Inspirada meditação do amigo Lincoln Hass Hein, pós-graduando em arteterapia, autor do blog inspiradonogregoriano, e professor de canto e música litúrgica.
Publicada com sua autorização (primeira de três).
Ao final, encontra-se uma "nota" explicativa que esboça os fundamentos teóricos da meditação.
* * *
Sl 104, 5a Lembrai sempre as maravilhas do Senhor!
Publicada com sua autorização (primeira de três).
Ao final, encontra-se uma "nota" explicativa que esboça os fundamentos teóricos da meditação.
* * *
Sl 104, 5a Lembrai sempre as maravilhas do Senhor!
Lucas 2,19 Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
Lucas 1, 46-47 E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador.
No homem recordar é tentar reviver uma experiência que já passou, é tentar tornar presente no coração novamente a experiência através da imaginação, da reminiscência, da inteligência e dos conceitos e através das emoções e afetos: em suma através de todo o seu aparato cognitivo e volitivo. Este retornar da experiência no coração é via de regra um análogo, um símbolo, uma imagem da experiência que já foi, semelhante e nunca idêntico à experiência mesma: até porque renova a experiência no mais íntimo centro, na reflexão consciente do coração (inteligência enquanto memória espiritual e presença de si mesmo a si mesmo que absorve em si a reminiscência da experiência sensível e mediante os signos trabalhados por esta faz com o intelecto agente seu trabalho de analogia que conduz do sensível ao espiritual) e não imediatamente nas potências que receberam a impressão da experiência (é sempre a imaginação e a reminiscência que mediatamente com sinais: ancoram as experiências, permitem no trabalho com os sinais uma movimentação dos afetos e emoções e dão a base para o trabalho abstrativo do intelecto e de seus raciocínios; na memória do coração não temos a presença interior ou exterior do fato que trazemos à tona mas seu semelhante num símbolo).
Porém há um tipo específico de experiência, a intuição da verdade, que mediante a tentativa do retorno consciente através dos símbolos pode ser de fato renovada não como semelhança (sempre diferente) e não no sentido de identidade absoluta mas como uma nova intuição que refazendo a anterior aprofunda seu conteúdo: as semelhanças e analogias simbólicas relacionadas com a experiência da verdade despertam a inteligência atenta no coração e esta refaz a experiência intuitiva originária mas ao refazê-la se transforma (a inteligência se modifica) e deste modo a intuição se torna novidade mesmo sendo repetição de experiência anterior.
Esta novidade da verdade sempre se apresenta ao coração nos fatos e sempre que experimentamos um fato novo (intuído como verdade e realidade graças à uma contemplação amorosa que acolhe sua manifestação) temos uma possibilidade de que a contemplação ressuscite na memória os análogos simbólicos relacionados com experiências anteriores da verdade e de um modo especial possibilita que experiências de fatos similares possam ser conectadas simbolicamente e haja de certo modo um reconhecimento da verdade.
Este reconhecimento é sempre unido a um desconhecimento na medida em que a apreensão da verdade se dá na analogia simbólica porque é a verdade transcendente que dá suporte à inteligibilidade no ser humano e não o inverso e sendo transcendente sempre contém algo não manifesto que se mostra apenas parcialmente no manifesto: um gato que estou vendo me mostra parcialmente as possibilidades do ser gato e não importa quantos gatos eu veja e quantas vezes eu veja o mesmo gato nunca se esgota a possibilidade de captar algo novo antes não captado. E, por outro lado, nunca no tempo o ser se apresenta de modo idêntico, identidade só pertence plenamente à eternidade e assim cada instante é um novo manifestar-se da verdade sem nunca esgotá-la. A cada renovação da experiência da verdade há uma transformação nos análogos simbólicos guardados na reminiscência, na imaginação e no intelecto possível numa tensão em direção à um melhor reconhecimento mas esta melhoria depende sempre de uma abertura amorosa para a contemplação dos fatos como novidades sempre diferentes de seus similares guardados, a verdade se dá antes na manifestação do ser que se apresenta no fato e só analogicamente e de modo limitado no reconhecimento.
Um apego aos símbolos na memória sem que haja uma abertura para a fecundidade sempre renovada e nova das possibilidades do ser se manifestar é um endurecimento do coração, um fechamento do coração em si e portanto uma alienação. O coração e a memória espiritual como inteligência que é só pode recordar plenamente quando há intuição nova da verdade, quando há renovação da experiência do ser como ser que se manifesta, ou seja, a memória espiritual só pode existir como uma atenção presente ao fato presente do ser que no presente se manifesta ao ser presente da memória espiritual, mas estas presenças como o ser é análogo tornam presentes os símbolos e simbolizados que são semelhantes e ao mesmo tempo diferentes.
As presenças que se relacionam na presença de si da memória espiritual se realizam numa relação entre o ser eterno e sua manifestação temporal, a fonte da memória humana portanto é a própria realidade total do ser como presente a si mesmo na eternidade (a memória divina) e as múltiplas formas de manifestação dessa presença nas participações que são as criaturas e os acontecimentos. Para que o coração possa estar aberto à presença do eterno no temporal e assim estar aberto à verdade é necessário que seja humilde, ou seja, que não esteja preso à falsos ídolos, aos símbolos corrompidos em seu coração por causa de um amor desordenado de si que cria falsas imagens de si e portanto de toda a realidade. O único meio para a humildade é a abertura do amor ao outro que conduz ao amor da verdade que se percebe a partir disto no outro e em si mesmo, mas, para que haja a abertura do amor é necessária a experiência da própria limitação de nossa atividade e muitas vezes isso só se torna possivel pela dolorosa experiência de pecar e padecer as consequências do pecado. A dor, se aceita na sua realidade, permite o nascimento do amor pela contemplação de Cristo crucificado, não mais como distante mas como alguém semelhante que se compadece de nós.
Outras experiências, as de compreensão das possibilidades, verossimilhanças e probabilidades se renovam plenamente apenas na medida em que são ancoradas na renovação da intuição da verdade, mas tem um interesse imenso o seu retorno consciente porque ele pode provocar ao despertar a inteligência atenta não a renovação da experiência da verdade mas sua própria novidade e tornar-se presente pela primeira vez. Neste sentido também o recurso de recordação coletiva através de textos, ritos e transmissões significativas pode permitir tanto a experiência dos análogos imaginativos das possibilidades, verossimilhanças, probabilidades quanto a novidade da experiência da verdade num indivíduo (renovando nele a experiência da verdade de outros indivíduos).
A verdade é sempre mistério e a mistagogia assim é o processo/movimento mediante o qual aquele que é iniciado na verdade recebe do alto a luz da verdade seja através da participação natural (a luz da inteligência criada) seja através da participação sobrenatural (a graça de uma iluminação interior). Neste processo os símbolos e imagens recolhidos pela recordação coletiva nos ritos (ritos que envolvem as artes do belo para criação e conservação dos símbolos: poesia, música, expressão corporal) junto com a ação do mistagogo orientando a meditação (a tradução simbólica para as vivências imaginativas daquele que é iniciado e a recordação como ruminação e mastigação para que da experiência simbólica possa surgir a intuição da verdade) servem de meio mistagógico.
O processo mistagógico portanto exige: 1- de um lado ou o surgimento/criação/descoberta de signos e símbolos adequados (obra que pode ser divina e/ou humana) ou a transmissão de signos e símbolos para a geração seguinte (a recordação coletiva, a memória de um povo) e 2- de outro lado exige um trabalho de educação e autoeducação da imaginação, da reminiscência e da atividade meditativa no coração por parte de cada novo iniciado.
O maior mistagogo e criador de símbolos é Deus através das suas obras tanto na criação da natureza quanto na permissão e orientação dos fatos históricos por meio de sua providência. Deus se recorda não como o homem mas criando fatos sempre novos a partir da eternidade sempre antiga e sempre nova, a partir do Logos/Verbo/Verdade que é a palavra interior divina e eterna sempre contemplada por Deus.
Na medida em que o homem participa da verdade pela intuição natural ou pela fé ele pode participar da recordação/contemplação divina da eternidade e assim dar sentido ao fluxo do tempo desde que recorde meditando no coração as obras de Deus. Essa recordação humana da verdade é o fundamento para a felicidade humana e para a direção consciente da própria vida no exercício da liberdade e por isso é que Santa Edith Stein pode falar do centro da alma como o centro da liberdade. O centro da alma na alma é o coração como memória espiritual e o centro autêntico do coração é a Verdade que em última instância se identifica com Deus.
Quando Deus se revela de modo explícito em seu Filho e institui a Igreja esta passa a ser como um coração pulsante meditativo que sempre renova a manifestação da verdade de modo divino e infalível nos seus ritos litúrgicos (e com certo grau de falibilidade nos ritos para-litúrgicos e de devoção privada) porém sempre com a participação humana e seu trabalho artístico.
O trabalho artístico humano pode atrapalhar o rito e seu desenvolvimento orgânico de modo acidental, o rito permanece infalível na sua essência mas pela deficiência tanto artística quanto receptiva e meditativa (por falta de bons mistagogos) a iniciação na verdade pode ser prejudicada neste e naquele indivíduo singular e nesta ou naquela comunidade específica.
A deficiência de tradição artística ou seja a inaptidão de renovar e ao mesmo tempo manter a coerência entre passado e presente tendo em vista o futuro causa a incomunicabilidade e portanto impede a iniciação a não ser que um mistagogo realmente milagroso humano ou divino (este é um dos sentidos da assistência infalível do Espírito Santo à Igreja) supra a deficiência de comunicação pela sua ação pedagógica que renova a compreensão dos símbolos e suscita o surgimento de artistas de fato inseridos na tradição que possam aproveitar os elementos deficientes numa nova forma que os supera e integra na recordação de símbolos perenes.
Só é possível, portanto, um desenvolvimento orgânico do rito, sua inculturação e renovação se há verdadeiros artistas na comunidade (principalmente poetas pela sua conexão com o texto sagrado das escrituras) e se há verdadeiros mistagogos e se ambos viverem de fato a partir do centro do coração e a partir da meditação contínua. Os grandes místicos da Igreja sempre são poetas e mistagogos em plenitude quando têm além do chamado místico o chamado de transmitir sua experiência aos outros e é apenas pela multiplicação de místicos e pela atuação destes nas reformas que é possível alterações benéficas nos ritos.
Ainda que nem todo ser humano deva ser artista ou mistagogo para a comunidade, entretanto cada um deve ser para si artista e mistagogo ao menos desenvolvendo a capacidade de processar suas próprias experiências na reminiscência e imaginação transformando-as em signos que possam ser mediadores no diálogo interior. Muitas vezes o recurso aos meios concretos externos, a exteriorização de sinais e símbolos é necessária mesmo que para si apenas, mas sempre é necessária ao menos no diálogo com um mistagogo que ajude no processo de acesso à verdade.
Essa exteriorização dos signos graças às variadas intensidades e durações do processo meditativo e graças às diversas vocações e habilidades se realiza através de diversos tipos de discurso: o falar simples, o poético, o literário, o filosófico, o filosófico-teológico, a pintura, a música, o artesanato, o trabalho manual que resulta em algum objeto, o trabalho realizado em outro ser humano de auxiliá-lo em sua formação através de um discurso ao mesmo tempo pedagógico e terapêutico (que pode ser realizado de muitas maneiras, todas as já citadas e outras). Os tipos vários de discurso não excluem uma mescla entre eles, e num discurso determinado você pode ter ao mesmo tempo por exemplo filosofia e poesia e teologia (exemplo deste caso: o hino adoro te devote).
Cada tipo de discurso está relacionado com um fazer específico, com uma arte específica que torna palpável em signos sensíveis (auditivos, táteis, visuais, olfativos - meio raro - ou todos juntos) as impressões e experiências. A arte enquanto arte não é conhecimento (este é a intuição da verdade) e não é enquanto arte agir ético (ação humana ordenada ao seu fim último pelo amor ao bem) mas um fazer que cria algo que antes não existia pela transformação daquilo que já existia. Arte pura não existe (ainda bem que não existe) e assim a arte está intimamente relacionada seja ao conhecimento da verdade como princípio e como fim seja ao agir ético e moral que busca o bem pelo amor.
A arte é meio fundamental que permeia o conhecimento e o agir moral permitindo a expressão da verdade e do bem em símbolos de modo que a transmissão da verdade e do bem possa acontecer. A ciência, a religião, a filosofia estão ancorados assim na arte, na poética como discurso mais fundamental sem o qual os outros não são possíveis e na medida em que há um discurso científico, um discurso filosófico, um discurso religioso há uma arte específica de criar cada um destes discursos porque arte é criação.
O conhecimento reflexivo só pode surgir do discurso interior e mesmo que esse discurso não se exteriorize para fora ele exige um exteriorizar "para dentro" no sentido em que exige a inteligência que contempla e recebe o discurso e aquela que o cria. Ambas estão ancoradas na presença de um transcendente inteligente que dialoga com o discurso interior e que inicia o processo pela apresentação da verdade num fato que é experimentado como real na sua transparência simbólica.
A reflexão meditativa parte da contemplação de um fato simbólico como real (ou, dito de outro modo, da contemplação de um fato real como simbólico) na experiência ao mesmo tempo sensível e espiritual de encontro com um ser, encontro com uma obra de arte humana ou divina e que se dá na manifestação da beleza. A reflexão que nasce da contemplação deve se dirigir à contemplação e existe como uma busca amorosa pela beleza que foi de algum modo contemplada mas causa um desejo de maior plenitude da contemplação.
A memória espiritual, o coração, é a alma contemplando num único ato que envolve o sensível e o espiritual ou a alma dirigindo uma busca pela melhor contemplação através de um trabalho com os símbolos que estão no intelecto possível, na reminiscência e na imaginação. Alma e coração, assim, no ato contemplativo, não se opõe ao corpo mas se considera como a totalidade vivente de um ser humano que em seu ato propriamente humano se abre à verdade que se manifesta participativamente num ser (graças à inteligibilidade da totalidade do ser que é em Deus inteligência e realidade). À medida que sucessivas contemplações renovam a experiência da verdade de diversos modos e à medida que o trabalho de retornar à contemplação mediante a meditação se torna mais perfeito, então aos poucos o ser humano pode viver num ato contemplativo mais e mais atual e permanente dirigindo todas as suas ações pela presença amorosa da eternidade e pela busca amorosa de um viver mais intensamente esta presença.
A falha no processo de meditação e reminiscência (processo que "digere" os símbolos para que tenham sentido e não se tornem "cascas vazias") e/ou de dirigir este processo ao seu fim contemplativo seja por causas orgânicas doentias, seja pelo excesso de impressões imaginativas (pode ter causa orgânica no temperamento ou ser fruto de maus hábitos ou de falta de exteriorização), seja pelo desvio da vontade, seja pela ação diabólica, seja pelos excessos do mundo, pode causar a loucura em suas formas de neurose e de psicose.
O temperamento melancólico por seu excesso de fantasia é propenso à loucura mas todos os temperamentos tem seus aspectos de tendência para doenças da alma.
A libertação dos excessos da imaginação pode ser feita por um trabalho de educação imaginativa e simbólica que leva o doente a um trabalho de arte, um trabalho de exteriorização dos muitos fantasmas interiores (no duplo sentido, tanto no sentido de assombração quanto no sentido de imagens que se acumulam na imaginação) em obras criativas seja na fala com um terapeuta, seja na produção de escritos, pinturas, artesanatos, etc. Essa exteriorização dos símbolos mesmo quando não perfazem uma obra acabada e propriamente artística servem para ancorar o trabalho de reminiscência e meditação aliviando a consciência dos excessos de impressões e permitindo um trabalho longo de integração da consciência na memória espiritual. Quando o trabalho de integração atinge uma consistência adequada é possível que esses fragmentos de atividade criativa resultem numa obra mais acabada e num trabalho benéfico tanto para o paciente quanto para a comunidade.
A exteriorização do símbolo que está dentro da alma cria pelo processo artístico um fato novo que participa do símbolo anteriormente não exteriorizado e participa do símbolo que antes originou o símbolo interior mas que ao se constituir já se torna outro símbolo diverso e que pode ser então contemplado na sua manifestação, ou seja, possibilita nova apreensão da verdade desde que haja no coração uma abertura e tensão para a totalidade do real e da verdade. Esta abertura só pode acontecer mediante um esforço da vontade em direção ao bem.
Na medida em que todo ser humano tem algo de loucura por causa do pecado original e de seus pecados pessoais e na medida em que o excesso da fantasia pode ser causado pela desintegração da consciência realizada pelo pecado, todo ser humano precisa de arteterapia como um meio de integração da consciência na memória através da mediação dos símbolos e isso de um modo duplo: pela catarse do fazer artístico que exterioriza os fantasmas interiores e pela catarse da experiência estética de recepção da obra de arte. A liturgia e os ritos humanos e divinos (incluindo aqui nos ritos divinos o acontecer do cosmos) são formas de arteterapia englobando múltiplos sentidos e múltiplas formas de arte e tem um papel importante para a cura das doenças da alma.
Para que haja entretanto uma autêntica terapia é preciso que se tenda para a arte verdadeira. Quando ao invés de uma real experiência simbólica e analógica temos a mera estetização e roupagem de ideologias, abstrações e conceitos (muitas vezes pressupostos e subconscientes), então temos uma arte doentia que não é terapêutica a não ser que a exteriorização permita uma conscientização dessas parcialidades conceituais e o enfrentamento delas visando uma busca sincera pela verdade no mistério.
A arte doentia acontece com a fragmentação da mente que partindo de partes da verdade separa estas partes do mistério total e associa estas partes a imagens fantasiosas. É uma racionalização doentia do símbolo e do mistério da verdade e do real que cai naquilo que Chesterton disse: "O louco não é um homem que perdeu a razão. É um homem que perdeu tudo exceto razão." Ou seja, louco é o que perde (temporariamente ou não) a capacidade intuitiva da inteligência de captar a verdade no fato presente prendendo-se naquilo que é meio e disposição para aprofundar essa intuição: a composição e divisão em raciocínios que partem dos símbolos, raciocínios que podem ser imaginativos e fantasiosos e até certo ponto automáticos/instintivos/passionais ou raciocínios abstratos sem conexão suficiente com suas bases imaginativas e de intuição da verdade.
A arte muitas vezes se torna doentia causando loucura pela busca estúpida de uma arte pura que não esteja relacionada intimamente com a busca do bem e da verdade pelo artista que a realiza. Ética, Estética e Sabedoria devem estar unidos na atividade artística como os transcendentais do ser (Bem, Beleza, Verdade) estão unidos na plenitude metafísica do real. Somente esta unidade graças ao trabalho de recordar no coração permite a plenitude da beleza, beleza que cura porque recompõe na unidade a Verdade e o Bem, o sensível e o espiritual, a forma e a matéria, o corpo e a alma, a diferença e a semelhança, realizando na analogia a plenitude do símbolo (símbolo, do grego sumbállō = colocar junto, comparar, corresponder, chegar à uma conclusão, e deste modo também o sinal que permite tudo isso).
A atividade doentia da razão dissociada da reminiscência e reflexão realmente consciente apresenta-se com uma excessiva atividade compositiva ou seja unificante (causando univocidade e mistura por semelhança nos símbolos, perda de clareza e contraste, ligações formais inconsistentes que confundem tudo sem que as diversas tensões e oposições complementares da realidade possam se manifestar à consciência) ou ao contrário por uma excessiva atividade divisiva (causando equivocidade e diferença extrema nos símbolos, dissociação e caos atomístico no qual as experiências não podem mais ser relacionadas e integrar-se na consciência como as coisas estão integradas na natureza). Estes opostos doentios muitas vezes se manifestam no corpo e na alma combatendo um ao outro numa tentativa de remediar um extremo pelo outro. O primeiro mais unificante está mais relacionado com o instinto de preservação e com uma busca de integração da natureza com a natureza, está relacionado mais com a fantasia e imaginação. O segundo mais divisivo está mais relacionado com o nosso tender para a morte e destruição e com uma racionalização abstrata que sem enxergar a eternidade aguça a percepção do mal como algo insuperável e as oposições complementares perdem seu sentido relacional e se isolam em contradições.
A oposição doentia só é possível porque existe uma oposição natural que vive em cada criatura: é ao mesmo tempo participante de Deus e criada a partir do nada; por isso todo símbolo criado é misto de trevas e luz, todo símbolo é ambíguo e pode ser lido univocamente, equivocamente ou analogicamente e quando o símbolo é criação humana consciente, subconsciente ou inconsciente maior é a possibilidade de ambiguidade e até de ação diabólica interferindo na compreensão. Somente é possível a plena visão analógica e compreensão do símbolo com a integração da consciência, com a integração entre sentidos, imaginação, cogitativa, reminiscência, razão, emoção, afeto, intelecto, na operação da inteligência que recordando vive presente a si mesma e presente à totalidade do real na memória espiritual.
É na memória espiritual, neste "lugar", o coração no sentido das escrituras - o centro da alma, que a Beleza atinge plena ressonância e espelhamento transfigurando a alma que de deformada e desfigurada se torna unificada pela luz que vem do alto, se torna unificada pela Verdade em seu mistério. Os símbolos precisam se integrar entre si para que se evite sua corrupção e destruição e isto só é possível pela ação do símbolo máximo que é Cristo Crucificado e Ressurrecto - ao mesmo tempo máximo simbolizado como Deus, ao mesmo tempo máximo símbolo como homem perfeito e Senhor da criação.
Em Deus mesmo Cristo como Logos e Palavra é símbolo perfeito do Pai não analogicamente (caso das criaturas como símbolos) mas idênticamente: ele é o próprio e único Deus assim como o Pai na unidade do Espírito Santo que é amor unificando o Pai e o Filho. O Espírito Santo é no amor o elo unificante de todo o universo, e por isso o afeto é de fundamental importância para que na memória os símbolos se unifiquem num conjunto harmonioso e não basta o afeto espiritual, também as emoções e os movimentos corporais do coração de carne devem entrar em sintonia com o espírito. A ação do Espírito Santo é justamente mediante seus dons a ação de um mistagogo supremo que pelo amor unifica cada vez mais a alma e a transforma para que participe da Luz de Cristo e assim a imagem e semelhança sejam restauradas na pessoa humana pela integração completa de sua vida na tensão para a eternidade: a "intentio cordis" da regra de São Bento.
O segundo tipo de raciocínio doentio (abstrato e sem conexão com as bases de imaginação e intuição da verdade) com frequência caracteriza aquele ser humano que as escrituras e a tradição filosófica ocidental pagã e cristã chamam de insensato (sem senso, sem sentido, sem imaginação ordenada à verdade), néscio (aquele que não tem ciência, que não une dialeticamente, dialogicamente impressões e raciocínios buscando a verdade), idiota (de "idios"= o mesmo, idiota é aquele que fica na mesmice de si sem transcender-se saindo de si para os lados - convívio com o próximo, ou para cima - relação com a verdade que é Deus em última instância, ou para baixo - percebendo a verdade nas criaturas), imbecil (do latim= sem suporte, fraco).
Com frequência o raciocínio imbecil é resultado do orgulho e excessivo amor de si mesmo e se manifesta mais na neurose que é um fingimento racionalizado e ao mesmo tempo irracional (por não estar vinculado à verdade), uma tensão contínua de aparentar aquilo que não se é. Este orgulho neurótico nasce e se alimenta com o remorso e a frustração (duas armas do diabo para nos acusar e nos levar à autodestruição) e tem relação tanto com nosso desejo de sermos amados (que pode pelo pecado ser excessivo) quanto com a frustração desse desejo provocada pela perversidade do mundo que não oferece e não pode oferecer amor. Em cada um vive a carne (desejo desmedido de ser amado), o mundo (perversidade propagada na vida social superficial) e uma inclinação que nos leva a assemelharmo-nos ao demônio (sempre acusador de si, de Deus, de tudo, com ódio e remorso contínuo apoiado na mentira). Por causa do pecado é impossível não padecermos com algum grau de neurose, somente a graça pode devolver a integridade para a alma mediante a arte divina dos símbolos, entre eles os mais elevados são os sacramentos que realizam aquilo que significam nos ritos litúrgicos.
Como a neurose é uma doença nos pensamentos a cura só é possível pelo esforço da vontade auxiliada pela graça (ou de um outro ponto de vista mais elevado só é possível pela graça que seduz e pede colaboração da vontade). A corrupção dos signos causada por sua materialidade
e pelo mal moral exige que cada um seja obediente a uma influência externa confiável e benéfica através do amor e da vontade para que haja uma saída do labirinto dos maus pensamentos (a cura não pode ser só pelo conhecimento racional - ou muito menos irracional - através dos pensamentos de cada um e este é o erro das propostas gnósticas de salvação). Esta ação da vontade sobre a inteligência é a fé que confia numa autoridade externa e na verdade que essa autoridade porta mas que pode ser conscientizada mais e mais de modo que fé e razão se unem trabalhando para o mesmo objetivo. Isso vale tanto para a fé divina (a autoridade é portadora de uma verdade que transcende os limites da razão) quanto para a fé humana na sua realidade específica (a autoridade é portadora de verdades acessíveis à razão). A confiança plena na autoridade externa só pode acontecer se esta autoridade se revela pela sua beleza que pressiona a inteligência com o bem e a verdade no peso da glória, uma alegria expansiva do ser que cura com sua manifestação.
A exteriorização arteterapêutica de pensamentos e impressões e sua ruminação e processamento feita pelo indivíduo deve ser mediada pela autoridade do mistagogo, do terapeuta como especialista a partir do conhecimento natural desenvolvido e/ou num plano sobrenatural a autoridade do diretor espiritual. Deve ser conduzida com a luz do Amor Divino como guia e com o apoio de uma comunidade que se ama e ama o Amor Divino e sua luz. Somente pela busca voluntária do bem é possível remediar a precariedade da inteligência (desfigurada pelo pecado) de alcançar a verdade. A beleza tem papel fundamental neste processo na medida em que une a alma ao bem da verdade e à verdade do bem: a autêntica beleza é verdade como bem, é manifestação benéfica da verdade e por isso a graça está intimamente relacionada seja ao bem seja à verdade como uma efusão da beleza. E é neste sentido que o núcleo fundamental do evangelho pode ser dito (como fez o papa Francisco na Evangelii Gaudium) como a beleza do amor salvífico manifesta em Cristo morto e ressuscitado.
Toda beleza é curativa por tornar presente a realidade da verdade e do bem numa manifestação do ser ao ser mas a beleza mais curativa e salvífica só pode ser a beleza do próprio Deus desde que se torne acessível ao ser limitado do homem no mistério da encarnação. Este mistério se realiza em tudo que há, tudo que houve e haverá, todo ser que não é Deus plenamente é Deus participado, encarnado em algum grau num símbolo que remete analogicamente a Deus (mesmo os anjos possuem algo de carne na medida em que tem algo de potência e na medida em que atuam na matéria); a plenitude porém da encarnação é a união plena entre Deus e criatura na pessoa de Cristo que assume em si todas as coisas. O mistério de sua vida temporal e de sua absorção plena na eternidade pela encarnação, morte, ressurreição e ascensão é a manifestação plena da eternidade (a maior manifestação possível), é a fonte de todas as outras manifestações, a maravilha das maravilhas que deve ser recordada (no amplo sentido de renovada, atualizada, tornada presente e participada) no coração. Esta maravilha das maravilhas se mostra como Amor e como Luz, duas palavras que exprimem o máximo que podemos expressar sobre o ser e sobre o ser em si que é Deus: "Deus é " "Deus é Luz" "Deus é amor", Unidade na Trindade, beleza que para si é bela e que se sabe bela saboreando em si esta beleza.
A atitude fundamental do coração na contemplação amorosa da beleza se expressa de modo fundamental na oração de bênção que é um meio para evitar o esquecimento da verdade. (Aqui relembrei a meditação que fiz sobre o salmo 102)
-------------------------------------------------------
Salmo - Sl 102, 1-2. 3-4. 9-10. 11-12 (R. 8a)
R. O Senhor é indulgente e favorável.
Salmo - Sl 102, 1-2. 3-4. 9-10. 11-12 (R. 8a)
R. O Senhor é indulgente e favorável.
1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
e todo o meu ser, seu santo nome!
2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
não te esqueças de nenhum de seus favores! R.
e todo o meu ser, seu santo nome!
2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
não te esqueças de nenhum de seus favores! R.
3 Pois ele te perdoa toda culpa, *
e cura toda a tua enfermidade;
4 da sepultura ele salva a tua vida *
e te cerca de carinho e compaixão; R.
9 Não fica sempre repetindo as suas queixas, *
nem guarda eternamente o seu rancor.
10 Não nos trata como exigem nossas faltas, *
nem nos pune em proporção às nossas culpas. R.
11 Quanto os céus por sobre a terra se elevam, *
tanto é grande o seu amor aos que o temem;
12 quanto dista o nascente do poente, *
tanto afasta para longe nossos crimes. R.
1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
e todo o meu ser, seu santo nome!
2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
não te esqueças de nenhum de seus favores!
Bendizer= bem dizer, bênção =bem-dicção= boa palavra. Berakah no original em hebraico = prostrar-se de joelhos em adoração e ao mesmo tempo vida em plenitude. Tradução do hebraico ao grego: eulogia = boa palavra, mas também eucaristia = boa graça = ação de graças que vem de kharis= beleza formosura, elegância, charme, disposição favorável em relação a alguém, ato voluntário de boa vontade, gratidão, gratificação, deleite (alegria) e por sua vez kharis vem do Verbo khairo: estar calmamente feliz.
Berakah no latim é traduzida por benedictio=bênção, bendizer e por gratiarum actio= ação de graças. Graça por sua vez do latim significa dom, favor ou retribuição, gratidão pelo favor recebido ou louvor e até certo ponto ao menos no português também charme e beleza como no grego; o radical indo-europeu que origina a palavra significa aprovação: louvor que reconhece, que quer e deseja que exista aquilo que é amado.
Todas essas nuances de significado estão presentes quando falamos "bendize ó minha alma ao Senhor" e "não te esqueças de nenhum de seus favores." Deus nos ama concedendo sua bênção, seu, dom, seu favor, sua graça, sua Palavra criadora através das palavras que são as criaturas e os fatos da nossa e vida e de nossa história (palavras que são sinais, símbolos que em última instância conduzem à Palavra eterna que é Cristo). Nós, se queremos de fato viver plenamente e receber em plenitude a bênção, devemos recordar no coração, meditar e reconhecer a bênção divina e retribuir o dom divino expressando em palavras e ações a gratidão: o louvor pelo amor do Amado que é o maior dos dons (todos os outros são sinais e símbolos que conduzem ao próprio Deus Amado e Amor).
A bênção é segundo o catecismo a estrutura fundamental de toda e qualquer oração, só podemos rezar porque recebemos a bênção divina e porque devemos retribuir essa bênção, a súplica e pedido dependem da benção e a ela conduzem já que em última instância só podemos pedir a bênção divina outra coisa Deus não nos dá. A noção plena do que seja a bênção, a ação de graças, o louvor é portanto chave de leitura indispensável para compreender todos os salmos e até todas as orações possíveis e imagináveis, na noção de benção está o movimento fundamental da alma de receber e retribuir o dom.
Um único ponto a mais sobre a bênção e a ação de graças: como o favor divino embeleza e traz formosura (como está explícito na palavra kháris grega) e por outro lado é dependente da própria Beleza divina, a noção de bênção está também intimamente relacionada à alegria e à Glória da Beleza:
Glória é honra da beleza que alegra na visão, o Esplendor da Verdade em alegre efusão. Glória é benção e testemunho, da Grandeza, revelação. Glória é honra unida à alegria, é expansão máxima do dom do Amor e do brilho da Beleza, é louvor e bênção na máxima expressão e em hebraico é shekinah: peso = Deus pressionando e fazendo tremer o universo com poder e majestade ao revelar-se na sua Beleza.
Beleza que pede amor, amor que é reconhecimento e aprovação, louvor e bênção que recorda no coração o dom da beleza e exprime em sinais e palavras orantes a grandeza do dom. O coração é a inteligência enquanto memória espiritual e presença de si mesmo a si mesmo e que (absorvendo em si a reminiscência da experiência sensível e mediante os signos trabalhados por esta) faz com o intelecto agente seu trabalho de analogia que conduz do sensível ao espiritual, ao mesmo tempo inteligência movida pelo amor ao bem da verdade, da beleza que se manifesta nas coisas e acontecimentos. O coração é a inteligência como centro íntimo da alma ou seja a inteligência quando recolhe em si o homem por inteiro incluindo a sensibilidade e a imaginação, a emoção e o afeto no ato de estar presente plenamente a si mesmo na reflexão, no recordar para viver na verdade e no amor. O coração é segundo toda a tradição mística desde a Bíblia até os últimos santos e o novo catecismo o "lugar" da oração verdadeira, o "lugar" da benção e por isso o salmo diz "não te esqueças". Esquecer é deixar o coração à deriva, é viver de exterioridades sem perceber e reconhecer o Amor e a Bênção Divina.
O salmo prossegue em elogio da ternura divina que perdoa, que vendo o estrago que fizemos com seu dom deformando-o e deformando-nos, ao invés de nos abandonar renova o seu dom e nos torna belos novamente e participantes de sua beleza na alegria da bênção e do louvor.
No final o salmo lembra que o amor de Deus é grande para os que o temem. Isso quer dizer que os que o temem são os que acolhem o dom do perdão amoroso e por causa desse dom podem acolhê-lo e recebê-lo no temor. O temor é o tremor e o imenso respeito diante da glória da Beleza que se manifesta com poder, é a atitude fundamental do coração que pela admiração conduz à poesia da benção.
quanto dista o nascente do poente, *
tanto afasta para longe nossos crimes.
tanto afasta para longe nossos crimes.
O nascente é símbolo da vida em plenitude, símbolo de Cristo na ressurreição; o poente é símbolo da morte, de Cristo que padece e morre por amor doando-se na Cruz. A distância entre o nascente e o poente é a distância entre a morte e a vida: Cristo afasta para longe nossos crimes retirando-nos do abismo da morte e conduzindo-nos para a vida em plenitude. A morte se fosse absoluta (é impossível que seja) seria o nada absoluto, o contrário do ser absoluto e vida absoluta que é Deus, não há distância mais extrema que essa, e é nesta distância que Deus afasta de nós nossos pecados: os pecados se tornam nada comparados com a vida abundante do dom, da bênção, da graça. Mas para isso é preciso que o dom seja acolhido com temor no coração e na atitude de bendizer. O sacrifício de Cristo que sintetiza em si sua morte e ressurreição é a ação de graças, a bênção suprema, a oração perfeita humana e divina que numa única pessoa, no coração eucarístico manso e humilde de Cristo, une o dom divino com o dom humano na manifestação da glória. Somos chamados a participar dessa eucaristia suprema e cada oração bem feita que fizermos (fundamentada na bênção e realizada no coração, com "intentio cordis": in-tensão cognitiva e afetiva, atenção pura na pureza do temor, como diz São Bento na sua regra) é sempre intimamente relacionada com a Eucaristia suprema: a divina liturgia, o divino serviço, a obra divina, o opus dei.
Em última instância somente o canto que une corpo e alma pode expressar a bênção plenamente porque só o canto pode mobilizar plenamente todo o ser humano na atividade centrante do coração.
-----------------------------------------------
A partir da idéia de consciência (não no sentido moral) como saber de si mesmo no ato em que se sabe algo podemos aos poucos compreender a memória. Para Santo Agostinho e São Tomás o nome dessa consciência que não é a consciência moral é memoria sui. Lembrança de si mesmo. A memória espiritual em Santo Agostinho e São Tomás tem essa característica de ser percepção de si no presente como um eu que continua do passado e tende para o futuro. E a partir dessa percepção de si há a percepção da própria limitação e do fato de que não somos nosso próprio fundamento. Assim a memoria sui "memória de si " a "consciência " só é plena quando alcança a memoria dei "memória de Deus" "lembrança de Deus". E ambas memória de si e memória de Deus são para Agostinho o fundamento tanto dos atos da razão quanto dos afetos da vontade. Para Agostinho a memória é na alma um análogo do Pai na Trindade. A fonte e origem da vida psíquica.
Consciência "Cum scientia" "com ciência" "saber com". Os medievais e os documentos da Igreja e dos Santos geralmente usam esse termo para o "saber com" que acontece junto às tomadas de decisão, todo ato moral exige uma consciência, ou seja um saber que a"com"panha o ato moral pela indicação do bem. Não é desta consciência que estou falando mas de uma consciência que serve de fundamento à consciência moral. "Com ciência " de saber que sabe. De saber ao mesmo tempo de si enquanto se age psiquicamente num sentimento, afeto ou ato de conhecer. O homem tem a capacidade de saber que sabe que sabe. A capacidade de perceber-se a si mesmo nos seus atos psicológicos. Esta capacidade é comprometida e perdida em algum grau nas duas formas de loucura, a neurose e a psicose. É uma perda que todos temos em algum grau por conta do pecado original. Santo Agostinho e os místicos cistercienses falam da imagem desfigurada por causa da perda da semelhança.
A alma tem em si um espelho interior que reflete a luz divina e assim consegue também se refletir a si mesma e compreender-se. Esse espelho é a consciência, a memoria sui "lembrança de si" unida à memoria dei "lembrança de Deus" . Mas este espelho é desfigurado pelo
pecado. Manchado e sujo pela perda da semelhança. Nas escrituras o termo para o centro profundo da alma onde nascem as escolhas e onde se originam os pensamentos e afetos é "coração". Esse coração é a consciência, é a memória espiritual. Saber "de cor ", saber de memória, é saber de coração, decorar - "Cor" vem de cordis, coração em latim. O coração ou memória espiritual antes de guardar qualquer coisa, qualquer lembrança, é capacidade. É um abismo no homem que pode receber a participação da vida divina e que foi criado para isso. Por isso a suma da perfeição do São João da Cruz: "olvido (esquecimento) do criado, memória do criador, atenção ao interior e estar amando o amado."
Esse centro da alma que é o coração e a memória se realiza em ato e plenamente no momento em que de fato o homem está consciente ou seja atento. Mas a capacidade do homem para se conhecer e conhecer a Deus, para amar-se e amar a Deus não se dá na memória espiritual sem que ela como núcleo envolva todas as capacidades humanas, desde as mais sensitivas como a imaginação até o intelecto, o raciocínio, as emoções e os desejos da vontade. E o homem só pode fazer esse itinerário de lembrar-se de si e de Deus, esse itinerário de tomar posse de si (e de sua liberdade ) e de tomar posse da participação na vida divina através da mediação de símbolos.
Ao homem é natural conhecer-se a si e a Deus no ato de conhecer as coisas sensíveis e materiais, as obras da criação. Por isso o versículo do salmo que inicia minha meditação "lembrai sempre as maravilhas do Senhor": As maravilhas do Senhor são os sinais de Deus na nossa vida, na criação, na história, na obra da redenção. São sinais que se manifestam de algum modo aos sentidos. O modo como o homem digere esses sinais e recorda é através da arte. A arteterapia é assim fundamental a qualquer ser humano e toda arte verdadeira é terapêutica porque leva o homem a recordar a eternidade através da experiência da beleza. Há lendas mitológicas que contam como Zeus presenteou a humanidade com as musas ( a palavra música vem daí ) para que inspirassem a arte e assim o homem lembrasse daquilo que é essencial e que ele tende a esquecer. As musas na mitologia são filhas de Mnémosine - a deusa memória. Esses temas são recorrentes em diversas culturas.
Os tempos da memória
A memória no homem não é apenas um voltar-se ao passado, ao contrário, já na memória sensível é uma potência que guarda as espécies intencionais ou seja, as razões de bem como finalidade e, portanto, as expectativas do futuro. Esta característica de estar voltada também para o futuro é ainda mais presente na memória espiritual.
A memória do homem é que permite a percepção do tempo e sem a memória há apenas mudança mas não tempo propriamente. A memória se constitui assim em relação aos tempos, em relação ao passado, ao presente e ao futuro. Em alguns idiomas se percebe que o homem na sua relação com os três tempos alcança a percepção ao menos obscura da eternidade e assim a memória tem seu fundamento último no "tempo" divino que não pode ser chamado
propriamente de "tempo" mas que tem em alguns idiomas um "tempo" verbal próprio; no idioma grego, por exemplo, temos o aspecto temporal aoristo que indica uma indeterminabilidade temporal que aponta para a ação da eternidade - esse aspecto verbal, o aoristo, aparece em geral apenas nos textos filosóficos que tratam do princípio primeiro e também nas sagradas escrituras no novo testamento e na tradução do antigo feita pelos setenta.
Esses aspectos do tempo em relação à memória podem ser compreendidos analogicamente como símbolos da vida da Trindade e assim o tempo passado remete à fonte, ao Pai de quem tudo procede, o tempo futuro remete ao Espírito Santo que na Trindade termina as processões intratrinitárias e que é simbolizado pelo bem como causa final e transcendental do ser, o Verbo é simbolizado pelo tempo presente graças à simultaneidade atemporal da verdade.
Também podemos compreender os três tempos como símbolos das virtudes teologais sendo: a esperança nas promessas ancorada nas maravilhas realizadas por Deus no passado, a caridade desejosa da plena união futura e a fé o guia que ilumina o presente do homo viator, o presente do homem peregrino neste mundo.
Os três tempos podem ser relacionados com o peso, número e medida com os quais Deus criou todas as coisas (como se lê no livro da Sabedoria), o peso é a inclinação para o futuro, para o fim, o número é a estrutura que define a essência de cada coisa em todos os seus momentos e possibilidades e a medida é o ser dado à criatura segundo uma participação no ser eterno e assim uma delimitação que vem do primeiro instante no passado de cada criatura e fundamenta suas transformações.
Os três tempos da memória também são símbolo dos três dons afetivos do Espírito Santo: temor, piedade e fortaleza; temor reverencial diante das maravilhas que sabemos que Deus realizou, fortaleza para enfrentar as dificuldades presentes e piedade filial que nos impulsiona para o fim da plena união com Deus nosso Pai.
São símbolo também dos três dons intelectuais do Espírito Santo: conselho, ciência, entendimento; ciência que nos mostra a relação de todas as obras divinas realizadas com sua fonte na Trindade, entendimento que nos ensina sobre os mistérios e sobre a vida futura bem-aventurada e conselho que nos ajuda a tomar a decisão adequada ao momento presente tendo em vista nosso fim último. O dom de Sabedoria ao mesmo tempo afetivo e intelectual transcende o tempo e nos coloca no centro do mistério unindo todos os tempos pelo julgamento feito à luz mais elevada.
Como o homem é assim constituído em seu núcleo pela temporalidade e pela relação com os tempos, assim há também no homem tensões existenciais relacionadas com cada um dos três tempos.
Há em cada homem um certo grau de transtorno bipolar que oscila entre temor/tristeza e esperança/alegria relacionado com o passado e com as experiências que ele recolhe em si do passado; como todas as criaturas e todas as experiências humanas são participantes seja da eternidade seja da limitação (ainda mais após o pecado original que acrescenta à limitação da criação uma limitação má causada pela desordem) assim cada instante vivido mostra algo da cruz e algo da ressurreição, ou mais um do que outro. Dependendo das experiências acumuladas de cada um e de fatores biológicos essa natural oscilação pode (num grau aceitável ou doentio) se fixar mais ou num pólo depressivo e triste ou num pólo mais eufórico e alegre ou então ficar numa oscilação de emoções que pode ser doentia e extremada ou não.
Em relação ao presente há para todos os homens a necessidade de enfrentar as situações cotidianas e estas causam stress e fadiga, outra condição existencial que pelo pecado entrou no mundo e que pode se tornar doentia.
Em relação ao futuro existe a condição existencial da ansiedade, há uma ansiedade constitutiva do coração que só pode repousar plenamente em Deus na eternidade mas nesta vida as consequências das misérias humanas podem causar (além desta ansiedade que encontra seu alívio na esperança e na caridade) uma ansiedade doentia que se angustia preocupando-se demasiadamente com as coisas passageiras numa busca de amor próprio desordenado.
Cada um dos três tempos pode se relacionar mais também com uma maior fixação dos pensamentos em um dos três e assim podemos pensar que há temperamentos mais melancólicos que com frequência pensam sobre o passado remoendo dentro de si, temperamentos mais coléricos que tem maior propensão a pensar no futuro, nas ações que querem implementar, e temperamentos que preferem pensar mais na situação presente: seja com tranquilidade a partir de uma estabilidade que raciocina com mais lucidez como nos fleumáticos (um temperamento que simboliza a paz viva da eternidade mas também a falsa paz da morte e da falta de iniciativa e em certo sentido simboliza mais a totalidade dos três tempos como um presente que dura do que o presente como um instante passageiro), seja com uma agitação que a cada instante muda de foco dependendo dos estímulos exteriores como nos sanguíneos (que oscilam bastante de humor variando como o vento, dependendo das circunstâncias e do momento passageiro).
Os defeitos relacionados com cada temperamento e com as condições existenciais, associados com suas disposições para pensamentos focados num ou noutro tempo podem ser corrigidos pela graça e pelos dons do Espírito de um modo que mais e mais a alma pode se tornar pacífica por uma integração da memória e do coração que contempla ao mesmo tempo passado, presente e futuro no ato de recordar-se de seu fundamento último.
Por sua especial ligação com o tempo e com a memória e por sua especial relação com o movimento, a arte musical tem efeitos profundos sobre o coração humano. A arte musical é feita de interações entre tensões e distensões que se organizam temporalmente graças ao pólo unificador que é o acento, símbolo do tempo presente que unifica passado e futuro na atenção. O excesso de tensão na música pode causar ansiedade, o excesso de distensão pode causar apatia ou tristeza, o excesso de ênfase no acento pode, se alternado numa repetição cíclica e dançante, causar alegria ou euforia. Há vários tipos de acento e de tensão e distensão na música, acento melódico (analogicamente mais ligado à cor, ao temperamento sanguíneo), acento de duração (mais ligado analogicamente ao temperamento melancólico e ao fleumático, mais ligado à forma), acento de intensidade (mais ligado ao temperamento colérico e ao equilíbrio tensional que aparece numa obra pictórica) e todos colaboram para a organização rítmica.
No campo melódico os medievais percebiam em cada modo gregoriano a predominância de um affectus, de uma direção de movimento da alma mas num sentido orante, operado ao mesmo tempo pela alma e pelo Espírito Santo inspirando. Se na arte pagã os pagãos falavam da inspiração das musas, na arte cristã autêntica podemos falar da inspiração daquele Espírito criador que move todas as coisas ao seu fim. É possível pensar de várias maneiras relações entre os modos gregorianos e os dons do Espírito Santo. Podemos pensar que na Igreja a arte musical presta um culto especial ao Espírito Santo, a arte visual iconográfica um culto especial ao Verbo e a arte arquitetônica um culto especial ao Pai. É possível pensar também em modos de relação entre os tempos da memória, os temperamentos, os dons do Espírito Santo, as virtudes cardeais e teologais de um modo a exercer pelo canto gregoriano uma ação terapêutica que ajude uma pessoa a atingir sua plenitude.
* * *
Nota [esboço para a fundamentação teórica]:
Arte, arteterapia, analogia, imaginação, psicologia, potências da alma
Faculdades que unem sensível e inteligível: reminiscência, cogitativa e imaginação (São Tomás), affectio imaginaria (Hugo de São Vitor), imaginatio mediatrix (Ricardo de São Vitor). São elas que possibilitam a expressão artística que exige uma "reflexão" um retorno consciente à experiência sensível (reminiscência). E só a partir delas é que o raciocínio conceitual pode surgir. Elas que permitem a analogia e compreensão do símbolo e seu simbolizado. É a partir delas que podem surgir os affectus da alma no sentido de São Bernardo como uma espécie de sacramental que conduz ao máximo simbolizado que é Deus numa impressão que ao mesmo tempo atinge a sensibilidade e o espírito.
Em Santo Agostinho (segundo pude perceber, e se compreendi adequadamente) estas faculdades todas (imaginação, cogitativa e reminiscência) são assumidas (no sentido de absorvidas num plano mais elevado) pela memória espiritual, a consciência de si e de Deus (memoria sui e memoria dei), que, no momento da reflexão consciente, une a experiência acumulada das coisas perceptíveis na fantasia e reminiscência ao conhecimento abstrato acumulado em conceitos no intelecto possível. Isto graças à uma iluminação do intelecto agente que é percebida por Santo Agostinho como uma iluminação divina: neste ato consciente de si, de Deus, das coisas, se estabelece a intuição da verdade, a união entre o que se percebe e compreende das coisas e de si com os primeiros princípios evidentes.
Segundo São Tomás: 1- Da experiência sensível nos cinco sentidos recebemos no sentido comum uma impressão do particular aqui e agora (sempre total do "objeto" numa unidade com todos os aspectos comuns, peso, dimensões, medidas e proporções intrínsecas integrados com todos os aspectos próprios, as cores, sons, cheiros, etc.: aqui Gestalt e Tomás se encontram afirmando o mesmo).
2- As impressões são conservadas na fantasia (tesouro das formas sensíveis como semelhanças do "objeto real") que no homem pode compor e dividir já participando da virtude da inteligência e segundo Avicena ser assim chamada imaginação (Avicena distingue duas faculdades fantasia e imaginação, Tomás as unifica chamando indiferentemente fantasia ou imaginação mas com a ressalva de que só no homem compõe e divide); a imaginação ao compor e dividir já participa de uma influência da inteligência fazendo o homem perceber também certas possibilidades não atualizadas no real.
3- A estimativa é que contempla nessas impressões (guardadas ou presentes ou transformadas pela composição e divisão na imaginação) as "espécies intencionais" ou seja a nocividade ou bondade de determinado "objeto" por certo instinto natural de preservação e finalidade (causa
final, bem), o correlato no desejo sensível é o amor sensível ao bem sensível percebido pela estimativa e também todas as outras emoções em conexão direta com o amor. No homem esta estimativa opera tanto por instinto de preservação como por comparações (baseadas nas composições e divisões da imaginação), sendo quando assim opera por comparações chamada de cogitativa ou razão particular (assim como a imaginação, a cogitativa participa de um refluxo da inteligência espiritual que a dirige já numa direção mais universal).
4- a memória por fim diferentemente da fantasia guarda não as impressões sensíveis ou formas imaginadas mas as "espécies intencionais" e no homem tem o poder chamado reminiscência, ou seja a capacidade (decorrente novamente do influxo da inteligência) de compor e dividir como a imaginação em raciocínios que estabelecem ligações entre as "espécies intencionais".
5- é a partir deste trabalho já realizado pela reminiscência (de estabelecer raciocínios particulares de ligação e separação entre os particulares apreendidos como possíveis e como possíveis bens ou possíveis males) que a inteligência pode então usar seu poder de abstrair o conceito universal através do intelecto agente e receber os conceitos e guardá-los no intelecto possível. A inteligência apreende o universal também como bem e assim dirige a vontade à uma escolha livre que nos seus desejos (que dirigem as ações e comportamentos) parte de uma compreensão do bem desde o bem do prazer imediato da apreensão sensível no sentido comum até o bem máximo e universal fonte de todos os bens, passando pelo bem imaginário possível e pelo bem concretamente benéfico ao ser vivente segundo a experiência acumulada mostrada na reminiscência.
Em Hugo de São Vítor esses degraus aparecem do seguinte modo: 1- Sensus, (sentidos próprios - visão, audição, paladar, tato, olfato - e sentido comum) 2- imaginatio, (fantasia, imaginação enquanto retenção das formas sensíveis) 3- affectio imaginaria, (imaginação criadora, criativa que participa da inteligência e compõe e divide) 4- ratio in imaginationem agens, (cogitativa e reminiscência: razão agindo na e pela imaginação) 5- ratio pura supra imaginationem. (Razão pura que opera compondo e dividindo os conceitos universais em proposições e juízos, operação do intelecto a partir do intelecto possível enquanto memória espiritual). Preciso verificar ratio em São Tomás e operações do intelecto e a partir disso tecer considerações sobre ratio e proporções /analogias para estabelecer o que é arte e sua relação com os tipos de discurso.
"É conatural ao homem atingir o conhecimento do inteligível pelo sensível. E é pelo signo que se atinge o conhecimento de alguma outra coisa."
"Est autem homini connaturale ut per sensibilia perveniat in cognitionem intelligibilium. Signum autem est per quod aliquis devenit in cognitionem alterius"(III,60,4). São Tomás.
Hipótese minha (baseada nas teorias escolásticas sobre as faculdades da alma e na experiência): nos estados psicóticos há uma deficiência da reminiscência (e até certo ponto também da cogitativa) que em diversos graus vê-se impossibilitada de operar; é a reminiscência que permite o reconhecimento de si próprio e das coisas no fluir do tempo, é ela que permite a percepção de um "eu" real e existente que vive diversas transformações e que permite que a inteligência possa reconhecer na experiência concreta a sua própria operação racional e inteligível. Também é ela que permite a separação entre o que é possibilidade imaginária e o que é realidade e a percepção portanto das coisas exteriores e das fantasias como distintas do sujeito.
Seria preciso averiguar até que ponto as emoções da sensibilidade e afetos da vontade e até que ponto a fantasia sem freios podem através de hábitos (no sentido escolástico de disposição arraigada pela repetição dos atos) predispor para os estados psicóticos por um influxo negativo na operação da cogitativa e da reminiscência. E, por outro lado, seria preciso ver até que ponto alterações corporais de base conhecida ou desconhecida afetam a reminiscência e a cogitativa (na epilepsia por exemplo tem-se comprovadamente alterações no padrão dos impulsos nervosos que são mediados pelos neurotransmissores, em alguns tipos há para essa alteração comprovadamente uma causa externa de alteração estrutural anatômica por doença ou acidente, em outros tipos cogita-se uma causa genética mas não se exclui que em interação com a genética maus hábitos possam ter influência). Os antigos consideravam os temperamentos melancólico e colérico (de base genética) especialmente propensos às doenças da alma e isso em virtude possivelmente de que se caracterizam pela marcação profunda na fantasia dos estímulos recebidos no sentido comum e assim também por paixões profundas delas decorrentes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário