A noite
ativa da Fé
Purificação
das forças espirituais na noite ativa
Noite do espírito: “caminho estreito”, em que a Fé
representa o papel principal. A primeira noite atingiu a parte sensível, a
noite da Fé atinge a parte racional. A Fé é um hábito certo e obscuro da alma,
que nos leva a crer em verdades relevadas pelo próprio Deus, acima da luz
natural. A excessiva luz da Fé é para a alma escuridão tenebrosa.
Após ter renunciado, na noite dos sentidos, a todos
os desejos de criaturas, a alma deverá, para chegar a Deus, morrer para as
forças naturais, os sentidos e a razão. Para conseguir a transformação
sobrenatural é preciso deixar tudo quanto faz parte do homem natural, e os bens
sobrenaturais se Deus os deu. Manter-se às escuras, não se apoiar em nada que se
entende, prova e imagina. Quem não estiver completamente cego não se de deixará
conduzir de bom agrado pelo guia de cegos, pois continua no que ainda é capaz
de enxergar por si.
A união
de que se está cuidando não é a relação essencial de Deus como todas as coisas
– como conservador da existência de todas elas –, mas ‘a união e transformação
da alma em Deus, por amor’. Esta, ao contrário daquela, nem sempre ocorrer, mas
somente ‘quando existe semelhança de amor’. Aquela união é de ordem natural,
esta é sobrenatural. A união sobrenatural realiza-se quando a vontade da alma
se conforma a tal ponto com a vontade de Deus que ambos constituem uma só vontade
(STEIN,
Edith. A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo: Loyola,
1988, p. 58).
Quando a alma tirar de si tudo que repugna à
vontade divina, será transformada em Deus por amor. “A luz divina já habita
naturalmente a alma. Contudo, somente quando a alma separar-se, por amor a
Deus, de tudo quanto não seja Deus, é que se realizará a essência do amor e que
poderá ser iluminada e nele transformada” (Ibid., p. 59).
O despojamento necessário para a união
transformadora é levado a efeito no entendimento pela Fé, na memória
pela Esperança, e na vontade pelo Amor. A Fé é um
conhecimento certo, mas obscuro, que reduz a razão ao nada, levando-a a
reconhecer sua incapacidade diante da grandeza de Deus; a Esperança esvazia a
memória, levando-a a ocupar-se com algo que não possui, ensinando que devemos
esperar tudo de Deus e nada de nós mesmos ou das criaturas; o Amor liberta a
vontade de todas as coisas, obrigando-a a amar a Deus acima de todas as coisas.
Cristo morreu, em sentido espiritual, durante toda
a sua vida, para tudo o que se refere aos sentidos, e em sentido natural, em
sua morte carnal, morreu para tudo. A maior obra de Jesus não foi a que
realizou por meio de milagres e entre aclamações, mas nu e desamparado no
madeiro da Cruz.
O entendimento não pode formar um conceito adequado
de Deus; a memória não consegue criar, pela fantasia, formas ou imagens que
possam representá-lo; a vontade é incapaz de alegrias proporcionais ao Bem que
é o próprio Deus.
Purificação do entendimento: para
chegar a Deus antes se há de ir não entendendo que querendo entender. O
Areopagita chama a contemplação de teologia mística, ou seja, a
sabedoria secreta de Deus, um raio de luz nas trevas. A escuridão que leva a
Deus é a Fé; quanto mais Fé a alma tem, mais unida a Deus. Essa
escuridão é indicada pela nuvem. O que nos ensina, pela contemplação,
é um conhecimento geral e obscuro; ela se opõe às atividades naturais do
entendimento, e também às visões, revelações, locuções, sensações espirituais.
Não convém à alma aspirar a essas visões divinas.
O momento de deixar o grau de meditação chega
quando coincidem os três sinais vistos na noite escura dos sentidos: a
alma não se alegra na meditação discursiva; não quer se ocupar com outras
coisas; deseja preferencialmente repousar em Deus, num conhecimento geral e
cheio de amor (cf. Ibid., p. 65).
Purificação da memória: devem ser
removidos os obstáculos naturais para que a memória se eleve, acima de todos os
conhecimentos e das aquisições dos sentidos, em direção à suprema esperança do
Deus incompreensível. Todas as inquietações e obstáculos à paz da alma são
causados pelo conteúdo da memória. É preciso trocar o variável e compreensível
pelo invariável e incompreensível. Então a memória poderá receber a sabedoria
divina.
A memória também guarda conhecimentos espirituais;
sua recordação é permitida quando lhe produzir bom efeito, o que acontece
principalmente com a lembrança das coisas incriadas. A memória se une com Deus
pela virtude da esperança, elevando-se no vazio de todas as lembranças, com
afeto amoroso.
Purificação da vontade: é a Caridade
que dá vida e valor às obras praticadas sob a luz da Fé: “Amarás o Senhor teu
Deus com todo o coração, com toda a tua alma, como todas as tuas forças”. A
força da alma reside nas suas faculdades, paixões e desejos governados pela
vontade. Quando a vontade os dirige para Deus e os afasta de tudo o que não é Ele,
guarda sua fortaleza para o Senhor, e assim O ama com todas as forças.
Quatro são as paixões da alma: gozo, esperança,
dor e temor. A alma deve dirigi-las a Deus pela razão: gozar só
do que se refira puramente à honra e glória divinas; esperar só em Deus; não se
entristecer senão pelo pecado; não temer unicamente a Deus. Então, as paixões
guardam a alma para Deus. Desordenadas, as paixões produzem vícios e
imperfeiçoes; ordenadas, geram todas as virtudes. Se uma se submete à razão,
todas as outras o fazem, dada a interligação entre elas. Infeliz aquele que
pensa a ausência de deleites espirituais como ausência de Deus, ou, possuindo-os,
ache que então possui a Deus. A união com Deus só é obtida pelo vazio das
tendências quanto a qualquer gozo particular (cf. p. 82).
Só é permitido alegrar-se pelos bens temporais
quando ajudam a servir a Deus. A complacência nos bens naturais
(qualidades do corpo e da alma) traz: vanglória, presunção, soberba, desprezo
pelo próximo, sensualidade, sede de lisonjas, embotamento da inteligência,
frouxidão espiritual e aversão pelas coisas de Deus. A entrega aos bens
sensoriais traz vaidade, distração do espírito, desejos desordenados,
desonestidade, excessos interiores e exteriores, pensamentos impuros, inveja...
O gozo em ouvir palavras inúteis produz dissipação da fantasia,
superficialidade verbal, inveja, juízos temerários, volubilidade de
pensamentos. O gozo em odores suaves produz repugnância aos pobres, aversão ao
serviço, dureza de coração para com as coisas humildes e insensibilidade
espiritual. O gozo em manjares deliciosos leva à gula e à embriaguez, produz cólera,
discórdia, falta de caridade para com o próximo, especialmente o pobre; também
aumenta os incentivos da luxúria. O gozo no toque de coisas suaves perverte
sensivelmente o espírito, roubando-lhe vigor, donde se nutre a luxúria... Na
alma que renuncia a essas alegrias realiza-se uma sublime transformação: o
homem passa de sensível a espiritual, de animal a racional, de temporal a
humano, a celeste e divino. A vontade recebe já nesta vida o cêntuplo.
É lícito alegrar-se nos bens morais e na posse e
exercício das virtudes, pelo amor a Deus. Da equivocada alegria pelas próprias
boas obras nascem a soberba farisaica e a presunção, o desprezo pelos outros e
o desejo de ser elogiado (perde-se o mérito eterno). Isto é injustiça e negação
de Deus, autor de toda boa obra; as almas não progridem, seu amor-próprio por
suas obras as faz arrefecer na caridade. Renunciando a esse tipo de orgulho, a
alma chegará à pobreza de espírito, será mansa, humilde e prudente, não será
impetuosa nem terá presunção. A renúncia a esse gozo inútil a afará agradável a
Deus e aos homens.
Quanto aos bens sobrenaturais (dona gratis datas),
como a sabedoria de Salomão, ou os carismas de que fala S. Paulo, convêm à alma
alegrar-se somente pelo serviço a Deus com caridade. A luz divina indica à alma
quais as obras verdadeiras e quando devem se exercitar. Deus não gosta de
operar por meio de milagres, fazendo-o geralmente para levar alguém à Fé. Os
bens espirituais (que favorecem o trato da alma com Deus e as comunicações de
Deus à alma) mais do que quaisquer outros levam a união com Deus. Podem ser
agradáveis ou penosos, conhecidos claramente ou obscuros.
As imagens, oratórios e cerimônias não podem ser
absolutizados. Aos principiantes é relativamente permitido o apego devocional
“sensível”. Os pregadores devem servir ao povo sem serem vítimas de sua própria
vaidade; a pregação é exercício mais espiritual que vocal; para ser eficiente,
requer certa receptividade dos ouvintes, mas mais importante é a reta intenção
do pregador, que esteja penetrado do verdadeiro espírito, que sua vida seja
exemplar (S. João não quer desprestigiar o estilo cuidadoso, a eloquência, o
bom vocabulário, mas submeter tudo ao Espírito) (cf. pp. 89-94) [aqui se
interrompe repentinamente a Subida do monte Carmelo].
Desvelamento
recíproco entre o espírito e a Fé
A Fé exige renúncia às atividades naturais
do espírito. Nisso consiste a noite ativa da Fé, nossa própria
atividade de seguir a cruz de Jesus Cristo. Em sua atividade natural, o
espírito está ligado aos sentidos. Mas a finalidade do espírito não é conhecer
as coisas criadas, mas sim voltar-se para o Criador e entregar-se a Ele com
todas as forças, por meio de um progressivo trabalho de educação e
despojamento.
É Deus quem dá o estímulo inicial e completa o
trabalho, exigindo, porém, a colaboração do homem por meio de sua própria
atividade espiritual. O espírito deve se privar de tudo aquilo com que se ocupa
naturalmente, deve ser educado para Deus e somente nele colocar sua alegria.
Isso vem a realizar-se porque se oferece às forças naturais algo de mais
atraente e satisfatório do que elas naturalmente seriam capazes de aproveitar.
A Fé dirige a inteligência para o Criador de todas as coisas, aquele que
é infinitamente maior, mais alto e mais digno de ser amado do que todas elas
(Ibid., p. 98).
Com a vida de Fé, o espírito se eleva acima de sua
atividade natural, sem desligar-se dela.
Essa
atividade, pelas qual o espírito se apropria interiormente do conteúdo da Fé,
consiste na meditação. Nela a imaginação representa concretamente
os acontecimentos da Redenção; os sentidos extraem o que lhes é
proveitoso; e a inteligência reflete sobre sua importância geral e sobre
as exigências que daí decorrem para a própria pessoa. Dessa forma a vontade sentir-se-á
estimulada a amar e a orientar a sua vida pelo espírito de Fé. [...] Essa
atividade torna-se mais viva, fácil e fecunda se o Espírito Santo anima
e eleva o espírito humano [...] O espírito – no significado amplo e objetivo,
não só de inteligência, mas também de coração – familiariza-se com Deus
pela contínua atenção, conhece-o, ama-o. O conhecimento e o amor tornam-se
parte do seu ser, tal como o relacionamento com outra pessoa com a qual já se
convive há muito tempo e se tem intimidade” (Ibid., p. 99).
Após um longo exercício na vida espiritual, a alma
não precisa da meditação para aprender a conhecer e amar a Deus. Logo que se
põe em oração, já está com Deus e permanece com ele pela entrega amorosa. Deus
se apraz mais com seu silêncio que com suas palavras (é o que hoje em dia se
chama de contemplação adquirida, termo que S. João da Cruz não
utiliza). Esse é o mais alto grau de vida de fé que se pode atingir pela
atividade própria, desde que se tenha a entrega da própria vontade à vontade de
Deus e a conformidade de todas as ações com a vontade divina. Para o espírito é
também a maior elevação possível acima das condições de nossa existência
natural. Pela entrega cheia de Fé ao Deus incompreensível, procedemos de modo puramente
espiritual, desligados de todos os conceitos e imagens. Ficamos livre num
estado de vida simplificado e purificado, em que são uma só coisa o
conhecer, o recordar e o amor. Eis o umbral da vida mística, da entrada
para a transformação a ser alcançada pela noite [passiva] do espírito.

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