Artigo publicado em agosto de 2013 no site "Católico Porque...", mas que só pude encontrar agora no Veritatis
Splendor
* * *
A página da Rádio Vaticano traz um discurso
do Papa Francisco ao Comitê Executivo de Caritas
Internationalis, em que o Santo Padre apresenta uma
versão para a passagem da multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mt 14,13-21;
15,32-39; Mc 6,30-44; 8,1-10; Lc 9,12-17; Jo 6,1-15), que causou estranhamento
a alguns; eis o que ele diz:
Acerca dos pães e dos peixes,
queria agregar um matiz: não se multiplicaram, não, não é verdade.
Simplesmente, os pães não se acabaram. Como não se acabou a farinha e o azeite
da viúva. Não se acabaram. Quando alguém diz multiplicar pode se confundir e
crer que faz magia, não. Não, não, simplesmente é tal a grandeza de Deus e do
amor que pôs em nossos corações, que, se queremos, o que temos não se acaba.
Muita confiança nisto.
Três coisas chamam a atenção: a) a afirmação
de que os pães e os peixes não se multiplicaram, mas “não se acabaram”; b) a
associação da multiplicação à magia; c) a afirmação de que nosso querer garante
a permanência de nossos haveres.
Quanto a “a”, o primeiro a ser destacado é
que o Santo Padre não nega que ocorreu um milagre, já que compara o acontecido
ao socorro miraculoso que Elias presta à viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17, 10-16). Mas
o milagre não estaria na multiplicação dos pães, isto é, Jesus não os
multiplica antes da distribuição dos apóstolos, senão que sua quantidade vai
aumentando durante a mesma, é o que se depreende da fala do Papa. Os pedaços
que alimentam a multidão são pedaços dos cinco (ou sete) pães iniciais. O Papa
voltaria ao texto da “multiplicação dos pães” no Angelus
do dia 02 de junho do presente ano:
Diante
daqueles cinco pães, Jesus pensa: eis a providência! Deste pouco, Deus pode
encontrar o necessário para todos. Jesus confia totalmente no Pai celeste, sabe
que a Ele tudo é possível. Por isso, pede aos discípulos que mandem as pessoas
sentar-se em grupos de cinquenta — e isto não é casual, porque significa que já
não são uma multidão, mas tornam-se comunidades, alimentadas pelo pão de Deus.
Em seguida, toma aqueles pães e peixes, eleva os olhos ao céu, recita a bênção
— é clara a referência à Eucaristia — e depois parte-os e começa a dá-los aos
discípulos para que eles os distribuam... e
os pães e os peixes já não acabam, não acabam! Eis o milagre: mais do que uma multiplicação, trata-se de uma partilha,
animada pela fé e pela oração. Todos comeram e sobejou: é o sinal de Jesus, pão
de Deus para a humanidade (negrito meu).
Perceba-se a semelhança com aquilo que Bento XVI, no Angelus de 31 de julho de 2011,
havia dito, a respeito do mesmo tema:
O Evangelho deste
domingo descreve o milagre da multiplicação dos pães, que Jesus realiza para
uma multidão de pessoas que O seguiram com a intenção de O ouvir e ser curados
de várias enfermidades (cf. Mt 14, 14). Ao cair da noite, os
discípulos sugerem a Jesus que mande embora a multidão, para que possa ir
alimentar-se. Mas o Senhor tem outra coisa em mente: «Dai-lhe vós mesmos de
comer» (Mt 14, 16). Eles, no entanto, só têm «cinco pães e dois
peixes». Então, Jesus realiza um gesto que faz pensar no sacramento da
Eucaristia: «Elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os
pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo» (Mt 14,
19). O milagre consiste na partilha fraterna de poucos pães que,
confiados ao poder de Deus, não só são suficientes para todos, mas chegam a
sobejar, a ponto de encher doze cestos. O Senhor pede aos discípulos que
distribuam o pão à multidão; deste modo, orienta-os e prepara-os para a futura
missão apostólica: com efeito, deverão levar a todos a alimentação da Palavra
de vida e do Sacramento (negrito meu).
Ambos os papas
acentuam que o milagre está na partilha. Não se trata, portanto, de uma
“inovação” de Francisco. O que ambos parecem acentuar é o papel da cooperação
humana para a intervenção miraculosa de Deus (nada mais católico, não?): o pão
“crescia” nas mãos dos apóstolos, não nas de Cristo, chamando a atenção para o
seu papel de instrumentos. O pão estava sempre “acabando”, na percepção deles,
o que exigia continuamente a sua fé em continuar dando pedaços generosos para
cada um. Nada nos textos da “multiplicação” nos determina a pensar que o fato
miraculoso foi diferente da interpretação dada pelos papas reinante e emérito,
a qual, portanto, não fere a literalidade da Escritura. Aliás, o que S. João
Evangelista diz praticamente nos obriga à interpretação de Bento XVI e
Francisco: “Eles os recolheram e encheram doze cestos com os pedaços dos cinco
pães de cevada deixados de sobra pelos que se alimentaram” (Jo 6,13;
grifos meus). Mas a tradição da Igreja já não havia ratificado uma
interpretação diferente? Na Catena Aurea, Santo Tomás recolhe os seguintes
comentários de S. Hilário: “Não foram multiplicados os cinco pães numa multidão
de pães, senão que se sucederam os pedaços aos pedaços. Foi a matéria do pão a
que aumentou, mas ignoro se o foi no lugar que servia de mesa ou nas próprias mãos
dos convidados” (http://hjg.com.ar/catena/c167.html)
São oferecidos, pois,
cinco pães à multidão e são distribuídos. Mas se observa que aumentam os pedaços
nas mãos dos que os distribuem. Não se faziam menores à medida que os partiam,
senão que sempre os pedaços enchiam as mãos dos que estavam distribuindo. Nem
os sentidos, nem a vista podiam seguir o andamento daquilo que acontecia. É o
que não era, se vê o que não se compreende e só resta crer que Deus pode fazer
todas as cosas (http://hjg.com.ar/catena/c698.html).
Hilário representa uma antiga tradição
que, precisamente, serve de base à interpretação de Bento XVI e Francisco.
O que dizer da relação que Francisco
estabelece entre a multiplicação e a magia? Estaria o Papa dizendo que o poder
sobre supostos segredos ocultos da natureza seria capaz de produzir um
verdadeiro prodígio? Ou que uma tal multiplicação não poderia ser autêntico
milagre? Penso que não se trata disso; creio que quando o Santo Padre associa a
palavra “magia” à multiplicação, está pensando mais no efeito fascinante,
espetacular, que um milagre assim produziria, e está afirmando que o feito por
Jesus foi um milagre mais “conatural”, explicitando ainda mais o valor da
cooperação humana para a ação divina.
Quanto à ideia de que nosso querer pode
assegurar a permanência de nossos bens, é preciso dizer que ela segue à
afirmação da grandeza de Deus e do amor que ele deposita em nossos corações.
Deste modo, nossa vontade tem como fundamento esse amor e, se é assim, deve ser
conforme a ele. Não faz sentido pensar que ela possa querer algo que contrarie
esse amor. “Se queremos, o que temos não se acaba” equivale a “se o Amor assim
quiser, quereremos que o que temos não se acabe”. Aliás, não faz o menor
sentido pensar que um Papa que a todo momento nos pede que rezemos por ele, e
que recentemente, no Discurso
aos Bispos do CELAM no Rio de Janeiro, condenou certo
pelagianismo presente na Igreja, estivesse afirmando algo como um poder para
solucionar nossos problemas à parte de Deus.
Podemos estar tranquilos, o Papa Francisco
é o defensor da Tradição, é o garante da Fé católica. Estejamos seguros na
Barca de Pedro, e “multipliquemos” os nossos esforços para, com o auxílio da
graça, saciar a fome de Deus e de pão que padecem os homens e mulheres de nosso
tempo.
"O Milagre dos Pães e dos Peixes", de Lambert Lombard

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