Para Xavier Zubiri
o “transcendental” é a (formalidade da) “realidade”, que perpassa as coisas
reais e a pessoa humana, sendo um plus em relação a elas, envolvendo o
que elas são essencial ou “talitativamente” (como “tal” coisa ou como “animal
de realidades”), um “poder” (“do real”) que religa todas as coisas reais entre
si, mas que não existe “fora” ou “à parte” delas, sendo o reflexo da presença
fundante da Realidade Divina Transcendente “nas” coisas.
Todas as coisas são
reais, “têm” realidade, mas nenhuma é “a” realidade. Assim, existe outra
realidade em que se funda o poder do real das coisas, e esta não é uma coisa
real mais, nem a “soma” das realidades, mas o “Fundamento” da realidade das
coisas: Deus. A “realidade” das coisas reais não é a Realidade Divina,
mas funda-se nEla, que está presente no íntimo das realidades. Não há uma
“realidade unívoca”, mas “análoga”: o que é a Realidade Divina não é a
realidade humana ou do cosmos material; Deus está em nós e nas coisas fazendo
que sejamos reais sem que sejamos Sua Realidade (cf. El hombre y Dios, capítulos
2 e 3).
Para Lavelle os
espíritos/consciências vivem desde um mesmo “ser total” e “unívoco”: eis um
sistema filosófico panenteísta, no que diz respeito ao espírito.
Antes de mais nada,
vamos ao conceito de “panenteísmo”, prescindindo aqui de uma consideração
academicista ou de uma mirada das várias acepções que o termo pode adquirir
(algumas confusas), mas indo “direto ao ponto” ou à abstração mais exata
possível, com suas 2 modalidades: uma metafísica panenteísta é aquela que
considera que há um único “ser” (subsistência), ainda quando haja uma
pluralidade de substâncias (essências reais ou existentes), enquanto o
“panteísmo” é a afirmação de um monismo substancial (uma única
“coisa”/essência). O panenteísmo, em tese, pode se referir a todas as coisas,
ou só ao âmbito dos espíritos (caso de Lavelle).
Para quem tem
dificuldade com a distinção (real) entre “ser” [traduzido inadequadamente por
“existência” por alguns tomistas contemporâneos] e “essência” (ou entre a
distinção zubiriana entre “realidade” e “talidade”), mas é cristão, a União
Hipostática da Natureza Divina e da natureza humana na Pessoa do Verbo
Encarnado esclarece o assunto: os panenteístas alargam indevidamente para tudo,
ou para todos os espíritos finitos, o privilégio de Cristo, cujo Ser é o
Divino.
Seguem alguns
poucos trechos lavellianos de A presença total, e comentários, que me
parecem suficientes para que fique bem estabelecido o panenteísmo do autor
francês, uma vez que os textos são muito claros e diretos.
“Nela [na
consciência] e no Todo, é o mesmo ser que está presente, sob uma forma
ora participada, ora participante” (LAVELLE, Louis. A presença total e
ensaios reunidos. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2012, p.
20; grifos meus).
“Ela [a consciência
pessoal] apenas nos revela nosso ser verdadeiro, e, ao mesmo tempo, o interior
do ser total, com o qual ela é substancial...” (Ibid., p. 22; grifos
meus).
“... a identidade
essencial entre o ser puro e nosso ser participado” (Ibid., p. 34; grifos
meus).
“... a consciência
não se distingue do ser, de que ela exprime um aspecto, senão pelo caráter
finito deste aspecto mesmo que ela nos revela” (Ibid., p. 42).
“... o ser cuja
presença total havíamos descoberto e o ser que acabamos de nos atribuir a nós
mesmos são um só e mesmo ser, considerado de dois aspectos diferentes
-ou, enfim, que a própria noção de ser é unívoca” (Ibid., p. 47; grifos meus).
Comentário:
O que os
panenteístas fazem é confundir a imanência conservadora de Deus nas coisas (cf.
At 17,28; S.Th. I, q.8) com a própria subsistência ou ser das coisas. Os entes
ou substâncias criadas, ainda que não tenham o ser “por si” mesmos (são
causados/criados, dependem existencialmente do Ser de Deus numa relação
criatural inseparável) têm o ser “em si” mesmos (são subsistentes, não são o Ser
que é Deus, caso exclusivo de Cristo). Deus é Transcendente (Criador) e
Imanente (Conservador), mas só após o juízo “será tudo em todos” (nos eleitos e
na criação transfigurada: cf. 1Cor 15,28) e então o panenteísmo poderá ser dito
verdadeiro no Reino (não, porém, e obviamente, no inferno).
Confunde-se o esse
ou ato de ser criado e transcendental -do qual deriva o conceito de ens- com
o Ipsum Esse Divino, como se Este fosse o objeto ordinário da
inteligência humana (numa espécie de ontologismo, que é a contraparte
gnosiológica da metafísica panenteísta). O ser (Tomás)/poder do real (Zubiri)
criado é o reflexo nas coisas do Ser Supremo ou Realidade Absoluta, e não o
próprio Ser ou Deus.
“Não nos sentimos
expostos por isso à acusação de panteísmo...
[...] parece-nos
que deveríamos estar ao abrigo de toda suspeita de panteísmo...” (Ibid., p. 23)
Comentário:
Certamente ele não
confunde a essência/natureza das consciências limitadas com a “Consciência
Total e Ilimitada” (termo meu), não sendo “panteísta”, mas, para além do
panteísmo monista algo tosco defendido por alguns, há o panenteísmo, que é uma
visão mais requintada e sutil (e que muitos, inclusive cristãos, confundem com
a questão da imanência conservadora de Deus, já explicada).
“Toda criação é
para ele [o ser total] uma comunicação de seu próprio ser, ou seja, ele não
pode criar senão liberdades” (Ibid., p. 24).
Comentário:
Não. Deus comunica ex
nihilo o ser criado, outro que o Seu, como já explicado, e como é
sabido pelos católicos. As seguintes passagens de Julián Marías esclarecem muito bem:
Depois, Lavelle, ao falar que o ser “cria apenas liberdades”, deixa margem para entender a matéria como algo à parte do poder do ser...
Por que há algo e não, antes, nada? -esta é a pergunta decisiva-. O ente grego -isto é bem sabido- está ameaçado pelo movimento ou mudança, χίνησις (kínesis) e o 'não ser'; a realidade cristã está ameaçada pelo nada. E à tese ex nihilo nihil fit -do nada nada se faz- corresponde a tese ex nihilo omne ens qua ens fit -do nada se faz todo ente enquanto ente-, precisamente quando se introduz a infinita potência criadora de Deus.[...]
[A criação] Não é "fabricação", nem "geração", nem "emanação", senão criação ex nihilo sui et subjecti. O mundo não é algo "feito" por Deus com uma matéria-prima pré-existente, nem gerado por ele -como o Filho do Pai-, nem emanado de sua própria realidade, senão posto na existência, "fora": este 'fora' radical é o que se chamou transcendência, frente a toda forma de panteísmo; é a total irredutibilidade entre criador e criatura" (MARÍAS, Julián. Antropología metafísica. 1a reimpressão. Madrid: Alianza, 2000, p. 37).
Depois, Lavelle, ao falar que o ser “cria apenas liberdades”, deixa margem para entender a matéria como algo à parte do poder do ser...
“... a guerra só
pode reinar entre os corpos, entre os quais a destruição do adversário
assegura a hegemonia do vencedor. Cada espírito, ao contrário, tem necessidade
de todos os outros para sustentá-lo, para esclarecê-lo, para prolongar e
completar a visão do universo que ele mesmo obteve. Os diferentes espíritos não
se sentem rivais senão por um amor-próprio carnal do qual ainda não
conseguiram despojar-se; é para defendê-lo que cada um pensa ser o único a
servir à verdade; à medida que se purificam, eles se apaziguam, se reconciliam,
e unem suas forças. Cada um deve fixar o olhar mais firme na verdade que lhe é
dada, mas sabe que ela nunca é mais que um aspecto da verdade total; se ele a
comunica a qualquer outro, é preciso que isso seja feito com prudência, para
lhe propor e pedir uma ajuda, e não para constrangê-lo ou escandalizá-lo”
(Ibid., pp. 26-27).
Comentário:
Aqui parece que,
para Lavelle, o “espírito” é o âmbito do “ser e da verdade total”, e os
“corpos” e a “carne” o âmbito do “não-ser” e da “inimizade” (do mal). É preciso
distinguir.
Também a matéria (a
“terra”), criada por Deus, é boa (cf. Gn 1,1.31). Como é bom e santo o “corpo”
(cf. Jo 1,14; 1Cor 6,19; 1Jo4,2; 1Cor 15; Rm 8,23). A oposição paulina
“espírito x carne” (cf. Rm 7,14-24; Gl 5,16-24) é a oposição entre o homem que
vive segundo o Espírito, crucificando suas paixões e atuando formalmente como
templo do Paráclito, e aquele que vive segundo as concupiscências e as obras da
carne; mas estas entraram no mundo por um ato da inteligência e da liberdade
espirituais finitas criadas (cf. Gn 3). Somos chamados, pela graça, a restituir
a verdade sobre o corpo humano (cf. 1Tes 5,23) e a santificar o cosmos material
que sofre pelo pecado (cf. Rm 8,22), mas será transfigurado (cf. Ap 21,1).
* * *
Com o dito, não se
pretende “condenar” Lavelle e sua filosofia. Como filósofo e aprendiz de teólogo, cabe-me apenas
apresentar critérios para o discernimento: uma coisa é uma metafísica
monoteísta da criação, e outra uma metafísica panenteísta. Muito do que ele
escreve pode ser edificante e lido com proveito, se considerado no horizonte da
Graça e da Beatitude: a Graça é que permite uma união moral entre o ser que
somos e o Ser Divino, que tende à união deificante na Glória. Com esta
perspectiva, evita-se uma visão gnóstica, de uma soberba que considera que esta
união é um “direito” e não uma vocação gratuita a ser respondida com gratidão e
cooperação, podendo ser perdida pelo pecado mortal sem arrependimento...
Apêndice:
condenações do Magistério católico ao ontologismo e ao panenteísmo
Errores de los
ontologistas (3) [Según el decreto del S. Oficio de 18 de septiembre de 1861,
no pueden enseñarse con seguridad] Nota: (3) ASS 3 (1867) 204 s.
D-1659 1. El
conocimiento inmediato de Dios, por lo menos habitual, es esencial al
entendimiento humano, de suerte que sin él nada puede conocer: como que es la
misma luz intelectual.
D-1660 2. Aquel ser
que en todo y sin el cual nada entendemos es el Ser divino.
D-1661 3. Los
universales considerados objetivamente, no se distinguen realmente de Dios.
D-1662 4. La
congénita noticia de Dios como ser simpliciter, envuelve de modo eminente todo
otro conocimiento, de suerte que por ella tenemos conocido implícitamente todo
ser bajo cualquier aspecto que sea conocible.
D-1663 5. Todas las
demás ideas no son sino modificaciones de la idea por la que Dios es entendido
como ser simpliciter.
D-1664 6. Las cosas
creadas están en Dios como la parte en el todo, no ciertamente en el todo
formal, sino en el todo infinito, simplicísimo, que pone fuera de sí sus cuasi
partes sin división ni disminución alguna de sí.
D-1665 7. La
creación puede explicarse de la siguiente manera: Dios, por el acto especial
mismo con que se entiende y quiere a sí mismo como distinto de una criatura
determinada, v. gr., el hombre, produce la criatura.
De Dios creador de
todas las cosas Nota: (2) CL VII 255 a s; ASS 5 (1869) 469 ss. D-1801 1.
[Contra todos los errores acerca de la Existencia de Dios creador].
D-1804 4. [Contra
las formas especiales del panteísmo.] Si alguno dijere que las cosas finitas,
ora corpóreas, ora espirituales, o por lo menos las espirituales, han emanado
de la sustancia divina, o que la divina esencia por manifestación o evolución
de sí, se hace todas las cosas, o, finalmente, que Dios es el ente universal o
indefinido que, determinándose a sí mismo, constituye la universalidad de las
cosas, distinguida en géneros, especies e individuos, sea anatema.

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