Wednesday, November 30, 2016

Profecias de Santa Hildegarda de Bingen, mística e doutora da Igreja

«Luz do seu povo e do seu tempo»: com estas palavras o Beato João Paulo II, Nosso venerado Predecessor, definiu Santa Hildegarda de Bingen em 1979, por ocasião do 800º aniversário da morte da Mística alemã. E verdadeiramente, no horizonte da história, esta grande figura de mulher se define com clareza límpida por santidade de vida e originalidade de doutrina. (Bento XVI, Carta Apostólica sobre Hildegarda de Bingen)


As profecias da mística alemã encontraram eco no Segredo de Nossa Senhora de La Salette.


Fonte: HILDEGARDA DE BINGEN. Scivias (Scito Vias Domini): Conhece os caminhos do Senhor. São Paulo: Paulus, 2015, pp. 727-734.


"30. Como o Anticristo enganará seus seguidores e por que isso será permitido

E dessa maneira, o filho da perdição praticará suas artes enganosas nos elementos, e mostrará neles a beleza, e a doçura, e o deleite desejados por aqueles a quem ele ludibria. E seu poder lhe será permitido com um propósito: para que os fiéis percebam, em sua fé, que o diabo não tem poder sobre os bons, mas somente sobre os maus, cujo destino é a morte eterna. De fato, o que quer que esse filho da iniquidade faça acontecer, ele o fará com poder, orgulho e crueldade, pois não tem misericórdia, humildade ou sabedoria; ele instigará as pessoas a segui-lo por sua dominação e pelas maravilhas que ele mostra. E ele angariará para si muitas pessoas, dizendo-lhes para fazer as próprias vontades e não disciplinar-se com vigílias e jejuns; ele lhes dirá que elas só precisam amar seu Deus, que ele fingirá ser, e, então, serão libertadas do inferno e obterão a vida. E elas, sendo assim logradas, dirão: 'Ó, ai dos miseráveis que viveram antes destes tempos! Na verdade, eles tornaram suas vidas miseráveis com horríveis penas, sem conhecerem, infelizmente, a amável candura de nosso Deus!'. Ele lhes mostra seus tesouros e riquezas, e lhes permitirá festejar como quiserem, confirmando seu ensinamento mediante sinais ilusórios, de modo que elas pensarão que não precisam disciplinar-se nem castigar seus corpos de algum modo. Ele lhes ordenará observar a circuncisão, as leis e costumes judaicos, mas mitigará para eles, quando quiserem, os mandamentos mais fortes da Lei, que o Evangelho, por digna penitência, converte em graça. E ele dirá: 'Quando alguém se converter a mim, eu apagarei seus pecados, e ele viverá comigo para sempre'. Ele lançará fora o batismo e o Evangelho de meu Filho, e zombará de todos os preceitos transmitidos pela Igreja. E ele dirá, com diabólica zombaria: 'Vejam que louco que era quem, por meio de suas falsidades, decretou que as pessoas simples deveriam observar estas coisas!'

[...] 

33. Henoc e Elias, e por que eles estão reservados para este tempo

Mas então, eu enviarei minhas duas testemunhas, a quem eu deterei até este tempo em minha secreta vontade: Henoc e Elias. Eles lhe oporão resistência e reconduzirão ao caminho da verdade os que se extraviaram. Eles mostrarão aos fiéis as mais fortes e sólidas virtudes; de fato, quando as palavras de seu testemunho, em cada uma de suas bocas, concordarem umas com as outras, eles aumentarão a fé de seus ouvintes. De fato, estas duas testemunhas da verdade foram reservadas durante muito tempo por mim, de modo que agora, quando elas aparecerem, seu discurso possa ser conservado e confirmado nos corações de meus eleitos, e através dele, a semente de minha Igreja possa sobreviver na humildade. E para os filhos de Deus, cujos nomes estão escritos no livro da vida, eles dirão:

34. As palavras deles aos filhos de Deus

'Ó vós, que sois justos e eleitos, e gloriosamente louvais as graças da vida bem-aventuradas, ouvi e compreendei o que confiantemente vos digo. Este amaldiçoado foi enviado pelo diabo para induzir ao erro as almas que se submetem a suas ordens. Nós fomos isolados deste mundo e reservados nos lugares secretos de Deus, de modo que não temos tido nenhuma preocupação ou angústia humanas; e fomos reservados e enviados a vós agora, a fim de que possamos contradizer os erros deste destruidor. Vede, portanto, se somos como vós na estatura física e na idade'.

35. Os verdadeiros sinais deles, pelos quais o Anticristo será humilhado

E todos os que optam por conhecer e confessar o verdadeiro Deus seguirão estas duas idosas testemunhas da verdade, portando o estandarte da justiça de Deus e abandonando o erro inquieto. De fato, elas estarão radiantes de louvor diante de Deus e das pessoas; elas se apressarão pelos povoados, estradas e cidades, onde quer que o filho da perdição tenha exalado sua doutrina perversa, e realizarão nelas sinais pelo Espírito Santo, de modo que todos os que virem se maravilharão enormemente. Esses grandes sinais, fundados sobre a rocha firme, serão dados a eles para que possam rejeitar os sinais perversos e falsos. Pois, assim como o relâmpago inflama-se e queima, assim o filho da perdição deveras realiza seus perversos atos de iniquidade, queimando as pessoas com suas velhacarias mágicas, tal como o raio queima. No entanto, Henoc e Elias infundirão o terror e lançarão fora toda a sua coorte, com o raio da reta doutrina, e assim fortalecerão os fiéis.

36. Como eles serão mortos com a permissão de Deus e receberão sua recompensa

Mas, pelo consentimento de minha vontade, Henoc e Elias serão finalmente assassinados pelo Anticristo; e, em seguida, eles receberão no céu a recompensa de seus labores. E as flores de sua doutrina murcharão, porque suas vozes cessaram no mundo. Contudo, eles produzirão fruto entre os eleitos, que desprezarão as palavras e os delírios das velhacarias do diabo, porque eles estão firmes na esperança de uma herança celestial. Salomão, falando de uma pessoa boa e perfeita, diz: 'Na casa do justo há abundância, mas o rendimento do ímpio é fonte de inquietação' (Pr 15,6). O que quer dizer: 

Na pessoa justa, o reflexo do olho de Deus é uma vívida morada interior onde o cansaço e miséria não existem; e o olho de Deus vê suas maravilhas nesta pessoa, como uma espada ansiosa por golpear. No entanto, os atos que se produzem como frutos que crescem do coração orgulhoso, o qual constrói a ruína em seus prazeres, só produzirão tristeza. Com efeito, o coração orgulhoso não confia naquela esperança que floresce na plenitude do céu.

37. O Anticristo, tentando aprender os segredos do céu, vai atacar a Igreja

Mas se vê que a cabeça monstruosa sai de seu lugar com tamanho impacto, que a figura da mulher é sacudida em todos os seus membros. Isso quer dizer que o filho da perdição, a cabeça da iniquidade, levantar-se-á, em sua grande arrogância e orgulho, do pequeno erro de sua inerente perversidade, e apoderar-se-á de um maior, querendo ser exaltado acima de todos os povos. E quando suas trapaças estiverem assim perto do fim, toda a Igreja e todos os seus filhos, pequenos e grandes, serão lançados em extremo pavor quando observarem a louca presunção dele. E uma grande massa de excremento gruda-se à cabeça que se eleva até o alto de uma montanha e tenta subir às alturas do céu. Com efeito, as poderosas patifarias do diabo, que trazem consigo tanta imundície, ajudarão o filho da iniquidade, concedendo-lhe as asas do orgulho e alçando-o a tão grande presunção, que ele pensará poder também penetrar os segredos do céu. Como? Quando ele tiver cumprido plenamente a vontade do diabo, e pelo justo julgamento de Deus seu grande poder para a iniquidade e para a crueldade já não tiver permissão para aumentar, ele reunirá toda a sua coorte e dirá àqueles que acreditam nele que ele quer ir par ao céu. Mas, assim como o diabo não sabia que o Filho de Deus nasceu para redimir as almas, assim também este, que é o pior dentre os homens, enredando-se no mal dos males, estará incônscio de que a mão poderosa de Deus está prestes a deferir-lhe um golpe.

38. O poder de Deus golpeará o filho da perdição e o enviará à condenação

E eis que, de repente, vem um raio que atinge aquela cabeça com tamanha força, que ela despenca da montanha e entrega seu espírito à morte. Pois o poder de Deus se manifestará e destruirá o filho da perdição, atingindo-o com tamanho zelo que ele cariá violentamente da altura de sua arrogância, em todo o orgulho com que ele se opôs a Deus. E, terminando assim, ele vomitará sua vida na morte da perdição eterna. De fato, assim como as tentações de meu Filho terminaram quando ele disse a seu tentador: 'Afasta-te, Satanás!', e o diabo fugiu aterrorizado, assim também agora, aquelas tribulações que o filho da iniquidade infligiu à Igreja terão um fim mediante meu zelo.

[...]

40. Quando o Anticristo estiver morto, a Igreja brilhará para chamar de volta os errantes

E eis que os pés da imagem da mulher reluzem de branco, brilhando com um esplendor maior do que o do sol. Isso quer dizer que, quando o filho da perdição jazer prostrado, conforme foi dito, e muitos daqueles que se haviam desviado tiverem voltado para a verdade, a Noiva de meu Filho, assentada sobre um forte alicerce, manifestará a pureza da fé e a beleza que ultrapassa toda beleza e as glórias da terra".




Tuesday, November 22, 2016

Dietrich von Hildebrand sobre a exegese bíblica

Traduzo aqui um excerto de Dietrich von Hildebrand (um filósofo e teólogo sem dúvida santo), do livro El Caballo de Troya en la Ciudad de Dios. 5a ed. Madrid: Fax, 1974, pp. 47-49 (os destaques das palavras não estrangeiras são meus):


"O trabalho de desemaranhar as conclusões e observações da ciência, e separá-las bem dos pressupostos e interpretações filosóficas, converteu-se hoje em dia em um trabalho mais urgente que nunca. Eis aí uma missão importante para os filósofos e teólogos cristãos. Ao realizá-la, esclarecerão que todas as contradições entre as descobertas científicas e a verdade revelada não são mais que contradições aparentes. Agora, a base própria da fecunda realização desta tarefa é uma fé inquebrantável na verdade revelada e uma sólida compreensão de sua incomparável primazia.

Este problema geral tem sua aplicação à exegese bíblica. Aqui também temos de distinguir entre distintos aspectos do esforço prático.

Em primeiro lugar está a exegese científica, baseada na investigação filológica e histórica, que trata de determinar o grau de correção das traduções e dos textos, ou a cronologia dos distintos Evangelhos, ou a autenticidade de algumas partes do Antigo Testamento, etc. Em segundo lugar está uma crítica exegética que se baseia em pressupostos filosóficos. A valoração da autenticidade histórica de algumas partes dos Evangelhos depende inevitavelmente do ponto de vista filosófico que cada um adote. Em terceiro lugar está uma exegese especificamente religiosa que estuda, v. g., o sentido das parábolas, e que aprofunda na inesgotável plenitude das palavras de Cristo.

A primeira é um labor verdadeiramente científico. Como toda exploração histórica e filológica, poderá progredir com o tempo. Mais ainda, tem o caráter de todas as empresas estritamente científicas, por quanto admite e inclusive exige o trabalho em equipe.

Mas o segundo trabalho não é um labor científico no mesmo sentido estrito. Se duvidamos da autenticidade dos milagres do Senhor, então não cabe dúvida de que a concepção filosófica desempenha um papel essencial em nossas próprias dúvidas. Se afirmamos que não temos de esperar que uma pessoa moderna creia na aparição corporal do anjo São Gabriel na Anunciação, então nossa posição não está apoiada -evidentemente- pela primeira classe de exegese: por uma exegese estritamente científica. A crença na improbabilidade, por não dizer na impossibilidade, dos milagres está baseada, não nos descobrimentos científicos, senão em certos pressupostos filosóficos. Existe, pois, o perigo de que concepções filosóficas errôneas, assim como também os preconceitos contemporâneos que tudo invadem, entremetam-se e dificultem a capacidade do homem para discernir a autenticidade histórica.

O terceiro tipo de exegese não é, em absoluto, de ordem científica. O valor das interpretações depende do gênio do teólogo individual, e especialmente de sua profundidade religiosa e de seu carisma. A interpretação de um Pai da Igreja, de um santo ou de um místico, tem muito maior interesse e peso que a dos professores de exegese. Uma penetração profunda na insondável profundidade das parábolas e ditos do Senhor não fica garantida por estudos científicos, senão pela intuição religiosa do indivíduo, ainda que submetido sempre ao endosso por parte do magistério infalível da Igreja (Hans Ur von Balthasar fez a luminosa observação de que, antes do Concílio Tridentino, a maioria dos grandes teólogos foram santos e místicos; enquanto que, depois de Trento, a teologia e o misticismo se cindiram). O terceiro aspecto da exegese, assim como outros ramos da teologia, não é, pois, científico, nem sequer na extensão moderada em que o é o segundo. Fazem faltas homens que sejam -pelo menos- homines religiosi, e não simplesmente professores.

Agora, a mudança que se exige em nossa época está relacionada unicamente com a primeira classe de exegese estritamente científica. No que se refere à segunda classe, não se trata -evidentemente- de um aggiornamento. O clima intelectual de nossa época é tal, que constitui uma ameaça para a sã aproximação aos milagres e acontecimentos sobrenaturais do Evangelho. Para apreciar a natureza desta ameaça, não faz falta senão que tenhamos em conta o fetichismo em que se converteu a ciência natural, o difundido que está entre os filósofos o relativismo histórico, todos os ataques que se fizeram contra o sentido real da verdade, e a confusão entre mito e religião que suscitou a escola bultmanniana da desmitologização. Tampouco pode aplicar-se a noção de aggiornamento ao terceiro tipo de exegese. Um grande homo religiosus, um santo e um místico dotado do dom da interpretação, pode aparecer em qualquer época da história. E o valor de sua exegese é completamente independente do curso da história".



Friday, November 04, 2016

Julián Marías sobre a questão de gênero

Não é bom que o homem esteja só (Gn 2,18). Homem e mulher ele os criou (Gn 1,27)



Traduzo aqui alguns excertos do capítulo "La condición sexuada" de MARÍAS, Julián. Antropología metafísica. Madrid: Alianza Editorial, 2000 (1a edição de 1970), pp. 120-127 (provavelmente o melhor livro de antropologia filosófica já escrito):


"Quando nasce um novo humano, o pai, a vizinha, a comadre ou o obstetra olham para ele e dizem: 'Um menino' ou 'Uma menina'. Mas antes, a mãe, as tias ou as avós haviam estado preparando roupa, azul ou rosa, segundo se esperasse -ou se desejasse- um varão ou uma mulher [...]. O que examina o recém nascido, proclama sua condição de menino ou menina depois de haver olhado seu corpo, concretamente seus órgãos genitais; mas esse recém nascido  é esperado por uma determinação social: vai ser vestido de azul ou de rosa, vai ser 'interpretado', desenvolvido, educado segundo essa condição que parecia meramente corporal e biológica. Aí está, se não me engano, a chave de todo o problema.

A evidente significação corpórea do sexo, a existência do que se chama um 'aparato genital', a presença do sexo no mundo animal e inclusive no vegetal, sua associação com o mecanismo da reprodução, tudo isto polarizou  em uma direção enormemente importante, mas particular, essa dimensão que chamamos, não sem ambiguidade, sexo. Há outra, revelada nesse mínimo detalhe social, que podemos chamar sua interpretação pessoal e projetiva. [...]

Há muitos anos venho utilizando uma distinção linguística do espanhol [também presente no português], que me parece preciosa: os dois adjetivos 'sexual' e 'sexuado'. A atividade sexual é uma reduzida província de nossa vida, muito importante mas limitada, que não começa com nosso nascimento e sói terminar antes de nossa morte, fundada na condição sexuada da vida humana em geral, que afeta à integridade dela, em todo tempo e em todas as suas dimensões.

Tão logo como se pensa um instante se adverte que isso que se chama 'o homem' não existe. A vida humana aparece realizada em duas formas profundamente distintas, mas desde logo duas realidades somáticas e psicofísicas bem diferentes: varões e mulheres [...]

O homem se realiza disjuntivamente: varão ou mulher. Não se trata, de modo algum, de uma divisão, senão de uma disjunção. Eu posso dividir bolas brancas e bolas negras em dois montões diferentes; esta divisão separa as bolas, fá-las independentes umas das outras: de um lado há bolas brancas, do outro bolas negras e nada mais: nas brancas não há negrura nem referência à negrura, nas negras nada de brancura. Agora, a disjunção não divide nem separa, mas ao contrário, vincula: nos termos da disjunção está presente a disjunção mesma, quero dizer em cada um deles; ou seja, que a disjunção constitui os dois termos disjuntivos.

[...] A condição sexuada, longe de ser uma divisão ou separação em duas metades, que cindisse meia humanidade da outra metade, refere uma à outra, faz que a vida consista em situar-se cada fração da humanidade diante da outra (e digo fração porque a sexualidade 'rompe' a totalidade humana em duas partes que se reclamam, cada uma das quais apresenta sua linha de fratura ou, o que é igual, sua intrínseca insuficiência).

A condição sexuada introduz algo assim como um 'campo magnético' na convivência [...]; a vida humana em plural não é já 'coexistência' inerte, senão convivência dinâmica, com uma configuração ativa; é intrinsecamente, por sua própria condição, projeto, empresa, já pelo fato de estar cada sexo orientado para o outro.

O homem e a mulher, instalados cada qual em seu sexo respectivo -literalmente respectivo, porque cada um o é a respeito do outro, cada um consiste em 'mirar' (respicere) o outro-, vivem a realidade inteira desde o mesmo. Esta instalação é prévia a todo comportamento sexual. É a forma de sensibilidade ou 'transparência' que afeta a essa forma de realidade que é a disjunção ou tensão sexuada, suposto de toda atividade sexual, como o sens ou sensibilidade em geral é o suposto de todo conhecimento. É o âmbito em que se originam comportamentos sexuais ou assexuais, mas, nunca 'assexuados', porque estes não existem. A condição sexuada, por ser uma instalação, penetra, impregna e abarca a vida íntegra, que é vivida sem exceção desde a disjunção em varão e mulher [...].

Quase toda a interpretação filosófica e ainda psicológica do homem, até há coisa de um século, havia omitido quase inteiramente esse fato fundamental da condição sexuada, provavelmente por falta de conceitos adequados para ver qual é seu lugar na realidade e, portanto, seu lugar teórico; enquanto a sexualidade é um fenômeno claro no âmbito da anatomia e a fisiologia, ou seja, biologicamente, na media em que o homem é um animal -ou redutível ao animal-, biograficamente se escapava. [...] Quando, a fins do século XIX, e por obra principal de Freud, o sexo adquiriu carta de cidadania na compreensão do homem, o naturalismo da filosofia que servia de suposto à interpretação freudiana do homem e da teoria da psicanálise turvou o descomunal acerto, absolutamente genial, de por o sexo no centro da antropologia. O erro concomitante foi o que poderíamos chamar a interpretação 'sexual' (e não sexuada) do sexo, o tomar a parte pelo todo, o reduzir a dados a realidade dramática e e vindoura da pessoa [...] Quando se fala de 'sexualidade infantil' sentimos um impulso de repugnância, e se se faz demasiado seriamente, parece-nos bastante cômico; mas nada disto ocorreria se se falasse da condição sexuada da criança, porque esta é evidente desde os primeiros meses, praticamente desde o nascimento, e toda a vida infantil está determinada por ela: o menino e a menina, ainda na medida, muito grande, em que são todavia assexuais, são já inequivocamente sexuados.

Talvez se objete contra esta doutrina da disjunção sexuada a existência do que se chama 'estados intersexuais'; ainda à parte deles, observa-se que ninguém é íntegra e exclusivamente varão, advertem-se componentes de cada sexo no oposto, ao menos em certas fases da trajetória vital. Creio que precisamente isto confirma a interpretação do sexo como instalação na realidade; por sê-lo, não é só um fato biológico, senão psíquico e social, e com uma significação biográfica. O meramente biológico são simplesmente os recursos ou condicionantes da vida sexuada; suas anormalidades podem afetar a condição sexuada, a instalação como varão ou mulher, mas isto depende de seu conteúdo concreto, de sua data e de como são vividas, ou seja, interpretadas pela pessoa afetada; ou seja, de sua significação biográfica. Ao revés, sem anormalidade biológica, a instalação biográfica pode ser 'anormal' -isto seria só um caso particular da 'anormalidade biográfica' em geral, que não é forçosamente mental ou psíquica ou psicossomática.

[...] Ser varão não quer dizer outra coisa que estar referido à mulher, e ser mulher estar referida ao varão [...]".




"Criação de Eva" (1509-10), de Michelangelo Buonarroti

Wednesday, November 02, 2016

Sobre certo "papismo"

Sem entrar no mérito de ações ou palavras concretas do atual pontífice, queria apenas indicar, em tese, algumas verdades que muitos católicos bem instruídos não vêem, quiçá devido à experiência dos pontificados de S. João Paulo II e Bento XVI:


1) O papa não é o "centro" da vida da Igreja, ele é a última instância; a Igreja, ao longo de sua história, não viveu pendendo constantemente das determinações romanas, embora a crise pós-conciliar tenha tido como resposta por parte de Deus os últimos dois papas.

2) Também a "graça do estado papal", por assim dizer, pressupõe a natureza; ele não tem, só pelo fato de ser pontífice, alguma espécie de "privilégio cognitivo e moral" nas circunstâncias ordinárias.

3) O papa não é necessariamente "a pessoa mais santa da Igreja"; algumas vezes foi das piores do mundo, como no caso de Estêvão VI ou Alexandre VI.

4) O papa não é necessariamente a "pessoa mais douta da Igreja"; raras vezes o foi.

5) O papa não é necessariamente a "pessoa mais prudente" (a de maior sabedoria prática) da Igreja.

6) A eleição pontifícia não é necessariamente uma "ação do Espírito Santo" ou "reflexo da Vontade de Deus"; ela é fruto da ação imediata das liberdades do Colégio Cardinalício, que pode ou não eleger de acordo com o Coração Divino.

7) O papa não tem um poder absoluto -o absolutismo não é um erro apenas na esfera da política temporal-, e "a necessidade de se submeter ao Sumo Pontífice" (da bula de Bonifácio VIII) se dá na medida em que isto signifique submeter-se a Cristo.

8) Aquilo de "ninguém pode julgar o papa" se refere à esfera canônica; quem é capaz, mesmo que não seja bispo, pode até ter o dever moral (quem poderá julgar sua consciência?) de analisar respeitosamente eventuais ações ou palavras de um papa.

9) O papado pode, eventualmente, ser a fonte das crises eclesiais; a promessa de Jesus a Pedro não impede que isso possa ocorrer, pois de fato já ocorreu historicamente, tanto no século IX, quanto no Renascimento.

10) Deve-se cobrir a nudez de Noé, mas pode ser necessário que uma criança veja e diga a nudez do rei.

"Papa Bonifácio VIII abençoando" (c. 1300), 
de Arnolfo di Cambio