Publicado em 16/10/2006 no site Veritatis
Splendor (com algumas notas pós-escritas nesta publicação).
Introdução
A origem
do presente artigo se deve às dúvidas que o estudo “A Eclesiologia do Vaticano
II” (EVII), do professor Dr. Orlando Fedeli da Associação Cultural Montfort,
suscitou em mim a respeito da ortodoxia do Concílio Vaticano II (CVII). Ele tem
em vista, principalmente, o esclarecimento a respeito das seguintes expressões
conciliares: “Igreja como que sacramento”, que aparece na Constituição Dogmática Lumem Gentium (LG); e “semente divina”, que
aparece na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et Spes (GS). Em conexão com essas
questões, estão: o esclarecimento sobre a expressão “fraternidade universal”,
que também aparece na GS, e sobre os conceitos de “colegialidade” e “revelação”
do CVII, presentes, respectivamente, na LG e na Constituição Dogmática sobre a Revelação Dei Verbum (DV). Ademais, e previamente,
esclareceremos uma frase do livro Memória
e identidade, do Papa João Paulo II, o que nos ajudará a captar o
verdadeiro espírito e objetivos conciliares, tema que voltará no tópico
dedicado à “fraternidade universal”, e que serve a uma compreensão mais ampla
do CVII, para além das questões pontuais aqui debatidas. Não tratarei da
questão do subsistit, porque considero que a mesma foi exaustiva e
satisfatoriamente esclarecida na Declaração sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus.
Em alguns
momentos eu citarei e comentarei explicitamente o estudo da Montfort
mencionado, e isso por duas razões:
a) à
medida que o contraponto com a interpretação de EVII serve para entender as
verdadeiras intenções e o reto sentido de algumas expressões e conceitos
teológicos do CVII (a refutação de EVII não é o exclusivo nem o principal
objetivo deste artigo, mas sim o aprofundamento no CVII);
b) na
medida em que muitos bons católicos vêem no site da Montfort – que costuma
apresentar excelentes artigos e estudos de apologia da Fé católica frente aos
protestantes, espíritas, agnósticos ou ateus – uma referência segura para a
formação na Fé, o presente artigo servirá também para indicar a falta de rigor
com que a Montfort aborda as questões relativas ao CVII; sendo EVII uma espécie
de “compêndio dos erros fundamentais do Concílio” – sei que a Montfort produziu
outros escritos a respeito do Vaticano II, mas este porta, em suas conclusões,
essa pretensão apontada agora –, julgo que o texto que escrevo será útil para
apreciar, de modo geral, a aproximação da Associação ao CVII.
1) Síntese “entre” cristianismo e
iluminismo?
“´Nos documentos do Concílio
Vaticano II pode-se encontrar uma sugestiva síntese da relação entre o cristianismo
e o iluminismo’. Essa frase de João Paulo II comprova qual o erro profundo do
Vaticano II: pretender sintetizar a doutrina católica com a doutrina do
iluminismo maçônico. Misturar água limpa com água suja só faz sujar o que era
limpo”.
O estudo
EVII começa com esta asserção, que é evidentemente equivocada, uma vez que uma
síntese “da relação entre” o
cristianismo e o iluminismo não é uma síntese “entre” o cristianismo e o iluminismo! Se isso já não fosse
bastante óbvio por si mesmo, bastaria ler o capítulo “Frutos bons no terreno do
iluminismo” do livro Memória e identidade,
de João Paulo II, para compreender que o Papa e o Concílio buscaram realizar
uma síntese dos pontos de contato entre a Fé católica e o iluminismo, e não uma
síntese entre essas duas realidades. Esses pontos derivam da Fé e embora se
encontrem certamente distorcidos no âmbito do iluminismo (em virtude dos vários
elementos anticristãos deste movimento), são um convite ao diálogo. Como lemos
no capítulo aludido do livro de João Paulo II, a relação entre o cristianismo e
o iluminismo está sintetizada nos ideais de igualdade,
fraternidade e liberdade. A proposta do Concílio e do Papa é a de dialogar
com o mundo moderno (produto em boa parte desse iluminismo) a partir desses
ideais, que se encontram longe de sua fonte transcendente e, assim, se
distorcem e não se cumprem. Somente a Igreja pode oferecer a chave para que
compreendamos corretamente a dignidade comum onde se funda a igualdade essencial dos seres humanos,
quem é o Pai que fundamenta a fraternidade
entre os homens, e a Verdade que nos traz a autêntica liberdade (cf. Leão XIII, Humanum Genus, n.
34). Tal chave
é o Senhor Jesus, em cujo mistério “o mistério do homem se torna claro”, como
podemos ler naquela que é uma das passagens-chave do Concílio Vaticano II (cf.
GS 22). Não se trata, assim, do diálogo consensualista do pragmatismo
contemporâneo, para chegar à Verdade,
mas dialogar apresentando a Verdade
revelada por Deus – sobre Si mesmo e o ser humano – e custodiada pela Igreja,
para que o homem e o mundo contemporâneo a conheçam e se salvem. Tampouco é
diálogo da Igreja com alguma instituição que representaria o “iluminismo”, como
poderia ser a maçonaria, mas é diálogo com os homens e mulheres que vivem nesse
mundo marcado por uma presença distorcida dos valores evangélicos. Falando não
estritamente desses ideais, mas dos valores humanos em geral, nos diz o
Vaticano II: “O Concílio propõe-se, antes de mais, julgar a esta luz [da Fé] os
valores que hoje são mais apreciados e pô-los em relação com a sua fonte
divina. Tais valores, com efeito, na medida em que são fruto do engenho que
Deus concedeu aos homens, são excelentes, mas, por causa da corrupção do
coração humano, não raro são desviados da sua recta ordenação e precisam de ser
purificados” (GS 11).
Esta mesma atitude dialogal é que está na base
do diálogo ecumênico, enquanto este aponta os “elementos de santificação”
(derivados da Igreja Católica) presentes nas Igrejas e comunidades eclesiais
separadas; e também do diálogo inter-religioso, enquanto este assinala aqueles
“lampejos de verdade” (na mesma linha das “sementes do Verbo”) presentes nas demais
religiões (nas quais, aliás, tudo o que é verdadeiro pertence por direito à
Igreja Católica) – também aqui se enquadra a abertura ao que possa haver de
verdadeiro nas correntes filosóficas modernas e contemporâneas. Nisso, a Igreja
segue a multissecular tradição de “evangelizar” todos aqueles elementos, no
mundo, passíveis de serem “cristianizados” (vide a purificação dos elementos pagãos no início
do Cristianismo: as basílicas romanas, paramentos litúrgicos, o 25 de dezembro,
etc.).
2) Definição de Igreja?
Depois da
introdução pouco feliz, a argumentação de EVII prossegue baseando-se em outra
asserção que não pode ser considerada verdadeira, como veremos, a de que o
proêmio da LG contém uma definição (entenda-se, definição conceitual) da
Igreja. Aí lemos: “(E porque) a Igreja é em Cristo como que o sacramento ou o
sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o genero
humano...” (LG 1). As definições essenciais não costumam se encontrar no
proêmio de uma obra. Evidentemente, o que o Concílio está oferecendo é uma
imagem da Igreja, uma alegoria da mesma, utilizando o método do próprio Senhor
Jesus, que muitas vezes falava em parábolas para toda a multidão, oferecendo
uma compreensão inicial, não conceitual, dos mistérios do Reino, que depois
aprofundava para os discípulos íntimos.
Deixemos
a consideração dessa imagem para depois, e sigamos agora com o resto da
citação, omitido em EVII: “ela [a Igreja] deseja oferecer a seus fiéis e a todo
o mundo um ensinamento mais preciso sobre sua natureza e sua missão universal, insistindo no tema de Concílios
anteriores” (o negrito é meu). Na mesma frase, a LG anuncia que irá expor o
ensinamento sobre a Igreja, de modo que aqui foi feito um recorte bastante
inapropriado, o qual impede de ver de modo mais correto a intenção da LG nesta
passagem. E o mais interessante é que a argumentação utilizada em EVII mostra
que a expressão “como que” não pode estar presente numa definição, o que é,
paradoxalmente, uma excelente defesa da intenção da LG (de oferecer uma imagem
da Igreja), e não uma crítica a um possível erro do documento! O problema
criado, o de que a LG teria dado uma definição da Igreja utilizando um termo
vago, é completamente fictício. Na realidade, nem a Igreja caiu em heresia
(afirmando um oitavo sacramento), como acertadamente se admite, nem quis abrir
precedente para uma compreensão errada de sua natureza, que seria ainda exposta
(conforme o final da frase citada), ao contrário do que se supõe.
No texto
da LG, estão
presentes todos os pontos essenciais da definição da mesma, segundo EVII.
Indico o número do parágrafo da LG e entre parênteses o número do parágrafo do
Concílio Vaticano II.
a) Igreja como sociedade visível [LG
8 (20)] que tem como cabeça espiritual o próprio Cristo [LG 7 (15)], e como
autoridade suprema visível o Papa, sucessor de São Pedro e Vigário de Cristo na
terra [LG 18 (44a)]
b) Necessidade de se ter a mesma Fé
para pertencer à Igreja: LG 14 (39)
c) Necessidade de ser batizado par
alguém ser membro da Igreja: LG 14 (38)
d) Necessidade da aceitação de todos
os sacramentos: LG 14 (39)
e) Submissão e obediência ao Papa
como Vigário de Cristo e Supremo Pastor da Igreja: LG 22 (52)
f) Submissão obediente à Sagrada
Hierarquia, permanecendo sob a direção de um Bispo: LG 27 (65)
3) A “semente divina”
Segundo
EVII, a “união íntima com Deus” da qual a LG fala seria a de uma união
substancial entre Deus e o ser humano, a qual estaria afirmada na GS, n. 3:
“Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina...” (citado e grifado
conforme EVII). Supondo que a expressão “semente divina” significaria ou a
graça santificante dada apenas aos batizados (conforme 1Jo 3,9), ou a doutrina
gnóstica de que o homem possui uma centelha divina na sua própria natureza, e
uma vez que a GS fala de todo homem, EVII afirma que este documento propõe uma
doutrina heterodoxa, que seria a chave para compreender o sentido da “união
íntima com Deus” da LG, além de constituir o erro fundamental do Concílio, do
qual brotariam, como de um manancial, todos os seus demais supostos erros. Uma
vez que se mostre que o sentido do texto conciliar não é esse (da doutrina
gnóstica), cai o edifício da argumentação de EVII. Por isso, nos demoraremos um
pouco aqui, analisando a expressão “semente divina” desde várias perspectivas
(embora uma simples mirada no contexto já desminta a interpretação dada por
EVII, como veremos).
Será que
as únicas possibilidades de compreender a expressão “semente divina” são estas:
ou a união íntima da graça santificante ou a união substancial da gnose? Se
assim fosse, por exemplo, a famosa expressão “semente do Verbo”, de S. Justino,
também seria herética, pois ele fala que esta nasce com o homem, e o Verbo é
Deus: “Sabemos que alguns que professaram a doutrina estóica foram odiados e
mortos. Pelo menos na ética eles se mostram moderados, assim como os poetas em
determinados pontos, por causa da semente
do Verbo, que se encontra ingênita
em todo o gênero humano” (II
Apologia, 7; grifos meus). No entanto, reconhecemos que a expressão do santo
mártir e filósofo, sem significar o mesmo que aquela expressão correlata de S.
João, não é herética.
Mesmo
biblicamente não se trata de uma expressão unívoca. Em 1Jo 3,9 fala-se de
“semente divina” como a graça santificante que vem pelo Batismo, tendo em vista
a expressão “nasceu de Deus”: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete
pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de
Deus”. A parábola do semeador (cf. Mt 13,4-9.18-23; Lc 8,4-8.11-15) permite-nos
compreender a semente divina de duas formas: inequivocamente como a Palavra de
Deus, em S. Lucas (Lc 8,11), mas também como o próprio ouvinte da Palavra, em
S. Mateus (Mt 13,19)! Porém, não se pode dizer que se trata de todos os homens,
uma vez que a parábola diz respeito aos que efetivamente ouviram a Palavra, ou
seja, aqueles que se tornaram potencialmente fecundos, chamados a frutificar
(como uma semente) pelo contato com a Palavra de Deus – dizer que se poderia
tratar de todos os possíveis destinatários da Palavra me pareceria forçar a
interpretação. Na parábola do joio e do trigo, a “boa semente” são os “filhos
do Reino” (Mt 36,38), ou seja, nem todos os ouvintes da Palavra, mas somente os
salvos. Em Mc 4,26-29, a semente é o Reino de Deus, que cresce na terra. Para
S. Pedro (1Pe 1,23) e S. Paulo (1Cor 3,3-9; 4,15), a semente divina é a Palavra
de Deus, o Evangelho. É certo que esses possíveis sentidos escriturísticos da
“semente divina” confluem para um sentido único: esta semente como a graça
santificante enquanto princípio de vida sobrenatural (anunciada pela Palavra e
comunicada pelos Sacramentos, como tipicamente ocorre na Liturgia) agindo na
vida dos cristãos e conduzindo-os ao Reino de Deus. Mas, ainda assim, vemos
como a expressão tem uma amplitude de significados que não se reduz à disjunção
na qual se move EVII.
Ademais,
o sentido gnóstico da “semente divina” não pode ser equiparado, sem mais, ao
sentido de 1Jo 3,9, como se a diferença residisse apenas na origem da semente:
para os gnósticos essa seria ingênita e para os cristãos, decorrente do
Batismo. Não se trata apenas disso: para os gnósticos, há uma tendência a
considerar essa semente ou centelha divina como a presença essencial de Deus
enquanto essência mesma da realidade humana (panteísmo); para os cristãos, é a
graça ou a vida de Deus enquanto fundamento da vida sobrenatural do fiel, mas
não “ocupando o lugar”, por assim dizer, daquilo
que é mais íntimo no ser humano, não substituindo a essência humana pela
essência divina. Em verdade, Deus “ocupa um lugar” naquilo que é mais íntimo no ser humano. Assim, a exclusão de um
dos termos (o sentido de 1Jo 3,9) não implica necessariamente a presença do
outro.
Partir
desse suposto (ou o sentido de 1Jo 3,9 ou a tese gnóstica) parece revelar o
desejo de encontrar heresias a todo custo nos textos conciliares. Porque da
afirmação de que tal semente se “encontra em todo homem”, só se pode deduzir
logicamente que não se trata da graça santificante; o passo do reconhecimento
dessa evidência à afirmação de que os padres conciliares cometeram heresia
(falando da “centelha divina” gnóstica) é ilegítimo, e só se justificaria, por
um lado, caso a expressão só admitisse essa alternativa, ou, por outro, se o
contexto da GS ratificasse essa suposta heresia. Se a expressão não é unívoca –
o que é diferente de ser “ambígua”, portar dois significados ao mesmo tempo,
sem que possamos nos decidir –, seu significado deve ser buscado no contexto em
que se encontra. Dado que a constituição pastoral fala, por exemplo, do homem
“criado por Deus” (n. 12), e não “emanado”; do pecado como “abuso da liberdade”
e como “preferir a criatura ao Criador” (n. 13), e não como “ignorância”; da
“Encarnação” e da “efusão de sangue de Cristo” (n. 22), fatos negados pela
gnose, não se vê como corroborar uma interpretação da “semente divina” da GS
como a “centelha divina” gnóstica.
Também
uma análise do texto original latino nos ajuda a afastar o sentido gnóstico, e
nos dá algumas luzes. Quando vamos ao original, lemos aí: “Ideo Sacra Synodus, altissimam vocationem hominis profitens et divinum quoddam semen in eo
insertum asseverans”. A tradução mais exata seria “um certo germe (ou semente) divino(a) nele [no homem] depositado”.
De uma parte, o pronome indefinido tira peso da metáfora – o que indica que não
se trata do sentido “forte” de 1Jo 3,9 –, sem, entretanto, torná-la banal, ao
deixar em suspense o seu significado e tornando o texto atrativo para aqueles
aos quais se dirige (todos os homens, incluindo os não-crentes); de outra, o
particípio “depositado” (“inserido”) indica indiretamente a ação do
“Depositante” – coisa que o infinitivo “existir” da tradução utilizada no texto
que comentamos não faz –, diferenciando-O daquele em quem a “semente” está
depositada (“existe”). Deste modo, a “semente divina” pode ser compreendida
inicialmente assim: “algo como uma semente depositada nele por [ou procedente
de] Deus”. “Semente” designa o término da ação (divina) de depositar; e
“divina” designa que aquela (semente) é “de Deus” enquanto “parte (verbo partir) d’Ele”, e não
porque “seria parte d’Ele” (tese
gnóstica).
Além
disso, sobre a propriedade dessa forma de expressar-se, sem querer significar a
graça santificante, lemos na Suma Teológica (Santo
Tomás está se referindo à duração da vida contemplativa): “O Filósofo diz que a
vida contemplativa é superior ao homem porque nos é própria enquanto que há
algo de divino em nós, o entendimento, o qual é incorruptível e impassível
em si mesmo. Portanto,
seu ato pode ser mais duradouro” (S.Th. II-II,
q180 a8 ad3). Veja-se que o Doutor Angélico não critica a expressão de
Aristóteles que associa o entendimento a “algo de divino em nós”, embora se
faça mister precisar em que sentido isso é verdadeiro – e leve-se em
consideração que Santo Tomás não interpreta o intelecto agente como separado e
independente (que assim poderia ser aproximado do sentido gnóstico), e crê que
esta sua interpretação é a legítima compreensão de Aristóteles.
Uma
apreciação sumária do contexto e da frase já demonstra que o significado da
metáfora “(uma certa) semente divina” não é gnóstico, e a citação de Santo
Tomás, assumindo a licitude de uma expressão análoga, também justifica um uso
mais amplo dessa metáfora. Voltando ao texto da GS, vejamos algumas passagens,
a respeito do ser humano, que ajudam a delimitar o sentido da expressão. No n. 12, lemos
(os grifos serão meus): “A Sagrada Escritura ensina que o homem foi criado «à imagem de Deus», capaz de conhecer e amar o seu
Criador, e por este constituído senhor de todas as criaturas terrenas, para as
dominar e delas se servir, dando glória a Deus. «Que é, pois, o homem, para que
dele te lembres? ou o filho do homem, para que te preocupes com ele? Fizeste
dele pouco menos que um anjo, coroando-o de glória e de esplendor.
Estabeleceste-o sobre a obra de tuas mãos, tudo puseste sob os seus pés» (Salmo
8, 5-7)” – as palavras do Sl 8 citadas pela GS (cf. também 1Cor 11,7) deveriam
escandalizar certos “tradicionalismos”, tanto quanto os elogios e a perspectiva
da GS sobre o ser humano. Na seqüência, depois de falar do pecado (n.13), a GS
segue descrevendo os caracteres que manifestam a dignidade do ser humano – e a
tensão em que esses se encontram por causa do pecado –, através dos quais se
pode reconhecer que o homem é imagem de Deus e participa de seu Ser: a
transcendência de sua alma espiritual e imortal (n. 14), a dignidade do
entendimento (n. 15) e da consciência moral (n. 16), e a grandeza da liberdade
(n. 17). Por fim, acrescenta o chamado gratuito a um fim sobrenatural, pela
participação na Vida divina (n. 18). Interessa-nos destacar alguns trechos que
iluminam o sentido desse “germe divino”, entendido como “algo de divino
existente em nós” e pelo qual participamos do Ser de Deus (todos os grifos
serão meus): “participando da luz da
inteligência divina, com razão pensa o homem que supera, pela
inteligência, o universo” (GS 15); “No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à
qual deve obedecer [...] lei escrita pelo
próprio Deus” (GS 16); “A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem” (GS 17); “O germe de eternidade que nele [no homem]
existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte” (GS 18;
perceba-se aqui a semelhança, não gratuita, com a metáfora do n. 3, para
expressar a realidade da alma imortal).
Assim, o
capítulo dedicado à doutrina sobre o ser humano nos permite identificar uma
série de elementos incluídos na amplitude da metáfora: ela se refere ao
entendimento, à consciência moral, à lei natural, à liberdade, à alma imortal,
em suma, à “imagem” de Deus que o homem possui – e essa é basicamente a
definição da GS sobre o ser humano, quando se pergunta, no n. 12, “que é o homem?”.
A “imagem” divina impressa em nosso ser é esse “algo de divino que há em nós”,
é “um certo germe divino”. E isso pode ser confirmado pelo Discurso ao Tribunal da Rota Romana de 10/02/95, do Santo Padre
João Paulo II, que aludindo à expressão, deu-lhe esse significado determinado,
explicando-a com um trecho do Catecismo: “Non vi è dubbio che l’uomo, creato a
immagine di Dio, redento dal sacrificio di Cristo e a Lui fatto fratello, sia
l’unico destinatario di tutta l’opera evangelizzatrice della Chiesa e quindi
anche dello stesso ordinamento canonico. A ragione quindi il Concilio
Vaticano II, ribadendo l’altissima vocazione dell’uomo, non ha esitato a
riconoscere il «divinum quoddam semen in
eo insertum». «L’immagine divina
- ci ricorda anche il Catechismo della Chiesa Cattolica - è presente in ogni uomo. Risplende nella comunione delle persone, a
somiglianza dell’unione delle persone divine tra loro», cosi che - per
riprendere l’insegnamento conciliare - «omnia quae in terra sunt ad hominem,
tamquam ad centrum suum et culmen, ordinanda sunt»” (n. 2; negritos
meus).
Desse modo, uma leitura integral do documento
nos permite perceber que o “germe divino” presente no homem e depositado por
Deus, esse “algo de divino que há em nós”, é a “imagem de Deus” impressa em
nosso ser – semente como “término”, como algo “semeado” –, ao doar-nos
diretamente uma alma espiritual, cujas faculdades ou potências – a razão (o
hábito do entendimento e o hábito da consciência moral/lei natural) e a
vontade/liberdade –, participam do Ser de Deus, demonstrando nossa dignidade, e
cuja imortalidade, ao encontrar-se com a Revelação e a Graça de Deus, nos leva
a aspirar à bem-aventurança pela “semelhança” que aperfeiçoa a imagem (cf. S.Th. I, q93 a9) – então a semente passa
a ser “algo a desenvolver”, “algo a desabrochar”. Assim, a “semente divina”
joanina (1Jo 3,9) pode ser compreendida como a “semente divina” da GS vista
desde a elevação operada pela graça santificante – os sentidos são distintos,
mas um se orienta ao outro, pois a imagem deve se aperfeiçoar pela semelhança.
4) A imagem da Igreja, proposta
pela Lumen Gentium
“A luz
dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo,
deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja,
todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15)
[...] a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento
da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano...” (LG 1).
O
principal elemento dessa formulação alegórica (que não define a Igreja, mas a
compara) foi deixado de lado em EVII: “A Igreja é em Cristo...”. N’Ele, “cuja luz resplandece em seu rosto”, é que a
Igreja é como que o sacramento, isto é, sinal e instrumento da comunhão dos
homens com Deus e entre si.
Posto que
a Igreja é sinal e instrumento de uma “íntima união com Deus” que radica em
Cristo, que tem no Senhor Jesus a sua fonte, isso retira qualquer sombra de
gnose da formulação, sem necessidade de maiores explicações – como a refutação
de um sentido gnóstico da “semente divina”, suposta chave interpretativa da
“união íntima com Deus” –, pois essa união se dá mediante a graça santificante.
Como “a unidade do gênero humano” da qual se fala também radica em Cristo,
então a LG está aludindo, por um lado, à missão universal da Igreja, de levar a
salvação a todos os povos, pois “Deus... quer que todos os homens sejam salvos
e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 3-4), e assim unificar a
humanidade na família dos filhos de Deus (cf. Decreto Ad Gentes, 7); e, por outro, ao fato de que, em potência, todos os
homens já pertencem à Igreja, como ensina S. Tomás (cf. S.Th. III q8 a3), e se ordenam à participação plena – outra questão
é saber se todos os homens irão responder a seu chamado e efetivamente, em ato,
participar dessa unidade, bem como os modos de participação da mesma
(pertencendo visivelmente à Igreja, ou vinculando-se misteriosamente a ela, em
virtude de “ignorância invencível”).
Por um
lado, na comunhão de seus filhos com Deus e na unidade católica que já realiza, a Igreja é sinal da comunhão e unidade à qual todos
os homens são chamados; por outro, enquanto essa comunhão e unidade é uma
tarefa a realizar, a Igreja é instrumento
da mesma. Essa imagem, em sua riqueza expressiva, concilia o tradicional
conceito de “Corpo Místico de Cristo” (tratado no n. 7 da LG) – que nos diz
estarmos, como batizados, unidos a Cristo e entre nós – e a missão universal da
Igreja.
O termo
“sacramento” deve ser entendido como a própria LG aclara: “sinal e
instrumento”. E também, à medida que a comunhão com Deus e entre os homens que
já existe em ato na Igreja é alcançada pela graça dispensada através dos sete
sacramentos, se pode legitimar a aplicação, por analogia, do termo “sacramento”
para expressar a realidade da Igreja (como mais tarde explicariam a encíclica Dominum et vivificantem nn. 63-64, e o Catecismo da
Igreja Católica, n. 774).
As
passagens abaixo falam por si mesmas (todos os grifos são meus):
a) “E as condições do nosso tempo
tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente
ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo”
(n. 1).
b) “Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem
vivemos, e para o qual caminhamos” (n. 3).
c) “Por isso é que este povo messiânico, ainda que não
abranja de facto todos os homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno
rebanho, é, contudo, para todo o género
humano o mais firme germe [sinal]
de unidade, de esperança e de salvação. Estabelecido por Cristo como
comunhão de vida, de caridade e de verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção universal
e enviado a toda a parte como luz do
mundo e sal da terra (cfr. Mt. 5, 13-16) […] Aos que se voltam com fé para
Cristo, autor de salvação e princípio de unidade e de paz, Deus chamou-os e
constituiu-os em Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento visível desta unidade salutar.
Destinada a estender-se a todas as regiões, ela entra na história dos homens,
ao mesmo tempo que transcende os tempos e as fronteiras dos povos” (n. 9).
d) “Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por
todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou
uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os seus filhos que
estavam dispersos (cfr. Jo. 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu
Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas (cfr. Hebr. 1,2), para ser
mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus. Para isto Deus enviou finalmente
também o Espírito de Seu Filho, Senhor e fonte de vida, o qual é para toda a
Igreja e para cada um dos crentes princípio de agregação e de unidade na
doutrina e na comunhão dos Apóstolos, na fracção do pão e na oração (cfr. Act.
2,42 gr.). [...] Este carácter de universalidade
que distingue o Povo de Deus é dom do Senhor; por Ele a Igreja católica tende
eficaz e constantemente à recapitulação total da humanidade com todos os
seus bens sob a cabeça, Cristo, na unidade do Seu Espírito [...] Todos os homens, pois, são chamados a esta
católica unidade do Povo de Deus, que prefigura [sinal] e promove [instrumento]
a paz universal; a ela pertencem, de vários modos, ou a ela se ordenam, quer os
católicos quer os outros que acreditam em Cristo quer, finalmente, todos os
homens em geral, pela graça de Deus chamados à salvação” (n.13).
e) “Finalmente, aqueles que ainda não receberam o Evangelho, estão de uma forma ou outra orientados
para o Povo de Deus” (n.16).
f) “Pois é impelida pelo Espírito
Santo a cooperar para que o desígnio de
Deus, que fez de Cristo o princípio
de salvação para todo o mundo, se realize totalmente [...] É assim que a Igreja simultâneamente ora e trabalha para
que toda a humanidade se transforme em Povo de Deus, corpo do Senhor e
templo do Espírito Santo, e em Cristo, cabeça de todos, se dê ao Pai e Criador
de todas as coisas toda a honra e toda a glória” (n. 17).
g) “Dado que o género humano caminha
hoje cada vez mais para a unidade política, económica e social, tanto mais
necessário é que os sacerdotes em conjunto e sob a direcção dos Bispos e do
Sumo Pontífice, evitem todo o motivo de divisão, para que a humanidade toda seja conduzida à unidade da família de Deus”
(n. 28).
[PS: já há algum tempo, parece-me que há certa "ingenuidade" na expectativa dos padres conciliares a respeito da realização desta "unidade"; sem excluir a possibilidade de uma inserção proposital maliciosa ("joio") desta perspectiva excessivamente positiva -que deixa de lado a clássica doutrina bíblica dos "dois caminhos" e agostiniana da "luta das duas cidades"-, atenho-me, contudo, ao fato de que se deve fazer a interpretação dentro daquilo que Bento XVI chamou de "hermenêutica da reforma em continuidade": o que vale, num documento magisterial impreciso, só pode ser o sentido possível dentro da Tradição, para que seja legítimo desenvolvimento]
[PS: já há algum tempo, parece-me que há certa "ingenuidade" na expectativa dos padres conciliares a respeito da realização desta "unidade"; sem excluir a possibilidade de uma inserção proposital maliciosa ("joio") desta perspectiva excessivamente positiva -que deixa de lado a clássica doutrina bíblica dos "dois caminhos" e agostiniana da "luta das duas cidades"-, atenho-me, contudo, ao fato de que se deve fazer a interpretação dentro daquilo que Bento XVI chamou de "hermenêutica da reforma em continuidade": o que vale, num documento magisterial impreciso, só pode ser o sentido possível dentro da Tradição, para que seja legítimo desenvolvimento]
5) Algumas palavras a propósito
da “fraternidade universal”, dos destinatários e dos objetivos do Concílio
Vaticano II
O
Vaticano II quis dirigir-se a todos os homens, como lemos no n. 2 da GS: “o Concílio
Vaticano II, tendo investigado mais profundamente o mistério da Igreja, não
hesita agora em dirigir a sua palavra, não já apenas aos filhos da Igreja e a
quantos invocam o nome de Cristo, mas a todos os homens. Deseja expor-lhes o
seu modo de conceber a presença e actividade da Igreja no mundo de hoje”. Isso incluía os não-crentes, para
salvar, com a luz do Evangelho, a pessoa humana e restaurar a sociedade humana
(GS 3). Pela primeira vez, um concílio é ecumênico no sentido de incluir, entre
seus destinatários, todos os homens, e não apenas os católicos. Pela primeira
vez, um concílio se reúne não para dirimir questões levantadas por heresias,
nem apenas para resolver problemas (doutrinais ou disciplinares) internos à Fé
católica, mas para voltar seu olhar para os problemas que afligem o mundo e as
pessoas em geral, e não somente os católicos – com isso, não se quer, de modo
algum, criticar as motivações e as razões de ser dos concílios precedentes,
apenas apontar a originalidade do Vaticano II; longe de mim, por exemplo,
pensar que a correção de heresias não diz respeito à salvação do mundo e das
pessoas! Pela primeira vez, desde Constantino, a liberdade religiosa não é um
problema das outras religiões frente aos Estados católicos, e sim da própria
Igreja frente aos Estados ateus, e ela pode perceber uma dimensão desse
problema para além do perigo de “indiferentismo”. Pela primeira vez, a Igreja
toma dimensão da real extensão do mundo, percebe que esse mundo não é cristão,
que os antigos Estados católicos já não o são, e que é necessário iniciar um
relacionamento com esse “mundo” alheio à Fé, sem poder contar com o elemento
“surpresa” da primeira evangelização, do primeiro contato com o Evangelho –
pois o cristianismo é razoavelmente conhecido em todos os continentes e tem
contra si todo o peso do cientificismo, do ateísmo e da propaganda laicista
anti-clerical. Enfim, a Igreja percebe a necessidade de uma nova estratégia,
“pastoral”, de um diálogo onde ela deve mostrar os pontos em comum dos
autênticos valores e anseios humanos contemporâneos, aparentemente alheios ao
cristianismo, e a Fé católica à qual pertence, por direito, tudo o que é
verdadeiro; mostrar o que há de bom e o que há de insuficiente nesses valores e
anseios, e a necessidade de serem iluminados e elevados pela Fé; remover a desconfiança
do mundo descrente e mostrar que o verdadeiro “humanismo” é o cristianismo,
pois só Cristo “revela o homem ao próprio homem” (GS 22). E isso não é
renunciar ao anúncio da Fé, mas torná-la acessível, num primeiro momento, a
grande parte dos homens de hoje.
Ao mesmo
tempo, não podemos esquecer que esse diálogo com o mundo contemporâneo, para
sua conversão, é uma das finalidades do Concílio, que não pode ser separada das
demais, as quais podemos ler na Sacrosanctum Concilium (SC),
primeiro documento do Concílio: “O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida
cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as
instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união
de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a
todos ao seio da Igreja” (n. 1). A santidade dos fiéis católicos, a reforma da
Igreja, o ecumenismo de retorno (e não apenas diálogo ecumênico, que é meio,
mas não finalidade) e a conversão do mundo (que implica o diálogo
inter-religioso e com os valores e anseios do gênero humano), são finalidades
inseparáveis. E a santidade é a primeira delas! E é aquela que dá sentido a
todas as demais. Promover – não apresentá-lo pela primeira vez, como alguns
sustentam – o chamado universal à santidade (cf. LG, cap. V) foi a maior obra
do Vaticano II! E enquanto se insistir em diálogo com todos, sem dialogar com
Deus (sem oração), os objetivos do Concílio não irão se concretizar!
Voltando
à GS, falemos da “fraternidade universal”. Foi preciso fazer essa lembrança das
finalidades do Concílio, para que se possa considerar a GS no seu devido lugar.
Não é o documento mais importante do Vaticano II (embora tenha passagens
belíssimas), e não pode ser lido sem que se leve em conta seu caráter de
constituição pastoral voltada para os problemas concretos que afligem o mundo
contemporâneo – é um problema no qual não vou aprofundar aqui, deixando apenas
indicado, mas há que se distinguir dois níveis ou tipos de “pastoralidade”: um
que se encontra na forma ou “modo de expor” a doutrina, na “teologia pastoral”,
no que caracteriza o modo como o CVII se definiu; e outro que diz respeito
aos conteúdos abordados (tal é o caso específico da GS, e é por isso que ela é
“constituição pastoral”). Nem se pode ler a GS sem atender à LG, por exemplo;
ou à passagem acima da SC. Trabalhar pela fraternidade universal – logo
entraremos diretamente no tema, esses aparentes “rodeios” são necessários – sem
trabalhar pela santidade é um contra-senso (e é o disparate da Teologia da
Libertação; se é que uma sociedade marxista possa ser chamada de
fraternidade!). A GS tem diante dos olhos a realidade de uma unificação da
humanidade em vias de se realizar (cf. GS 5; 33; 77; 82) – trata-se daquilo que
hoje reconhecemos como “globalização” –; tem diante dos olhos também a missão
da Igreja de ser “sacramento da unidade do gênero humano” (cf. LG 1), e que em
cada homem deve amar e servir a Cristo (cf. GS 93). Unificados, de alguma
forma, os homens estarão. Essa unidade, desprovida da luz do Evangelho, não
será algo são (cf. GS 9; 37). Algo deve ser feito, e uma Cristandade é
impossível antes que essa unificação aconteça. A Igreja, que caminha junto ao
mundo, deve, desde a Revelação e desde o testemunho de comunhão e santidade dos
seus filhos, dar uma contribuição para que essa unidade seja pacífica,
fraterna, fundada na lei natural, para que o mundo seja um ambiente onde o
Evangelho possa ser proclamado e acolhido com liberdade, e então a família
humana possa se converter em família de Deus (cf. GS 1; 40; 42; 89; 91).
Assim, é
nesse contexto que deve ser entendida a fraternidade universal – e também o
diálogo inter-religioso –, praticamente como sinônimo de “paz”. Há um fato ao
qual a Igreja não pode se furtar, que é o da unificação da humanidade; se esta,
de um ou de outro modo, há de se realizar, que seja por uma via fraterna, e
isso só poderá ocorrer, uma vez que a fraternidade se funda em Deus (cf. GS
61), se os filhos da Igreja, que vivem como fermento em meio ao mundo,
encarnarem o Amor de Cristo e impregnarem suas relações de Caridade; e se os
homens de boa vontade, nos quais a graça opera de modo invisível, abrirem suas
mentes e corações ao menos às recomendações morais e à doutrina social da
Igreja, se não lhes for possível, a princípio, abrirem-se à Fé. Ao trabalharem
por esse objetivo, tendo sempre em vista aquele primeiro, que é o da santidade,
os cristãos trabalham, de algum modo, e segundo as possibilidades atuais, pelo
que é conhecido tradicionalmente como “reinado social de Jesus Cristo”, pois
“servir é reinar” (LG 36). O Concílio, com a GS (que também pode ser lido como
o “ensinamento social do Vaticano II”), não renunciou a esse princípio e dever,
apenas formulou-o em condições de ser vivenciado na atual situação do mundo
contemporâneo – que não é definitiva. E de modo algum renunciou à tarefa de
trabalhar efetivamente pela conversão do mundo inteiro – e não somente pela
fraternidade nesse sentido geral –, em consonância com o que a LG já havia
proclamado como missão da Igreja. Assim, por exemplo, lemos em GS 40 (negritos
meus): “a Igreja,[...] caminha juntamente com toda a humanidade, participa da
mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada
em família de Deus” (cf.
também GS 32; 45; 92).
[PS 2: vale para este tópico da "fraternidade universal" o mesmo anotado a respeito da "unidade dos homens" no tópico anterior]
[PS 2: vale para este tópico da "fraternidade universal" o mesmo anotado a respeito da "unidade dos homens" no tópico anterior]
6) A questão do poder supremo na
Igreja: a “Colegialidade”
A LG
buscou aprofundar no significado do efetivo poder supremo que os bispos, ao
longo dos séculos, vêm exercendo junto ao Papa nos concílios ecumênicos; e na
relação que tem esse poder com a autoridade do Papa.
A
compreensão dessa questão reside na compreensão do paralelismo existente entre
Pedro e o Colégio Apostólico, de um lado, e o Papa, sucessor de Pedro, e o
Colégio dos Bispos, de outro. Este Colégio dos Bispos, sempre que convocado
pelo Papa ao longo da história da Igreja, exerceu junto a este o poder supremo
nas decisões conciliares – as que versaram sobre fé e moral (decisões
dogmáticas) e as disciplinares, ou seja, trata-se de um poder supremo de
docência e de jurisdição. Isso é um fato, que pode ser explicado como uma
delegação humana do Papa, mas não é o único modo de se aproximar da questão,
como veremos.
O
Concílio apresentou o exercício do poder supremo pelo Colégio dos Bispos
(encabeçado pelo Papa), como sendo de origem divina: radica na sucessão
apostólica e no paralelismo existente entre o Colégio dos Apóstolos (incluído
Pedro, que o chefiava), de uma parte, e o Colégio dos Bispos chefiado pelo
Papa, de outra. Mas o exercício efetivo deste poder supremo do Colégio dos
Bispos depende do consentimento do Papa, tal como sempre ocorreu. Ele é a
autoridade suprema que, como Pedro, pode sempre exercer seu poder, independentemente
dos Bispos. Seu consentimento manifesta sua “autoridade suprema absoluta”, por
assim dizer, que permite o exercício do “poder supremo relativo” dos Bispos.
Este
poder supremo dos Bispos enquanto possibilidade vem de Deus, por sucederem o
Colégio Apostólico, mas seu exercício depende da autorização papal. O papa
pode, inclusive, determinar outros modos de ação colegial, como ensina o n. 22
a LG: “O mesmo poder colegial pode ser exercido, junto com o Papa, pelos Bispos
dispersos por toda a terra, contanto que o Chefe do Colégio os convoque para
uma ação colegial, ou ao menos aprove ou livremente aceite a ação conjunta dos
bispos dispersos de modo que se torne um verdadeiro ato colegial”. Isso último,
bem entendido, mais do que significar a ampliação da possibilidade do exercício
do poder supremo do Colégio dos Bispos para além dos Concílios Ecumênicos (onde
historicamente havia se dado até então), acaba por acentuar a potestade do Sumo
Pontífice, que pode autorizar o exercício do poder supremo do Colégio dos
Bispos sempre que julgar conveniente! Cristo conferiu o poder das chaves num
momento a Pedro e em outro a todos os Apóstolos; a formulação da questão pela
LG concilia e explica essas duas concessões.
Vejamos
essa questão agora de uma outra perspectiva. A delegação por parte do Papa faz
parte de sua autoridade suprema, que é de origem divina. Considerar essa
delegação um arbítrio humano é um modo de entender a questão. Mas é um arbítrio
humano compreendido na autoridade suprema (de origem divina) do Papa. Mas este,
por exemplo, não poderia conceder esta autoridade a um Conselho Presbiteral ou
Laical, reunido sob sua presidência. Nesses exemplos hipotéticos, o poder
supremo seria só do Papa. Todo poder legítimo – tal é o caso do poder supremo
do Colégio dos Bispos presidido pelo Papa – vem de Deus, como se depreende do
diálogo de Jesus com Pilatos (cf. Jo 19,11). Assim, a autoridade suprema dos
bispos reunidos sob a direção do Papa também vem de Deus.
Em sua
análise da “Nota Explicativa Prévia” da LG, EVII compara de maneira equivocada
duas frases, de modo que estas parecem portar uma contradição, a qual impediria
ver com clareza o poder supremo do Papa sobre a Igreja. Eis as frases, com os
destaques de EVII: “O Colégio, que não existe sem a sua Cabeça, diz-se ‘que é também detentor do poder supremo e
pleno sobre a Igreja inteira’” e “E
isto tem necessariamente de ser aceito para que não se levante problema
sobre a plenitude do poder do Romano Pontífice”. A contradição está somente na
má conjunção que se faz das frases, como se o “isto que tem necessariamente de ser aceito” se referisse ao
Colégio enquanto “detentor do poder
supremo e pleno sobre a Igreja inteira”. Ora, as duas frases seguidas só
perfazem um sentido com os seguintes destaques: “O Colégio, que não existe sem a sua Cabeça, diz-se
‘que é também detentor do poder supremo e pleno sobre a Igreja inteira’” e “E isto tem necessariamente de ser aceito para que não se levante
problema sobre a plenitude do poder do Romano Pontífice”. As frases que se
seguem a essas duas tratam de confirmar: “Colégio entende-se sempre e
necessariamente como incluindo a sua Cabeça, que dentro do Colégio, mantém íntegra a sua função de Vigário de
Cristo e de Pastor da Igreja Universal. Por outras palavras, a distinção
não se faz entre o Pontífice Romano e os Bispos tomados coletivamente, mas
entre o Romano Pontífice sozinho e o Romano Pontífice junto com os Bispos. E
porque o Sumo Pontífice é a Cabeça do
Colégio, só ele pode por determinados atos, que não são de modo algum da
competência dos Bispos, v.g., convocar e dirigir o Colégio, aprovar normas para
sua atividade, etc.” (os itálicos são do original).
7) O conceito de Revelação no
Concílio Vaticano II
Em
primeiro lugar, cumpre dizer que o Concílio Vaticano II definiu a Revelação, na DV, da
mesma maneira que o Concílio Vaticano I. Diz a Constituição dogmática sobre a fé católica do Vaticano I, no cap. 2, sobre A Revelação
(tradução do site da Montfort): “aprouve à sua misericórdia e bondade
revelar-se a si e os eternos decretos da
sua vontade ao gênero humano”. Agora a DV: “aprouve a Deus, em sua bondade
e sabedoria revelar-Se a Si mesmo e
tornar conhecido o mistério de Sua vontade” (DV 2). A mesmíssima definição
a respeito do objeto da Revelação!
Qual a
“novidade” apresentada pela DV? A doutrina de que o plano de Revelação se
concretizou através de “acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si,
de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e
corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas,
por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido”. Ora,
sempre foi ensinado que os milagres (obras de Deus), por exemplo, confirmam o
ensinamento (cf. Mc 16,20; S.Th.
II-II q178 a1). Os Concílios de Trento e
do Vaticano I detiveram-se na afirmação das fontes da Revelação: os livros
escritos e as tradições não escritas, que contêm as verdades de Fé sobre Deus e
Sua vontade. O Vaticano II indicou a conexão existente entre a ação providente
de Deus na História da Salvação (na história do Povo Judeu e da Igreja
nascente) e as verdades reveladas.
As obras
realizadas por Deus – suas intervenções concretas, convocando, realizando
milagres, inspirando os hagiógrafos – “manifestam”, isto é, revelam os
ensinamentos a respeito de Deus e do ser humano; não são propriamente a
Revelação, mas o “lugar” onde esta surge. Algo que pode parecer evidente, mas
que precisava ser dito, sobretudo para manifestar que nossas vidas, nossa
história, são o contexto onde essa Revelação hoje nos alcança – e esse, e
somente esse, é o sentido do “vitalismo” do Concílio. E também (tais obras de
Deus) “corroboram” os ensinamentos: pensemos nos milagres de Cristo que
ajudavam as pessoas a acreditarem que Ele era o Messias e Deus feito homem
(duas proposições da Revelação), ou na interpretação alegórica da Escritura,
onde fatos do Antigo Testamento ajudam a compreender ensinamentos do Novo (o
dilúvio iluminando a realidade do batismo cristão, por exemplo).
Os
ensinamentos revelados, por sua vez, iluminam o sentido das obras de Deus: a
Encarnação e a Redenção na Cruz, por exemplo, poderiam passar por simples fatos
(uma concepção e uma morte a mais), e os mistérios contidos nessas ações
salvíficas (a concepção virginal por obra do Espírito Santo, a união
hipostática, a remissão dos pecados) permaneceriam velados, se não nos fossem
comunicados pela Revelação. Também o sentido de nossas vidas, obras de Deus,
não ficaria esclarecido se não fosse pelo Mistério do Verbo Encarnado (cf. GS
22).
Nada
disso nega o caráter proposicional da Revelação, ou que esta se dirige a nossa
inteligência iluminada pela Fé, mas apenas apresenta a História da Salvação
como a “moldura” da Revelação, a qual, deste modo, apresenta-se muito mais
próxima de nossa própria história. Nada no texto permite compreender que a
Revelação de Deus é a consciência de uma “semente divina” entendida a modo
gnóstico. Nada na DV permite afirmar a Revelação como o “sentimento religioso”
dos modernistas.
[PS 3: assim como se distingue o objeto/conteúdo da Fé a ser crido e o ato de fé pelo qual o fiel crê -e também o hábito ou virtude teologal-, a teologia deve distinguir o conteúdo/tesouro da Revelação -que corresponde à aproximação clássica- e a Ação Divina de revelar].
8) A modo de conclusão
A grande “novidade”
do Concílio Vaticano II não se encontra na proclamação de novos dogmas – que na
realidade são verdades de Fé sempre cridas que a partir de um determinado
momento são declaradas solenemente, para que não reste dúvida sobre sua
pertença ao depósito da Fé –, mas num grande aprofundamento na Fé de sempre,
buscando conexões antes inexploradas, como essa realizada pela DV, por exemplo,
que nos ajuda a ver a Revelação não como algo ditado abstratamente, fora do
tempo, mas como uma Palavra viva dirigida por Deus a Seu Povo (Israel, num
primeiro momento, e a Igreja, depois) em meio às vicissitudes da História da
Salvação; esta mesma Eterna Palavra – cristalizada na Sagrada Escritura e na
Tradição Apostólica, mas transmitida dinamicamente pelo Magistério – que nos é
dirigida hoje, em meio às vicissitudes de nossas vidas, para iluminá-las e
conduzi-las à Vida. Tratava-se, no Concílio, de tirar proveito de virtualidades
inexploradas da Fé, trazer à tona realidades latentes na vida da Igreja, como
“o pai de família que do seu tesouro tira coisas novas e velhas” (Mt 13,52),
sem que para isso fosse necessário proclamar infalivelmente alguma coisa.
Vimos
como o sentido da alegoria sobre a Igreja da LG e a expressão “semente divina”
da GS são perfeitamente ortodoxos. Também o são a noção de “colegialidade” que
aparece na LG e os desenvolvimentos sobre a Revelação apresentados na DV. Da
mesma forma, a expressão “fraternidade universal” não implica nenhum
compromisso heterodoxo, nenhuma traição à missão da Igreja. Poderíamos, dentro
dos limites do verdadeiro amor pela Santa Madre Igreja, perguntar-nos sobre a
propriedade do CVII utilizar uma linguagem que não é inequívoca à primeira
vista, ou que necessita de interpretação à luz da Tradição, ou que requer uma
compreensão mais ampla do contexto, etc. Mas, confiando no Espírito Santo, que
inspirou a convocação do CVII e não permitiu que nenhuma heresia se imiscuísse
nos textos do Sagrado Sínodo, optamos por realizar o trabalho de, com boa fé,
entender o sentido ortodoxo dos mesmos (textos). E o fizemos e fazemos com
alegria e gratidão pela grande riqueza dos textos conciliares, os quais, lidos
corretamente, têm contribuído decisivamente para o engrandecimento da fé de
muitos. Sobre as possíveis “ambigüidades” do CVII, eu escrevi um artigo bem
mais conciso, que pode ser encontrado aqui: http://ictys.blogspot.com/2005/08/o-conclio-pastoral-e-suas-ambigidades.html [tal artigo não se encontra mais no blog, e nem me recordo do que argumentei na ocasião; valem, a respeito, as notas desta publicação].
Quanto ao
estudo EVII, que foi ocasião para a escrita do presente artigo, vimos como sua
premissa principal (a interpretação da “semente divina” da GS como a “centelha
divina” gnóstica) e todas as demais se mostraram equivocadas. Em lógica, só há
três possibilidades: ou as premissas e as conclusões são verdadeiras, ou ambas
são falsas, ou então temos premissas falsas e conclusões verdadeiras, que não
derivam das premissas dadas, mas de outras razões. Tendo em vista a necessária
conexão, muito bem demonstrada em EVII, entre sua premissa principal e suas
conclusões, essas ficam marcadas pelo mesmo erro: estamos diante de uma
argumentação coerente, mas equivocada do início ao fim, com suas premissas e
conclusões falsas. Concentrei-me no núcleo da argumentação de EVII e nas principais
acusações de heterodoxia ao CVII, eximindo-me de comentar a questão do
“subsistit” (conforme já havia dito na introdução), as conclusões
(compreendidas nas premissas analisadas), e as citações da bibliografia de
apoio presentes no estudo (pois não há bibliografia secundária que justifique
ou salve uma argumentação inconsistente). Constatamos, enfim, que a Associação
Cultural Montfort possui uma prática ambivalente: de uma parte, publica ótimo
material apologético, como já salientamos na introdução; de outra, quando o
assunto é o Vaticano II, faltam o mesmo rigor e qualidade dos demais estudos, e
sobram comparações mal feitas, citações descontextualizadas, e mesmo alguns
primários erros de lógica que não se esperariam de pessoas cultas. Esperamos
que dita associação, na qual vemos o desejo de servir à Santa Igreja, possa
retificar-se de seus erros e colaborar tão somente para o bem do Catolicismo –
ainda que, indiretamente, suas críticas nos tenham ajudado a compreender mais
corretamente o CVII.
[PS 4: sobre o problema da liberdade religiosa eu escrevi aqui]
[PS 4: sobre o problema da liberdade religiosa eu escrevi aqui]
9) Apêndice I
Gostaria
de fazer umas pequenas considerações sobre o conceito de revelação do filósofo
Xavier Zubiri, cujo pensamento é objeto de meus estudos (o problema filosófico
de Deus em Zubiri foi tema de minha dissertação de mestrado e é minha pesquisa
doutoral).
Zubiri
entende a revelação, em sentido lato, como a presença de Deus na realidade
humana, como seu fundamento; está dizendo o mesmo, desde suas próprias
categorias filosóficas, que Santo Tomás, quando fala da presença essencial de
Deus como “causa eficiente” nas criaturas (S.Th.
I, q8 a1); ou Santo Agostinho, que falava de Deus como “íntimo habitante” da
alma (Confissões, III, 6; X,27); ou,
ainda, a própria Sagrada Escritura, que fala dessa modalidade de presença de
Deus que não é a da graça santificante (At 17,27-28).
Em todos
esses casos, trata-se sempre da intelecção do ser humano, que permite um
conhecimento dessa modalidade de presença divina (mas não o relacionamento
propriamente religioso e a comunhão amorosa com Deus, propiciada apenas pela Fé
e a Graça). Não se trata do “sentimento religioso” dos modernistas. Não há nada
de heterodoxo nessa posição de Zubiri, que, aliás, por sua perspectiva
filosófica poderia até ser classificado como “intelectualista” – ou
“inteleccionista”, em sua linguagem. E ele também fala da Revelação em sentido
estrito (a tradução é minha): “não está dito em nenhuma parte que o que
chamamos a manifestação de Deus [isto é, aquilo que podemos conhecer d’Ele
através do mundo e de nossa vida; cf. Rm 1,20] tenha que estar forçosa e
formalmente limitada ao que não pode deixar de ter toda criatura por razão de
ser criatura [...] Deus pode ter iniciativas manifestantes” (ZUBIRI, El problema filosofico de la historia de las
religiones, Madrid: Alianza Editorial, 1993, p.76); “não está excluído a priori que [...] a realidade divina
tenha caracteres de manifestação que excedam o que a pura inteligência poderia
dizer acerca de Deus. E isto é o que num sentido mais temático pode e deve
chamar-se revelação” (Ibid., p. 82).
O professor
Fedeli fez um juízo precipitado sobre algo que não conhece adequadamente. Seu
afã por denunciar o mal que representa a gnose talvez termine sendo, para ele,
obstáculo para uma compreensão correta de determinados assuntos...
10) Apêndice II
É interessante ver a opinião dos
tradicionalistas logo após o CVII, o que nos ajuda a entender como estes
se deixaram influenciar pela interpretação e abusos progressistas, e não pelo
texto do Concílio por si mesmo:
a) Carta Pastoral de D. Antonio Castro Mayer, de 1966:
http://www.adapostolica.org/modules/articles/article.php?id=7 [esta carta não está mais disponível na internet...]
b) Gustavo Corção, em 1967:
b) Gustavo Corção, em 1967:
“Encerra-se o Concílio, e agora temos na mão as constituições e
decretos, tranqüilos, clássicos, serenos, com os quais a Igreja responde ao
desafio da História. E o sentido dessa resposta não pode ser outro: como num
jogo fantástico, e com sobrenatural esportividade, a Igreja ofereceu o handicap
de todas as oportunidades ao mundo, e demonstrou cabalmente que o teilhardismo,
o progressismo, o naturalismo, e as demais aspirações rebeldes foram ignoradas
ou foram defecadas pelo Concílio. Não creio, sinceramente, que o principal
desse Concílio foi a renovação que trouxe, e que a Igreja sempre procura de
tempos em tempos; creio antes que a magnífica, a principal mensagem do Concílio
foi a da continuidade, da afirmação da identidade da Igreja consigo mesma, ou da
maior consciência dessa identidade que resiste a todos os solavancos do século”
(CORÇÃO, Gustavo. Dois amores, duas
cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, p. 391).

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