Wednesday, June 21, 2017

Reflexões sobre a Amoris Laetitia

Coletânea de textos que publiquei por aqui:

Notas a partir do capítulo VIII da Amoris Laetitia [texto de 13/04/16]

Questão fundamental: a nota 351, dado o contexto imediato do capítulo VIII, dá margem à interpretação de que é possível dar comunhão aos “recasados”, inclusive sem mudança de comportamento sexual?

Penso que o capítulo VIII pode ser resumido nos seguintes pontos (os que considero controversos são seguidos de comentários pessoais):

1) Existem circunstâncias que atenuam a gravidade do pecado.

2) Pode ocorrer que uma situação de pecado objetivo não represente culpa subjetiva.

Na nota 326, há uma citação descontextualizada do n. 51 de Gaudium et Spes, como se servisse para justificar as relações sexuais numa segunda união, quando, na realidade, o documento conciliar está se referindo à questão dos métodos de planejamento familiar de um casal “regular”.

3) Normas gerais podem não ser aplicadas em casos particulares.

Aqui, cita-se Tomás (S.Th. I-II, q.94 a.4), mas não se explica nem exemplifica (para que se possa ter um critério por analogia). O que Tomás diz é que uma norma pode ser descumprida quando não é razoável, e isto ocorre quando um valor maior está em jogo: o exemplo que ele dá é que não é preciso devolver um depósito se o mesmo for ser utilizado contra a pátria. Podemos pensar, por exemplo, no talvez dever de não dizer a verdade a um nazista sobre o paradeiro de um judeu, mas o pano de fundo leva a pensar que o critério poderia se aplicar à distribuição da Eucaristia a quem incorre no pecado objetivamente grave do adultério (poderia o mesmo ser “subjetivamente” escusável?).

4) Deve-se procurar formas de integração das situações "irregulares" (sem qualquer tipo de discriminação), nos vários âmbitos, incluindo o litúrgico; daí a nota 351 inclui a possibilidade de participação sacramental, sem fazer distinções, e mencionando passagens do magistério de Francisco sobre a penitência e a eucaristia (“remédio para os fracos”).

Pode-se dar uma interpretação ortodoxa, como, por exemplo, a de um propósito de continência ao menos temporária (sendo humanamente impossível garantir a perseverança), em que se realiza alguma prática penitencial e se recebe a eucaristia numa paróquia distinta da de origem. Mas também é possível interpretar o adultério como uma situação em que há ausência de culpa subjetiva...

Seria isto mesmo possível? Um casal que quisesse se aproximar da eucaristia teria de ter um propósito reto, e deveria buscar a verdade de sua situação; não há o direito a uma “consciência anestesiada”, ainda mais numa questão tão séria quanto a possibilidade de um sacrilégio/condenação eterna. Digamos que o recasado entenda que tem fortes motivos para duvidar da validade do sacramento recebido; neste caso, ainda assim, se ele mantém relações sexuais com seu/sua companheiro(a), ao não poder receber o sacramento do matrimônio (para tal, deve ser reconhecida canonicamente a nulidade do suposto sacramento), ele se encontra incurso numa situação de fornicação permanente. Em qualquer caso, portanto, deve buscar viver a continência (até que sua situação se regularize), para poder se confessar e comungar.



Ainda a Amoris Laetitia [texto de 18/05/16]

Tenho percebido algumas defesas improváveis de um possível acesso à comunhão dos recasados, sem necessidade de continência e confissão, como se esta situação de pecado objetivo pudesse ser atenuada por não sei que circunstâncias, de modo que não houvesse culpa subjetiva. Esta é uma interpretação gramaticalmente possível do capítulo 8 e em especial por causa da nota 351. A questão é se ela é teologicamente possível. A isso iremos agora.

A argumentação aduzida no referido capítulo já foi comentada aqui [texto supra].
 Ela é francamente bastante ruim, citando descontextualizadamente Tomás e algumas passagens do Magistério. Aprofundarei agora na objeção à possível interpretação da comunhão para os recasados.

Todo católico sempre é responsável por não guardar a fidelidade matrimonial: todo católico validamente casado soube suficientemente, no ato do matrimônio, quem era sua esposa e quais as obrigações em relação a ela (condição para a validez); e recebeu, no ato do matrimônio, as graças suficientes para não esquecer e cumprir suas promessas. Qualquer "esquecimento" posterior pode ser atenuado pelas circunstâncias, jamais justificado. O que pode existir é a dúvida sincera a respeito da validez do casamento e, então, o dever de esclarecer tal dúvida, jamais o direito de se apoiar nela. 

O recasado pode efetivamente estar em "estado de graça" como pareceria dizer o papa? Apenas e tão somente se se entende este "estado de graça" em sentido análogo: ele tem as graças (virtudes teologais) da fé e da esperança (não está no inferno), vive uma experiência de verdadeiro amor humano, educa os filhos na fé, etc., mas sua opção não manifesta aquela "renúncia total a Satanás" requerida para a recepção de um sacramento, com o que não pode se aproximar da mesa eucarística; não poderá fazê-lo até que se decida a viver a continência para se confessar (mas o sentido fundamental de "graça" é o de "caridade": cf. Decreto sobre a Justificação do Concílio de Trento). 

A percepção disso traria muito mais consolo espiritual e seria uma pastoral muito mais misericordiosa (porque fundada na verdade) do que a interpretação possível de que o capítulo 8 da AL afirma que um recasado esteja na graça (da Caridade). A falsa polaridade: caridade (céu) x falta da mesma (inferno), esquecendo a existência do purgatório, gera, por um lado, o rigorismo e, por outro, o laxismo: ou se perde tudo ou se salva tudo.

Concedendo, por absurdo que me pareça, que uma situação permanente de pecado objetivo ("recasamento") seja um erro escusável por não sei que condicionamentos, essa situação só começou por uma ruptura culpável com o  meu cônjuge real: não a separação, que não é necessariamente culpável, mas a minha primeira união carnal com a nova companheira; que depois isto tenha se tornado uma situação permanente, até em alguma medida resgatável (como eu já falei: existe ali um autêntico amor humano, a educação religiosa dos filhos, etc.), não implica que seja absolutamente resgatável ou justificável, pois o pecado inicial não é apagado ou compensado. 

Desde uma perspectiva pastoral: o sujeito recasado que sabe que seu casamento foi válido, e faz a comunhão espiritual, pode viver perfeitamente a seguinte experiência interior: "Meu Deus, eu sei que não vivo bem minha fé, eu sei que não sou digno de Te receber, mas não me abandona, fica comigo, perdoa-me, recebe-me...". Essa pessoa reconhece que não é capaz da Eucaristia, mas ela não está perdida. Poderá se salvar, mas precisamente porque reconhece que seu lugar, aqui e agora, não é o de quem reflete a comunhão de Cristo e da Igreja! Esta é sua graça! Se exigir comungar, cai na soberba! Como os teólogos moralistas progressistas não veem isso?

  
A infeliz “Carta dos bispos argentinos” [texto de 15/09/16]

De acordo com o site InfoCatólica, os bispos argentinos, no último dia 8, dirigiram aos sacerdotes diocesanos e religiosos um documento intitulado Criterios básicos para la aplicación del capítulo VIII de Amoris Laetitiaem que escrevem, nos números 5 e 6, acerca da participação nos sacramentos das pessoas recasadas:

5) Quando as circunstâncias específicas de um casal tornam isso factível, especialmente quando ambos são cristãos com uma jornada de fé, se pode propor o empenho de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (cf. nota 329) e deixa aberta a possibilidade de acesso ao sacramento da Reconciliação quando eles falharem nesse propósito (cf. nota 364, segundo o ensinamento de João Paulo II ao Cardeal W . Baum, de 22/03/1996). 
6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando eles não puderem obter uma declaração de nulidade, a opção acima mencionada pode não ser viável de fato. No entanto, é também possível um caminho de discernimento. Se vier a reconhecer que, num caso concreto, há limitações que atenuam a responsabilidade e a culpabilidade (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considerar que cairia em uma falta ulterior prejudicando os filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes, por sua vez, dispõem a pessoa a continuar a amadurecer e crescer com o poder da graça.

O número 6 afirma que, em algumas circunstâncias, a opção da continência (mencionada no número anterior), "poderia não ser viável", e que, nesse caso, caberia um discernimento de situações em que os recasados, mantendo as relações sexuais irregulares, poderiam receber os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. 

A fundamentação é de um completo despropósito: a ideia de que a separação física do(a) novo(a) cônjuge e dos filhos da nova união (ilegítima) -é o que se supõe- seja uma "falta", no sentido de um pecado (grave) de irresponsabilidade, não procede, porque, por um lado, não é verdade que os deveres paternos contraídos nessa nova união não poderiam mais ser cumpridos, naquilo que é absolutamente necessário e justo; por outro, os vínculos de sangue não são mais obrigantes que os espirituais do sacramento (do matrimônio legítimo), e é precisamente numa situação assim que se pode entender mais claramente e cumprir o Evangelho do domingo retrasado: "Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26-27). 

O cuidado da nova configuração familiar -se o cônjuge recasado lutou pelo seu matrimônio-, a vivência, nele, de um verdadeiro amor humano, sem dúvida atenuam o pecado da situação irregular, mas não o desculpam absolutamente; é legítimo considerar que o sujeito não está no inferno, mas sua vida não reflete a renúncia ao pecado que se requer para a recepção dos sacramentos. O "tudo ou nada" de uma teologia superficial -que não entende bem o significado do purgatório- redunda ou em rigorismo (não o da proibição da recepção dos sacramentos, mas o da imaginação de que pessoas recasadas são "párias que se encaminham para o inferno", esquecendo-se da graça da fé e da esperança) ou em laxismo (o da proposta dos bispos).

Depois, a ideia de que a evitação desta suposta falta ulterior, por si só, cancelaria a culpa subjetiva do adultério objetivo é evidentemente absurda. Um pecado grave objetivo só pode ser absolutamente desculpado pelos condicionamentos psíquicos no exercício do ato pecaminoso; nenhum tipo de desculpa pode surgir de uma reflexão ou consideração formal sobre uma situação permanente, como os bispos supõem: uma tal reflexão deve chegar até o fim, à consciência do pecado e à graça do arrependimento, e o cuidado pastoral deve precisamente ajudar a que o fiel se encaminhe até esse ponto. Quem deseja verdadeiramente aproximar o pecador da Eucaristia não pode escamotear a verdade sobre a sua situação.

É inadmissível que, numa questão tão importante, os princípios revelados e o rigor (teo)lógico sejam preteridos, não pela caridade, mas por uma linguagem não científica e um psicologismo sentimentalista.

Tal interpretação da Amoris Laetitia, que sem dúvida é logicamente possível, tendo-se em conta as ambiguidades do capítulo VIII, é, contudo, teologicamente terrível: embora não se negue explicitamente o dogma da indissolubilidade do matrimônio, fá-lo indiretamente, ao propor, a partir de uma compreensão falaciosa da "razão errônea reta" e por uma superficial psicologia do ato moral, que uma pessoa recasada poderia não estar em pecado grave na nova união

Imaginem, agora, a seguinte situação: um sacerdote amasiado não consegue abandonar sua concubina, e crê, sinceramente, que não pode abandoná-la, porque essa situação traz para ele equilíbrio emocional (e que isso até é verdade!). Ele poderia se confessar e comungar sem sacrilégio, mantendo suas relações sexuais? Vejam, sua situação é objetivamente menos grave que uma nova união posterior a um casamento válido, porque o celibato sacerdotal é um conselho evangélico e uma disciplina eclesiástica, e não um mandamento de Cristo (e a fornicação, mesmo a de um ministro ordenado, é menos grave que o pecado de adultério). No entanto, esta situação seria passível de um "discernimento pastoral" análogo? Do ponto de vista da lógica interna aos critérios assumidos -que, reitero, são absurdos-, teria de ser!


Onde isso poderia parar? Numa completa relativização da noção de pecado grave...


Amoris Laetitia e a "situação irregular sem pecado" [texto de 12/12/16]

"Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada «irregular» vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante, etc." (AL 301) -vejam o parágrafo todo e o seguinte, aos quais meus comentários se referem.

A questão é se e quando se pode saber o contrário, oras!

Depois, "situação irregular" é um cavalo de troia. Porque este é um conceito análogo: se se refere a uma heresia ou cisma materiais, é evidente que o sujeito pode estar em estado de graça: o ortodoxo, o protestante, que já nasceram em comunidades separadas, por exemplo; também pessoas como as que formam a SSSPX.

Agora, se por solicitude ou diplomacia pastoral se chama a situação dos recasados de "irregular", ela não o é no mesmo sentido acima. Não havendo fundadas razões para duvidar da validade do primeiro matrimônio, não há como presumir razoavelmente que a pessoa não tenha, simultaneamente, culpa objetiva e subjetiva; não, muitas vezes, de se separar, nem, algumas vezes, numa primeira relação sexual com outrem numa situação de forte abalo emocional pela recente separação, mas sim no momento do estabelecimento de um novo vínculo carnal habitual (pensar que a consciência moral não a acuse neste momento, no caso dela não ter motivos para duvidar de que se casou validamente, e que o costume no pecado de uma pessoa nessa situação escuse completamente sua alma, é fruto de imaginação ou ignorância).

Havendo fundadas razões, pode-se presumir razoavelmente que a pessoa não esteja em pecado de adultério. Mas ela deve buscar a declaração de nulidade e confiar na Igreja. Se o Tribunal erra, ela deve confiar em Deus, que lhe dará graças extraordinárias, seja para realizar a abstinência sexual, seja para suportar a "abstinência eucarística". Isso é tão óbvio para quem tem fé, isto é revelado (Deus não nos prova além das forças), e é escandaloso que padres e bispos não creiam nisso [Pode-se também esperar alguma solução canônica extrajudicial, como apontado nos textos de Bento XVI que postei ontem].

Depois (a respeito das reflexões que se seguem na carta), a ignorância e a fraqueza têm um peso condicionante para tirar a culpa subjetiva só em consideração do arrependimento, imediato (que é praticamente "prova" da venialidade subjetiva do pecado) ou futuro.

Exemplificando, é como, numa analogia imperfeita, a questão da "ignorância invencível": ela não é uma ignorância "absoluta", mas é a precisa ignorância de quem se converteria a Cristo se ouvisse o anúncio acompanhado de testemunho (não a mera "informação" cristã ou evangélica, evidentemente), e de quem vai efetivamente se converter a Ele quando receber o anúncio (ainda que no purgatório).

Muito provavelmente, a inadvertência e a fraqueza, pelos condicionamentos psicológicos e a pressão externa, podem escusar quaisquer pecados objetivamente graves realizados pontualmente, talvez até o do adultério (mas não um esposo fdp que trai a mulher permanentemente com uma amante, evidentemente), pois pode ser que a voz da consciência moral fique abafada pela (in)consciência psicológica in actu exercito.

Nessa linha, os condicionamentos podem escusar, sendo bastante generoso, não a situação de pecado grave objetivo permanente ("recasamento"), mas, quiçá, atos sexuais pontuais dos recasados (pela paixão entre os cônjuges), ou as comunhões eucarísticas pontuais realizadas inadvertidamente neste estado (pelo desejo de estar junto a Cristo). Mas este fazer sexo e comungar sem pecado, ou a inimputabilidade subjetiva do pecado de adultério e sacrilégio, só existe pela ausência de advertência da consciência e da Igreja durante os atos.

O que não se pode assumir é que esta situação habitual possa ser reconhecida por um diretor espiritual não só como a possível de realizar (nisto se pode estar, ainda que relutantemente, de acordo), mas como o ponto de chegada do discernimento e da conversão, e como uma situação que denota a renúncia ao pecado requerida para confessar e comungar (que não é a certeza de que não haverá reincidência, de que o recasado não voltará a ter sexo com o novo cônjuge, mas a disposição sincera para tal).

O diretor espiritual que disser que ela pode comungar terá muito mais culpa evidentemente, estará arrastando muito mais a sua alma que a do recasado para o abismo.

Pode até ser possível que recasados de boa intenção, obedientes ao que entendem ser a orientação do papa e é a dos diretores, mas ingênuos e sem capacidade de compreender a situação, cometam seguidos sacrilégios inimputáveis. Mas esta situação é o caos e o abalo dos fundamentos da realidade! Conduzirá à instalação da mentira sobre o sagrado mistério do matrimônio na nave da Igreja, e à absoluta relativização da noção do pecado mortal.


Novas reflexões [textos de 15/01/18]

A interpretação liberal e relativista da Amoris Laetitia por vários prelados e moralistas, já instaurou uma confusão sem fim na vida eclesial. Só o Papa ou uma intervenção divina -da qual os prelados ortodoxos devem ser pelo menos o chamariz profético-pode pará-la, quiçá revogando inteiramente o capítulo 8 de AL (cuja argumentação tem problemas muito sérios), já que os argumentos ultrapassaram os limites mais estritos da fatídica nota 351.

O erro da tese é patente: eu posso efetivamente elocubrar, em princípio, e abstratamente, que alguém comete um ato objetivamente imoral sem culpa subjetiva, ou seja, sem uma adesão verdadeiramente real da inteligência e da vontade, por estas estarem obnubiladas (não perdendo, assim, a Graça na qual já se estava).


Mas, ainda considerando, hipoteticamente e contra a letra do Magistério precedente (Humanae Vitae, Veritatis Splendor), que não existem "atos intrinsecamente maus" (que sempre envolvem a vontade em malícia, independentemente das circunstâncias), eu jamais posso considerar:

a) que o ato inimputável é, por este fato, justo e meritório, ou justificável sem que esteja implicado o propósito de mudança de vida daí em diante.

b) que pode haver algum tipo de juízo moral "para a frente", do tipo: "vocês não puderam viver a castidade até aqui por motivos que escusam estas faltas objetivamente graves, então poderão continuar assim a sabendas sem pecar e podendo não confessar esta falta...".

Finalmente, é preciso considerar que a pessoa validamente casada -no exemplo originário, porque as interpretações já tomam rumos cada vez mais amplos-, deve ser fiel à graça do sacramento válido (que inclui a fidelidade e indissolubilidade). Então o nonsense da interpretação liberal é ainda mais patente: o sujeito está na graça do sacramento mesmo traindo a mesma!

* * * 

O conhecimento de um pecado inimputável (cometido sem culpa subjetiva) é, de modo geral, um mistério para quem o comete e para os pastores de alma.

Só Deus, e alguns santos especiais, têm o conhecimento do coração.

Agora, quem está numa situação de divórcio e recasamento, se fosse santo para se julgar, nem chegaria a pecar objetivamente, por óbvio.

Se o pastor é santo e vê, simultaneamente, a retidão do coração e a confusão psico-social que leva ao pecado objetivo, das duas uma: ou teria confiança para levar o fiel a esperar mais um pouco pela sua conversão consciente e efetiva; ou seria capaz de evocar esta retidão profunda -como Jesus diante da Samaritana- e levar o fiel a abandonar o pecado (objetivo) a partir deste encontro.

Jamais veria a Eucaristia como remédio!




Sunday, June 18, 2017

É o Diabo mero "símbolo" do mal?

Nota prévia: republico este breve artigo de teologia especulativa sem as considerações ainda mais especulativas sobre o problema da "predestinação" dos seres humanos, que estavam presentes na versão inicial.

* * * 

Se o Diabo fosse só um "símbolo", então a tentação de Adão teria de vir do mundo exterior ou de seu próprio interior. Assim, ele não teria sido criado no "paraíso" e/ou a inclinação ao “mal” (concupiscência) seria ínsita na natureza humana, e não fruto de seu primeiro (“original”) pecado, o que contradiz a doutrina católica (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 377). E como Adão é “semelhança” de Deus, (a inclinação a) o mal seria parte da própria essência divina! Em suma, alguma espécie de gnose que radica o mal na realidade absoluta (como a filosofia hegeliana, por exemplo).

Logo, a tentação teve de partir de um ser real, maligno, isto é, capaz de instilar malícia numa criatura ingênua (e não dos “adversários” que são o “homem velho” ou o “mundo”, que só surgem a partir do pecado original).

Mas essa solução não remete o problema à própria tentação do Tentador? 

Sim, obviamente remete, e a solução deste novo problema me parece ser a seguinte: indicar, contra o que parece ser a “Tradição” (mas que seria apenas uma “tradição teológica”, por mais que conte com a opinião de Sto. Tomás: cf. S.Th. I, q. 62, a.4), que os anjos que se tornaram demônios não foram criados "semelhantes" a Deus, isto é, com a graça santificante, mas com uma graça ou bondade natural, apta ou “suficiente” para responder ao chamado que Deus tinha para eles, mas não necessariamente “eficaz” (utilizo de modo livre as distinções que os tomistas fazem em relação ao tema da "predestinação"). 

A passagem do IV Concílio de Lateranense, de 1215 (Denzinger, n. 800) não proíbe esta interpretação; ela diz: "Com efeito, o Diabo e outros demônios foram por Deus criados bons em (sua) natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa" (aqui citado como no n. 391 do Catecismo da Igreja Católica; o Pe. Quevedo, em seu Antes que os demônios voltem, afirma falaciosamente que tal passagem do Magistério só especula teoricamente sobre supostos anjos caídos, mas não afirma sua existência de fato...). Aqui fala-se de uma bondade "natural", não necessariamente da graça santificante. Se os anjos pudessem ser tentados a partir dos próprios movimentos internos de sua inteligência e vontade (é a opinião do Pe. Fortea na questão 18 de sua "Summa Daemoniaca", e de Sto. Tomás, em S.Th. I, q. 63, a.7, ad3, mas considero-a errada pelos motivos que exponho), então haveria o mesmo problema levantado a respeito de Adão: uma integridade que não seria íntegra ou a necessidade de retroceder a um tentador externo. Se, no caso do homem, que a Escritura assinala explicitamente como criado à "imagem e semelhança" de Deus (cf. Gn 1,26), podíamos recorrer ao Diabo, no caso dos anjos caídos, não podemos retroceder a Deus, porque o Criador a ninguém tenta (cf. Tg 1,13), e tampouco prova alguém além de suas forças (cf. 1Cor 10,13).

Então, penso que é forçoso admitir que Deus não criou os anjos que cairiam num estado de natureza justificada pela graça santificante, mas criou-os com uma bondade e uma sabedoria naturais, e destinados a uma felicidade "inferior" à dos eleitos, mas não à condenação, o que é uma afirmação do calvinismo que julgo uma impiedade. Tal bondade e sabedoria, tal perfeição ou integridade naturais eram um verdadeiro dom e bem para estes anjos, não uma "pedra de tropeço" (é o que se depreende da leitura de Ez 28, 1-19). Não é necessário que Deus crie seres inteligentes para a beatitude sobrenatural, como afirmou Pio XII (cf. Humani Generis, n. 26), e tampouco é necessário pensar que a afirmação do papa se situe em âmbito meramente especulativo.

Que é exatamente esta graça "natural" ou "criada"? Pois é a Lei Natural! O reflexo da Lei Eterna Divina na criatura racional (cf. S.Th. I-II, q91 a2), a Sabedoria criada (cf. Pr 8,22; Sb 7,22--8,1), imagem do Verbo ou Sabedoria Incriada, princípio imediato de toda inteligibilidade prática e teórica, o próprio "Ser" criado. Todo ser pessoal, angélico ou humano, "começa" participando desta "graça", e por isso "não tem desculpa" (cf. Rm 2,15).

Vejam, isto não significa a exclusão do "Reino" ou do "céu", num sentido lato, até porque cai "uma terça parte das estrelas do céu" (cf. Ap 12,4), mas implica uma compreensão escalonada ou hierárquica da salvação e da participação do ser, que tem menos a ver com funções ou encargos -até porque o Diabo era um querubim (cf. Ez 28,14)-, do que com a capacidade de amar e de acatar a própria realidade doada por Deus; um réprobo poderia ter permanecido junto aos filhos diletos, desde que "guardasse sua morada" (cf. Jd 6) -os anjos caem por falta de "autonomia" (por desejarem voar além de sua condição). Ninguém "nasce condenado".

Se a "graça pressupõe a natureza" (cf. S.Th. I, q.2, a.3, ad1), as maiores graças supõem as naturezas mais perfeitas, e as naturezas mais perfeitas assim o são em vista de uma maior graça (Deus ama a todos, mas não ama a todos igualmente, porque não Se dá a todos igualmente; basta pensar em Cristo, Maria ou João...). Penso que isso (teo)logicamente exclui que o Demônio tenha sido criado como o "maior dos anjos" (contrariamente ao que afirma Sto. Tomás em S.Th. I, q.63, a.7, seguindo a opinião de S. Gregório Magno; penso que Ez 28, 1-19 pode ser perfeitamente explicado como foi feito acima). Ademais, se o seu pecado não destrói sua natureza (a essência e não o ato de ser ou a perfeição/o bem/o fim), o que a Revelação nos diz é que ele era "o mais astuto dos animais" (cf. Gn 3,1), o que não o coloca, precisamente, no cume da inteligência, que não deve ser confundida com a arte do estratagema ou a sabedoria nos negócios (cf. Ez 28,4-5).

Mas por que, afinal, ou em que sentido o pecado dos demônios é irremissível? Por que eles se obstinaram no mal? O movimento de seu espírito para o mal era incontornável? 

Se pensarmos que os anjos (que cairiam) não foram criados em estado de graça (entenda-se, santificante), então, como explica Tomás (apesar de que sua opinião é de que todo anjo foi criado na graça), "nada impede que se afirme haver um espaço de tempo entre a criação e a queda" (cf. S.Th. I, q. 63, a.6). O Pe. Fortea também opina que houve "tempo" (aevum) até a queda definitiva (cf. Summa Saemoniaca, q.1). Podemos legitimamente pensar que Deus -mesmo conhecendo de antemão o que ocorreria- continuou chamando (à felicidade proporcional à natureza deles) os anjos que entenebreciam o entendimento e o coração, até o ponto em que eles fizeram uma decisão irrevogável (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 393), como aquela que o homem faz antes da morte. Podemos até pensar que certos anjos foram quase enganados pelo Diabo e seus seguidores, mas retomaram o caminho (como, correlativamente, ocorre com muitos homens que se salvam no final), como também defende o Pe. Fortea (Ibid., loc. cit.). Enfim, podemos pensar numa "batalha" que decorreu, em que Miguel e seus anjos fizeram o que devia ser feito para demover os anjos indecisos e os (que se tornaram) maus, até o ponto em que estes últimos se instalaram definitivamente na sua aversão a Deus.

ratio essendi do caráter irremissível de sua culpa é, como se depreende da Revelação, que ela constitui uma "blasfêmia contra o Espírito Santo" (cf. Mt 12,31-32; Lc 12,10), que o Magistério a explica como "a recusa deliberada a acolher a misericórdia de Deus", que é "um endurecimento que pode levar à impenitência final e à perdição eterna" (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1864). 

ratio cognoscendi de sua obstinação é precisamente a sua ação tentadora ou maligna. Se os demônios se arrependessem (se pudessem se arrepender), a primeira atitude comprobatória seria a cessação de sua malignidade. Aquele que quer que o outro caia já perdeu toda luz e todo amor, mesmo naturais; não encontrou o sentido da realidade e não pode querer o bem para os demais, como o sr. Mersault de O Estrangeiro de Camus, que em seu último pensamento declara: "Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio". Ele não pode redimir-se com o recurso de "outras vidas" (a ideia espírita da reencarnação redentora), nem mudará de posição por toda a eternidade, pois recusou o bem de sua natureza, de sua criaturalidade, e não pode mais amar de modo minimamente pessoal.


A possibilidade do pecado mortal e da condenação nos homens depois de Adão se explica pelo pecado original originado e as concupiscências herdadas, sendo que é sempre a própria recusa definitiva, por parte do ser humano, da Lei Natural (fora do regime explícito da Graça) ou da Graça, que são causas da perdição, e não alguma espécie de positiva "predestinação" ao inferno por parte de Deus.


"São Miguel e Francisco" (1505-09), de Juan de Flandes

Wednesday, June 14, 2017

Alguns poemas de São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus

S. João da Cruz: Dos Romances Trinitários e Cristológicos


Romance 1o: Sobre o Evangelho In Principio Erat Verbum. Acerca da Santíssima Trindade


No princípio morava
o Verbo, e em Deus vivia,
nele sua felicidade
infinita possuía.
O mesmo Verbo Deus era,
e o princípio se dizia.
Ele morava no princípio,
e princípio não havia.
Ele era o mesmo princípio;
por isso dele carecia.
O Verbo se chama Filho,
pois do princípio nascia.
Ele sempre o concebeu,
e sempre o conceberia.
Dá-lhe sempre sua substância
e sempre a conservaria.
E assim, a glória do Filho
é a que no Pai havia;
e toda a glória do Pai
no seu Filho a possuía.
Como amado no amante
um no outro residia,
e esse amor que os une,
no mesmo coincidia
com o de um e com o de outro
em igualdade e valia.
Três pessoas e um amado
entre todos três havia;
e um amor em todas elas
e um só amante as fazia,
e o amante é o amado
em que cada qual vivia;
que o ser que os três possuem,
cada qual o possuía,
e cada qual deles ama
à que este ser recebia.
Este ser é cada uma,
e este só as unia
num inefável abraço
que se dizer não podia.
Pelo qual era infinito
o amor que os unia,
porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia:
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia.


Romance 2o: Da comunicação das Três Pessoas

E naquele amor imenso
que de ambos procedia,
palavras de grande gozo
O Pai ao Filho dizia,
de tão profundo deleite,
que ninguém as entendia;
somente o Filho as gozava,
pois a ele pertencia.
Mas naquilo que se entende,
desta maneira dizia:
- Nada me contenta, Filho,
fora da tua companhia.
E se algo me contenta,
em ti mesmo o quereria.
O que a ti mais se parece,
a mim mais satisfazia;
e o que em nada te assemelha,
em mim nada encontraria.
Só de ti eu me agradei,
ó vida da vida minha!
És a luz da minha luz!
És minha sabedoria;
figura da minha substância,
em quem bem me comprazia.
Ao que a ti te amar, meu Filho,
a mim mesmo me daria,
e o amor que eu em ti tenho,
nele mesmo eu o poria,
por razão de ter amado
aquele a quem tanto queria.


Romance 3o: Da Criação

Uma esposa que te ame,
meu Filho, dar-te queria,
que por teu valor mereça
estar em nossa companhia,
e comer pão numa mesa
do mesmo que eu comia,
para que conheça os bens
que em tal Filho eu possuía.
E se congrace comigo
por tua graça e louçania.
- Muito te agradeço, Pai,
- o Filho lhe respondia -
À esposa que me deres,
minha claridade eu daria,
pra que por ela veja
quanto meu Pai valia,
e como o ser que possuo
do seu ser o recebia.
A encostarei ao meu braço,
e em teu amor se abrasaria,
e com eterno deleite
tua bondade exaltaria.


Santa Teresa de Jesus: Das Poesias


Sobre aquelas palavras: "Dilectus meus mihi"


Entreguei-me toda, e assim
Os corações se hão trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

Quando o doce Caçador
Me atingiu com sua seta,
Nos meigos braços do Amor
Minh'alma aninhou-se, quieta.
E a vida em outra, seleta,
Totalmente se há trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

Era aquela seta eleita
Ervada em sucos de amor,
E minha alma ficou feita
Uma com o seu Criador.
Já não quero eu outro amor,
Que a Deus me tenho entregado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.


Feliz o que ama a Deus

Ditoso o coração enamorado
Que só em Deus coloca o pensamento;
Por Ele renuncia a todo o criado,
Nele acha glória, paz, contentamento.
Vive até de si mesmo descuidado,
Pois no seu Deus traz todo o seu intento.
E assim transpõe sereno e jubiloso
As ondas deste mar tempestuoso.


Eficácia da paciência

Nada te turbe,
Nada te espante,
Pois tudo passa
Só Deus não muda.
Tudo a paciência
Por fim alcança.
Quem a Deus tenha,
Nada lhe falta,
Pois só Deus basta.


Imagem: "A Virgem do Carmo" (c. 1522), de Moretto da Brescia



Fontes: 

JOÃO DA CRUZ, Obras Completas. Tradução das poesias de Carmelitas Descalças de Fátima (Portugal) e Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa (Rio de Janeiro). Petrópolis: Vozes e Carmelo Descalço do Brasil, 2002.

TERESA DE JESUS. Obras Completas. Tradução de Adail Ubirajara Sobral, Maria Stela Gonçalves, Marcos Marcionilo, Madre Maria José de Jesus. S. Paulo: Loyola, 1995.

Leitura orante (coletânea)

"Assim como a adoração eucarística prepara, acompanha e prolonga a liturgia eucarística, assim também a leitura orante pessoal e comunitária prepara, acompanha e aprofunda o que a Igreja celebra com a proclamação da Palavra no âmbito litúrgico. Colocando em relação tão estreita lectio e liturgia, podem-se identificar melhor os critérios que devem guiar esta leitura no contexto da pastoral e da vida espiritual do Povo de Deus" (Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini).



Primeira Semana do Advento (2016)


Primeiro Domingo do Advento

"Por isso, estais vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem" (Mt 24,44).

"Ideo et vos estote parati, quia, qua nescitis hora, Filius hóminis venturus est"

nescitis > nescio = v. "não saber", "ignorar", "não sentir", "não poder", "não ter a faculdade de"


Podemos jogar aqui: o advento definitivo de Cristo virá num momento que não sabemos/não esperamos (sentido literal mais imediato), mas também pode-se pensar que tal será um momento em que muitos cristãos e o mundo tornam-se "néscios", "pensam menos", "ignoram mais", fazem-se "mais insensíveis" ao chamado de Deus; a hora em que a Igreja parece estar "impotente" diante do mundo.

Poderá a imagem das virgens prudentes e insensatas referir-se a duas qualidades presentes na única Igreja?

Vigiemos e sejamos como as prudentes, guardando a luz que é a Fé preciosa dos Apóstolos, para que o Senhor nos encontre despertos (tema da 2a leitura da Carta aos Romanos).


Imagem: "O Juízo Final e as virgens sábias e néscias" (séc. XV), de um Mestre Flamengo Desconhecido


Segunda-feira da Primeira Semana do Advento



"Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. Por isso vos digo: Do Oriente e do Ocidente virão muitos sentar-se à mesa, com Abraão, Isaac e Jacob, no reino dos Céus" (Mt 8,10-11),


A liturgia hoje revela uma verdade que enche de esperança: fora de Israel, isto é, fora da Igreja, existem pessoas que têm fé muito maior do que muitíssimos cristãos. Mas se trata de uma autêntica fé que confia incoativa ou implicitamente no Deus Verdadeiro, que vive o amor na medida do conhecimento da Lei Natural.


A primeira leitura (Is 4,2-6), contudo, nos fala dos "sobreviventes e dos que restarem em Jerusalém". Isto é motivo de apreensão: eu me encontro entre os cristãos fiéis, isto é, aqueles que vivem no e desde o amor de Cristo? Eu estou me preparando para o encontro definitivo com o Senhor? O versículo imediatamente posterior ao último do Evangelho de hoje, que não entrou na liturgia, diz que "os filhos do Reino serão postos par afora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8,12).

Que sejamos contatos entre os que confiam no Senhor, como o centurião do Evangelho, entre os que praticam amorosamente a fé apoiados na graça.

Imagem: "Fé" (c. 1754), de Giuseppe Angeli



Terça-feira da Primeira Semana do Advento



"Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do teu agrado" (Lc 10,21).



Os "pequeninos" são os mais aptos para receber a Palavra de Cristo, porque não se fiam numa sabedoria humana que submete a Verdade a seus critérios imanentes; uma falsa prudência sempre pronta a evitar os riscos do amor, que calcula "possibilidades" desconhecendo as "potências" da Graça.





Que neste Advento a Palavra de Cristo sempre encontre uma terra fecunda em nossos corações, para que germine a Salvação já alcançada e ainda esperada em nossas vidas e no mundo.

Imagem: "Cristo abençoando as crianças" (1540), de Lucas Cranach, o Jovem


Festa de Santo André Apóstolo


"Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: 'Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.' E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no" (Mt 4,18-20).

André é o primeiro Apóstolo, como vemos em João, e é ele que chama Pedro (cf. Jo 1,40-41). Ambos seguem o Mestre "imediatamente".


Que também sejamos prontos, neste tempo do Advento, para abandonar o que nos enreda e acolher o chamado à conversão e ao seguimento de Jesus. Que como Santo André, sejamos novas "estrelas" que apontem para o Nascido em Belém, o Salvador do mundo.









Quinta-feira da Primeira Semana do Advento


"Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha" (Mt 7,24-25).


A Palavra de Cristo, guardada e anunciada pela fé apostólica na Igreja, e praticada amorosamente, é a rocha segura que nos salva das palavras do mundo, que são "flatus vocis", ventos e tempestades passageiras diante do Verbo Eterno e Encarnado.





Busquemos abrigo na Palavra que nos salva, e meditando-a e praticando-a com a ajuda da graça, tenhamos a segurança de que ela nos guardará do naufrágio da existência.


Imagem: "Paisagem de um litoral rochoso na tempestade" (1771), de Philip Jacques de Loutherbourg


Sexta-feira da Primeira Semana do Advento


"E abriram-se os seus olhos" (Mt 9,30a).

No contexto da liturgia de hoje (cf. Is 29,17-24), torna-se claro que as curas físicas que Jesus realizava eram "sinais" visíveis da cura interior: a "cegueira" pior e que pode ser trágica é a que corresponde à escuridão e às trevas de quem não vê a realidade, de quem não entende as Escrituras, sobretudo em virtude da presença uma falsa sabedoria naqueles que têm a missão de ensinar o Povo de Deus e anunciar a Palavra a quem não a conhece.


Aquele, contudo, que de coração busca o Senhor, como os cegos da leitura, e deseja ver, mesmo que por momentos seja um "espírito desnorteado" (cf. primeira leitura), não será defraudado por Cristo.







Imagem: "Cristo curando os cegos" (1682), de Nicolas Colombel


Sábado da Primeira Semana do Advento

"Ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36).

Jesus realiza a missão de sua primeira vinda num tempo em que os pastores de Israel não cuidavam bem de suas ovelhas, e condescendiam com as potências mundanas. 

Jesus sempre vem remediar a situação de Sua Esposa, curar as chagas abertas pelas heresias e pelas imoralidades dos eclesiásticos, através dos santos de todos os tempos. 

Haverá um momento previsto (o da "apostasia"), entretanto, em que as ovelhas estarão à mercê dos ladrões, como no tempo da primeira vinda, e que só a Sua intervenção pessoal salvará a Igreja e a humanidade definitivamente. 

Sempre devemos estar prontos para o encontro com o Pastor Divino, mas será que já não estamos vivenciando o momento da extrema fadiga e abatimento dos cristãos? Tenhamos esperança, porque, seja para reverter este quadro, seja para renovar de uma vez por todos a Criação, o Senhor não faltará!

Vem, ó Bom Pastor!

Imagem: "Paisagem com pastores e ovelhas" (c. 1621), de Pietro Paolo Bonzi



Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo


Missa da Noite (Evangelho: Lc 2,1-14):


"O anjo, porém, disse-lhes 'Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi" (Lc 2,10-11)


O anjo "evangeliza" (verbo no grego original e no latim da Vulgata), isto é, "anuncia uma boa nova, uma notícia alegre".

A "alegria" não deve ser confundida com o "prazer" (deleite físico), ela é o "gozo", um sentimento espiritual que é a própria "felicidade". Cristo é nossa alegria, nossa vida feliz! A tristeza é o sentimento -também espiritual- que se tem quando o mal triunfa. Mas a alegria venceu a tristeza! O Cristo, por sua Encarnação, começa a vencer o pecado, numa vitória que encontrará seu ápice na Cruz e na Ressurreição.

A alegre chegada do "Ungido" envolto em faixas remete à alegre notícia da ressurreição dada às mulheres que foram ungir o Crucificado envolvido pelo sudário. Os humildes e os piedosos participam da felicidade trazida pelo Senhor. Os soberbos e os indiferentes não são capazes de participar desta alegria...


Que sejamos como aqueles pastores e aquelas santas mulheres que não temem adorar o Verbo Encarnado! E como o anjo, anunciemos a Boa Nova: Nasceu o Salvador! Oh! Vinde adoremos!

Imagem: "Natal e adoração dos pastores" (c.1383), de Bartolo di Fredi



Missa do Dia (Evangelho: Jo 1,1-18):


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1,14)


"A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a visão de Deus" (S. Ireneu de Lião).

O que vale para toda pessoa humana deve ser dito de modo eminente de Cristo: Ele é o verdadeiro Homem (cf. Rm 5,14), a Vida (cf. Jo 14,6; 1Jo 1,2), o "Vivente" (cf. Ap 1,18), o "resplendor da glória do Pai" (cf. Hb 1,3). E pela sua Encarnação temos acesso a Deus, e já O vemos de certo modo pela fé e O veremos face a face como Ele é (cf. 1Cor 13,12; 1Jo 3,2).



Levemos a "glória" ("doxa"), a "fama" de Jesus a todo homem e mulher, para que nEle descubram a fonte da Vida, e neles resplandeça de modo mais fulgente o amor de Deus que em Cristo e no rosto amoroso de cada cristão se torna presente para transfigurar o mundo e preparar o Reino dos Céus.


Imagem: "Transfiguração" (1308-11), de Duccio di Buoninsegna



26 de dezembro: Festa de Santo Estêvão, Protomártir (2o dia na Oitava do Natal)

"Tende cuidado com os homens: hão de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas sinagogas. [...] O irmão entregará à morte o irmão e o pai entregará o filho. Os filhos hão-de erguer-se contra os pais e causar-lhes a morte. E sereis odiados por todos por causa do meu nome. Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo" (Mt 10,17.21-22).

Santo Estêvão, protomártir, foi morto por alguns da sinagoga, que ainda era parte da Igreja, até a destruição do Templo (cf. At 2,46), quando o antigo Israel se separou da raiz e do tronco da Verdadeira Religião, que são Cristo e os Apóstolos.

Também no tempo da Igreja (que durará para sempre e será completamente purificada no fim dos tempos), os eclesiásticos perseguiriam alguns cristãos valorosos: "irmãos contra irmãos". Pense-se em Joana D'Arc, João da Cruz, ou no Pe. Pio de Pietrelcina, perseguidos pela Inquisição, ou, hoje, na perseguição aos 4 corajosos cardeais que querem ajudar o Papa a manter a Igreja fiel a si mesma e a Cristo. "Filhos contra pais”: filhos na fé contra os antigos que nos legaram a Sagrada Tradição católica ["progressistas" serão tentados a pensar nos “cardeais contra o Papa”].

O verbo composto no grego original ("sereis odiados") indica uma ação continuada (e não apenas perseguições pontuais no futuro): em todo tempo e lugar haverá quem considere o Cristianismo um "mal" ("odiar" é tomar algo sentimental e praticamente como mau). Nosso tempo, contudo, nutre ou uma peculiar indiferença (que é uma das faces do ódio) ou uma peculiar perseguição (até de "dentro da trincheira", como indicado), às vezes velada e às vezes aberta e cruel.

É necessário “perseverar” (do latim), isto é, “atravessar severamente”: “severo” pode significar “inflexível” -do que se acusa os cardeais e os “conservadores” (sic)-, mas tem em sua raiz “vero”, “verdadeiro”; assim, perseverar é manter-se na Verdade, manter-se firme ou de pé -daí a tradução “stands firm” em inglês- na Verdade.

Que tenhamos a coragem de Santo Estêvão e de todos os mártires e confessores: que a Fé trazida pelo Recém-Nascido e que nasceu em nós no batismo possa sempre crescer e ser testemunhada sem temor.

Imagem: "Santo Estêvão" (1320-25) de Giotto


27 de dezembro: Festa de São João Evangelista

“[João] antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro [...] [Ele] viu e acreditou" (Jo 20,4.8).
O amor de João faz-lhe chegar mais rápido! Sua fé penetra mais profundamente nos sinais visíveis! -agudeza tal que lhe permitiu ser comparado à águia (cf. Ap 4,7).

Trata-se de um amor e de uma fé teologais que suplementam mas não dispensam sua dedicação (sua "corrida") e sua perspicácia -a graça pressupõe a natureza-; amor e fé que descobrem o Deus invisível nos pormenores, e que mergulha no mistério profundo de Jesus, o Verbo Encarnado -e até mesmo é capaz de perscrutar os rumos da história até o seu juízo final.

Ele se recosta no peito de Cristo como a escutar, no palpitar do Sagrado Coração, a Palavra Eterna escondida sob a humanidade do Mestre.

Que ao mirar o presépio nestes dias de festa, participemos do amor e da fé de João, que vejamos e amemos o Deus Conosco! Que intensifiquemos a esperança de um dia "ver, contemplar e tocar o Verbo da Vida" (cf. 1a leitura: 1Jo 1,1).

Imagem: "A visão de Jerusalém de São João Evangelista" (1636-37), de Alonso Cano


28 de dezembro: Festa dos Santos Inocentes

"Quando Herodes percebeu que fora iludido pelos Magos, encheu-se de grande furor e mandou matar em Belém e nos eu território todos os meninos de dois anos ou menos, conforme o tempo que os Magos lhe tinham indicado" (Mt 2,16).

Herodes é paradigma do poder político leviatânico, que não reconhece a primazia da autoridade religiosa, e que busca destruir sua influência sobre as pessoas -o que se faz, na Modernidade, através de todo tipo de propaganda mentirosa sobre a Religião cristã.

Herodes teme o Menino que veio reinar nos corações e dirigir-se a nossas liberdades, para nos tornar verdadeiramente livres, pelo conhecimento da Verdade (cf. Jo 8,32), de toda opressão do pecado e dos poderes políticos, os quais, mantendo as pessoas longe do desígnio amoroso de Deus, engana-as com as ilusões do ter, do prazer e da autossuficiência (as clássicas concupiscências), servindo, deste modo, ao Inimigo do gênero humano.

Que não temamos, se preciso for, seguir o exemplo daquelas santas crianças, dando a vida para defender os direitos de Deus, O Único que verdadeiramente preserva os direitos da pessoa humana, começando pelo primeiro de todos, sem o qual não se dão os demais, que é o direito à vida, tão vilipendiado em nossos dias pela sanha assassina dos novos herodianos que são os defensores do aborto, em nome de uma monstruosa concepção de "laicidade".

Viva o Menino Jesus! Vivam as crianças inocentes! Que nenhuma seja morta no seio materno, e que todas conheçam e amem o seu Redentor, vivendo uma existência digna!

Imagem: "Massacre dos inocentes" (1451-52), de Fra Angelico


29 de dezembro: 5o dia da Oitava do Natal

"Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: 'Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição..." (Lc 2,34)

Em sua Encarnação, da manjedoura à cruz, Cristo é sinal de contradição: o Deus e Rei do Universo começa deitado numa manjedoura entre animais num estábulo fora da hospedagem e termina pregado na cruz entre ladrões fora dos muros de Jerusalém (cf. Jo 1,11). 

Ele fez-se frágil (Lc 2,6-7) para que sejamos fortes (cf. 1Cor 16,13); tornou-se Filho do Homem (cf. Jo 1,14) para dar-nos a filiação divina (cf. Jo 1,12; 2Pe 1,4); fez-se servo (Fl 2,7) para tornar-nos amigos de Deus (cf. Jo 15,15) e seus herdeiros (cf. Gl 4,7); fez-se pobre para enriquecer-nos (cf. 2Cor 8,9); viveu virginalmente (cf. Mt 19,12) para desposar todas as almas (cf. Ef 5,32; 1Cor 6,17); teve fome (cf. Mt 4,2) e sede (cf. Jo 4,7; Jo 19,28) para alimentar-nos e saciar-nos (cf. Jo 6,55; Jo 7,37); viveu nossa angústia (cf. Lc 22,44) para ser nossa esperança (1Tm 1,1); assumiu nossas tristezas (cf. Jo 11,35; Mt 26,38) para dar-nos a felicidade divina (cf. Mt 5,3-11); fez-se maldição (Gl 3,13) para trazer-nos a bênção (cf. Ef 1,3); foi feito pecado (cf. 2Cor 5,21) para ser nossa santificação (cf. 1Cor 1,30); aniquilou-se (cf. Fl 2,7) para dar-nos a Vida (cf. Jo 3,15-16); deixou-se coroar de espinhos (cf. Mt 27,29) para dar-nos a coroa da glória (cf. 1Pe 5,4); desceu aos infernos (cf. 1Pe 3,18-19) para elevar-nos ao Céu (cf. Jo 14,3); partiu para o Pai (cf. Jo 13,1) para ficar conosco para sempre (cf. Mt 28,20).

Que nossas vidas sejam também cheias destas benditas contradições que redimem o mundo!

Imagem: "Simeão e Ana reconhecem o Senhor em Jesus" (c. 1629), de Rembrandt


30 de dezembro: Festa da Sagrada Família

"Morto Herodes, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.' Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel'" (Mt 2,19-21).

Para ouvir a voz do Anjo do Senhor é necessário ser puro de coração. Para cumprir prontamente a vontade de Deus é preciso o despojamento do espírito. Obediência, castidade e pobreza estão entrelaçados: não se tem uma se não se tem as outras.

De José (e de Maria) Jesus aprendeu humanamente a servir a Deus, aprendeu os conselhos evangélicos, que seu pai putativo vivia em altíssimo grau. Tais conselhos, na medida do estado de vida de cada um, são para todos.

Também as famílias cristãs são chamadas à santidade heroica, mesmo que este heroísmo seja silencioso como a figura de São José na Bíblia. O heroísmo de quem se levanta prontamente de madrugada para acorrer ao bebê que chora, de que quem corre com o filho dodói para o médico, de quem ouve com atenção a voz dos pequeninos anjos e do cônjuge, de quem educa os filhos na fé e nos valores cristãos, de quem reza todos os dias, de quem trabalha com espírito evangélico, de quem vive de modo extraordinário as coisas ordinárias, com aquele plus que é a caridade sobrenatural. A santidade de quem doa a vida para que os filhos e o cônjuge não sejam alcançados pelo mal e vivam em segurança junto a Deus!

Voltemos, famílias, a "Israel"! Convertamo-nos a Deus!

Jesus, Maria e José, minha família vossa é!


31 de dezembro: 7o dia da Oitava de Natal

"Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é o que O deu a conhecer" (Jo 1, 17-18).

A graça e a verdade vêm juntas: o que Jesus enuncia sobre Deus (a Verdade) se cumpre eficazmente em virtude do amor gratuito que Sua Encarnação significa e comunica. "Ciência" e "unção" (cf. 1a leitura: 1Jo 2,20). Não mais uma Lei de Santidade como horizonte ideal jamais alcançável, mas o Amor Encarnado que se deixa conhecer pelo anúncio da Palavra e nos enxerta nEle pelos Sacramentos.

Com Cristo temos acesso ao Pai e nos aproximamos com Ele do "trono da graça" (cf. Hb 4,16).


Imagem: "O Trono da Graça" (1510s), ("Mestre do Santo Parentesco [Holy Kinship]", pintor alemão)


1 de janeiro: Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

"Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno" (Lc 2,21).

O nome de Jesus indica a sua missão: a de Salvador. O Recém-Nascido cumpre a Lei: é circuncidado, indicando sua pertença ao Povo Eleito, no qual entrou através do seio imaculado da Virgem Mãe. 

A esta circuncisão corresponde, no tempo da Graça, o Batismo, pelo qual também as pessoas que não descendem de Abraão tornam-se "Povo", recebem o nome de "cristãos" e são feitos filhos de Maria (cf. Jo 19,27). 

Que circuncidemos o nosso coração (cf. Rm 2,29), isto é, que vivamos de acordo com o Espírito recebido no Batismo, como outros filhos da Virgem; que ela, assim, nos ajude a viver em conformidade com o seu Primogênito.

Feliz Ano Novo, junto ao Homem Novo, que é Cristo Jesus, o Filho de Maria!


Epifania

Quando a Igreja incorporou à Liturgia a celebração dos eventos relacionados à Encarnação, ao Nascimento histórico e à Manifestação (Epifania) de Nosso Senhor, considerava-se que a Epifania propriamente dita (a visita dos magos), o Batismo de Jesus e o Milagre de Caná (que no Missal tradicional ou "Forma extraordinária" é lido no "2o domingo depois da Epifania" e no novo Lecionário é lido no 2o domingo do tempo comum do ano C) constituíam como que uma só celebração. Por isso, seguem três meditações sobre passagens bíblicas correspondentes.


"Um astro brilhou no céu mais que todos os astros, sua luz era indizível e sua novidade causou admiração. Todos os astros, juntamente com o sol e a lua, formaram coro em torno do astro, e ele projetou sua luz mais do que todos. Houve admiração. Donde vinha a novidade tão estranha a eles? Então, toda magia foi destruída, e todo laço de maldade abolido, toda ignorância dissipada e todo reino foi arruinado, quando Deus apareceu em forma de homem, para uma novidade de vida eterna. Aquilo que havia sido decidido por Deus começava a se realizar. Tudo ficou perturbado no momento em que se preparava a destruição da morte" (Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, n. 19).











Solenidade da Epifania do Senhor

"Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. Onde está -perguntaram eles- o rei dos Judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l'O" (Mt 2,1-2).


Os "magos" são sábios orientais, provavelmente astrólogos, que, no entanto, não utilizam seu saber com afã de domínio, mas sim com o intuito de perscrutar a realidade para adorar a Realidade Absoluta. Sua atenção aos sinais é própria dos que são reverentes para acatar a realidade tal como ela se mostra, sem querer dominá-la e sem dissimulação, para adorar o Fundamento que se revela apenas aos pequeninos (os pastores) e aos verdadeiramente sábios (os magos)


Sua atenção já é busca e a vista da Estrela os move a buscar com afã ainda maior o Rei dos Judeus e de todo o Universo. Que sigamos os seus passos, e presenteemos o Menino com o Incenso de nossa oração e adoração, a mirra de nossos sacrifícios para chegar até Ele, e -que assim seja!-, ao final de nossa jornada, o Ouro de um coração santificado no e pelo Amor Encarnado.



Festa do Batismo

"Uma vez batizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado" (Mt 3,17).  

O que Deus disse a Cristo diz a nós no dia de nosso batismo: no Senhor Jesus somos feitos filhos amados de Deus! No Jordão o Salvador santificou as águas, para que elas nos comunicassem, por Seus méritos, a graça sobrenatural! Ele mergulhou na nossa humanidade para que saiamos com Ele das águas rumo ao Céu que Ele nos abriu! 

Deixemo-lO nascer cada dia em nossas vidas, vivamos com Ele, cresçamos com Ele em graça, morramos por e com Ele, ressuscitemos com Ele e apresentemo-nos diante do Pai repletos do Espírito Santo que Ele nos trouxe!












As bodas de Caná

"Foi este, em Caná da Galileia, o primeiro milagre que Jesus fez, manifestando, assim a sua glória; e os seus discípulos crerem nele" (Jo 2,11)

Os milagres, especialmente no Evangelho joanino, são sinal exteriores da íntima Vida Divina de Cristo, à qual, em sentido estrito, ninguém pode aceder. São manifestações que apelam mais imediatamente aos sentidos e à inteligência comum. Por sua Doutrina, Ele já se revela como o Filho de Deus, mas por causa da inteligência humana ferida pelo pecado, por um lado, e para manifestar a glória e a felicidade do Reino vindouro, por outro, Jesus nos proporciona estas graças mais visíveis e mais fáceis de entender. 

Que nós estejamos atentos, como a Virgem, às necessidades dos irmãos, e que nos aproximemos com Ela de Cristo, para "fazer o que ele nos disser", apresentando as nossas talhas e permitindo ao Senhor que Ele nos talhe, transformando a água da nossa humanidade no vinho inebriante de seu Amor!

Imagem: "Bodas de Caná" (1308-11), de Duccio de Buoninsegna


Meditações pela Quaresma


Quarta-Feira de Cinzas (Mt 6,1.3.6a.17-18)



«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 
[... ] Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita [...] 
[...] Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo [...] 
[...] Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto,
para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai [...] e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».



Classicamente, a Igreja ensina que a esmola é a obra que, com a graça, vence a tentação da riqueza ou a concupiscência dos olhos e nos reconcilia com os irmãos; que a oração é a obra que, com a graça, vence a soberba da vida e nos reconcilia com Deus; e que o jejum é a obra que, com a graça, vence o homem velho ou a concupiscência da carne e nos reconcilia conosco mesmos.


Mas o vencimento maior ou “transcendental” (que perpassa cada vencimento categorial) é o vencimento do “mundo” (da soberba da vida), e este é o sentido de “não praticar vossas obras diante do mundo”, ou seja, abdicar completamente de qualquer espécie de reconhecimento, ainda que justo: eu posso ser um verdadeiro homem de oração, um verdadeiro penitente e um verdadeiro despojado, mas enquanto eu quiser o reconhecimento dos demais (dos próprios irmãos cristãos!, que são os capazes de tal reconhecimento e funcionam como “mundo” para a nossa vaidade) não venci ainda o mundo com Cristo. Eu posso ter atingindo a mais pura castidade (6ª bem-aventurança), mas meu coração ainda não está em paz (7ª bem-aventurança). Atingir esse estágio (abrir mão sincera e profundamente de qualquer tipo de reconhecimento justo, como Cristo fez diante do Sinédrio e de seu Povo) é alcançar a “iluminação” em termos cristãos. É entender e poder dizer, com Santa Teresa D’Ávila, que “só Deus basta”.

É mais árduo renunciar a este reconhecimento do que à riqueza e à carne. No matrimônio, por exemplo, antes é menos difícil viver os atos conjugais sem sombra alguma de concupiscência do que não desejar o reconhecimento do cônjuge. Só o dele bastaria! Não, basta o do Pai, que vê no segredo.

A oração, portanto, é meio superior à esmola e ao jejum.

Que o Senhor nos ajude a viver esta renúncia, a única pela qual poderemos amá-lo definitivamente sobre todas as coisas!

Imagem: "Fonte batismal" (c. 1505), de Benedetto Buglioni



Primeiro Domingo 


"Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo” (Mt 4,1).

A preposição grega (ύπό) que é traduzida por "pelo" tanto em relação ao Espírito como em relação ao Diabo tem múltiplos significados no idioma original: por exemplo, por um lado, pode significar "debaixo de", "sob o domínio de", "ao abrigo de", "em companhia de"; por outro, pode significar "por meio de".

Essa riqueza de significados se perde na tradução. Assim, Jesus vai ao deserto protegido pelo Espírito para ser provado por meio de Satanás. 

Em português, parece que o Espírito está colocando Jesus numa situação difícil!, quando na realidade Ele acompanha Nosso Senhor para garantir a sua vitória na prova ou tentação. O Diabo é mero instrumento nas mãos de Deus, ele não tem o domínio da situação.

Nós também, se nos revestirmos da graça -e essa quaresma é mais um tempo forte de reconciliação e conversão que se nos oferece- e permanecermos em companhia do Espírito Santo, teremos a sabedoria para enfrentar e vencer as tentações dos demônios com a força da Palavra de Deus, como fez Jesus.

Imagem: "Três tentações de Cristo" (1481-82), de Botticelli


Segundo Domingo

"Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5)



Os verbos "audire" (latim da Vulgata) ou “αχούω” (grego original) significam, ademais de " escutar"/"ouvir", "atender", "obedecer".

A desobediência de Adão foi a causa do pecado que encheu o mundo de trevas. A obediência amorosa do Amado foi a causa da redenção que iluminou e transfigurou a criação. Ouvir e obedecer a Cristo é participar de sua obediência a Deus e, assim, transfigurar nossas vidas, tornando-as luz na Luz para esclarecer um mundo que rechaçou a notícia do Evangelho e optou por reeditar a escuridão pagã.

Que brilhe mais uma vez a vida e a imortalidade por meio do Evangelho! (2a leitura).



Solenidade de São José, Esposo da Virgem Maria

"José resolveu repudiá-la em segredo" (Mt 1,19).


A ideia de que S. José simplesmente abandonasse a Virgem secretamente, "em cumprimento da Lei", sempre me pareceu estranha, levando-se em consideração o epíteto "justo" e que a santidade dos Patriarcas do AT não é essencialmente diferente daquela do NT, e tendo em conta o fato de que S. José é o homem casado mais santo que já houve.

Ora, a tradução (ao português, mas também em outras línguas: o inglês traz, por exemplo, "to divorce her quietly" ou "to break the engagement privately"; o francês "rompre secrètement ses fiançailles"; o espanhol "decidió separarse de ella en secreto"; o italiano "rompere il fidanzamento, senza dire niente a nessuno"), e a exegese consequente, por mais "tradicional" (sic) que seja, parece-me partir de uma falta de compenetração espiritual com a atitude de um varão casado eminentemente santo.

Isso levou-me a buscar o verbo em latim e em grego: a Vulgata traz "dimittere", que pode significar "enviar, despedir, licenciar, remeter, abandonar"; o grego traz o verbo "Απολύω", que pode significar "desatar, desligar / resgatar um cativo / absolver / despedir / libertar" .

Ora, a melhor possibilidade, a mais plausível e condizente com a santidade de José, é a de que ele viveria com Maria, liberando-a ("licenciando-a" e "desligando-a" e não "abandonando-a" nem "repudiando-a") das obrigações maritais, pois não se julgava digno dela. Sendo "justo", não faz sentido pensar que fizesse algum juízo temerário, nem que fosse abandoná-la, pois então ela seria difamada ou ficaria desprotegida (o resultado do ato iria contradizer a suposta intenção).

O anjo apareceu-lhe para mostrar-lhe que ele era merecedor de Maria e que seria seu verdadeiro (e não só legal) esposo, ainda que numa conjugalidade virginal.

Imagem: "O sonho de José" (c. 1790), de Gaetano Gandolfi



Semana Santa


Domingo de Ramos: Evangelho da Entrada em Jerusalém 

"Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém" ["praecedebat ascendens Hierosólyman"] (Lc 19,28).

praecedere = caminhar a frente, preceder, anteceder, exceder, levar vantagem

ascendere = subir, escalar

Jesus vai a Jerusalém, onde será crucificado. Ele vai à frente, indicando o caminho da entrega, do sacrifício aos que o seguem. Excede, supera os sacrifícios dos judeus; escala a Cidade Santa terrena, tomando-a dos chefes corrompidos dos judeus, para abrir a Jerusalém Celeste a todos que o queiram seguir pelo caminho da cruz.

Imagem: "Entrada em Jerusalém" (1308-11), de Duccio di Buonisegna








Segunda-Feira Santa 

"Pobres, sempre os tereis convosco" ["Páuperes enim semper habetis vobiscum"] (Jo 12,8).

habere = conter, possuir, ocupar, trazer, conhecer, tratar, experimentar, considerar, avaliar, executar, tratar, habitar, morar, possuir

Certa reflexão diz que Jesus estaria afirmando que a pobreza é uma condição inerente à sociedade humana. Penso que, talvez, no máximo Jesus estaria profetizando que os esforços humanos não a debelariam na história (ao contrário do que afirma o comunismo), o que não implica que tais esforços não devam ser feitos. 


O importante, contudo, parece-me ser o seguinte: a Igreja deve estar junto aos pobres: os tereis convosco. Os pobres são a riqueza da Igreja (como disse o diácono S. Lourenço): a Igreja é seu lar, ela deve se ocupar com eles, trazê-los em seu coração, tratar deles, cuidá-los. Se não o faz, deixa-os à mercê dos magnatas avaros e das ideologias violentas que não resolvem os problemas econômicos. Mas a libertação econômica é um aspecto da salvação integral da pessoa, não coincide com esta (erro de certa teologia da libertação). Nem se deve opor o cuidado com Jesus ao cuidado com os pobres, pois Jesus era o Pobre da vez: despojando-se de sua infinita riqueza, cobriu-nos com os seus dons. Adorá-lo é uma questão de justiça, de devolver o que é dEle, de devolvermo-nos a Ele. Como é justo fazer os pobres participarem das riquezas que são de todos.


Terça-feira Santa (Jo 13,21-33.36-38)

“Um de vós Me entregará” [“Unus ex vobis tradet me”] (Jo 13,21).

tradere = entregar, trair, abandonar, transmitir, contar, encomendar

O mesmo verbo designa a ação de entregar enquanto "transmissão" e enquanto "traição". A missão da Igreja é entregar/transmitir o Cristo; mas isto só é possível a quem se entrega a/com Cristo. O que se resguarda, não se doa, entrega/trai Jesus, preferindo os próprios planos, como Judas. Que a cada Eucaristia, possamos oferecer-nos com o Senhor, e sair alimentados por seu amor, para transmiti-lo às demais pessoas.

Imagem: “A traição de Judas” (1304-06), de Giotto



Quarta-feira Santa 

“O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido” (Mt 26, 24).



Seria melhor (“bonum”, bom) para Judas não ter nascido. Mas o que seria pior que a não existência?! Uma existência frustrada. Não é possível defender a “apocatástase”. Nem devemos entender a ação do traidor como fruto de uma positiva predestinação de Deus, pelo fato de “estar escrito”. Que Deus preveja e permita a traição não significa que a tenha determinado, mas tão somente que Ele domina o curso da história, de modo que seus decretos se cumprem apesar do pecado e traição dos homens chamados por Ele; Deus os tem em conta e os inclui no plano da salvação. Como se diz: “escreve certo por linhas tortas”.



Imagem: “A traição de Judas” (1308-11), de Duccio di Buonisegna


Quinta-Feira Santa: Missa Vespertina da Ceia do Senhor 

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1).

Fim = termo, cabo, remate, conclusão; extremidade; morte; resultado; escopo, alvo.

Jesus ama até o fim, isto é, até o cumprimento pleno de sua missão; até o extremo, de modo supremo, perfeitíssimo, com um amor inigualável; até a entrega total de sua vida humana; até obter de Deus a salvação para os homens. Assim, ultrapassa/atravessa o limiar da morte física, pois esta não é mais o sinônimo do fracasso da existência humana que se voltou contra Deus, mas o coroamento de uma vida total e amorosamente consagrada ao Pai e aos homens, seus irmãos: Jesus é a “porta” (Jo 10,9) pela qual somos chamados a “passar”; não é por outra razão que a nossa última Eucaristia –sacramento que hoje é instituído, no qual Cristo se entrega ao Pai em sacrifício e a nós como alimento de amor– se chama “viático”. 

Que possamos morrer aos nossos pecados e misérias, e ressuscitar, desde agora, para uma vida nova na Casa do Pai, que Cristo nos franqueou.
Imagem: “A Última Ceia” (1320-25), de Giotto


Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor

“Quando Jesus lhes disse: ‘Sou Eu’, recuaram e caíram por terra” [“Ut ergo dixit eis: ‘Ego sum!’, abierunt retrorsum et ceciderunt in terram”] (Jo 18,6).



abire = ir-se, afastar-se, partir, desaparecer, abandonar, deixar (um cargo, uma função)

retrorsum = para trás, às arrecuas, reciprocamente


A prisão de Jesus, logo após o início de sua paixão (na Ceia e na agonia no Getsemani), parece indicar sua queda ou ruína; no entanto, ela mesma é manifestação de seu senhorio (“Sou Eu” é o Nome divino), que faz cair por terra o pecado e a iniquidade: estes são afastados, desparecem, retrocedem, desandam diante da grandeza do sacrifício de Cristo. 


A paixão e a queda (de um ponto de vista humano) de Jesus são a causa da queda recíproca do pecado e da morte, e do soerguimento humano, como a dignidade de Jesus, mesmo nesta hora dolorosa, exprime-o. Se com Ele morremos, com Ele ressuscitaremos!

Imagem: “A prisão de Cristo (Beijo de Judas)” (1304-06), de Giotto


Páscoa da Ressureição


Sábado Santo: Vigília Pascal


Primeira leitura e salmo

“E Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança [...]’.
E Deus vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1,26.31).

“Quão numerosas são vossas obras, Senhor, / e todas fizestes com sabedoria” (Sl 103,24).

As reflexões iniciais são bastante metafísicas, mas delas será extraído um sentido espiritual prático.

A obra de Deus é sábia (Salmo) e boa (Gênesis): Deus é Inteligência e Amor infinitos, é a Verdade e o Bem absolutos, porque Ele é o Ser absoluto, “Aquele que é”, sem mais (cf. Ex 3,14). Ser Perfeitíssimo, está plenamente presente a Si pela sua Verdade, que é o Verbo, e é absolutamente amável, é o Bem perfeito, o Espírito Santo.

Um Deus assim só poderia ter criado um mundo bom e que reflete a Sua Verdade. A pessoa humana, “imagem” de Deus por sua inteligência espiritual e sua vontade livre, está chamada a reconhecer, pela razão, a Deus como sua origem, para que reconheça sua natureza (de onde “nasceu”) e verdade, e a dirigir-se ao Criador como sua meta, para que O encontre como seu fim, isto é, seu Bem, Aquele que pode plenificar suas potências e trazer-lhe a felicidade. Para isto está no mundo, “bom”, reflexo da sabedoria e bondade divinas, que nos conduz ao reconhecimento agradecido do nosso Pai.

Imagem: “Criação dos animais e criação de Adão” (1432-36), de Paolo Uccello


Segunda leitura e salmo:

“Pela tua descendência se dirão benditas todas as nações da terra, em prêmio por me haveres obedecido” (Gn 22,18).

“Senhor, minha parte na herança e minha taça” (Sl 15,5).


A fé obediente de Abraão, como antes a de Noé, começa a reconstruir a amizade que havia sido perdida por Adão. Na Encarnação e na Cruz de Cristo esta obediência alcançou sua plenitude, e a bênção dos descendentes de Abraão se revela como a graça, como o próprio Deus, cuja presença e companhia serão herdadas pelos fiéis.

Imagem: “Anjo impedindo Abraão de sacrificar Isaac” (1636), de Rembrandt






Terceira leitura e salmo:

“Israel viu com que poder a mão do Senhor agira contra os egípcios, e o povo temeu o Senhor, e eles creram no Senhor e em Moisés, seu servo” (Ex 14,31).



“Vós conduzireis este povo e o plantareis sobre a montanha que vos pertence” (Ex 15,17).

O Senhor libertou o Povo Judeu do Egito como prefiguração da Páscoa de Cristo, que nos liberta das garras do pecado e da morte. Manifestou seu poder e conduziu o Povo à terra da liberdade, que consiste na adoração a Deus, como fala Bento XVI (“Introdução ao Espírito da Liturgia”). Mas "necessitou" de Moisés: Deus só age através de seus servos; se em Cristo nos fez seus filhos, temos a responsabilidade de manifestar, com nossas vidas, o poder salvador de Deus, com uma vida santa, que seja um convite para que as demais pessoas venham a crer, para que elas vejam que o sentido da vida é adorar o Redentor do homem.

Imagem:  “Passagem do Mar Vermelho” (1481-82), de Cosimo Rosselli


Quarta leitura e salmo:

“[...] no meu eterno amor me compadeci de ti, diz o Senhor, teu Redentor.
[...] Ainda que os montes se abalem e os outeiros vacilem, a minha clemência não se afastará de ti, e a minha aliança de paz não vacilará, diz o Senhor, que te quer bem” (Is 54,8.10).

“Sua ira dura um momento, seu favor a vida inteira” (Sl 29,6).


O Senhor Deus ama sua Igreja com amor esponsal. Apesar dos pecados e das traições, Ele morreu de amor na Cruz, e sua misericórdia, ainda que por vezes não encontre eco em nossos corações, não tarda em remediar nossas infidelidades. 

A situação da Igreja é muito difícil, parece que os homens não mais escutam a Palavra de Deus, muitos pastores cometem traições terríveis, os fiéis vivem de acordo com a mentalidade do mundo... Crucificamos o Senhor com nossa idolatria, nosso adultério, mas sua Aliança é eterna, Ele virá nos salvar!






Quinta leitura e salmo:

“Vós todos, que estais com sede, vinde às águas. Mesmo sem dinheiro, vinde comprar e comer. [...] Por que gastar dinheiro com aquilo que não alimenta, e labutar por aquilo que não sacia?” (Is 55,1-2).

“Bebereis com alegria a água nas fontes da salvação” (Is 12,3).

Buscamos saciar a sede de felicidade de nosso coração na água lamacenta do pecado, da mundanidade. Não reconhecemos, como aquele centurião, ao ver a água e o sangue jorrarem do lado de Cristo, que Ele é o Filho de Deus Salvador! Ou como a samaritana, que Cristo é quem revela a verdade sobre nós! Ao lado de Cristo, morrer é lucro, como diz S. Paulo! Longe dEle, vivemos em débito, malgastamos o bem de nossa vida, como o filho pródigo. Seu amor é uma fonte que não seca, e é gratuito, é a graça de Deus! 

Entreguemos nossas vidas nas mãos do Administrador Fiel, purifiquemo-nos na água viva de sua misericórdia!

Imagem: “Cristo e a mulher samaritana” (1308-11), de Duccio Buoninsegna


Sexta leitura e salmo:

“Por que, Israel, te encontras em terra inimiga, por que definhas em país estrangeiro [...]? É que abandonaste a fonte da sabedoria!
[...] endireita o teu caminho ao esplendor de sua luz” (Br 3,10.12-4,2b)

“A lei do Senhor é perfeita, faz a vida voltar; [...]
As decisões do Senhor são verdadeiras...” (Sl 18,8.10).

Como outrora chamava Israel, como outrora salvou o resto fiel, hoje o Senhor dirige estas palavras à sua Igreja, com a qual selou uma Aliança Eterna. Não pensemos que a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão significa que a Igreja conquistará, novamente, algum tipo de triunfo histórico. Isso não é necessário. As palavras do Senhor já se cumprem se existe um homem em estado de graça na Terra. Hoje, o mundo é um lugar inóspito para o cristão, perseguido de várias formas (inclusive fisicamente). Voltemos à luz, à sabedoria, à retidão, e o Senhor, que não abandona seus filhos, fará triunfar a verdade e a vida!

Imagem: “Judeus cativos na Babilônia” (1861), de Edward Harrison May


Sétima leitura e salmo:

“De todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos, eu vos purificarei. Eu vos darei um coração novo, e porei em vós um novo espírito. Eu tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” (Ez 36, 25b-26).

“Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 41,3).


Sem a graça de Deus, não podemos amar. Sem ela, não podemos viver nem mesmo de acordo com nossa natureza humana. Só no coração de Jesus habitou a plenitude da justiça, da santidade, e Ele, por Seu Espírito, redime-nos, purifica-nos do pecado; santifica-nos, comunica-nos Sua Vida divina; transforma nosso coração petrificado pela indiferença, num coração vivo e pulsante, que experimenta a dinâmica cruciforme da existência, doando-se aos demais, para que participem da vida no Espírito.

Imagem: “Sagrado Coração de Jesus” (1904), de Tarsila do Amaral





Epístola e salmo aleluiático:

“[...] pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4).

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 117,22).

Na Igreja primitiva, os catecúmenos eram batizados na Vigília Pascal, como hoje costuma-se fazer com os adultos. A Liturgia Pascal nos recorda que, para viver, é preciso dar morte ao pecado, descer com Cristo à água da pia batismal, que é uma pedra côncava, para recordar-nos que no batismo somos sepultados com o Senhor, e que esta pedra/pia é o fundamento da vida cristã para a qual emergimos. 

Imagem: “O Batismo” (1755), de Pietro Longhi


Evangelho

“Porque buscais o Vivente entre os mortos?“ (Lc 24,5)

A morte não pôde prender a Cristo. Ela tinha direitos sobre o homem, a partir do momento em que este recusou a Vida que é Deus; mas Jesus desceu aos infernos, à região dos mortos, e a morte não conseguiu retê-lo, pois Ele se mostrou digno da Vida de Deus. 

Como canta a Sequência da Páscoa: Mors et vita duelo / Conflixere mirando: Dux vitae mortuus, Regnat vivus (A morte e a vida, um duelo / tremendo, travaram: / o Rei da vida, morto, / reina vivo). Seu mérito infinito, pela união hipostática com o Verbo, estendeu sua vitória a todos aqueles que buscaram viver de acordo com a justiça, antes do advento da graça, e àqueles que ingressam e perseveram na fé do batismo.

Imagem: “Ressurreição de Cristo e as Mulheres junto ao túmulo", de Fra Angelico



Domingo da Ressurreição (Jo 20,1-9)

“viu e acreditou” [“vidit et crédidit”] (Jo 20,8). 


videre = ver, olhar, descobrir, compreender, examinar, observar, presenciar, desejar

credere = confiar, emprestar, crer, julgar

João, o discípulo amado, viu o sepulcro vazio e o sudário, e acreditou. Aqui temos um “ver” que não é como a de Tomé (Evangelho da Oitava da Páscoa), mas uma visão sobrenatural, de fé, que descobre, ao menor sinal, a presença viva do Senhor; uma fé que descobre o Deus invisível, porém certamente presente; fé que compreende o essencial a partir dos pormenores, e que assim, confia, crê, e pode passar a afirmar, com segurança, aquilo que não havia compreendido até então: que o amor é mais forte do que a morte, que a vida tem a última palavra.

Imagem: "Ressurreição" (1366-67), de Andrea da Firenze


Segunda-Feira na Oitava da Páscoa

“Jesus foi ao encontro delas, e disse: ‘Alegrai-vos!’ [...] ‘Não tenhais medo’. [...]
Os sumos sacerdotes reuniram-se com os anciãos, e deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: “Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo, enquanto vós dormíeis” (Mt 28,9.10.12-13).

A atitude dos sumo sacerdotes é a atitude de todos aqueles que, conhecendo a verdade ou, ao menos, entrevendo a razoabilidade da fé cristã, preferem o comodismo e, não querendo abrir mão das prerrogativas da vida mundana, mentem para si mesmos, desacreditam os discípulos de Cristo, “não entram e não deixam entrar”. 

O quanto nós, os cristãos, preferimos, não uma soma de dinheiro, mas os consolos baratos do mundo, ao invés de seguir Nosso Senhor até a cruz? Cristo ressuscitou!, anunciemos com alegria, sem medo da filosofia estulta que nega a transcendência teoricamente, sem apego à miséria do dinheiro que a nega na prática, e corrompe a dignidade humana.

Imagem: “A Ressurreição” (1577-79), de El Greco



Terça-Feira na Oitava da Páscoa

“Jesus disse: ‘Não me segures. Ainda não subi para junto de meu Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’” (Jo 20,17).


A frase de Jesus, “não me segures”, dita à Madalena, não é uma espécie de bronca, como se a ação dela fosse despropositada; mas é que, com a Ascensão, a humanidade de Jesus, assumida plenamente na divindade, seria dela, e de todo cristão, de modo permanente, e não mais transitório. O que Jesus diz, portanto, é: “logo, logo, ter-me-á ininterruptamente, e seu desejo de não mais se afastar de mim, será plenamente realizado, alcançará seu propósito”. Ao subir, Jesus não se afasta de nós, pelo contrário! Ele está agora, sempre próximo. Não o deixemos!

Imagem: “Ressurreição” (1304-06), de Giotto


Quarta-Feira na Oitava da Páscoa

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles. Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía.
Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: ‘Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?’” (Lc 24,29-32).


Resta qui con noi il sole scende già, / se tu sei fra noi la notte non verrà (“Fica aqui conosco o sol se põe já, / se tu estás entre nós a noite não virá”), diz o belo hino da 1ª JMJ (Roma, 1986). Aqueles que experimentam o coração aceso com as palavras do Evangelho, e com os olhos da fé percebem o amor infinito de Deus na Eucaristia, já não podem duvidar da realidade da Ressurreição!, já não podem viver sem anunciá-la! Para nós, o viver é Cristo! 

A noite do pecado se abate mais uma vez sobre o mundo... Vem, Senhor, volta para que todos vejam que as Escrituras se cumpriram, para que todos reconheçam o Sol de Justiça!

Imagem: “Estrada para Emaús” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Quinta-Feira na Oitava da Páscoa

“‘Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho’” (Lc 24,39).

Jesus ressuscitou, não é um fantasma! É a vida humana inteira, corpo e alma, que ressuscitam, não só a alma, cuja imortalidade a filosofia já conhecia. Pela Encarnação e pela Ressurreição, Jesus devolve à matéria em geral, e ao corpo humano em particular, a dignidade que o pecado obscureceu. O realismo da passagem do Evangelho (aqui, como na passagem da pesca milagrosa do final do Evangelho de João, Jesus chega a comer peixe!) é tal, que nos indica que mesmo a dimensão orgânica do corpo participará da glória e da incorruptibilidade (e não só a dimensão somática, pela qual o corpo é princípio da presença da pessoa aos demais e no mundo).

Imagem: “A incredulidade de S. Tomé” (1634), de Rembrandt


Sexta-Feira na Oitava da Páscoa

“Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’ Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu uma roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar” (Jo 21,7).

 Aquele mesmo que havia negado o Senhor três vezes por medo, revela o que há verdadeiramente no seu coração: uma fé diligente. Como antes se lançara ao mar para pescar, e fora ao encontro de Jesus que caminhava sobre as águas, agora se lança, não mais por necessidade ou por medo, mas por amor. Um amor que ainda não era perfeito, mas que já havia se decidido a não mais abandonar o seu Senhor. 

Que seu exemplo nos encoraje a não nos abandonarmos ao pecado, mas a sempre acolhermos com prontidão a misericórdia de Cristo, que não cessa de nos amar e chamar.

Imagem: “Aparição no Lago Tiberíades” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Sábado na Oitava da Páscoa

“Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado.
E disse-lhes: ‘Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!’” (Mc 16,14-15).

Os apóstolos não acreditaram nas mulheres nem nos discípulos de Emaús, e só S. Tomé ficou com má fama! Mas Jesus confia o anúncio do Evangelho a estes homens, e eles têm a primazia na Igreja. Eles viveram com Jesus, eles O amavam, e se ainda não acreditavam plenamente em Sua Palavra, não haviam matado a fé no seu coração, e por isso Jesus lhes aparece, para devolver-lhes a confiança praticamente perdida. 


Que não permitamos que o nosso coração se endureça a ponto de não mais reconhecermos o Cristo que Se manifesta.

Imagem: “Aparição aos apóstolos” (1308-11), de Duccio di Buoninsegna


Domingo na Oitava da Páscoa (Domingo da Misericórdia)

“‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos’” (Jo 20,22-23).

Fruto da Páscoa, da passagem da morte à vida, é o perdão dos pecados, obtido objetivamente na Cruz, mas que é aplicado subjetivamente através do sacramento da penitência da Igreja. Para que sejamos perdoados, precisamos ser humildes, para reconhecer nossos pecados e confessá-los ao sacerdote, delegado do bispo (sucessor dos apóstolos), além de cumprir a penitência imposta, que tem por finalidade não o perdão, mas a reparação das consequências do pecado na vida do fiel e da Igreja; são estas consequências que o fiel deverá sanar no purgatório, caso não se santifique plenamente, e é a elas que se aplicam as chamadas indulgências.


Imagem: “Os sete sacramentos II: Penitência” (1647), de Nicolas Poussin


Solenidade da Ascensão do Senhor

"Eu estou sempre convosco até o fim dos tempos" (Mt 28,20).

Se Cristo, que é Deus, está conosco, então a empresa cristã não tem como não dar certo! 

Não devemos temer (cf. Lc1,28-30; Discurso inaugural de S. João Paulo II de 22/10/78)!

O "fim" se diz "consummationem" na Vulgata, isto é, "realização"; "Συντελείας" no grego, "acabamento". 

A obra iniciada na Encarnação (cf. Hb 10,5-7) e consumada na Cruz (cf. Jo 19,28) também se realizará em nós (cf. Fl 1,6) e por nós renovará definitivamente o mundo (cf. Rm 8,19)! 

Não nos afastemos de Jerusalém (cf. 1a leitura: At 1,4), isto é, da Igreja, e com o auxílio do Espírito de Cristo prometido, sejamos suas testemunhas!


Imagem: "Ascensão de Cristo" (c. 1300), de Giotto

Solenidade de Pentecostes


"Soprou sobre eles e disse-lhes: 'Recebei o Espírito Santo..." (Jo 20,22)
Jesus "sopra" o Espírito Santo sobre os Apóstolos e, através deles e de seus sucessores, sobre nós. Vejamos três significados de "soprar":

a) A ação de soprar remete à "espiração" eterna do Espírito Santo (pelo Pai e pelo Filho): Jesus ao nos dar Seu Espírito, que é o Espírito do Pai, torna-nos partícipes da Vida íntima de Deus, insere-nos na comunhão eterna do Amor.

b) Também dizemos "soprar" quando cochichamos um segredo: o Senhor comunica Seu Espírito à Sua Igreja, representada pelos Apóstolos, comunicando também os Divinos Mistérios da Fé que devem ser conservados e aprofundados ao longo da história da Igreja, com o auxílio do Paráclito, até a consumação dos séculos.

c) Soprar pode também significar atear, aviva as chamas: Jesus acende em nós uma Flama que devemos comunicar aos demais através do apostolado e da caridade, com a força do Espírito.

Que em companhia da Virgem Santíssima, a Mãe dos Apóstolos, recebamos o Espírito do Senhor!

Imagem: "Pentecostes" (1732), de Jean II Restout


Solenidades, Festas e Memórias no Tempo Comum

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (2016)

"Dai-lhes vós mesmos de comer´´ [...] Todos comeram e ficaram saciados" (Lc 9,13.17)


Os apóstolos, e neles estão prefigurados todos os sacerdotes -e, de certo modo, todo cristão-, são enviados por Cristo a dar de comer ao povo. Num primeiro momento, percebendo seus próprios recursos escassos -cinco pães e dois peixes-, eles não creem que seja possível cumprir a ordem do Senhor. Jesus, no entanto, multiplica, com sua bênção, com sua graça, tais recursos, e eles podem saciar a multidão.

A graça supõe a natureza: por pequenas que sejam nossas condições, Deus quis precisar delas, e elas crescem se confiamo-las ao Senhor da Vida.

Ao buscar uma imagem para esta postagem, eu me dei conta de que tal milagre, em inglês, diz-se "miracle of loaves...". "Loaf" é "pão de forma", o que nos remete à "forma eucarística", que torna presente o Corpo de Cristo no mundo: Cristo está todo inteiro em cada hóstia e todo inteiro em cada parte de cada hóstia; seu Corpo Glorioso é um (1), mas seu Corpo Sacramental, sua presença real corpórea "multiplica-se" graças à Eucaristia. E essa presença não seria possível sem o trabalho humano que preparou o pão a partir do trigo, e, sobretudo, das palavras humano-divinas do sacerdote agindo in persona Christi em cada Missa.

Lauda Sion!

Imagem: "O milagre dos pães e peixes", de Lambert Lombard

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (2016)

"Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?

E achando-a, a põe sobre os seus ombros, jubiloso; e, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida" (Lc 15,4-6)

Andre Frossard, jornalista francês converso, em seu livro Deus em questões, diz, em algum momento, que o Senhor "só sabe contar até 1". Uma pessoa tem valor infinito para Deus, pois sua vocação é participar da própria Natureza Divina! O Cristo desceu dos céus para buscar a mim e a ti; fez-se Cordeiro para resgatar as ovelhas: Agnus redemit oves, canta a Sequência da Páscoa.

O Ano da Misericórdia nos recorda, isto é, traz-nos ao coração, a Boa Notícia: o Coração Sagrado de Jesus é o aprisco onde os fiéis encontram sua morada e são curados das misérias. O Senhor nos ama com caridade divina e amizade e paixão humanas, como ensinou Pio XII. Curados pela chaga do Coração Amante de Nosso Pastor, não nos desencontremos, mas doemo-nos à missão de resgatar as almas para o redil da Igreja, compartilhando da alegria de Cristo! 

Imagem: "Cristo, o Bom Pastor" (c. 1660), de Bartolomé Esteban Murillo 


Memória do Imaculado Coração de Maria

"Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração" (Lc 2,51).



O coração da Mãe é maior do que o mundo: ele foi criado pelo Verbo para abrigar o Verbo Encarnado!


O coração de Maria é o coração da Igreja, o "lugar" onde encontramos o Cristo; o coração da Virgem guarda o "tesouro" da Palavra feita homem, da Palavra que "acontece".

Só conhece verdadeiramente o Coração do Filho (celebrado ontem) quem conhece o coração de sua Santíssima Mãe! Este é o caminho apontado pelo próprio Senhor, no seu testamento da Cruz: "Eis tua mãe".

Acolhamos, como João, em nosso coração, o coração de Maria, amemo-lo como o seu Divino Filho o amou, e assim sejamos outros cristos, outros filhos de Maria, formados por e no seu Imaculado Coração!



Solenidade da Natividade de São João Batista (24 de Junho)

"Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: 'Não, Ele vai chamar-se João'. Disseram-lhe: 'Não há ninguém da tua família que tenha esse nome'. Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: 'O seu nome é João'. Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. [...] E [o menino] habitava nos desertos, até o dia em que se manifestou a Israel" (Lc 1,59-64.80).




Pertencente à família dos sacerdotes de Israel, João recebe um novo nome, do Alto, prenunciando-se a nova família de Deus, a Igreja, povo sacerdotal em Cristo; recebe também a singular missão de preparar os caminhos de Jesus com o batismo que prefigurou o nosso, em que recebemos o Espírito Santo e o nome cristão pelos quais o Senhor nos chama à comunhão com Ele, dirigindo-lhe nossa palavra e nosso louvor, como Zacarias. 


No deserto de um mundo que parece surdo ao anúncio, não deixemos de manifestar a fé batismal e o Cristo que virá!





Imagem: "A nomeação de João Batista" (1434-35), de Fra Angelico

Solenidade da Assunção da Virgem Maria (15 de agosto)

“Então Maria disse: ‘A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem aventurada, porque o Todo Poderoso fez grandes coisas em meu favor’” (Lc 1,46-49).

O Cântico de Maria ou “Magnificat” começa com esta palavra (“Engrandece”) na Vulgata; mas como Deus pode ser “engrandecido” se Ele é Infinito?! O grego traz “Μεγαλύνει”, que também pode significar, como trazem algumas traduções, “Glorifica”; pode ainda significar “Fortifica” ou “Celebra”. 

Se, como disse S. Irineu de Lyon, “a glória de Deus é o homem vivente“, entende-se melhor o que Nossa Senhora disse: nela a glória, o resplendor ou a beleza de Deus aparece -depois de Cristo- no mais alto grau! E a causa é a sua humildade! Maria é “pobre de espírito” (cf. Mt 5,3), confia inteiramente na misericórdia divina (cf. versículos 50 e 54). Ela é “toda de Deus”, por isso é “Tota pulchra”, como cantamos os católicos!

Imaculada pela Graça de Cristo (cf. Lc 1,26 e a Bula Ineffabilis Deus), fiel a seu dom e serva do Senhor (cf. Lc 1,38) até a cruz (cf. Jo 19,25 ) e depois (cf. At 1,14), ela é “elevada”, e esta elevação ou assunção de Maria é obra de Deus nela, com a qual ela coopera subindo com diligência (cf. versículo 39), isto é, servindo e levando seu Senhor a Isabel!

A força de Maria é a força de Deus! E por meio dela a força de Deus atua em favor dos pobres, isto é, nós, necessitados da graça da qual ela é o Tabernáculo (cf. 1ª leitura)!

Que sejamos contados entre aqueles que a celebram, e, celebrando-a, celebram a Deus! Que sejamos da geração da Mulher cuja descendência vence o dragão (cf. 1ª leitura). Que ao lado dela, subamos para junto de Cristo, a quem aguardamos ansiosamente junto a toda a criação que sofre pelo pecado.

Imagem: "Assunção da Virgem" (1665-70), de Juan Martin Cabezalero


Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil (12 de Outubro)


"Sua mãe disse aos que estavam servindo: 'Fazei o que ele vos disser!'” (Jo 2,5).



"Dicit mater eius ministris: 'Quodcumque díxerit vobis, fácite"




Em latim, "quodcumque" inclui "cumque", "em quaisquer circunstâncias". Então, para além dessa ordem pontual, nossa Mãe nos exorta a cumprir "sempre e em toda a parte" a Palavra de Jesus. Não há situação de nossa vida que não possa e não deva ser iluminada pelo Evangelho.


Mesmo que "falte o vinho" ou se ausente a alegria, nunca faltará o auxílio atento de Nossa Senhora, convidando-nos a dispor a "talha" do nosso coração, para que sejamos "vasos de misericórdia" (cf. Rm 9,23), repletos da graça de Deus.


Disponhamos nosso espírito para o desposório místico com o Senhor; Ele se enamorou de nós, não quer que ninguém fique fora das bodas eternas. Obedeçamos, isto é, "demos ouvidos" a Maria e a Jesus. Sobretudo, não deixemos de participar da Santa Missa, onde se cumpre aquela outra bendita ordem do "Fazei isto em memória de mim", e onde se fazem presentes o Corpo do Filho da Virgem e o Cálice do Vinho da salvação, para celebrar o infinito amor de Deus, a sua entrega por nós.



Domingos do Tempo Comum


13o Domingo do Tempo Comum do Ano "C"

"Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo [complerentur dies assumptionis eius], Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém [...] 'Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus'" (Lc 6,51a.62).

Quem se decide a seguir Jesus deve fazer como Ele: deixar-se guiar pelo chamado, "subir" a Jerusalém. Cada um tem sacrifícios a fazer, bens a realizar, e, aceitando-os resolutamente, sem olhar para trás, torna-se capaz, com o arado da própria santificação, de fazer sulcos para que a Água Viva do Reino de Deus possa penetrar em terra árida, irrigando os corações humanos tantas vezes endurecidos pelo pecado. 

Sejamos fiéis para que possamos abir sendas que atraiam os demais à vocação cristã!




Imagem: "Paisagem com um lavrador" (1860-62), de Théodore Rousseau


28o Domingo do Tempo Comum do Ano "C" ("O leproso agradecido")



"Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lc 17,18) 

Os dez leprosos tiveram fé na palavra de Jesus, que os manda se apresentarem no Templo: a condição para isso é que estivessem livres da lepra, então eles confiam no Senhor e, efetivamente, são curados no caminho.

Contudo, só o leproso estrangeiro (samaritano), retorna para agradecer. Sua fé é de outra ordem: não mais apenas o cumprimento obediente da Lei (próprio dos judeus), não mais uma relação contratual com Deus, mas a descoberta da Graça, que não apenas cura a lepra que afastava do convívio social, mas nos torna amigos agraciados e agradecidos ao Senhor.


Por isso sua fé, ademais de curá-lo, "salva-o". No batismo, somos todos curados, mas sem a gratidão, que só é real por uma vida de fé operante pela caridade, reduzimos a nossa religação com Deus a um pacto exterior, que não possui a beleza que atrai e comunica os dons recebidos.


O Senhor se aproxima de nós, não somos mais "estrangeiros", alheios ao amor de Deus: aproxima-se do enfermo do corpo (enquanto leproso) e da alma (enquanto herege samaritano); a todos quer salvar. Deixemo-nos comover pela sua infinita bondade.



Cura-nos e salva-nos, Senhor!



Imagem: "O leproso agradecido" (Biblioteca do Mosteiro de Yuso San Millán de la Cogolla, Espanha)