steinianos]. Há pessoas deste tipo ‘mais altas’ e ‘mais baixas’, e o conhecimento e o amor de umas é distinto do de outras.

Segundo santo Tomás, nelas se dá oposição de potência e atualidade, mas não a de espírito e matéria. No que se refere a esta segunda oposição, é preciso admitir decididamente a tese tomista, se é que por materialidade se entende corporalidade espacial. E se se equiparam espiritualidade e imaterialidade neste sentido, também a denominação de ‘espíritos puros’ resulta acertada.

Temos de nos perguntar, entretanto, se esta noção de matéria não é quiçá demasiado estreita e se ela se desentende de seu último sentido formal. Neste último sentido formal, com efeito, parece-me que a matéria não pode faltar na estrutura de nenhum ser criado [nota: é a mesma tese de S. Boaventura]. Para que possa ser finito, tem de se opor ao divino, isto é, ao infinito e situado mais além de toda limitação: há de admitir, e inclusive exigir para seu ser, medida e limitação. A matéria que enche o espaço e é acessível à determinação geométrica já empresta conteúdo a esta ideia formal de matéria. Aquilo que admite diversos graus de ser espiritual, a ‘matéria’ que forma parte da estrutura das pessoas espirituais (na falta de uma denominação melhor, eu a tenho chamado até agora ‘força espiritual’), é outro tipo de conteúdo dessa ideia. Toda as substâncias finitas são, por isso, uma unidade de forma e matéria. Desta maneira, só a Deus posso dar o nome de ‘forma pura’, mas não (diferentemente do que faz santo Tomás) aos espíritos finitos.

Surge agora a pergunta de se, apesar de sua fixação ontológica, é própria dos espíritos incorpóreos uma certa superação da fixação, uma ligeireza e uma mobilidade superiores a sua desvinculação espacial. Na atualidade pura do Espírito Puro encontramos incluídas todas essas características. Quais ou quanto delas convém aos espíritos finitos é algo que poderemos esclarecer tão logo examinemos a relação existente neles entre a potência e o ato.

Os espíritos puros não têm ‘potências’ no sentido de capacidades a desenvolver: sua existência não reveste a forma de um processo de desenvolvimento. O que são por natureza, eles o são em ato. Se neles cabe falar de potencialidade, esta significa a possibilidade da passagem a uma atualidade mais alta, de um incremento de ser e ao mesmo tempo de um enriquecimento do que seu espírito abarca. Mas este incremento não se deve a um desdobramento de sua natureza, senão a uma intervenção sobrenatural: por parte de Deus ou de espíritos finitos mais altos. Ao ser suscetíveis desse enriquecimento e incremento de ser, não são imutáveis como Deus. Mas tampouco são organismos que desdobram no tempo o que são por natureza e nos quais parte daquilo que são potencialmente não se desdobrará nunca em atos. Seu ser natural não está submetido a obstáculo algum, nem interior nem exterior, e neste sentido estão desligados, são ligeiros e se acham em livre movimento espiritual”.



"Serafins, Querubins e Anjos Adoradores" 
(1370-71), de Jacopo di Cione

Wednesday, October 04, 2017

São Francisco de Assis, "luzeiro para todos os que crêem"

Textos sobre o santo ou do próprio.

Fontes: o primeiro está na página da Santa Sé ( https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100127.html); os demais foram tirados de: VVAA. Fontes Franciscanas. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2005 (grifos da edição).

* * *

Bento XVI, da Audiência Geral de 17/01/2010:

"'Nasceu no mundo um sol'. Com estas palavras, na Divina Comédia (Paraíso, Canto XI), o sumo poeta italiano Dante Alighieri alude ao nascimento de Francisco, ocorrido entre o final de 1181 e o início de 1182, em Assis. Pertencente a uma família rica – o pai era comerciante de tecidos Francisco transcorreu uma adolescência e uma juventude tranquilas, cultivando os ideais cavalheirescos da época. Com vinte anos participou numa campanha militar, e foi aprisionado. Adoeceu e foi libertado. Depois do regresso a Assis, começou nele um lento processo de conversão espiritual, que o levou a abandonar gradualmente o estilo de vida mundano, que tinha praticado até então. Remontam a esta época os célebres episódios do encontro com o leproso, ao qual Francisco, descendo do cavalo, deu o ósculo da paz, e da mensagem do Crucifixo na pequena Igreja de São Damião. Três vezes Cristo na Cruz se animou, e disse-lhe: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja em ruínas". Este simples acontecimento da palavra do Senhor ouvida na igreja de São Damião esconde um simbolismo profundo. Imediatamente São Francisco é chamado a reparar esta pequena igreja, mas o estado de ruínas deste edifício é símbolo da situação dramática e preocupante da própria Igreja naquele tempo, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o refrear-se do amor; uma destruição interior da Igreja que implica também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos heréticos. Contudo, no centro desta Igreja em ruínas está o Crucifixo e fala: chama à renovação, chama Francisco a um trabalho manual para reparar concretamente a pequena igreja de São Damião, símbolo da chamada mais profunda a renovar a própria Igreja de Cristo, com a sua radicalidade de fé e com o seu entusiasmo de amor a Cristo. Este acontecimento, que aconteceu provavelmente em 1205, faz pensar noutro evento semelhante que se verificou em 1207: o sonho do Papa Inocêncio III. Ele vê em sonhos que a Basílica de São João de Latrão, a igreja-mãe de todas as igrejas, está a desabar e um religioso pequeno e insignificante ampara com os seus ombros a igreja para que não caia. É interessante notar, por um lado, que não é o Papa quem dá ajuda para que a igreja não desabe, mas um religioso pequeno e insignificante, que o Papa reconhece em Francisco que o visita. Inocêncio III era um Papa poderoso, de grande cultura teológica, assim como de grande poder político, contudo não é ele quem renova a Igreja, mas um religioso pequeno e insignificante: é São Francisco, chamado por Deus. Por outro lado, é importante observar que São Francisco não renova a Igreja sem ou contra o Papa, mas em comunhão com ele. As duas realidades caminham juntas: o Sucessor de Pedro, os Bispos, a Igreja fundada na sucessão dos Apóstolos e o carisma novo que o Espírito Santo cria neste momento para renovar a Igreja. Ao mesmo tempo, cresce a verdadeira renovação".

* * *

São Boaventura, do Prólogo da Legenda Maior de São Francisco:

"1. Nestes últimos dias, a graça de Deus nosso Salvador apareceu em seu servo, Francisco, para todos os verdadeiros humildes e amigos da santa Pobreza. Venerando nele a superabundante misericórdia de Deus, são instruídos, pelo seu exemplo, a renunciar radicalmente a toda impiedade e aos desejos do mundo, a viver de acordo com o Cristo e a sentir, com insaciável desejo, a sede da feliz esperança. Pois, Deus Excelso olhou para ele, verdadeiro pobrezinho e contrito, com tão benigna condescendência que não só levantou o indigente do pó da vida mundana mas, também, como verdadeiro 'pro-fessor' [Nota da edição: No latim, professor: aquele que trabalha a modo de artesão, profisional], guia e arauto da perfeição evangélica, o constituiu luzeiro para todos os que crêem, a fim de que, dando testemunho da luz preparasse no Senhor um caminho de luz e de paz para os corações dos fiéis.

Pois, qual estrela d'alva a brilhar entre as nuvens, guiou para a luz, com o clarão de sua vida e doutrina, os que jaziam nas trevas e à sombra da morte. Como o arco-íris refulge por entre as nuvens da glória, apresentando em si o sinal da aliança do Senhor, anunciou aos homens a paz e a salvação. Sendo igualmente ele anjo de verdadeira paz, foi destinado por Deus, segundo também à imagem e semelhança do Precursor, a preparar no deserto o caminho da mais alta Pobreza e a pregar a penitência, tanto pelo exemplo como pela palavra. Como aparece sobejamente do curso de sua vida, o Céu o dotou, primeiro, com os dons da graça celestial, enriqueceu-o, depois, com os méritos de uma virtude invicta e, repleto também do espírito de profecia, foi predestinado para um ministério angélico..."

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Tomás de Celano, da Primeira Vida de São Francisco:

"84. Sua maior aspiração, seu mais vivo desejo e mais elevado propósito era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os 'passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina'. Estava sempre meditando em suas palavras e recordava seus atos com muita inteligência. Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas"

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S. Francisco de Assis, da Regra não-bulada

"Se, porém, algum dos Ministros preceituar a algum dos Irmãos algo contra a nossa vida ou contra a sua alma, não se atenha a obedecer-lhe; porque não é obediência aquela na qual se comete delito ou pecado" (5,2).

"E se virem algum deles [Ministros] andar segundo a carne e não segundo o espírito, de acordo com a retidão da nossa vida, após a terceira admoestação, se ele não se emendar, denunciem-no ao Ministro e servo de toda a fraternidade..." (5,4).

"Se um dos Irmãos, por instigação do diabo, fornicar, seja despojado do hábito que perdeu por sua torpe iniquidade e deponha-o por inteiro e seja definitivamente excluído da nossa Ordem" (13,1).

Comentário: se estes conselhos fossem seguidos nas "novas comunidades" e nas dioceses cobertas de escândalos de pedofilia, quantos absurdos seriam evitados... 

"Os Irmãos, onde quer que estejam, se não puderem observar a nossa vida, recorram quanto antes ao seu Ministro, cientificando-o disto. O Ministro, então, se empenhe em atendê-los de tal modo como ele próprio quereria, se estivesse em semelhante situação" (6,1-2).

Comentário: veja a diferença de tratamento entre aqueles que vivem de modo indigno (trechos acima) e aqueles que simplesmente se veem aquém do altíssimo ideal da ordem franciscana! Que delicadeza e reverência!

"E a esmola é a herança e a justiça devida aos pobres" (9,5).

Comentário: é um ato de injustiça negar a esmola, portanto!, e ficar esperando uma "solução política" para a pobreza. A mente de S. Francisco é absolutamente contrária às ideologias que pensam que a caridade é uma "forma de atenuar a culpa, mantendo o status quo", ou um "privilégio do Estado".

"Os Irmãos que vão [entre muçulmanos], porém, podem viver espiritualmente entre eles de dois modos. Um modo é: não entrem em litígios nem em contendas, mas sejam súditos de toda humana criatura por causa de Deus e confessem serem cristãos. O outro modo é: quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus para que creiam em Deus Onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo..." (16,5-7).

Comentário: que equilíbrio!, nem uma atitude conflitiva, nem uma atitude relativista!

* * * 

São Francisco de Assis, das Admoestações:

"16. Da pureza de coração

 Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus.

São verdadeiramente puros os que desprezam as coisas terrenas, buscam as celestiais e não deixam de adorar sempre e ver o Senhor Deus, vivo e verdadeiro, de ânimo e de coração puro.

17. Do humilde servo de Deus

Bem-aventurado aquele servo, que não se exalta mais pelo bem que o Senhor diz e opera por ele do que pelo bem que o Senhor diz e opera por outro. Peca o homem que quer receber mais do seu próximo do que não quer dar de sei ao Senhor Deus.

18. Da compaixão do próximo

Bem-aventurado o homem que suporta o próximo segundo a sua fragilidade naquilo que quereria ser suportado por ele, se estivesse em idêntica situação. Bem-aventurado o servo que devolve todos os bens ao Senhor Deus, porque quem retiver algo para si, esconde em si a riqueza do Senhor seu Deus e o que julgava ter, ser-lhe-á tomado.

19. Do humilde servo de Deus

Bem-aventurado o servo que não se tem por melhor, quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é tido por vil, simples e desprezado. Porque, quanto é o homem diante de Deus, tanto é em si mesmo e nada mais. Ai daquele religioso que é enaltecido pelos outros e por própria vontade não quer descer. E bem-aventurado aquele servo que não se enaltece por própria vontade e sempre deseja estar sob os pés dos outros".



"São Francisco recebendo os estigmas" (c. 1440), de Fra Angélico

Saturday, September 30, 2017

Arteterapia espiritual a partir do Canto Gregoriano

Terceira meditação do amigo Lincoln Hass Hein.

A primeira: Memória, Mistagogia, Arteterapia.

A segunda: Sentimento, Beleza, Moradas da alma.

* * * 

Três​ ​tipos​ ​melódicos​ ​gregos,​ ​ethos​​,​ ​ethos​ ​do​ ​gregoriano,​ ​dos temperamentos​ ​e​ ​os​ ​dons​ ​do​ ​Espírito​ ​Santo.​ ​Arteterapia​ ​espiritual​ ​a​ ​partir do​ ​gregoriano.  

Medito​ ​a​ ​seguir​ ​alguns​ ​aspectos​ ​dos​ ​ethos​ ​e​ ​da​ ​composição​ ​na​ ​música​ ​antiga​ ​da​ ​Grécia​ ​e​ ​suas relações​ ​com​ ​o​ ​canto​ ​gregoriano.​ ​E​ ​então​ ​a​ ​partir​ ​disto​ ​os​ ​significados​ ​profundos​ ​dos​ ​modos gregorianos​ ​na​ ​sua​ ​relação​ ​com​ ​as​ ​características​ ​psicológicas​ ​do​ ​ser​ ​humano​ ​​ ​e​ ​na​ ​sua​ ​relação com​ ​a​ ​elevação​ ​dessas​ ​características​ ​pela​ ​vida​ ​sobrenatural​ ​da​ ​graça​ ​e​ ​do​ ​dom​ ​do​ ​Espírito Santo.​ ​Nesse​ ​sentido​ ​verifico​ ​as​ ​possibilidades​ ​arteterapêuticas​ ​do​ ​canto​ ​gregoriano​ ​sobretudo num​ ​sentido​ ​espiritual​ ​teológico​ ​de​ ​desenvolvimento​ ​das​ ​virtudes​ ​e​ ​de​ ​abertura​ ​à​ ​influência curativa​ ​do​ ​Espírito​ ​Santo​ ​para​ ​a​ ​salvação. 

O​ ​autor​ ​antigo​ ​Cleônides​ ​descreve​ ​a​ ​composição​ ​do​ ​"melos"​ ​(palavra​ ​que​ ​origina​ ​a​ ​nossa "melodia")​ ​como​ ​"o​ ​emprego​ ​dos​ ​materiais​ ​sujeitos​ ​à​ ​prática​ ​harmônica​ ​com​ ​devida consideração​ ​às​ ​exigências​ ​de​ ​cada​ ​um​ ​dos​ ​elementos​ ​em​ ​consideração"​ ​​ ​["Harmonic Introduction",​ ​translated​ ​by​ ​Oliver​ ​Strunk.​ ​In​ ​Source​ ​Readings​ ​in​ ​Music​ ​History,​ ​vol.​ ​1 (Antiquity​ ​and​ ​the​ ​Middle​ ​Ages),​ ​edited​ ​by​ ​Oliver​ ​Strunk,​ ​35–46.​ ​New​ ​York:​ ​W.​ ​W.​ ​Norton.]  

Esses​ ​elementos​ ​incluem​ ​o​ ​ritmo​ ​determinado​ ​sobretudo​ ​pela​ ​poesia​ ​e​ ​também​ ​as​ ​várias maneiras​ ​de​ ​utilizar​ ​as​ ​frequências​ ​sonoras​ ​em​ ​escalas​ ​e​ ​tipos​ ​melódicos​ ​("tonus", "harmoniai",​ ​traduzidos​ ​posteriormente​ ​por​ ​"modo")​ ​mas​ ​há​ ​também​ ​o​ ​elemento​ ​do​ ​tipo​ ​de destino​ ​e​ ​de​ ​uso​ ​da​ ​música. 

Há​ ​três​ ​tipos​ ​básicos​ ​de​ ​composição​ ​do​ ​"melos"​ ​na​ ​música​ ​grega​ ​antiga​ ​segundo​ ​alguns autores​ ​(Cleônides,​ ​Quintiliano): 

-Diastáltico:​ ​expansão,​ ​diástole​ ​abertura,​ ​excitante,​ ​exaltante,​ ​magnificente,​ ​heróico,​ ​elevação viril,​ ​associado​ ​à​ ​tragédia. 
-Sistáltico:​ ​recolhimento,​ ​sístole,​ ​fechamento,​ ​depressivo,​ ​associado​ ​à​ ​humildade,​ ​aos sentimentos​ ​amorosos,​ ​ao​ ​feminino,​ ​ao​ ​erotismo,​ ​à​ ​cantos​ ​fúnebres​ ​e​ ​lamentações.
-Hesicástico:​ ​suavizante,​ ​hesíquia,​ ​pacífico,​ ​moderado,​ ​associado​ ​aos​ ​hinos,​ ​eulogias, oráculos​ ​​ ​(cantos​ ​sacros) 

Há​ ​na​ ​teoria​ ​musical​ ​da​ ​Grécia​ ​antiga​ ​três​ ​tipos​ ​de​ ​tetracordes​ ​diatônicos​ ​​ ​conforme​ ​semitom que​ ​move​ ​variando​ ​entre​ ​tons: 
Dórico:​ ​mi​ ​fa​ ​sol​ ​la:​ ​semitom​ ​no​ ​inicio 
Frigio:​ ​re​ ​mi​ ​fa​ ​sol:​ ​semitom​ ​no​ ​meio 
Lidio:​ ​dó​ ​re​ ​mi​ ​fá:​ ​semitom​ ​no​ ​fim 
O​ ​Dórico​ ​era​ ​considerado​ ​o​ ​mais​ ​importante​ ​e​ ​origem​ ​dos​ ​outros. 

As​ ​espécies​ ​de​ ​oitava​ ​surgem​ ​da​ ​justaposição​ ​de​ ​dois​ ​tetracordes​ ​iguais​ ​com​ ​um​ ​tom​ ​no​ ​meio exceto​ ​no​ ​"modo"​ ​mixolídio​ ​que​ ​tem​ ​o​ ​trítono​ ​e​ ​assim​ ​um​ ​meio​ ​tom​ ​entre​ ​os​ ​tetracordes​ ​e tetracordes​ ​diferentes.​ ​Cada​ ​"modo"​ ​tinha​ ​um​ ​som​ ​dominante​ ​e​ ​um​ ​fundamental,​ ​a​ ​diferença entre​ ​o​ ​modo​ ​plagal​ ​e​ ​o​ ​autêntico​ ​era​ ​que​ ​a​ ​escala​ ​plagal​ ​terminava​ ​e​ ​começava​ ​com​ ​o fundamental​ ​e​ ​o​ ​autêntico​ ​começava​ ​com​ ​o​ ​dominante​ ​e​ ​terminava​ ​com​ ​o​ ​dominante.​ ​Cada espécie​ ​de​ ​oitava​ ​também​ ​é​ ​relacionada​ ​a​ ​um​ ​ethos,​ ​a​ ​uma​ ​disposição​ ​da​ ​natureza,​ ​​ ​a​ ​uma disposição​ ​ou​ ​moção​ ​da​ ​alma​ ​ou​ ​do​ ​caráter: 

-​ ​Dórico​ ​mi​ ​-​ ​mi​ ​associado​ ​à​ ​coragem,​ ​virilidade,​ ​valente​ ​domínio​ ​de​ ​si 
-​ ​Frigio​ ​ré​ ​-​ ​ré​ ​associado​ ​à​ ​nobreza​ ​mas​ ​também​ ​a​ ​certa​ ​variação​ ​melancólica​ ​ou​ ​sanguínea​ ​e excitação​ ​extática 
-​ ​Lidio​ ​dó​ ​-​ ​dó​ ​associado​ ​à​ ​​ ​quietude,​ ​ao​ ​relaxamento 
-​ ​Mixolidio​ ​si​ ​-​ ​si​ ​associado​ ​à​ ​ansiedade,​ ​angústia​ ​e​ ​à​ ​tristeza​ ​(é​ ​o​ ​modo​ ​que​ ​tem​ ​o​ ​trítono entre​ ​fundamental​ ​e​ ​dominante) 

Relação​ ​com​ ​modos​ ​gregorianos​ ​: 

Em​ ​termos​ ​de​ ​espécie​ ​de​ ​oitava​ ​Protus​ ​corresponde​ ​ao​ ​Frígio​ ​grego​ ​mas​ ​foi​ ​chamado​ ​dórico nas​ ​confusões​ ​teóricas​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas.​ ​O​ ​modo​ ​primitivo​ ​pentatônico​ ​era​ ​uma entoação​ ​com​ ​um​ ​intervalo​ ​equivalente​ ​à​ ​terça​ ​menor​ ​seguido​ ​de​ ​uma​ ​segunda​ ​maior​ ​(lá​ ​dó ré).​ ​Um​ ​fechamento​ ​melódico,​ ​portanto,​ ​com​ ​um​ ​intervalo​ ​amplo​ ​seguido​ ​de​ ​um​ ​intervalo mais​ ​curto.​ ​No​ ​modo​ ​protus​ ​posterior​ ​temos​ ​uma​ ​final​ ​em​ ​ré​ ​com​ ​uma​ ​terça​ ​cadencial​ ​que partindo​ ​do​ ​ré​ ​tem​ ​primeiro​ ​um​ ​tom​ ​depois​ ​um​ ​semitom.​ ​Se​ ​pensarmos​ ​em​ ​termos​ ​de​ ​ethos​ ​o protus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​seja​ ​à​ ​melancolia​ ​do​ ​frígio​ ​grego​ ​seja​ ​ao​ ​melos​ ​sistáltico porém​ ​o​ ​protus​ ​autêntico​ ​com​ ​suas​ ​muitas​ ​modulações​ ​para​ ​o​ ​tritus​ ​plagal​ ​tem​ ​algo​ ​do​ ​melos hesicástico​ ​e​ ​da​ ​tranquilidade​ ​do​ ​lídio​ ​grego​ ​e​ ​nesse​ ​sentido​ ​também​ ​um​ ​caráter​ ​amoroso​ ​do melos​ ​sistáltico. 

Em​ ​termos​ ​de​ ​espécie​ ​de​ ​oitava​ ​o​ ​Deuterus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​ao​ ​dórico​ ​grego​ ​mas​ ​nas confusões​ ​teóricas​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas​ ​foi​ ​chamado​ ​de​ ​frígio.​ ​O​ ​modo​ ​primitivo pentatônico​ ​era​ ​uma​ ​entoação​ ​com​ ​dois​ ​intervalos​ ​seguidos​ ​de​ ​segunda​ ​maior​ ​(dó​ ​re​ ​mi)​ ​o​ ​que dá​ ​um​ ​caráter​ ​de​ ​movimento​ ​e​ ​de​ ​impulso​ ​à​ ​linha​ ​melódica​ ​pela​ ​dupla​ ​de​ ​intervalos​ ​curtos. No​ ​modo​ ​deuterus​ ​posterior​ ​temos​ ​uma​ ​final​ ​em​ ​mi​ ​com​ ​uma​ ​terça​ ​menor​ ​cadencial​ ​que partindo​ ​do​ ​mi​ ​tem​ ​primeiro​ ​um​ ​semitom​ ​e​ ​depois​ ​um​ ​tom.​ ​Se​ ​pensarmos​ ​em​ ​termos​ ​de​ ​ethos o​ ​deuterus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​seja​ ​à​ ​virilidade​ ​e​ ​força​ ​​ ​(algo​ ​de​ ​um​ ​temperamento colérico)​ ​do​ ​dórico​ ​grego,​ ​seja​ ​ao​ ​melos​ ​diastáltico. 

Em​ ​termos​ ​de​ ​espécie​ ​de​ ​oitava​ ​o​ ​tritus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​ao​ ​lídio​ ​grego​ ​(apenas​ ​inverte autêntico​ ​e​ ​plagal​ ​nas​ ​confusões​ ​teóricas​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas).​ ​O​ ​modo​ ​pentatônico primitivo​ ​era​ ​uma​ ​entoação​ ​com​ ​um​ ​intervalo​ ​de​ ​segunda​ ​maior​ ​seguido​ ​de​ ​um​ ​intervalo​ ​de terça​ ​menor​ ​(sol​ ​lá​ ​dó​ ​ou​ ​transposto​ ​dó​ ​ré​ ​fá),​ ​portanto,​ ​uma​ ​abertura​ ​no​ ​movimento​ ​melódico no​ ​sentido​ ​oposto​ ​ao​ ​do​ ​protus,​ ​com​ ​um​ ​intervalo​ ​curto​ ​seguido​ ​de​ ​um​ ​amplo.​ ​No​ ​tritus posterior​ ​temos​ ​uma​ ​final​ ​em​ ​fá​ ​com​ ​uma​ ​terça​ ​cadencial​ ​maior​ ​com​ ​dois​ ​tons.​ ​Se​ ​pensarmos em​ ​termos​ ​de​ ​ethos​ ​o​ ​tritus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​à​ ​tranquilidade​ ​do​ ​lídio​ ​grego​ ​porém​ ​tem segundo​ ​os​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas​ ​um​ ​caráter​ ​alegre​ ​o​ ​que​ ​o​ ​torna​ ​uma​ ​síntese​ ​entre​ ​o melos​ ​diastáltico​ ​e​ ​o​ ​hesicástico. 

Em​ ​termos​ ​de​ ​espécie​ ​de​ ​oitava​ ​o​ ​tetrardus​ ​gregoriano​ ​corresponde​ ​ao​ ​hipofrígio​ ​grego​ ​mas nas​ ​confusões​ ​teóricas​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas​ ​foi​ ​chamado​ ​de​ ​mixolídio.​ ​Nos​ ​modos primitivos​ ​pentatônicos​ ​é​ ​equivalente​ ​ora​ ​ao​ ​protus​ ​primitivo​ ​ora​ ​ao​ ​tritus​ ​primitivo dependendo​ ​do​ ​arranjo​ ​dos​ ​intervalos​ ​de​ ​terça​ ​e​ ​de​ ​segunda​ ​(protus:​ ​ré​ ​fá​ ​sol,​ ​tritus:​ ​ré​ ​mi​ ​sol). No​ ​modo​ ​tetrardus​ ​posterior​ ​temos​ ​​ ​uma​ ​final​ ​em​ ​sol​ ​com​ ​uma​ ​terça​ ​cadencial​ ​maior​ ​com​ ​dois tons​ ​e​ ​o​ ​modo​ ​se​ ​diferencia​ ​do​ ​tritus​ ​pela​ ​nota​ ​abaixo​ ​da​ ​final​ ​em​ ​um​ ​intervalo​ ​de​ ​segunda maior​ ​(fá​ ​abaixo​ ​do​ ​sol)​ ​ao​ ​invés​ ​de​ ​menor​ ​(mi​ ​abaixo​ ​do​ ​fá).​ ​Se​ ​pensarmos​ ​em​ ​termos​ ​de ethos​ ​o​ ​tetrardus​ ​gregoriano​ ​participa​ ​do​ ​recolhimento​ ​melancólico​ ​do​ ​frígio​ ​grego​ ​e​ ​do​ ​melos sistáltico​ ​​ ​(até​ ​por​ ​sua​ ​derivação​ ​por​ ​transposição​ ​de​ ​quarta​ ​justa​ ​a​ ​partir​ ​do​ ​protus)​ ​e​ ​ao mesmo​ ​tempo​ ​tem​ ​alegria​ ​como​ ​o​ ​tritus​ ​e​ ​movimento​ ​diastáltico​ ​quando​ ​acentua​ ​cadências intermediárias​ ​em​ ​mi​ ​e​ ​si;​ ​neste​ ​sentido​ ​o​ ​tetrardus​ ​autêntico​ ​é​ ​uma​ ​síntese​ ​difícil​ ​entre diastáltico​ ​e​ ​sistáltico​ ​dando​ ​um​ ​caráter​ ​de​ ​excitação,​ ​exaltação​ ​e​ ​êxtase​ ​enquanto​ ​que​ ​o​ ​plagal tem​ ​o​ ​caráter​ ​hesicástico​ ​e​ ​tranquilo​ ​do​ ​lídio​ ​grego​ ​mesclando​ ​e​ ​assim​ ​é​ ​uma​ ​síntese​ ​de​ ​melos sistáltico​ ​com​ ​hesicástico. 

Em​ ​todos​ ​os​ ​modos​ ​gregorianos​ ​os​ ​graus​ ​fortes​ ​do​ ​tritus​ ​tem​ ​forte​ ​presença​ ​estrutural​ ​e​ ​assim o​ ​ethos​ ​tranquilo​ ​do​ ​lídio​ ​traz​ ​um​ ​melos​ ​hesicástico​ ​a​ ​todos​ ​os​ ​modos​ ​gregorianos​ ​em​ ​muitas das​ ​cadências.​ ​Isso​ ​é​ ​explicável​ ​pela​ ​busca​ ​da​ ​paz​ ​na​ ​alma​ ​procurada​ ​pela​ ​oração​ ​cantada​ ​no gregoriano​ ​e​ ​pelo​ ​caráter​ ​sacro.​ ​Ao​ ​mesmo​ ​tempo​ ​a​ ​utilização​ ​do​ ​si​ ​móvel​ ​traz​ ​movimento diastáltico​ ​em​ ​todos​ ​os​ ​modos,​ ​em​ ​alguns​ ​esse​ ​caráter​ ​diastáltico​ ​de​ ​impulso​ ​aparece​ ​mais, pela​ ​influência​ ​dos​ ​intervalos​ ​de​ ​segunda​ ​menor​ ​em​ ​si​ ​e​ ​mi​ ​(principalmente​ ​nos​ ​dois​ ​deuterus e​ ​no​ ​tetrardus​ ​autêntico).​ ​O​ ​caráter​ ​sistáltico​ ​aparece​ ​mais​ ​em​ ​alguns​ ​modos,​ ​mais​ ​nos​ ​protus autêntico​ ​e​ ​protus​ ​plagal,​ ​seguido​ ​do​ ​tritus​ ​plagal​ ​e​ ​por​ ​fim​ ​no​ ​tetrardus​ ​plagal​ ​-​ ​modos​ ​que tem​ ​muitas​ ​cadências​ ​em​ ​ré,​ ​mas​ ​também​ ​aparece​ ​nos​ ​outros​ ​pela​ ​ênfase​ ​decorativa​ ​do​ ​ré abaixo​ ​do​ ​mi​ ​nas​ ​cadências​ ​do​ ​deuterus​ ​e​ ​pela​ ​importância​ ​do​ ​ré​ ​como​ ​nota​ ​de​ ​recitação​ ​no tetrardus​ ​autêntico. 

Essas​ ​considerações​ ​mostram​ ​o​ ​equilíbrio​ ​do​ ​repertório​ ​gregoriano​ ​nas​ ​três​ ​maneiras​ ​de pensar​ ​o​ ​movimento​ ​rítmico-melódico​ ​e​ ​o​ ​movimento​ ​da​ ​alma:​ ​tensão,​ ​distensão​ ​e​ ​repouso. Mas,​ ​ao​ ​mesmo​ ​tempo,​ ​mostram​ ​que​ ​nos​ ​três​ ​modos​ ​primitivos​ ​temos​ ​um​ ​mais​ ​tensionante​ ​no deuterus​ ​primitivo,​ ​um​ ​mais​ ​distensionante​ ​no​ ​protus​ ​primitivo​ ​e​ ​um​ ​mais​ ​repousante​ ​no​ ​tritus primitivo.​ ​E,​ ​quando​ ​eles​ ​evoluem​ ​para​ ​a​ ​quaternidade,​ ​temos:​ ​mais​ ​distensão​ ​no​ ​protus,​ ​mais tensão​ ​no​ ​deuterus,​ ​um​ ​repouso​ ​alegre​ ​com​ ​mais​ ​tensão​ ​no​ ​tritus,​ ​um​ ​repouso​ ​alegre​ ​com mais​ ​distensão​ ​no​ ​tetrardus​ ​plagal.​ ​O​ ​tetrardus​ ​autêntico​ ​é​ ​paradoxal​ ​com​ ​fortes​ ​tensões​ ​e distensões​ ​se​ ​alternando​ ​mas​ ​ao​ ​mesmo​ ​tempo​ ​mantendo​ ​a​ ​alegria​ ​do​ ​tritus​ ​e​ ​do​ ​tetrardus​ ​o que​ ​o​ ​torna​ ​propício​ ​a​ ​expressar​ ​o​ ​arrebatamento​ ​extático​ ​e​ ​o​ ​repouso​ ​instável​ ​de​ ​uma​ ​alma elevada​ ​acima​ ​de​ ​condições​ ​naturais​ ​(é​ ​chamado​ ​angélico​ ​por​ ​autores​ ​medievais).​ ​O​ ​deuterus autêntico​ ​é​ ​mais​ ​tenso​ ​que​ ​o​ ​plagal​ ​com​ ​forte​ ​ethos​ ​indicando​ ​veemência​ ​enquanto​ ​o​ ​plagal tem​ ​muita​ ​participação​ ​de​ ​tritus​ ​transposto​ ​nas​ ​cadências​ ​em​ ​dó​ ​grave​ ​e​ ​protus​ ​transposto​ ​nas cadências​ ​em​ ​sol​ ​e​ ​em​ ​lá​ ​e​ ​dessas​ ​cadências​ ​ganha​ ​seu​ ​ethos​ ​harmônico​ ​de​ ​apaziguar​ ​ira​ ​ao mesmo​ ​tempo​ ​em​ ​que​ ​fortalece​ ​e​ ​dá​ ​impulso. 

Considerando​ ​que:​ ​1-​ ​Segundo​ ​teóricos​ ​gregos​ ​o​ ​tetracorde​ ​diatônico​ ​dórico​ ​em​ ​mi​ ​é​ ​o​ ​mais importante​ ​​ ​(assim​ ​como​ ​seu​ ​correspondente​ ​harmoniai)​ ​e​ ​dá​ ​origem​ ​aos​ ​outros​ ​tetracordes.​ ​2- a​ ​escala​ ​cigana​ ​e​ ​a​ ​escala​ ​espanhola​ ​chamada​ ​também​ ​judaica​ ​é​ ​uma​ ​variação​ ​do​ ​frígio moderno​ ​(dórico​ ​grego)​ ​que​ ​pode​ ​ser​ ​entendida​ ​a​ ​partir​ ​de​ ​uma​ ​escala​ ​pentatônica​ ​​ ​(lá​ ​dó​ ​ré mi)​ ​com​ ​notas​ ​extras​ ​que​ ​movem​ ​para​ ​o​ ​mi​ ​e​ ​para​ ​o​ ​mi​ ​transposto​ ​uma​ ​quarta​ ​justa​ ​em​ ​lá (um​ ​fá​ ​acima​ ​do​ ​mi​ ​e​ ​um​ ​sol​ ​sustenido​ ​abaixo​ ​do​ ​lá).​ ​3-​ ​Muitas​ ​e​ ​muitas​ ​peças​ ​do​ ​repertório mais​ ​antigo​ ​gregoriano​ ​tem​ ​forte​ ​presença​ ​do​ ​modo​ ​primitivo​ ​deuterus​ ​em​ ​mi.​ ​4​ ​-​ ​​ ​há​ ​as​ ​peças do​ ​modo​ ​deuterus​ ​transposto​ ​em​ ​lá​ ​que​ ​oscilam​ ​bastante​ ​entre​ ​protus​ ​e​ ​deuterus​ ​graças​ ​à variação​ ​do​ ​si​ ​entre​ ​natural​ ​e​ ​bemol.​ ​5​ ​-​ ​as​ ​peças​ ​do​ ​ordinário​ ​pascal​ ​luz​ ​et​ ​origo​ ​estão​ ​num modo​ ​deuterus​ ​em​ ​mi. 

Considerando​ ​estas​ ​coisas​ ​postulo​ ​uma​ ​hipótese​ ​a​ ​ser​ ​testada​ ​e​ ​confirmada​ ​em​ ​pesquisas musicológicas:​ ​a​ ​partir​ ​da​ ​salmodia​ ​judaica​ ​e​ ​da​ ​influência​ ​do​ ​dórico​ ​grego​ ​as​ ​primeiras cantilações​ ​cristãs​ ​foram​ ​predominantemente​ ​com​ ​o​ ​mi​ ​como​ ​corda​ ​de​ ​recitação​ ​e​ ​final​ ​e​ ​a partir​ ​do​ ​mi​ ​eram​ ​feitas​ ​modulações​ ​para​ ​o​ ​protus​ ​primitivo​ ​e​ ​para​ ​o​ ​tritus​ ​primitivo​ ​com​ ​uma crescente​ ​valorização​ ​deste​ ​último​ ​em​ ​graus​ ​​ ​pentatônicos.​ ​Uma​ ​adaptação​ ​da​ ​salmodia judaica​ ​para​ ​o​ ​mundo​ ​ocidental​ ​da​ ​época​ ​seguida​ ​de​ ​uma​ ​busca​ ​crescente​ ​pelo​ ​recolhimento na​ ​oração​ ​foi​ ​fazendo​ ​com​ ​que​ ​mais​ ​e​ ​mais​ ​o​ ​protus​ ​tomasse​ ​preponderância​ ​a​ ​partir​ ​da instabilidade​ ​do​ ​deuterus​ ​e​ ​a​ ​busca​ ​pela​ ​paz​ ​característica​ ​do​ ​tritus​ ​levou​ ​ao​ ​surgimento sintético​ ​do​ ​tetrardus​ ​quando​ ​a​ ​cantilação​ ​se​ ​ampliou​ ​em​ ​arcos​ ​melódicos​ ​mais​ ​amplos. 

Assim,​ ​a​ ​partir​ ​do​ ​impulso​ ​da​ ​piedade​ ​que​ ​caracteriza​ ​o​ ​deuterus​ ​e​ ​é​ ​símbolo​ ​da​ ​oração insistente​ ​de​ ​súplica​ ​foi​ ​se​ ​ampliando​ ​um​ ​movimento​ ​de​ ​recolhimento​ ​meditativo​ ​e compungido​ ​característico​ ​do​ ​protus​ ​e​ ​nas​ ​modulações​ ​de​ ​um​ ​para​ ​outro​ ​a​ ​alegria​ ​pacífica​ ​do tritus​ ​vai​ ​trazendo​ ​estabilidade​ ​até​ ​que​ ​no​ ​movimento​ ​cantado​ ​mais​ ​amplo​ ​surge​ ​o​ ​tetrardus plagal​ ​como​ ​síntese​ ​do​ ​recolhimento​ ​com​ ​a​ ​paz​ ​e​ ​a​ ​alegria​ ​e​ ​surge​ ​o​ ​tetrardus​ ​autêntico​ ​como o​ ​máximo​ ​movimento​ ​da​ ​alma​ ​antes​ ​da​ ​paz​ ​plena​ ​pelo​ ​arrebatamento​ ​extático​ ​que​ ​traz​ ​em​ ​si​ ​o paradoxo​ ​da​ ​alegria​ ​e​ ​da​ ​dor,​ ​da​ ​tensão​ ​máxima​ ​com​ ​a​ ​distensão​ ​máxima. 

Com​ ​essa​ ​ideia​ ​temos​ ​uma​ ​possível​ ​sequência​ ​melódica​ ​do​ ​tetracorde​ ​das​ ​finais​ ​gregorianas​ ​ré mi​ ​fá​ ​sol​ ​(tetracorde​ ​que​ ​deu​ ​a​ ​primeira​ ​base​ ​teórica​ ​para​ ​a​ ​prática​ ​do​ ​canto​ ​gregoriano) indicando​ ​com​ ​seu​ ​ethos​ ​uma​ ​progressão​ ​espiritual​ ​da​ ​oração​ ​que​ ​começa​ ​pelo​ ​recolhimento humilde​ ​passa​ ​pela​ ​súplica​ ​veemente,​ ​chega​ ​à​ ​alegria​ ​e​ ​ao​ ​êxtase​ ​e​ ​termina​ ​na​ ​plenitude​ ​da paz.​ ​Como​ ​o​ ​primeiro​ ​modo​ ​gregoriano,​ ​o​ ​protus​ ​autêntico,​ ​modula​ ​bastante​ ​aproveitando todas​ ​essas​ ​nuances​ ​de​ ​affectus​ ​orante​ ​é​ ​possível​ ​compreender​ ​que​ ​ele​ ​simboliza​ ​o​ ​dom incriado​ ​do​ ​Espírito​ ​Santo​ ​com​ ​todos​ ​os​ ​seus​ ​dons​ ​e​ ​não​ ​por​ ​mero​ ​acaso​ ​é​ ​o​ ​modo​ ​utilizado​ ​na sequência​ ​de​ ​pentecostes​ ​e​ ​o​ ​modo​ ​mais​ ​utilizado​ ​no​ ​repertório.​ ​Os​ ​autores​ ​medievais​ ​e renascentistas​ ​atribuem​ ​a​ ​esse​ ​modo​ ​tanto​ ​a​ ​seriedade​ ​quanto​ ​a​ ​alegria,​ ​também​ ​a​ ​expressão de​ ​todos​ ​os​ ​afetos​ ​e​ ​a​ ​capacidade​ ​de​ ​moderar​ ​e​ ​dirigir​ ​todas​ ​as​ ​paixões​ ​da​ ​sensibilidade.​ ​Com a​ ​ênfase​ ​cristã​ ​na​ ​humildade​ ​e​ ​na​ ​força​ ​divina​ ​que​ ​ela​ ​atrai​ ​os​ ​medievais​ ​associaram​ ​as características​ ​de​ ​força​ ​e​ ​virilidade​ ​do​ ​dórico​ ​grego​ ​à​ ​espécie​ ​de​ ​oitava​ ​similar​ ​ao​ ​frígio​ ​grego e​ ​assim​ ​chamaram​ ​de​ ​dórico​ ​o​ ​modo​ ​gregoriano​ ​que​ ​a​ ​partir​ ​da​ ​estabilidade​ ​da​ ​humildade modula​ ​para​ ​todos​ ​os​ ​movimentos​ ​orantes. 

O​ ​segundo​ ​modo​ ​mais​ ​utilizado​ ​no​ ​repertório​ ​que​ ​é​ ​o​ ​oitavo,​ ​tetrardus​ ​plagal,​ ​é​ ​relacionado pelos​ ​medievais​ ​e​ ​renascentistas​ ​ao​ ​conhecimento​ ​e​ ​à​ ​sabedoria,​ ​portanto​ ​ao​ ​dom​ ​maior​ ​entre os​ ​sete​ ​e​ ​que​ ​está​ ​associado​ ​à​ ​bem-aventurança​ ​dos​ ​pacíficos;​ ​não​ ​à​ ​toa,​ ​é​ ​o​ ​modo​ ​do​ ​Veni Creator​ ​e​ ​o​ ​do​ ​introito​ ​da​ ​festa​ ​de​ ​pentecostes​ ​Spiritus​ ​Dómini. 

Partindo​ ​do​ ​segundo​ ​modo​ ​protus​ ​plagal​ ​até​ ​o​ ​oitavo​ ​é​ ​possivel​ ​pensar​ ​na​ ​sequência​ ​dos​ ​sete dons​ ​em​ ​ordem​ ​ascendente​ ​e,​ ​por​ ​outro​ ​lado,​ ​como​ ​a​ ​escada​ ​de​ ​Jacó​ ​com​ ​os​ ​anjos​ ​subindo​ ​e descendo​ ​mostra​ ​que​ ​a​ ​subida​ ​é​ ​a​ ​descida​ ​da​ ​humildade​ ​e​ ​os​ ​livros​ ​sapienciais​ ​apontam​ ​o temor​ ​como​ ​princípio​ ​e​ ​fim​ ​da​ ​sabedoria,​ ​é​ ​possível​ ​também​ ​associar​ ​no​ ​sentido​ ​inverso​ ​com o​ ​oitavo​ ​associado​ ​ao​ ​temor​ ​e​ ​o​ ​segundo​ ​à​ ​sabedoria.​ ​Pensando​ ​também​ ​nas​ ​tríades​ ​de​ ​dons intelectuais​ ​e​ ​afetivos​ ​correspondentes​ ​e​ ​relacionados​ ​(ciência-temor,​ ​entendimento-piedade, conselho-fortaleza,​ ​sabedoria-sabedoria)​ ​é​ ​possível​ ​associar​ ​os​ ​modos​ ​correspondentes​ ​de​ ​tal maneira​ ​que: 

-o​ ​segundo​ ​modo​ ​correspondente​ ​ao​ ​temor​ ​(ao​ ​princípio​ ​da​ ​conversão​ ​pelo​ ​arrependimento​ ​e pelo​ ​temor​ ​reverencial​ ​à​ ​Deus​ ​que​ ​é​ ​justo​ ​juiz)​ ​está​ ​ligado​ ​também​ ​à​ ​ciência​ ​secundariamente e​ ​secundariamente​ ​à​ ​sabedoria​ ​(a​ ​ciência​ ​dá​ ​o​ ​conhecimento​ ​das​ ​criaturas​ ​na​ ​sua​ ​causa​ ​que​ ​é Deus​ ​e​ ​assim​ ​suscita​ ​o​ ​temor​ ​reverencial​ ​diante​ ​do​ ​poder​ ​de​ ​Deus​ ​e​ ​a​ ​sabedoria​ ​julga​ ​tudo​ ​a partir​ ​do​ ​sabor​ ​de​ ​Deus​ ​como​ ​causa​ ​primeira​ ​e​ ​última​ ​de​ ​tudo); 

-​ ​o​ ​terceiro​ ​modo​ ​está​ ​relacionado​ ​com​ ​a​ ​piedade​ ​por​ ​sua​ ​veemência​ ​mística​ ​e​ ​orante​ ​e​ ​a piedade​ ​é​ ​o​ ​dom​ ​do​ ​movimento​ ​principal​ ​da​ ​alma​ ​em​ ​oração​ ​enquanto​ ​faz​ ​a​ ​alma​ ​exclamar "Abba"​ ​​ ​Pai,​ ​é​ ​o​ ​dom​ ​do​ ​ímpeto​ ​da​ ​devoção,​ ​​ ​o​ ​dom​ ​dos​ ​"gemidos"​ ​do​ ​Espírito​ ​Santo mencionados​ ​por​ ​São​ ​Paulo,​ ​está​ ​relacionado​ ​com​ ​o​ ​dom​ ​do​ ​entendimento​ ​que​ ​é​ ​o​ ​que​ ​faz mergulharmos​ ​na​ ​compreensão​ ​das​ ​escrituras​ ​e​ ​no​ ​sentido​ ​do​ ​mistério​ ​de​ ​sermos​ ​filhos adotivos​ ​em​ ​Cristo​ ​e​ ​também​ ​por​ ​sua​ ​veemência​ ​está​ ​associado​ ​à​ ​fortaleza​ ​naquilo​ ​que​ ​esta tem​ ​de​ ​impulso​ ​violento​ ​contra​ ​o​ ​mal.​ ​Entende-se​ ​que​ ​o​ ​sétimo​ ​modo​ ​seja​ ​assim​ ​relacionado ao​ ​terceiro​ ​tendo​ ​o​ ​sentido​ ​de​ ​um​ ​êxtase​ ​que​ ​arrebata​ ​a​ ​alma​ ​no​ ​movimento​ ​orante​ ​levando-a a​ ​uma​ ​contemplação​ ​elevada.​ ​O​ ​dom​ ​de​ ​entendimento​ ​(que​ ​pode​ ​ser​ ​muito​ ​associado​ ​ao sétimo​ ​modo)​ ​é​ ​dito​ ​pelos​ ​teólogos​ ​realizar​ ​a​ ​máxima​ ​purificação​ ​do​ ​coração​ ​por​ ​uma​ ​luz intensa​ ​que​ ​causa​ ​dor​ ​à​ ​alma​ ​ainda​ ​não​ ​purificada​ ​no​ ​momento​ ​em​ ​que​ ​a​ ​luz​ ​divina​ ​incide sobre​ ​as​ ​trevas​ ​da​ ​alma. 

-​ ​o​ ​quarto​ ​modo​ ​associado​ ​à​ ​ciência​ ​está​ ​também​ ​ligado​ ​secundariamente​ ​ao​ ​temor​ ​e secundariamente​ ​ao​ ​conselho​ ​e​ ​também​ ​à​ ​fortaleza​ ​dirigida​ ​pelo​ ​conselho​ ​(é​ ​o​ ​ethos​ ​da harmonia​ ​e​ ​do​ ​equilíbrio​ ​que​ ​refreia​ ​os​ ​excessos​ ​da​ ​ira​ ​e​ ​dos​ ​movimentos​ ​interiores veementes​ ​mas​ ​tem​ ​algo​ ​do​ ​mistério​ ​e​ ​do​ ​espanto​ ​característicos​ ​da​ ​ciência​ ​e​ ​do​ ​temor​ ​quando a​ ​alma​ ​contempla​ ​maravilhas​ ​nas​ ​obras​ ​divinas,​ ​pelo​ ​conselho​ ​e​ ​pela​ ​ciência​ ​este​ ​modo modera​ ​a​ ​veemência​ ​do​ ​terceiro​ ​e​ ​a​ ​alegria​ ​do​ ​quinto);​ ​nas​ ​muitas​ ​cadências​ ​em​ ​sol​ ​este​ ​modo tem​ ​algo​ ​também​ ​da​ ​sabedoria​ ​do​ ​oitavo​ ​modo​ ​e​ ​pela​ ​sequência​ ​pentatônica​ ​ré-mi-sol,​ ​um tritus​ ​primitivo​ ​transposto,​ ​tem​ ​algo​ ​da​ ​alegria​ ​e​ ​serenidade​ ​do​ ​quinto​ ​modo.​ ​Percebe-se​ ​que este​ ​modo​ ​é​ ​complexo​ ​e​ ​como​ ​o​ ​primeiro​ ​tem​ ​todas​ ​as​ ​nuances​ ​porém​ ​ao​ ​invés​ ​de​ ​acentuar​ ​o recolhimento​ ​do​ ​temor​ ​acentua​ ​o​ ​movimento​ ​impulsivo​ ​do​ ​desejo​ ​piedoso.​ ​Sua​ ​ambiguidade​ ​e multiplicidade​ ​tem​ ​relação​ ​com​ ​a​ ​ambiguidade​ ​do​ ​dom​ ​de​ ​ciência​ ​que​ ​olha​ ​a​ ​multiplicidade das​ ​criaturas​ ​e​ ​nelas​ ​ao​ ​mesmo​ ​tempo​ ​o​ ​tudo​ ​divino​ ​do​ ​qual​ ​participam​ ​e​ ​o​ ​nada​ ​do​ ​qual foram​ ​criadas;​ ​também​ ​tem​ ​relação​ ​com​ ​a​ ​multiplicidade​ ​do​ ​conselho​ ​que​ ​decide​ ​o​ ​que​ ​é melhor​ ​em​ ​cada​ ​momento​ ​e​ ​por​ ​isso​ ​depende​ ​das​ ​diversidades​ ​e​ ​ambiguidades​ ​das​ ​situações; pode​ ​se​ ​considerar​ ​a​ ​partir​ ​disso​ ​este​ ​modo​ ​como​ ​o​ ​modo​ ​da​ ​surpresa​ ​e​ ​assombro​ ​diante​ ​das novidades​ ​divinas​ ​em​ ​cada​ ​manifestar-se​ ​de​ ​Deus​ ​nas​ ​criaturas​ ​e​ ​na​ ​obra​ ​da​ ​redenção​ ​e​ ​com frequência​ ​esse​ ​modo​ ​surpreende​ ​com​ ​modulações​ ​inusitadas​ ​e​ ​irregulares. 

-​ ​o​ ​quinto​ ​modo​ ​está​ ​associado​ ​à​ ​fortaleza​ ​pela​ ​alegria​ ​que​ ​permanece​ ​mesmo​ ​e principalmente​ ​nas​ ​tribulações​ ​e​ ​pela​ ​estabilidade​ ​da​ ​paz​ ​que​ ​torna​ ​a​ ​alma​ ​inabalável,​ ​também está​ ​associado​ ​ao​ ​conselho​ ​que​ ​dirige​ ​a​ ​fortaleza​ ​para​ ​as​ ​obras​ ​de​ ​misericórdia​ ​e​ ​para​ ​o serviço​ ​divino​ ​apontando​ ​o​ ​dever​ ​do​ ​momento​ ​presente​ ​e​ ​está​ ​associado​ ​à​ ​piedade​ ​pela​ ​alegria que​ ​a​ ​alma​ ​recebe​ ​na​ ​oração​ ​ao​ ​reconhecer-se​ ​como​ ​filha​ ​de​ ​Deus​ ​mas​ ​mais​ ​ainda​ ​à​ ​piedade na​ ​sua​ ​relação​ ​com​ ​os​ ​irmãos​ ​vistos​ ​como​ ​filhos​ ​do​ ​mesmo​ ​Pai​ ​celeste:​ ​é​ ​o​ ​modo​ ​da​ ​festa​ ​em família,​ ​da​ ​alegria​ ​compartilhada​ ​do​ ​amor​ ​na​ ​vida​ ​em​ ​comunidade.​ ​É​ ​sempre​ ​importante​ ​ver como​ ​essas​ ​características​ ​do​ ​quinto​ ​aparecem​ ​em​ ​outros​ ​modos​ ​pelas​ ​modulações​ ​e​ ​pela importância​ ​estrutural​ ​(em​ ​todos​ ​os​ ​modos)​ ​da​ ​escala​ ​pentatônica​ ​maior​ ​feita​ ​a​ ​partir​ ​do​ ​fá,​ ​do lá,​ ​e​ ​do​ ​dó. 

-​ ​o​ ​sexto​ ​modo​ ​está​ ​associado​ ​ao​ ​conselho​ ​pelo​ ​seu​ ​impulso​ ​devoto​ ​que​ ​mescla​ ​com temperança​ ​a​ ​alegria​ ​das​ ​cadências​ ​em​ ​tritus​ ​com​ ​o​ ​temor​ ​e​ ​reflexão​ ​das​ ​cadências​ ​em​ ​protus. É​ ​um​ ​modo​ ​que​ ​modera​ ​a​ ​alegria​ ​do​ ​quinto​ ​direcionando​ ​a​ ​alma​ ​para​ ​uma​ ​piedade​ ​ancorada na​ ​graça​ ​atual​ ​e​ ​no​ ​respeito​ ​pelo​ ​dom​ ​de​ ​Deus​ ​e​ ​por​ ​sua​ ​relação​ ​com​ ​o​ ​quinto​ ​está​ ​ligado​ ​à fortaleza​ ​e​ ​à​ ​piedade.​ ​Está​ ​relacionado​ ​à​ ​ciência​ ​através​ ​das​ ​cadências​ ​em​ ​protus​ ​(tanto​ ​em​ ​ré quanto​ ​em​ ​sol,​ ​quanto​ ​em​ ​algumas​ ​modulações​ ​em​ ​lá)​ ​que​ ​apontam​ ​para​ ​o​ ​afeto​ ​do​ ​temor; também​ ​está​ ​relacionado​ ​à​ ​ciência​ ​pelas​ ​cadências​ ​em​ ​deuterus​ ​transposto​ ​em​ ​lá​ ​(com​ ​o auxílio​ ​do​ ​si​ ​bemol).​ ​Esta​ ​ciência​ ​traz​ ​o​ ​conhecimento​ ​necessário​ ​para​ ​que​ ​o​ ​conselho​ ​possa atuar​ ​dando​ ​a​ ​decisão​ ​adequada. 

-​ ​do​ ​sétimo​ ​comentei​ ​ao​ ​relacionar​ ​com​ ​o​ ​terceiro,​ ​apenas​ ​acrescento​ ​que​ ​além​ ​da​ ​veemência extática​ ​tem​ ​a​ ​alegria​ ​jubilosa​ ​que​ ​brilha​ ​fulgurante​ ​nos​ ​contrastes​ ​de​ ​tensão​ ​deste​ ​modo,​ ​entre aspectos​ ​mais​ ​próximos​ ​do​ ​deuterus​ ​e​ ​aspectos​ ​mais​ ​próximos​ ​do​ ​tritus.​ ​Tem​ ​algo​ ​da​ ​paz​ ​do 
oitavo​ ​mas​ ​a​ ​veemência​ ​e​ ​a​ ​alegria​ ​celeste​ ​e​ ​angelical​ ​ofuscam​ ​e​ ​tornam​ ​esse​ ​modo​ ​um​ ​tanto quanto​ ​embriagante. 

-​ ​o​ ​oitavo​ ​está​ ​associado​ ​à​ ​sabedoria​ ​pela​ ​paz​ ​que​ ​transmite​ ​junto​ ​com​ ​suave​ ​alegria.​ ​As cadências​ ​abundantes​ ​em​ ​tritus​ ​garantem​ ​a​ ​alegria,​ ​a​ ​paz​ ​e​ ​a​ ​fortaleza,​ ​as​ ​cadências​ ​em​ ​protus trazem​ ​reverência​ ​mas​ ​neste​ ​modo​ ​sem​ ​a​ ​preocupação​ ​do​ ​temor,​ ​cadências​ ​em​ ​deuterus completam​ ​o​ ​quadro​ ​com​ ​um​ ​movimento​ ​que​ ​neste​ ​modo​ ​é​ ​tranquilo​ ​porém​ ​firme.​ ​É​ ​um modo​ ​que​ ​pela​ ​eminência​ ​da​ ​sabedoria​ ​ao​ ​mesmo​ ​tempo​ ​afetiva​ ​e​ ​intelectual​ ​abrange​ ​os outros​ ​modos​ ​e​ ​todos​ ​os​ ​sete​ ​dons​ ​porém​ ​com​ ​mais​ ​deleite​ ​e​ ​suavidade​ ​de​ ​amor​ ​comparado​ ​ao primeiro​ ​com​ ​sua​ ​ênfase​ ​no​ ​temor​ ​reverencial. 

Pela​ ​compreensão​ ​dos​ ​modos​ ​percebe​ ​-se​ ​aquilo​ ​que​ ​se​ ​chama​ ​conexão​ ​dos​ ​dons​ ​mostrando que​ ​todos​ ​são​ ​inseparáveis​ ​na​ ​sua​ ​ação​ ​ainda​ ​que​ ​uns​ ​se​ ​relacionem​ ​mais​ ​com​ ​uns​ ​do​ ​que​ ​com outros​ ​e​ ​ainda​ ​que​ ​em​ ​cada​ ​momento​ ​a​ ​alma​ ​seja​ ​guiada​ ​predominantemente​ ​por​ ​um​ ​dom​ ​ou outro.​ ​É​ ​importante​ ​também,​ ​para​ ​bem​ ​compreender​ ​o​ ​ethos​ ​dos​ ​modos​ ​gregorianos,​ ​saber que​ ​os​ ​padres​ ​e​ ​doutores​ ​da​ ​Igreja​ ​fazem​ ​associações​ ​simbólicas​ ​entre​ ​os​ ​dons​ ​do​ ​Espírito Santo,​ ​as​ ​bem-aventuranças​ ​(como​ ​obras​ ​perfeitas​ ​inspiradas​ ​pelos​ ​dons​ ​e​ ​que​ ​nos​ ​configuram com​ ​Cristo,​ ​o​ ​Verbo​ ​encarnado)​ ​e​ ​os​ ​pedidos​ ​da​ ​oração​ ​do​ ​Pai-nosso​ ​dirigidos​ ​ao​ ​Pai​ ​como fonte​ ​de​ ​todas​ ​as​ ​bênçãos.​ ​Assim​ ​como​ ​são​ ​oito​ ​os​ ​modos​ ​gregorianos​ ​é​ ​possível​ ​pensar​ ​em oito​ ​dons:​ ​o​ ​próprio​ ​Espírito​ ​Santo​ ​como​ ​dom​ ​e​ ​as​ ​sete​ ​maneiras​ ​mais​ ​elevadas​ ​da​ ​alma​ ​seguir seu​ ​impulso​ ​como​ ​outros​ ​dons,​ ​são​ ​oito​ ​as​ ​bem-aventuranças​ ​com​ ​a​ ​última​ ​sendo​ ​a​ ​síntese​ ​da união​ ​com​ ​Cristo​ ​(pela​ ​cruz​ ​suportada​ ​graças​ ​ao​ ​amor​ ​da​ ​verdade),​ ​são​ ​sete​ ​os​ ​pedidos​ ​do Pai-nosso​ ​porém​ ​antecedidos​ ​por​ ​uma​ ​invocação​ ​geral​ ​que​ ​estabelece​ ​a​ ​relação​ ​da​ ​oração ("Pai​ ​nosso​ ​que​ ​estais​ ​nos​ ​céus")​ ​totalizando​ ​oito​ ​invocações.​ ​Sete​ ​simboliza​ ​o​ ​caminho,​ ​a escada​ ​até​ ​o​ ​paraíso​ ​como​ ​vemos​ ​nas​ ​sete​ ​moradas​ ​de​ ​Santa​ ​Teresa​ ​d’Ávila​ ​(que​ ​podem​ ​ser estudadas​ ​em​ ​relação​ ​com​ ​os​ ​outros​ ​septenários)​ ​e​ ​o​ ​um​ ​do​ ​oito​ ​que​ ​se​ ​acrescenta​ ​aos​ ​sete simboliza​ ​a​ ​nova​ ​criação,​ ​a​ ​plenitude​ ​da​ ​transformação​ ​e​ ​ressurreição​ ​que​ ​acontece​ ​na eternidade​ ​e​ ​no​ ​fim​ ​dos​ ​tempos​ ​mas​ ​que​ ​em​ ​Cristo​ ​já​ ​se​ ​realizou​ ​plenamente. 

Percebe-se​ ​que​ ​em​ ​cada​ ​modo​ ​predomina​ ​um​ ​de​ ​quatro​ ​afetos​ ​ou​ ​movimentos​ ​principais: 
1-impulso​ ​passivo​ ​em​ ​direção​ ​ao​ ​recolhimento-distensão-sistáltico, 
2-​ ​impulso​ ​ativo-tensão-diastáltico, 
3-​ ​repouso​ ​ativo-hesicástico/diastáltico,  
4-repouso​ ​passivo-hesicástico/sistáltico.  
Porém,​ ​todos​ ​modulam​ ​de​ ​tal​ ​forma​ ​que​ ​em​ ​cada​ ​música​ ​composta​ ​num​ ​determinado​ ​modo aparece​ ​algo​ ​de​ ​todos​ ​os​ ​outros​ ​e​ ​muitas​ ​vezes​ ​esses​ ​outros​ ​aparecem​ ​em​ ​diverso​ ​grau. 

​O​ ​movimento​ ​seja​ ​ele​ ​qual​ ​for​ ​pode​ ​ser​ ​predominantemente​ ​sistáltico​ ​ou​ ​diastáltico​ ​ou​ ​uma síntese​ ​com​ ​ambos​ ​movimentos​ ​equilibrados​ ​sem​ ​predomínio​ ​de​ ​um​ ​ou​ ​outro,​ ​pode​ ​ser​ ​um movimento​ ​mais​ ​forte​ ​e​ ​talvez​ ​até​ ​desordenado​ ​ou​ ​um​ ​movimento​ ​suave​ ​que​ ​busca​ ​o equilíbrio​ ​e​ ​ordem​ ​do​ ​repouso.​ ​Explicam-se​ ​os​ ​quatro​ ​movimentos​ ​principais​ ​pela​ ​ênfase sistáltica​ ​ou​ ​diastáltica​ ​de​ ​um​ ​lado​ ​e​ ​de​ ​outro​ ​pela​ ​possibilidade​ ​da​ ​hesíquia,​ ​do​ ​repouso, apresentar-se​ ​junto​ ​com​ ​uma​ ​ênfase​ ​sistáltica​ ​ou​ ​diastáltica​ ​(não​ ​há​ ​repouso​ ​absoluto​ ​nos​ ​seres criados,​ ​tudo​ ​que​ ​há​ ​e​ ​que​ ​não​ ​é​ ​Deus​ ​encontra​ ​repouso​ ​no​ ​movimento​ ​ordenado​ ​e​ ​este​ ​pode ser​ ​mais​ ​fraco​ ​ou​ ​mais​ ​intenso).​ ​Sístole​ ​e​ ​diástole​ ​aparecem​ ​de​ ​modo​ ​paradigmático​ ​no movimento​ ​do​ ​coração​ ​de​ ​carne,​ ​símbolo​ ​do​ ​coração​ ​espiritual,​ ​e​ ​o​ ​coração​ ​tem​ ​sua​ ​hesíquia, seu​ ​repouso,​ ​quando​ ​o​ ​conjunto​ ​de​ ​seus​ ​movimentos​ ​sistálticos​ ​e​ ​diastálticos​ ​está​ ​bem ordenado. 

É​ ​possível​ ​perceber​ ​analogicamente​ ​e​ ​simbolicamente​ ​essas​ ​quatro​ ​direções​ ​de​ ​movimento nos​ ​movimentos​ ​relacionados​ ​da​ ​terra,​ ​da​ ​lua​ ​e​ ​do​ ​sol:​ ​são​ ​quatro​ ​as​ ​estações​ ​do​ ​ano relacionadas​ ​com​ ​o​ ​sol​ ​e​ ​quatro​ ​as​ ​fases​ ​da​ ​lua.​ ​Os​ ​três​ ​aspectos​ ​do​ ​movimento​ ​que​ ​geram​ ​as quatro​ ​direções​ ​(sístole,​ ​diástole​ ​e​ ​hesíquia)​ ​podem​ ​ser​ ​associados​ ​ao​ ​sol​ ​que​ ​com​ ​o​ ​calor​ ​gera impulso​ ​ativo​ ​diastáltico,​ ​à​ ​lua​ ​que​ ​gera​ ​com​ ​suas​ ​fases​ ​possibilidades​ ​de​ ​atuação gravitacional​ ​diversificada​ ​e​ ​assim​ ​movimentos​ ​interiores​ ​(movimentos​ ​sistálticos)​ ​nos​ ​seres vivos​ ​(permitindo​ ​aos​ ​agricultores​ ​por​ ​exemplo​ ​escolher​ ​a​ ​melhor​ ​época​ ​de​ ​plantio​ ​desta​ ​ou daquela​ ​planta),​ ​e​ ​à​ ​terra​ ​que​ ​no​ ​repouso​ ​de​ ​um​ ​movimento​ ​ordenado​ ​recebe​ ​as​ ​influências​ ​do sol​ ​e​ ​da​ ​lua. 

Os​ ​quatro​ ​ethos​ ​que​ ​aparecem​ ​nesses​ ​tipos​ ​de​ ​movimento​ ​são​ ​também​ ​os​ ​quatro​ ​ethos​ ​dos quatro​ ​temperamentos​ ​que​ ​aparecem​ ​na​ ​sensibilidade​ ​humana.​ ​Cada​ ​ser​ ​humano​ ​tem​ ​uma mistura​ ​em​ ​si​ ​destes​ ​quatro​ ​ethos​ ​com​ ​um​ ​deles​ ​predominando​ ​nos​ ​movimentos​ ​coordenados de​ ​seus​ ​apetites:​ ​apetite​ ​concupiscível​ ​(de​ ​desejo​ ​do​ ​bem,​ ​busca​ ​de​ ​recolhimento​ ​no​ ​objeto amado,​ ​mais​ ​sistáltico)​ ​e​ ​de​ ​seu​ ​apetite​ ​irascível​ ​​ ​(de​ ​combate​ ​ao​ ​mal​ ​e​ ​de​ ​busca​ ​possessiva​ ​do objeto​ ​amado,​ ​mais​ ​diastáltico). 

O​ ​temperamento​ ​melancólico​ ​é​ ​predominantemente​ ​sistáltico​ ​repleto​ ​de​ ​movimentos interiores​ ​exagerados,​ ​como​ ​a​ ​terra​ ​com​ ​vulcões​ ​esperando​ ​para​ ​despertar,​ ​nele​ ​predomina​ ​o apetite​ ​irascível​ ​com​ ​fraca​ ​porém​ ​duradoura​ ​impressão​ ​interior;​ ​o​ ​colérico​ ​é​ ​diastáltico, repleto​ ​de​ ​atividade​ ​exterior​ ​como​ ​um​ ​fogo​ ​impetuoso​ ​que​ ​se​ ​alastra​ ​e​ ​demora​ ​a​ ​apagar,​ ​nele predomina​ ​o​ ​apetite​ ​irascível​ ​com​ ​forte​ ​e​ ​duradoura​ ​impressão​ ​interior;​ ​o​ ​sanguíneo​ ​é hesicástico​ ​num​ ​movimento​ ​(ênfase​ ​diastáltica)​ ​suave​ ​e​ ​variante​ ​como​ ​o​ ​vento,​ ​nele concupiscível​ ​predomina​ ​pouco​ ​com​ ​forte​ ​porém​ ​passageira​ ​impressão​ ​interior;​ ​o​ ​fleumático​ ​é hesicástico​ ​numa​ ​postura​ ​mais​ ​apática​ ​e​ ​parada​ ​(ênfase​ ​sistáltica)​ ​num​ ​movimento​ ​suave​ ​e rítmico​ ​como​ ​as​ ​ondas​ ​de​ ​um​ ​mar​ ​calmo,​ ​nele​ ​predomina​ ​pouco​ ​o​ ​concupiscível​ ​com​ ​fraca​ ​e passageira​ ​impressão​ ​interior. 

Pelo​ ​que​ ​compreendi​ ​do​ ​Szondi​ ​e​ ​pelo​ ​que​ ​compreendi​ ​da​ ​teoria​ ​clássica​ ​dos​ ​humores​ ​eu poderia​ ​interpretar​ ​os​ ​impulsos​ ​de​ ​forças​ ​femininas​ ​e​ ​masculinas​ ​no​ ​sentido​ ​de​ ​que​ ​o​ ​humor melancólico​ ​é​ ​mais​ ​feminino​ ​e​ ​passivo​ ​enquanto​ ​o​ ​sanguíneo​ ​seu​ ​oposto​ ​é​ ​mais​ ​feminino​ ​e ativo,​ ​já​ ​o​ ​fleumático​ ​é​ ​mais​ ​masculino​ ​e​ ​passivo​ ​enquanto​ ​o​ ​colérico​ ​seu​ ​oposto​ ​é​ ​mais masculino​ ​e​ ​ativo. 

Homens​ ​que​ ​nascem​ ​com​ ​temperamento​ ​sanguíneo​ ​ou​ ​melancólico​ ​tem​ ​uma​ ​tendência​ ​mais delicada​ ​e​ ​precisam​ ​se​ ​esforçar​ ​mais​ ​para​ ​se​ ​virilizar​ ​e​ ​atingir​ ​a​ ​plenitude​ ​da​ ​virtude,​ ​homens que​ ​nascem​ ​com​ ​temperamento​ ​mais​ ​fleumático​ ​ou​ ​colérico​ ​precisam​ ​se​ ​esforçar​ ​para desenvolver​ ​uma​ ​sensibilidade​ ​mais​ ​maleável​ ​para​ ​atingir​ ​a​ ​plenitude​ ​da​ ​virtude​ ​num​ ​sentido de​ ​cuidado​ ​com​ ​o​ ​outro. 

Os​ ​temperamentos​ ​sanguíneo​ ​e​ ​colérico​ ​sendo​ ​ativos​ ​tem​ ​relação​ ​tal​ ​que​ ​quem​ ​nasce primariamente​ ​sanguíneo​ ​nasce​ ​com​ ​impulsos​ ​secundários​ ​coléricos​ ​e​ ​vice-versa​ ​(sendo​ ​assim possível,​ ​por​ ​exemplo,​ ​aproveitar​ ​os​ ​elementos​ ​secundários​ ​coléricos​ ​para​ ​virilizar​ ​um​ ​homem sanguíneo​ ​ou​ ​aproveitar​ ​os​ ​secundários​ ​sanguíneos​ ​para​ ​feminilizar​ ​uma​ ​mulher​ ​colérica​ ​ou amansar​ ​um​ ​homem​ ​muito​ ​colérico). 

Os​ ​temperamentos​ ​fleumático​ ​e​ ​melancólico​ ​sendo​ ​passivos​ ​tem​ ​relação​ ​tal​ ​que​ ​quem​ ​nasce primariamente​ ​fleumático​ ​nasce​ ​com​ ​impulsos​ ​secundários​ ​melancólicos​ ​e​ ​vice-versa​ ​(sendo assim​ ​possível​ ​aproveitar​ ​os​ ​elementos​ ​secundários​ ​fleumáticos​ ​para​ ​virilizar​ ​um​ ​homem melancólico​ ​ou​ ​aproveitar​ ​os​ ​elementos​ ​secundários​ ​melancólicos​ ​para​ ​feminilizar​ ​uma mulher​ ​muito​ ​apática/fleumática​ ​ou​ ​quebrar​ ​a​ ​insensibilidade​ ​de​ ​um​ ​homem​ ​muito fleumático). 

É​ ​possível​ ​que​ ​haja​ ​uma​ ​combinação​ ​de​ ​dois​ ​temperamentos​ ​não​ ​opostos​ ​e​ ​não​ ​similares como​ ​dominantes​ ​mas​ ​um​ ​preponderando​ ​e​ ​assim​ ​a​ ​pessoa​ ​pode​ ​nascer​ ​melancólico-colérica ou​ ​colérico-melancólica​ ​ou​ ​então​ ​fleumático-sanguínea​ ​ou​ ​sanguíneo-fleumática;​ ​há​ ​entre esses​ ​pares​ ​a​ ​seguinte​ ​similaridade:​ ​sanguíneos​ ​e​ ​fleumáticos​ ​tendem​ ​a​ ​gravar​ ​pouco​ ​as impressões​ ​na​ ​sensibilidade​ ​e​ ​melancólicos​ ​e​ ​coléricos​ ​tendem​ ​a​ ​gravar​ ​muito​ ​as​ ​impressões. Um​ ​temperamento​ ​primário​ ​misto​ ​de​ ​opostos​ ​segundo​ ​os​ ​autores​ ​que​ ​tratam​ ​da​ ​teoria​ ​clássica dos​ ​humores​ ​ou​ ​é​ ​inexistente​ ​ou​ ​raríssimo.​ ​É preciso​ ​averiguar​ ​aparentes​ ​temperamentos mistos​ ​se​ ​a​ ​mistura​ ​não​ ​é​ ​resultado​ ​do​ ​processo​ ​formativo​ ​mais​ ​que​ ​da​ ​genética​ ​e desenvolvimento​ ​embrionário. 

Parece-me​ ​que​ ​a​ ​tendência​ ​na​ ​educação​ ​infantil​ ​é​ ​que​ ​a​ ​família,​ ​a​ ​sociedade​ ​e​ ​o​ ​próprio indivíduo​ ​reprimam​ ​excessivamente​ ​ou​ ​os​ ​impulsos​ ​do​ ​temperamento​ ​primário​ ​ou​ ​do secundário​ ​desenvolvendo​ ​uma​ ​máscara​ ​de​ ​temperamento​ ​oposto,​ ​é​ ​também​ ​possível​ ​que​ ​haja uma​ ​repressão​ ​tanto​ ​do​ ​temperamento​ ​primário​ ​quanto​ ​de​ ​seu​ ​similar​ ​secundário​ ​porém​ ​um temperamento​ ​predomina​ ​na​ ​máscara. 

Parece-me​ ​que​ ​em​ ​um​ ​processo​ ​de​ ​amadurecimento​ ​normal:​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​pessoa amadurece​ ​na​ ​adolescência​ ​e​ ​juventude​ ​ela​ ​recupera​ ​as​ ​positividades​ ​do​ ​temperamento primário​ ​ou​ ​secundário​ ​reprimidos​ ​e​ ​tem​ ​então​ ​que​ ​desenvolver​ ​na​ ​vida​ ​adulta​ ​e​ ​velhice​ ​o último​ ​temperamento​ ​menos​ ​desenvolvido​ ​ou​ ​os​ ​dois​ ​menos​ ​desenvolvidos​ ​quando​ ​houve dupla​ ​repressão​ ​excessiva. 

Quanto​ ​aos​ ​modos​ ​gregorianos​ ​e​ ​os​ ​temperamentos:​ ​É​ ​possível​ ​associar​ ​o​ ​protus​ ​ao melancólico,​ ​o​ ​deuterus​ ​ao​ ​colérico,​ ​o​ ​tritus​ ​ao​ ​sanguíneo,​ ​o​ ​tetrardus​ ​ao​ ​fleumático.​ ​Porém,​ ​o protus​ ​autêntico​ ​se​ ​aproxima​ ​muito​ ​do​ ​fleumático​ ​e​ ​o​ ​tetrardus​ ​autêntico​ ​muito​ ​do melancólico.​ ​O​ ​deuterus​ ​plagal​ ​tem​ ​um​ ​bom​ ​tanto​ ​de​ ​sanguíneo​ ​em​ ​comparação​ ​com​ ​o autêntico​ ​e​ ​o​ ​tritus​ ​plagal​ ​tem​ ​um​ ​bom​ ​tanto​ ​de​ ​colérico​ ​em​ ​comparação​ ​com​ ​o​ ​autêntico, porém​ ​nestes​ ​modos​ ​não​ ​aparece​ ​o​ ​temperamento​ ​similar​ ​com​ ​tanta​ ​ênfase. 

É​ ​possível​ ​associar​ ​ao​ ​temperamento​ ​melancólico​ ​e​ ​ao​ ​protus​ ​a​ ​virtude​ ​cardeal​ ​da​ ​prudência predominantemente​ ​e​ ​secundariamente​ ​a​ ​da​ ​temperança;​ ​ao​ ​temperamento​ ​colérico​ ​e​ ​ao deuterus​ ​predominantemente​ ​a​ ​virtude​ ​cardeal​ ​da​ ​fortaleza​ ​e​ ​secundariamente​ ​a​ ​da​ ​justiça;​ ​ao temperamento​ ​sanguíneo​ ​e​ ​ao​ ​tritus​ ​predominantemente​ ​a​ ​virtude​ ​cardeal​ ​da​ ​justiça​ ​e secundariamente​ ​a​ ​da​ ​fortaleza;​ ​ao​ ​temperamento​ ​fleumático​ ​e​ ​ao​ ​tetrardus predominantemente​ ​a​ ​virtude​ ​da​ ​temperança​ ​e​ ​secundariamente​ ​a​ ​da​ ​prudência.​ ​Há​ ​maior inclinação​ ​natural​ ​para​ ​prática​ ​destas​ ​virtudes​ ​porém​ ​a​ ​virtude​ ​recebe​ ​sua​ ​força​ ​da​ ​ordem​ ​da razão​ ​e​ ​da​ ​vontade​ ​e​ ​sem​ ​a​ ​conexão​ ​das​ ​outras​ ​virtudes​ ​torna-se​ ​falsa​ ​virtude,​ ​por​ ​exemplo:​ ​o melancólico​ ​reflete​ ​muito​ ​como​ ​um​ ​prudente​ ​mas​ ​sem​ ​a​ ​fortaleza​ ​nunca​ ​toma​ ​a​ ​decisão​ ​e assim​ ​sua​ ​prudência​ ​é​ ​medo​ ​desordenado,​ ​o​ ​colérico​ ​tem​ ​o​ ​ímpeto​ ​da​ ​fortaleza​ ​mas​ ​sem​ ​a prudência​ ​destrói​ ​o​ ​bem​ ​ao​ ​invés​ ​do​ ​mal​ ​que​ ​devia​ ​combater;​ ​o​ ​sanguíneo​ ​tem​ ​o​ ​impulso​ ​da harmonia​ ​nas​ ​relações​ ​sociais​ ​mas​ ​pela​ ​falta​ ​de​ ​prudência​ ​e​ ​temperança​ ​tende​ ​para​ ​um egoísmo​ ​injusto​ ​que​ ​deseja​ ​o​ ​outro​ ​para​ ​seu​ ​benefício;​ ​o​ ​fleumático​ ​tem​ ​a​ ​ausência​ ​de excessos​ ​da​ ​paixão​ ​mas​ ​por​ ​falta​ ​das​ ​outras​ ​virtudes​ ​cai​ ​na​ ​apatia,​ ​na​ ​falta​ ​de​ ​aptidão​ ​para saborear​ ​os​ ​temperos​ ​que​ ​a​ ​vida​ ​proporciona. 

As​ ​faltas​ ​a​ ​que​ ​os​ ​temperamentos​ ​tendem​ ​são​ ​corrigidas​ ​pela​ ​razão​ ​iluminada​ ​pelos​ ​dons intelectivos​ ​(na​ ​ordem:​ ​ciência,​ ​conselho,​ ​entendimento,​ ​sabedoria)​ ​e​ ​pela​ ​vontade​ ​fortalecida pelos​ ​dons​ ​afetivos​ ​(na​ ​ordem:​ ​temor,​ ​piedade,​ ​fortaleza,​ ​sabedoria)​ ​e​ ​assim​ ​os​ ​modos gregorianos​ ​bem​ ​empregados​ ​podem​ ​servir​ ​de​ ​terapia​ ​espiritual​ ​que​ ​fomenta​ ​as​ ​virtudes.​ ​A prudência​ ​tem​ ​sua​ ​plenitude​ ​no​ ​dom​ ​de​ ​conselho,​ ​a​ ​fortaleza​ ​no​ ​dom​ ​de​ ​fortaleza,​ ​a​ ​justiça​ ​no dom​ ​de​ ​piedade​ ​e​ ​a​ ​temperança​ ​no​ ​dom​ ​do​ ​temor​ ​e​ ​no​ ​de​ ​sabedoria. 

Além​ ​dos​ ​movimentos​ ​da​ ​sensibilidade​ ​expressos​ ​nos​ ​temperamentos​ ​é​ ​importante​ ​considerar interações​ ​dos​ ​modos​ ​com​ ​as​ ​potências​ ​(capacidades)​ ​espirituais​ ​da​ ​alma.​ ​É​ ​possível​ ​pensar cada​ ​modo​ ​primitivo​ ​e​ ​os​ ​três​ ​aspectos​ ​do​ ​movimento​ ​​ ​(sístole,​ ​hesíquia,​ ​diástole​ ​)​ ​numa relação​ ​com​ ​os​ ​três​ ​tempos​ ​da​ ​memória:​ ​passado,​ ​presente​ ​e​ ​futuro.​ ​Também​ ​com​ ​as​ ​três potências​ ​espirituais​ ​e​ ​as​ ​virtudes​ ​teologais​ ​que​ ​as​ ​aperfeiçoam:​ ​​ ​memória​ ​e​ ​esperança, intelecto​ ​e​ ​fé,​ ​​ ​vontade​ ​e​ ​caridade: 

-​ ​o​ ​protus​ ​e​ ​a​ ​sístole​ ​e​ ​o​ ​passado​ ​se​ ​relacionam​ ​com​ ​a​ ​memória​ ​e​ ​a​ ​esperança​ ​na​ ​medida​ ​em que​ ​temor​ ​e​ ​ciência​ ​estão​ ​relacionados​ ​com​ ​a​ ​lembrança​ ​das​ ​obras​ ​de​ ​Deus​ ​e​ ​a​ ​meditação daquilo​ ​que​ ​ele​ ​realizou.​ ​Protus​ ​e​ ​a​ ​sístole​ ​e​ ​o​ ​presente​ ​se​ ​relacionam​ ​com​ ​o​ ​intelecto​ ​e​ ​a​ ​fé​ ​na medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​ciência​ ​dá​ ​ao​ ​intelecto​ ​a​ ​compreensão​ ​atual​ ​da​ ​criatura​ ​e​ ​dos​ ​bens​ ​em relação​ ​à​ ​Deus​ ​e​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​o​ ​temor​ ​traz​ ​a​ ​humildade​ ​como​ ​base​ ​do​ ​conhecimento. 
Protus​ ​e​ ​sístole​ ​e​ ​futuro​ ​estão​ ​relacionados​ ​com​ ​a​ ​vontade​ ​e​ ​a​ ​caridade​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​o temor​ ​leva​ ​o​ ​querer​ ​a​ ​respeitar​ ​os​ ​desígnios​ ​divinos​ ​e​ ​escolher​ ​o​ ​que​ ​é​ ​bom. 

-​ ​Deuterus​ ​e​ ​diástole​ ​e​ ​passado​ ​se​ ​relacionam​ ​com​ ​a​ ​memória​ ​e​ ​a​ ​esperança​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que a​ ​piedade​ ​e​ ​a​ ​fortaleza​ ​estabelecem​ ​a​ ​alma​ ​na​ ​lembrança​ ​da​ ​eternidade​ ​com​ ​a​ ​memória preenchida​ ​pela​ ​esperança​ ​dos​ ​bens​ ​futuros.​ ​Deuterus​ ​e​ ​diástole​ ​e​ ​presente​ ​se​ ​relacionam​ ​com o​ ​intelecto​ ​e​ ​a​ ​fé​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​fortaleza​ ​sustenta​ ​a​ ​alma​ ​na​ ​fé​ ​inabalável​ ​de​ ​modo​ ​a enfrentar​ ​com​ ​inteligência​ ​todas​ ​as​ ​dificuldades​ ​e​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​piedade​ ​e​ ​o entendimento​ ​nos​ ​conduzem​ ​ao​ ​presente​ ​eterno​ ​do​ ​filho​ ​que​ ​louva​ ​amando​ ​o​ ​Pai​ ​como expressão​ ​clara​ ​e​ ​inteligível​ ​de​ ​sua​ ​majestade​ ​(luz​ ​da​ ​luz).​ ​Deuterus​ ​e​ ​diástole​ ​e​ ​futuro​ ​se relacionam​ ​com​ ​a​ ​vontade​ ​e​ ​a​ ​caridade​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​o​ ​impulso​ ​da​ ​piedade​ ​e​ ​da​ ​fortaleza nos​ ​levam​ ​a​ ​desejar​ ​a​ ​Deus​ ​nosso​ ​fim​ ​último. 

-​ ​Tritus​ ​e​ ​hesíquia​ ​e​ ​passado​ ​se​ ​relacionam​ ​com​ ​a​ ​memória​ ​e​ ​a​ ​esperança​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a tranquilidade​ ​interior​ ​com​ ​suave​ ​alegria​ ​dados​ ​pela​ ​sabedoria,​ ​pela​ ​fortaleza​ ​e​ ​piedade​ ​dão estabilidade​ ​para​ ​que​ ​a​ ​alma​ ​refletindo​ ​sobre​ ​o​ ​que​ ​passou​ ​possa​ ​ser​ ​tocada​ ​pelo​ ​dom​ ​do conselho​ ​e​ ​agir​ ​para​ ​participar​ ​dos​ ​dons​ ​prometidos​ ​por​ ​Deus.​ ​Tritus​ ​e​ ​hesíquia​ ​e​ ​presente estão​ ​relacionados​ ​com​ ​o​ ​intelecto​ ​e​ ​a​ ​fé​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​luz​ ​do​ ​alto​ ​firma​ ​a​ ​inteligência na​ ​contemplação​ ​jubilosa​ ​e​ ​pacífica​ ​da​ ​verdade.​ ​​ ​Tritus​ ​e​ ​hesíquia​ ​e​ ​futuro​ ​estão​ ​relacionados com​ ​a​ ​vontade​ ​e​ ​a​ ​caridade​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​Deus​ ​nos​ ​dá​ ​a​ ​alegria​ ​do​ ​amor​ ​e​ ​a​ ​sua​ ​presença antecipada​ ​no​ ​desejo​ ​da​ ​plena​ ​união. 

-​ ​A​ ​memória​ ​está​ ​relacionada​ ​com​ ​o​ ​tempo​ ​passado,​ ​com​ ​o​ ​tempo​ ​do​ ​presente,​ ​com​ ​o​ ​tempo do​ ​futuro​ ​e​ ​com​ ​os​ ​três​ ​modos​ ​primitivos​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​contém​ ​em​ ​si​ ​a​ ​lembrança​ ​do passado,​ ​a​ ​consciência​ ​de​ ​si​ ​no​ ​presente​ ​e​ ​a​ ​expectativa​ ​do​ ​futuro. 

-​ ​O​ ​intelecto​ ​está​ ​relacionado​ ​com​ ​o​ ​tempo​ ​passado,​ ​com​ ​o​ ​tempo​ ​presente,​ ​com​ ​o​ ​tempo futuro​ ​e​ ​com​ ​os​ ​três​ ​modos​ ​primitivos​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​a​ ​inteligência​ ​raciocina​ ​a​ ​partir​ ​das experiências​ ​passadas​ ​numa​ ​situação​ ​atual​ ​tendo​ ​em​ ​vista​ ​uma​ ​apreensão​ ​da​ ​verdade​ ​como fim​ ​futuro​ ​e​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​pode​ ​contemplar​ ​e​ ​meditar​ ​trazendo​ ​à​ ​alma​ ​a​ ​compreensão​ ​do fluxo​ ​do​ ​tempo​ ​tendo​ ​em​ ​vista​ ​a​ ​eternidade. 

-​ ​A​ ​vontade​ ​está​ ​relacionada​ ​com​ ​o​ ​tempo​ ​passado,​ ​o​ ​tempo​ ​presente,​ ​o​ ​tempo​ ​futuro​ ​e​ ​os​ ​três modos​ ​primitivos​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​os​ ​hábitos​ ​passados​ ​delimitam​ ​seu​ ​poder​ ​de​ ​ação,​ ​na medida​ ​em​ ​que​ ​está​ ​​ ​voltada​ ​para​ ​o​ ​fim​ ​desejado​ ​e​ ​na​ ​medida​ ​em​ ​que​ ​decide​ ​no​ ​presente. 

As​ ​três​ ​potências​ ​espirituais​ ​através​ ​das​ ​três​ ​virtudes​ ​teologais​ ​têm​ ​relação​ ​especial​ ​com​ ​cada um​ ​dos​ ​três​ ​efeitos​ ​mistagógicos​ ​da​ ​graça:​ ​a​ ​memória​ ​está​ ​ligada​ ​especialmente​ ​à​ ​purificação, o​ ​intelecto​ ​especialmente​ ​à​ ​iluminação​ ​e​ ​a​ ​vontade​ ​especialmente​ ​à​ ​união.​ ​Considerando​ ​as relações​ ​das​ ​potências​ ​com​ ​os​ ​modos​ ​primitivos​ ​é​ ​possível​ ​pensá-los​ ​relacionando-os​ ​com estes​ ​três​ ​efeitos​ ​da​ ​graça. 

Considerações​ ​sobre​ ​o​ ​uso​ ​terapêutico​ ​espiritual​ ​dos​ ​modos​ ​gregorianos: 

Um​ ​aspecto​ ​importante​ ​a​ ​se​ ​considerar​ ​quando​ ​pensamos​ ​na​ ​utilização​ ​terapêutica​ ​do​ ​canto gregoriano​ ​para​ ​a​ ​promoção​ ​das​ ​virtudes​ ​é​ ​compreender​ ​que​ ​mais​ ​importante​ ​que​ ​o temperamento​ ​da​ ​sensibilidade​ ​é​ ​o​ ​caráter​ ​forjado​ ​pelas​ ​escolhas​ ​do​ ​espírito.​ ​Cada​ ​alma​ ​tem mais​ ​afinidade​ ​espiritual​ ​com​ ​uma​ ​das​ ​três​ ​potências​ ​e​ ​isso​ ​interfere​ ​nas​ ​escolhas​ ​que​ ​cada pessoa​ ​faz. 

Outra​ ​consideração​ ​importante​ ​é​ ​dada​ ​por​ ​São​ ​Francisco​ ​de​ ​Sales​ ​em​ ​seu​ ​tratado​ ​do​ ​amor​ ​de Deus​ ​quando​ ​ele​ ​mostra​ ​de​ ​que​ ​modos​ ​Deus​ ​cura​ ​os​ ​maus​ ​movimentos​ ​da​ ​alma:​ ​por​ ​um movimento​ ​semelhante​ ​mais​ ​elevado​ ​ou​ ​pelo​ ​movimento​ ​oposto.​ ​Num​ ​exemplo,​ ​São Francisco​ ​de​ ​Sales​ ​cita​ ​quando​ ​Jesus​ ​repreende​ ​os​ ​discípulos​ ​que​ ​se​ ​alegravam​ ​por expulsarem​ ​demônios​ ​e​ ​lhes​ ​exorta​ ​para​ ​alegrarem-se​ ​ao​ ​invés​ ​por​ ​seus​ ​nomes​ ​estarem escritos​ ​no​ ​céu​ ​(Lucas​ ​10,​ ​17-20)​ ​após​ ​afirmar​ ​ter​ ​visto​ ​a​ ​queda​ ​do​ ​demônio​ ​por​ ​seu​ ​orgulho: se​ ​Jesus​ ​na​ ​ocasião​ ​fosse​ ​usar​ ​os​ ​modos​ ​como​ ​terapia​ ​usaria​ ​o​ ​tritus​ ​autêntico​ ​para​ ​elevar​ ​os discípulos​ ​à​ ​consideração​ ​da​ ​alegria​ ​celeste​ ​e​ ​talvez​ ​em​ ​conjunto​ ​os​ ​modos​ ​tetrardus​ ​para​ ​que a​ ​alegria​ ​esteja​ ​fundada​ ​na​ ​paz​ ​e​ ​nas​ ​verdades​ ​mais​ ​elevadas​ ​e​ ​o​ ​terceiro​ ​modo​ ​para​ ​dar-lhes impulso​ ​afetivo;​ ​assim​ ​ele​ ​usaria​ ​um​ ​movimento​ ​semelhante​ ​alegre​ ​para​ ​curar​ ​uma​ ​alegria ruim.​ ​Ele​ ​poderia​ ​ao​ ​invés​ ​ter​ ​enfatizado​ ​a​ ​necessidade​ ​da​ ​conversão​ ​pela​ ​penitência​ ​e​ ​oração humildes​ ​e​ ​nesse​ ​caso​ ​teria​ ​recorrido​ ​aos​ ​protus​ ​e​ ​aos​ ​deuterus,​ ​uma​ ​situação​ ​usada​ ​de exemplo​ ​por​ ​São​ ​Francisco​ ​de​ ​Sales​ ​em​ ​que​ ​nosso​ ​Senhor​ ​usa​ ​este​ ​expediente​ ​do​ ​movimento contrário​ ​em​ ​relação​ ​à​ ​uma​ ​alegria​ ​torpe​ ​é​ ​quando​ ​diz:​ ​desgraçados​ ​os​ ​que​ ​riem​ ​porque haverão​ ​de​ ​chorar​ ​​ ​(Lucas​ ​10,​ ​20),​ ​nesse​ ​caso​ ​os​ ​modos​ ​correspondentes​ ​seriam​ ​o​ ​primeiro,​ ​o segundo,​ ​o​ ​quarto​ ​e​ ​o​ ​sexto​ ​que​ ​modula​ ​o​ ​caráter​ ​alegre​ ​para​ ​o​ ​temor,​ ​a​ ​ciência​ ​e​ ​a​ ​reverência moderando​ ​afetos​ ​do​ ​quinto. 

Para​ ​bem​ ​compreender​ ​essas​ ​possibilidades​ ​de​ ​ethos​ ​moderando​ ​movimentos​ ​é​ ​interessante observar​ ​que​ ​em​ ​cada​ ​um​ ​dos​ ​quatro​ ​pares​ ​de​ ​modos​ ​há​ ​um​ ​que​ ​se​ ​relaciona​ ​mais​ ​com​ ​certos impulsos​ ​de​ ​um​ ​temperamento​ ​e​ ​outro​ ​que​ ​modera​ ​mais​ ​com​ ​as​ ​modulações,​ ​assim:​ ​o segundo​ ​modo​ ​tem​ ​um​ ​caráter​ ​mais​ ​melancólico​ ​que​ ​pode​ ​ser​ ​moderado​ ​pelo​ ​primeiro​ ​modo (que​ ​modula​ ​mais​ ​do​ ​que​ ​o​ ​segundo​ ​para​ ​aspectos​ ​sanguíneos,​ ​fleumáticos​ ​e​ ​coléricos);​ ​o terceiro​ ​modo​ ​tem​ ​um​ ​caráter​ ​colérico​ ​que​ ​pode​ ​ser​ ​moderado​ ​pelo​ ​quarto​ ​(que​ ​modula​ ​mais do​ ​que​ ​o​ ​terceiro​ ​para​ ​aspectos​ ​fleumáticos,​ ​melancólicos​ ​e​ ​sanguíneos);​ ​​ ​o​ ​quinto​ ​modo​ ​tem um​ ​caráter​ ​mais​ ​sanguíneo​ ​que​ ​pode​ ​ser​ ​moderado​ ​pelo​ ​sexto​ ​modo​ ​(que​ ​modula​ ​mais​ ​do​ ​que o​ ​quinto​ ​para​ ​aspectos​ ​melancólicos,​ ​fleumáticos​ ​e​ ​coléricos);​ ​o​ ​oitavo​ ​modo​ ​tem​ ​um​ ​caráter mais​ ​fleumático​ ​que​ ​pode​ ​ser​ ​moderado​ ​pelo​ ​sétimo​ ​modo​ ​(que​ ​modula​ ​mais​ ​que​ ​o​ ​oitavo para​ ​aspectos​ ​coléricos​ ​e​ ​melancólicos).​ ​Quanto​ ​ao​ ​protus​ ​e​ ​tetrardus​ ​é​ ​​ ​importante​ ​perceber que​ ​o​ ​protus​ ​plagal​ ​tem​ ​muito​ ​do​ ​melancólico​ ​no​ ​seu​ ​aspecto​ ​recolhido​ ​mas​ ​o​ ​tetrardus autêntico​ ​tem​ ​muito​ ​do​ ​melancólico​ ​em​ ​seu​ ​aspecto​ ​de​ ​exaltação​ ​e​ ​excitação​ ​interior,​ ​e,​ ​por outro​ ​lado,​ ​o​ ​tetrardus​ ​plagal​ ​tem​ ​muito​ ​do​ ​fleumático​ ​na​ ​sua​ ​tranquilidade​ ​mas​ ​o​ ​protus autêntico​ ​tem​ ​muito​ ​do​ ​fleumático​ ​na​ ​sua​ ​capacidade​ ​de​ ​domínio​ ​sobre​ ​as​ ​paixões. 

Esses​ ​pares​ ​todos​ ​permitem​ ​uma​ ​ação​ ​mais​ ​controlada​ ​através​ ​de​ ​ethos​ ​semelhantes​ ​tanto​ ​no sentido​ ​de: 
1-​ ​moderar​ ​o​ ​semelhante​ ​pelo​ ​semelhante​ ​(um​ ​dos​ ​modos​ ​do​ ​par​ ​moderando​ ​outro​ ​do​ ​par,​ ​por exemplo:​ ​usar​ ​o​ ​primeiro​ ​modo​ ​para​ ​curar​ ​uma​ ​tristeza​ ​desordenada​ ​que​ ​é​ ​mais​ ​próxima​ ​ao ethos​ ​do​ ​segundo​ ​modo​ ​e​ ​usar​ ​o​ ​oitavo​ ​modo​ ​para​ ​controlar​ ​a​ ​ansiedade​ ​com​ ​frequência associada​ ​à​ ​tristeza); quanto​ ​no​ ​sentido​ ​de: 
2-​ ​moderar​ ​através​ ​de​ ​um​ ​contrário​ ​mais​ ​semelhante​ ​ao​ ​invés​ ​de​ ​diretamente​ ​usar​ ​algo contrário​ ​mais​ ​extremo​ ​(por​ ​exemplo:​ ​para​ ​curar​ ​um​ ​medo​ ​e​ ​tristeza​ ​exagerados​ ​e desordenados​ ​usar​ ​num​ ​primeiro​ ​momento​ ​o​ ​modo​ ​tritus​ ​plagal​ ​ao​ ​invés​ ​do​ ​tritus​ ​autêntico​ ​- que​ ​é​ ​mais​ ​diretamente​ ​oposto​ ​à​ ​tristeza​ ​-​ ​e​ ​só​ ​posteriormente​ ​usar​ ​o​ ​mais​ ​oposto).​ ​Me​ ​parece que​ ​a​ ​ordem​ ​mais​ ​terapêutica​ ​seria​ ​começar​ ​com​ ​o​ ​semelhante,​ ​ir​ ​para​ ​um​ ​oposto​ ​que​ ​tem algo​ ​de​ ​semelhante,​ ​ir​ ​para​ ​o​ ​oposto​ ​e​ ​então​ ​ir​ ​para​ ​o​ ​modo​ ​mais​ ​próximo​ ​do​ ​movimento desordenado,​ ​provocando​ ​catarse​ ​(exemplo:​ ​contra​ ​a​ ​má​ ​tristeza​ ​e​ ​ansiedade​ ​melancólicas, primeiro​ ​I​ ​e​ ​VIII,​ ​depois​ ​VI​ ​e​ ​IV,​ ​depois​ ​V​ ​e​ ​III​ ​e​ ​depois​ ​II​ ​e​ ​VII). 

Ao​ ​utilizar​ ​os​ ​modos​ ​para​ ​terapia​ ​espiritual​ ​é​ ​importante​ ​sempre​ ​lembrar​ ​que​ ​as​ ​pessoas​ ​não são​ ​estáticas​ ​e​ ​os​ ​temperamentos​ ​e​ ​inclinações​ ​variam​ ​segundo​ ​a​ ​formação,​ ​segundo​ ​fatores genéticos,​ ​biológicos​ ​e​ ​fatores​ ​sócio-culturais​ ​e​ ​segundo​ ​circunstâncias​ ​que​ ​podem​ ​afetá-los como​ ​por​ ​exemplo​ ​traumas,​ ​alimentação​ ​e​ ​uso​ ​de​ ​remédios. 

Na​ ​dúvida​ ​sobre​ ​quais​ ​modos​ ​tem​ ​efeito​ ​terapêutico​ ​é​ ​bom​ ​lembrar​ ​que:​ ​1-​ ​de​ ​todas​ ​as paixões​ ​a​ ​tristeza​ ​é​ ​a​ ​mais​ ​nociva​ ​(segundo​ ​São​ ​Francisco​ ​de​ ​Sales​ ​há​ ​só​ ​dois​ ​tipos​ ​de​ ​tristeza boa​ ​e​ ​segundo​ ​a​ ​caridade)​ ​2-​ ​segundo​ ​os​ ​antigos​ ​o​ ​temperamento​ ​melancólico​ ​é​ ​o​ ​mais​ ​sujeito às​ ​enfermidades​ ​da​ ​alma​ ​3-​ ​traumas​ ​e​ ​dificuldades​ ​podem​ ​causar​ ​melancolia​ ​mesmo​ ​em​ ​quem não​ ​tem​ ​predisposição​ ​grande​ ​para​ ​o​ ​temperamento​ ​melancólico​ ​4-​ ​os​ ​modos​ ​que​ ​por semelhança​ ​moderam​ ​a​ ​​ ​melancolia​ ​são​ ​o​ ​primeiro​ ​e​ ​o​ ​oitavo​ ​5-​ ​esses​ ​modos​ ​são​ ​justamente os​ ​mais​ ​relacionados​ ​à​ ​totalidade​ ​dos​ ​dons​ ​do​ ​Espírito​ ​Santo.​ ​Pensando​ ​nisso​ ​e​ ​no​ ​fato​ ​de​ ​que os​ ​modos​ ​mais​ ​usados​ ​no​ ​repertório​ ​são​ ​o​ ​primeiro​ ​e​ ​o​ ​oitavo​ ​então​ ​é​ ​sempre​ ​recomendável utilizar​ ​muito​ ​estes​ ​modos​ ​para​ ​fomentar​ ​a​ ​virtude​ ​já​ ​que​ ​são​ ​intimamente​ ​relacionados​ ​com​ ​a virtude​ ​da​ ​humildade​ ​que​ ​é​ ​a​ ​base​ ​e​ ​com​ ​a​ ​caridade​ ​que​ ​é​ ​a​ ​perfeição​ ​da​ ​virtude,​ ​juntos​ ​estes dois​ ​modos​ ​tem​ ​especial​ ​ação​ ​contra​ ​o​ ​amor​ ​próprio​ ​desordenado​ ​egoísta​ ​​ ​que​ ​é​ ​a​ ​fonte​ ​de todos​ ​os​ ​males.​ ​Acrescenta-se​ ​a​ ​eles​ ​o​ ​quinto​ ​modo​ ​que​ ​é​ ​o​ ​terceiro​ ​mais​ ​usado​ ​no​ ​repertório (e​ ​pelas​ ​modulações​ ​tem​ ​importância​ ​estrutural​ ​em​ ​todos):​ ​além​ ​de​ ​máxima​ ​oposição​ ​à tristeza​ ​o​ ​quinto​ ​modo​ ​é​ ​especialmente​ ​relacionado​ ​à​ ​caridade​ ​fraterna. 

O​ ​aspecto​ ​mais​ ​interessante​ ​do​ ​canto​ ​gregoriano​ ​é​ ​sua​ ​capacidade​ ​para​ ​expressar​ ​seja movimentos​ ​que​ ​afetam​ ​a​ ​sensibilidade​ ​seja​ ​o​ ​espírito.​ ​Os​ ​três​ ​aspectos​ ​e​ ​possibilidades​ ​de ritmo​ ​​ ​(diastáltico,​ ​​ ​sistáltico,​ ​hesicástico)​ ​podem​ ​ser​ ​compreendidos​ ​seja​ ​como​ ​expressão​ ​do movimento​ ​do​ ​coração​ ​de​ ​carne​ ​e​ ​de​ ​sua​ ​ligação​ ​com​ ​os​ ​sentimentos​ ​e​ ​emoções​ ​da sensibilidade​ ​seja​ ​como​ ​expressão​ ​do​ ​coração​ ​espiritual​ ​(que​ ​na​ ​tradição​ ​mística​ ​está especialmente​ ​relacionado​ ​à​ ​memória​ ​como​ ​centro​ ​da​ ​alma​ ​e​ ​capacidade​ ​para​ ​Deus)​ ​e​ ​a ligação​ ​desse​ ​coração​ ​espiritual​ ​com​ ​os​ ​afetos​ ​do​ ​querer​ ​livre​ ​(a​ ​vontade​ ​que​ ​é​ ​espiritual). Mas​ ​essa​ ​ação​ ​sobre​ ​o​ ​duplo​ ​coração,​ ​a​ ​capacidade​ ​sensível​ ​e​ ​a​ ​capacidade​ ​espiritual​ ​do homem,​ ​depende​ ​da​ ​manifestação​ ​da​ ​beleza,​ ​depende​ ​da​ ​capacidade​ ​dos​ ​seres​ ​de​ ​irradiar bondade​ ​e​ ​mostrar​ ​verdade​ ​e​ ​da​ ​capacidade​ ​humana​ ​de​ ​perceber​ ​essa​ ​irradiação​ ​e​ ​reagir​ ​a​ ​ela. A​ ​beleza​ ​alegra​ ​no​ ​mostrar-se,​ ​causa​ ​alegria​ ​na​ ​doação​ ​de​ ​bem​ ​e​ ​de​ ​luz​ ​e​ ​isso​ ​tem​ ​profunda relação​ ​com​ ​as​ ​características​ ​do​ ​canto​ ​gregoriano​ ​em​ ​relação​ ​à​ ​hesíquia,​ ​à​ ​paz​ ​do​ ​coração.​ ​O canto​ ​gregoriano​ ​está​ ​intimamente​ ​relacionado​ ​à​ ​oração​ ​do​ ​coração,​ ​​ ​à​ ​tradição​ ​de​ ​oração profunda​ ​que​ ​herdamos​ ​dos​ ​padres​ ​do​ ​deserto​ ​e​ ​dos​ ​padres​ ​da​ ​Igreja. 

"A​ ​alegria​ ​do​ ​coração​ ​é​ ​a​ ​vida​ ​da​ ​alma​ ​e​ ​um​ ​inesgotável​ ​tesouro​ ​de​ ​santidade"​ ​(Eclesiástico): nada​ ​como​ ​a​ ​música​ ​para​ ​expressar​ ​essa​ ​alegria​ ​do​ ​amor​ ​no​ ​coração​ ​e​ ​entre​ ​todas​ ​as​ ​formas​ ​de música​ ​o​ ​canto​ ​sacro​ ​e​ ​litúrgico​ ​que​ ​herdamos​ ​dos​ ​padres​ ​da​ ​Igreja​ ​sobressai​ ​na​ ​sua capacidade​ ​para​ ​levar​ ​o​ ​coração​ ​à​ ​plena​ ​felicidade​ ​da​ ​união​ ​com​ ​Deus. 

O​ ​coração​ ​como​ ​memória​ ​está​ ​profundamente​ ​ligado​ ​à​ ​música​ ​visto​ ​que​ ​essa​ ​só​ ​pode​ ​tomar forma​ ​propriamente​ ​e​ ​existir​ ​em​ ​sua​ ​totalidade​ ​na​ ​memória​ ​que​ ​liga​ ​o​ ​som​ ​passado​ ​ao​ ​som presente​ ​e​ ​à​ ​expectativa​ ​do​ ​som​ ​futuro. 


"Madonna do Magnificat" (1480-81), de Botticelli



Epílogo:​ ​sobre​ ​a​ ​espécie​ ​de​ ​escala​ ​grega​ ​que​ ​foi​ ​abandonada​ ​no​ ​canto​ ​gregoriano,​ ​e sobre​ ​os​ ​três​ ​tipos​ ​de​ ​composição​ ​e​ ​o​ ​desenvolvimento​ ​da​ ​música​ ​tonal​ ​a​ ​partir​ ​do gregoriano. 

É​ ​interessante​ ​notar​ ​como​ ​o​ ​modo​ ​maior​ ​pode​ ​ser​ ​compreendido​ ​como​ ​derivado​ ​sobretudo​ ​do tritus​ ​gregoriano​ ​e​ ​o​ ​modo​ ​menor​ ​derivado​ ​sobretudo​ ​do​ ​protus​ ​gregoriano​ ​a​ ​partir​ ​de​ ​uso mais​ ​abundante​ ​do​ ​si​ ​bemol​ ​(resultando​ ​no​ ​protus​ ​numa​ ​escala​ ​de​ ​ré​ ​menor​ ​e​ ​o​ ​tritus​ ​numa escala​ ​de​ ​fá​ ​maior).​ ​O​ ​aspecto​ ​mas​ ​sistáltico​ ​predomina​ ​no​ ​menor​ ​enquanto​ ​que​ ​no​ ​maior​ ​a ênfase​ ​é​ ​num​ ​movimento​ ​diastáltico​ ​que​ ​resolve​ ​na​ ​hesíquia.​ ​O​ ​aspecto​ ​mais​ ​diastáltico​ ​do deuterus​ ​primitivo​ ​aparece​ ​no​ ​modo​ ​maior​ ​nas​ ​cadências​ ​sobre​ ​a​ ​mediante​ ​e​ ​sobre​ ​a​ ​sensível​ ​e no​ ​menor​ ​nas​ ​cadências​ ​sobre​ ​a​ ​dominante. 

Mas​ ​há​ ​algo​ ​muito​ ​interessante​ ​a​ ​se​ ​observar​ ​na​ ​música​ ​tonal:​ ​a​ ​recuperação​ ​da​ ​dissonância do​ ​trítono​ ​para​ ​enfatizar​ ​a​ ​resolução​ ​do​ ​movimento​ ​na​ ​hesíquia​ ​e​ ​repouso​ ​na​ ​tônica.​ ​No​ ​canto gregoriano​ ​o​ ​tetracorde​ ​grego​ ​com​ ​o​ ​trítono​ ​que​ ​aparecia​ ​no​ ​mixolídio​ ​grego​ ​e​ ​era​ ​associado​ ​à angústia​ ​aos​ ​poucos​ ​desapareceu​ ​por​ ​completo.​ ​Mas​ ​na​ ​música​ ​tonal​ ​e​ ​mais​ ​ainda​ ​na pós-tonal​ ​essa​ ​angústia​ ​passa​ ​a​ ​ser​ ​valorizada​ ​seja​ ​para​ ​enfatizar​ ​e​ ​realçar​ ​uma​ ​passagem​ ​de tensão​ ​para​ ​distensão​ ​e​ ​repouso,​ ​seja​ ​em​ ​si​ ​mesma​ ​como​ ​expressão​ ​de​ ​uma​ ​situação​ ​humana. Essa​ ​angústia​ ​do​ ​trítono​ ​está​ ​muito​ ​relacionada​ ​aos​ ​aspectos​ ​mais​ ​problemáticos​ ​do​ ​humor melancólico​ ​quando​ ​desordenado​ ​e​ ​assim​ ​é​ ​possivel​ ​pensar​ ​que​ ​talvez​ ​(hipótese​ ​a​ ​ser verificada​ ​numa​ ​pesquisa​ ​musicológica​ ​mais​ ​profunda)​ ​na​ ​Grécia​ ​o​ ​dórico​ ​em​ ​mi​ ​fosse associado​ ​ao​ ​colérico,​ ​o​ ​frígio​ ​em​ ​ré​ ​ao​ ​sanguíneo​ ​(especialmente​ ​num​ ​sentido​ ​de​ ​feminino​ ​e de​ ​variedade​ ​de​ ​movimentos)​ ​,​ ​o​ ​lídio​ ​em​ ​dó​ ​ao​ ​fleumático​ ​e​ ​o​ ​mixolídio​ ​em​ ​si​ ​ao melancólico. 

No​ ​canto​ ​gregoriano​ ​é​ ​interessante​ ​observar​ ​que​ ​o​ ​si​ ​como​ ​nota​ ​de​ ​solfejo​ ​era​ ​inexistente, tanto​ ​o​ ​si​ ​natural​ ​("b​ ​duro"​ ​"b​ ​quadrado")​ ​quanto​ ​o​ ​si​ ​bemol​ ​("b​ ​mole")​ ​faziam​ ​parte​ ​de hexacordes​ ​que​ ​eram​ ​transpostos​ ​em​ ​várias​ ​alturas​ ​(ut​ ​ré​ ​mi​ ​fá​ ​sol​ ​lá:​ ​duas​ ​sequências​ ​das finais​ ​dos​ ​modos​ ​primitivos​ ​transpostas​ ​com​ ​protus​ ​em​ ​ré​ ​e​ ​sol,​ ​tritus​ ​em​ ​ut​ ​e​ ​fá​ ​e​ ​deuterus​ ​em mi​ ​e​ ​lá).​ ​Dois​ ​hexacordes​ ​tinham​ ​a​ ​nota​ ​que​ ​chamamos​ ​si​ ​(B)​ ​o​ ​hexacorde​ ​F​ ​G​ ​A​ ​Bb​ ​C​ ​D​ ​com o​ ​"B​ ​mole"​ ​e​ ​o​ ​hexacorde​ ​G​ ​A​ ​B​ ​C​ ​D​ ​E​ ​​ ​com​ ​o​ ​"B​ ​duro"​ ​e​ ​em​ ​ambos​ ​os​ ​casos​ ​um​ ​medieval treinado​ ​no​ ​sistema​ ​criado​ ​pelo​ ​Guido​ ​D'Arezzo​ ​cantaria​ ​ut​ ​ré​ ​mi​ ​fá​ ​sol​ ​lá. 

O​ ​tetrardus​ ​gregoriano​ ​no​ ​seu​ ​aspecto​ ​jubiloso​ ​e​ ​pacífico​ ​permanece​ ​na​ ​música​ ​tonal​ ​em cadências​ ​da​ ​escala​ ​maior​ ​sobre​ ​a​ ​dominante​ ​desde​ ​que​ ​essas​ ​apareçam​ ​sem​ ​o​ ​recurso angustiante​ ​e​ ​tensional​ ​do​ ​trítono. 

No​ ​canto​ ​gregoriano​ ​a​ ​excitação​ ​do​ ​trítono​ ​quase​ ​aparece​ ​nas​ ​modulações​ ​do​ ​tetrardus autêntico​ ​​ ​(sétimo​ ​modo)​ ​que​ ​às​ ​vezes​ ​parte​ ​do​ ​ré,​ ​desce​ ​ao​ ​si​ ​e​ ​evolui​ ​num​ ​arco​ ​melódico​ ​que tem​ ​o​ ​fá​ ​no​ ​topo​ ​ornamentando​ ​um​ ​mi.​ ​Mas​ ​nesse​ ​modo​ ​a​ ​passagem​ ​das​ ​modulações​ ​impede uma​ ​impressão​ ​de​ ​trítono​ ​-​ ​que​ ​não​ ​acontece​ ​nunca​ ​diretamente​ ​num​ ​salto​ ​de​ ​intervalo​ ​único (si​ ​-​ ​fá).​ ​É​ ​interessante​ ​observar​ ​que​ ​este​ ​modo​ ​é​ ​o​ ​único​ ​na​ ​evolução​ ​modal​ ​final​ ​que​ ​tem uma​ ​tenor​ ​que​ ​não​ ​faz​ ​parte​ ​da​ ​tríade​ ​maior​ ​formada​ ​sobre​ ​o​ ​fá​ ​hesicástico​ ​do​ ​tritus​ ​(fá,​ ​​ ​lá, dó,​ ​são​ ​as​ ​tenores​ ​dos​ ​outros​ ​modos​ ​nas​ ​composições​ ​mais​ ​elaboradas​ ​do​ ​próprio​ ​de​ ​missa). 

Uma​ ​música​ ​sacra​ ​moderna​ ​e​ ​contemporânea​ ​que​ ​queira​ ​utilizar​ ​os​ ​recursos​ ​angustiantes​ ​e tensionantes​ ​do​ ​trítono​ ​e​ ​outras​ ​dissonâncias​ ​deve​ ​levar​ ​em​ ​consideração​ ​a​ ​necessidade​ ​de busca​ ​da​ ​paz​ ​e​ ​alegria​ ​serena​ ​que​ ​devem​ ​triunfar​ ​no​ ​resultado​ ​final​ ​da​ ​composição​ ​e​ ​expressar por​ ​estes​ ​recursos​ ​mais​ ​a​ ​catarse​ ​e​ ​a​ ​vitória​ ​sobre​ ​o​ ​mal​ ​do​ ​que​ ​a​ ​miséria​ ​presente​ ​na​ ​vida humana​ ​após​ ​a​ ​queda​ ​do​ ​pecado. 

Monday, September 25, 2017

As Cinco Vias e a Religação

Introdução

O objetivo deste trabalho é realizar uma crítica à análise que Xavier Zubiri faz das “5 vias” tomasianas, indicando, por sua vez, que, as mesmas não ignoram a realidade que o filósofo espanhol descreve como o fato da “religação” metafísica; antes, tal fato estaria na base mesma de cada uma das vias, de acordo com a interpretação que aqui faço.

Primeiramente, apresentarei, de modo breve, como Zubiri entende a “religação”, e, em seguida, apresentarei as 5 vias segundo Tomás, com as críticas de Zubiri, buscando desmontá-las, e indicando como cada via tomasiana pode ser compreendida em consonância com a proposta zubiriana.


1. Esboço da doutrina zubiriana da “religação” [cf. El hombre y Dios. 6ª ed. Madrid: Alianza, 1998, cap. 2]

Segundo Zubiri, a pessoa humana, com sua inteligência, apreende as coisas como “realidades’, como algo de suyo: o percebido não é algo “feito pela inteligência”, mas algo que nela se apresenta “desde si mesmo”. O de suyo é um “em si que dá de si”: a “realidade” ou o “ser” (em sentido tomasiano) não é um noúmeno incognoscível. Uma vez que apreendemos inteligentemente o que se nos apresenta com este caráter metafísico de “realidade”, e não podemos fazer nossa vida sem o mesmo, experienciamos, como diz o filósofo espanhol, a “religação” à realidade ou ao “poder do real”, que é a mesma enquanto exerce uma “dominação” em nossas vidas, fazendo-nos “relativamente absolutos” enquanto “pessoas” ou “suidades”, isto é, realidades que se pertencem ao se inteligirem como “sua realidade”.

Este “poder do real” está presente em todas as coisas, não é algo “fora” delas, mas não se confunde com seu conteúdo, ou, como diz Zubiri, com sua “talidade” (de “tal” coisa), sendo um “mais” nas coisas. Assim, este “poder” está fundado não nas coisas reais que ele recobre, pois nenhuma delas é “a” realidade, que, no entanto, é real, pois domina sobre nossa realidade humana. Deste modo, existe outra Realidade que funda este poder, e não é “uma” realidade a mais, senão o Fundamento Absolutamente Absoluto deste poder e de nossa realidade pessoal relativamente absoluta (cf. El hombre y Dios, p. 148). Este conceito é o que corresponderia ao “Deus das religiões”


2. As cinco vias [cf. S.Th. I, q2 a3], com as críticas zubirianas [cf. El hombre y Dios, pp. 119-122] e minha réplica

Sobre todas as “vias”, Zubiri sustenta que não são “fatos cósmicos inconcussos”, e que, portanto, não seriam base adequada para o problema da justificação da existência de Deus. O que ele pretende não é negar que as vias sejam conclusivas, mas que não “partem de fatos” e sim “de uma interpretação metafísica da realidade sensível”, em que “a diferença entre as ações humanas e demais fatos cósmicos não tem nenhum papel”, com o homem sendo considerado “mera res naturalis”.

Ademais, as vias não terminariam no que Zubiri chama “Deus enquanto Deus”, mas, no “primeiro motor imóvel”, na “primeira causa eficiente”, no “primeiro ente necessário”, no “ente na plenitude da entidade” e na “inteligência suprema”. Haveria que provar que estas “primariedades” se identificam entre si num mesmo ente, e que este seja efetivamente “o que entendemos por Deus”, o Deus dos homens religiosos.



a) Primeira via

Na primeira via, Tomás afirma o “fato do movimento” (da mudança), que é percebido pelos sentidos, e que “tudo o que se move é movido por outro”. Depois afirma que o que se move o faz enquanto “potência orientada para aquilo a que se move”, e que “o que move está em ato”, entenda-se, tem o ato que é o termo do movimento daquele que muda. Portanto, conclui aristotelicamente que “o movimento é passagem da potência ao ato”. Sendo que a potência só pode ser atuada pelo que já está em ato, e que “tudo o que se move necessita ser movido por outro, e este por outro”, é forçoso chegar a um Primeiro Motor Imóvel: primeiro em sentido formal, e não cronológico, entenda-se, porque Ele é a origem ontológica presente da mudança ou atualização do ser, e não sua origem cronológica remotíssima, que teria desencadeado no passado a série de passagens da potência ao ato que prosseguem até o presente. O que as mudanças têm de empíricas pode ser perfeitamente explicado pelas causas “segundas”; aqui, trata-se da transmissão de “ser” ou “realidade”.

Zubiri critica que o “movimento” a que Tomás se refere não é simplesmente o “fato” acessível da “mudança cósmica”, mas a “passagem da potência ao ato” (Aristóteles), o que já é uma “interpretação da realidade do movimento”, não sendo, assim, “um ponto de partida firme ou manifesto”.

Efetivamente, a definição tomasiana do “movimento” é metafísica, porém, se Zubiri aplicasse o critério a si mesmo, provavelmente muitos iriam impugnar que a “religação” seja um “fato” constatável, afinal, a religação é um fato metafísico, e não empírico! Não, como explica o filósofo espanhol, no sentido de nos dar diretamente a Deus, Realidade Transcendente, mas porque nos dá a realidade transcendental que a Ele conduz. O apoio do poder do real que encontramos nas coisas reais e demais pessoas é um apoio “possibilitante”, oferta de possibilidades reais pelas quais nos capacitamos, segundo Zubiri, isto é, atualizamos nossas potências; também é um apoio “impelente”, que nos faz realizar-nos, isto é, tornar-nos mais “reais” ou “atuais”.

Há, assim, uma confluência entre a primeira via tomasiana e estas características da religação zubiriana: a atuação de potências se identifica com a realização de possibilidades reais. Tal visão do “movimento” não é certamente a do logos vulgar, mas a “religação” também só pode ser visualizada pelo logos filosófico. A teoria ou a ratio, nesta via, é a ascensão do fato metafísico do movimento à necessidade metafísica do Motor Imóvel.


b) Segunda via

Na segunda via, da “causa eficiente”, Tomás fala de uma ordem de causas desse tipo. Nenhuma causa é causa de si mesma, pois seria anterior a si, o que é absurdo (como é absurdo o conceito spinoziano de Causa Sui). Como na via anterior, não pode haver uma regressão infinita, pois a ordem de causas ficaria inexplicável, mas deve haver uma Causa Eficiente Primeira ou Causa Incausada.

Zubiri questiona se podemos afirmar que há “causalidade eficiente” no cosmos, ou para além das ações humanas; e afirma que o “ocasionalismo cósmico” é “outra interpretação possível”, pois “não é um impossível metafísico”.

A causa eficiente, em seu sentido mais próprio, deve ser compreendida como causa ou influxo “produtor”; em sentido estritíssimo, só caberia a Deus enquanto Criador de todo o ser a partir do nada: Deus cria ex nihilo, as causas intramundanas atuam sobre matéria já existente. Zubiri parece identificar a “causação eficiente” a uma “produção” deliberada, ao se referir às ações humanas. Mas Tomás está usando o termo de modo amplo: não no sentido de uma “produção” arquitetada, mas no de qualquer origem ou aparição de uma realidade em função de ou por outra(s). É o que Zubiri chama de “funcionalidade do real” que, em Estructura dinâmica de la realidade, é a definição de “causalidade” (cf. ZUBIRI, Estructura dinâmica de la realidade. Madrid: Alianza, 1989, p. 84) – ainda que em Inteligencia y logos o filósofo considere a “causalidade” como produção estrita e não como a funcionalidade geral perceptível (cf. ZUBIRI, Inteligencia y logos. Madrid: Alianza, 1989, p. 39-40). Certamente, Tomás não está se referindo só às “fabricações”, análogas da criação divina, mas a ações “causais” como “abrir uma porta”, por exemplo: não se “produz” a “abertura”, mas ela é “causada”, no sentido de que é realizada em função da ação da minha mão.

Mesmo, porém, que as ações recíprocas dos entes intramundanos fossem “causas ocasionais”, caberia dizer: são ocasião para que se manifeste a causalidade real e efetiva, por exemplo, a das leis da natureza, cuja ordem depende existencialmente da Causa Primeira.

As causas e seus efeitos respectivos estão, sempre e obviamente, “religados”, funcionalmente religados, diria Zubiri, de modo que o Aquinate não está distante das disquisições zubirianas. O fato metafísico constatável seria, reinterpretando o Angélico à luz das reflexões zubirinas, o da causalidade entendida como a “funcionalidade do real”, e a teoria ou ratio seria a ascensão às causalidades estritas e, destas, à raiz primeira de toda possível relação funcional e causal.

Trata-se, ainda, de entender que a dependência respectiva dos entes intramundanos, ou a respectividade mundanal, como diz Zubiri, deve fundar-se no Ser Irrespectivo (cf. ZUBIRI, Sobre la esencia. 1ª reimpressão. Madrid: Alianza, 1998, p. 431): a Causa Incausada da ordem de causas intramundanas é o Fundamento Irrespectivo da ordem mundanal respectiva; não ser causado é não depender de outra realidade (Tomás), isto é, não ser respectivo e, portanto, não participar da funcionalidade do real ou causalidade (Zubiri) – em sua teologia, Zubiri dirá que “Deus não tem uma essencial respectividade ao mundo que real e efetivamente criou”, mas que “a tem livremente” (ZUBIRI, Xavier. El problema teologal del hombre: Cristianismo. Madrid: Alianza Editorial, 1997, p. 192); em termos clássicos, tal relação, de Deus ao mundo, é “ideal”.


c) Terceira via

Na terceira via, Tomás constata a presença de coisas “possíveis”, as que “podem ser produzidas ou destruídas”, de modo que “podem ou não existir”. Tais coisas não podem existir sempre, pois o que pode não existir, em algum tempo não existiu, como diz o Angélico. De modo que, como as coisas existem!, é impossível que só haja coisas deste naipe! Assim, simplificando o argumento, é preciso que haja algum ser absolutamente necessário, que seja a causa da necessidade dos demais.

A respeito da terceira via, o filósofo espanhol afirma que a experiência “nos dá apenas ‘o que é’, e não o possível e o necessário”, e que “a corrupção e a geração são algo necessário na natureza”.

Que, segundo Zubiri, “a geração e a corrupção” sejam “algo necessário na natureza” não é algo que verdadeiramente objeta o raciocínio de Tomás: uma tal “necessidade fática” implicaria, assim, um Ser Incorruptível, que seria o Absolutamente Necessário do argumento. Em termos “religacionais”, o que é relativamente absoluto/necessário depende existencialmente do Absolutamente Absoluto. O fato metafísico apreensível são as realidades corruptíveis, e a teoria é a ascensão das mesmas ao Necessário ou Incorruptível (inclusive os “necessários”, no plural, da via, “que não têm a necessidade em si”, são os astros “incorruptíveis” da cosmologia medieval, o que vem ao encontro de minha interpretação).


d) Quarta via

Na quarta via, Tomás aponta a uma “hierarquia de valores nas coisas”: há as que são mais ou menos “boas, verazes, nobres”. O exemplo do “calor que se aproxima do máximo calor” é enganoso, pois aquilo a que Tomás aponta na explicação são as perfeições transcendentais dos entes. Elas se explicam pela existência do Muito Bom, o Muito Veraz e o Muito Nobre [ou ainda: o Muito Belo ou o Muito Uno, por exemplo], que é o Máximo Ser. O exemplo do fogo, máximo calor, é mera analogia para o Ente Perfeitíssimo que deve ser a causa do ser, da bondade ou de qualquer das perfeições transcendentais dos entes intramundanos.

Zubiri identifica a quarta via com “a dos ‘graus’ de entidade das coisas”, e questiona se, à parte da realidade humana, há coisas “que têm mais ‘entidade’ que outras”; os graus do ser “não seriam um ponto de partido adequado para provar a existência de Deus”.

Aqui falta a Zubiri ou generosidade hermenêutica, ou atenção mais penetrante: para além dos seres humanos, onde podemos encontrar claramente uns mais verazes ou bondosos, nas coisas não humanas, encontramos as que podemos julgar mais ou menos belas –sendo aqui irrelevante a questão dos cânones de beleza, pois o que importa é o “ideal” belo–, ou mais ou menos íntegras (“unas”), por exemplo. Repito, trata-se das perfeições transcendentais, e Zubiri não negaria que elas perpassam toda a realidade e todas as realidades, e não só a humana. Evidentemente, o poder do real que é apreendido como fato envolve o poder da bondade, o poder da verdade, o poder da beleza, o poder da unidade, e a teoria consiste em radicar tal(tais) poder(es) na Realidade/Bondade/Verdade/Beleza/Unidade Absolutamente Absoluta.


e) Quinta via

Na quinta via, Tomás parte do “ordenamento das coisas”: há coisas sem conhecimento que “trabalham por um fim”, isto é, “buscando o melhor”, ou “agindo [como que] intencionalmente”; ora, se não têm conhecimento, só poderiam tender ao fim dirigidas por um Ordenador Inteligente, tal como o arqueiro dirige sua flecha.

Zubiri questiona se há, à parte das ações humanas, uma “ordem de finalidade”. Haveria certamente uma “convergência dos processos cósmicos”, mas não necessariamente uma “ordenação”, a qual seria uma teoria, e não um fato constatável.

Zubiri afirma que tal ordenamento não é um fato, mas apenas uma “certa convergência dos processos cósmicos”. Ora, Tomás aponta precisamente para esta tendência a um mesmo fim dos processos intramundanos não humanos, enquanto fato observável. Aqui há uma confusão como a que é feita na segunda via: do mesmo modo que a causação eficiente não requer ser vista como uma causação humana (pessoal), a ordenação ao fim pode ser entendida simplesmente como esta “convergência” da qual fala o autor basco. O termo “ordenamento”, não obstante apareça ao início da exposição da presente via, na realidade é, como pretende Zubiri, a interpretação teórica deste fato da convergência observada por Tomás com os termos “trabalhar por um fim”, “buscar o melhor”. Que Tomás fale como que “antropomorfizando” as realidades não humanas não conta para objetar o que diz: ele não pensa em uma finalidade intencional em sentido estrito (pessoal e moral), mas no sentido de uma teleologia metafísica geral, em que o “bem” (o “melhor”) ou o “fim” é simplesmente o desdobramento das realidades cósmicas, na medida em que são observáveis tais realidades e seus direcionamentos ordinários.


A modo de conclusão: o Deus das 5 vias é o Fundamento da religação

Todas as vias tomasianas manifestam uma dependência existencial dos entes mundanos em relação a Deus, tal como ocorre na via zubiriana da religação: “em cada uma das provas aparece, de uma forma ou de outra, a ideia de dependência ontológica a respeito de uma causa transcendente” (COPLESTONE. El pensamento de Santo Tomás. 5a reimpressão. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1999, p. 127).

Ao dizer que o Deus das vias tomistas não é “Deus enquanto Deus”, Zubiri está sendo injusto. Assim, por exemplo, o Motor Imóvel, ao qual se chega na primeira via, é certamente uma Realidade Última; mas como Ato Puro, também é a fonte última da atualização de todas as potências reais, incluindo as possibilidades vitais humanas, sendo assim Possibilitante; e, em virtude de sua imutabilidade, o Primeiro Motor é uma realidade na qual o homem pode encontrar um refúgio seguro, uma fortaleza inamovível e inexpugnável, ou seja, uma Realidade Impelente, como Zubiri a conceitua.

Que Tomás não tenha distinguido, nas vias, o caminho próprio da pessoa humana não significa que Deus não seja experienciado pelo homem religioso como Motor, como Causa Incausada Irrespectiva e Independente, como Fundamento Necessário e Incorruptível, como Perfeitíssima Fonte da realidade (e da bondade, da verdade, da unidade e da beleza), ou como Inteligência Ordenadora.

Seu Espírito nos move (Rm 8,14), d’Ele dependemos (Jo 15,4), n’Ele conservamos nosso ser (At 17,28) e esperamos a Vida Eterna (Jo 3,16), a Ele imitamos buscando a perfeição da Caridade (Mt 5,48), e a Sua Palavra confiamos a orientação de nossas vidas (Sl 119,105).

Caminhemos, pois, por estas vias inscritas na Via!



"O sonho de Jacó" (1518-19), de Rafael Sanzio