Thursday, August 04, 2016

Aristóteles sobre a amizade

Da Ética a Nicômaco (Livro VIII; os grifos serão meus):


"1. [A amizade] é uma forma de excelência moral ou é concomitante com a excelência moral, além de ser extremamente necessária na vida. De fato, ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens; achamos até que as pessoas ricas e as ocupantes de altos cargos e as detentoras do poder são as que mais necessitam de amigos; realmente, de que serve a prosperidade sem a oportunidade de fazer benefícios, que se manifesta principalmente e em sua mais louvável forma em relação aos amigos? Ou então, como pode a prosperidade ser protegida e preservada sem amigos? Quanto maior ela for, mais exposta estará aos riscos. E as pessoas pensam que na pobreza e em outros infortúnios os amigos são o único refúgio. Os amigos também ajudam os jovens a evitar os erros, e ajudam as pessoas idosas, amparando-as em suas necessidades e suplementando sua capacidade de ação reduzida pela senilidade. Além disso, os amigos estimulam as pessoas na plenitude de suas forças à prática de ações nobilitantes -'quando dois vão juntos...' pois com amigos as pessoas são mais capazes de pensar e de agir. Ademais, os progenitores parecem sentir uma afeição natural por sua prole, e a prole pelos progenitores... [...] A amizade parece também manter as cidades unidas, e parece que os legisladores se preocupam mais com ela do que com a justiça; efetivamente, a concórdia parece assemelhar-se à amizade, e eles procuram assegurá-la mais que tudo, ao mesmo tempo que repelem tanto quanto possível o facciosismo, que é a inimizade nas cidades. Quando as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.

E a amizade não é somente necessária; ela também é nobilitante, pois louvamos as pessoas amigas de seus amigos, e pensamos que uma das coisas mais nobilitantes é ter muitos amigos; além disto, há quem diga que a bondade e a amizade se encontram nas mesmas pessoas.

[...]

2. A questão das várias espécies de amizade talvez possa ser esclarecida se antes chegarmos a conhecer o objeto do amor. Parece que nem todas as coisas são amadas, mas somente aquelas que merecem ser amadas, e estas são o que é bom, ou agradável, ou útil [...] Que será que as pessoas amam: aquilo que é realmente bom, ou o que é bom para elas? [...] Havendo então três motivos pelos quais as pessoas amam, a palavra 'amizade' não se aplica ao amor às coisas inanimadas, já que neste caso não há  reciprocidade de afeição, e também não haverá o desejo pelo bem de um objeto -por exemplo, seria ridículo desejar o bem de uma garrafa de vinho (no máximo desejaríamos que ela se conservasse bem para podermos tê-la conosco); mas em relação a um amigo dizemos que devemos desejar-lhe bem por sua causa. [...]

3. [...] Os amigos cuja afeição é baseada no interesse não amam um ao outro por si mesmos, e sim por causa de algum proveito que obtêm um do outro. [...] as amizades deste tipo são apenas acidentais, pois não é por ser quem ela é que a pessoa é amada, mas por proporcionar à outra algum proveito ou prazer. Tais amizades se desfazem facilmente se as pessoas não permanecem como eram inicialmente, pois se uma delas já não é agradável ou útil a outra cessa de amá-la. E a utilidade não é uma qualidade permanente, mas está sempre mudando. Portanto, desaparecido o motivo da amizade esta se desfaz, uma vez que ela existe somente como um meio para chegar a um fim.

[...] Os jovens também são amorosos, pois a amizade por amor depende principalmente da emoção e aspira ao prazer; é por isto que os jovens se apaixonam e cessam de amar rapidamente, mudando com frequência no mesmo dia. [...] A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente [...] O amor e a amizade, portanto, ocorrem principalmente e em sua melhor forma entre tais pessoas. Mas é natural que estas amizades sejam raras, pois as pessoas deste tipo são poucos. Ademais, amizades desta espécie pressupõem tempo e intimidade; como diz a sabedoria popular, não podemos conhecer as pessoas enquanto elas não tiverem 'consumido juntas o sal proverbial'; as pessoas também não poderão manter amizade umas com as outras ou ser realmente amigas enquanto cada uma das partes não houver demonstrado à outra que é digna de amizade e não lhe tiver conquistado a confiança. [...] um desejo de amizade pode manifestar-se instantaneamente, mas a amizade não pode.

4. [...] E somente a amizade entre pessoas boas é imune à calúnia, pois não é fácil dar crédito ao que diz qualquer um acerca de uma pessoa que foi posta à prova durante muito tempo por quem ouve as palavras caluniosas; além disto, é entre pessoas boas que encontramos a confiança, o sentimento de que uma nunca fará mal à outra e tudo mais que se espera numa amizade sincera. Nas outras espécies de amizade [por utilidade e por prazer], todavia, nada existe que impeça o aparecimento de suspeitas. 

[...]

5. [...] a distância não desfaz absolutamente a amizade [...] nada é mais característico dos amigos que o desejo de viver juntos [...] as pessoas não podem conviver se não são mutuamente agradáveis e não apreciam as mesmas coisas, como parece acontecer com os amigos que são companheiros.

A amizade mais sincera, então, é a que existe entre as pessoas boas [...] desejamos bem às pessoas que amamos pelo que elas são, e não em decorrência de um sentimento, mas de uma disposição do caráter. [...] a pessoa boa, tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo. [...]

6. [...] Para uma amizade perfeita ambas as partes devem adquirir experiência recíproca e tornar-se íntimas, e isto é muito difícil. [...] a amizade por interesse é para as pessoas mercenárias. As pessoas sumamente felizes também não necessitam de amigos úteis, mas necessitam de amigos agradáveis; elas desejam conviver com alguém e, embora possam suportar por um curto período de tempo coisas que causam sofrimento, nenhuma delas poderia resistir-lhes continuamente (nem mesmo ao bem, elas resistiriam sempre, se este as fizesse sofrer) [...]

[...] mas é porque a amizade conforme à excelência moral é à prova de calúnias e é duradoura, enquanto as outras espécies de amizade [por utilidade e por prazer] mudam rapidamente [...], que elas não parecem constituir espécies verdadeiras de amizade [...]

8. A maioria das pessoas, por causa de sua ambição, parece que prefere ser amada a amar, e é por isto que a maioria gosta de ser adulada; efetivamente, o adulador é um amigo de qualidade inferior, ou que tem a pretensão de ser amigo e quer estimar mais do que ser estimado [...]

13. [...] Queixas e recriminações aparecem somente, ou principalmente, na amizade por interesse [...] as pessoas amigas com base na excelência moral mostram-se ansiosas por fazer bem umas às outras (isto é característico tanto da excelência moral quanto da amizade), e entre pessoas que se emulam reciprocamente neste procedimento não pode haver queixas ou querelas; pessoa alguma é ofendida por outra que a ama e lhe faz bem - ao contrário, a 'vingança' de uma pessoa de bons sentimentos é fazer bem à outra. [...]".



"Madame Monet e uma amiga no jardim" (1872), de Claude Monet