Wednesday, November 15, 2017

Visão tripartite e gnosticismo

Excelente texto do amigo profundamente católico André Abdelnor Sampaio.

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A divisão tripartite do composto humano pode ser considerada em alguns casos, mas não deve jamais ser enfatizada rigorosamente em todas as circunstâncias sob risco de incorrer em gnosticismo.

O espírito não é uma realidade absolutamente distinta da alma senão que uma realidade que se dá na própria alma. O Nous não é nada mais que a alma intelectiva, e mais especificamente o intelecto agente, que é o que de mais semelhante nós temos com Deus, é a imagem de Deus em nós. Mas imagem de Deus não se identifica em absoluto com a Divindade, senão que é a "marca" do Criador na criatura. A brasa do ferro quente presente no corpo não faz com que o corpo se identifique com o ferro quente, mas sim que tenha uma marca do ferro nele. De modo análogo pensamos da mesma forma com relação à Imago Dei que somos. O santo seria aquele no qual o "ferro toca permanentemente o corpo" no mesmo calor abrasante e intenso. Mas o corpo ainda é o corpo e o Ferro ainda é o Ferro.

O gnosticismo se baseia em grande parte na concepção da Unidade do intelecto, tese refutada por Santo Tomás. Sustenta-se esta ideia a fim de rechaçar a analogia do intelecto criado e do Intelecto Incriado, afirmando que seria uma "analogia por univocidade", sendo o intelecto criado identificado com seu Protótipo Divino.

A separação rigorosa e premeditada entre psiqué e espírito, sem admitir um dinâmico influxo mútuo, e subordinado aquele a este, leva à falsa noção de que "no núcleo do homem" encontrar-se-ia o "espírito" que seria em si mesmo divino e incriado, mas que se encontraria "adormecido" ou "inconsciente", cabendo ao homem "libertar-se" desta condição "manifesta e finita" a fim de "recuperar o seu centro divino e obter a realização espiritual, a identidade suprema". Isto é o gnosticismo no seu sentido puro e simples. Ademais, se a alma intelectiva não é ela mesma espiritual, a imortalidade da alma seria impossível, visto que o mero psiquismo se desintegra e ocorre sua dissolução após a morte. Se separamos a alma intelectual da alma psíquica, estamos a dizer que a alma intelectiva não é a forma ou princípio intrínseco de movimento, da animação do corpo essencialmente por ela mesma.

Com estas noções ocorre as seguintes consequências:

1- A definição do Pecado Original defendido por muitos dos gnósticos seria não uma falta moral, fruto da desobediência e soberba de querer se fazer "Deus" na tentativa de renunciar sua natureza criatural, atribuindo a elas características essencialmente Principais e Senhoriais como "próprias deles", o que se denomina como "apotheosis". Ou seja, pôr-se no lugar de Deus. Para o gnóstico, o pecado original seria uma "queda cósmica" em estados manifestos grosseiros, levados pelo "erro intelectual" por desejarem ser o que "já eram" (deuses), o que pressupunha uma "perda" ou "esquecimento" da realidade mais interior e profunda que jaz no ser-humano, e isto seria o que eles chamam de "queda".

2- A ausência da distinção entre ordem natural e sobrenatural, pois o intelecto humano passa a ser "naturalmente sobrenaturalizado" e consequentemente passa-se a negar a distinção fundamental entre natureza e Graça. Onde esta última não é mais concebida como um dom gratuito de Deus que nos comunica a Sua Vida Divina pela Humanidade de Cristo na Unidade do Espírito Santo, e nos abre para possibilidades espirituais que nunca atingiríamos por nós mesmos. A Graça para a ser vista como aquilo que viria apenas "atualizar" o que há de "essencialmente divino" no ente humano, algo que está em mera função do "espírito divino" no homem, enfraquecendo a concepção da necessidade absoluta dos sacramentos (ao menos o do Batismo) para nossa salvação e santificação. Negando o caráter possibilitador dos Sacramentos, sendo apenas "atualizadores", não haveria mais a distinção e entre Graça Sacramental e atual. A Graça não seria mais vista como o princípio e germe da vida Divina em nós, e comunicada seguramente pelos Sacramentos, que seriam os seus canais infalíveis e ordinários. A partir desta noção gnóstica, os Sacramentos passam a servir apenas para "reativar" o que há de divino no ente humano.

3- A ideia de Fé se torna distorcida, pois não é mais vista como uma virtude teologal que sob a moção da Graça faz o homem anuir às Verdades Reveladas que superam o discurso racional por serem Mistérios, e que é desenvolvida gradativamente, mas se torna apenas como uma "tomada de consciência profunda" da realidade do "espírito divino presente do homem" e das diversas "vias exteriores" que "atualizam" a ação deste espírito.

4- Isto está intimamente ligado também com o erro dos gnósticos perenialistas de não aceitarem a Encarnação do Verbo como ela realmente aconteceu. Há uma Unicidade do Verbo Divino em Jesus Cristo, não existindo uma atividade do Verbo de Deus "à margem" da Humanidade de Cristo. Isto é a União Hipostática. Não é nada "excessivo", nem "arrogante" dizer que fora da Igreja não há Salvação, e que a Religião Católica é a única Religião Verdadeira, justamente porque o Verbo de Deus encarnou e revelou todos os Mistérios Divinos que são explicitados pela prolongação VISÍVEL de Sua Encarnação, Paixão, Redenção e Ressurreição no mundo e na história, que é a Igreja. É justamente a exclusividade e unicidade salvífica de Cristo e de Seu Corpo Místico que é a Igreja que fundamenta a Universalidade do Catolicismo (a Religião katá-holós "conforme à totalidade da Verdade"), de ir aos quatro cantos do mundo espalhar a Boa Nova que redime e dá a verdadeira felicidade e única realização espiritual possível e verdadeira aos homens. Não é algo "bairrista" e excludente. É justamente é exclusividade que possibilita e dá razão de ser para a inclusão e busca de toda e cada alma.

Muitos gnósticos afirmam que a frase "Eu Sou o Caminho, a Verdade, e a Vida", dita por Cristo como algo "absolutamente verdadeiro com relação ao Verbo Divino", e "relativamente verdadeiro, com relação a Jesus". Pois ninguém vai a Deus senão por Seu Verbo, mas Jesus seria uma apenas uma "manifestação" do Verbo de Deus, e não o próprio Verbo de Deus feito Carne, feito Pão.

Conclui-se neste ponto que eles necessariamente deformam a União Hipostática, tratando Jesus Cristo como uma manifestação cósmico-temporal do Verbo Divino em uma forma humana, mas ao modo parcial e finito. Eles ao proferir isto, negam a União essencial e Indissociável da Natureza Divina e Humana de Jesus Cristo em Sua Pessoa Divina.

Outros negam a própria Divindade do Verbo, tratando o Logos como uma "manifestação pura" que estaria "fora" da esfera da Divindade (no fundo, estão chamando Deus de ignorante, como se a Sabedoria que Ele têm d'Ele mesmo fosse "inferior" ao Seu Ser, estando portanto "abaixo" d'Ele). Um arianismo camuflado.

5- A oração se torna desvirtuada de seu real conteúdo, pois não mais seria uma "elevação da alma a Deus, para unir-se a Ele através de atos de Adoração, Petição, Ação de Graças, Reparação e Amor nos seus diversos graus e estágios e assim participar da Natureza Divina pela comunhão com Cristo".
Mas sim um meio do homem "retomar a amplitude de sua divindade que estaria inconsciente e não manifesta para ele mesmo". Seria o ato pelo qual o intelecto "despertaria sua natureza divina".

Ou o que é mais sutil; tratam a oração como união com Deus à maneira de um "modo inferior-provisório" e "exotérico" pois tal relação de união ainda estaria "presa no âmbito relativo da dualidade entre Criador criatura, que ainda não reconheceria a divindade em si mesmo" e que logo depois seria "superada" pela busca da reabsorção da individualidade no absoluto, o que eles denominam como "identidade suprema".

Mais uma vez não concebem que a Encarnação plena do Verbo em Jesus Cristo cancela de uma vez para sempre todo e qualquer dualismo, e todo e qualquer barreira objetiva entre exoterismo e esoterismo.

São estas ideias falsas e deformadas acerca de Deus, da Sua criação, do homem, do mundo e da Revelação que faz estas pessoas terem uma visão errônea de religião e do Catolicismo, como se este fosse apenas uma "via formal" dentre várias outras de realização espiritual. Não se tem mais a distinção das ditas "religiões tradicionais" levando em conta a sua natureza e espécie, somente "graus e gênero".

Isso é um embuste.

Enfim, uma antropologia errônea leva a uma fé falsa, que leva a uma vida errônea, que leva ao Inferno. Não caiam nessa palhaçada perenialista.

Além destas explicações metafísicas e teológicas para os não cristãos e para os cristãos versados em filosofia e teologia, já existem condenações formais da Igreja sobre estes erros há muito tempo.

A) em defesa da imortalidade da alma, por ser a alma intelectiva espiritual:
"Condenamos e reprovamos todos os que afirmam que a alma intelectiva é mortal"- Denzinger 1440

B) em Defesa da Alma intelectiva (e não meramente psíquica) como forma do corpo humano:
"Además, con aprobación del predicho sagrado Concilio, reprobamos como errónea y enemiga de la verdad de la fe católica toda doctrina o proposición que temerariamente afirme o ponga en duda que la sustancia del alma racional o intelectiva no es verdaderamente y por sí forma del cuerpo humano; definiendo, para que a todos sea conocida la verdad de la fe sincera y se cierre la entrada a todos los errores, no sea que se infiltren, que quienquiera en adelante pretendiere afirmar, defender o mantener pertinazmente que el alma racional o intelectiva no es por sí misma y esencialmente forma del cuerpo humano, ha de ser considerado como hereje."- Denzinger 902.


É isto.


"Menino Jesus de pé sobre uma serpente"
(de Guillaume-Thomas-Raphaël Taraval)

Monday, November 06, 2017

Espírito Vivente, âmbitos de realidade e símbolos como ícones no processo arteterapêutico espiritual

Mais um texto do amigo Lincoln Haas Hein

Espírito Vivente, Âmbitos de realidade e símbolos como ícones no processo arteterapêutico espiritual tendo em vista a vocação pessoal, a individuação.

Tentando unir o pouco que sei de São Tomás, Zubiri, Quintás e Gregório Palamas (um complemento às minhas meditações sobre arteterapia, espiritualidade e canto gregoriano agora que tenho um pouco mais de noção dos conceitos usados pelos padres gregos e pelo personalismo cristão):

Quanto mais algo é, quanto mais algo é ser, mais é bem e mais é capaz de difundir-se comunicando sem com isso perder sua própria substantividade. Quanto mais substancial (ousia) e portanto quanto mais espiritual é um ser mais é âmbito de realidade criador de âmbitos de realidade. Mais é aberto a dialogar criativamente em encontros nos quais recolhe bem e comunica bem realizando-se em religações que manifestam o poder do real.

Sem deixar de ser essência (ousia) o ser como bem se torna energia vivente, espírito vivificante (pneuma) que recolhido em si e mantendo intacta sua essência pode entretanto dar a participar seu espírito como energia (potência ativa que plasma comunicações de si que também são energia).

O Espírito divino como plenitude e fundamento do real é perfeitamente recolhido e difusivo em si mesmo em uma comunicação de três pessoas (hipostasis) que vivem a mesma vida criativa e não necessita das criaturas para realizar o encontro pessoal e o poder do real mas livremente escolhe fundar novos âmbitos que participam dessa sua vida íntima em diversos graus.

Os homens como criaturas espirituais e mais próximas de Deus tem em si o ser pessoal, a capacidade de como espírito vivente comunicar bem e recolher bem criativamente em encontros que manifestam o poder do real mas isso se dá apenas religando-se em diálogo com âmbitos já criados por Deus e/ou com o próprio Deus.

Entretanto, é possível verificar no homem a capacidade de em obras culturais comunicar seu espírito; quando autênticas, as obras de arte que nascem dos encontros com âmbitos de realidade são âmbitos que plasmam em si sensível e meta-sensível, tem algo de vida que se comunica.

Esse dar-se e receber do ser espiritual como bem implica necessariamente a cognição, a troca de luz e espelhamento do real e todo encontro criativo plasma âmbitos manifestando a energia vivificante do ser de tal modo que o ser aberto ao encontro nessa experiência criativa vive o sentimento espiritual. Sentimento que é "Consensio" na "Conscientia", ser que toca o ser na intimidade sem que a distinção desapareça; a beleza se mostra num afeto que é impressão afetiva, síntese entre saber e sabor, entre conhecer e amar, entre bem, verdade, unidade e ser.

O coração espiritual no homem é entendimento luminoso (nous enquanto essência) capaz de encontro com o real nas experiências reversíveis de troca de bem (nous enquanto energia e potência espiritual ao efetivar-se como atenção consciente) mas não pode ser definido, é núcleo pessoal e como tal essência individual que só se mostra como energia participada ao dar de si e recolher em si. Somente nesse dar e recolher em si pelo encontro é possível ao homem plasmar símbolos e manifestar plenamente o "logos", a razão como potência da alma.


"Santa Margarida Maria Alacoque contemplando 
o Sagrado Coração de Jesus" (c.1765), de  Corrado Giaquinto

A partir do núcleo pessoal que é o nous e coração, memória do ser como capacidade para o real, e a partir do logos que manifesta criativamente e pessoalmente a luz recebida no nous é possível a realização do espírito vivente como terceira potência, o amor da vontade como unidade com o bem sem cair na indistinção e "empastelamento" destrutivo dos diversos âmbitos de realidade. É nessa unificação das três potências espirituais (nous, logos, pneuma / memória, razão, vontade / intelecto, raciocínio, querer), sem que percam sua distinção e relação recíproca, que o homem se torna belo por amor à Beleza (filocalia) no sentimento espiritual mais elevado que é chamado por São João da Cruz toque substancial. Há graus e graus de sentimento espiritual desde o menos espiritual que é a simples consciência das paixões (emoções) até a experiência da Chama viva de amor, a experiência da energia vivificante do Espírito Santo movendo todas as coisas.

Spiritus domini replevit orbem terrarum, alleluia. Et hoc quod continet omnia, scientiam habet vocis. alleluia.

Quando o homem se deixa conduzir pela fantasia e pelas paixões sem direcioná-las pela atenção do nous ao real ocorre não o êxtase em direção à unidade com a beleza mas a vertigem que aliena. O nous enquanto energia, enquanto atividade sutil de consciência se afasta do recolhimento, se afasta da sua essência (o coração) neste processo de manipulação egoísta do real pela ignorância e pela vontade escrava do ideal de domínio objetificante (que não percebe a realidade ambital, a possibilidade da troca, o outro ser como sujeito e substância, seja ele pedra, planta, animal, homem, obra cultural, ou outra realidade).

O encontro pessoal, a verdadeira compreensão através tanto da razão quanto da experiência de unidade com o real exige os dois pólos do bem: o pólo do recolhimento e o da difusividade (sístole e diástole do coração). Os dois pólos precisam estar presentes no homem noeticamente, ou seja, através da consciência atenta ao real. Essa atenção noética é verdadeiramente criativa quando unificada ao coração que recolhe as experiências e unificada pelo encontro aos âmbitos de realidade, aos seres que se apresentam comunicando um valor pela beleza. O encontro acontece somente quando os dois pólos simultaneamente interagem na atitude que mescla temor reverencial e piedade. O ser pessoal do homem para formar-se e configurar-se plenamente como ícone do divino precisa do encontro com o real nessa atitude.

Quando o homem não respeita com temor reverencial seu recolhimento próprio e o recolhimento próprio dos outros seres e se deixa levar pela fantasia desarraigada ele confunde o logos/razão na sua expressão imaginativa e conceitual com a intuição da verdade que só pode acontecer na intimidade do nous, do intelecto. Ao fazer essa confusão cria os dilemas sujeito-objeto, autonomia-heteronomia sem perceber como uma realidade distinta pode se tornar íntima. A partir disso desesperadamente busca uma forma de unidade. E, ao invés de atingi-la pelo êxtase, destrói-se e aos outros seres na objetificação doentia num processo de vertigem que mescla os âmbitos (destruindo sua unicidade e tratando toda a realidade como uma matéria quantificada medível e determinável por seu arbítrio) e os transforma em ídolos.

Quando porém não busca unidade através da piedade difusiva também sofre alienação do real. Ao buscar um recolhimento extremo de si o homem realiza parte do processo extático apenas e encontra ao negar-se a toda fantasia o vazio do seu próprio nous desligado do real. Nessa confusa experiência de luz e trevas pode identificar-se erroenamente com o divino e idolatrar seu próprio ego vendo nele uma partícula do verdadeiro real aprisionada num corpo.

É preciso fugir dessas duas formas de idolatria pela iconização dos âmbitos de realidade. O símbolo na sua ambiguidade constitutiva pode ser ídolo ou ícone. Pode ser patológico conduzindo as emoções e sentimentos para o âmbito do pathos, da paixão desordenada ou pode ser curativo e comunicativo de bem conduzindo as emoções e sentimentos para o âmbito do êthos (a configuração de uma segunda natureza no homem pela livre criatividade humana). Quanto mais espiritual o sentimento estético mais pode se associar à ética bem compreendida, mais a experiência da arte na configuração de ícones pode possibilitar a cura e terapia da alma na configuração do coração espiritual pela vocação pessoal, pela ética que se torna íntima e fonte de realização.

Saturday, November 04, 2017

Alguns textos do Magistério da Igreja sobre o problema da comunhão dos divorciados

O primeiro é documento do atual pontificado!!! 

Trecho de texto do então prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Müller, em outubro de 2013 (grifos meus):

"Também a doutrina da «epiqueia», segundo a qual uma lei é válida em termos gerais, mas nem sempre a acção humana lhe pode corresponder totalmente, não pode ser aplicada neste caso, porque a indissolubilidade do matrimónio sacramental é uma norma de direito divino, que por conseguinte não está na disponibilidade da autoridade da Igreja. Contudo, ela tem o pleno poder – na linha do privilégio paulino – de esclarecer quais condições devem ser satisfeitas antes de poder definir um matrimónio indissolúvel segundo o sentido que Jesus lhe atribuiu. Sobre esta base, a Igreja estabeleceu os impedimentos para o matrimónio que são motivo de nulidade matrimonial e preparou um pormenorizado procedimento processual.

Uma ulterior tendência a favor da admissão dos divorciados recasados aos sacramentos é a que invoca o argumento da misericórdia. Dado que o próprio Jesus solidarizou com os sofredores doando-lhes o seu amor misericordioso, a misericórdia seria por conseguinte um sinal especial da autêntica sequela. Isto é verdade, mas é um argumento débil em matéria teológico-sacramentária, também porque toda a ordem sacramental é precisamente obra da misericórdia divina e não pode ser revogada invocando o mesmo princípio que a sustém. Através daquela que objectivamente ressoa como uma falsa invocação da misericórdia incorre-se no risco da banalização da própria imagem de Deus, segundo a qual Deus mais não poderia fazer do que perdoar. Pertencem ao mistério de Deus, além da misericórdia, também a santidade e a justiça; se se escondem estes atributos de Deus e não se leva seriamente a realidade do pecado, não se pode nem sequer mediar às pessoas a sua misericórdia. Jesus encontrou a mulher adúltera com grande compaixão, mas também lhe disse: «Vai, e doravante não voltes a pecar» (Jo 8, 11). A misericórdia de Deus não é uma dispensa dos mandamentos de Deus e das instruções da Igreja; aliás, ela concede a força da graça para a sua plena realização, para se levantar depois de uma queda e para uma vida de perfeição à imagem do Pai celeste".



Trecho de documento de Joseph Ratzinger em 1994:

"7. A convicção errada de poder um divorciado novamente casado receber a comunhão eucarística pressupõe normalmente que se atribui à consciência pessoal o poder de decidir, em última instância, com base na própria convicção(15), sobre a existência ou não do matrimónio anterior e do valor da nova união. Mas tal atribuição é inadmissível(16). Efectivamente o matrimónio, enquanto imagen da união esponsal entro Cristo e a sua Igreja, e núcleo de base e factor importante na vida da sociedade civil, constitui essencialmente uma realidade pública.

8. Certamente é verdade que o juízo sobre as próprias disposições para o acesso à Eucaristia deve ser formulado pela consciência moral adequadamente formada. Mas, é igualmente verdade que o consentimento, pelo qual é constituído o matrimónio, não é uma simples decisão privada, visto que cria para cada um dos esposos e para o casal uma situação especificamente eclesial e social. Portanto o juízo da consciência sobre a própria situação matrimonial não diz respeito apenas a uma relação imediata entre o homem e Deus, como se se pudesse prescindir daquela mediação eclesial, que inclui também as leis canónicas que obrigam em consciência. Não reconhecer este aspecto essencial significaria negar, de facto, que o matrimónio existe como realidade da Igreja, quer dizer, como sacramento".



Ratzinger, respondendo a questões sobre o documento acima:

“a. Epiqueia e aequitas canonica são de grande importância no âmbito das normas humanas e puramente eclesiais, mas não podem ser aplicadas no âmbito de normas, sobre as quais a Igreja não tem qualquer poder discricional. A indissolubilidade do matrimónio é uma destas normas, que remontam ao próprio Senhor e por isso são designadas como normas de «direito divino». A Igreja também não pode aprovar práticas pastorais – por exemplo, na pastoral dos Sacramentos -, que estejam em contradição com o claro mandamento do Senhor. Por outras palavras: se o matrimónio precedente de fiéis divorciados recasados era válido, a sua nova união em circunstância alguma pode ser considerada em conformidade com o direito, e por isso, por motivos intrínsecos não é possível uma recepção dos sacramentos. A consciência do indivíduo está vinculada a esta norma, sem excepções”.



"Os sete sacramentos II: Matrimônio" (1647-48), de Nicolas Poussin