Segunda de 3 meditações do amigo Lincoln Hass Hein (pós-graduando em arteterapia, autor do blog inspiradonogregoriano, e professor de canto e música litúrgica).
Como na primeira, encontra-se ao final uma "nota" explicativa que esboça seus fundamentos teóricos.
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A especial moção chamada sentimento, sua relação com a consciência e a contemplação da Beleza nos seus vários graus:
Como na primeira, encontra-se ao final uma "nota" explicativa que esboça seus fundamentos teóricos.
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A especial moção chamada sentimento, sua relação com a consciência e a contemplação da Beleza nos seus vários graus:
Nos dois primeiros graus de ser, material e vegetativo, há beleza pela confluência, pela ordem e pela unidade entre forma, inclinação e substrato (modus, species, ordo ou mensura, numerus, pondus: medida, número e peso) mas não sentimento do Belo.
Nos outros graus incluindo a diversificação do grau sensitivo e do intelectivo nas várias moradas há vários graus de sentimento.
O sentimento não é paixão (emoção) nem afeto (volição, moção da vontade), é uma impressão afetiva (affectus em São Bernardo quando operado por Deus na alma), um único ato que envolve a percepção da beleza e sua fruição, uma síntese entre cognição e apetite num único ato presente à consciência reflexiva.
O sentimento é um conhecimento que ama e um amor que conhece, uma integração da tríplice divisão memória-inteligibilidade-inclinação que reage belamente à beleza.
O sentimento só se dá na integração da consciência e nos seus graus que se realizam nos vários tipos de memória enquanto poder de reflexão:
1- a affectio imaginaria,
2- a reminiscência, e
3- a memória espiritual em seus graus de participação espiritual (autoconhecimento natural, e os vários graus de autoconhecimento sobrenatural).
O sentimento do belo pode responder ao belo presente ou ser princípio da criação de algo belo e pode estar relacionado à apreensão do bem simpliciter ou ao bem enquanto atingido e assim se une ao sentimento do feio (feio sensível, espiritual ou moral). Há a possibilidade também do sentimento não ser fruitivo e sem que isso implique em feiúra do contemplado mas ao contrário implique numa imperfeição relativa de quem contempla (aqui há ou a desordem de quem contempla atuando ou a suprema perfeição da beleza que pode ser terrificante e assombrosa).
Existem vários tipos de sentimento e é possível que um grau de sentimento por refluência afete outro. É possível que o sentimento do belo sensível com intensidade leve ao sentimento do belo espiritual e à contemplação da verdade e é possível que o sentimento espiritual traga deleite às potências inferiores gerando sentimentos.
Também são possíveis sentimentos desordenados que são perigosos pela ligação do sentimento com a impressão profunda na alma.
É possível que sentimentos estejam contaminados por excesso de paixão ou volição desordenada e então mais que acesso ao belo se tornam obscura vertigem egocêntrica. O belo se reduz ao bem e ao bom perseguidos de forma desordenada e num grau ínfimo que muitas vezes não passa do vegetativo ou da impressão dos sentidos. É nesta degradação que aparecem obras de "arte" que não são dignas desse nome e que não vão além da satisfação desordenada das necessidades mais básicas relacionadas aos instintos de reprodução e nutrição.
O sentimento implica um conhecimento por conaturalidade, um conhecimento íntimo daquele que ama pela união com o amado e assim nos sentimentos espirituais místicos tem-se um conhecimento de Deus pela participação na sua vida derivada do amor em grau elevado. No caso da apreensão das obras de arte humanas e divinas também há a possibilidade desse conhecimento fruto do amor, a possibilidade do sentimento e da experiência que tocam intimamente um outro.
A partir destas considerações sobre as potências, moradas e o sentimento seria possível numa outra reflexão pensar nos vários tipos de sentimento seja de um ponto de vista natural seja sobrenatural e buscar uma compreensão do modo como a alma é “afetada”, como a alma recebe os vários sentimentos tanto no dia-a-dia e atividades quanto na oração e como estes sentimentos podem derivar de uma ação natural (material, vegetal, animal ou humana), preternatural (angélica ou diabólica) ou sobrenatural (divina). Além disso seria possível estudar o modo como os vários sentimentos dentro de seu âmbito próprio (num dos três graus e tipos de memória/centro reflexivo: affectio imaginaria, reminiscência e memória espiritual) geram hábitos e disposições arraigadas e estudar como se relacionam com a atividade geral do ser humano na prática de virtudes ou vícios ou na prática das artes e ciências.
Considerações sobre o fundo da alma, o conhecimento, a estética, e o símbolo como lugar de encontro relacional e pessoal:
Considero o espírito no homem (o seu núcleo mais íntimo) como a memória espiritual, uma capacidade para Deus, uma capacidade para receber a luz.
Essa capacidade é modulada no intelecto agente, o intelecto agente como que é emanado dessa capacidade e de ambos memória e intelecto emana a vontade. Da reflexão que então acontece entre memória e intelecto agente a memória se manifesta como intelecto possível que acolhe em si a luz dos entes criados abstraída mas esse acolhimento da luz do ser criatural só é possível porque a memória já é abertura "sede" (com “é”, lugar) para a luz divina e ao mesmo tempo "sede" (com “ê”, desejo) da beatitude.
A memória é análoga ao seio do Pai que em si acolhe o Verbo e o amor porém ao contrário da natureza divina no homem esse acolhimento da luz e do amor pode ter sua plenitude frustrada.
O anjo da guarda é aquele que comunica (tendo recebido das hierarquias superiores) uma luz à memória tornando possível a atualização plena desta em intelecto agente (pode acontecer às vezes sem a interferência angélica de um modo parcial). A iluminação agostiniana aparece assim em duas frentes: há uma iluminação que é a luz da memória como capacidade para o inteligível (espelho luminoso) e há uma iluminação que acontece no momento da apreensão metafísica da realidade. Esta apreensão envolve de um lado a ação angélica ou a atividade imanente da luz interior e de outro uma impressão natural da semelhança das idéias divinas que já estava na memória (como imagem divina) em potência mas sem atualizar-se num verbo mental expresso reflexivo (que é muito mais que uma expressão linguística).
Para que entretanto se inicie no homem esse processo de iluminação é necessário o contato com a expressão visível das idéias divinas, a estética é parte integrante da iluminação: ordinariamente a glória divina aparece participada na glória visível e sensível das criaturas materiais e a sensibilidade do homem quando este está aberto para a experiência da realidade é iluminada pela luz da memória e do intelecto e movida pelo desejo de beatitude da vontade, a apreensão estética é assim o sentimento de admiração.
A admiração é síntese de sensibilidade e inteligência na memória que se vê inundada pela beatitude e luz participada na beleza. Quando porém há fechamento da memória (coração) em si, quando a memória/intelecto/vontade se deixam conduzir pela vertigem e perdem a piedade reverencial diante do real (misto de temor e desejo de união) então destrói-se a possibilidade pessoal do encontro. Porque a avidez de si quer sufocar o outro e não o respeita, a experiência da beleza se torna busca de prazer egocêntrica e deixa de ser encontro com o belo para se
tornar destruição e consumo do outro e por fim perda de si por perda de sua própria perfeição que é relação pessoal subsistente.
E é por isso que estou estudando arteterapia. Porque a corrupção da imaginação quando se separa do intelecto e a arte falsa que se separa do amor e da verdade (ambas, imaginação desordenada e arte falsa causadas pelo egoísmo) provocam a neurose da vertigem enquanto a experiência estética autêntica é apreensão do símbolo na sua transparência luminosa.
O símbolo quando não corrompido é âmbito de realidade (para usar a expressão de Alfonso Lopez Quintás). É abertura relacional que cria campo de jogo, possibilidades de interação do real e comunicação do ser e possibilidades de iluminação: "entreveramento" (reflexão luminosa mútua, interpenetração das luzes). No entreveramento acontece a aletheia (verdade em grego), a patência luminosa, o descobrir do véu. E neste descobrir do véu é possivel o encontro com os valores elevados e a partir deste encontro ético é possível a religação com Deus.
O fundo da alma que é a memória num sentido profundo como totalidade da capacidade humana e que inicia o processo acolhendo o dom da admiração encontra-se no termo do processo como compreensão do ser na experiência. No meio há a abstração e as composições e divisões meditativas de vários graus (desde os sentidos até o mais íntimo espiritual) mas no fim a admiração se desenvolve no seu máximo esplendor tornando-se experiência íntima e concreta do ser, compreensão do que há através da unidade dos transcendentais (uno, ser, bem, verdade) no esplendor da beleza, e isso porque a própria alma se tornou bela alcançando a redenção, tornou-se conatural com a beleza e apta a deixar-se mover plenamente pela beleza nos sentimentos elevados.
Até atingir esse ápice é preciso caminhar pelas moradas interiores e passar pelos três graus de memória reflexiva simbólica: a imaginação como affectio imaginaria, a reminiscência e a memória espiritual; é preciso saborear a admiração e os sentimentos de um modo ordenado e belo em cada um desses graus fazendo com que a luz do fundo da alma progressivamente se dirija e guie as ações desde o exterior até o mais íntimo núcleo. Na plenitude da vocação pessoal e do processo de tornar-se pessoa, indivíduo racional subsistente, é o núcleo mais íntimo que tudo dirige a partir dos sentimentos conaturais com a Beleza (Beleza enquanto síntese dos transcendentais do ser), é o núcleo da alma que atinge seu pleno caráter relacional sem negar-se a si mesmo na sua diferença e unicidade.
"A beleza salvará (curará)o mundo"
"Santa Maria, Mãe do Belo Amor", no eremitério da Universidad de Navarra (Pamplona, Espanha)
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Nota [esboço para a fundamentação teórica]:
Reflexão e algumas idéias sobre as 8 moradas da alma e operações das potências anímicas.
Reflexão e algumas idéias sobre as 8 moradas da alma e operações das potências anímicas.
8 moradas da alma e operações das potências em sua tríplice divisão dentro de cada grau de ser: memória-inteligibilidade-inclinação (modus, species, ordo; mensura, numerus, pondus), e suas subdivisões. Síntese entre várias idéias derivadas de vários autores (Santo Agostinho, os vitorinos Hugo e Ricardo, os místicos cistercienses São Bernardo, Guilherme de Saint Thierry e Elredo, São Tomás e São Boaventura, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, São Francisco de Sales, Santa Edith Stein, Royo-Marin, Dietrich von Hildebrand , Martin Echavarría e mais o que li numa série de autores de psicologia moderna e em outros autores cristãos), de meditações que alguns amigos fizeram e meditações pessoais minhas sobre oração, a alma humana e a relação da beleza com a alma humana.
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Na primeira morada há três graus de ser, o material, o vegetativo e o sensitivo no seu grau inferior junto com um princípio ínfimo de intelecto que se mescla ao sentido na affectio imaginaria.
Na segunda morada há o grau sensitivo no seu grau superior e o grau intelectivo no seu grau inferior (razão particular).
Na terceira morada há o grau intelectivo ou espiritual propriamente dito que só atinge sua plena espiritualidade quando pela graça pode se elevar até as últimas moradas.
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Três graus de ser na Primeira morada:
1a - MODUS 1- natureza material ("memória" substancial, permanências e alterações da estrutura material) - muralha do castelo interior.
SPECIES 2- forma como princípio de operações
ORDO 3- inclinação natural = disposição + efeito.
1b - MODUS 1- natureza vegetativa ("memória" genética e vital, permanência e alterações da estrutura vital) - muralha do castelo interior e algumas divisões de muros interiores.
SPECIES 2- forma princípio de operações
ORDO 3- inclinação natural = disposição + efeito.
1c - MODUS 1- imaginação = affectio imaginaria (composição e divisão das impressões) + fantasia (memória sensível das impressões)
1c - MODUS 1- imaginação = affectio imaginaria (composição e divisão das impressões) + fantasia (memória sensível das impressões)
SPECIES 2- impressão sensível nos sentidos e no sentido comum
ORDO 3- paixão (emoção) concupiscível instintiva ou mediada pela affectio imaginaria = mutação interior + reação efetiva que se desenvolve em comportamento exterior.
Primeira morada do castelo interior:
1d = 1a+1b+1c recebendo influxo da graça santificante.
Importante notar que a affectio imaginaria é o grau ínfimo de espiritualidade, uma refluência do intelecto na imaginação e que não existe nos outros animais, nem mesmo nos superiores, apenas no homem. O menor grau possível de autoconsciência e de percepção da transcendência (pela percepção do belo sensível) acontece nela e é possível ter uma razão e uma fé frágeis relacionadas a um intelecto que opere neste grau (quando a memória espiritual põe sua atividade reflexiva neste “ponto” da alma ao invés de um “ponto” mais íntimo).
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2 graus de ser na Segunda Morada (estimativa instintiva e cogitativa/razão particular):
2a - MODUS 1- memória = reminiscência (composição e divisão das espécies intencionais de modo "silogístico") + memória (guardar na memória das espécies intencionais)
SPECIES 2- estimativa = percepção das espécies intencionais, cogitativa (percepção por comparações, composições e divisões)+instinto
ORDO 3- paixão (emoção) irascível instintiva ou ponderada, mediada pela cogitativa = mutação interior + reação efetiva que se desenvolve em comportamento exterior.
Segunda morada do castelo:
2b - 1abc+2a recebendo influxo da graça santificante.
Aqui já aparece um grau maior de espiritualidade com a chamada parte inferior da razão, ou razão particular que recebe refluxo do intelecto e já permite perseguir um bem árduo. A estimativa percebe não apenas a espécie sensível e sua relação com o prazer sensorial mas uma formalidade de bem particular para o organismo e no homem com o refluxo do espírito pode ser cogitativa operando composições e divisões, comparações e raciocínios sobre o particular. Uma fé menos frágil do que a descrita na morada anterior é relacionada a um intelecto que opere neste nível.
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Grau de ser espiritual puro na terceira morada e graus de consciência espiritual:
3 -MODUS 1- memória espiritual = consciência que reflete-se/intelecto agente + intelecto possível como memória espiritual das apreensões intelectuais
SPECIES 2- intelecto = razão que compõe e divide em raciocínios abstratos + intelecto possível como apreensão/percepção do universal
ORDO 3- afetos da vontade = mutação interior afetiva + escolha efetiva que se desenvolve em comportamento exterior ou interior.
- Graus de memória espiritual/intelecto/vontade:
3a - consciência natural intelectual sem a luz da fé
Terceira morada do castelo interior:
3b - consciência a partir da luz da fé operando em raciocínios, início de noite dos sentidos ou para os menos provados momentos de aridez que permitem maior atividade da razão e menos sensibilidade desordenada.
Quarta morada do castelo interior:
4- consciência a partir do início de contemplação infusa fruitiva.
Quinta morada do castelo interior:
5- consciência a partir da luz da fé operando numa simples aquiescência do topo do espírito, oração de união.
Sexta morada do castelo interior:
6- consciência a partir da luz da fé operando num êxtase ou numa renúncia heróica de si (de um eu egoísta).
Sétima morada no seu ato mais perfeito:
7- consciência transfigurada no ápice da união transformante quando a alma participa em Deus na geração do Verbo e na processão do amor no mais alto grau possível nesta vida.
Morada Eterna:
8- Consciência na beatitude celeste quando o ato de união com Deus se torna pleno sem véus e perpétuo. Oitava morada, o próprio Deus como morada e "memória" da alma.

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