Thursday, May 19, 2016

Capitão América - Guerra Civil: A morte do pai como morte da fraternidade

Sempre esteve presente, nas HQ dos principais super-heróis da DC ou da Marvel, que têm sido levados ao cinema, o problema trágico, freudiano, da "morte do pai": o Superman, cujos pais morrem e que é um alienígena, o Batman cujos pais são assassinados (o mesmo se passando com seu pupilo Robin), o Homem-Aranha, órfão e que ademais perde o tio, o Capitão América, desarraigado de seu tempo.

Trata-se, também, da questão do existencialismo contemporâneo, de estar "arrojado no mundo", e de ter de "se virar", enfrentar as dificuldades afirmando nietzscheanamente a própria potência; não por acaso, o principal e mais poderoso super-herói dos quadrinhos chama-se Super-Homem. 

Trata-se, ainda, do homem que, perdido de Deus (o "Pai") e da tradição (o "mundo"), quer salvar os demais, porém carrega uma culpa e um fardo: "por que só eu sobrevivi à destruição do meu planeta?", "meus pais morreram porque me levaram ao teatro", "meu tio morreu porque eu fui omisso", "meu tempo e meus companheiros ficaram para trás". 

A culpa é abafada com as realizações heroicas, com a assunção da responsabilidade pela "salvação" dos demais (da mesma forma que o homem moderno se desentende de seus problemas pessoais no ativismo voluntarista). "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades", diz o famoso adágio do Aracnídeo (que tem uma participação simpática em "Guerra Civil")*. 

Mas quais os limites do uso do "poder"? O herói responde ante alguém ou algo? Pode "curar" sem estar "curado"?

Esta questão aparece no início do novo filme do Capitão América: o rastro de destruição deixado pelos Vingadores no seu combate contra Ultron (cf. "Vingadores 2: A era de Ultron"), bem como a morte acidental de inocentes causada pela Feiticeira Escarlate no início do novo filme, levam o Estado norte-americano a exigir o registro dos heróis -este tema da HQ "Guerra Civil" (que eu não li), levada ao cinema, apareceu primeiramente em "Watchmen" ("quem vigia os vigilantes?") e foi explorado também no excelente desenho animado "Os Incríveis". 

De certo modo, este é um retrato do mundo moderno: se não há um paradigma religioso para a ação moral ("Deus, o Pai, está morto"), é o Estado que virá suprir esta necessidade, estabelecendo seus limites ou condições.

Tony Stark se submete. Steve Rogers, não. O primeiro, magnata cientista e herói tecnológico, que virou o Homem-de-Ferro para salvar a própria pele; o segundo, alma verdadeiramente heroica -deixemos de lado o problema de se seu idealismo representa autenticamente a práxis política norte-americana-, cujo poder é um dom que excede suas capacidades física e intelectual, mas que expressa sua magnanimidade, seu desejo de dar a vida por outrem.

Rogers é de "uma outra época": de algum modo, ele sabe que o que é "certo" não depende da vontade do Estado; se ele participou como soldado na 2a Guerra, foi porque era justo combater o Eixo, ele não foi obrigado.

A partir daí, se desenvolve uma "guerra" entre os heróis, entre os "irmãos", numa trama em que o "assassinato do pai" é o pano de fundo, a condição para o conflito: o Barão Zemo mata o pai do Pantera Negra, incriminando Buck, o amigo do Capitão e agora Soldado Invernal; este, por sua vez, revela-se como o carrasco (agindo involuntariamente) dos pais do Homem-de-Ferro; o qual, por seu turno, matou acidentalmente a família de Zemo. O vilão percebe que os heróis, apesar de todo seu poder, podem ser derrotados se se tornarem inimigos e lutarem entre si. Semeia a discórdia, como o Maligno.

O herdeiro de Wakanda e o Supersoldado, entretanto, interrompem a corrente de ódio: o primeiro perdoa o verdadeiro assassino de seu pai e impede seu suicídio; o segundo, contém sua raiva quando está prestes a matar o amigo Stark, que feriu gravemente o principal amigo, Buck.

A lição que fica é contrária a de Totem e Tabu (Freud): a perda do pai não gera comunhão, mas conflito. Todos são de alguma forma culpados, mas não é uma culpa coletiva e impessoal que, por esta mesma razão, possa ser apaziguada pelos cúmplices; e tampouco cada um vê, inicialmente, o outro como um irmão que caiu no mesmo erro e que, portanto, merece perdão; um vê o outro como assassino, não há solução totêmica nem contrato social (Hobbes) que traga uma verdadeira cura ou salvação.

A solução é ver no rosto do outro o rosto de um irmão, isto é, é lembrar-se, de alguma forma, do pai. Levinas nos diz que o "rosto" do outro é um apelo ao "não matarás". Este é o limite do poder: o amor. O amor verdadeiro, que remete à herança comum: o "poder" não é meu, é um "dom" para o outro, não existe para a minha própria afirmação, mas para que o outro viva e descubra a possibilidade de arrepender-se junto comigo e de voltar à comunhão fraterna, isto é, participar novamente da vida do Pai.

Como se vê isso? O Pantera e o Capitão, que tinham uma relação autenticamente amorosa com o pai, a "pátria" ou o amigo, podem cair em si, e reconhecer o outro. Stark, ainda que não tivesse profundo amor pelos pais, não tem ódio no coração: na realidade, ele vive na superfície de seu ser, mas matou acidentalmente em Sokovia, e não é verdadeiramente um indiferente, como mostra sua preocupação pelo amigo James Rhodes (Máquina de Combate); até por isso, a Providência o impede de matar o Capitão e de ser morto por ele.

O Barão Zemo é um caso à parte. Mas antes de falar dele, gostaria de comentar sobre a atitude de Visão no filme. O androide, que é uma inteligência artificial, meramente lógica e não espiritual, "desculpa" a Feiticeira facilmente porque é incapaz de enxergar a realidade moral, porque seu horizonte é o materialismo determinista (o medo é meramente "uma ocorrência fisiológica"), como ocorre com o cientista ateu, quer seja da natureza, quer seja da sociedade; ele não tem uma "visão superior" ou imparcial das coisas, pelo contrário!

Já Zemo, o homem que montou o enleio, é alguém que faz da sua dor uma razão para matar e espalhar o caos: ele é o único que matou propositalmente e por vingança (curiosamente, a ele se aplica melhor o epíteto de "Vingador"), e que se auto-justifica em sua insanidade. É verdadeiramente uma imagem do Demônio, que não aproveitará a oportunidade dada pelo Pantera, e que nos permite compreender o caráter irremissível da culpa satânica.


* * *


* Curiosamente, há uma referência, do Homem-Aranha, ao (excepcional) filme "Império Contra-Ataca", da série "Star Wars", em que o problema de fundo também é a relação entre pai (Darth Vader) e filho (Luke Skywalker), sobre a qual gostaria de falar em outra ocasião.




Wednesday, May 18, 2016

Ainda a Amoris Laetitia

Tenho percebido algumas defesas improváveis de um possível acesso à comunhão dos recasados, sem necessidade de continência e confissão, como se esta situação de pecado objetivo pudesse ser atenuada por não sei que circunstâncias, de modo que não houvesse culpa subjetiva. Esta é uma interpretação gramaticalmente possível do capítulo 8 e em especial por causa da nota 351. A questão é se ela é teologicamente possível. A isso iremos agora.

A argumentação aduzida no referido capítulo já foi comentada aqui: Notas a partir do capítulo VIII da exortação apostólica "Amoris Laetitia"Ela é francamente bastante ruim, citando descontextualizadamente Tomás e algumas passagens do Magistério. Aprofundarei agora na objeção à possível interpretação da comunhão para os recasados.

Todo católico SEMPRE É RESPONSÁVEL por não guardar a fidelidade matrimonial: todo católico validamente casado soube suficientemente, no ato do matrimônio, quem era sua esposa e quais as obrigações em relação a ela (condição para a validez); e recebeu, no ato do matrimônio, as graças suficientes para não esquecer e cumprir suas promessas. Qualquer "esquecimento" posterior pode ser atenuado pelas circunstâncias, jamais justificado. O que pode existir é a dúvida sincera a respeito da validez do casamento e, então, o DEVER de esclarecer tal dúvida, jamais o direito de apoiar-se nela. 

O recasado pode efetivamente estar em "estado de graça" como pareceria dizer o papa? Apenas e tão somente se se entende este "estado de graça" em sentido análogo: ele tem as graças (virtudes teologais) da fé e da esperança (não está no inferno), vive uma experiência de verdadeiro amor humano, educa os filhos na fé, etc., mas sua opção não manifesta aquela "renúncia total a Satanás" requerida para a recepção de um sacramento, com o que não pode se aproximar da mesa eucarística; não poderá fazê-lo até que se decida a viver a continência para se confessar (mas o sentido fundamental de "graça" é o de "caridade": cf. Decreto sobre a Justificação do Concílio de Trento). 

A percepção disso traria muito mais consolo espiritual e seria uma pastoral muito mais misericordiosa (porque fundada na verdade) do que a interpretação possível de que o capítulo 8 da AL afirma que um recasado esteja na graça (da Caridade). A falsa polaridade: caridade (céu) x falta da mesma (inferno), esquecendo a existência do purgatório, gera, por um lado, o rigorismo e, por outro, o laxismo: ou se perde tudo ou se salva tudo.

Concedendo, por absurdo que me pareça, que uma situação permanente de pecado objetivo ("recasamento") seja um erro escusável por não sei que condicionamentos, essa situação só começou por uma ruptura CULPÁVEL com o  meu cônjuge real: não a separação, que não é necessariamente culpável, mas a minha primeira união carnal com a nova companheira; que depois isto tenha se tornado uma situação permanente, até em alguma medida resgatável (como eu já falei: existe ali um autêntico amor humano, a educação religiosa dos filhos, etc.), não implica que seja absolutamente resgatável ou justificável, pois o pecado inicial não é apagado ou compensado. 

Desde uma perspectiva pastoral: o sujeito recasado que sabe que seu casamento foi válido, e faz a comunhão espiritual, pode viver perfeitamente a seguinte experiência interior:"Meu Deus, eu sei que não vivo bem minha fé, eu sei que não sou digno de Te receber, mas não me abandona, fica comigo, perdoa-me, recebe-me...". Essa pessoa reconhece que não é capaz da Eucaristia, mas ela não está perdida. Poderá se salvar, mas PRECISAMENTE porque reconhece que seu lugar, aqui e agora, não é o de quem reflete a comunhão de Cristo e da Igreja! Esta é sua graça! Se exigir comungar, cai na soberba! Como os teólogos progressistas não veem isso?