Sunday, February 28, 2016

Dietrich von Hildebrand sobre a misericórdia

“A misericórdia constitui uma virtude particularmente divina [...]

[...] A compaixão deriva da solidariedade de todos os homens na dor [...]

A misericórdia, pelo contrário, só é possível essencialmente a partir de Deus; originariamente, é um sentimento exclusivamente divino. Constitui, portanto, uma virtude especificamente sobrenatural, só realizável dentro do ethos cristão. Todo o esforço para a realizar num plano puramente natural –no sentido de uma compaixão que desce do alto– produz apenas resultados negativos [...]

Repare-se, porém, que a misericórdia não constitui nenhuma antítese da justiça em si, isto é, não significa carência de justiça. Contém esse valor per emminentiam, por superação [...]

A misericórdia só se encontra nos que contemplam tudo in conspectu Dei, nos que, com ânimo desperto, consideram tudo com medidas sobrenaturais. Pressupõe sempre uma íntima liberdade, uma efusão do coração. Cada cicatriz, cada endurecimento produzido por um acontecimento que não ordenamos diante de Deus, refreia a livre corrente de misericórdia [...] Só pode participar desta virtude especificamente divina quem alcançar o domínio sobrenatural que deriva da verdadeira liberdade, a superioridade característica de quem busca, primeiro que tudo, o reino de Deus e a sua justiça, de quem não espera nada das suas forças, mas tudo de Deus.

Só aquele que quebrar os estreitos limites da sua própria vida, só esse poderá penetrar na ‘miséria’ alheia e, transpondo toda a compaixão, realizar o gesto de amor bondoso que se inclina sobre o miserável e lhe permite sentir um hálito do amor de Deus que o eleve acima de suas fraquezas [...]

A misericórdia é uma virtude especificamente sobrenatural que só pode florescer em quem vive em Cristo e que, como nenhuma outra virtude, representa certíssimo sinal de uma vida em Cristo [...]”


[HILDEBRAND, Dietrich von. A nossa transformação em Cristo. Lisboa: Editorial Aster, 1960, pp. 260-268]

PS: Em minha opinião, Hildebrand, Xavier Zubiri, Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger são os únicos sábios do século XX.




Na esteira do Oscar

Salvo Star Wars VII (algumas indicações técnicas), não assisti a outros filmes indicados. Mas aproveito para partilhar alguns comentários sobre quatro importantes filmes do Oscar passado, que escrevi à época.


Birdman ou A inesperada virtude da ignorância (Alejandro Iñarritu) – Oscar de melhor filme de 2015

Riggam Thomson (Michael Keaton, em ótima atuação) é um ex-ator de cinema que no passado interpretou o super-herói Birdman –lembrando que Keaton fora o Batman dos dois filmes de Tim Burton–, e que no presente pretende se afirmar como ator produzindo, dirigindo e atuando numa peça da Broadway. Os principais coadjuvantes são a filha drogadicta Sam (Emma Stone) e o vaidoso ator Mike Shiner (Edward Norton) –que também atuam muito bem. Não quero fazer uma análise cinematográfica (artística) do filme –para a qual não tenho competência–, mas sim uma resenha de índole filosófica. Para isso, interessa-me destacar três diálogos no filme, que são, na minha opinião, os momentos mais profundos da obra: o primeiro, entre Riggam e sua filha, numa recepção, e os outros dois, entre Sam e Mike, no terraço do teatro.

No primeiro dos diálogos mencionados, Riggam percebe o cheiro de um cigarro de maconha que havia sido fumado por Sam e passa a brigar com a filha. Ela reage apontando a fragilidade do pai: seu desejo de ser relevante, seu medo de não ser importante ou “de não existir”. De certo modo, estes sentimentos não são próprios apenas dos atores, pois toda pessoa busca, de alguma maneira, o reconhecimento ou, ainda, ser amada (o amor é o tema da peça que Riggam está ensaiando). Não ser amado é como não existir.

No segundo diálogo, entre Sam e Mike, este diz a ela que “nada é um problema para ele no palco”, em outras palavras, ele só consegue ser ele mesmo quando não tem um compromisso com a autenticidade, isto é, quando não pode ser reconhecido tal como aquele que se apresenta no palco. Ao mesmo tempo, porém, Mike, ao se aproximar de Sam, tem o desejo de tirar suas máscaras e de se comunicar com o mundo interior da menina; ele diz que deseja “tirar os olhos dela e por na sua cabeça para olhar ao redor e ver a rua como via na idade dela”. É o desejo da experiência de compenetração, de “ver com os olhos do outro”, própria dos amantes; na teologia, fala-se da perichoresis ou circumincessão das Pessoas da Trindade, pela qual cada uma está na outra.

Depois, no terceiro diálogo, também entre Sam e Mike, este lhe diz que “ela é grande, linda, não há álcool ou maconha que esconda isto”. De certo modo, o amor que tem por ela desperta nele a capacidade de ver, além das aparências, aquilo que ela é profundamente e que nenhum vício ou pecado pode destruir. Trata-se da situação de toda pessoa, na realidade; pode-se, contudo, viver sem se descobrir essa dimensão profunda, e perder-se em meio aos ídolos, como são as drogas.

Pois bem, dito isto, como a questão do reconhecimento é resolvida para o personagem principal?

Já chegando ao fim do filme, uma crítica, feita através do alter ego de Riggam, o próprio Birdman –que ao longo do filme “fala-lhe” constantemente–, à indústria do entretenimento e ao público que adora “sangue”, serviu para Riggam entender o modo como se tornaria relevante: na cena final da peça, ele dá um tiro de verdade no próprio nariz –a cena leva a pensar que ele se mata, o que traria ao filme um ar de tragédia–, alcançando grande notoriedade para a peça e para si.

Na cena final, no hospital, Riggam observa os pássaros no céu e sai pela janela; quando sua filha entra no quarto, não o vê, olha pela janela para cima e sorri. Ele se suicidou? É possível uma interpretação metafórica: o sorriso da filha poderia representar seu reconhecimento do “voo” de Riggam como ator e como pai...


Boyhood – da infância à juventude

A premissa deste filme é a filmagem, durante 12 anos, da estória de uma criança/jovem, desde os 6 anos de idade, em sua relação com os pais separados. Não há, contudo, “substância” na estória dos personagens, mas tão somente a vulgaridade das vidas medíocres –que não deve ser confundida com a simplicidade da vida das pessoas comuns. Em resumo, nada acontece, a não ser a passagem do tempo, o “devir”, como dizem os filósofos sofistas pós-modernos. A intenção do filme se revela no diálogo final, do protagonista com uma nova amiga, da faculdade, a qual diz: “Sabe quando dizem ‘aproveite o momento’? Eu não sei, mas acho que é o contrário. É como se o momento nos aproveitasse”. É isso, o tempo passa por cima dos personagens, cujas personalidades nunca se impõem; é como se não houvesse individuação, mas apenas o fluxo do tempo: o filme, assim, não chega a ser uma “biografia”, e nem mesmo uma “cronologia” (a qual deveria supor um logos, um propósito na vida do rapaz), mas mera “cronometria”.


A teoria de tudo

Não me pareceu um grande filme, mas vão algumas observações:

1) Quem não é físico verá, mais ou menos do min 20 ao 60, um resumo compreensível (sem os elementos matemáticos) das teorias de Hawking.
2) O protagonista, Eddie Redmayne, atuou muito bem (ganhou o Oscar). 
3) A história é vendida como uma história de amor, mas quem a vê constata que não é bem assim...


Interestelar


Pareceu-me um filme gnóstico. A "salvação" é imanentista: feita pelos homens e numa perspectiva materialista. O buraco negro é um símbolo cósmico do demônio: uma estrela (anjo) que entrou em colapso –se considerarmos a cosmologia clássica (e não vejo porque ela possa estar "refutada"), poderia mesmo ser "mais" que um símbolo. O personagem principal adentra o inferno, o "coração das trevas" (alusão que um personagem faz ao livro de Joseph Conrad que inspirou o filme Apocalipse Now, com Marlon Brando) e de lá envia uma mensagem para a filha: espiritismo travestido com vestes científicas? Uma frase do início do filme: "os homens nasceram para ser exploradores e não trabalhadores braçais" pode ser a expressão da ideia gnóstica da salvação pelo conhecimento e da revolta contra a condição laboral do homem que se segue à queda do paraíso, condição esta que agora faz parte de nossa realização e que não se opõe a uma reta investigação/exploração da realidade. O poema de Dylan Thomas (aqui pode ser vista uma tradução: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet107.htm), cujos primeiros versos são recitados, falam de um ódio contra a luz. Mesmo o discurso sobre o amor da personagem Brand (Anne Hathaway), que poderia ter uma leitura cristã quando ela fala que "nós não o inventamos", do "inútil" amor pelos mortos e que ele transcende o espaço e o tempo, poderia ser entendido simplesmente como o "cavalo de troia" que leva as pessoas a acolher os outros aspectos que são transmitidos subliminarmente –e ainda assim ela fala de um amor "que não percebemos conscientemente", que está mais para o eros instintivo da psicanálise do que para o autêntico amor cristão, que também é Razão.

Saturday, February 27, 2016

Giovanni Reale sobre a crise da filosofia e da teologia

Excertos de REALE, Giovanni. “Prefácio” de História da Filosofia Grega e Romana I: Pré-Socráticos e orfismo. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2012, pp. 1-3 (grifos do original).


“Vivemos num momento em que se inseriu na crise da filosofia uma espécie de filosofia da crise da filosofia, vale dizer, uma filosofia que teoriza o fim da filosofia. E à crise da filosofia junto-se a crise da teologia, esta também agora, em algumas de suas frentes mais avançadas, tão persuadida da crise dos valores filosóficos, que chega a não considerar como válido tudo quanto o pensamento cristão, ao se estruturar, extraiu da filosofia, particularmente, da filosofia antiga. Assim compreende-se que dessas correntes se proclame em alta voz a necessidade da des-helenização do cristianismo, como se o cristianismo, ao subsumir determinadas categorias especulativas da filosofia clássica, tenha-se tornado seu prisioneiro, a ponto de desnaturar, vindo a se tornar, de algum modo, ele mesmo helênico.

Pois bem, em todas essas tendências se esconde, na realidade, um autêntico enfraquecimento do sentido e do alcance da dimensão especulativa, isto é, da dimensão mais propriamente filosófica: teoriza-se o fim da filosofia porque se está perdendo o sentido da filosofia. A mentalidade técnico-científica habituou-nos a crer que só é válido o que é verificável, acertável, controlável pela experiência e pelo cálculo e o que é fecundo de resultados tangíveis. Ao mesmo tempo, a nova mentalidade política nos habituou a crer que só tem relevância aquilo que faz mudar as coisas: não a teoria, mas a práxis –diz-se– é o que conta; de nada adianta contemplar a realidade, mas nela mergulhar ativamente. E, assim, de um lado, à filosofia se quer impor um método extraído das ciências, que a faz cair inexoravelmente no cientismo; de outro, quer-se impor à filosofia um condicionamento de tipo ativista que a faz degenerar no praxismo. Tanto num como noutro caso, pretende-se absurdamente fazer filosofia, matando a filosofia.  

Esclareçamos melhor este ponto, a nosso ver determinante. Veremos amplamente no curso da nossa exposição que o problema filosófico nasceu e se desenvolveu como tentativa de apreender e explicar o todo, ou seja, a totalidade das coisas ou, pelo menos, como problemática da totalidade. E a filosofia só permanece tal se e enquanto tenta medir-se com o todo e busca projetar para si mesma o sentido da totalidade. Ao contrário, as ciências nasceram como consideração racional restrita a partes ou a setores do real e elaboraram metodologias e técnicas de pesquisa que, moduladas em função das estruturas dessas partes, só podem valer para elas, e não podem, de modo algum, valer para o todo.

A precisão dos métodos científicos supõe necessariamente restrições de âmbitos e simplificações estruturais. Consequentemente, a aplicação ou a pretensão de aplicar os métodos das ciências à filosofia (isto é, ao todo, pois a filosofia é sempre e somente, como dissemos, consideração do todo) produz o monstrum que chamamos de cientismo.

E assim, quando a filosofia renuncia a contemplar para agir, renuncia, mais uma vez, a si mesma. Com efeito, o empenho prático leva-a a ser, fatalmente, mais que desinteressada visão e consideração do verdadeiro, elaboração interessada de ideias submetidas a escopos pragmáticos e, por conseqüência, de filosofia, ela se transforma em ideologia.

Quanto às novas correntes da vanguarda teológica, deve-se salientar que o seu erro é, em certo sentido, mais dramático. Elas arriscam-se, querendo renunciar indiscriminadamente ao logos grego, a renunciar ao logos como tal. É verdade que, em parte, o pensamento cristão subsumiu conceitos estreitamente ligados à cultura helênica e, portanto, historicamente condicionados; mas é também verdade que, junto com eles, subsumiu outros que, além de serem helênicos, são conceitos racionais universalmente válidos, fruto da razão enquanto razão e não enquanto razão grega. E sob o processo de des-helenização da teologia se esconde um neoirracionalismo...

[...] hoje, muitos filósofos ou cultores da filosofia, ou os que se dizem tais, apresentam-se, para dizer com uma imagem da moda, em larga medida como personagens mascarados, isto é, inautênticos, incapazes de assumir a fundo a própria responsabilidade; personagens que não se decidem por renunciar nem à ambição filosófica nem às vantagens empiricamente mais apreciáveis e concretas da ciência e da política...”



Luzes e sombras no Dionísio Pseudo-Areopagita

“Em geral, portanto, não é para ousar dizer nem entender nada da divindade supersubstancial e oculta senão aquilo que a nós está divinamente revelado dos ditos sagrados. De fato, a impossibilidade de conhecer esta supersubstancialidade que ultrapassa a razão, o pensamento e a substância, tal deve ser o objeto da ciência supersubstancial [...] a infinidade supersubstancial está acima das substâncias, e a unidade, que está acima da inteligência, acima das inteligências, e nenhum pensamento pode pensar o uno que está acima do pensamento, e nenhuma palavra pode exprimir o bem que está acima de toda palavra, unidade que unifica todas as unidades, substância supersubstancial, inteligência ininteligível, palavra inefável, ausência de razão, ausência de inteligibilidade, ausência de nome, a qual não existe segundo nenhum dos entes e tanto é causa do ser de tudo como não existe em si, na medida em que está situada acima de toda substância e na medida em que se revela a si mesma soberanamente e cientemente” (Dionísio, Dos nomes divinos, §1, grifos meus).

A ideia dominante é a de que Deus é uma realidade muito acima da própria Revelação, o que é uma ideia equívoca. De fato, aquilo que a inteligência humana apreende de Deus revelado não esgota o mistério de Deus, no entanto, o que Deus revela de Si, como Pai, Filho e Espírito Santo, é efetivamente a realidade íntima de Deus. Não há uma "unidade" acima da Trindade de Pessoas (erro que parece ser repetido, depois, por Mestre Ekchart). Deus, por exemplo, e ao contrário do que aparece neste trecho, é Inteligência, é o Verbo, não é uma realidade ininteligível. O fato de que nossa inteligência não possa compreender, isto é, abarcar a Inteligência Divina, a Inteligência que é Deus, não significa que Ele não seja Inteligente e que, assim, nosso conhecimento do Verbo não seria um conhecimento efetivo de Quem Deus é em última instância. Deus tem um nome, que foi revelado a Moisés (Ex 3,14), e no qual se atinge, de modo certamente imperfeito, mas verdadeiramente, a Essência Divina, que é o Ser Absoluto, Aquele que É simplesmente. Finalmente, que seja causa do ser (criado) e esteja acima de toda substância (criada), não significa que Ele “não exista em si” (isto é, “não seja”): o que é a existência em Deus é algo que certamente, repito, não podemos abarcar, mas que “tem a ver” com o ser das coisas; se não tivesse, não teríamos notícia alguma de Deus, Ele seria o grande ausente, o “deus ocioso” de todos os deísmos e agnosticismos. Este agnosticismo conduz paradoxalmente à gnose da “ciência supersubstancial” da “divindade oculta”, pela qual se intuiria o que estaria “acima da Revelação”.

“Assim, portanto, àquela que é causa de todas as coisas e é superior a todas as coisas não convém nenhum nome e ao mesmo tempo convêm todos os nomes das coisas que existem [...] compreende em si todos os seres de modo simples e sem limites, em razão dos perfeitíssimos benefícios de sua única providência, causa de todas as coisas, de sorte que podemos celebrá-la e nomeá-la convenientemente a partir de todas as coisas que existem” (Ibdem, §7, grifos meus).

O equívoco da teologia superlativa dionisiana acima, que acaba conduzindo paradoxalmente tanto ao agnosticismo quanto ao gnosticismo, é compensado em alguma medida pela ideia da analogia dos entes aqui estabelecida (Deus é em parte semelhante e em parte dessemelhante às criaturas), pela qual se pode passar das ideias das coisas criadas às Ideias Divinas que contém “os seres de modo simples e sem limites”.

Em conclusão: faltou a Dionísio purificar de modo mais perfeito a filosofia plotiniana, o que foi feito por Santo Agostinho.


[Dionísio Pseudo-Areopagita. Dos nomes divinos, S. Paulo: Attar Editorial, 2004]




“A misericórdia em Santo Tomás” (esquema da aula inaugural que dei no Instituto Filosófico e Teológico S. José de Niterói)

1. Introdução

A misericórdia é parte da caridade, que é virtude teologal.

a) O que é virtude?

“virtus est bona qualitas mentis, qua recte vivitur, qua nullus male utitur” (S.Th. I-II, q55, a4).

A qualidade é aquilo pelo qual as coisas são qualificadas, um estado ou disposição (Aristóteles, Categorias VIII, 25-30). 

A virtude é um hábito (estado e disposição –nem toda disposição é um hábito, mas todo hábito é uma disposição). O hábito é uma disposição pela qual o sujeito está bem ou mal disposto em si mesmo, ou em relação com outra coisa (Aristóteles, Metafísica). 

A virtude é um bom hábito. Seu sujeito é a mente (virtus est bona qualitas mentis), isto é, a alma. Ela sempre inclina ao bem (qua recte vivitur), e ninguém a usa mal (qua nullus male utitur), enquanto os maus hábitos (vícios) sempre dispõem para o mal e as opiniões ora inclinam ao bem, ora ao mal. A virtude infusa é causada por Deus.

b) O que é uma virtude teologal?

As virtudes teologais são princípios divinos que ordenam a pessoa humana ao fim sobrenatural. Tem Deus por “objeto” e causa e só são conhecidas pela Revelação (S.Th. I-II, q62, a1).

c) O que é a caridade? (S.Th. II-II, q23).

A caridade é a amizade do homem com Deus, criada por Deus; é a mais excelente virtude, pois chega a Deus em si mesmo.

O amor de caridade se estende ao próximo; amamos, no próximo, o fato de que exista em Deus (S.Th. II-II, q25, a1).

Devemos odiar o pecado nos pecadores e amá-los como capazes de bem-aventurança (S.Th. II-II, q25, a6).

A caridade não se estende aos demônios, pois não podemos querer o bem da Vida Eterna (objeto da caridade) para os espíritos condenados eternamente por Deus! (S.Th. II-II, q25, a11).

2. A misericórdia (S.Th. II-II, q30).

 “A misericórdia é a compaixão que experimenta nosso coração ante a miséria de outro, sentimento que nos compele, na realidade, a socorrer, se podemos” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus). A palavra misericórdia significa ter o coração compassivo pela miséria de outro.

Não é a culpa que atrai a misericórdia (esta merece castigo), mas o infortúnio, e, no caso do pecador, o arrependimento.

Sentimos a miséria alheia como nossa, pela união afetiva e real.

A dor que sentimos é paixão, mas o socorro prestado e o perdão ao arrependido constituem a misericórdia como virtude (S.Th. II-II, q30, a3).

É próprio de Deus ter misericórdia, e se diz que nela se manifesta de maneira extraordinária sua onipotência (S.Th. II-II, q30, a4; cf. FRANCISCO, Misericordiae Vultus, 6).

 “Da cruz devemos aprender o que significa a onipotência; onipotência que se une ao amor, sem renunciar a verdade, pois somente porque a verdade permanece indestrutível, não podendo nem querendo ser apagada nem mesmo por Deus... Só porque a verdade permanece, é que o amor se torna mortal. A verdade sem amor não precisa morrer, só precisa julgar. O amor sem verdade também não precisa morrer, apenas precisa ceder. Mas onde ambas estão reunidas aparece a cruz” (BENTO XVI. Dogma e anúncio. 4ª ed., S. Paulo: Loyola, 2013, p. 98).

 “Deus não perdoa ao homem contra a sua obstinação. Só onde há desejo do perdão, ele pode ter resposta” (Ibdem, p. 101).

Entre as virtudes que se referem ao próximo, a misericórdia é a maior (S.Th. II-II, q30, a4).

Quando se diz que Deus quer misericórdia e não sacrifício, o que se quer dizer é que o sacrifício não é para o proveito de Deus, mas para nós e para o próximo (S.Th. II-II, q30, a4, ad1). Oferecer o sacrifício é oferecer-se em sacrifício junto a Deus, unir-se a seu amor misericordioso.

Quanto as obras exteriores, toda a vida cristã se resume na misericórdia. Mas a caridade que nos une a Deus é a maior virtude (S.Th. II-II, q30, a4, ad2).

A misericórdia nos assemelha a Deus no plano do obrar (S.Th. II-II, q30, a4, ad3).

3. Conclusão


Chamados a anunciar a misericórdia, recuperando a consciência do pecado e afirmando a insuficiência dos meios e do amor meramente humanos (presentes, por exemplo, nas demais religiões). Ter consciência da misericórdia e do amor divinos é ter consciência da criaturalidade e do pecado como possibilidade da perdição eterna.

Imagem: "Santo Tomás de Aquino" (1340-45), de Fra Angelico


Todas as religiões creem no amor?

No sentido estritamente cristão (amor como caridade, virtude teologal), é óbvio que não!

As religiões que não creem na criação (distinção entre Criador e criatura, feita do nada), não podem acreditar no “amor” no genuíno sentido cristão: doação (de ser, na ordem da criação, e da graça, na ordem da santificação), sobreabundância que brota da Perfeição.

Nas religiões panteístas e mesmo no horizonte do pensamento grego, o amor é meramente “eros” (desejo, carência), ou, no máximo, “dileção”, amor natural ao amigo, que ignora o ágape ou caridade. São amores que podem servir como preparação evangélica, mas que não salvam (o problema da salvação é estritamente cristão: se você não acreditar no Cristo, você não tem nenhum suposto direito a ser salvo por Deus, porque você nem reconhece que tem o problema do pecado).

As religiões dualistas (ex.: hinduísmo) negam a realidade do mundo sensível, não conhecem a Deus como doador de realidade nem como uma Realidade Absoluta Perfeita, mas como um Absoluto impessoal imperfeito que carece de autoconhecimento.

O budismo é uma religião niilista que nega até a realidade do espírito, e cuja "compaixão" é meramente solidariedade na dor sem esperança de ressurreição.

No máximo, o islamismo poderia ter alguma ideia do amor divino. Mas a imagem (predominante) teológica de Alá como uma onipotência suprarracional conduz a um agnosticismo prático (Alá é incognoscível), e, consequentemente, à teocracia e à possibilidade do recurso à violência.

O protestantismo, de algum modo sintetiza estas três tendências: no dualismo entre graça e natureza de Lutero, na depravação total de Calvino e na confusão entre Igreja e Estado de Henrique VIII.


Só o amor da Esposa de Cristo, a Igreja Católica, agrada a Deus. E o católico, por amor aos outros religiosos, e por amor a Deus, que, na sua misericórdia, a todos quer salvar, não pode deixar de proclamá-lo.

Imagem: "Crucificação" (1304-06), de Giotto



São João Paulo II, Magno

Há alguns dias, saiu uma notícia maliciosa nos jornais, a partir de uma reportagem da BBC, sobre a amizade e correspondência do Papa João Paulo II com uma filósofa polonesa. Eu compartilho uma reflexão que fiz num conhecido blog de um amigo, em resposta a uns "católicos" "tradicionalistas":

S. João Paulo II é um papa da estatura de S. Pedro, S. Leão Magno, S. Gregório Magno, S. Gregório VII, S. Pio V, B. Pio IX e S. Pio X. Não reconhecê-lo é, evidentemente, um caso de cegueira espiritual.

Os que fazem análises biográfico-teológicas tortuosas, maliciosas, são pessoas que não têm a menor ideia do que é a santidade, de que ela é alcançada num determinado contexto histórico e teológico. Mesmo, por exemplo, que certas posições teológicas do cardeal Wojtyla por vezes resvalassem na ideia de gratificação universal (cf. As Fontes da Revelação e até, de maneira bastante atenuada, na primeira encíclica, Redemptor Hominis), mesmo que ele tenha feito o equivocado Encontro de Assis (cf. a explicação de Ratzinger em Fé, Verdade, Tolerância), é evidente seu amor apaixonado (aí sim) por Cristo, pela Igreja e pelos homens (em Deus), a interpretação ortodoxa (junto a Ratzinger) que ele fez diante das ambiguidades do Concílio Vaticano II –os “tradicionalistas” que julgam que cancelar o Concílio fosse a melhor opção não têm a virtude da prudência–, a luta pela correção litúrgica (e, provavelmente, Wojtyla aplainou conscientemente o caminho para Ratzinger liberar o Missal tradicional), a luta pelo fim do comunismo, a identificação a Cristo Crucificado através de uma vida de intensos sofrimentos entregues a Deus… A qualquer um que tenha o Espírito, é mais do que evidente que João Paulo II morreu perfeitamente conformado a Nosso Senhor Jesus Cristo.


Reclamar de amizade com mulher, de uso de bermuda [sim, teve um que reclamou do cardeal usar bermuda num acampamento], etc., é, com o perdão da palavra, babaquice.




Friday, February 26, 2016

Vídeos do curso "Introdução ao problema filosófico de Deus"

Curso que eu ofereci na minha paróquia (S. Judas Tadeu - Niterói - RJ).

Seguem os links das aulas, a ementa, o conteúdo programático, mais algumas erratas e notas.


Aula 1





Ementa:

Deus pode ser conhecido pela razão ou é assunto exclusivo da fé religiosa? A busca filosófica pelos princípios ou fundamentos da realidade, diversas vezes terminou na afirmação de um Ser Supremo, “ao qual todos chamam Deus”, como dizia Santo Tomás. Seriam válidas tais “provas” da existência da divindade? Depois da proclamação da “morte de Deus” por Nietzsche, ainda faria sentido uma reflexão filosófica sobre sua suposta realidade? Que significado teria o problema de Deus para o homem hodierno?

O presente curso pretende oferecer pistas para a resposta a estas indagações, e o método de nossa investigação será uma abordagem histórica, na qual partiremos da physis “divina” dos primeiros pré-socráticos até a “religação” de Xavier Zubiri (1898-1983). Não se pretende exaurir o tema, mas apontar, a partir de um contato direto com os textos dos filósofos, alguns dos principais momentos da reflexão filosófica sobre a questão de Deus, com o intuito de nos orientarmos a respeito das perguntas colocadas acima.


Conteúdo programático:

1. Introdução e Deus na filosofia antiga:
a) os discursos sobre Deus ou o "sagrado": o mito, a filosofia, a religião revelada e a ciência moderna;
b) Deus na filosofia antiga: a physis dos jônios, o Noûs de Anaxágoras, o Bem platônico, o Motor Imóvel aristotélico, o Logos divino estoico, o Uno plotiniano;
c) Excurso: o divino nas “filosofias” orientais (hinduísmo, budismo, taoísmo).

2. Deus na filosofia medieval: 
a) o Deus interior de Agostinho;
b) o “argumento ontológico” de Anselmo; 
c) as 5 vias de Tomás; 
d) o itinerário de Boaventura; 
e) o Ser infinito de Escoto (o problema do “ser unívoco”);
f) o fideísmo de Ockham; 
g) a “centelha divina” de Eckhart;
h) a coincidentia oppositorum de Nicolau de Cusa.

3. Deus na filosofia moderna: 
a) a ideia inata de Deus em Descartes; 
b) o Deus-Natureza de Spinoza; 
c) a aposta de Pascal; 
d) as Críticas de Kant; 
e) o sentimento religioso do Infinito em Schleiermacher; 
f) o Absoluto no idealismo alemão.

4. Deus na filosofia contemporânea: 
a) sua perda: o ateísmo de Feuerbach, o materialismo de Marx, o positivismo de Comte, o niilismo de Nietzsche;
b) tentativa de recuperação: o “místico” de Wittgenstein, o “numinoso” de Otto (e a questão do “sagrado” na filosofia da religião), a “religação” de Xavier Zubiri.


Erratas e notas:

Aula 1:

a) Não é Marco "Aurélio" Cícero e sim Marco "Túlio" Cícero.
b) O taoismo é religião da China e não da Índia obviamente.
c) E a obra de Tomás é Acerca da eternidade do mundo e não "do tempo".


Aula 2:

a) O nome do autor da História da Igreja é Daniel-ROPS.


Aula 3:


a) O conhecimento por “analogia” é um conhecimento por semelhança e dessemelhança. A “teologia negativa”, que eu citei, é só o momento que realça a dessemelhança: as coisas são finitas, Deus é In-finito. A teologia “positiva” realça as semelhanças: as coisas são boas, Deus é “o” Bom. Em Dionísio Areopagita, há ainda a teologia “superlativa”: Deus é o “Suprasser” (além da distinção entre ser e essência), por exemplo.
b) Embora o “espaço” e o “tempo” não sejam qualidades sensíveis (nisto Kant está certo), a "espacialidade" e a "temporalidade" são formalidades apreendidas (e NÃO projetadas) nas próprias qualidades sensíveis. Porque a percepção sensível não se restringe à apreensão destas qualidades (sensíveis) é que o conhecimento pode se elevar à contemplação de realidades inteligíveis e, portanto, a Deus. Isto ficará mais claro com a exposição da teoria do conhecimento de Xavier Zubiri na 4ª aula.
c) É preciso distinguir entre o pensamento panteísta (Deus = realidade), em suas diversas manifestações, e o pensamento gnóstico (o íntimo da alma humana = Deus), em suas diversas manifestações.
"Deus Pai" (depois de 1664), de Pierre Mignard

Artigos publicados em jornais e sites da internet


Trecho: “Aqui está o x da questão, que os laicistas não entendem: perspectivas religiosas podem e devem participar do debate democrático, sempre que sejam coincidentes com perspectivas racionais, isto é, ao alcance de todos, ao menos em princípio. E, por perspectivas racionais, não se deve entender apenas aquelas mais modernas, oriundas de uma concepção positivista do conhecimento e do direito, ou, ainda, de uma concepção relativista da ética e da política”.



Conclusão: “Assim, a meta da educação é a felicidade que decorre de um exercício responsável de nossa razão e liberdade, numa abertura à realidade dos demais que inclui o respeito pela sua liberdade e a luta pelo seu crescimento pessoal, e no trabalho transformador, que cria condições propícias à vida feliz”.



Trecho: “Quando os parlamentares ‘definem’ a realidade familiar, independentemente de como tomam partido, o suposto nesta atividade político-filosófica é que a família dependeria do Estado para ser o que é – ou, ainda, que o mesmo poderia recriar a realidade familiar. Contudo, embora tal realidade, como delineada acima, nem sempre ou mesmo raramente se realize de modo perfeito atualmente, o fato inegável é que a sociedade só é viável dentro das margens do modelo ideal e de uma mínima estrutura familiar. Cronologicamente, a família, como esboçada, antecede o Estado; e isso é um fato constatável, ou seja, observável, em princípio, por qualquer um, e anterior a qualquer teoria”.



Trecho: “[...] o conhecimento do mundo material não era tão valorizado na cultura clássica. Na realidade, os antigos tinham uma dupla atitude perante o mundo: por um lado, uma inspiração gnóstica conduzia ao desprezo da corporeidade e da temporalidade, entendidos como ‘queda’ da eternidade; por outro lado, uma tendência panteísta levava a uma divinização da natureza, entendida como algo ‘sagrado’, 'encantado'. Tanto a falta de consideração de uns quanto o excesso de reverência de outros impediam o surgimento do saber científico, e foi precisamente o cristianismo, com sua apreciação positiva da realidade material, dotada de bondade ontológica (‘e Deus viu que tudo era bom’), porém criada e não divina (‘no princípio Deus criou o céu e a terra’), e posta pelo seu Artífice aos cuidados da pessoa humana (que deve ‘guardá-la’ e ‘nomeá-la’), que abriu caminho para o que viria a ser a ciência matematizante e experimental...”

  

Trecho: “A mensagem e a prática cristãs impregnaram e moldaram de tal modo nossa civilização, que muitas verdades inacessíveis ao homem antigo se tornaram patrimônio da humanidade; noções que irromperam dos céus e custaram o sangue do Homem divino, como a idêntica e excelsa dignidade das pessoas, tornaram-se de tal modo temas correntes, que a modernidade ilustrada as assumiu como uma conquista da razão humana [...] Ao que parece, o cristianismo cumpriu sua missão, ao permear a existência humana com conceitos e práticas que, uma vez alcançada a maioridade da razão, podem se desenvolver separados da raiz da qual brotaram. Mas será que, assim, sem a seiva vivificadora de sua fonte divina, conservarão seu frescor? Não estariam, estes valores incorporados pelo mundo moderno, ameaçados pelo niilismo e pelo relativismo, uma vez perdida a conexão com o fundamento transcendente?”




Trecho: O Ocidente nasceu sob a égide destas ideias: uma Razão amorosa que liberta a pessoa humana e lhe revela a verdade de sua dignidade. No final da Idade Média, a filosofia nominalista, para acentuar a onipotência divina, negou as essências eternas em Deus: Ele poderia ter feito tudo de outro modo e, no campo moral, poderia ter ordenado mandamentos contrários aos que ordenou (de acordo com essa visão, se Deus quisesse, o assassinato ou até mesmo o ódio contra Ele poderiam ser meritórios); até por conta disso é que não há, para o nominalismo, conceitos universais, mas só realidades individuais. A partir dessas ideias é que se vai formando o pensamento moderno, e, aos poucos, vão se acentuando cada vez mais a vontade e a liberdade como as principais características do ser humano, uma vontade independente da razão, e, consequentemente, uma liberdade cada vez mais dissociada do bem objetivo...”



A liberdade religiosa a partir da Dignitatis Humanae e o Magisterio pré-conciliar [intento de harmonização da liberdade religiosa com o Magistério e prática anteriores ao Vaticano II]


Trecho: "Como explicar, então, a ação dos Estados católicos, que efetivamente impediram ou delimitaram, em várias ocasiões, a atuação dos hereges e das outras religiões; ação essa apoiada pelo Magistério pré-conciliar? Esse é um aparente problema, que surge ao não se levar em conta suficientemente os 'justos limites' nos quais a liberdade religiosa deve ser vivida; a compreensão dessa expressão [...] é importantíssima para a evidenciação da continuidade e aprofundamento do ensinamento conciliar com relação ao Magistério precedente".



O lugar da contemplação na vida cristã [a primeira versão deste artigo foi publicado na fase antiga deste blog; nele, eu cito, no apêndice, o fundador do Sodalício de Vida Cristã, ignorando as acusações verossímeis de abuso sexual que pairam sobre sua pessoa]

Introdução: “O Segundo Domingo da Quaresma, nos três ciclos, traz a passagem da Transfiguração do Senhor, na qual os principais apóstolos contemplam a Sua glória, a fim de se prepararem para a Sua cruz. Desejoso de compreender melhor, para viver melhor, a importância da contemplação na vida cristã, bem como a articulação entre a vida contemplativa e a vida ativa, preparei este texto que compartilho, sistematizando brevemente a relação entre ambas as dimensões do peregrinar de Fé de todo aquele que deseja cumprir o Plano de Deus, configurando-se amorosamente ao Senhor Jesus”.

Artigos publicados em revistas acadêmicas eletrônicas


Resumo: O presente artigo apresenta um panorama da filosofia da religião, indicando suas distintas vertentes, salientando de modo especial a filosofia “teologal” de Xavier Zubiri (1898- 1983), com seu conceito de “religação”, no intuito de responder à questão de se a religiosidade é uma dimensão constitutiva da pessoa humana.



Resumo: Segundo Xavier Zubiri, a pessoa humana está “religada” a Deus, isto é, sua realidade está constituída “em” Deus, e para o Cristianismo este ser “em” Deus é ser “como” Deus, é “deiformidade”. O presente artigo irá estudar a relação entre tal conceito e os conceitos de graça santificante e de “deificação”, este último presente no primeiro escrito teológico zubiriano, bem como a conexão desta relação com os conceitos teológicos clássicos de “natureza” e “sobrenaturalidade”, cujo conteúdo seria recusado por Zubiri, e a adequação de tais noções ao Magistério católico.




Trecho: “Em síntese, pode-se dizer que, ao estudarmos política em Santo Tomás, estudamos conjuntamente o direito, a ética, a moral, a metafísica (antropologia filosófica e teologia natural), e aludimos à teologia moral. Como é característico no pensamento tomasiano, a realidade –no caso, a realidade política– é compreendida nas suas múltiplas relações ou conexões com outros âmbitos do real, sem os quais não chegaria a ser entendida de modo mais pleno”.



Resumen: El presente artículo pretende responder a las críticas del filósofo Gustavo Bueno a la filosofía teologal de Zubiri. Bueno, por un lado, considera que el concepto de “religación” no es consistente, pues se apoya en la noción “absurda” de creación; por otro, piensa que tal concepto no sirve como base de una filosofía de la religión, una vez que la religación, por ejemplo, no daría margen a la existencia de personas irreligiosas. Para contestar a estas tesis será necesario averiguar la relación entre religación y creación y aclarar la distinción entre religación y religión.