Monday, October 31, 2016

Luteranismo e secularização

Para Lutero, de certo modo relembrando a doutrina agostiniana das duas cidades, os cristãos pertencem ao reino de Deus, e os demais homens, ao reino do mundo. Os primeiros não têm necessidade "da espada nem das leis temporais". Se o mundo inteiro fosse de "verdadeiros cristãos", não seria necessário governo, pois seríamos governados pelo Espírito. As leis servem para coagir os não cristãos das más ações exteriores. Como ninguém é naturalmente cristão, mas, em princípio, "todos são pecadores e maus", a lei funciona como obstáculo à maldade (cf. LUTERO, Martinho. A liberdade do cristão; Sincera admoestação a todos os cristãosDa autoridade temporal e em que medida se deve obedecer a ela. São Paulo: Escala, 2007, pp. 80-82).

Para o reformador, o reino do mundo é composto pelos que não são cristãos; são estes que estão submetidos à espada, para não atuarem segundo sua natureza má. Ressoa, mais uma vez, o dualismo ao qual já me referi em minha postagem anterior sobre o monge agostiniano (A doutrina luterana): "Deus instituiu os dois reinos: o espiritual que, pelo Espírito Santo e sob a lei de Cristo, faz cristãos e homens de bem; e o temporal, que obstaculiza os não-cristãos e os maus, a fim de que sejam obrigados, por obrigações exteriores, a respeitar a paz e a ficar tranquilos, quer queriam, quer não" (cf. LUTERO, op. cit., p 82). 

Com algum realismo, contudo, Lutero diz que se alguém optasse por suprimir toda lei e coação, libertaria os "animais ferozes" e os "maus, acobertados pelo nome de cristãos, assumiriam a liberdade evangélica e cometeriam suas patifarias dizendo que são cristãos" (Ibid., p. 83). Também afirma que o mundo e o povo em geral, embora batizado e com o nome cristão, segue vivendo como não-cristão, e mesmo que "há sempre mais pessoas más que pessoas de bem", de modo que tentar governar com o Evangelho, sem a espada, é prejudicar as ovelhas , que "não viveriam muito tempo" (cf. Ibid., loc. cit.). 

Assim, os dois reinos devem subsistir: um, que torna bom e o outro, que cria a paz exterior e dificulta as más ações. Com acerto, Lutero afirma que ninguém pode ser bom "somente por meio do reino temporal", mas que se não houvesse este, a rédea seria afrouxada para a maldade (cf. Ibid., p. 84)

Para Lutero, os cristãos "não devem reclamar seus direitos nem ter entre eles a espada temporal, segundo aquilo de "não resistir ao mal" (cf. Mt 5,39). O monge rebelde encrenca com a ideia de que esta recomendação seria apenas um "conselho dirigido aos perfeitos", e não a todos os cristãos. De fato, este é uma recomendação que o Senhor dirige, através dos apóstolos, a todos os cristãos. E Lutero vê bem que eu posso "dar a minha outra face", mas, se eu puder, eu devo evitar que o injusto agrida o irmão; o Evangelho não só não o proíbe, mas até mesmo ordena às vezes (cf. Ibid., p. 88).

Há um ponto, no entanto, em que o dualismo apontado (entre alma e corpo) abre um precedente importante para a secularização das nações até então cristãs -a assunção da moral "laica" (sic)-, e é quando ele diz: 


"O governo temporal tem leis que não se estendem para além do corpo, dos bens e daquilo que, na terra, é exterior; pois, sobre a alma, Deus não pode nem quer deixar reinar ninguém fora dele e unicamente ele. É por isso que, se o poder temporal tem a pretensão de impor leis à alma, ele invade o reino de Deus e só faz desviar e corromper as almas" (Ibid., p. 100).

Lutero acerta quando diz que é "em vão e impossível mandar alguém acreditar dessa ou daquela maneira ou obrigá-lo a isso pela força" (Ibid., p. 103), reafirmando o que dissera Agostinho, de que "não se pode nem se deve coagir ninguém à fé". O problema é que, quando ele afirma que a "alma não está submetida ao poder de César", que não pode agir sobre ela, mas apenas sobre "o corpo, os bens e a honra", se levamos em consideração -e não podemos deixar de fazê-lo!-, que ele coloca as ações morais exteriores -que são as "obras"- do lado do corpo, isto logicamente redundará na possibilidade de o Estado legislar sobre a moral contra os princípios do cristianismo, sem que isto -sempre na concepção luterana- signifique algum tipo de atentado contra a consciência cristã.

O princípio católico garantia a cooperação do Estado e da Igreja, subordinando o primeiro nas questões morais, que para o catolicismo importam para a salvação sobrenatural e, também, obviamente, para a felicidade temporal, que é parte integrante da salvação. Para o nascente protestantismo, a espada temporal não pode oferecer nenhuma ajuda nem atrapalhar o verdadeiro cristão... 

Mas, como o próprio Lutero disse e eu citei acima, poucos são estes "verdadeiros cristãos", e os medíocres podem deixar de ser ajudados pelo abandono de leis coercitivas concordes com a Lei Natural -é melhor não pecar por amor do que por temor, mas é melhor não pecar do que pecar-, e passar a ser atrapalhados pela criação de leis permissivas contrárias à moral cristã.
             
Os equívocos da Inquisição, na qual o "braço secular" puniu com violência física o pecado da heresia (identificando-o sempre com o crime de sedição) conduziram a uma situação em que parecia nefasto o intrometimento da política nos assuntos da fé, e desejável que as atribuições da comunidade eclesial e da comunidade temporal se separassem; nesse divórcio, o campo da moral -das obras corpóreas, em termos luteranos- ficou com o Estado, o qual, sem a luz da Palavra de Deus e do Magistério católico, iniciou a aventura da religião secular...

Na prática, o princípio estabelecido pelo reformador teve o efeito contrário do desejado: ao separar o poder do Estado do poder de Deus sobre as almas, isso não significou um engrandecimento do poder do verdadeiro Senhor, mas do Leviatã! 



Detalhe da gravura "Leviathan", de Abraham Bosse, da capa do livro de Thomas Hobbes

Friday, October 21, 2016

A doutrina luterana: o dualismo entre o espírito e o corpo, a confusão entre lei e obras, e entre justificação e salvação

Este é um esforço de compreensão teológica, mais do que de "apologética". O meu desejo não é tanto o de "defender-me" dos luteranos e demais protestantes ou "atacá-los", mas, na medida em que me é possível, defender o sentido correto das Escrituras, proporcionando uma visão mais adequada que a do monge agostiniano, ao qual considero no momento em que buscava ser fiel à fé católica de sempre.

"[...] cada cristão tem duas naturezas, uma corporal e uma espiritual. Por sua alma ele merece ser chamado homem novo, espiritual, interior; pela carne e pelo sangue, merece ser chamado homem corporal, velho homem e homem exterior" (LUTERO, Martinho. A liberdade do cristão; Sincera admoestação a todos os cristãos. Da autoridade temporal e em que medida se deve obedecer a ela. São Paulo: Escala, 2007, pp. 19-20).

Lutero escreveu A liberdade do cristão quando ainda era católico, inclusive dedicando este livro ao papa. Sua ideia principal pode ser resumida no trecho supracitado, e penso que ela é a fonte de alguns mal-entendidos acerca do papel da mediação da corporeidade e das "obras" na vida cristã.

A visão de Lutero é caracteristicamente dualista, apresentando uma concepção biblicamente insuficiente acerca da relação entre alma e corpo: identifica-a, sem mais, com a contradição entre espírito e carne (cf. Rm 7,14-24; Gl 5,16-24). Ou seja, coloca a alma do lado do espírito e o corpo do lado da carne: de um lado, uma interioridade incorruptível, de outro, uma exterioridade incorrigível. Mas será isso mesmo?

"Alma" e "carne" não são conceitos unívocos na Escritura. Vejamos.

A "carne", na Escritura, indica a fragilidade humana, tanto do ponto de vista físico, como em Gn 6,3 ("ele é carne; não viverá mais que cento e vinte anos"), quanto moral, como em Mt 26,41 ("a carne é fraca"). No primeiro sentido, diz-se que "o Verbo se fez carne" (Jo 1,14); no segundo, fala-se da "concupiscência da carne" (1Jo 2,16). Na redenção, esta "fragilidade" está chamada a "ressuscitar", como diz o Credo Apostólico ("creio na ressurreição da carne"), isto é, participar da vida divina, adquirir a incorruptibilidade. A carne refere-se, ao mesmo tempo, ao aspecto biológico, como em Gn 2,23 ("esta é carne da minha carne!"), como ao aspecto pessoal, como no versículo seguinte do Gênesis ("uma só carne"), e também em 1Cor 6,16. Neste último caso, como fica claro na passagem da Primeira Epístola aos Coríntios, a "carne" é sinônimo de "corpo", enquanto princípio relacional, o qual tem a vocação de ser "templo do Espírito Santo" (1Cor 6,19), para assim preservar-se irrepreensivelmente para o dia do Senhor, junto ao espírito e à alma (cf. 1Ts 5,23).

A "alma", na Escritura, às vezes indica a vida humana (cf. Mt 16,25-26; Jo 15,13), a pessoa inteira (cf. At 2,41), ou o elemento humano mais profundo e precioso (cf. Mt 10,28), que é precisamente o "espírito" (cf. 1Cor 2,10-11).

O "homem carnal" (cf. 1Cor 3,1-4) é aquele em que o ser inteiro (alma e corpo) está submetido à carne enquanto esta significa as paixões pecaminosas (cf. Rm 7,5); o "homem espiritual" (cf. 1Cor 2,15) é aquele em que o ser inteiro (novamente alma e corpo) está submetido ao espírito. O que existe, assim, é uma contradição entre um homem que vive totalmente, com sua alma ou sua interioridade, e seu corpo, com suas ações exteriores, em Deus, e um homem que vive totalmente, sua alma e sua exterioridade, para o pecado. O homem hipócrita, que simula exteriormente a santidade, também está no segundo grupo, na perspectiva divina, que "vê no segredo" (cf. Mt 6,4.6.18).

Julgo que desta interpretação inicial -que identifica a distinção entre alma e corpo com a contradição entre espírito e carne-, derivam as negações luteranas da doutrina católica, começando pela ideia de que a vida cristã é algo estritamente interior, como se o corpo fosse uma realidade "estranha" à fé. É assim que Lutero considerará  "dispensáveis" os "hábitos, as igrejas, os jejuns, peregrinações, as boas obras realizadas pelo corpo", as quais "podem ser realizadas por um hipócrita" (cf. LUTERO, op. cit., p. 22).

É por esta mesma razão que a alma "pode prescindir de todas as coisas, exceto da palavra de Deus", que é "sua suficiência, seu alimento, sua alegria, sua paza, sua luz, sua ciência, sua justiça, sua verdade, sua sabedoria, sua liberdade e todos os bens em abundância" (Ibid., p. 23), e que "Cristo não veio para exercer qualquer outra função do que pregar" (Ibid., Ioc. cit.). Com isso, a Palavra fica reduzida a uma dimensão intangível, o que é uma forma sutil, imperceptível, de desentender-se do autêntico significado da Encarnação do Verbo, ou, o que é o mesmo, uma espécie de repaginação do docetismo. A compreensão luterana do composto humano leva-o a dizer que o homem é "destinado à perdição eterna", e a interpretar nesse sentido Os 13,9: "Ó Israel, nada tens em ti que não seja tua perdição, mas é em mim somente que está teu socorro" (na tradução da Bíblia de Jerusalém: "Eis que estás destruído, Israel, pois só em mim está o teu auxílio"). Aqui ressoa, certamente, Rm 3,11-12:

"Não há homem justo, 
não há um sequer, 
não há quem entenda, 
não há quem busque a Deus. 
Todos se transviaram, 
todos juntos se corromperam; 
não há quem faça o bem,
não há um sequer". 

Esta passagem, que é uma citação do Sl 14, é fonte de um grande mal-entendido, que só pode ser desfeito se nos remetermos ao original: vê-se perfeitamente que "todos" aí, é uma sinédoque, que se trata de determinados pecadores que se encontram em toda parte, entre os gentios e os judeus, entre os que não conhecem a fé e os que a conhecem; mas estes "todos" não incluem os "justos", o "pobre", o "seu [de Deus] povo" (cf. Sl 14,4-7). O que Davi e São Paulo querem dizer é que os judeus (e, no Novo Testamento, os cristãos, certamente) não têm privilégio por pertencerem nominalmente ao povo dos eleitos, que não é a pertença física ao povo que importa (ou a fé batismal sem a caridade, no caso dos cristãos), pois "tanto os judeus como os gregos, estão debaixo do pecado" (cf. Rm 3,9). De modo algum constitui uma boa exegese considerar a ideia de "uma massa de perdição" ou de uma "destruição da natureza humana", como fica claro se as passagens são confrontadas. Há pecados e pecados, e uma é a linhagem de Adão, suprassumida por Cristo, e outra, a de Caim (é todo o tema bíblico dos "dois caminhos", retomado pela reflexão agostiniana das "duas cidades", que não posso tratar aqui; o problema de fundo é o da predestinação).

Assim, a natureza humana só pode realizar a obra de "abandonar-se a Cristo", a obra da fé (cf. Ibid., p. 24). A fé fica reduzida a uma íntima confiança -um mero sentimento- que não precisa ser traduzida em obras, como se toda obra exterior do cristão equivalesse à lei judaica, que não pode justificar. Na realidade, Lutero se desentende do verdadeiro sentido da polêmica de São Paulo contra a "lei": não se trata, no Apóstolo, de negar as obras da caridade ou a lei do amor (a essência dos mandamentos), mas de retirar o valor das inúmeras prescrições do judaísmo que tinham um papel meramente pedagógico, em vista da fé (cf. Gl 3,10-29). A fé não elimina as obras do amor, pelo contrário! E não só não elimina, como se as admitisse acessória ou acidentalmente, como estas são a "prova" (no sentido científico mesmo) de que a fé é autêntica: cf. Lc 10,25-28; Jo 13,14-17; 1Jo 3,14-18; 1Jo 4,20; Tg 2,14-26.

Há, todavia, um modo de resgatar o que há de verdadeiro e legítimo na doutrina luterana, a qual diz que "é somente a fé, sem nenhum concurso das obras, que confere a justiça, a liberdade, a felicidade" (Ibid., p.25). E este modo consiste, precisamente, em distinguir o fato teológico da "justificação" daquele outro da "santificação".

De fato, nenhum católico jamais admitiu que somos justificados por algo feito por nós, mas somente pelo sacrifício de Cristo, pela fé neste sacrifício. No entanto, parece que a polêmica entre luteranos e católicos não viu suficientemente que, na questão da salvação, a "justificação" ou "redenção", bem como a "adoção filial", por um lado, e a "santificação", por outro, constituem dois momentos inseparáveis, porém distintos, dentro da única missão salvífica de Cristo: uma coisa é tornar justo o coração humano, incapaz de se recompor por suas próprias forças, ou seja, colocá-lo na sua condição natural originária, bem como, no mesmo ato, elevar esta condição justificada à situação na qual foi gratuitamente criada, mas que perdeu pelo pecado, que é a filiação divina; outra coisa é que o homem persevere nesta situação e nela cresça até a plena identificação com o Cristo (podendo recair e perder-se).

O primeiro (justificação e adoção filial) é ação estritamente divina; o outro (a santificação ou a perseverança até o fim), é ação conjunta humano-divina. Não percebê-lo é, no fundo, não compreender perfeitamente a união hipostática, em que a Pessoa Divina do Verbo não usou "instrumentalmente" uma natureza humana individual (a do homem Jesus de Nazaré), mas efetivamente a divinizou, não só na assunção desta natureza no momento de sua concepção, mas de um modo "processual", com o qual quero dizer "experimentado como um crescimento na consciência humana de Jesus", o que não é algo absolutamente diferente do que ocorre com os cristãos que se santificam. De modo algum isto significa negar a impecabilidade e o caráter divino de Cristo, mas apenas indicar o fato de que Ele, do ponto de vista humano, não foi desde sempre "perfeito", no sentido de "acabado", mas "cresceu em estatura, sabedoria e graça", como nos ensina a Escritura (cf. Lc 2,40).

Quando católicos falam dos "méritos" de um santo, estão simplesmente enfatizando que a salvação efetivamente aconteceu naquela pessoa, que Cristo "nela viveu" realmente (cf. Gl 2,20), e que a prova de que isto é verdade é que ela agiu como Cristo teria agido, pois a fé só é verdadeiramente uma confiança íntima em Deus quando opera pela caridade (cf. Gl 5,6), e a árvore só pode ser conhecida pelos frutos (cf. Mt 7,17-20). Ao contrário dos luteranos, os católicos julgam que tais frutos ou sinais não são realidades convenientes, porém dispensáveis, mas que eles devem decorrer da alma justificada, pois a justificação sem a perseverança ou santificação não é garantia de salvação. Aqui está o nó da questão.

Penso que, por aqui, entendendo esta distinção (justificação e santificação) dentro da salvação, talvez luteranos e católicos possam ir adiante no diálogo ecumênico, complementando a perspectiva da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação.



Friday, October 14, 2016

Memória de Santa Teresa D’Ávila: As 7 moradas, as 7 bem-aventuranças, os 7 dons do Espírito e os 7 pedidos da Oração do Senhor

A relação entre as bem-aventuranças, os dons do Espírito Santo e as preces da Oração dominical foram vistas por Santo Agostinho: cf. STO. AGOSTINHO. Sobre o Sermão do Senhor na montanha. Trad. Carlos Nougué. Campo Grande (MS): Edições Santo Tomás, 2003.

Minha contribuição consiste em apontar que o itinerário da vida espiritual do cristão segundo a grande doutora da Igreja (por mim aqui resumido) insere-se no esquema percebido pelo Doutor da Graça: cf. SANTA TERESA DE JESUS. Obras completas. Texto estabelecido por Fr. Tomaz Alvares, O.C.D. 5ª edição. São Paulo: Loyola; Higienópolis (SP): Carmelitanas, 2013.

Abaixo, uma pintura de Giovanni Battista Piazzetta e um poema da santa.


"Santa Teresa em êxtase"


Sobre aquelas palavras: "Dilectus meus mihi"

Entreguei-me toda, e assim
Os corações se hão trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

Quando o doce Caçador
Me atingiu com sua seta,
Nos meigos braços do Amor
Minh'alma aninhou-se, quieta.
E a vida em outra, seleta,
Totalmente se há trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

Era aquela seta eleita
Ervada em sucos de amor,
E minha alma ficou feita
Uma com o seu Criador.
Já não quero eu outro amor,
Que a Deus me tenho entregado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.



7 Moradas do espírito
7 Bem-aventuranças
7 Dons do Espírito Santo
7 Pedidos do Pai Nosso
Autoconhecimento, conhecimento de Deus, apelos do mundo/tentações
Pobreza de espírito (humildade que se reconhece como criatura, infância espiritual)
Temor de Deus (princípio da sabedoria, que torna o coração contrito e humilhado, consciência de nossa condição mortal)
Santificação do nome divino pelo temor casto
Oração constante, visão sobrenatural, começa a adequação à vontade divina
Mansidão (docilidade à Palavra de Deus)
Piedade filial (conformação à vontade de Deus revelada na sua Palavra e acontecimentos)
Que venha o Reino
Penitência, evitação dos pecados veniais, recolhimento, obras de caridade, retidão, prova, contentamentos (x gostos), evitação das ocasiões [é proveitosa a obediência a um diretor espiritual experimentado, e prudente não se lançar num apostolado impetuoso]
Aflição/choro (penitência pelos pecados revelados no conhecimento da Palavra)
Ciência
(que manifesta nossa condição de pecadores, conduzindo à penitência, mas protegendo-nos do desespero e consolando-nos)
Que seja feita a vontade divina
(Oração infusa de) “Gosto” (dilatação, confiança, desejo de penitência, aperfeiçoamento na virtude), união da vontade a Deus, oração de recolhimento (estar “absorto”)
Fome e sede de justiça
(esforço e trabalho corajosos; contra a má doçura das paixões, a atração pela doçura de Deus)
Fortaleza
(sustenta o esforço, crucifica o mundo, faz voltar-se para os bens eternos)
O pão cotidiano que sustenta e nutre, que dá “sabor” à vida
Adormecidos para o mundo e nós mesmos (como que sem sentidos por algum tempo); desejo de penitência, de solidão e de que todos conheçam a Deus; novos sofrimentos, descontentamento com as coisas do mundo (mas: senso do dever); dor pelas ofensas a Deus e as almas perdidas
Misericórdia
(levar adiante o que recebemos de Deus)
Conselho
(o mandamento do amor)
Perdão das dívidas dos nossos devedores, e das nossas por Deus
Sofrimentos (críticas, louvores, juízos dos confessores, temor ao engano, angústia); remédio são as obras de caridade; impulsos delicados e sutis; dor saborosa; arroubos (saída dos sentidos); suspensão (revelações); arrebatamento do espírito (cf. S. Paulo); louvores entusiasmados (cf. S. Francisco); visões intelectuais/união; visões imaginárias; seta de amor (dor e sentimentos espirituais)
Pureza de coração
(que faz ver a luz de Deus e receber a sabedoria)
Inteligência
(conveniente ao que tem o coração puro, e que faz conhecer os mistérios sobrenaturais de Deus)
Não cair nas tentações que tornam dúplice o coração
“Divino matrimônio”, visão da Trindade, secretas aspirações, centro da alma em paz, guerras/sofrimentos/fadigas nas faculdades; o intelecto se cala; não mais desejo de arroubos ou da morte, mas de servir a Deus
Paz
(submissão a Deus)
Sabedoria
(conveniente à pacificação possível nesta vida; a Sabedoria é o Filho de Deus e a conformação a Ele)
Libertação do mal

A última entrevista do papa

Muitas pessoas não católicas e inclusive católicas têm uma ideia errada da infalibilidade papal, como se tudo o que um papa dissesse, em quaisquer contextos, fosse uma revelação divina. 

Não é assim. No caso da infalibilidade, o Concílio Vaticano I, ao proclamar o dogma, elencou os critérios necessários para que as declarações papais sejam infalíveis, isto é, reflitam a fé apostólica da Igreja, e não apenas a opinião teológica pessoal do indivíduo que ocupa a Sé de Pedro (o papa não é infalível em nome próprio, ou por causa de uma suposta maior participação no dom da sabedoria; quando necessário, o Espírito o dirige e ilumina para que ele recolha e defina o autêntico ensinamento eclesial presente nas doutrinas dos Padres, doutores, santos, sucessores dos apóstolos, teólogos).

No caso do ensinamento não extraordinário, é de se esperar que as intervenções papais reflitam, de modo geral, a sabedoria bimilenar da Igreja. Mas não é impossível que ocorram equívocos, quando o papa inova e não repete, desdobra ou explicita o ensinado constantemente. Neste caso, a autoridade dirimente residirá em fundadas razões teológicas (iluminadas pela fé), independentemente de onde venham, e não no recurso ao status eclesiástico. Como já indicava João Escoto Eriúgena em seu tempo, a autoridade dos Padres da Igreja estava menos na sua antiguidade que na consistência de suas razões (não o cito, contraditoriamente, por causa de sua autoridade filosófico-teológica, mas por causa da auto-evidência do princípio que ele enuncia).

Na última entrevista de Francisco (cf. Entrevista do papa no regresso da Geórgia e do Azerbaijão), ele insinuou a salvação de Judas e relativizou a questão moral da transexualidade (e também a da "opção sexual", como se esta e a mudança de sexo estivessem no mesmo nível da mera "tendência" homossexual na doutrina moral católica). Seguem os trechos, e breves comentários:
A mí me gusta contar  –  no sé si lo he dicho, ¿eh?, porque lo repito mucho – que en la Iglesia de Santa María Magdalena en Vézelay –  ¿lo he dicho o no? –   hay un capitel hermoso, del 1200 más o menos.

Los medievales hacían la catequesis con las esculturas de las catedrales. En una parte del capitel está Judas, ahorcado, con la lengua afuera, los ojos afuera, y en la otra parte del capitel está Jesús, el Buen Pastor que lo toma y se lo lleva con él. Y si vemos bien la cara de Jesús, los labios de Jesús por una parte están tristes, pero por otra tienen una pequeña sonrisa de complicidad. ¡Ellos habían entendido qué cosa es la Misericordia! Con Judas ¡eh!
É certo que existem teólogos famosos e importantes, como Hans Urs von Balthasar, que expressaram o desejo de que o inferno estivesse vazio, ou outros, como Andrés Torres Queiruga, que fazem uma peculiar interpretação do significado da "perdição" (para o teólogo galego, "ninguém se perde, mas tão somente as possibilidades reais que não chegaram a se concretizar por causa dos pecados são condenadas no inferno"...). Ainda que isto seja falso, sempre se poderia dizer, num caso concreto em que não se pode afirmar a salvação de alguém, por exemplo, no caso do apóstolo traidor, que "Ou Judas está no inferno ou se salvou". Esta disjunção seria sempre logicamente verdadeira, mas a insinuação de sua salvação, a partir do momento em que a Sagrada Escritura e a Tradição não deixam margem para se pensar no arrependimento, não favorece a fé, uma vez que leva a imaginar que a misericórdia virá em qualquer caso, de modo que a luta pela santidade não pareceria um mister. 

“El año pasado recibí una carta de un español que me contaba su historia de niño y de joven. Era una niña, una niña que había sufrido mucho, porque él se sentía chico, pero físicamente era una chica. Se lo contó a su mamá -ya de 22 años- le dijo que quería hacer una operación quirúrgica y todas estas cosas. Y la mamá le pidió que no lo hiciera mientras ella estuviera viva. Era anciana, y murió poco después. Se hizo la operación, es empleado en un ministerio de una ciudad de España”.
 “Fue a ver al Obispo: el Obispo lo ha acompañado tanto. Un buen Obispo: “perdía” tiempo - perdía entre comillas - para acompañar a este hombre. Y después se casó; cambió su identidad civil, se casó y me escribió una carta que para él habría sido un consuelo venir con su esposa: él, que era ella, pero es él. Y los recibí. Estaban contentos. [...]
La vida es la vida, y hay que tomar las cosas como vienen. El pecado es el pecado. Las tendencias o los desequilibrios hormonales dan muchos problemas y debemos estar muy atentos a no decir: “Todo es lo mismo, hagamos fiesta”. No, esto no”.
 Cada caso hay que acogerlo, acompañarlo, estudiarlo, discernir e integrarlo. Esto es lo que haría Jesús hoy. Por favor, no digan: “¡El Papa santificará a los trans!”. Por favor ¿eh? Porque ya estoy viendo las primeras páginas de los diarios. No, no. ¿Hay alguna duda en lo que he dicho? Quiero ser claro. Es un problema moral. Es un problema. Es un problema humano. Y se debe resolver como se puede, siempre con la misericordia de Dios, con la verdad, como hemos hablando en el caso del matrimonio, leyendo toda la [Exhortación apostólica] Amoris Laetitia, pero siempre así, pero siempre con el corazón abierto. Y no olviden ese capitel de Vézelay: es muy lindo. Muy lindo”. 

Mesmo com o desejo de clareza manifesto pelo Santo Padre, sua opinião sobre a transexualidade não é clara, e talvez seja simplesmente errada. Qual é o problema moral? Qual é o problema humano?  Qual a verdade sobre a transexualidade, do ponto de vista cristão? A "ciência" esclarece a questão ?! O que Jesus efetivamente diria e faria?

Evidentemente, ninguém, a não ser outro papa, pode julgar um papa do ponto de vista canônico (assim como não pode julgar moralmente as intenções de qualquer pessoa, e não só do bispo de Roma), mas a inteligência da fé não é um privilégio do pontífice e nem sequer apenas dos pastores ou dos teólogos profissionais, pois a doutrina não é uma sorte de gnose fora do alcance do fiel leigo estudioso.


PS: haveria outras questões, como, por exemplo, o entendimento de que um pontífice deveria dizer que a "paz" se alcança pelos tribunais internacionais e não por Aquele que é "nossa Paz" (Ef 2,14), mas essa diplomacia é mais compreensível neste tema, ao passo que as perspectivas mencionadas acima são evidentemente (muito) problemáticas e merecedoras de uma crítica respeitosa.

Wednesday, October 12, 2016

Chesterton e o distributismo

Excertos do capítulo I ("Algumas ideias gerais") do livro Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo:


"Solicitaram-me o republicar destas notas -que apareceram num jornal semanal- como um esboço grosseiro sobre certos aspectos da instituição da propriedade privada, agora quase inteiramente olvidada em meio a júbilos jornalísticos ao redor da iniciativa privada. O fato mesmo de que os publicistas falem tanto desta e tão pouco daquela é, em si, uma medida do tom moral dos nossos tempos. Um batedor de carteiras é obviamente um campeão da iniciativa privada. Mas seria, talvez, um exagero dizer que um batedor de carteiras é um campeão da propriedade privada. O problema com o capitalismo e o comercialismo, propagados como têm sido recentemente, é que eles são realmente defendidos como uma extensão do comércio em vez de uma preservação dos pertences; e têm tentado, na melhor das hipóteses, disfarçar o batedor de carteiras com algumas das virtudes do pirata. O problema com o comunismo é que ele apenas reforma o batedor ao impedir a existência dos bolsos" (G. K. Chesterton, Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo. Trad. Raul Martins. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 7).



"Se o capitalismo significar a propriedade privada, então sou um capitalista. Se o capitalismo significar capital, somos todos capitalistas. Mas se o capitalismo significar esta condição particular do capital, apenas repassado à massa sob a forma de salários, então de fato significa algo, ainda que devesse significar outra coisa.

A verdade é que aquilo a que chamamos capitalismo deveria chamar-se proletarianismo. O ponto disso não é que algumas pessoas possuem capital, mas sim que a maioria das pessoas tem salários simplesmente por não possuírem capital" (Ibid., p. 10).



"Um governo socialista é um cuja natureza mesma não tolera qualquer oposição real e verdadeira. Pois lá o governo fornece todas as coisas; e seria absurdo pedir a um governo que ele fornecesse uma oposição" (Ibid., p. 12).



"A propriedade é uma questão de honra. O antônimo verdadeiro da palavra 'propriedade' é 'prostituição'. E não é de modo algum verdade que um ser humano há de sempre vender o que é sagrado àquele senso de autopropriedade, quer seu corpo, quer suas fronteiras" (Ibid., p. 22).



"Ora, o sistema capitalista, bom ou mal, correta ou erroneamente, repousa sobre duas ideias: a de que o rico será sempre suficientemente rico para contratar o pobre; e de que o pobre será sempre suficientemente pobre para desejar ser contratado" (Ibid., p. 27).



"O capitalismo é contraditório assim que está completo; pois lida com a massa de homens de duas maneiras opostas ao mesmo tempo. Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais e mais difícil que a maioria dos homens tornem-se clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negócio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que outros têm para gastar em carvão. Essa contradição no capitalismo não se mostra nos primeiros estágios, pois ainda há populações não reduzidas à condição do proletário comum. Mas assim que os ricos como um todo estão empregando os assalariados como um todo, a contradição fita-os com o irônico semblante da perdição e do juízo" (Ibid., p. 30). 



"Não oferecemos a perfeição; o que oferecemos é a proporção. Desejamos corrigir as proporções do estado moderno; mas a proporção se dá sempre entre coisas variadas; e dificilmente  a reduziríamos a um padrão. É como se estivéssemos desenhando a figura de um homem vivo, e julgassem-nos a desenhar um diagrama de engrenagens e linhas para a construção de um robô. Não propomos que se devam manter todas as terras de maneira igual em uma sociedade saudável; ou que se devam manter todas as propriedades sob as mesmas condições; ou que todos os cidadãos devam ter a mesma relação para com a cidade. É todo o nosso argumento que o poder central precisa ter menos poderes para balancear e checar, e que esses devem ser os mais diversos: alguns individuais, alguns comunais, alguns oficiais, e assim por diante. É bem provável que alguns abusem de seus privilégios; mas preferimos esse risco àquele do Estado ou do truste, que abusam da sua onipotência" (p. 53).