Monday, February 27, 2017

São Boaventura e a imagem divina na alma

Nota prévia: anteriormente, eu fiz uma leitura precipitada e equivocada sobre alguns textos do Doutor Seráfico, identificando nas suas formulações traços de "ontologismo" (como se o santo dissesse que Deus é percebido diretamente pela inteligência ou querido diretamente em todo desejo). Sirva, pois, este pequeno texto como retratação. A teologia católica ganharia muito se houvesse quem harmonizasse o rigor e a precisão às vezes algo árida do Aquinate com as especulações mais saborosas do sábio franciscano. Seguem os trechos que outrora interpretei mal com novas apreciações.

* * *


"[A memória] Retém além disso, como sempiternos e de modo sempiterno, os princípios e os axiomas das ciências [...] reconhecendo-s como inatos [...]
Pela terceira [operação: o reconhecimento dos princípios "inatos"], verifica-se que ela mesma tem presente a si a luz imutável, na qual se lembra das verdades invariáveis" (S. BOAVENTURA, Itinerário da mente para Deus. Introdução, tradução e notas de António Soares Pinheiro, S.J. 3a ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia, 1986, cap. III, 2).
Como diz o tradutor e anotador: "para S. Boaventura, ideias inatas são as que o espírito forma em si mesmo e verifica em si mesmo, no acto de pensar, ao tomar consciência da sua própria realidade" (Ibid., cap. III, nota 3). 

Quando o santo fala da presença da "luz imutável" à memória isto não implica que esta faculdade tenha em e por si mesma esta Luz (que ela seja esta Luz ou viva imersa nela como se de Deus fora "parte"), senão que o reconhecimento dos princípios especulativos não pode se dar senão porque estes são participados por Deus (em termos tomasianos) ou porque Ele ilumina a memória (em termos agostinianos) para que ela veja em si (na alma e não em Deus) tais princípios. O Doutor Seráfico se mantém perfeitamente em consonância com o Doutor da Graça e sua doutrina ortodoxa da "iluminação", não havendo aqui uma formulação "ontologista".

"[...] se não se conhece o que é o ser-por-si, não se pode saber plenamente a definição de qualquer realidade particular [...]
[...] não chega a nossa inteligência a analisar exaurientemente a noção de qualquer dos seres criados, se não é ajudada pela noção do ser puríssimo, actualíssimo, completíssimo e absoluto. E esse é o ser como-tal e eterno, no qual estão na sua pureza as ideias de todos os outros. Realmente, como seria a inteligência capaz de saber que um ser qualquer é defectivo e incompleto, se não tivesse conhecimento nenhum do ser que é isento de toda a deficiência?" (Ibid., cap. III, 3).

Como diz o anotador, "Ser-por-si [...] é evidentemente o que tem em si próprio a razão da sua existência, natureza e absoluta perfeição; em última análise, Deus" (Ibid., cap. III, nota 9). 

Aqui há duas coisas: para conhecer perfeitamente um ente criado precisamos da noção de Ser Puro, que é Deus, e isto pela razão de que todo outro ente finito ou criado foi feito a partir de uma Ideia Eterna. Depois, a constatação da incompletude do ente criado se dá por contraste com "algum" conhecimento do Ser Perfeito. Não está falando o santo da intuição da Essência Divina, mas de duas coisas óbvias: entender perfeitamente um ente criado só é possível à Luz de Deus ou à Luz que é Deus; ver que um ser é imperfeito ou incompleto é ver indiretamente (bastando uma inferência da razão para constatá-lo) que há ou existe o Ser Perfeito. De modo algum há,  aqui, "ontologismo"; se houvesse, também Tomás incorreria no mesmo erro quando diz, na esteira de São João Damasceno, que "temos um conhecimento natural de Deus", a propósito do nosso desejo de felicidade. Que muitos hoje não sejam capazes de fazer a inferência que o Doutor Seráfico fez é um defeito dos contemporâneos e não um indício de que o sábio franciscano exagerasse.

"Nada por conseguinte busca o desejo humano, senão porque ou é o sumo bem, ou se ordena para ele, ou oferece qualquer representação dele. É tão grande a potência do sumo bem, que nada pode ser amado pela criatura, a não ser por desejo dele. Esta engana-se e desencaminha-se, quando em vez da verdade, aceita a [sua] figura e aparência" (Ibid., cap. III, 4).

São Boaventura apenas reitera a ideia clássica de que o homem busca somente o que tem razão de "bem" e, assim, participa diretamente do Bem, que é Deus, ou é meio que nos dirige a Ele, ou aparenta sê-lo ("oferece qualquer representação dele"). O engano e o pecado surgem quando o bem aparente é escolhido no lugar do Verdadeiro. De modo algum o santo está dizendo que todas as nossas escolhas se justificam ou participam efetivamente do verdadeiro e sumo Bem.



"São Boaventura ingressando na Ordem Franciscana" (1628), 
de Francisco de Herrera, o Velho

Saturday, February 18, 2017

Ratzinger sobre as religiões

Excertos do capítulo 1 ("Unidade e pluralidade das religiões: o lugar da fé cristã na História das Religiões") de: RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância: O Cristianismo e as grandes religiões do mundo. Trad. Sivar Hoeppner Ferreira. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio", 2007, pp. 21-38.


"Observação preliminar

[...] As religiões são sempre tradas como massas equivalentes, consideradas sempre sob o ponto de vista das possibilidades de salvação. A minha opinião, após os anos que dediquei à História das Religiões, era que tal qualificação teológica das religiões precisaria ser precedida de uma análise fenomenológica que dede logo não decidisse sobre o valor perene das religiões, acarretando-se, assim, uma questão sobre a qual só o Juiz universal pode decidir. A minha opinião era que, antes de tudo, dever-se-ia tentar considerar o panorama das religiões na sua estrutura histórica interna e espiritual. Não se deveria -assim me parecia- simplesmente discutir sobre 'religiões' como uma massa, mas em primeiro lugar tentar ver se aqui havia desenvolvimentos históricos contínuos e se era possível reconhecerem-se tipos básicos, sobre os quais poder-se-ia alcançar valorações mais rapidamente. Finalmente, dever-se-ia inquirir como esses tipos básicos relacionavam-se entre si e se eles nos colocam alternativas que possam tornar-se objeto de reflexões e conclusões filosóficas e teológicas [...].


Posição do problema

A fé cristã ocupava, na história das religiões, a posição que ela mesma se conferira [...]: ela vê em Cristo a única -e com isso definitiva- salvação do homem. Em consequência, com respeito às outras religiões, são possíveis duas posições (assim parece). Pode-se considerá-las como provisórias e, portanto, de caráter pré-cursor relativamente ao cristianismo [...]. Todavia, pode-se também concebê-las como insuficientes, contrárias a Cristo, dirigidas contra a verdade, como religiões que fingem dar a salvação ao homem sem jamais poder dá-la. [...] Com efeito, pode-se bem dizer que o relato da aliança com Noé (Gn 8,20--9,17) confirma a verdade oculta das religiões míticas. Em um regular 'morra e venha a ser' [Stirb und Werde] do cosmos, consuma-se o poder do Deus fiel, que se acha em aliança não somente com Abraão e os seus, mas com todos os homens. E não encontraram os Magos o caminho para Cristo por meio da estrela (Mt 2,1-12), isto é, por meio de sua superstição, sua religião? [...] Também não são se ajoelhou a sua religião diante de Cristo na pessoa deles [...]? [...] na concepção bíblica das religiões 'dos gentios' [há] uma dura crítica aos deuses da mentira, autofabricados, que, em sua implacabilidade, com frequência pouco se diferenciam do racionalismo trivial das ideias do Iluminismo [...] Ambas as atitudes, denominadas maneiras de proceder diante da religião dos povos nas Escrituras, permitem redescobrir o reconhecimento parcial (ou provisório) da ideia de pré-cursor ao mesmo tempo em que a decisiva negação.

[...] na própria compreensão das religiões do mundo, o cristianismo [] por um lado, sabe-se associado a elas na ideia da aliança, vive da convicção de que, assim como a história e seu mistério, também o cosmos e seu mito podem falar de Deus e levar a Deus;  mas conhece, da mesma maneira, um decisivo Não para as religiões, vendo nelas um recurso com o qual o homem se coloca a si mesmo contra Deus, em vez de entregar seus anseios a Deus. O cristianismo, na sua teologia da história das religiões, não toma simplesmente partido pelos religiosos, pelos conservadores qeu se limitam às regras do jogo da sua instituição herdada. O não cristão aos deuses significa antes uma opção pelo rebelde que ousa querer romper com a rotina que cerca a consciência. [...]

[...] [Para o] homem moderno [...] o reconhecimento do caráter provisório das outras religiões é simplesmente avaliado como presunção. O não do cristianismo a essas religiões, em contrapartida, parece-lhes a expressão de discussões partidárias de diferentes religiões que querem afirmar-se à custa uma das outras e, numa inconcebível cegueira, não podem ver que todas são na realidade uma e a mesma. A opinião predominante nos homens de hoje é que todas as religiões, num leque multicolorido de formas e feições, em última análise são e dizem a mesma coisa; fato sabido por todos, menos por elas mesmas. [...]

[...] A concepção de religião do 'homem de hoje' (permitam-se o emprego dessa ficção) é estática; em geral, ele não concebe a passagem de uma religião para outra, mas espera permanecer na sua e também que esta viva na consciência de ser, no seu íntimo espiritual, idêntica a todas as outras. [...] esse conceito revela a ideia de uma missão altamente reservada ou radicalmente rejeitada. Em tudo que foi dito ressoa uma segunda ideia: a noção de religião do homem de hoje é impregnada de simbolismo e espiritualismo. A religião assemelha-se a um cosmos de símbolos, o qual, numa última unidade da linguagem dos símbolos da humanidade (como a psicologia e a ciência das religiões conjuntamente hoje evidenciam), difere de muitas maneiras nos pormenores; mesmo assim, todos significam o mesmo, precisando somente descobrir sua profunda unidade subterrânea. [...] Ninguém da nossa geração foi capaz de apresentar mais calorosamente esse quadro de uma religião do futuro, que por sua vez pode criar um 'futuro das religiões', do que o presidente da Índia, Radhakrishnan, cujos trabalhos sempre desembocam na perspectiva de uma vindoura Religião do Espírito, que reuniria numa unidade fundamental a multidiversidade das religiões. [...]


O lugar do cristianismo na história das religiões

A primeira impressão que se apresenta ao homem que começa a perscrutar as coisas da religião, além dos limites da própria, é um pluralismo ilimitado, uma realidade impressionante que, de antemão, faz a indagação pela verdade parecer ilusória. [...] essa impressão não dura muito, mas se desvanece logo diante de outra: uma identidade oculta do espaço religioso. [...] A moderna filosofia da religião está convencida de que pode até fornecer o fundamento dessa identidade oculta. Segundo a sua concepção, toda religião existente, desde que 'verdadeira', toma seu ponto de partida em uma forma de experiência interior do divino, em união íntima com o que os místicos de todos os tempos e lugares sempre experimentam e experimentarão. Toda religião, em última análise, basear-se-ia na experiência dos místicos, alcançada em contado direto com o divino e daí em parte transmitida aos muitos que não são capazes dessas experiências. A religião, portanto, existiria na humanidade de duas formas (e somente de duas): a forma direta da mística, como religião de 'primeira mão', e, a seguir, a forma indireta do conhecimento apenas 'emprestado' pelo místico, ou seja, a forma da fé e, portanto, da religião 'de segunda mão'. [...]

[...] De agora em diante, podemos formular a pergunta bem concreta do direito à interpretação das religiões pela mística. [...] é certo que a mística não abrange o todo, e, que, ao fazê-lo, conduz a uma falsa simplificação. [...] a via mística, entre muitas, cristaliza-se como uma bem determinada entre muitas, surgindo em um local bem determinado da História das Religiões e pressupondo uma longa séria de desenvolvimentos que dela são independentes.

[...] Assim, quando o grande passo da História das Religiões se constitui pela transição das experiências confiantes dos primitivos aos grandes mitos, o segundo e decisivo passo, determinante da religião do presente, dá-se por meio da ruptura com o mito. Historicamente esse passo se deu de tês formas:

  1. Na forma de mística, na qual o mito, como mera forma simbólica, perde por assim dizer seu caráter ilusório, e então é estabelecida a absolutez da vivência mística inefável. Efetivamente, a mística revela-se conservadora de mitos, atribuindo-lhes um novo fundamento, pois ela agora os interpreta como símbolos do verdadeiro.
  2. A segunda forma é a revolução monoteísta, cuja expressão clássica se encontra em Israel. nela se rejeita o mito como qualidade humana, afirmando-se a absolutez do chamado divino exemplificado pelos profetas.
  3. Além disso, como terceira forma, surge o Iluminismo, cuja primeira grande realização se deu na Grécia: nela dominou o mito como forma de conhecimento pré-científica, estabelecendo-se a absolutez do conhecimento racional. A religião tornou-se sem significado; no melhor dos casos, mantendo uma função formal, com vistas a um cerimonial político (= orientado para a Polis).
O terceiro caminho assumiu a sua força total na Idade Moderna, e, ainda mais explicitamente, nos tempos atuais [...] Sua peculiaridade é que não representa um caminho no interior da História das Religiões, antes quer o seu término, tratando das religiões como se fossem coisas ultrapassadas. Contudo (ou por isso mesmo), ele não se acha sem nenhuma relação com a História das Religiões; ao contrário, seria necessário dizer que, para o futuro da religião e de suas chances na humanidade, será de importância decisiva a forma como ela possibilitou suas relações com esse 'terceiro caminho'. É sabido que foi nos tempos da velha Igreja (o segundo caminho na nossa exposição) que, de certa maneira, estabeleceram-se firmes laços com as forças do Iluminismo. [...]

Resumamos o que se disse até agora: comprovamos que não existe uma identidade geral das religiões, como tão pouco uma pluralidade desprovida de referência [...]

[...] Resultou que o estabelecimento de um caráter absoluto não é somente uma particularidade do caminho 'monoteísta', como se admite comumente, porém serve a todos os três caminhos nos quais o homem abandonou o mito. Como o 'monoteísmo' afirma o caráter absoluto da invocação divina a ele pertencente, assim a mística parte do caráter absoluto da spiritual experience como a única verdadeira em todas as religiões, diante da qual tudo o que se pode dizer e formular se apresenta na forma de símbolos permutáveis e secundários. Nesse ponto muitas vezes se equivocam os homens de hoje, extasiados pela teologia da identidade entre a mística espiritual e o cristianismo. O homem de hoje (por simplicidade nos atemos a essa designação genérica) sente-se repelido pela afirmação do caráter absoluto do cristianismo, que lhe parece pouco crível em vista dos múltiplos e bem conhecidos relativismos históricos; ele se sente mais atraído e compreendido pelo simbolismo e pelo espiritualismo de um Radhakrishnan, que professa o relativismo de todas as afirmações religiosas [...] e, ainda, que as experiências religiosas nunca são adequadamente expressas (se bem que nelas se penetre por graus) e que em toda parte são uma e a mesma. [...] Na realidade, ele [Radhakrishnan] parte, como também o cristão, de uma doutrina de caráter absoluto [...] ensina o caráter absoluto da vivência espiritual sem imagens e a relatividade de todo o resto; o cristão nega a validade única da experiência mística e ensina o caráter absoluto do chamamento divino, tornado audível em Cristo. Impor-lhe o caráter absoluto da mística como única dimensão obrigatória não é, para ele, uma pretensão menor do que sustentar diante dos não cristãos o caráter absoluto de Cristo.

[...] A terceira forma [...], que denominamos 'Iluminismo', possui seu próprio caráter absoluto: o caráter absoluto do conhecimento racional ('científico'). Onde a ciência se torna visão de mundo (e exatamente este caso deve ser designado com a palavra 'Iluminismo'), esse caráter absoluto se torna exclusivo, tese da validade única do conhecimento científico e, por isso, contestação do caráter absoluto da religião [...] Afirmar que o homem seja capaz de conhecimento somente dentro dessas fronteiras é um preconceito infundado que, além disso, pode ser qualificado como mentira. Ademais, está assente que esse terceiro caminho apenas mediatamente se intromete na decisão religiosa. A problemática interna religiosa situa-se propriamente entre o primeiro e o segundo caminho ('mística e revolução monoteísta'). [...]


A mística e a fé

Pelo que foi dito acima, torna-se claro que, entre os dois caminhos que denominamos 'mística' e a 'revolução monoteísta', não se pode decidir a favor de um ou de outro de modo racional. Seria pressupor o caráter absoluto do caminho racional que há pouco questionamos. Essa decisão é antes um assunto da fé, quando a fé obedece a padrões racionais. [nota: este caminho da argumentação é questionável; classicamente, os "preâmbulos da fé" foram importantes no sentido de estabelecer que a religião verdadeira deve ser monoteísta; mas é verdade que isto só pode ser bem visto por quem já tem a inteligência iluminada pela fé].

[...] Por 'mística' entender-se-á aqui, radicalmente, um caminho histórico-religioso, como uma posição que não admite nenhuma grandeza a ela sobreposta, mas considera a experiência misteriosa e amorfa do místico como única realidade vinculante, última no âmbito religioso. Essa posição é igualmente característica tanto para o budismo como também para os grandes pensadores religiosos do grupo de religiões hinduístas, mesmo quando assumem posições tão opostas como Shankara, de um lado, e Ramanuja, de outro. Ela é o caminho que, em múltiplas modificações, forma o pano de fundo unitário das religiões asiáticas superiores. Característico para tal mística é a experiência de identidade. O místico submerge no oceano do Todo-Uno, quer seja este descrito numa enfatizada theologia negativa como 'Nada', quer positivamente como 'Tudo'. Nos últimos graus dessa vivência, o místico não mais dirá para o seu Deus 'eu sou Teu'; antes, sua fórmula soará eu sou Tu'. [...] 'O monismo absoluto é a perfeição do dualismo onde a consciência piedosa inicia', disse Radhakrishnan. [...] Todas as diversas religiões, até mesmo por serem elas diversas, devem ser remetidas ao mundo do provisório, onde o brilho da separação encobre ainda o segredo da identidade. A igualdade de todas as religiões, tão simpática aos ocidentais de hoje, revela aqui o seu pressuposto dogmático que se encontra na afirmada identidade entre Deus e o mundo, entre o fundo da alma e a divindade. Da mesma maneira, torna-se visível por quê, para a religiosidade asiática, a pessoa, em última instância, não é nada, e, portanto, por que Deus mesmo não é concebido como pessoal. Pois a pessoa, diante do Eu e do Tu, pertence ao mundo da separação; também a fronteira entre o Eu e o Tu é derrubada, revelando-se provisória na experiência mística do Todo-Uno [grifos e negritos meus].

Em contrapartida, o tipo em que a revolução monoteísta se concretiza não é o místico, mas o profeta. Para este, o decisivo não é a identidade, mas estar diante do Deus que chama e ordena. Assim, finalmente, pode-se esclarecer por que até agora se falou continuamente de 'revolução' monoteísta, quando se pretendida indicar o contraste com o caminho histórico-religioso da mística. Nem toda forma do que se denomina monoteísmo pode ser contraposta à mística [...] O monoteísmo na Índia difere do Israel de duas maneiras. Em primeiro lugar, o indiano está ordenado para a mística, isto é, está aberto para o monismo e, assim, aparece apenas como uma mera etapa preliminar para o que é definitivo, a saber, a experiência de identidade. Em segundo, ele não surge como em Israel, por revolução, mas por evolução, e isso tem como consequência nunca ter levado à derrubada dos deuses, mas antes a diversas formas de equilíbrio pacífico entre Deus e os deuses, entre a fé em um Deus e a fé em muitos deuses. Por sua vez, o monoteísmo de Israel (e o de Zaratustra) surgiu pelo caminho de uma revolução, a revolução de alguns poucos homens que, preenchidos por uma nova consciência religiosa, destruíram o mito e derrubaram os deuses  dos quais o mito falava. Única e exclusivamente essa ruptura com o mito, totalmente independente, representa o monoteísmo, em sentido estrito, como um caminho histórico-religioso próprio. Produziu-se em Israel e, a partir da raiz em Israel, deu-se também no cristianismo e no Islã, e em escala bem menor na figura de Zaratustra.

[...] Na mística, vale o primado da interioridade, absolutizando-se, assim, a experiência espiritual. Isso explica que Deus seja totalmente passivo em relação aos homens e que o conteúdo da religião só pode ser a submersão do homem em Deus. Não há nenhum ato de Deus, mas somente a 'mística' do homem, o caminho gradativo para a união. O caminho monoteísta parte de uma consideração oposta: aqui, o homem é passivo, o que atua nele é Deus; aqui, o homem nada pode por si mesmo, mas,em contrapartida, há uma ação de Deus, um chamado de Deus, a salvação abrindo-se para o homem na obediência a esse chamado. Por isso, em vez da confrontação 'mística' vs. 'revolução monoteísta', poder-se-ia escolher também a confrontação 'mística' vs. 'revelação', e isso puramente no campo fenomenológico-religioso, sem colocar em jogo a fé do monoteísta. Para um desses caminhos, é característico que a mística aconteça como experiência espiritual do homem, e que esse acontecimento seja considerado como o último e, na verdade, como o único, e, em consequência, o absoluto na história das religiões. Desse ponto de partida, não pode haver absolutamente nenhuma 'revelação' de Deus, a qual, em tal contexto, seria ilógica. Ao contrário, para o outro caminho, o característico é que haja 'revelação', que haja um chamado de Deus, e que esse chamado seja o absoluto na humanidade, que dela venha a salvação para o homem.

Com o que se disse, fica também esvaziada a objeção de que, no fundo, o monoteísmo não seja mais do que uma mística paralisada ou que um iluminismo paralisado, nos quais se esqueceu de incluir uma figura na derrocada dos mitos, a saber, a figura do Deus único. Na realidade, 'Deus' (também na fenomenologia da religião) é algo diferente dos 'deuses', existindo, como indicado, desde o princípio uma estrutura totalmente diferente daquela da 'mística': a experiência da atividade e do caráter pessoal de Deus baseia-se numa relação totalmente diferente da que se observa na ideia da identidade do místico e na redução, associada com esta, da pessoa ao impessoal. O 'monoteísta' considera a redução exatamente oposta como certa: a redução de todo o impessoal à pessoa. Como se disse, aqui não vai se discutir sobre o que possa haver de correto em ambas as posições. Só nos interessava examinar autonomia e diferenciação. Sem dúvida, novas análises da experiência mística creem mesmo poder salientar o contrário da objeção precedente (o monoteísmo seria uma mística paralisada): a experiência de identidade seria apenas a primeira etapa no caminho místico que, sem dúvida, poucos ultrapassariam, e, desse modo, esta experiência se converteria na verdadeira tentação da mística. Somente depois é que viria o estágio, muito mais doloroso, do desprendimento de si mesmo e a transição para a autêntica transcendência. Este estágio exigiria do homem a crucificação do abandono de si mesmo e a entrega ao arbítrio do que não tem lugar, onde já nada de terreno se sustenta, mas que agora é o que coloca o homem ante a verdadeira face de Deus, de maneira que, quando lhe é concedido penetrar nessa mística da escuridão e da fé, então considera a mística precedente da luz e da visão um pequeno prelúdio do que ele, sem vislumbrar a profundidade de Deus, havia tentado considerar anteriormente como último e total".





Tuesday, February 14, 2017

Sobre a Modernidade

O ideal moderno, na voz do personagem Lodovico Settembrini, de "A montanha mágica" (Thomas Mann) e meu contraponto:




"A técnica -expôs Settembrini- subjugava cada vez mais a natureza, pelas comunicações que criava, pelas redes de estradas e telégrafos que construía, e pelas vitórias que conquistava sobre as diferenças de clima; dessa forma apresentava-se como o meio mais seguro para aproximar os povos, para favorecer o contato entre eles, para levá-los a acordos humanos, para destruir os preconceitos existentes, e finalmente, para estabelecer a união universal".

"Segundo as digressões de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, o princípio de estagnação e o do movimento efervescente, do progresso. Podia-se chamar a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da atividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso inerte. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da luz, a do aperfeiçoamento guiado pela razão. Pois a humanidade arrastava mais e mais povos pelo seu caminho brilhante [...] até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões também naqueles países que na verdade nunca tinham gozado o seu século XVIII nem seu ano de 1789".

Imagem: "Liberdade guiando o povo" (1830), de Eugène Delacroix



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A Modernidade é interpretada como a vitória da "luz da razão, da liberdade e da democracia" contra "as trevas medievais da ignorância, da opressão e da tirania".

Na realidade, a Modernidade liberal e iluminista é uma revolta contra a Modernidade renascentista: a superstição, as guerras religiosas e o absolutismo monárquico não são características medievais, mas adjetivos do Renascimento da cultura pagã, em que a religião cristã (quer o catolicismo enfraquecido por sua adesão ao espírito inquisitorial do "mundo" que ressurge já no século XIII na figura do imperador Frederico II, por suas crises internas e pela imoralidade crescente dos clérigos, quer o protestantismo nascente) se converte em ideologia a serviço do poder político de governantes que já não agem com a nobreza do cavaleiro medieval, mas com a "virtú" do príncipe maquiaveliano.

O iluminismo, na realidade, resgata valores nominalmente cristãos -a fraternidade, a liberdade e a igualdade- mas sem reconhecê-lo (é todo o drama que se reflete, por exemplo, na ausência de menção ao Cristianismo na Constituição Europeia...) e, ademais, projetando-os contra o Cristianismo!

E o mais grave: já sem o Espírito cristão, o que torna impossível que esses valores se consolidem. Não é por acaso que o mundo moderno é uma sucessão de revoluções, guerras e episódios trágicos muito mais absurdos que as infidelidades dos cristãos medievais e renascentistas ao amor cristão. Tudo em nome do "humanismo"...

O Iluminismo mesmo carrega o germe de sua destruição. Análises sociológicas e políticas que tentam resgatar o espírito ilustrado têm certa pertinência, mas sempre pecam por ignorância filosófica de um processo que, no mundo das ideias, remonta ao nominalismo ochamista e marca toda a filosofia moderna com um idealismo voluntarista em que a "verdade" é algo "feito" por uma "razão" que já não é "inteligência" e assim não apreende a realidade, mas a "constrói" a modo das funções matemáticas (racionalismo) ou da imaginação poética (empirismo).

Que, depois, essas "razão, liberdade e democracia" se tornem um nilhilismo aberrante e seja enfrentada por um "progressismo" odioso (que acentua o nihilismo para destruir esse estado de coisas através de uma esperança injustificada na violência revolucionária), ou um "conservadorismo" oportunista, revestido de um invólucro "cristão" (mas que, muitas vezes, só quer conservar privilégios e não comunicar os autênticos bens e direitos), é uma consequência lógica.

A "liberdade" moderna é mera harmonização de livres-arbítrios, e não verdadeiro senhorio (que nasce do conhecimento e adesão à Verdade) sobre as paixões e as veleidades que obstaculizam o bem comum; isso converterá a "democracia" em mero mecanismo de atualização destas veleidades, o que será combatido por um estranho desejo de autoritarismo; e sua "razão" se tornará um instrumento de manipulação do real, o que conduzirá ao absurdo ódio da razão em si mesma.

Se a propalada "civilização ocidental/judaico-cristã" reencontrasse suas raízes bíblicas e o Espírito que poderia enformar e sublimar seus valores, penso que ela reencontraria sua verdadeira grandeza. Se se mantiver fechada á Luz do Alto, ou se o máximo que ela almejar for a reação de um conservadorismo pragmático apenas aparentemente cristão (e Deus odeia a hipocrisia), será engolida por uma civilização cujos valores não podemos compartilhar, mas que crê neles e que eles vêm de Deus.

É à liberdade que a Verdade lança seu apelo. Ela não pode ser imposta. Mas sua rejeição não fica impune, e a apostasia traz consigo o próprio castigo.

"Convertei-vos" é o chamado permanente. Hoje, mais do que nunca, ele deveria ressoar nos corações.


Foto: Bomba atômica em Nagasaki (1945)