Wednesday, September 13, 2017

Dietrich von Hildebrand sobre a bondade

Capítulo “Bondade” de: Dietrich von Hildebrand, Atitudes éticas fundamentais. 2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1995, pp. 42-50 (Temas cristãos):

“A bondade é como que o coração de todo o reino dos valores morais. Não é por acaso que a própria palavra ‘bom’, que sob o aspecto ético significa sem mais plenitude de valor, está aparentada com essa especial qualidade ética que denominamos bondade.

A bondade é, entre todos os valores morais, o mais característico; é nela que o caráter geral do ético atinge a sua expressão mais pura e mais típica. É o âmago de toda a moralidade e ao mesmo tempo a sua própria florescência. [...] A bondade [...] não é pressuposto, é fruto da vida moral. Não um fruto entre outros, como a afabilidade, a paciência, a generosidade, mas o fruto dos frutos, aquele em que toda a moralidade de certo modo ‘culmina’, a rainha das virtudes.

O que é bondade? Quando é que dizemos de um homem que ele irradia bondade? Dizemo-lo se é solícito, todo atencioso, justo; se está pronto a sacrificar-se pelos outros; se perdoa os agravos sofridos, se é generoso, compassivo. Mas todas estas propriedades não são senão formas e expansões especiais do amor.

Isto aponta-nos para a estreita conexão que há entre bondade e amor. O amor é como que bondade fluente, e a bondade é o hálito e a respiração do amor. Vimos no começo que toda a vida moral se baseia em respostas a valores, respostas plenas de sentido como o entusiasmo, a veneração, a alegria, a obediência. Ora, o amor é, entre todas as respostas, a mais completa e mais profunda.

Antes de mais, cumpre evidenciar que o amor é sempre uma manifesta resposta a um valor. Quando amamos alguém, quer se trate de amizade, amor paterno ou amor filial, quer de amor de noivos ou amor ao próximo, sempre temos de chegar a reconhecer no outro uma figura preciosa. Enquanto o encararmos apenas como agradável, útil, como proveitoso para os nossos interesses, não o poderemos amar.

Isto não significa que o amado não possa ter defeitos evidentes. Só que temos de ver a sua pessoa como um todo, cheia de valores, cheia de íntima preciosidade; mal a peculiar individualidade, o pensamento único de Deus que cada homem representa, se nos revela no seu encanto e na sua beleza, devemos poder amá-lo.

Sim, o amor é sempre resposta a valores. Não, porém, uma resposta qualquer, mas aquela que leva à entrega do coração, de si mesmo. No amor, o homem abre-se cada vez mais e mais profundamente aos valores – como em qualquer outra resposta, por exemplo na veneração ou na obediência –; mas é com o amor que ele mais se demora na plenitude de valores.

No seu mais próprio e pleno sentido, o amor vale sempre para pessoas. Há respostas que tanto se podem referir a coisas, fatos e acontecimentos como a pessoas. Assim, por exemplo, a alegria, a tristeza, o entusiasmo. Outras, em contrapartida, só podem valer para pessoas: tal é o caso da veneração, da gratidão, da confiança, da obediência e do amor. Trata-se de tomadas de posição perante outra pessoa.

O conteúdo com que o amor responde a outra pessoa, à sua beleza íntima, acusa dois elementos fundamentais: por um lado, a ânsia de compartilhar a sua vida, o seu ser, o desejo de união com o amado; e, por outro, o querer presenteá-lo e torná-lo feliz.

No amor, vai-se espiritualmente a toda a pressa ao encontro do outro, para ficar com ele e compartilhar a sua vida. Por outro lado, quem ama reveste o amado com o ‘manto’ da bondade, e trata-o espiritualmente com todo o carinho. Em todo o amor que merece o nome de amor se encontram ambos estes elementos, se bem que com acento desigual, consoante a espécie de amor.

O segundo elemento, esse interesse último no crescimento e na florescência do amado, na sua perfeição e na sua felicidade, em última análise na sua salvação – o ‘agasalho’ que há no amor –, é que é pura ‘bondade fluente’. É aqui que encontramos o que a bondade é, na sua mais pura expressão.

Ao contrário do que sucede com a veracidade, que constitui resposta ao existente como tal, com a bondade dá-se sempre uma especial atitude de resposta a valores em face de alguma pessoa, ou quando muito em face de analogias inferiores de pessoas e de sujeitos.

Dizemos atitude de resposta a valores em face de pessoas em geral, porque a bondade de um homem não se confina numa atitude bondosa para com um indivíduo concreto que se ama. Ao qualificar alguém de bondoso, temos em mente alguém que se mantém duradouramente numa abertura cheia de amor, d modo que a sua atitude para com cada homem é a priori uma atitude amante, dadivosa. Porque evidentemente a bondade, como todas as virtudes, não se cifra num ato isolado; antes é uma qualidade do homem, parte constitutiva do seu ser duradouro, uma posição ou atitude fundamental.

Há três tipos de homens que formam uma antítese específica do bondoso: o indiferente ou frio, o impiedoso e o mau.

O mau é o homem hostil aos valores, o homem em quem a soberba domina como atitude fundamental e que vive numa impotente rebelião contra o mundo dos valores. Não se limita a passar por este, embotado, como o cobiçoso: arremete contra ele, ainda que se tratasse, digamos, de destronar a Deus. Odeia o mundo do bem e do belo, o mundo da luz, como Alberich no Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner. Está cheio de inveja e ressentimento contra este mundo e contra qualquer homem bom e feliz. Nutre-se do ódio, como Caim. O seu comportamento com os outros não é apenas desatencioso, mas expressamente hostil: quer atingir o próximo, ferindo-o com a peçonha do seu ódio.

Com isto, não penso no ‘inimigo da humanidade’, naquele tipo de homem a quem a decepção com todos e com a humanidade desintegrou e que – mais trágico do que mau –, mais do que ir contra os homens, se afasta deles; penso, sim, no malévolo, pronto a derramar por toda a parte o seu veneno, como Iago no Otelo de Shakespeare ou Pizzarro no Fidelio de Beethoven.

Exemplo especial dentro deste tipo é também o cruel, que goza com os sofrimentos alheios. Em vez da clareza harmoniosa do bom, temos aqui a desunião tenebrosa; em vez do brilho quente do amor, que irradia vida e felicidade, o ódio corrosivo, acintosamente demolidor; em vez da afirmação clara, livre, a busca negativa do nada, um torturar-se na convulsão negativa.

Também ao bom se contrapõe o impiedoso. É o homem duro, frio, a quem nenhuma comiseração estremece, cujos ouvidos se fazem surdos a qualquer pedido, que passa inconscientemente por cima dos cadáveres, para quem os homens nada mais representam que figuras do xadrez dos seus planos. Não vai expressamente contra os outros, mas é um homem inteiramente duro e falto de amor.

Tal pessoa de forma alguma tem em conta a essência dos outros como pessoas espirituais, como figuras sensíveis, vulneráveis. Ignora-os enquanto sujeitos de direitos e pretensões, trata-os como coisas. Representa uma modalidade clássica do puro egoísta. Pense-se em certos traficantes de escravos, ou no governador Gessler, do Guilherme Tell de Schiller, ou em Sila.

Em vez da íntima e desembaraçada liberdade do homem bondoso, temos aqui uma íntima convulsão e um íntimo endurecimento; em vez da abertura e lhaneza para com o próximo, o hermetismo impenetrável; em vez da resposta ao valor da felicidade ou ao não-valor do sofrimento, a dilação dessa resposta; em vez da solidariedade com os outros – a capacidade de ultrapassar-se para folgar e sofre com os outros – todo um envencilhar-se em si mesmo, o olhar gélido, brutal, que foge dos outros ou os passa por alto. Em vez da superioridade triunfantemente abnegada de quem se tem na conta de tributário dos outros e nunca procura o que é seu, a inferioridade do dominador brutal; e, em vez do generoso perdão dos agravos sofridos, a vingança inexorável.

Finalmente, é ainda uma antítese do bondoso o homem frio, indiferente. Trata-se do homem que passa ao lado dos outros ignorando-os, que, comodista, se absorve nos seus prazeres e que é igualmente um egoísta típico, se bem que com um colorido diferente do do impiedoso. Não está cheio de durezas brutais, inexoráveis, nem se malquista com os outros, mas transborda de indiferença neutra. Sensibilizam-no talvez as cenas horríveis, tem repugnância e horror às doenas, não pode ver correr sangue; mas isso não passa de reação nervosa ao esteticamente repulsivo. Enquanto o bondoso socorre os outros prestimosamente, o indiferente foge das vistas que amedrontam e procura imagens agradáveis.

Por outro lado, este tipo é mais frio ainda que o impiedoso. Na verdade, o impiedoso é de uma frieza gélida, não conhece nenhuma voz do coração, é um homem ‘sem coração’; mas conhece o fogo da dureza, o frio ardor da intenção vingativa, do furor. Não é um indiferente. Não é invulnerável. Conhece, sem dúvida, a dura irritação que lhe causam ofensas e humilhações, se bem que não se deixe tocar no seu coração pela insensibilidade dos outros, pela injustiça e, sobretudo, pelo sofrimento.

O indiferente, em contrapartida, se não tem a dureza e a brutalidade do impiedoso, nunca se toca com as ofensas; incomoda-o unicamente tudo o que for desagradável e penoso. Não é nenhum dominador, como o impiedoso, pode ser mesmo um esteta. O que jamais consegue é compreender outro homem, porque está demasiado ocupado com os seus afazeres. Não é apenas egoísta, é sobretudo também egocêntrico, quer dizer, ocupado com os seus próprios sentimentos e disposições, concentrado sempre em si mesmo. Considera que o mundo inteiro está aí para a sua satisfação. Assim, é incapaz de qualquer emoção íntima e profunda; no fundo, tudo o deixa na mesma. Em vez do calor e fervor do bondoso, reina aqui uma neutralidade desoladora; em vez de riqueza e fecundidade interiores, o que aqui temos é escassez estéril, vazio infrutífero; em vez da vigilância e da abertura do bondoso, obtusidade embotada e cegueira para os valores; em vez da largueza do palpitante interesse com que o bondoso envolve o mundo, uma estreiteza tapada.

Vemos assim os traços essenciais que a bondade acusa: luminosidade harmônica, liberdade interior e desprendimento, a vitoriosa superioridade do amor, que é o segredo do livre espírito de serviço; abertura à vida e aos outros homens, calor, fervor, suavidade e doçura, a largueza de um palpitante interesse pelo mundo, vigilância e sensibilidade para os valores. É de notar, sobretudo, como a bondade, na sua brandura e doçura, representa ao mesmo tempo a mais alta força. Em confronto com a sua força vitoriosa, com essa superior segurança e liberdade, toda a força do homem dominador se afigura lastimável fraqueza e afetação pueril.

A bondade, com efeito, não se confunde com o débil espírito acomodatício, desprovido de resistência. Quem é verdadeiramente bondoso pode ser inexorável se o tentam desviar do caminho reto e se a salvação do próximo exige rigores imperiosos: resiste, inabalável, a seduções e tentações.

Menos ainda devemos confundir a bondade com a bonacheirice. O bonachão é inofensivo e, levado de certa inércia e sonolência, permite que dele abusem pacificamente, sem o notar. A sua amabilidade nasce de uma tendência natural inteiramente inconsciente. Em contrapartida, a bondade brota de uma resposta que o amor dá aos valores conscientemente; é vigilância ardorosa, e não inércia inofensiva. O que nela há é a mais intensa vida moral, não uma ignorância sonolenta; é a força, não a debilidade. Ninguém obtém um serviço do homem bondoso abusando dele, à míngua de uma oposição resistente; é livremente que ele serve, é livremente que se humilha.

Na bondade reside uma luz que confere também ao bondoso uma dignidade intelectual específica. O homem verdadeiramente bondoso nunca é tolo e obtuso, por mais desajeitado que seja espiritualmente, por mais apoucado que seja em atividades intelectuais. O homem não bondoso – seja qual for a variante em que se apresente –, esse, sim, é que no fundo é sempre limitado, obtuso, ainda que tenham sido geniais as suas realizações na esfera intelectual.

A bondade, essa respiração e esse hálito do amor, é a alma de toda a verdadeira vida moral e, é claro, da verdadeira vida da alma. Ao passo que as outras atitudes éticas fundamentais representam, ao todo, uma resposta ao mundo dos valores, a bondade constitui de modo especial o reflexo de todo esse mundo na pessoa, uma fala que traz a sua voz e o seu nome.


À bondade aplica-se o que se disse do amor: ‘Quem não ama permanece na morte’. Na sua força misteriosa, desconcerta o mundo; traz à mostra o sinal do triunfo sobre toda a maldade e desordem, sobre o ódio todo e sobre todo o embrutecimento”.



"Parábola do Bom Samaritano" (c. 1623), de Domenico Fetti

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