Wednesday, December 27, 2017

São Francisco de Sales sobre a devoção

Excertos de SÃO FRANCISCO DE SALES. Filoteia ou Introdução à vida devota. 9a ed. Petrópolis: Vozes, 1986, pp. 33-45:


"Capítulo 1: A natureza da devoção

Aspiras à devoção, Filoteia [do Prefácio do santo: "dirijo minhas palavras a Filoteia, porque Filoteia significa uma alma que ama a Deus e é para essas almas que escrevo"], porque a fé te ensina ser esta uma virtude sumamente aradável à Majestade divina. Mas, como os pequenos erros em que se cai ao iniciar uma empresa vão crescendo à medida que se progride e ao fim já se avultam de um modo quase irremediável, torna-se absolutamente necessário que, antes de tudo, procures saber o que seja a devoção.

Existe, pois, uma só devoção verdadeira e existem muitas que são vãs e falsas. É mister que saibas discernir uma das outras, para que não te deixes enganar e não te dês a exercícios de uma devoção tola e supersticiosa. 

Um pintor por nome Aurélio, ao debuxar seus painés, costumava desenhar neles aquelas mulheres a quem consagrava estima e apreço. É este um emblema de como cada um se afigura e traça a devoção, empregando as cores que lhe sugerem suas paixões e inclinações. Quem é dado ao jejum tem-se na conta de um homem devoto, quando é assíduo em jejuar, embora fomente em seu coração um ódio oculto; e, ao passo que não ousa umedecer a língua com umas gotas de vinho ou mesmo com um pouco de água, receoso de não observar a virtude da temperança, não se faz escrúpulos de sorver em largos haustos [goles] tudo o que lhe insinuam a murmuração e a calúncia, insaciável do sangue do próximo. Uma mulher que recita diraiamente um acervo de orações se considerará devota, por causa destes exercícios, ainda que, ofra deles, tanto em casa como alhures, desmande a língua em palavras coléricas, arrogantes e injuriosas. Este alarga os cordões da bolsa pela sua consideração com os pobres, mas cerra o dcoração ao amor do próximo, a quem não quer perdoar. Aquele perdoa ao inimigo, mas satisfazer as dívidas é o que não faz sem ser obrigado à força. Todas estas pessoas têm-se por muito devotas e são talvez tidas no mundo por tais, conquanto realmente de modo algum o sejam. 

[...] A verdadeira devoção, Filoteia, pressupõe o amor de Deus, ou melhor, ela mesma é o mais perfeito amor a Deus. Esse amor chama-se graça, porque adereça a nossa alma e a torna bela aos olhos de Deus. Se nos dá força e vigor para praticar o bem, assume o nome de caridade. E, se nos faz praticar o bem frequente, pronta e cuidadosamente, chama-se devoção e atinge então ao maior grau de perfeição. [...] 

[...] os pecadores são homens terrenos e vão se arrastando de contínuo à flor da terra. Os justos, que são ainda imperfeitos, elevam-se ao céu pelas obras, mas fazem-no lenta e raramente, com uma espécie de peso no coração.

São só as almas possuidoras de uma devoção sólida que, à semelhança das águias e das pombas, exalçam-se a Deus por um voo vivo, sublime e, por assim dizer, incasável. Numa palavra, a devoção não é nada mais do que uma agilidade e viveza espiritual, da qual ou a caridade opera em nós, ou nós mesmos, levado pela caridade, operamos todo o bem de que somos capazes.

A caridade nos faz observar todos os mandamentos de Deus sem exceção, e a devoção faz com que os observemos com toda a diligência e fervor possíveis. Todo aquele, portanto, que não cumpre os mandamentos de Deus não é justo e, muito menos, devoto; para se ser justo é necessário que se tenha caridade e, para se ser devoto, é necessário ainda por cima que se pratique com um fervor vivo e pronto todo o bem que se pode. 

E como a devoção consiste essencialmente num amor acendrado [purificado], ela nos impele e incita não somente a observar os mandamentos da Lei de Deus, pronta, ativa e diligentemente, mas também a praticar as boas obras, que são apenas conselhos ou inspirações particulares. [...] um pecador recém-convertido vai caminhando na senda da salvação devagar e arfando, só mesmo pela necessidade de obedecer aos mandamentos de Deus, até que se manifeste nele o espírito da piedade. Então, sim; como um homem saido e robusto, caminha, não só com alegria, como também envereda corajosamente pelos caminhos que parecem intransitáveis aos outros homens, para onde quer que a voz de Deus o chame, já pelos conselhos evangélicos, já pelas inspirações da graça. Por fim a caridade e a devoção não diferem mais entre si do que o fogo da chama; a caridade é o fogo espiritual da alma, o qual, quando se levanta em labaredas, tem o nome de devoção, de sorte que a devoção nada acresceta, por assim dizer, ao fogo da caridade além dessa chama, pela qual a caridade se mostra pronta, ativa e diligente na observância dos mandamentos de Deus e na prática dos conselhos e inspiraçõe celestes.


Capítulo 2: Propriedades e excelência da devoção

[...] o mundo anda a difamar diariamente a santa devoção, espalhando por toda parte que ela torna os espíritos melancólicos e os caracteres insuportáveis e que, para persuadir-se, é bastante contemp-lar o semblante enfadonho, triste e pesaroso das pessoas devotas. Mas [...] todos os santos, animados do Espírito Santo e da palavra de Jesus Cristo, asseveram que a vida devota é suave, aprazível e ditosa. 

Vê o mundo que as pessoas devotas jejuam, rezam, sofrem com paciência as injúrias que lhes fazem, cuidam dos enfermos, dão esmolas, guardam longas vigílias, reprimem os ímpetos da cólera, detêm a violência de suas paixões, renunciam aos prazeres sensuais e fazem tantas outras coisa que são de si custosas e contrárias à nossa natureza [nota: o santo tem em vista nossa 'natureza' na situação em que se encontra, caída e afeita às consupiscências], mas o mundo não vê a devoção interior, que torna tudo agradável, doce e fácil. [...] no começo muitas amarguras encontram as pessoas devotas nos exercícios de mortificação e penitência, mas com o tempo e a prática essas amarguras se vão mudando em suavidades e delícias.

[...] Na verdade, a devoção sazona todas as coisas com uma afabilidade extrema [...]

Contempla a escada de Jacó, a qual é uma verdadeira imagem da vida devota. Os dois lados da escada representam, um a oração que suplica o amor de Deus, e o outro a recepção dos sacramentos que o conferem. Os degraus são os diversos graus de caridade, pelos quais se sobe de virtude em virtude, ora abaixando-se até a servir o próximo e suportar-lhe as fraquezas, ora guindando o espírito, pela contemplação, até à união caritológica com Deus.

[...]

Crê-me, Filoteia, que a devoção é a rainha das virtudes, sendo a perfeição da caridade como a nata para o leite, a flor para a planta, o brilho para a pedra preciosa, o perfume para o bálsamo. Sim, a devoção exala por toda parte um odor de suavidade que conforta o espírito dos homens e alegra os anjos.


Capítulo 3: A devoção é útil a todos os estados e circunstâncias da vida

[...] A prática da devoção tem que atender à nossa saúde, às nossas ocupações e deveres particulares. Na verdade, Filoteia, seria porventura louvável se um bispo fosse viver tão solitário como um cartuxo? Se pessoas casadas pensassem tão pouco em ajuntar para si um pecúlio, como os capuchinhos? Se um operário frequentasse tanto a igreja como um religioso do coro? Se um religioso se entregasse tanto a obras de caridade como um bispo? Não seria ridícula uma tal devoção, extravagante e insuportável? Entrentanto, é o que se nota muitas vezes, e o mundo, que não distingue nem quer distinguir a devoção verdadeira da imprudência daqueles que a praticam desse modo excêntrico, censura e vitupera a devoção, sem nenhuma razão justa e real.

Não, Filoteia, a verdadeira devoção nada destrói; ao contrário, tudo aperfeiçoa. POr isso, caso uma devoção impeça os legítimos deveres da vocação, isso mesmo denota que não é uma devoção verdadeira. [...] [esta] não só em nada estorva o cumprimento dos deveres dos diversos estados e ocupações da vida, mas também os torna mais meritosos e lhes confere o mais lindo ornamento. [...] na família em que reina a devoção, tudo melhora e se torna mais agradável [...]

[...] Enfim, onde quer que estivermos, podemos e devemos aspirar continuamente à perfeição".