22.9.17

Zubiri e Lavelle: a religação ao poder do real e seu Fundamento x a participação na "presença total"

Para Xavier Zubiri o “transcendental” é a (formalidade da) “realidade”, que perpassa as coisas reais e a pessoa humana, sendo um plus em relação a elas, envolvendo o que elas são essencial ou “talitativamente” (como “tal” coisa ou como “animal de realidades”), um “poder” (“do real”) que religa todas as coisas reais entre si, mas que não existe “fora” ou “à parte” delas, sendo o reflexo da presença fundante da Realidade Divina Transcendente “nas” coisas.

Todas as coisas são reais, “têm” realidade, mas nenhuma é “a” realidade. Assim, existe outra realidade em que se funda o poder do real das coisas, e esta não é uma coisa real mais, nem a “soma” das realidades, mas o “Fundamento” da realidade das coisas: Deus. A “realidade” das coisas reais não é a Realidade Divina, mas funda-se nEla, que está presente no íntimo das realidades. Não há uma “realidade unívoca”, mas “análoga”: o que é a Realidade Divina não é a realidade humana ou do cosmos material; Deus está em nós e nas coisas fazendo que sejamos reais sem que sejamos Sua Realidade (cf. El hombre y Dios, capítulos 2 e 3).

Para Lavelle os espíritos/consciências vivem desde um mesmo “ser total” e “unívoco”: eis um sistema filosófico panenteísta, no que diz respeito ao espírito.

Antes de mais nada, vamos ao conceito de “panenteísmo”, prescindindo aqui de uma consideração academicista ou de uma mirada das várias acepções que o termo pode adquirir (algumas confusas), mas indo “direto ao ponto” ou à abstração mais exata possível, com suas 2 modalidades: uma metafísica panenteísta é aquela que considera que há um único “ser” (subsistência), ainda quando haja uma pluralidade de substâncias (essências reais ou existentes), enquanto o “panteísmo” é a afirmação de um monismo substancial (uma única “coisa”/essência). O panenteísmo, em tese, pode se referir a todas as coisas, ou só ao âmbito dos espíritos (caso de Lavelle).

Para quem tem dificuldade com a distinção (real) entre “ser” [traduzido inadequadamente por “existência” por alguns tomistas contemporâneos] e “essência” (ou entre a distinção zubiriana entre “realidade” e “talidade”), mas é cristão, a União Hipostática da Natureza Divina e da natureza humana na Pessoa do Verbo Encarnado esclarece o assunto: os panenteístas alargam indevidamente para tudo, ou para todos os espíritos finitos, o privilégio de Cristo, cujo Ser é o Divino.

Seguem alguns poucos trechos lavellianos de A presença total, e comentários, que me parecem suficientes para que fique bem estabelecido o panenteísmo do autor francês, uma vez que os textos são muito claros e diretos.

“Nela [na consciência] e no Todo, é o mesmo ser que está presente, sob uma forma ora participada, ora participante” (LAVELLE, Louis. A presença total e ensaios reunidos. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 20; grifos meus).

“Ela [a consciência pessoal] apenas nos revela nosso ser verdadeiro, e, ao mesmo tempo, o interior do ser total, com o qual ela é substancial...” (Ibid., p. 22; grifos meus).

“... a identidade essencial entre o ser puro e nosso ser participado” (Ibid., p. 34; grifos meus).

“... a consciência não se distingue do ser, de que ela exprime um aspecto, senão pelo caráter finito deste aspecto mesmo que ela nos revela” (Ibid., p. 42).

“... o ser cuja presença total havíamos descoberto e o ser que acabamos de nos atribuir a nós mesmos são um só e mesmo ser, considerado de dois aspectos diferentes -ou, enfim, que a própria noção de ser é unívoca” (Ibid., p. 47; grifos meus).

Comentário:

O que os panenteístas fazem é confundir a imanência conservadora de Deus nas coisas (cf. At 17,28; S.Th. I, q.8) com a própria subsistência ou ser das coisas. Os entes ou substâncias criadas, ainda que não tenham o ser “por si” mesmos (são causados/criados, dependem existencialmente do Ser de Deus numa relação criatural inseparável) têm o ser “em si” mesmos (são subsistentes, não são o Ser que é Deus, caso exclusivo de Cristo). Deus é Transcendente (Criador) e Imanente (Conservador), mas só após o juízo “será tudo em todos” (nos eleitos e na criação transfigurada: cf. 1Cor 15,28) e então o panenteísmo poderá ser dito verdadeiro no Reino (não, porém, e obviamente, no inferno).

Confunde-se o esse ou ato de ser criado e transcendental -do qual deriva o conceito de ens- com o Ipsum Esse Divino, como se Este fosse o objeto ordinário da inteligência humana (numa espécie de ontologismo, que é a contraparte gnosiológica da metafísica panenteísta). O ser (Tomás)/poder do real (Zubiri) criado é o reflexo nas coisas do Ser Supremo ou Realidade Absoluta, e não o próprio Ser ou Deus.

“Não nos sentimos expostos por isso à acusação de panteísmo...

[...] parece-nos que deveríamos estar ao abrigo de toda suspeita de panteísmo...” (Ibid., p. 23)

Comentário:

Certamente ele não confunde a essência/natureza das consciências limitadas com a “Consciência Total e Ilimitada” (termo meu), não sendo “panteísta”, mas, para além do panteísmo monista algo tosco defendido por alguns, há o panenteísmo, que é uma visão mais requintada e sutil (e que muitos, inclusive cristãos, confundem com a questão da imanência conservadora de Deus, já explicada).

“Toda criação é para ele [o ser total] uma comunicação de seu próprio ser, ou seja, ele não pode criar senão liberdades” (Ibid., p. 24).

Comentário:

Não. Deus comunica ex nihilo o ser criado, outro que o Seu, como já explicado, e como é sabido pelos católicos. As seguintes passagens de Julián Marías esclarecem muito bem:

Por que há algo e não, antes, nada? -esta é a pergunta decisiva-. O ente grego -isto é bem sabido- está ameaçado pelo movimento ou mudança, χίνησις (kínesis) e o 'não ser'; a realidade cristã está ameaçada pelo nada. E à tese ex nihilo nihil fit -do nada nada se faz- corresponde a tese ex nihilo omne ens qua ens fit -do nada se faz todo ente enquanto ente-, precisamente quando se introduz a infinita potência criadora de Deus.
[...]
[A criação] Não é "fabricação", nem "geração", nem "emanação", senão criação ex nihilo sui et subjecti. O mundo não é algo "feito" por Deus com uma matéria-prima pré-existente, nem gerado por ele -como o Filho do Pai-, nem emanado de sua própria realidade, senão posto na existência, "fora": este 'fora' radical é o que se chamou transcendência, frente a toda forma de panteísmo; é a total irredutibilidade entre criador e criatura" (MARÍAS, Julián. Antropología metafísica. 1a reimpressão. Madrid: Alianza, 2000, p. 37).

Depois, Lavelle, ao falar que o ser “cria apenas liberdades”, deixa margem para entender a matéria como algo à parte do poder do ser...

“... a guerra só pode reinar entre os corpos, entre os quais a destruição do adversário assegura a hegemonia do vencedor. Cada espírito, ao contrário, tem necessidade de todos os outros para sustentá-lo, para esclarecê-lo, para prolongar e completar a visão do universo que ele mesmo obteve. Os diferentes espíritos não se sentem rivais senão por um amor-próprio carnal do qual ainda não conseguiram despojar-se; é para defendê-lo que cada um pensa ser o único a servir à verdade; à medida que se purificam, eles se apaziguam, se reconciliam, e unem suas forças. Cada um deve fixar o olhar mais firme na verdade que lhe é dada, mas sabe que ela nunca é mais que um aspecto da verdade total; se ele a comunica a qualquer outro, é preciso que isso seja feito com prudência, para lhe propor e pedir uma ajuda, e não para constrangê-lo ou escandalizá-lo” (Ibid., pp. 26-27).

Comentário:

Aqui parece que, para Lavelle, o “espírito” é o âmbito do “ser e da verdade total”, e os “corpos” e a “carne” o âmbito do “não-ser” e da “inimizade” (do mal). É preciso distinguir.

Também a matéria (a “terra”), criada por Deus, é boa (cf. Gn 1,1.31). Como é bom e santo o “corpo” (cf. Jo 1,14; 1Cor 6,19; 1Jo4,2; 1Cor 15; Rm 8,23). A oposição paulina “espírito x carne” (cf. Rm 7,14-24; Gl 5,16-24) é a oposição entre o homem que vive segundo o Espírito, crucificando suas paixões e atuando formalmente como templo do Paráclito, e aquele que vive segundo as concupiscências e as obras da carne; mas estas entraram no mundo por um ato da inteligência e da liberdade espirituais finitas criadas (cf. Gn 3). Somos chamados, pela graça, a restituir a verdade sobre o corpo humano (cf. 1Tes 5,23) e a santificar o cosmos material que sofre pelo pecado (cf. Rm 8,22), mas será transfigurado (cf. Ap 21,1).

* * *

Com o dito, não se pretende “condenar” Lavelle e sua filosofia. Como filósofo e aprendiz de teólogo, cabe-me apenas apresentar critérios para o discernimento: uma coisa é uma metafísica monoteísta da criação, e outra uma metafísica panenteísta. Muito do que ele escreve pode ser edificante e lido com proveito, se considerado no horizonte da Graça e da Beatitude: a Graça é que permite uma união moral entre o ser que somos e o Ser Divino, que tende à união deificante na Glória. Com esta perspectiva, evita-se uma visão gnóstica, de uma soberba que considera que esta união é um “direito” e não uma vocação gratuita a ser respondida com gratidão e cooperação, podendo ser perdida pelo pecado mortal sem arrependimento...





Apêndice: condenações do Magistério católico ao ontologismo e ao panenteísmo

Errores de los ontologistas (3) [Según el decreto del S. Oficio de 18 de septiembre de 1861, no pueden enseñarse con seguridad] Nota: (3) ASS 3 (1867) 204 s.

D-1659 1. El conocimiento inmediato de Dios, por lo menos habitual, es esencial al entendimiento humano, de suerte que sin él nada puede conocer: como que es la misma luz intelectual.
D-1660 2. Aquel ser que en todo y sin el cual nada entendemos es el Ser divino.
D-1661 3. Los universales considerados objetivamente, no se distinguen realmente de Dios.
D-1662 4. La congénita noticia de Dios como ser simpliciter, envuelve de modo eminente todo otro conocimiento, de suerte que por ella tenemos conocido implícitamente todo ser bajo cualquier aspecto que sea conocible.
D-1663 5. Todas las demás ideas no son sino modificaciones de la idea por la que Dios es entendido como ser simpliciter.
D-1664 6. Las cosas creadas están en Dios como la parte en el todo, no ciertamente en el todo formal, sino en el todo infinito, simplicísimo, que pone fuera de sí sus cuasi partes sin división ni disminución alguna de sí.
D-1665 7. La creación puede explicarse de la siguiente manera: Dios, por el acto especial mismo con que se entiende y quiere a sí mismo como distinto de una criatura determinada, v. gr., el hombre, produce la criatura.


De Dios creador de todas las cosas Nota: (2) CL VII 255 a s; ASS 5 (1869) 469 ss. D-1801 1. [Contra todos los errores acerca de la Existencia de Dios creador].

D-1804 4. [Contra las formas especiales del panteísmo.] Si alguno dijere que las cosas finitas, ora corpóreas, ora espirituales, o por lo menos las espirituales, han emanado de la sustancia divina, o que la divina esencia por manifestación o evolución de sí, se hace todas las cosas, o, finalmente, que Dios es el ente universal o indefinido que, determinándose a sí mismo, constituye la universalidad de las cosas, distinguida en géneros, especies e individuos, sea anatema.

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