Capítulo “Bondade” de: Dietrich von Hildebrand, Atitudes éticas fundamentais. 2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1995, pp. 42-50 (Temas cristãos):
“A bondade é como que o coração de todo o
reino dos valores morais. Não é por acaso que a própria palavra ‘bom’, que sob
o aspecto ético significa sem mais plenitude
de valor, está aparentada com essa especial qualidade ética que denominamos
bondade.
A bondade é, entre todos os valores
morais, o mais característico; é nela que o caráter geral do ético atinge a sua
expressão mais pura e mais típica. É o âmago de toda a moralidade e ao mesmo
tempo a sua própria florescência. [...] A bondade [...] não é pressuposto, é fruto da vida moral. Não um fruto entre
outros, como a afabilidade, a paciência, a generosidade, mas o fruto dos frutos, aquele em que toda a
moralidade de certo modo ‘culmina’, a rainha das virtudes.
O que é bondade? Quando é que dizemos de
um homem que ele irradia bondade? Dizemo-lo se é solícito, todo atencioso,
justo; se está pronto a sacrificar-se pelos outros; se perdoa os agravos
sofridos, se é generoso, compassivo. Mas todas estas propriedades não são senão
formas e expansões especiais do amor.
Isto aponta-nos para a estreita conexão
que há entre bondade e amor. O amor é como que bondade fluente, e a bondade é o hálito e a respiração do amor. Vimos no começo que toda a vida
moral se baseia em respostas a valores, respostas plenas de sentido como o
entusiasmo, a veneração, a alegria, a obediência. Ora, o amor é, entre todas as
respostas, a mais completa e mais profunda.
Antes de mais, cumpre evidenciar que o
amor é sempre uma manifesta resposta a um valor. Quando amamos alguém, quer se
trate de amizade, amor paterno ou amor filial, quer de amor de noivos ou amor
ao próximo, sempre temos de chegar a reconhecer no outro uma figura preciosa. Enquanto o encararmos apenas
como agradável, útil, como proveitoso para os nossos interesses, não o
poderemos amar.
Isto não significa que o amado não possa
ter defeitos evidentes. Só que temos de ver a sua pessoa como um todo, cheia de
valores, cheia de íntima preciosidade; mal a peculiar individualidade, o
pensamento único de Deus que cada homem representa, se nos revela no seu encanto
e na sua beleza, devemos poder amá-lo.
Sim, o amor é sempre resposta a valores.
Não, porém, uma resposta qualquer, mas aquela que leva à entrega do coração, de
si mesmo. No amor, o homem abre-se cada vez mais e mais profundamente aos
valores – como em qualquer outra resposta, por exemplo na veneração ou na obediência
–; mas é com o amor que ele mais se demora na plenitude de valores.
No seu mais próprio e pleno sentido, o
amor vale sempre para pessoas. Há respostas que tanto se podem referir a
coisas, fatos e acontecimentos como a pessoas. Assim, por exemplo, a alegria, a
tristeza, o entusiasmo. Outras, em contrapartida, só podem valer para pessoas:
tal é o caso da veneração, da gratidão, da confiança, da obediência e do amor.
Trata-se de tomadas de posição perante outra pessoa.
O conteúdo com que o amor responde a outra
pessoa, à sua beleza íntima, acusa dois elementos fundamentais: por um lado, a
ânsia de compartilhar a sua vida, o seu ser, o desejo de união com o amado; e,
por outro, o querer presenteá-lo e torná-lo feliz.
No amor, vai-se espiritualmente a toda a
pressa ao encontro do outro, para ficar com ele e compartilhar a sua vida. Por
outro lado, quem ama reveste o amado com o ‘manto’ da bondade, e trata-o
espiritualmente com todo o carinho. Em todo o amor que merece o nome de amor se
encontram ambos estes elementos, se bem que com acento desigual, consoante a
espécie de amor.
O segundo elemento, esse interesse último
no crescimento e na florescência do amado, na sua perfeição e na sua
felicidade, em última análise na sua salvação – o ‘agasalho’ que há no amor –, é
que é pura ‘bondade fluente’. É aqui que encontramos o que a bondade é, na sua
mais pura expressão.
Ao contrário do que sucede com a
veracidade, que constitui resposta ao existente como tal, com a bondade dá-se
sempre uma especial atitude de resposta a valores em face de alguma pessoa, ou
quando muito em face de analogias inferiores de pessoas e de sujeitos.
Dizemos atitude de resposta a valores em
face de pessoas em geral, porque a bondade de um homem não se confina numa atitude
bondosa para com um indivíduo concreto que se ama. Ao qualificar alguém de
bondoso, temos em mente alguém que se mantém duradouramente numa abertura cheia de amor, d modo que a sua
atitude para com cada homem é a priori uma
atitude amante, dadivosa. Porque evidentemente a bondade, como todas as
virtudes, não se cifra num ato isolado; antes é uma qualidade do homem, parte
constitutiva do seu ser duradouro, uma posição ou atitude fundamental.
Há três tipos de homens que formam uma
antítese específica do bondoso: o indiferente ou frio, o impiedoso e o mau.
O mau
é o homem hostil aos valores, o homem em quem a soberba domina como atitude
fundamental e que vive numa impotente rebelião contra o mundo dos valores. Não
se limita a passar por este, embotado, como o cobiçoso: arremete contra ele,
ainda que se tratasse, digamos, de destronar a Deus. Odeia o mundo do bem e do
belo, o mundo da luz, como Alberich no Anel
dos Nibelungos, de Richard Wagner. Está cheio de inveja e ressentimento
contra este mundo e contra qualquer homem bom e feliz. Nutre-se do ódio, como
Caim. O seu comportamento com os outros não é apenas desatencioso, mas
expressamente hostil: quer atingir o próximo, ferindo-o com a peçonha do seu
ódio.
Com isto, não penso no ‘inimigo da
humanidade’, naquele tipo de homem a quem a decepção com todos e com a
humanidade desintegrou e que – mais trágico do que mau –, mais do que ir contra
os homens, se afasta deles; penso, sim, no malévolo, pronto a derramar por toda
a parte o seu veneno, como Iago no Otelo de
Shakespeare ou Pizzarro no Fidelio de
Beethoven.
Exemplo especial dentro deste tipo é
também o cruel, que goza com os
sofrimentos alheios. Em vez da clareza harmoniosa do bom, temos aqui a desunião
tenebrosa; em vez do brilho quente do amor, que irradia vida e felicidade, o
ódio corrosivo, acintosamente demolidor; em vez da afirmação clara, livre, a
busca negativa do nada, um torturar-se na convulsão negativa.
Também ao bom se contrapõe o impiedoso. É o homem duro, frio, a quem
nenhuma comiseração estremece, cujos ouvidos se fazem surdos a qualquer pedido,
que passa inconscientemente por cima dos cadáveres, para quem os homens nada
mais representam que figuras do xadrez dos seus planos. Não vai expressamente
contra os outros, mas é um homem inteiramente duro e falto de amor.
Tal pessoa de forma alguma tem em conta a
essência dos outros como pessoas espirituais, como figuras sensíveis,
vulneráveis. Ignora-os enquanto sujeitos de direitos e pretensões, trata-os
como coisas. Representa uma modalidade clássica do puro egoísta. Pense-se em
certos traficantes de escravos, ou no governador Gessler, do Guilherme Tell de Schiller, ou em Sila.
Em vez da íntima e desembaraçada liberdade
do homem bondoso, temos aqui uma íntima convulsão e um íntimo endurecimento; em
vez da abertura e lhaneza para com o próximo, o hermetismo impenetrável; em vez
da resposta ao valor da felicidade ou ao não-valor do sofrimento, a dilação
dessa resposta; em vez da solidariedade com os outros – a capacidade de
ultrapassar-se para folgar e sofre com os outros – todo um envencilhar-se em si
mesmo, o olhar gélido, brutal, que foge dos outros ou os passa por alto. Em vez
da superioridade triunfantemente abnegada de quem se tem na conta de tributário
dos outros e nunca procura o que é seu, a inferioridade do dominador brutal; e,
em vez do generoso perdão dos agravos sofridos, a vingança inexorável.
Finalmente, é ainda uma antítese do
bondoso o homem frio, indiferente.
Trata-se do homem que passa ao lado dos outros ignorando-os, que, comodista, se
absorve nos seus prazeres e que é igualmente um egoísta típico, se bem que com
um colorido diferente do do impiedoso. Não está cheio de durezas brutais,
inexoráveis, nem se malquista com os outros, mas transborda de indiferença
neutra. Sensibilizam-no talvez as cenas horríveis, tem repugnância e horror às
doenas, não pode ver correr sangue; mas isso não passa de reação nervosa ao
esteticamente repulsivo. Enquanto o bondoso socorre os outros prestimosamente,
o indiferente foge das vistas que amedrontam e procura imagens agradáveis.
Por outro lado, este tipo é mais frio
ainda que o impiedoso. Na verdade, o impiedoso é de uma frieza gélida, não
conhece nenhuma voz do coração, é um homem ‘sem coração’; mas conhece o fogo da
dureza, o frio ardor da intenção vingativa, do furor. Não é um indiferente. Não
é invulnerável. Conhece, sem dúvida, a dura irritação que lhe causam ofensas e humilhações,
se bem que não se deixe tocar no seu coração pela insensibilidade dos outros,
pela injustiça e, sobretudo, pelo sofrimento.
O indiferente, em contrapartida, se não
tem a dureza e a brutalidade do impiedoso, nunca se toca com as ofensas;
incomoda-o unicamente tudo o que for desagradável e penoso. Não é nenhum
dominador, como o impiedoso, pode ser mesmo um esteta. O que jamais consegue é
compreender outro homem, porque está demasiado ocupado com os seus afazeres.
Não é apenas egoísta, é sobretudo também egocêntrico,
quer dizer, ocupado com os seus próprios sentimentos e disposições, concentrado
sempre em si mesmo. Considera que o mundo inteiro está aí para a sua satisfação.
Assim, é incapaz de qualquer emoção íntima e profunda; no fundo, tudo o deixa
na mesma. Em vez do calor e fervor do bondoso, reina aqui uma neutralidade
desoladora; em vez de riqueza e fecundidade interiores, o que aqui temos é
escassez estéril, vazio infrutífero; em vez da vigilância e da abertura do
bondoso, obtusidade embotada e cegueira para os valores; em vez da largueza do
palpitante interesse com que o bondoso envolve o mundo, uma estreiteza tapada.
Vemos assim os traços essenciais que a
bondade acusa: luminosidade harmônica, liberdade interior e desprendimento, a
vitoriosa superioridade do amor, que é o segredo do livre espírito de serviço;
abertura à vida e aos outros homens, calor, fervor, suavidade e doçura, a
largueza de um palpitante interesse pelo mundo, vigilância e sensibilidade para
os valores. É de notar, sobretudo, como a bondade, na sua brandura e doçura,
representa ao mesmo tempo a mais alta força. Em confronto com a sua força vitoriosa,
com essa superior segurança e liberdade, toda a força do homem dominador se
afigura lastimável fraqueza e afetação pueril.
A bondade, com efeito, não se confunde com
o débil espírito acomodatício, desprovido de resistência. Quem é
verdadeiramente bondoso pode ser inexorável se o tentam desviar do caminho reto
e se a salvação do próximo exige rigores imperiosos: resiste, inabalável, a
seduções e tentações.
Menos ainda devemos confundir a bondade
com a bonacheirice. O bonachão é inofensivo
e, levado de certa inércia e sonolência, permite que dele abusem pacificamente,
sem o notar. A sua amabilidade nasce de uma tendência natural inteiramente
inconsciente. Em contrapartida, a bondade brota de uma resposta que o amor dá
aos valores conscientemente; é vigilância
ardorosa, e não inércia inofensiva. O que nela há é a mais intensa vida
moral, não uma ignorância sonolenta; é a força, não a debilidade. Ninguém obtém
um serviço do homem bondoso abusando dele, à míngua de uma oposição resistente;
é livremente que ele serve, é livremente que se humilha.
Na bondade reside uma luz que confere
também ao bondoso uma dignidade intelectual específica. O homem verdadeiramente
bondoso nunca é tolo e obtuso, por mais desajeitado que seja espiritualmente,
por mais apoucado que seja em atividades intelectuais. O homem não bondoso –
seja qual for a variante em que se apresente –, esse, sim, é que no fundo é
sempre limitado, obtuso, ainda que tenham sido geniais as suas realizações na
esfera intelectual.
A bondade, essa respiração e esse hálito
do amor, é a alma de toda a verdadeira vida moral e, é claro, da verdadeira
vida da alma. Ao passo que as outras atitudes éticas fundamentais representam,
ao todo, uma resposta ao mundo dos valores, a bondade constitui de modo
especial o reflexo de todo esse mundo
na pessoa, uma fala que traz a sua voz e o seu nome.
À bondade aplica-se o que se disse do
amor: ‘Quem não ama permanece na morte’. Na sua força misteriosa, desconcerta o
mundo; traz à mostra o sinal do triunfo sobre toda a maldade e desordem, sobre
o ódio todo e sobre todo o embrutecimento”.
"Parábola do Bom Samaritano" (c. 1623), de Domenico Fetti

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