Saturday, April 29, 2017

Julián Marías sobre o "problema de Deus" no Padre Gratry

Tradução de excerto de MARÍAS, Julián. A filosofia do Padre Gratry. In: MARÍAS. Obras IV. Madrid: Revista de Occidente, 1969, pp. 311-317.

O Pe. Gratry é um profundo e pouco conhecido filósofo do século XIX (mesmo no interior da Igreja; talvez em virtude da sua oposição à proclamação do dogma da Infalibilidade Pontifícia, pelo qual se desculpou posteriormente), e que foi divulgado por Julián Marías.

* * *


"O PROBLEMA DE DEUS


1. A RELAÇÃO RADICAL DO HOMEM COM DEUS

Os supostos da demonstração de Deus.-[...] Se é possível uma prova da existência de Deus, diz [Gratry], esta terá que estar ao alcance de todos os homens, porque a luz divina ilumina a todo homem que vem a este mundo. Que quer dizer isto?

Naturalmente, não que todos os homens chegue à demonstração de Deus, senão que em todos eles se encontram seus supostos. Se há um conhecimento de Deus, esta possibilidade responde a uma dimensão essencial do homem, do mesmo modo que o conhecimento das coisas se funda em que no homem há algo que lhe faz estar com elas, ter contato com sua realidade. O conhecimento de Deus, como, em geral, todo conhecimento, é algo derivado de outra dimensão ontológica primária, na que funda sua possibilidade. É mister, pois, buscar no homem aquilo que faz possível o conhecimento e a demonstração de Deus e seus atributos. Portanto, este problema, que é o da teodiceia, não se reduz a Deus, senão que envolve o homem. Buscar os supostos da teodiceia é investigar a estrutura ontológica do ente humano; e como este aparece como dotado de um corpo -e não, adverte Gratry, de um modo acidental, senão essencialmente-, e existente em um mundo visível e corporal, a ontologia do homem nos retrotrai, por sua vez, inexoravelmente à do mundo em que se encontra. No problema da teodiceia, tomado em sua radicalidade, ou seja, desde seus supostos reais, cifra-se toda a metafísica. O conhecimento de Deus supõe, em suma, uma prévia relação do homem com Ele, não intelectual, mas anterior à inteligência e constitutiva do ente humano.

A oração.- A operação vulgar e cotidiana do espírito humano em que este se refere explicitamente a Deus é a oração. A oração é um ato integral do homem: não só, nem primariamente, intelectual, mas ao mesmo tempo da vontade, do amor, do fundo mesmo da pessoa; e, por outra parte, inclusive do corpo, como assinalou sempre a Igreja católica, ainda que Gratry não aluda a isto. Mas a oração não é tampouco o primário; é já uma referência explícita a Deus, e tem, por sua vez, supostos mais fundos: só é possível desde uma situação prévia. Gratry entende por oração, em sentido filosófico, o que diz Descartes quando afirma: 'Je sens que je sui un être borné, qui tends et qui aspire sans cesse à quelque chose de meilleur et de plus grand que je ne suis'. Isto é, movimento da alma que se eleva do finito ao infinito, e que arranca de um duplo sentido. É mister, pois, que o homem se sinta imperfeito e necessitado, em um ato de humildade. [...] Mas não basta com o mero sentir a miséria e a limitação próprias; é preciso a aspiração a aspiração a algo melhor, como diz Descartes. A raiz da oração, para Santo Agostinho, é a caridade: Caritas ipsa gemit, ipsa orat. [...] É  necessário, portanto, para que haja oração sensu stricto, um sentido de finitude e perfeição e um desejo do infinito e perfeito. Sem este duplo elemento não é possível a elevação da alma humana a Deus no ato cotidiano da oração, nem, portanto, nenhum conhecimento nem demonstração da Divindade. Já dizia Santo Agostinho: Non intratur in veritatem nisi per caritatem; ainda aqui aparece, junto ao mero desejar e tender ao melhor, uma referência à ordem sobrenatural.

A radicação do homem em Deus.- Isto é possível porque no homem se encontra um senso divino [grifo meu]. É o que define a relação primária do homem com Deus, relação que chamei radical num sentido rigoroso, porque, com efeito, consiste, como vimos, em que o ente humano tem seu fundamento e sua raiz em Deus. A alma encontra em seu mesmo fundo um contato divino, e ali reside sua força, o que a faz ser. Gratry tinha de mostrar que sempre que o homem se conheceu em seu fundo encontrou esta presença íntima de Deus [Nota minha: trata-se, acrescento eu, da presença de Deus "na última morada" (Teresa), como nossa Causa conservadora (Tomás), Fundamento religante (Zubiri), como o "mais íntimo que nós" (Agostinho), e não ainda da presença da graça, que é, como ensina Tomás, esta mesma presença descoberta e amada]. Isto é o que define, como vimos em detalhe, o ser do ente humano. Gratry resume apertadamente esta doutrina em umas linhas de La connaissance de Dieu, que importa transcrever: 'Tous les philosephes ont parlé de ce sanctuaire de l'âme, oú est Dieu, et où il la fait vivre en la tenant. Qui ne sait pas cela est en deçà de toute philosophie. Le monde nous touche par la surface. Dieu par le centre, et nous, nous sommes entre les dex, et trois mondes vivent en nous: Dieu, la nature et nous' (sublinhados de J. Marías.) [Nota ou interpretação minha: este "santuário da alma" é precisamente a "consciência moral" -e não a psicológica- como fala a Gaudium et Spes, ou a "sindéresis" clássica, e talvez se possa dizer que o senso divino é a capacidade de atender à sua voz e perceber que ela, como indica Viktor Frankl em A presença ignorada de Deus, remente à Transcendência Divina].

Deus é a raiz do homem, e este pende dele; assim aparece Deus como causa do ser, e de um modo mais preciso, como causa da vida; mas não se creia que se trata simplesmente da criação, no sentido em que Deus seria causa do ente vivo, senão de que Deus faz viver o homem, de que Deus é o princípio desde onde o homem recebe o impulso e a força para viver. Não é só que Deus tenha feito o homem -já vimos que o homem nunca está, segundo Gratry, feito em sentido rigoroso-, senão que o faz -no presente, portanto, atualmente- viver. Mas viver não é meramente ser, mas algo ativo, que faz o homem mesmo, em virtude da força que recebe do contato de Deus. Porque o modo concreto como Deus faz viver o homem é sustentando-o. Deus é, portanto, o ponto de apoio, o fundamento da vida humana. O homem é e vive desde seu centro ou raiz, que é o senso divino, apoiando-se em Deus. E esta fundamental radicação é a situação efetiva do homem, em relação com Deus, e o suposto necessário de todo ulterior conhecimento, quanto mais demonstração, da Divindade; do mesmo modo que o contato do mundo em nossa superfície, mediante o sentido externo, faz possível o saber acerca das coisas, e o sentido íntimo nos permite conhecer nossa própria pessoa e a de nosso próximo. Nesta estrutura ontológica do ente humano se funda toda possível teodiceia.


2. O ATEÍSMO

A existência do ateu.- Há um fato fundamental com o que é preciso contar: nem todos os homens possuem a crença em Deus; há os que negam a existência da Divindade, e estes são os ateus. Como é isto possível? Se a raiz mesma do homem está apoiada em Deus, se o homem é e vive por ele, como pode haver homens que neguem este fato capital e digam em seu coração: "não há Deus"? Gratry diz que a razão do ateísmo é que o homem é livre e que há homens maus. Vejamos isto.

Em primeiro lugar, que é propriamente ser ateu? Antes de tudo, carecer de senso divino, ou melhor dito, estar privado dele, porque o senso divino não é algo de que possa simplesmente carecer-se, senão que se tem ou falta, posto que é o fundo mesmo da pessoa, a raiz da alma. Agora, o que está privado do senso fundamental é um in-sensato, é um homem que não está em possessão de sua mente, senão que está doente de demência; não está em si mesmo, senão alienado. A entrada em si mesmo nos põe no fundo da alma; em contrapartida, a alienação nos afasta dele; com palavras de Santo Agostinho, intima projicere, id est longe a se facere Deum.

Ao homem privado do senso divino, diz Gratry, falta-lhe o ponto de apoio real para o conhecimento e a prova de Deus. Nem sequer pode compreender esta se lhe é exposta. Sua inteligência não pode chegar a conhecer a Deus, ainda que ela funcione normalmente, porque lhe falta o recurso que a põe em movimento para se elevar ao ente divino. O que carece do senso divino não conhece a significação do nome Deus e não compreende que é o que necessariamente é; por isto, como vimos anteriormente, o argumento de Santo Anselmo, fundado no insensato, consiste principalmente em apoiar-se no dizer sem sentido do ateu e mostrar que não se pode negar a existência de Deus se se tem a verdadeira ideia deste; em outros termos, se se está falando, com efeito, dele.

A alma desarraigada.- Mas como se chega a esta situação de insensatez? Como pode o homem negar a Deus? Para elevar-se à Divindade, a via, como vimos muitas vezes, são as coisas finitas e criadas: as perfeições de Deus se veem per ea quae facta sunt, segundo a palavra de São Paulo (Rm 1,20). Agora, o ente finito nos mostra, ao mesmo tempo, a realidade e a limitação; o ser, a vida, a bondade e também a finitude. A alma se eleva a Deus afirmando até o infinito e o ser e negando os limites; este é o procedimento dialético que nos é familiar. Mas os homens, diz Gratry, separam-se ao chegar a este ponto, e enquanto uns vão a Deus, outros se afastam dele. Uns, pelo contato de Deus com o fundo da alma, afirmam, com efeito, o infinito; os outros, tendo em vista a desordem e o mal, e sobretudo a morte, abandonam o ideal a que se tende por contraste e elegem a negação. Estas são, diz Gratry, as duas raças morais e intelectuais que se repartem no mundo. 'Il y a des esprits et des coeurs qui affirment; il y en a qui nient. Là est toute la question: Dieu ou non, oui ou non'.

Mas a causa desta eleição no fundo da pessoa é de índole moral. A raiz do ateísmo é, segundo São Paulo, a iniquidade, pela qual se tem cativa a verdade. E, como já sabia Platão e diz São João, as causas do afastamento de Deus são a sensualidade e a soberba, a dupla concupiscência da carne e dos olhos. Pela sensualidade, o homem põe o centro nas coisas externas e se afasta de Deus; é uma aversio Dei, uma inversão da verdade; mas, sobretudo, a soberba faz que se ponha o fundamento no homem mesmo, e então se extingue o senso divino e se obscurece o coração, ao mesmo tempo em que a mente se faz vã, segundo as esplêndidas expressões de São Paulo (Rm 1,20): Evanuerunt in cogitationibus suis, et obscuratum est insipiens cor eorum. Dicentes enim se esse sapientes, stulti facti sunt.

Estas almas, endeusadas -aqui está, diz Gratry, a raiz do panteísmo, em que o homem se faz Deus-, estão separadas duplamente, da fé universal e da razão comum. Apagaram o senso divino e, como este é a raiz, se convertem em almas mortas e desarraigadas, como diz Gratry, citando a São Judas: Eradicatae, bis mortuae (Jd 12). E a epístola de São Judas acrescenta outras expressões, que Gratry não recolhe, mas que deixam ainda mais claro o sentido do ateismo: Nubes sine aqua, quae a ventis circumferentur, sidera errantia... E diz por último: Et os illorum loquitur superbiam. O ateísmo, portanto, é uma essencial possibilidade humana, e um risco que ameaça sempre o homem. A alma, por ter uma raiz em Deus, pode desarraigar-se, e então se faz vã e vazia, converte-se em um astro errante, em uma nuvem arrastada pelo vento, sem substância alguma. Por isso diz Gratry que o espírito humano só escapa à vaidade apoiando-se em Deus.

Os dois modos de ateísmo.- Mas cabem duas formas muito distintas de ser ateu. Gratry usa para explicá-lo uma comparação feliz: a dos dois modos da fé, a fé viva e a fé morta. Há, igualmente, diz, um ateísmo vivo e um ateísmo morto; um ateísmo como doutrina, como convicção intelectual, e um ateísmo como princípio real da vida. Naturalmente, este é o mais grave, como a fé viva é a que verdadeiramente importa.

O ateísmo como doutrina resulta de uma enfermidade moral ou intelectual, diz Gratry; ou também, acrescenta agudamente, o ateu é às vezes um espírito perdido por 'um fragmento de ciência subitamente endurecida e que se converte em obstáculo para toda nova luz'. E agrega Gratry estas palavras, de dramática profundidade, que distinguem o ateísmo superficial do intelecto, esse ateísmo que não passa de ser stultitia, ainda que esta seja peccatum, commo diz Santo Tomás (S.Th. II-II, q.46, a.2), do outro ateísmo profundo e radical, o que reside no coração do insensato, não só em sua palavra ou suas ideias: 'Mais ce n'este pas encore l'athée dans l'âme. Celui-ci dit dans son coeur: 'Il n'y a point de Dieu.' Tout homme qui maintient la morale, lors même qu'il se déclare athée, n'est pas athée dans l'âme. Il est inconséquent, il est absurde, c'est éviden; mais ce n'est pas un monstre. L'athée dans l'âme est celui qui nie, no pas de bouche seulement, mais de coeur et de fait, la distinction du juste et de l'injuste, et qui en vient au plein mépris de l'homme, vivange image de Dieu. Celui-là est un monstre; il en existe, mais Dieu seul les connaît' (La morale et la loi de l'histoire, I, cap. XV) [Nota minha: o ateísmo doutrinal nem sempre sendo acompanhado da impiedade, poderia ser simplesmente uma atitude não arraigada no espírito, é o que pensa Gratry].


Pe. Auguste Joseph Alphonse Gratry

Monday, April 17, 2017

Moisés Maimônides sobre o conhecimento metafísico

Excerto de MAIMÔNIDES, Guia dos Perplexos (Coletânea). Trad. Paulo Rogério Rosenbaum. São Paulo: Sêfer, 2003, pp. 95-99.


Capítulo 34: Das águas do conhecimento 

"Cinco são as razões pelas quais não devemos começar nossos estudos judaicos com investigações metafísicas, nem concentrar nossa atenção nestes assuntos, nem tampouco divulgá-las entre as massas despreparadas.

Em primeiro lugar, está a complexidade do tema, sua sutileza e profundidade, como indicam as Escrituras: 'Quem saberá alcançar o que está muito distante ou é muito profundo?' (Eclesiastes 7,24) e 'De onde vem o saber?" (Jó 28,20). É incorreto iniciar um processo de instrução tentando aprender o mais difícil, profundo e difícil de entender. Um dos melhores exemplos disto em nossa religião são as comparações que nossos sábios fazem entre o conhecimento e as águas. Entre elas, todas fabulosas, há uma qu diz que se você quiser mergulhar até o fundo do mar para colher suas pérolas, primeiro aprenda a nadar na superfície; só arrisque-se a ir ao fundo quando estiver suficientemente treinado.

Em segundo lugar, a mente do iniciante nos estudos intelectuais é insuficiente por natureza. O homem não foi dotado da capacidade imediata de entendimento, mas pode e deve procurar aperfeiçoar este potencial gradualmente: 'O homem nasce como um selvagem inexperiente' (Jó 11,12). Apesar de ter sido privilegiado com o dom da inteligência, ela necessariamente não se manifestará em sua totalidade logo de início. O desenvolvimento mental pode ser interrompido por causas (Jó 32,9). Nossos sábios dizem: 'Vejo que os homens virtuosos minguam' (Tratado Sucá 45b). Na verdade, diversas causas impedem os homens de atingir o máximo de seu aperfeiçoamento intelectual e muitos são os fatores que os distraem durante o processo. Quando ele terá tempo e possibilidades suficientes para desenvolver e aprimorar esta capacidade?

Como terceira razão entendemos que o estudo da metafísica deve ser precedido de um longo período de estudos preparatórios. O homem por natureza anseia entender a conclusão final das coisas, não tem paciência para estudos básicos, e por isto os evita. Se não fosse necessários os estudos preparatórios para podermos compreender as matérias mais complexas, eles seriam inúteis por princípio. Se você quisesse incitar o mais inerte dos homens, como se o tivesse despertado de sua soneca habitual e lhe perguntasse: Você gostaria de saber em quantos firmamentos distintos se divide o céu, qual é sua forma e conteúdo, quantos anjos vivem em cada um, como o mundo foi criado e qual a inter-relação entre todas as suas partes, o que é a alma, como ela entra no corpo, como e se ela deixa o corpo algum dia e, neste caso, para onde vai etc? A resposta deste homem seria: Certamente que sim! Ele passaria então a escutar com atenção uma rápida e conclusiva exposição que, de acordo com suas expectativas, deveria se resumir em uma ou duas palavras. Mas se você sugerisse que ele se afastasse de seus negócios por uma semana para poder entender a fundo as explicações, ele declinaria, contentando-se com as ideias que tem, e provavelmente ficaria chocado se você lhe explicasse que são necessários inúmeros estudos introdutórios, além de uma ampla investigação para abordar os assuntos mencionados. Você compreende que são temas interligados, pois nada existe senão o Altíssimo e Sua obra, que Sua obra constitui-se de tudo o que está separado Dele, e que não há meio de compreender Sua essência a não ser estudando Sua obra. São os atos Divinos que indicam Sua existência e a natureza das crenas que devemos nutrir em tudo o que concerne a Deus, que afirma ou nega Sua existência.

Portanto, devemos examinar a natureza de tudo o que existe a fim de podermos apreender os dados essenciais que nos ajudarão em nossas especulações metafísicas. Quantos dados não foram derivados de cálculos numéricos e geométricos com a finalidade de negar a Deus mas, no final, acabaram apenas por engendrar novos cálculos e demandar novas explicações? Creio que você sabe da importância dos cálculos astronômicos e das ciências naturais como forma de reconhecer que o universo existe apenas porque Deus o governa - isto é, se você se interessa pela Verdade e não por fantasias. Existem outras teorias científicas das quais não podemos derivar dados metafísicos, mas que servem para aguçar a mente e refinar a capacidade de dedução, ajudando a dissolver a confusão que povoa o intelecto da maior parte dos pensadores que se apoiam em teoremas acidentais e em seus consequentes equívocos. Contudo, devemos ser gratos às ciências naturais por nos ensinarem a procurar ver as coisas como elas realmente são. Com efeito, apesar destas disciplinas não serem indispensáveis ao estudo da metafísica ainda assim podem ser úteis quando usadas em matérias relativas a esta ciência.

Quem busca o aperfeiçoamento intelectual deve primeiro exercitar-se na ciência da lógica, logo depois nas disciplinas preparatórias [disciplinas judaicas que compõem a lei oral] e, então, nas ciências naturais - para finalmente poder abordar a metafisica. Muitos obviamente param em algum destes estágios. E mesmo que vejam a si mesmos como mentalmente preparados, a morte pode encontrá-los antes mesmo do estágio propedêutico. Agora, vamos imaginar por um momento que não aceitamos qualquer evidência ou opinião recebidas através da nossa tradição, e que não nos submetemos a qualquer orientação ligada a alegorias, e ainda que nos atenhamos apenas à discrição essencial e provas demonstrativas daquilo em que acreditamos, algo que não poderá ser realizado a menos que passemos por todos os estágios mencionados acima; Certamente, todos os homens morreriam sem ao menos poderem saber se existe um Deus ou não, para não falarmos da conclusão satisfatória das provas ou negações de Sua Onipotência no universo. Ninguém escaparia de tão terrível morte, salvo 'um por cidade ou dois por família' (Jeremias 3,14).

A quarta razão é a diversidade da disposição natural das coisas. É claro e evidente que as virtudes morais são um pré-requisito para as virtudes intelectuais. A obtenção dos verdadeiros valores intelectuais é impossível a menos que o homem tenha galgado a escala dos valores morais, que seja digno e equilibrado. Existem pessoas cuja própria natureza de caráter as impede de atingir o aperfeiçoamento intelectual. A pessoa de temperamento volátil se expressa pela força física e é facilmente irritável, não importa quanto treine seu caráter. Um indivíduo que possua órgãos genitais quentes e úmidos e cujas glândulas produzam sêmen em excesso encontrará dificuldade em tornar-se casto ainda que se eduque bastante para isto. Outros são frívolos e mudam de comportamento repentinamente. Isto indica alguma falha em suas respectivas constituições. Tentar educar os jovens nesta disciplina [metafísica] é não mais que uma tolice, pois sabemos que isto não é como educar alguém em medicina ou em geometria, e que nem todos se ajustam ao estudo da Divindade, pelos motivos acima mencionados.

O preparo moral é essencial para que o homem mantenha a retidão de caráter e se aperfeiçoe: 'A rebeldia é abominação para o Eterno; mas Seus segredos reserva para o justo' (Provérbios 3,32). Isto é razão suficiente para não se ensinar a matéria aos jovens. Eles não podem adquirir este nível de conhecimento, pois se preocupam apenas como o que lhes pode brincar a chama ardente da adolescência. Somente quando a perturbação em seus corações se acalmar, e adquirirem uma atitude gentil, estarão aptos a elevar suas almas ao nível da compreensão de Deus, isto é, a metafísica ou a 'Descrição da Carruagem Mística', como dizem as Escrituras: ''O Eterno apoia os alquebrados de coração e salva os de espírito contrito' (Salmo 34,19) e 'Habito nas alturas e no coração do homem contrito e de espírito humilde' (Isaías 57,15).

A quinta razão é a preocupação do homem com suas necessidades físicas, que constituem um primeiro degrau no seu aperfeiçoamento, especialmente se for responsável pelo cuidado com sua esposa e filhos, e mais ainda se estiver absorto nos deleites deste mundo, um quadro que tende a piorar de acordo com seu estilo de vida, vícios e ambiente. Ele pode estar bem próximo da perfeição e ter superado as condições acima, mas basta que sua energia esteja direcionada para as necessidades essenciais - para não mencionar as não essenciais - e que estas aumentem, para que seu interesse pelos estudos teóricos diminua na mesma proporção. Seu estudo acabará por se tornar arrastado e vago, sem dedicação real, e ele não conseguirá aprender o que precisa, ou então aprenderá de maneira confusa e desordenada, entendendo as coisas pela metade.

Por todas estas razões, os estudos são adequados apenas a indivíduos privilegiados e não ao povo em geral. Isto explica porque este objeto deve ser mantido à distância dos iniciantes nos estudos, que devem ser impedidos de entrar em contato com ele, assim como impedimos uma criança de comer alimentos fortes ou de levantar objetos pesados".

Tuesday, April 04, 2017

Julián Marías sobre a inteligência como abertura à realidade e sobre a evidência

Excerto de MARÍAS, Julián. Tratado sobre a Convivência: Concórdia sem acordo. São Paulo: Martins Fontes, 2003:


"Cada vez me parece mais confirmada minha velha ideia das 'raízes morais da inteligência'. Minha convicção de que sem uma considerável dose de bondade se pode ser 'esperto', mas não verdadeiramente inteligente. E, mais que a uma preocupação moral, isso corresponde a uma evidência intelectual: a de que inteligência consiste sobretudo em abrir-se à realidade, deixar que ela penetre na mente e seja aceita, reconhecida, possuída. É frequente que a acuidade, a 'esperteza', coincidam com a maldade, sendo ela às vezes associadas; porém, se se observa bem, vê-se que não se trata de inteligência, isto é, de compreensão da realidade, mas de sua utilização ou manipulação.

Por isso, é preciso estar atento ao grau de abertura ou fechamento das pessoas, sobretudo daquelas que pretendem manipular o real, interpretá-lo ou explicá-lo. É característico do homem inteligente 'esperar'', não precipitar-se, deixar que o que aparece diante dos olhos ou procura penetrar pelo ouvido se manifeste por inteiro, exiba seus títulos de justificação, seja examinado por vários lados, de diferentes pontos de vista. Essa é a razão pela qual as mulheres, quando de fato o são - ou seja, quando são fiéis à sua condição própria -, se revelam sumamente inteligentes, proporcionalmente mais que os homens, tantas vezes apressados.

Quando leio um escritor, a primeira coisa que sinto é a possível impressão de abertura. Em suas páginas, talvez desde as primeiras linhas, percebe-se que algo novo está surgindo, que está se agregando ao que já se sabia, ou se está enfatizando um aspecto neglicenciado. Daí a impressão de enriquecimento, que suscita gratidão.

São os escritores que merecem ser lidos, porque fazem uma generosa doação de sua realidade, nos oferecem descobertas que fizeram na solidão, ou levaram a viver aspectos mal conhecidos da vida humana, ou fizeram vibrar, como uma expressão afortunada ou uma metáfora, facetas da realidade que começam a irradiar beleza.

Outras vezes, a impressão é bem diferente. O autor se mostra encastelado em algumas ideias, raras vezes suas, quase sempre recebidas, que precisamente se interpõem entre ele e o que as coisas são - para não dizer entre ele e as pessoas -, com o que nos priva de todo possível enriquecimento, de toda ampliação de nossa própria mente.

O bom degustador, quero dizer, o bom leitor que leu, ano após ano, muitas páginas e sabe distinguir, não tarda a perceber essa decisiva diferença. Vê que não pode esperar nada, que não receberá nenhuma inovação. Nesta época em que a produção de estritos é imensa, em todas as suas formas, em que é inabarcável não já o conteúdo do que se publica sobre qualquer questão, mas os simples títulos, a capacidade de distinguir é salvadora, talvez a única forma de sobreviver à inundação que nos acossa por todos os lados.

Há autores que nos dão a impressão de que 'não percebem nada', de que, aconteça o que acontecer, diga-se o que se disser, se obstinam, repetem o que ouviram ou leram há muito tempo, o que manifestou seu erro ou sua falsidade. Lembrem-se da história do general tão valente que não se rendia nem à evidência.

Ás vezes, o fechamento se deve à escassez de inteligência, à incapacidade de refletir sobre o que se leu ou ouviu, inclusive o que se pensou em algum momento e foi desmentido pelos fatos ou por ua visão mais ampla. A preguiça, quase sempre esquecida, explica muitas coisas.

Mas há uma forma de fechamento mais profundo e que merece ser examinado. Não se trata de simples fechamento, obturação da mente diante do que procura penetrar nela. Tem um caráter defensivo, é uma resistência ao real, como se fosse uma agressão ou uma ameaça. Por isso, essa forma de fechamento é hostil, quase sempre polêmica, beligerante.

Aquele que fala ou escreve sente-se em perigo, inquieto, agredido, não por uma tese distinta ou oposta, mas pela própria realidade. Isto é, defende o que no fundo sabe o que não é verdade, identifica-se com isso, como se fosse ele mesmo, rejeita o diferente.

Não se entende bem essa atitude. Como pode a realidade ser 'inimiga'? Não é ela aquilo que nos cerca, como o que temos de construir nossa vida? A estrutura efetiva do mundo, a história que de fato aconteceu, a consistência do humano, as condições da personalidade, como pode ser isso 'adverso', devendo ser combatido e rechaçado? Se se observa bem, é a expressão máxima da insegurança, o temor de ver dissipar-se aquilo que se considerou, sem motivo, como fundamento da própria vida.

Essa impressão de que há muitos que 'não percebem nada', que continuam imperturbáveis em noções que não resistem sequer um minuto à reflexão e à análise, ao confronto com os fatos, é desalentadora. É sobremaneira frequente quanto intervém a paixão política quase sempre associada à mentira - ao contrário da política nobre, que busca, como dizia Fichte, 'declarar o que é'. Há formas extremas que estão rigorosamente estabelecidas sobre a falsificação, para as quais o real é um veneno mortal.

Mas, ao lado desse fechamento, há sintomas encorajadores de abertura - muito especialmente entre pessoas que não têm grandes pretensões, que não procuram definir, que não creem que sabem tudo. São aquelas que buscam precisamente 'perceber' - isto é, integrar-se -, que sentem alegria e gratidão quando lhes é mostrado algo que não tinham visto ou com o que não tinham contado.

E essa magnitude é máxima se descobrem que se achavam em erro, se se vêem obrigadas a corrigir, isto é, a instalar-se na verdade que lhes escapara. Sentem que são melhores, mais reais, que aconteceu um fortalecimento de sua própria pessoa" (pp. 13-16).


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"Aquele que tem vocação de buscar a verdade, se não se contenta com aproximações ou meros vislumbres, se põe à prova o que pensou, pode chegar a uma experiência deslumbrante, fascinante, o maior prêmio do esforço intelectual: a evidência.

Ele chega a ver que algo é 'assim'. Compreende-o e, ao mesmo tempo, descobre sua justificação: vê por que é tal como o está vendo; em alguns casos, essa visão é acompanhada pela de sua necessidade: 'tem de ser assim'. Esse é o ápice de um processo intelectual digno desse nome.

Não é frequente, mas algo especialmente difícil; requer um grande esforço do que mais se regula: pensar. Não ler, observar, fazer experimentos ou estatísticas, mas olhar, ensaiar diversas perspectivas, examinar a questão de diversos pontos de vista, estabelecer conexões - nisso consiste a razão, distinta da mera inteligência -, tentar invalidar o que se entreviu, até assegurar-se de que o esforço é vão, de que isso que se viu é 'assim'. O extraordinário filósofo Gratry [nota: o Pe. Auguste Joseph Alphonse Gratry foi um teólogo e filósofo francês do século XIX que se opôs ao dogma da infalibilidade papal e depois se desculpou; filosoficamente, estabeleceu o conceito de um "sentido divino", pelo qual  a alma humana percebe sua religação constitutiva a Deus], tão esquecido, dizia 'Tout ce qu'un homme a vu est vrai' (Tudo o que um homem viu é verdade). A palavra decisiva é 'viu'; se se omite parte do que se viu, se se acrescenta algo que não se vê, o resultado pode não ser verdade" (pp. 100-101).


Saturday, April 01, 2017

O Pe. Sertillanges sobre Jesus e o Cristianismo

Excertos de SERTILANGES, A.D. Espiritualidade. Trad. Monjas Beneditinas da Abadia de Nossa Senhora das Graças. Belo Horizonte: Itatiaia, 1959, pp. 3-28:


"O cristianismo não é um composto de artigos de fé e preceitos, mas a expressão da relação total de Deus com a criação inteira, e o laço dessa relação é o Cristo.

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Se Jesus Cristo não é tudo para nós, não é nada, visto que sua própria natureza, como Deus, é de ser tudo e, como homem, de ser o caminho de tudo.

[...]


A doutrina do Cristo não é uma doutrina livresca; escreve-se no coração. Jesus Cristo, ele, escreveu com o dedo na poeira; foi toda a honra que concedeu à escrita.

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Quando dizemos que Jesus Cristo, se voltasse ao mundo, seria de novo desprezado e morto, referimo-nos aos ímpios e incrédulos Teríamos vergonha de pensar, como é verdade, que seria tratado assim por uma multidão de crentes. Quando alguém professa como tantas pessoas um falso cristianismo, tem tudo que é preciso para perseguir o fundador e o modelo do verdadeiro cristianismo.

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Muitos cristãos não guardam do Cristo, como os incrédulos, senão o que lhes agrada ou o que teriam podido encontrar por si mesmos. É uma maneira certíssima de aniquilar o Cristo.

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Muitos cristãos têm um ídolo como Deus, e como Cristo um testa de ferro para sua vida inteiramente pagã ou um tema de vitral.

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Jesus Cristo sempre ocupou o lugar todo, por sua presença ou por sua ausência, por sua virtude autêntica ou pelas adulterações.

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Jesus governa com um caniço. Que símbolo! Sua onipotência está em sua fraqueza voluntária, na aceitação da humildade de sua obra, em sua humilhação e em sua dor.

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Quem deve dirigir homens poderá jamais ser verídico no pleno sentido do termo? Não precisa sempre usar mais ou menos de rodeios ou pelo menos esperar? Se Jesus, a Verdade em pessoa, tivesse seguido sem reservas sua própria lei de verdade, ninguém teria crido nele e não teria encontrado um só apóstolo. Vemo-lo constantemente reticente, por misericórdia. Algumas vezes, explica-se: 'Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora' (Jo XVI, 12). E morre, isto é, passa para o Espírito os desenvolvimentos e as aplicações de sua doutrina. Mas o Espírito por sua vez submete-se à mesma lei. Renova, quão lentamente! a face da terra. Pode-se dizer que a ação do fermento evangélico, em nossa massa resistente ou inerte, está apenas começada.


[...]

Não são seus resultados que dão valor à Encarnação, é a Encarnação que dá valor a seus resultados.

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Como o cristianismo e sua história têm em si, profundamente, um aspecto de esplendor moral e um aspecto de escândalo, basta expô-los imparcialmente nesse duplo aspecto para operar imediatamente uma divisão entre os auditores. Vê-se então claramente o que tem cada um no coração e o quanto vale.

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Não poderíamos duvidar: a sorte que se deu ao Cristo histórico e a que se dá ao Cristo eterno medem exatamente a grandeza moral do mundo, o equilíbrio do bem e do mal na criação.

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Dizem que o edito de Milão, graças a Constantino, fez Jesus Cristo triunfar na sociedade. Pode-se compreender isto. Mas na verdade esta espécie de triunfo não foi a que procurou o Cristo. Triunfar na sociedade é necessariamente adaptar-se a ela, acompanhar seus passos, e procura-se a sociedade que alguma vez acompanhou os passos dos Cristo. Pode-lo-ia? Podemos perguntar; com efeito, não deveria ela então declarar como Jesus: 'Meu reino não é deste mundo'?

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O triunfo constantiniano e todos os que a história apresenta são, em muitas coisas, derrotas e no total, vigílias ou pelo menos ameaças de derrota. O Cristo está militando e não triunfando na terra. Ele o está sempre, em seus fiéis como em sua Igreja. O triunfo é somente no céu.

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Houve príncipes, homens públicos, apologistas, organizadores que pretenderam mais ou menos salvar a Igreja. Equivalia a dizer que queriam salvar o Cristo, seu Salvador, que queriam salvar o próprio Deus, seu Criador. A Igreja não tem necessidade de ser salva por nós, mas  nós pela Igreja. O Cristo triunfará sem nós no triunfo que é o seu, puramente espiritual, não tendo como condição verdadeiramente necessária senão a confissão secreta das almas de boa vontade.

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Renan admirou enormemente Jesus Cristo. Mas Jesus Cristo não quer ser admirado assim, à maneira de um ilustre pensador; quer ser reconhecido pelo que é, e assim amado e assim imitado. A admiração que se dispensa deliberadamente de imitação e de amor é, em relação ao Cristo, uma blasfêmia.

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Aprecio aquele que, em lugar de evitar cortesmente o Cristo, se aproxima dele com franqueza, dizendo: Tu me aborreces; temo-te. encontrar-nos-emos talvez mais tarde; no momento, retiro-me; mas tem piedade de mim apesar de tudo. - Oh! como simpatizo com este!

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Jesus pode chamar os que estão aflitos e sobrecarregados; sua própria condição não fará contraste; assumiu todos os seus males antes de tornar-lhes fácil suportá-los

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'Vós que estais aflitos e sobrecarregados'. Qual é a carga? Ele não especifica. Especificar é reduzir, é limitar. Não hesiteis, ó homens; seja qual for vosso mal, foi previsto; há socorro para ele; se quiserdes, está de antemão curado.

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'E eu vos aliviarei'. Jesus não diz: ensinar-vos-ei onde está o alívio, em que lugar encontrareis o bálsamo. Mas diz: Eu vos aliviarei; porque o alívio é ele próprio".


"A Adoração ao Nome de Jesus" (1578-80), de El Greco