19.2.18

Boécio sobre a Trindade

Excertos de BOÉCIO, Severino. Tratado sobre a Trindade. In: LAUAND, Jean (org.). Cultura e educação na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2013, pp. 82-99 (os títulos em negrito são da edição, e os grifos e colchetes explicativos, meus).

* * *

Introdução

Pesquisei por muitíssimo tempo a questão da Trindade, até onde podem as forças da pequena chama da mente, que a luz de Deus se dignou conceder-nos.

[...]

Não escrevo por desejo de fama nem pelo vão aplauso do vulgo [...]

Certamente, devemos pesquisar até onde for dado ao olhar da razão humana ascender às alturas do conhecimento da divindade. Pois também nas outras disciplinas há limites além dos quais a razão não pode chegar. A Medicina nem sempre traz a saúde ao doente e a culpa não será do médico, se tiver feito tudo o que estava ao seu alcance. E o mesmo vale para os outros conhecimentos.

No caso do presente estudo, tanto mais benevolente deve ser o julgamento, quanto tão mais difícil é a questão. Tu examinarás se as sementes lançadas em mim pelos escritos de S. Agostinho produziram seus frutos.

I – A sentença da unidade da Trindade

Há muitos que usurpam a dignidade da religião cristã, mas a fé que é válida principal e exclusivamente é aquela que, tanto pelo caráter universal de seus preceitos – que dão a medida da autoridade da religião –, quanto pelo seu culto, se espalhou por quase todo o mundo e é chamada católica ou universal. Dessa fé, a sentença da unidade da Trindade é: ‘O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus.’ E, portanto, Pai, Filho e Espírito Santo são um deus e não três deuses.

A razão de sua unidade é a ausência de diferença: e na diferença incorrem aqueles que aumentam ou diminuem a Unidade, como os arianos que, atribuindo graus de dignidade à Trindade, desfazem a unidade e caem na pluralidade.

Pois o princípio da pluralidade é a alteridade: fora da alteridade nem sequer pode ser entendida a pluralidade. Pois a diferença entre três (ou qualquer número de) coisas reside no gênero, na espécie ou no número.

O número de modos de igualdade acompanha o de diversidade. Ora, a igualdade pode se dar de três modos: 1) pelo gênero: como são iguais quanto ao gênero (animal) o homem e o cavalo; 2) pela espécie: como Catão e Cícero são iguais quanto à espécie (homem); 3) pelo número: como Túlio e Cícero.

[...] a diferença pelo número se dá pela variedade de acidentes. Pois três homens não diferem pelo gênero, nem pela espécie, mas pelos seus acidentes. [...] E assim, porque são plurais em seus acidentes, são plurais em número.

II – A substância divina é forma

[...] ‘ao erudito compete tratar de captar a sua fé, tal como na realidade ela é’.

Ora, são três as ciências especulativas:

A Física, que não abstrai o movimento (pois considera as formas dos corpos com matéria, formas que em ato não se podem separar da matéria. E assim, nos corpos sujeitos ao movimento, a forma, unida à matéria, tem movimento [...]).

A Matemática, que abstrai do movimento (e estuda as formas dos corpos sem matéria e, portanto, sem movimento; na natureza, porém, essas formas, em união com a matéria, não podem separar-se dela).

A Teologia, que não precisa abstrair do movimento nem supor separação (pois a substância de Deus carece de matéria e de movimento).

[...] não se trata aqui [na Teologia] de lidar com imagens, mas antes de olhar para a forma que é, não imagem, mas verdadeira forma: ela mesma é e é fonte do que é.

Pois tudo é pela forma. Uma estátua se constitui como tal e se diz efígie de ser vivo, não pelo bronze, que é matéria, mas pela forma nela esculpida. [...] Não há nada, pois, que seja o que é pela matéria, mas sempre pela forma própria.

Ora, a divina substância é forma sem matéria e, portanto, é Um e é o que é. Qualquer outro ente não é o que é, pois cada ente tem seu ser das partes de que está constituído, da conjunção de suas partes: mas não tal e tal tomadas separadamente. Por exemplo, o homem na condição presente consiste em corpo e alma, é corpo e alma, não corpo ou alma separadamente e, portanto, não é o que é. Aquele, porém, que não é composto disto e daquilo, mas é simplesmente isto, esse verdadeiramente é o que é, e é belíssimo e poderosíssimo porque em nada se assenta.

Daí que Ele seja verdadeiro Um, no qual não há número nem nada que não seja o que é. Nem pode tornar-se substrato de algo, pois é forma, e as formas não podem ser substratos. Pois o que nas outras formas é substrato para os acidentes, como por exemplo a hominalidade, não recebe os acidentes pelo fato de ela mesma ser, mas sim pela matéria que lhe está sujeita. Assim, quando a matéria sujeito à hominalidade recebe um acidente qualquer, parece que é a própria hominalidade que o assume.

Já a forma que é sem matéria não pode ser substrato, nem nela inerir matéria, senão não seria forma, mas imagem [= forma unida à matéria]. Pois da forma que está à margem da matéria [= Deus] procedem [por criação] as que estão na matéria e produzem o corpo. [...] nEle nada há de diversidade; nem de pluralidade decorrente de diversidade, nem de pluralidade decorrente de acidentes; e daí que tampouco haja número.

III – Na substância divina não há número

Assim, Deus não difere de Deus a título algum, pois não há diversidade de sujeitos por diferenças acidentais ou substanciais. Onde, pois, não há diferença, não haverá pluralidade alguma, e daí tampouco número, mas somente unidade. E quando dizemos três vezes Deus e dizemos Pai, Filho e Espírito Santo, estas três unidades não faze pluralidade numérica naquilo que elas mesmas são, se consideramos a própria realidade numerada e não o modo pelo qual numeramos. Neste caso [da nossa enumeração], a repetição de unidades produz pluralidade numérica; quando, porém, se trata da consideração da realidade numerada [Deus Trindade], a repetição da unidade e o uso plural não produzem de modo algum diferença numérica nas realidades.

Pois há dois tipos de números: um, pelo qual numeramos; outro, que consiste nas coisas numeráveis. Assim, dizemos um para a coisa real, enquanto unidade designa aquilo pelo que dizemos que algo é um. Assim também dois pode referir-se à realidade – como, por exemplo, homens ou pedras –, mas dualidade não: dualidade refere-se somente àquilo por que se constituem dois: homens ou pedras. E assim também para os outros números.

Portanto, no caso do número pelo qual numeramos, a repetição da unidade faz pluralidade; nas coisas, porém, a repetição de unidades não produz número, como por exemplo se da mesma e única coisa eu dissesse: ‘uma espada, um gládio, uma lâmina’. Podemos referir-nos a essa realidade com um único vocábulo, ‘espada’, e a repetição de unidades (palavras) não é uma numeração: se dizemos ‘espada, gládio, lâmina’, é uma reiteração e não uma enumeração de diversos [...]

Assim, pois, com Pai, Filho e Espírito Santo não se predica Deus três vezes; a predicação tríplice não constitui número. Este é, pois, como dissemos, o perigo daqueles que fazem distinção por dignidade entre os três. Nós, os católicos, porém, não admitimos nenhuma diferença no que constitui a própria forma e afirmamos não ser Ele outra coisa que aquele que é. E para esta doutrina, dizer: ‘Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, e esta Trindade é um só Deus’ é tal como dizer: ‘uma espada, um gládio, uma lâmina’ ou ‘sol, sol, sol: um sol’.

[...] Quando, porém, dizemos ‘Pai e Filho e Espírito Santo’ não estamos usando sinônimos diversos como seria o caso de ‘espada’ e ‘gládio’, que são iguais e idênticos.

Pois Pai, Filho e Espírito Santo são iguais, mas não são o mesmo. Este ponto merece um pouco de atenção. A quem pergunta: ‘É o Pai o próprio Filho?’, respondemos: ‘De modo algum’. E: ‘É um o mesmo que o outro?’, novamente: ‘Não!’

Não há, pois, entre eles – sob determinado aspecto – uma total indiferença em todos os aspectos; e assim pode-se falar em número que, como explicamos, procede da diversidade de sujeitos. [...]

IV – Como se predicam de Deus as categorias

Há ao todo dez categorias que podem ser universalmente predicadas de todas as coisas: substância, qualidade, quantidade, relação, lugar (onde), tempo (quando), condição, situação, atividade e passividade.

Elas são determinadas pelo sujeito a que se referem: parte delas – quando se aplicam a outras coisas que não Deus – refere-se à substância; parte, aos acidentes. Quando, porém, estas categorias são aplicadas à divindade, todas elas se tornam substanciais. Quanto à relação, ela não pode de modo algum ser predicada de Deus, pois a substância nEle não é propriamente substância, mas ultra-substância [Deus, Transcendente e Absoluto ou Separado, está acima das substâncias criadas que constituem o universo, não tem uma relação ou respectividade ‘real’ com o mundo criado a Ele religado, mas uma relação ‘ideal’]. Também não podem ser predicadas de Deus a qualidade e as demais categorias, das quais vamos dar exemplos para melhor compreensão.

Ao dizermos ‘Deus’, aparentemente estamos designando uma certa substância, mas, na verdade, aquela é ultra-substância; ao dizermos ‘justo’ (aplicado a Deus) referimo-nos a uma qualidade, mas não à qualidade acidental, e sim à própria substância ou ultra-substância. Pois em Deus não é uma coisa ser, e outra ser justo, mas é-Lhe idêntico ser Deus e ser justo.

E quando dizemos ‘grande ou o maior’ parece que nos estamos referindo a uma determinada quantidade; mas, no caso, é à própria substância ou, como dissemos, ultra-substância: para Deus é o mesmo ser e ser grande.

E quanto à sua forma, já mostramos acima como Ele é Forma e certamente Um e excluindo toda pluralidade.

Mas essas categorias são tais que dão à coisa a que se aplicam o caráter que expressam: nas coisas criadas, a divisão; em Deus, porém, apresentam-se conjugadas e unidas: quando dizemos ‘substância’ (aplicada por exemplo a homem ou Deus) é como se aquilo de que predicamos fosse ele mesmo substância, como substância ‘homem’ ou ‘Deus’. Na verdade, porém, não é a mesma coisa: o homem não realiza em si a totalidade do ser humano, e por isso não é substância [entenda-se, não é a Ideia Absoluta Homem]; o que ele é, deve-o a outras coisas que não são homem. Deus, porém, é o próprio Deus; não é outra coisa senão ‘o que é’ e, por isso, é Deus mesmo.

[...]

Quanto às outras categorias, também elas não podem ser predicadas de Deus nem (substancialmente) dos outros entes. Pois o lugar não se pode predicar do homem nem de Deus: do homem se diz que está na praça; de Deus, que está em toda a parte; mas não como se fosse o mesmo a coisa e o que dela se predica. [...] A predicação lugar [...] somente afirma onde se situa a substância em relação a outras coisas.

Com Deus, porém, não é assim, pois ‘estar em toda parte’ não significa que esteja em cada lugar (Ele absolutamente não pode estar num lugar), mas que cada lugar é-lhe presente para ocupar, embora Ele não possa ser recebido espacialmente e, por isso, não se diz que Ele esteja situado em lugar algum porque está em toda parte, mas não alocado [obviamente, isto não se refere à Eucaristia, pela qual o Verbo Encarnado se faz presente corporalmente; não é que Ele esteja ‘só aí’, é que ‘aí’ na Hóstia e Vinho consagrados ‘só’ está Ele, e não mais o ser das espécies].

O mesmo se dá com o ‘quando’, a categoria de tempo: tal homem veio ontem; Deus é sempre. Quando se predica o ‘vir ontem’, aqui, novamente, não se diz algo sobre o homem em si, mas o que lhe sucedeu no tempo. Já o que se diz de Deus, ‘sempre é’, significa um contínuo presente que abarca todo o passado e todo o futuro. Os filósofos dizem que isso pode ser também afirmado do céu e de outros corpos imortais, mas, mesmo assim, não do mesmo modo que de Deus. Pois Ele é sempre porque ‘sempre’ é para Ele presente: e há uma grande diferença entre o nosso ‘agora’, que é do tempo que corre, e a sempiternidade: o ‘agora’ divino permanece, não corre, e consistindo, faz a eternidade. Junta eternidade e sempre, e terás o agora perene e incessante e, portanto, o transcurso perpétuo que é a sempiternidade.

[...]

Já se tornam evidentes as diferenças da predicação? Algumas categorias apontam para a coisa; outras, para circunstâncias da coisa. Aquelas dizem que a coisa é algo; estas, não incidem sobre o ser da coisa, mas sobre aspectos antes extrínsecos que lhe são aderentes. As categorias que determinam de algum modo o ser de algo chamam-se categorias segundo o ser; quando pressupõem sujeito, são chamadas acidentes segundo o ser. Quando se trata de Deus, que de modo algum é sujeito [de predicação acidental], só se pode falar de predicação segundo a substância.

V – A relação em Deus

Trata-se agora de examinar a categoria relação, para cuja discussão valer-nos-emos de tudo o que anteriormente foi tratado; a relação, mais do que qualquer outra categoria, constitui-se por referência a outro e parece especialmente não ser predicação relativa à coisa em si.

‘Senhor’ e ‘servo’, por exemplo, são relativos; examinemos se são predicados da substância. Suprimindo o servo, suprime-se o senhor. [...] não porque o senhor seja substrato do servo como a coisa branca é substrato da brancura, mas sim porque se desfaz a relação (o poder) que sujeitava o servo ao senhor. Já que o poder se desfaz ao suprimir-se o servo, vê-se que o poder não é algo que per se esteja no senhor, mas é algo extrínseco que lhe advém pela relação com os servos.

Não se pode, portanto, afirmar que uma predicação de relação acresça, diminua ou altere de algum modo a coisa em si a que se refere. Pois a categoria relação não diz respeito à coisa em si; ela simplesmente aponta uma condição de relatividade [...]

Assim, suponhamos um homem em pé. Se eu me dirijo a ele pela direita e me coloco a seu lado, ele estará à esquerda em relação a mim não porque ele mesmo seja esquerda, mas porque eu me coloquei à direita. Agora, se eu me aproximo pela esquerda, ele se torna direita em relação a mim: e, de novo, não porque ele seja em si direita (como ele é branco ou alto), mas por causa do meu posicionamento. Fica tudo na dependência de mim e nada tem que ver com o seu ser em si.

Essas categorias que não afetam a coisa em si não podem mudar, alterar ou afetar de nenhum modo sua essência. Daí que se Pai e Filho são termos de relação e, como dissemos, não têm outra diferença que a de relação, e se a relação não é predicada daquele de quem se predica como se fosse o próprio sujeito e qualidade sua, então ela não produzirá nenhuma diferença de substância em seu sujeito, mas – numa frase dificilmente compreensível e que requer explicação – uma diferença de pessoas.

Pois é uma regra básica a de que as distinções em realidades incorpóreas são estabelecidas por diferenças e não por separação espacial. Não se pode dizer que Deus se tornou Pai pelo acréscimo de algo; pois Ele nunca começou a ser Pai, já que a produção do Filho pertence à sua própria substância; embora o predicado Pai, enquanto tal, seja relativo. E, se nos lembramos de todas as proposições feitas sobre Deus na discussão prévia, devemos admitir que Deus Filho procede de Deus Pai, e Deus Espírito Santo de ambos, e de que eles não podem ser espacialmente diferentes por serem incorpóreos. Mas já que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, e já que em Deus não há pontos de diferença que o distingam de Deus, Ele não difere dEles. Mas onde não há diferença, não há pluralidade; e onde não há pluralidade, há unidade. E, novamente, nada senão Deus pode ser gerado por Deus e, na realidade numerada, a repetição da unidade não produz pluralidade. E assim a unidade dos três está convenientemente estabelecida.

VI – Unidade e Trindade em Deus

Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferença de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a substância [= essência] é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade. E, assim, somente os termos referentes à relação podem ser aplicados distintamente a cada um. Pois o Pai não é o mesmo que o Filho, nem cada um dos dois é o mesmo que o Espírito Santo. Ainda que Pai, Filho e Espírito Santo sejam o mesmo e único Deus, o mesmo em justiça, em bondade, em grandeza e em tudo o que pode ser predicado segundo o ser.

Não se deve esquecer que a predicação de relatividade nem sempre envolve hierarquização (como servo para o senhor). Porque o igual é igual ao igual, o semelhante é semelhante ao semelhante, e o mesmo é o mesmo que o mesmo; e a relação do Pai para o Filho, e de ambos para o Espírito Santo, é relação de igual para igual.

Uma tal relação não será encontrada nas coisas criadas, mas isto é por causa do modo de diferenciação que afeta as transitórias criaturas. Ao falar de Deus, porém, não devemos deixar-nos guiar pela imaginação; mas pelo puro intelecto elevar-nos e acometer o entendimento de tudo o que importa conhecer.


Mas já basta acerca da questão proposta. [...]”



"A Trindade" (1577), de El Greco

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