12.6.25

A Ciência da Cruz - 2a parte

 

A noite ativa da Fé

 

Purificação das forças espirituais na noite ativa

 

Noite do espírito: “caminho estreito”, em que a Fé representa o papel principal. A primeira noite atingiu a parte sensível, a noite da Fé atinge a parte racional. A Fé é um hábito certo e obscuro da alma, que nos leva a crer em verdades relevadas pelo próprio Deus, acima da luz natural. A excessiva luz da Fé é para a alma escuridão tenebrosa.

Após ter renunciado, na noite dos sentidos, a todos os desejos de criaturas, a alma deverá, para chegar a Deus, morrer para as forças naturais, os sentidos e a razão. Para conseguir a transformação sobrenatural é preciso deixar tudo quanto faz parte do homem natural, e os bens sobrenaturais se Deus os deu. Manter-se às escuras, não se apoiar em nada que se entende, prova e imagina. Quem não estiver completamente cego não se de deixará conduzir de bom agrado pelo guia de cegos, pois continua no que ainda é capaz de enxergar por si.

 

A união de que se está cuidando não é a relação essencial de Deus como todas as coisas – como conservador da existência de todas elas –, mas ‘a união e transformação da alma em Deus, por amor’. Esta, ao contrário daquela, nem sempre ocorrer, mas somente ‘quando existe semelhança de amor’. Aquela união é de ordem natural, esta é sobrenatural. A união sobrenatural realiza-se quando a vontade da alma se conforma a tal ponto com a vontade de Deus que ambos constituem uma só vontade (STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo: Loyola, 1988, p. 58).

 

Quando a alma tirar de si tudo que repugna à vontade divina, será transformada em Deus por amor. “A luz divina já habita naturalmente a alma. Contudo, somente quando a alma separar-se, por amor a Deus, de tudo quanto não seja Deus, é que se realizará a essência do amor e que poderá ser iluminada e nele transformada” (Ibid., p. 59).

O despojamento necessário para a união transformadora é levado a efeito no entendimento pela , na memória pela Esperança, e na vontade pelo Amor. A Fé é um conhecimento certo, mas obscuro, que reduz a razão ao nada, levando-a a reconhecer sua incapacidade diante da grandeza de Deus; a Esperança esvazia a memória, levando-a a ocupar-se com algo que não possui, ensinando que devemos esperar tudo de Deus e nada de nós mesmos ou das criaturas; o Amor liberta a vontade de todas as coisas, obrigando-a a amar a Deus acima de todas as coisas.

Cristo morreu, em sentido espiritual, durante toda a sua vida, para tudo o que se refere aos sentidos, e em sentido natural, em sua morte carnal, morreu para tudo. A maior obra de Jesus não foi a que realizou por meio de milagres e entre aclamações, mas nu e desamparado no madeiro da Cruz.

O entendimento não pode formar um conceito adequado de Deus; a memória não consegue criar, pela fantasia, formas ou imagens que possam representá-lo; a vontade é incapaz de alegrias proporcionais ao Bem que é o próprio Deus.

Purificação do entendimento: para chegar a Deus antes se há de ir não entendendo que querendo entender. O Areopagita chama a contemplação de teologia mística, ou seja, a sabedoria secreta de Deus, um raio de luz nas trevas. A escuridão que leva a Deus é a ; quanto mais Fé a alma tem, mais unida a Deus. Essa escuridão é indicada pela nuvem. O que nos ensina, pela contemplação, é um conhecimento geral e obscuro; ela se opõe às atividades naturais do entendimento, e também às visões, revelações, locuções, sensações espirituais. Não convém à alma aspirar a essas visões divinas.

O momento de deixar o grau de meditação chega quando coincidem os três sinais vistos na noite escura dos sentidos: a alma não se alegra na meditação discursiva; não quer se ocupar com outras coisas; deseja preferencialmente repousar em Deus, num conhecimento geral e cheio de amor (cf. Ibid., p. 65).

Purificação da memória: devem ser removidos os obstáculos naturais para que a memória se eleve, acima de todos os conhecimentos e das aquisições dos sentidos, em direção à suprema esperança do Deus incompreensível. Todas as inquietações e obstáculos à paz da alma são causados pelo conteúdo da memória. É preciso trocar o variável e compreensível pelo invariável e incompreensível. Então a memória poderá receber a sabedoria divina.

A memória também guarda conhecimentos espirituais; sua recordação é permitida quando lhe produzir bom efeito, o que acontece principalmente com a lembrança das coisas incriadas. A memória se une com Deus pela virtude da esperança, elevando-se no vazio de todas as lembranças, com afeto amoroso.

Purificação da vontade: é a Caridade que dá vida e valor às obras praticadas sob a luz da Fé: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a tua alma, como todas as tuas forças”. A força da alma reside nas suas faculdades, paixões e desejos governados pela vontade. Quando a vontade os dirige para Deus e os afasta de tudo o que não é Ele, guarda sua fortaleza para o Senhor, e assim O ama com todas as forças.

Quatro são as paixões da alma: gozo, esperança, dor e temor. A alma deve dirigi-las a Deus pela razão: gozar só do que se refira puramente à honra e glória divinas; esperar só em Deus; não se entristecer senão pelo pecado; não temer unicamente a Deus. Então, as paixões guardam a alma para Deus. Desordenadas, as paixões produzem vícios e imperfeiçoes; ordenadas, geram todas as virtudes. Se uma se submete à razão, todas as outras o fazem, dada a interligação entre elas. Infeliz aquele que pensa a ausência de deleites espirituais como ausência de Deus, ou, possuindo-os, ache que então possui a Deus. A união com Deus só é obtida pelo vazio das tendências quanto a qualquer gozo particular (cf. p. 82).

Só é permitido alegrar-se pelos bens temporais quando ajudam a servir a Deus. A complacência nos bens naturais (qualidades do corpo e da alma) traz: vanglória, presunção, soberba, desprezo pelo próximo, sensualidade, sede de lisonjas, embotamento da inteligência, frouxidão espiritual e aversão pelas coisas de Deus. A entrega aos bens sensoriais traz vaidade, distração do espírito, desejos desordenados, desonestidade, excessos interiores e exteriores, pensamentos impuros, inveja... O gozo em ouvir palavras inúteis produz dissipação da fantasia, superficialidade verbal, inveja, juízos temerários, volubilidade de pensamentos. O gozo em odores suaves produz repugnância aos pobres, aversão ao serviço, dureza de coração para com as coisas humildes e insensibilidade espiritual. O gozo em manjares deliciosos leva à gula e à embriaguez, produz cólera, discórdia, falta de caridade para com o próximo, especialmente o pobre; também aumenta os incentivos da luxúria. O gozo no toque de coisas suaves perverte sensivelmente o espírito, roubando-lhe vigor, donde se nutre a luxúria... Na alma que renuncia a essas alegrias realiza-se uma sublime transformação: o homem passa de sensível a espiritual, de animal a racional, de temporal a humano, a celeste e divino. A vontade recebe já nesta vida o cêntuplo.

É lícito alegrar-se nos bens morais e na posse e exercício das virtudes, pelo amor a Deus. Da equivocada alegria pelas próprias boas obras nascem a soberba farisaica e a presunção, o desprezo pelos outros e o desejo de ser elogiado (perde-se o mérito eterno). Isto é injustiça e negação de Deus, autor de toda boa obra; as almas não progridem, seu amor-próprio por suas obras as faz arrefecer na caridade. Renunciando a esse tipo de orgulho, a alma chegará à pobreza de espírito, será mansa, humilde e prudente, não será impetuosa nem terá presunção. A renúncia a esse gozo inútil a afará agradável a Deus e aos homens.

Quanto aos bens sobrenaturais (dona gratis datas), como a sabedoria de Salomão, ou os carismas de que fala S. Paulo, convêm à alma alegrar-se somente pelo serviço a Deus com caridade. A luz divina indica à alma quais as obras verdadeiras e quando devem se exercitar. Deus não gosta de operar por meio de milagres, fazendo-o geralmente para levar alguém à Fé. Os bens espirituais (que favorecem o trato da alma com Deus e as comunicações de Deus à alma) mais do que quaisquer outros levam a união com Deus. Podem ser agradáveis ou penosos, conhecidos claramente ou obscuros.

As imagens, oratórios e cerimônias não podem ser absolutizados. Aos principiantes é relativamente permitido o apego devocional “sensível”. Os pregadores devem servir ao povo sem serem vítimas de sua própria vaidade; a pregação é exercício mais espiritual que vocal; para ser eficiente, requer certa receptividade dos ouvintes, mas mais importante é a reta intenção do pregador, que esteja penetrado do verdadeiro espírito, que sua vida seja exemplar (S. João não quer desprestigiar o estilo cuidadoso, a eloquência, o bom vocabulário, mas submeter tudo ao Espírito) (cf. pp. 89-94) [aqui se interrompe repentinamente a Subida do monte Carmelo].

 

Desvelamento recíproco entre o espírito e a Fé

 

A exige renúncia às atividades naturais do espírito. Nisso consiste a noite ativa da Fé, nossa própria atividade de seguir a cruz de Jesus Cristo. Em sua atividade natural, o espírito está ligado aos sentidos. Mas a finalidade do espírito não é conhecer as coisas criadas, mas sim voltar-se para o Criador e entregar-se a Ele com todas as forças, por meio de um progressivo trabalho de educação e despojamento.

 

É Deus quem dá o estímulo inicial e completa o trabalho, exigindo, porém, a colaboração do homem por meio de sua própria atividade espiritual. O espírito deve se privar de tudo aquilo com que se ocupa naturalmente, deve ser educado para Deus e somente nele colocar sua alegria. Isso vem a realizar-se porque se oferece às forças naturais algo de mais atraente e satisfatório do que elas naturalmente seriam capazes de aproveitar. A dirige a inteligência para o Criador de todas as coisas, aquele que é infinitamente maior, mais alto e mais digno de ser amado do que todas elas (Ibid., p. 98).

 

Com a vida de Fé, o espírito se eleva acima de sua atividade natural, sem desligar-se dela.

 

Essa atividade, pelas qual o espírito se apropria interiormente do conteúdo da Fé, consiste na meditação. Nela a imaginação representa concretamente os acontecimentos da Redenção; os sentidos extraem o que lhes é proveitoso; e a inteligência reflete sobre sua importância geral e sobre as exigências que daí decorrem para a própria pessoa. Dessa forma a vontade sentir-se-á estimulada a amar e a orientar a sua vida pelo espírito de Fé. [...] Essa atividade torna-se mais viva, fácil e fecunda se o Espírito Santo anima e eleva o espírito humano [...] O espírito – no significado amplo e objetivo, não só de inteligência, mas também de coração – familiariza-se com Deus pela contínua atenção, conhece-o, ama-o. O conhecimento e o amor tornam-se parte do seu ser, tal como o relacionamento com outra pessoa com a qual já se convive há muito tempo e se tem intimidade” (Ibid., p. 99).

 

Após um longo exercício na vida espiritual, a alma não precisa da meditação para aprender a conhecer e amar a Deus. Logo que se põe em oração, já está com Deus e permanece com ele pela entrega amorosa. Deus se apraz mais com seu silêncio que com suas palavras (é o que hoje em dia se chama de contemplação adquirida, termo que S. João da Cruz não utiliza). Esse é o mais alto grau de vida de fé que se pode atingir pela atividade própria, desde que se tenha a entrega da própria vontade à vontade de Deus e a conformidade de todas as ações com a vontade divina. Para o espírito é também a maior elevação possível acima das condições de nossa existência natural. Pela entrega cheia de Fé ao Deus incompreensível, procedemos de modo puramente espiritual, desligados de todos os conceitos e imagens. Ficamos livre num estado de vida simplificado e purificado, em que são uma só coisa o conhecer, o recordar e o amor. Eis o umbral da vida mística, da entrada para a transformação a ser alcançada pela noite [passiva] do espírito.




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