Monday, April 18, 2016

A sabedoria de S. João da Cruz (dos Ditames de Espírito)

"[Ditame 1]
- em nenhuma outra coisa mostra alguém ser indigno de governo como mandando com arrogância; ao contrário, os superiores devem procurar que os súditos nunca se retirem tristes de sua presença"  (S. JOÃO DA CRUZ. Ditames de espírito, em Obras completas. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 68).

"[Ditame 5]
- há duas maneiras de resistir aos vícios e adquirir as virtudes; Existe uma maneira mais comum e não tão perfeita que consiste em procurar resistir a algum vício por meio de atos de virtude que se lhe opõe e que destrói tal vício, pecado ou tentação [...]
Há outra maneira mais fácil, proveitosa e perfeita de vencer vícios e tentações e adquirir e conquistar virtudes. Consiste no seguinte: a alma deve aplicar-se apenas nos atos e movimentos anagógicos e amorosos, prescindindo de outros exercícios estranhos; por este meio, consegue opor resistência e vencer todas as tentações do nosso adversário, alcançando assim as virtudes, em grau eminente.
- ao sentirmos o primeiro movimento ou a investida de algum vício, como a luxúria, ira, impaciência, espírito de vingança por uma ofensa recebida, etc., não procuremos resistir opondo um ato da virtude contrária, segundo ficou dito, mas desde os primeiros assaltos, façamos logo um ato ou movimento de amor anagógico contra o vício em questão, elevando nosso afeto a Deus, porque com essa diligência já a alma foge da ocasião e se apresenta a seu Deus e se une com ele. Ora, deste modo, consegue vencer a tentação e o inimigo não pode executar o seu plano, pois não encontra a quem ferir, uma vez que a alma, por estar mais onde ama do que onde anima, subtraiu divinamente o corpo à tentação. Portanto, não acha o adversário por onde atacar e dominar a alm; ela já não se encontra ali onde ele a queria ferir e lhe causar dano" (Ibid,, pp. 69-70, grifos meus).

Comentário: perceba-se que a alma cristã eleva o corpo, não se opõe a ele! O combate espiritual consiste menos, para o Doutor Místico, num esforço de nossa vontade contra o vício, do que num ato de amor dirigido a Deus. 


"[Ditame 6]
- o interesse pelo bem do próximo nasce da vida espiritual e contemplativa [...] a Regra fazendo-nos observar a vida mista e composta, teve em mira incluir em si e abraçar ambas, ativa e contemplativa. Foi esta que o Senhor escolheu para si, por ser a mais perfeita [...]
[...] a suprema perfeição de qualquer sujeito [...] é subir e crescer, segundo seus dotes e possibilidades, na imitação de Deus e naquilo que é mais admirável e divino -ser seu cooperador na conversão e transformação das almas [...]
[...] a compaixão pelo próximo cresce na medida em que a alma se une a Deus por amor. Porque, quanto mais ama, mais deseja que esse mesmo Deus seja amado e honrado por todos [...] estes possuídos por Deus não se podem contentar nem restringir apenas ao âmbito de seu proveito pessoal, antes, parecendo-lhes pouco irem sozinhos para o céu, procuram, com ânsias e celestiais afetos, com engenhosas diligências, levar também consigo muitas almas. Isto lhes provém do grande amor que têm a Deus e constitui fruto e efeitos próprios da perfeita oração e contemplação" (Ibid., pp. 72-73).

Comentário: como em S. Bento, ora et labora! Oração e apostolado! Apostolado como fruto da oração!


"[Ditame 7]
- duas coisas servem de asas à alma para que esta se eleve à união com Deus, a saber: a compaixão afetiva da morte de Cristo e a do próximo" (Ibid., p. 73).

"[Ditame 11]
- quando víssemos em nossa Ordem perdida a delicadeza, que faz parte da polidez cristã e monástica, e que, em seu lugar, reinasse a agressividade e a ferocidade nos superiores, vício esse próprio de bárbaros, devíamos deplorá-la como acabada. Porque quem jamais viu as virtudes e as coisas de Deus serem impostas a pauladas e com grosseria?
- quando os religiosos são formados sob a ação desses rigores, tão desarrazoados, vêm a ficar pusilânimes para empreender coisas grandes na virtude, como se tivessem sido criados entre feras [...]
- podia-se recear ser ardil do demônio formar os religiosos desta maneira, porque, formados com esse temor, não teriam os superiores quem ousasse adverti-los nem discordar deles quando estivessem em erro.
E que, se por esse caminho, ou por outro semelhante, chegar a Ordem a tal estado que aqueles, que estariam obrigados pelas leis de caridade e justiça, isto é, seus membros mais representativos, não ousarem dizer o que convém nos capítulos e juntas, ou em outras ocasiões, por fraqueza, pusilanimidade ou por receio de desgostar o superior e assim não serem escolhidos para desempenhar cargos - o que é manifesta ambição - tenham-na por perdida e por completamente relaxada" (Ibid., pp. 75-76).

Comentário: quanta diferença em relação a certos "pais fundadores" da atualidade...


"[Ditame 15]
- não há mentira tão disfarçada e artificiosa que, se a examinarmos bem, não venhamos a descobri-la de um jeito ou de outro.
Nem existe demônio transfigurado em anjo de luz que, bem observado, não dê a perceber quem é.
Nem há hipócrita tão engenhoso, dissimulado e fingido que, depois de poucas diligências e exames, não o venhamos a descobrir" (Ibid., pp. 76-77).




Santa Teresa e São João da Cruz

O pan(en)teísmo à espreita na metafísica de Duns Escoto

“113. [...] o ser se divide em infinito e finito, antes do que nas dez categorias, pois o segundo destes, isto é, o ser finito, é comum aos dez gêneros. Portanto, tudo o que cabe ao ser enquanto indiferente ao finito e ao infinito, ou como próprio ao ser infinito, cabe-lhe não enquanto restrito a um determinado gênero, mas anteriormente e, por conseguinte, enquanto transcendental e fora de qualquer gênero. Tudo o que é comum a Deus e à criatura é tal que cabe ao ser na medida em que é indiferente ao finito e ao infinito. De fato: enquanto cabe a Deus é infinito e enquanto cabe à criatura é finito. Portanto, cabe ao ser antes que se divida nos dez gêneros e, por conseguinte, tudo que é deste tipo é transcendental. 


114. [...] tudo que não tem nenhum gênero sob o qual esteja contido é transcendental. Donde pertence à natureza do transcendental ter somente um predicado superior, o ser. Mas é acidental ao transcendental que ele seja comum a muitos inferiores. 


115. Isto é evidente também pelo fato de o ser ter não só atributos simples conversíveis com ele como o ‘uno’, o ‘verdadeiro’ e o ‘bom’, mas também alguns atributos em que os opostos se distinguem contrapondo-se, como, por exemplo, ‘necessário ou possível’, ‘ato ou potência' e outros semelhantes. Ora, assim como os atributos conversíveis do ser são transcendentais porque derivam do ser enquanto não restrito a algum gênero, assim também os atributos disjuntos são transcendentais. E ambos os membros dessa disjunção são transcendentais, pois nenhum restringe o ser a um determinado gênero. No entanto, um membro desta disjunção é formalmente próprio, convindo apenas um dos membros a um determinado ser, como, por exemplo, o ‘necessário’ na divisão ‘necessário ou possível’, ou o ‘infinito’ na divisão ‘finito ou infinito’, o mesmo acontecendo com os demais. Assim também a ‘sabedoria’ e tudo o mais que seja comum a Deus e à criatura pode ser transcendental, embora alguns atributos deste tipo prediquem-se somente de Deus, outros porém de Deus e de alguma criatura. Pois não é necessário que o transcendental como transcendental predique-se de todo ser, exceto se for conversível com o primeiro transcendental, isto é, o ser” (DUNS ESCOTO, Opus Oxoniense I, d.8, q.3, nn. 113-115).
 
“139. [...] Deus não é naturalmente cognoscível por nós, exceto se o ser for unívoco ao criado e ao incriado, igualmente pode-se arguir a respeito da substância e do acidente. Pois se a substância não move imediatamente nosso intelecto a alguma intelecção dela, mas apenas o acidente sensível o faz, segue-se que não poderíamos ter dela nenhum conceito quididativo, a não ser que algo de tal possa ser abstraído do conceito do acidente. Ora, o único conceito quididativo deste tipo, abstraível do conceito do acidente, é o conceito de ser.


150. Portanto, em resumo, o ser é unívoco em relação a tudo” (Id., op. cit, d.3, q.3, n. 139 e n.150).

Para Escoto, o ser é “unívoco”, um conceito abstrato eminente do qual são derivados imediatamente o “ser infinito” (Deus) e o “ser finito” (criaturas), virtualmente contidos no primeiro. Trata-se de um problema metafísico, mas de uma metafísica em que a confusão entre ontologia e lógica, que será a marca da Modernidade, já se apresenta de modo incipiente. Como se o “ser” fosse independentemente de e indiferentemente a ser “finito” ou “infinito”. A consequência desse “logicismo” foi bem vista por Deleuze: a afirmação moderna de um monismo lógico-metafísico, cuja expressão mais nítida é a filosofia espinosiana, em que a única “substância” (ou "ser") se divide em "natureza naturante" (infinito) e "natureza naturada" (finito). Aliás, o paralelismo que Escoto traça entre o conhecimento do criado e do incriado, por um lado, e do acidente e da substância, por outro, é bastante emblemático do problema em que o filósofo franciscano meteu a filosofia cristã...

Em Escoto, a possibilidade da existência de Deus, enquanto “ser infinito”, é o ponto de partida de seu conhecimento (está à espera de um cumprimento real); mas não é assim efetivamente que se passam as coisas. A teoria de Escoto só pode ser construída porque ele está instalado num mundo que já conhece a existência de Deus ou do Ser Infinito real, seja pela fé (a maioria das pessoas), seja pela fé e razão (os teólogos), mas, em qualquer caso, partindo da experiência real (mesmo o “argumento ontológico” se apoia numa fé precedente, como vimos aqui: Anselmo de Canterbury e o argumento ontológicoe não de uma teoria sobre um suposto “ser unívoco” e suas virtualidades, o qual é, no máximo, uma possível conclusão filosófica, e não um legítimo ponto de partida.

Na realidade, é a apreensão do “ser ou substância finita” -o ser que nos envolve e que nós somos- o que exige, precisamente pela finitude de seu objeto, e por uma razão metafísica -os entes finitos não se auto-explicam no que tange a sua realidade-, a existência do Ser Infinito, como Fundamento da realidade ou ato de ser dos entes finitos. O problema das “5 vias” não é um problema “físico”, como considera erroneamente Escoto, pois nelas a consideração se dirige a aspectos metafísicos dos entes sensíveis: sua potencialidade, sua efetivação, sua contingência ou possibilidade real, sua graduação na ordem transcendental, a finalidade dos entes irracionais. A conclusão destas vias, que partem da realidade que nos cerca, chega a uma Realidade Suprema Fundamental, que enquanto fundamenta, “tem a ver" com o mundo, sendo seu Motor, Causa, Possibilitador, Paradigma, Ordenador; mas enquanto é um Ser Supremo, transcende nossa experiência e conhecimento: nós sabemos, após a conclusão das vias, que tem de existir um Ato Puro, um Incausado, um Necessário, um Perfeito, uma Providência, mas não podemos ter a menor ideia do que estas realidades sejam em si mesmas. Este “ter a ver” e “transcender” ao mesmo tempo é o que constitui a “analogia do ser”, que me parece ser a única maneira de estabelecer corretamente a distinção entre as coisas criadas e Deus, o qual é o Fundamento e Conservador imanente destas coisas e seu Criador transcendente.




Wednesday, April 13, 2016

Notas a partir do capítulo VIII da exortação apostólica "Amoris laetitia"

Questão fundamental: a nota 351, dado o contexto imediato do capítulo VIII, dá margem à interpretação de que é possível dar comunhão aos “recasados”, inclusive sem mudança de comportamento sexual?


Penso que o capítulo VIII pode ser resumido nos seguintes pontos (os que considero controversos são seguidos de comentários pessoais):


1) Existem circunstâncias que atenuam a gravidade do pecado.

2) Pode ocorrer que uma situação de pecado objetivo não represente culpa subjetiva.

Na nota 326, há uma citação descontextualizada do n. 51 de Gaudium et Spes, como se servisse para justificar as relações sexuais numa segunda união, quando, na realidade, o documento conciliar está se referindo à questão dos métodos de planejamento familiar de um casal “regular”.

3) Normas gerais podem não ser aplicadas em casos particulares.

Aqui, cita-se Tomás (S.Th. I-II, q.94 a.4), mas não se explica nem exemplifica (para que se possa ter um critério por analogia). O que Tomás diz é que uma norma pode ser descumprida quando não é razoável, e isto ocorre quando um valor maior está em jogo: o exemplo que ele dá é que não é preciso devolver um depósito se o mesmo for ser utilizado contra a pátria. Podemos pensar, por exemplo, no talvez dever de não dizer a verdade a um nazista sobre o paradeiro de um judeu, mas o pano de fundo leva a pensar que o critério poderia se aplicar à distribuição da Eucaristia a quem incorre no pecado objetivamente grave do adultério (poderia o mesmo ser “subjetivamente” escusável?).

4) Deve-se procurar formas de integração das situações "irregulares" (sem qualquer tipo de discriminação), nos vários âmbitos, incluindo o litúrgico; daí a nota 351 inclui a possibilidade de participação sacramental, sem fazer distinções, e mencionando passagens do magistério de Francisco sobre a penitência e a eucaristia (“remédio para os fracos”).

Pode-se dar uma interpretação ortodoxa, como, por exemplo, a de um propósito de continência ao menos temporária (sendo humanamente impossível garantir a perseverança), em que se realiza alguma prática penitencial e se recebe a eucaristia numa paróquia distinta da de origem. Mas também é possível interpretar o adultério como uma situação em que há ausência de culpa subjetiva...

Seria isto mesmo possível? Um casal que quisesse se aproximar da eucaristia teria de ter um propósito reto, e deveria buscar a verdade de sua situação; não há o direito a uma “consciência anestesiada”, ainda mais numa questão tão séria quanto a possibilidade de um sacrilégio/condenação eterna. Digamos que o recasado entenda que tem fortes motivos para duvidar da validade do sacramento recebido; neste caso, ainda assim, se ele mantém relações sexuais com seu/sua companheiro(a), ao não poder receber o sacramento do matrimônio (para tal, deve ser reconhecida canonicamente a nulidade do suposto sacramento), ele se encontra incurso numa situação de fornicação permanente. Em qualquer caso, portanto, deve buscar viver a continência (até que sua situação se regularize), para poder se confessar e comungar.

Friday, April 01, 2016

Vittorio Messori sobre o islã (4)

Islã/4

“Voltando a nossas ‘hipótese sobre Maomé’, queríamos seguir aprofundando desde os puros e simples dados da história (dos que já assinalamos bastantes) à reflexão da fé sobre estes mesmos dados. ‘Entre as sombras e os enigmas, olhando como num espelho’, como diria são Paulo, que reflexão se pode extrair do escândalo do extraordinário êxito de uma fé que proclama Jesus como um simples profeta já superado?

Em primeiro lugar, há que assinalar que a súbita irrupção desde a profundidade do deserto das hordas de cavalaria detrás dos estandartes de Maomé, ‘o último dos divulgadores’, inicia uma constante que se materializará sempre –e enigmaticamente– ao longo de toda a história da Igreja. Esta constante implica que o fechamento de uma região se acompanhe da abertura simultânea de outras regiões onde se revela a possibilidade de uma nova e abundante colheita missionária.

Assim, no próprio século VII em que o cristianismo perde a área meridional do Mediterrâneo, a Igreja realiza uma espetacular expansão rumo ao norte e o leste da Europa. Os territórios conquistados pelos muçulmanos na Ásia Menor e no norte da África se veem amplamente compensados pelos territórios evangelizados no oriente europeu por parte dos missionários saídos de Constantinopla, e no norte pelos enviados de Roma (quando a cristandade ainda permanecia unida).

Na Europa, a Igreja só cobria a península grega e a Trácia, assim como essa faixa, apenas por um corredor, que vai da Itália à Inglaterra passando pelos países francos.

Por causa dos primeiros êxitos muçulmanos, nunca na história se havia visto a cristandade reduzida a um território tão exíguo. E, entretanto, enquanto a cortina caía no sul, levantava-se no norte e no oeste, de modo que a cristianização do resto da Europa é tão rápida como o são as conquistas asiáticas e africanas do islã. O juvenil ardor dos cavaleiros de Alá lançados à guerra santa na Ásia e África corre em paralelo ao igualmente impetuoso esforço de evangelização –coroado por êxitos imensos, historicamente quase inexplicáveis – dos missionários de Jesus Cristo na Europa. Desde a Síria até a Mauritânia, caem submetidas ao poder muçulmano antigas Igrejas laceradas pelas intrigas heréticas; mas, ao mesmo tempo, veem-se emergir outras Igrejas completamente novas, fiéis, cheias de vida e carregadas de futuro. Para dar um só exemplo: quase no mesmo ano do desembarque islâmico na Espanha, esse monge inglês que tomará o nome latino de Bonifácio começa a evangelização da Alemanha, criando uma sólida Igreja, que foi exemplo de fidelidade a Roma durante quase mil anos.

Pois, como íamos dizendo, a dialética inaugurada nestas datas de ‘fechamento de uma porta e abertura de outra’, converter-se-á em uma constante da Igreja. Isso se comprovará, para citar um dos exemplos mais conhecidos, também no século XVI, quando a Reforma protestante deixará à Igreja uma área de influência tão exígua como a que teve depois das primeiras invasões maometanas. Mas também nesta ocasião, com uma perfeita simultaneidade que reflete o que se perdeu na Europa, ficou amplamente compensado com a abertura do Novo Mundo.

A presença católica se viu novamente reduzida ao mínimo nos inícios do século XIX por causa das tormentas jacobina, primeiro, e napoleônica depois, que devastaram quase tudo o que se havia construído em séculos de esforço. Europa, ademais, começava esse processo de afastamento do cristianismo que conduziria a uma secularização radical.

Entretanto, precisamente a partir deste pobre resíduo, a Igreja –por vez primeira em sua história– converte-se em verdadeiramente ‘católica’, ou seja, universal, com a expansão pelos ainda virgens territórios da África negra e do Extremo Oriente asiático. A cota mais alta de êxito missionário é obtida nas décadas nas que o papa, prisioneiro no Vaticano, medita fugir de Roma e a casta dos incrédulos burgueses europeus que têm o poder em suas mãos contempla com sarcástica compaixão uma Igreja que considera uma relíquia do passado, e em fatal processo de extinção. E, em contrapartida ,precisamente nesses tempos se dá uma expansão inaudita das fronteiras católicas.

Enquanto que no Ocidente europeu os ‘papista’ se veem desprezados quando não perseguidos, nesse Extremo Ocidente que é América do Norte, a Igreja passa de ter uns poucos milhares de fiéis a contar com um quarto total da população. Para dar outro exemplo extraído de nossa época, citaremos que o final, por causa da revolução comunista, da prometedora missão na China irá acompanhado da extraordinária (e imprevista) receptividade ao Evangelho da vizinha Coreia.

Existe, portanto, na história da Igreja uma dialética de ‘perda/conquista’, de ‘fechamento/abertura’ que constitui uma misteriosa constante que se inicia precisamente com a invasão islâmica [Nota do tradutor: na realidade, se dá desde o início: a destruição de Jerusalém é compensada pela conversão do Império Romano].

A conquista muçulmana de todo o litoral que vai de Anatólia ao estreito de Gilbraltar rompe, pela primeira vez, a unidade do Mediterrâneo: o Mare Nostrum, a bacia da livre circulação de homens, ideias e mercadorias. Europa já não tem laços de comunicação com África e Ásia, fechadas pelo muro islâmico. Bloqueada de tal sorte no sul e oriente, a missão cristã se vê obrigada a projetar-se para o norte e o noroeste. Um efeito do islamismo é a criação de uma cristandade compacta na Europa; e esta parte do mundo (como veremos) parece ser o objeto de uma atenção privilegiada e não casual nos misteriosos planos da Providência. Será talvez este ‘primeiro Europa e depois o resto do mundo’, um dos motivos ‘secretos’ que explicam o imprevisto bloqueio que a meia lua impõe à expansão missionária cristã?

Estátua de Carlos Martel
Um motivo de reflexão posterior é oferecido pelo fato de que enquanto as Igrejas da África e da Ásia caíram com a facilidade que vimos, a Igreja da Europa se salvou graças a dois autênticos milagres. David Knowels afirma: ‘Justo no momento em que a tenaz aferrolhava do oeste até o leste, a frota e o exército muçulmanos foram derrotados diante de Constantinopla (ano 717) e Carlos Martel dispersava aos sarracenos em Poitiers (ano 732). Europa esteve a salvo. Ao oeste, os Pirineus assinalavam o limite dos territórios muçulmanos. Ao leste, o Império bizantino pôde sobreviver ainda sete séculos, o que, por outro lado, permitiu a cristianização da Europa oriental, Rússia incluída. Se Constantinopla houvesse caído então, nunca teria sido possível divulgar a fé entre o Danúbio e os Urais’.

Mas esta é só uma prova do enigma colocado pelo islã. Haverá que voltar sobre o tema”.

[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 59-63; os grifos são meus, exceto o do nome latino]

* * *

Até agora, deixei Messori falar só; acrescento, pois, algumas notas ao presente texto:


1) A constante observada pelo arguto autor é mais uma das provas de que a Igreja católica é a Igreja de Cristo e a verdadeira Religião.

2) No mundo globalizado, as últimas “portas abertas” não mais se fecharão à Igreja de Cristo (cf. Ap 3,8).

3) Subjaz, nessa constante, a verdade de que aquelas regiões cristãs que sucumbem às heresias e se afastam do catolicismo, perdem a proteção de Deus.

4) Se os coptas (monofisitas) egípcios resistem e não temem nem mesmo o martírio, certamente não estão tão longe assim da Fé verdadeira, e terão sua recompensa.

5) O Império bizantino caiu, depois do cisma, mas a Igreja ortodoxa na Rússia resistiu até mesmo ao comunismo (os ortodoxos são Igreja em sentido próprio: têm verdadeiros sacerdotes e Eucaristia, ainda que não estejam em comunhão com o papa). Cumprir-se-á a profecia de Fátima?

6) A Europa ocidental secularizada, se não se converte (cf. Ap 3,20), talvez deva esperar o pior...