Publicado na Gazeta
do Povo de 29/03/2015
A educação visa “o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania
e sua qualificação para o trabalho” (LDB). Vejamos estas metas.
A ideia de “pleno desenvolvimento”
remete ao conceito aristotélico de felicidade, realização pessoal, que
está em viver de acordo com o que nos é mais próprio: a razão. E isto
não por força de uma norma extrínseca, mas porque esta é nossa condição: a
inteligência capta a própria realidade, mas não, imediatamente, o que
ela é, nem o que fazer com ela. A inteligência nos lança ao
exercício da deliberação, pois não temos instintos capazes de
determinar a nossa conduta. A realidade aparece como algo a ser dotado de
sentido e como possibilidade a ser apropriada, sem uma direção prévia:
surge a liberdade. Educar para a felicidade seria, assim, educar para um uso
responsável da razão e da liberdade: procuro optar
pelo que me parece razoável e bom, à luz da atenta observação da realidade,
do estudo e da reflexão? Sou humilde para reconhecer meus erros e
retificá-los?
Pela inteligência também estamos
abertos aos demais inteligentes, vemo-los não só como “outros”, mas como
outros “de nós” (nossa dimensão social). E que devemos nos apropriar
socialmente das possibilidades herdadas da tradição (nossa
dimensão histórica), para elaborar nossos modos pessoais e nosso modo
comunitário de estar no mundo. As figuras de felicidade pessoais não podem
ser obstáculo para o “bem comum”. A "pessoa" é um indivíduo
aberto à comunidade, a qual é construída de modo interdependente. A
formação deve levar o educando a perguntar-se (não se trata
de um momento cronologicamente ulterior ao da formação para a
felicidade, mas de um aprofundamento nas perguntas formuladas acima): minhas
opções levam em conta os demais? Ajudam as possibilidades alheias ou as
prejudicam? Sou capaz de reparar os danos e pedir perdão? Ajudo outras pessoas
a se descobrirem autônomas e corresponsáveis pela sociedade?
Pela inteligência,
damo-nos conta da realidade e das demais pessoas, e descobrimo-nos
chamados a transformar, juntos, a realidade, através do trabalho, âmbito de
realização pessoal e de exercício da cidadania. O educando
deve ser preparado para, na empresa, no serviço público, autônomo ou do
lar, desdobrar seus dons, aplicar os conhecimentos recebidos, estabelecer
amizades, produzir riquezas que reverterão a toda a sociedade, lidar com
dificuldades e até injustiças que clamarão por uma mais ativa participação política,
dar testemunho de honestidade etc. E aí, a pessoa deverá se questionar: faço bem o meu
trabalho, consciente da minha responsabilidade pessoal e de sua
repercussão social? Faço-o com espírito cooperativo? Meu fim é
meramente o dinheiro, ou inclui, formalmente, o crescimento
pessoal meu e daqueles que usufruirão do fruto do meu trabalho? Meu
trabalho é honesto, ajuda outras pessoas a serem mais livres e a exercerem sua
cidadania, ou gera cadeias que as oprimem?
Assim, a
meta da educação é a felicidade que decorre de um exercício responsável de
nossa razão e liberdade, numa abertura à realidade dos demais que inclui o
respeito pela sua liberdade e a luta pelo seu crescimento pessoal, e no
trabalho transformador, que cria condições propícias à vida feliz.
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