3.9.17

Teologia contemporânea (1): Leonardo Boff

Esta postagem inicia uma série sobre importantes teólogos do século XX, em que procurarei criticar, a partir de trechos de alguma obra capital, suas perspectivas gerais, sem fazer uma análise exaustiva.

O primeiro é o famoso teólogo franciscano brasileiro, um dos fundadores da “Teologia da Libertação”. Iremos segui-lo na seguinte obra: BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. 21a ed. Petrópolis: Vozes, 2012 (1a ed. de 1972). Trata-se de uma análise que pode (e deve) ser realizada por qualquer fiel que tenha uma boa formação doutrinal e se mova pelo senso sobrenatural da fé que ilumina a inteligência.

O pressuposto da obra cristológica de Frei Leonardo Boff é que a teologia está sempre ligada a algum tipo de interesse extra-teológico, ou a algum “lugar social [...] a partir do qual se elabora a fé em jesus Cristo” (p. 14). Segundo ele, “não existe uma cristologia neutra, nem pode haver. Toda ela é partisanne e engagée. Volens nolens o seu discurso repercute na situação com os interesses conflitantes que a perpassam”. E ainda: “Geralmente assume a posição dos detentores do poder vigente” e se revela como “reforço do status quo vigente” (p. 15).

Boff não esconde seu suposto marxista: a teologia é feita no marco mais amplo de uma “ideologia”, com ou sem consciência formal por parte do teólogo. Evidentemente isto é algo que vai afetar profundamente, e afastar do sensus fidei, seu labor teológico: a fé não transcenderia os horizontes econômicos e culturais humanos? Desde logo, ninguém que leve a sério a fé católica pode dizer que sim ou se solidarizar com este ponto de vista, porém isto não significa que não seja necessário conhecer melhor e diretamente o pensamento do famoso teólogo brasileiro, que tanto influenciou a Igreja na Terra de Santa Cruz.

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“A cristologia que proclama Jesus Cristo como Libertador quer comprometer-se com a libertação econômica, social e política dos grupos oprimidos e dominados” (p. 15).

Comentário: fica claro, desde o início, a contraposição dialética do pensamento marxista, entre “opressores” e “oprimidos”. E que a cristologia boffiana tem a ver com uma “libertação” na ordem imanente, e não com a libertação do pecado.

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“É o contexto de opressão e dependência em todos os níveis da vida, exasperando seu correlato oposto - a libertação - que propicia à cristologia na América Latina pensar e amar a Jesus Cristo como Libertador. Esse tema não é gerado voluntaristicamente na cabeça de alguns teólogos à caça de objetos interessantes para suas discussões, mas nasceu como exigência da fé concreta de cristãos que se sentiram, em consciência, convocados a ajudar a superar uma situação humilhante para seus irmãos e que encontraram em Jesus Cristo impulsos de libertação” (p. 16).

Comentário: a situação de pobreza da América Latina não é uma ficção comunista. E o chamado que esta situação implica para o católico é, imediatamente, o de viver a caridade social para remediar a situação de tantos irmãos que vivem em condições despersonalizantes. Uma tal preocupação com os pobres é legítima e perfeitamente cristã. Secundariamente, não deve ser descurada a via política, para as justas mudanças estruturais que devam ser realizadas, mas o católico deve se orientar, neste âmbito, pela Doutrina Social da Igreja, que desde a Rerum Novarum (S.S. Leão XIII) sempre julgou errônea a dialética conflitiva marxista, e convida os atores sociais, de quaisquer classes, à cooperação e à reconciliação social. Uma despreocupação ou falta de compromisso social por parte dos católicos apenas abriria espaço para que a luta pela justiça parecesse ser um monopólio dos socialistas, o que é evidentemente falso.

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“Esse compromisso [com os oprimidos] não garante a qualidade interna de uma cristologia. A consideração do lugar social e da relevância quer mostrar a ligação ineludível que existe entre a prática e a teoria, entre a política e a cristologia [...]
[...] A cristologia possui sua autonomia na elaboração do seu discurso em conformidade com sua metologia própria...” (p. 16).

Comentário: O autor é honesto ao declarar que a intenção -supostamente boa- de seu afazer teológico não garante o valor do mesmo. Porém o seu erro se manifesta mais uma vez: ademais de inverter a ordem das faculdades humanas e colocar a prática na frente do conhecimento, esta prática não é entendida em termos cristãos, como as “obras da caridade”, mas em termos imanentistas, como “política”: é a prática política (no caso, de orientação socialista, mas o mesmo erro ocorreria se fosse qualquer outra ideologia) que determina a orientação cristológica, ainda que a mesma deva se valer de uma argumentação que possa ser considerada consistente na ordem da ciência.

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“Parte-se de uma constatação: [...] condições desumanas de existência. [...] Com essa sub-realidade coexiste outra realidade de nosso povo: a fé cristã com seus polícromos valores, a hospitalidade, o calor humano, o sentido da solidariedade, o imenso anseio de justiça e participação, o gosto pela festa [...]

Diante dessa situação [...] deu-se a reação de grupos cristãos salvando a prática de fé, neste continente, de seu tradicional cinismo histórico. As reações captando a relevância teológica do fato social podem sumariamente ser reduzidas a duas, gerando duas cristologias [...]. Uma quer trabalhar cristologicamente a ordem da sensibilidade, isto é, do vivenciado; e a outra articular cristologicamente a ordem da análise, ou seja, do pensado. A primeira nasce de uma indignação ética, a segunda se origina da racionalidade socioanalítica. Ambas têm isto em comum: são palavras segunda diante da realidade-miséria, palavra primeira” (pp. 18-19).

Comentário: Depois de elogiar aspectos positivos da fé e do povo católico em nosso continente, o autor se refere a um suposto “cinismo” histórico da fé. Parece se referir à Igreja, entendida como hierarquia, uma vez que acabara de elogiar o povo. Nas entrelinhas se pode ver também que o esquema marxista do autor é aplicado à própria estrutura eclesial, onde os clérigos tomariam partido dos “opressores”. É estranho, entretanto, que uma Igreja "assim" tenha formado um povo "assado"... Depois ele descreve dois tipos de reação à “miséria” latino-americana: a primeira, de índole mais pastoral ou vivencial, parece tratar-se da chamada “teologia do Povo” (do Papa Francisco); a segunda, científica, é a “teologia da libertação” propriamente dita. Na teologia clássica, por exemplo em S. Bernardo, o termo “miséria” se refere à situação da queda que deriva do pecado original; é uma situação fundamentalmente espiritual, da qual brotam as demais injustiças no plano temporal.

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“Não se trata de melhorar aqui e ali mantendo o mesmo quadro de relações de força (reformismo); trata-se deveras de uma vontade revolucionária [...] Mas para chegar a uma práxis que alcance suas metas, impõe-se previamente uma análise, a mais correta possível, dos mecanismos produtores da iniquidade social, entendida à luz da fé, como pecado social e estrutural” (p. 22; grifos meus).

Comentário: Mais uma vez o autor não faz a menor questão de esconder sua opção político-ideológica de fundo, tanto no que diz respeito ao objetivo prático (a “revolução”) quanto ao fundamento teórico marxista, que conduz à identificação (do mistério) da iniquidade com a miséria social enquanto pecado “social e estrutural”. Como ensina S. João Paulo II, o pecado “social” é o precipitado dos pecados pessoais enquanto contraparte do mistério da “comunhão dos santos” (cf. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Reconciliatio e Paenitentia, n. 16). Não se trata, portanto, de um mal que pertença a uma “classe opressora/dominante”, como poderia ser a da burguesia capitalista; e nem é possível simplesmente “inocentar” (do pecado) os oprimidos ou os pobres pelo fato de o serem. As responsabilidades pelo mal são sempre pessoais, ainda que suas consequências possam alcançar a comunidade sócio-política

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“Na escolha de uma teoria explicativa da sociedade entram critérios que não procedem exclusivamente da objetividade e racionalidade, mas da opção de fundo do analista e de seu lugar social. Toda a reflexão sobre a realidade humana é orientada por um projeto de fundo, ou seja, por uma utopia que um grupo constrói e na qual projeta o seu futuro. Ela não é puramente ideológica, mas se baseia em condições sociais e materiais. Assim podemos identificar dois tipos de projetos ou utopias que possuem dois tipos de portadores: o projeto das classes dominantes da sociedade e o das classes dominadas.

A utopia dos grupos dominantes propugna por um progresso linear, sem mudança dos quadros estruturantes da sociedade; manifesta imensa fé na ciência e na técnica; supõe uma concepção elitista da sociedade cujos benefícios irão progressivamente passando para as massas. A utopia dos grupos dominados busca uma sociedade igualitária [...]” (p. 23; grifos meus).

Comentário: A submissão da fé ao projeto político socialista aparece a cada parágrafo da introdução do livro de nosso teólogo. O irracionalismo voluntarista tipicamente pós-hegeliano, o materialismo socialista, o idealismo (no sentido filosófico) da proposta, enfim, estão totalmente patenteados neste trecho. O horizonte é totalmente moderno e imanentista: as utopias de “dominantes” e “dominados” são ambas “progressistas” e indiferentes à Verdade no sentido clássico e cristão, sendo distinta apenas a maneira de alcançar o suposto “progresso” do ideal moderno: através do liberal-conservadorismo e sua crença irracional na ciência técnica ou através do socialismo e sua crença irracional na revolução.

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“[...] A salvação definitiva e escatológica se mediatiza, antecipa-se e se concretiza em libertações parciais intra-históricas em todos os níveis da realidade na história e está sempre abeta em direção de uma plenitude e globalidade somente atingíveis no Reino” (p. 25)

“[...] na América Latina as forças repressoras ganharam a partida [...]

[...] deve-se desistir da libertação? No nível teórico não se deve conceder nada e manter o diagnóstico negativo e correto. Mas no tocante às práticas, deve-se buscar aquelas que viabilizam um processo autenticamente libertador, embora lento e longo. A conjuntura geral obriga a mudanças no sistema para chegar a mudanças do sistema. Isto não quer dizer renúncia à opção por um projeto de libertação e por uma sociedade diferente, mas uma estratégia para sua implantação em termos histórico e conjunturais impostos pela situação geral de repressão e cativeiro” (p. 27).

Comentário: Todo projeto totalitário não pode descansar. Portanto o socialismo e a teologia da libertação que o representa apenas mudam a estratégia, mantendo o objetivo. A Igreja tem um ideal universal, porém tem em conta a liberdade humana e o mistério da iniquidade e a realidade dos “dois caminhos” (Dt 30,15-20; Sl 1; Mt 7,13-14; Rm 9,22-24) ou das “duas cidades” (S. Agostinho). O Reino certamente só se realiza após o Juízo da História, como afirma o autor, mas ele só se antecipa nos que se convertem e na realidade eclesial (incluindo aqueles que acaso participem misteriosamente do redil de Cristo).


O autor critica de passagem o marxismo (p. 28), enquanto partícipe do ethos cultural moderno. Mas parece ser que o autor apenas faz a diferença entre o “pensamento marxiano” e a escola que dele derivou.



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