Introdução
O objetivo deste trabalho é realizar uma
crítica à análise que Xavier Zubiri faz das “5 vias” tomasianas, indicando, por
sua vez, que, as mesmas não ignoram a realidade que o filósofo espanhol
descreve como o fato da “religação” metafísica; antes, tal fato estaria na base
mesma de cada uma das vias, de acordo com a interpretação que aqui faço.
Primeiramente, apresentarei, de modo
breve, como Zubiri entende a “religação”, e, em seguida, apresentarei as 5 vias
segundo Tomás, com as críticas de Zubiri, buscando desmontá-las, e indicando
como cada via tomasiana pode ser compreendida em consonância com a proposta
zubiriana.
1. Esboço da doutrina zubiriana da “religação”
[cf. El hombre y Dios. 6ª ed. Madrid:
Alianza, 1998, cap. 2]
Segundo Zubiri, a pessoa humana, com sua
inteligência, apreende as coisas como “realidades’, como algo de suyo: o percebido não é algo “feito
pela inteligência”, mas algo que nela se apresenta “desde si mesmo”. O de suyo é um “em si que dá de si”: a “realidade”
ou o “ser” (em sentido tomasiano) não é um noúmeno
incognoscível. Uma vez que apreendemos inteligentemente o que se nos
apresenta com este caráter metafísico de “realidade”, e não podemos fazer nossa
vida sem o mesmo, experienciamos, como diz o filósofo espanhol, a “religação” à
realidade ou ao “poder do real”, que é a mesma enquanto exerce uma “dominação”
em nossas vidas, fazendo-nos “relativamente absolutos” enquanto “pessoas” ou
“suidades”, isto é, realidades que se pertencem ao se inteligirem como “sua
realidade”.
Este “poder do real” está presente em
todas as coisas, não é algo “fora” delas, mas não se confunde com seu conteúdo,
ou, como diz Zubiri, com sua “talidade” (de “tal” coisa), sendo um “mais” nas
coisas. Assim, este “poder” está fundado não nas coisas reais que ele recobre,
pois nenhuma delas é “a” realidade, que, no entanto, é real, pois domina sobre
nossa realidade humana. Deste modo, existe outra Realidade que funda este
poder, e não é “uma” realidade a mais, senão o Fundamento Absolutamente
Absoluto deste poder e de nossa realidade pessoal relativamente absoluta (cf. El hombre y Dios, p. 148). Este conceito
é o que corresponderia ao “Deus das religiões”
2. As cinco vias [cf. S.Th. I, q2 a3],
com as críticas zubirianas [cf. El hombre
y Dios, pp. 119-122] e minha réplica
Sobre todas as “vias”, Zubiri sustenta que
não são “fatos cósmicos inconcussos”, e que, portanto, não seriam base adequada
para o problema da justificação da existência de Deus. O que ele pretende não é
negar que as vias sejam conclusivas, mas que não “partem de fatos” e sim “de
uma interpretação metafísica da realidade sensível”, em que “a diferença entre
as ações humanas e demais fatos cósmicos não tem nenhum papel”, com o homem
sendo considerado “mera res naturalis”.
Ademais, as vias não terminariam no que
Zubiri chama “Deus enquanto Deus”, mas, no “primeiro motor imóvel”, na
“primeira causa eficiente”, no “primeiro ente necessário”, no “ente na
plenitude da entidade” e na “inteligência suprema”. Haveria que provar que
estas “primariedades” se identificam entre si num mesmo ente, e que este seja
efetivamente “o que entendemos por Deus”, o Deus dos homens religiosos.
a) Primeira
via
Na primeira via, Tomás
afirma o “fato do movimento” (da mudança), que é percebido pelos sentidos, e
que “tudo o que se move é movido por outro”. Depois afirma que o que se move o
faz enquanto “potência orientada para aquilo a que se move”, e que “o que move
está em ato”, entenda-se, tem o ato que é o termo do movimento daquele que
muda. Portanto, conclui aristotelicamente que “o movimento é passagem da
potência ao ato”. Sendo que a potência só pode ser atuada pelo que já está em
ato, e que “tudo o que se move necessita ser movido por outro, e este por
outro”, é forçoso chegar a um Primeiro Motor Imóvel: primeiro em sentido
formal, e não cronológico, entenda-se, porque Ele é a origem ontológica
presente da mudança ou atualização do ser, e não sua origem cronológica remotíssima,
que teria desencadeado no passado a série de passagens da potência ao ato que
prosseguem até o presente. O que as mudanças têm de empíricas pode ser
perfeitamente explicado pelas causas “segundas”; aqui, trata-se da transmissão
de “ser” ou “realidade”.
Zubiri critica que o “movimento” a que
Tomás se refere não é simplesmente o “fato” acessível da “mudança cósmica”, mas
a “passagem da potência ao ato” (Aristóteles), o que já é uma “interpretação da
realidade do movimento”, não sendo, assim, “um ponto de partida firme ou
manifesto”.
Efetivamente, a definição tomasiana do
“movimento” é metafísica, porém, se Zubiri aplicasse o critério a si mesmo,
provavelmente muitos iriam impugnar que a “religação” seja um “fato”
constatável, afinal, a religação é um fato metafísico,
e não empírico! Não, como explica o filósofo espanhol, no sentido de nos dar
diretamente a Deus, Realidade Transcendente, mas porque nos dá a realidade transcendental que a Ele
conduz. O apoio do poder do real que encontramos nas coisas reais e demais
pessoas é um apoio “possibilitante”, oferta de possibilidades reais pelas quais
nos capacitamos, segundo Zubiri, isto é, atualizamos nossas potências; também é
um apoio “impelente”, que nos faz realizar-nos, isto é, tornar-nos mais “reais”
ou “atuais”.
Há, assim, uma confluência entre a
primeira via tomasiana e estas características da religação zubiriana: a
atuação de potências se identifica com a realização de possibilidades reais.
Tal visão do “movimento” não é certamente a do logos vulgar, mas a “religação” também só pode ser visualizada pelo
logos filosófico. A teoria ou a ratio, nesta via, é a ascensão do fato
metafísico do movimento à necessidade metafísica do Motor Imóvel.
b) Segunda via
Na segunda via, da “causa eficiente”,
Tomás fala de uma ordem de causas desse tipo. Nenhuma causa é causa de si
mesma, pois seria anterior a si, o que é absurdo (como é absurdo o conceito
spinoziano de Causa Sui). Como na via
anterior, não pode haver uma regressão infinita, pois a ordem de causas ficaria
inexplicável, mas deve haver uma Causa Eficiente Primeira ou Causa Incausada.
Zubiri questiona se podemos afirmar que há
“causalidade eficiente” no cosmos, ou para além das ações humanas; e afirma que
o “ocasionalismo cósmico” é “outra interpretação possível”, pois “não é um
impossível metafísico”.
A causa eficiente, em seu sentido mais
próprio, deve ser compreendida como causa ou influxo “produtor”; em sentido
estritíssimo, só caberia a Deus enquanto Criador de todo o ser a partir do nada:
Deus cria ex nihilo, as causas
intramundanas atuam sobre matéria já existente. Zubiri parece identificar a
“causação eficiente” a uma “produção” deliberada, ao se referir às ações humanas.
Mas Tomás está usando o termo de modo amplo: não no sentido de uma “produção”
arquitetada, mas no de qualquer origem ou aparição de uma realidade em função
de ou por outra(s). É o que Zubiri chama de “funcionalidade do real” que, em Estructura dinâmica de la realidade, é a
definição de “causalidade” (cf. ZUBIRI, Estructura
dinâmica de la realidade. Madrid: Alianza, 1989, p. 84) – ainda que em Inteligencia y logos o filósofo considere
a “causalidade” como produção estrita e não como a funcionalidade geral
perceptível (cf. ZUBIRI, Inteligencia y
logos. Madrid: Alianza, 1989, p. 39-40). Certamente, Tomás não está se
referindo só às “fabricações”, análogas da criação divina, mas a ações “causais”
como “abrir uma porta”, por exemplo: não se “produz” a “abertura”, mas ela é “causada”,
no sentido de que é realizada em função da ação da minha mão.
Mesmo, porém, que as ações recíprocas dos
entes intramundanos fossem “causas ocasionais”, caberia dizer: são ocasião para
que se manifeste a causalidade real e efetiva, por exemplo, a das leis da
natureza, cuja ordem depende existencialmente da Causa Primeira.
As causas e seus efeitos respectivos estão, sempre e obviamente,
“religados”, funcionalmente religados, diria Zubiri, de modo que o Aquinate não
está distante das disquisições zubirianas. O fato metafísico constatável seria,
reinterpretando o Angélico à luz das reflexões zubirinas, o da causalidade
entendida como a “funcionalidade do real”, e a teoria ou ratio seria a ascensão às causalidades estritas e, destas, à raiz
primeira de toda possível relação funcional e causal.
Trata-se, ainda, de entender que a
dependência respectiva dos entes
intramundanos, ou a respectividade
mundanal, como diz Zubiri, deve fundar-se no Ser Irrespectivo (cf. ZUBIRI, Sobre la esencia. 1ª reimpressão. Madrid:
Alianza, 1998, p. 431): a Causa Incausada da ordem de causas intramundanas é o
Fundamento Irrespectivo da ordem mundanal respectiva; não ser causado é não
depender de outra realidade (Tomás), isto é, não ser respectivo e, portanto,
não participar da funcionalidade do real ou causalidade (Zubiri) – em sua
teologia, Zubiri dirá que “Deus não tem uma essencial respectividade ao mundo
que real e efetivamente criou”, mas que “a tem livremente” (ZUBIRI, Xavier. El problema teologal del hombre: Cristianismo.
Madrid: Alianza Editorial, 1997, p. 192); em termos clássicos, tal relação, de
Deus ao mundo, é “ideal”.
c) Terceira via
Na terceira via, Tomás constata a presença
de coisas “possíveis”, as que “podem ser produzidas ou destruídas”, de modo que
“podem ou não existir”. Tais coisas não podem existir sempre, pois o que pode
não existir, em algum tempo não existiu, como diz o Angélico. De modo que, como
as coisas existem!, é impossível que só haja coisas deste naipe! Assim,
simplificando o argumento, é preciso que haja algum ser absolutamente
necessário, que seja a causa da necessidade dos demais.
A respeito da terceira via, o filósofo
espanhol afirma que a experiência “nos dá apenas ‘o que é’, e não o possível e
o necessário”, e que “a corrupção e a geração são algo necessário na natureza”.
Que, segundo Zubiri, “a geração e a
corrupção” sejam “algo necessário na natureza” não é algo que verdadeiramente
objeta o raciocínio de Tomás: uma tal “necessidade fática” implicaria, assim,
um Ser Incorruptível, que seria o Absolutamente Necessário do argumento. Em
termos “religacionais”, o que é relativamente absoluto/necessário depende
existencialmente do Absolutamente Absoluto. O fato metafísico apreensível são
as realidades corruptíveis, e a teoria é a ascensão das mesmas ao Necessário ou
Incorruptível (inclusive os “necessários”, no plural, da via, “que não têm a
necessidade em si”, são os astros “incorruptíveis” da cosmologia medieval, o
que vem ao encontro de minha interpretação).
d) Quarta via
Na quarta via, Tomás aponta a uma “hierarquia de
valores nas coisas”: há as que são mais ou menos “boas, verazes, nobres”. O
exemplo do “calor que se aproxima do máximo calor” é enganoso, pois aquilo a
que Tomás aponta na explicação são as perfeições
transcendentais dos entes. Elas se
explicam pela existência do Muito Bom, o Muito Veraz e o Muito Nobre [ou ainda:
o Muito Belo ou o Muito Uno, por exemplo], que é o Máximo Ser. O exemplo do
fogo, máximo calor, é mera analogia para o Ente Perfeitíssimo que deve ser a
causa do ser, da bondade ou de qualquer das perfeições transcendentais dos
entes intramundanos.
Zubiri identifica a quarta via com “a dos
‘graus’ de entidade das coisas”, e questiona se, à parte da realidade humana,
há coisas “que têm mais ‘entidade’ que outras”; os graus do ser “não seriam um
ponto de partido adequado para provar a existência de Deus”.
Aqui falta a Zubiri ou generosidade hermenêutica,
ou atenção mais penetrante: para além dos seres humanos, onde podemos encontrar
claramente uns mais verazes ou bondosos, nas coisas não humanas, encontramos as
que podemos julgar mais ou menos belas –sendo aqui irrelevante a questão dos
cânones de beleza, pois o que importa é o “ideal” belo–, ou mais ou menos
íntegras (“unas”), por exemplo. Repito, trata-se das perfeições
transcendentais, e Zubiri não negaria que elas perpassam toda a realidade e
todas as realidades, e não só a humana. Evidentemente, o poder do real que é
apreendido como fato envolve o poder da bondade, o poder da verdade, o poder da
beleza, o poder da unidade, e a teoria consiste em radicar tal(tais) poder(es)
na Realidade/Bondade/Verdade/Beleza/Unidade Absolutamente Absoluta.
e) Quinta via
Na quinta via, Tomás parte do “ordenamento das
coisas”: há coisas sem conhecimento que “trabalham por um fim”, isto é,
“buscando o melhor”, ou “agindo [como que] intencionalmente”; ora, se não têm
conhecimento, só poderiam tender ao fim dirigidas por um Ordenador Inteligente,
tal como o arqueiro dirige sua flecha.
Zubiri questiona se há, à parte das ações
humanas, uma “ordem de finalidade”. Haveria certamente uma “convergência dos
processos cósmicos”, mas não necessariamente uma “ordenação”, a qual seria uma
teoria, e não um fato constatável.
Zubiri afirma que tal ordenamento não é um fato,
mas apenas uma “certa convergência dos processos cósmicos”. Ora, Tomás aponta
precisamente para esta tendência a um mesmo fim dos processos intramundanos não
humanos, enquanto fato observável. Aqui há uma confusão como a que é feita na
segunda via: do mesmo modo que a causação eficiente não requer ser vista como
uma causação humana (pessoal), a ordenação ao fim pode ser entendida
simplesmente como esta “convergência” da qual fala o autor basco. O termo “ordenamento”,
não obstante apareça ao início da exposição da presente via, na realidade é,
como pretende Zubiri, a interpretação
teórica deste fato da convergência observada por Tomás com os termos
“trabalhar por um fim”, “buscar o melhor”. Que Tomás fale como que
“antropomorfizando” as realidades não humanas não conta para objetar o que diz:
ele não pensa em uma finalidade intencional em sentido estrito (pessoal e
moral), mas no sentido de uma teleologia metafísica geral, em que o “bem” (o
“melhor”) ou o “fim” é simplesmente o desdobramento das realidades cósmicas, na
medida em que são observáveis tais realidades e seus direcionamentos ordinários.
A
modo de conclusão: o Deus das 5 vias é o Fundamento da religação
Todas as vias tomasianas manifestam uma
dependência existencial dos entes mundanos em relação a Deus, tal como ocorre
na via zubiriana da religação: “em cada uma das provas aparece, de uma forma ou
de outra, a ideia de dependência ontológica a respeito de uma causa
transcendente” (COPLESTONE. El pensamento
de Santo Tomás. 5a reimpressão. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1999,
p. 127).
Ao dizer que o Deus das vias tomistas não
é “Deus enquanto Deus”, Zubiri está sendo injusto. Assim, por exemplo, o Motor
Imóvel, ao qual se chega na primeira via, é certamente uma Realidade Última;
mas como Ato Puro, também é a fonte última da atualização de todas as potências
reais, incluindo as possibilidades vitais humanas, sendo assim Possibilitante;
e, em virtude de sua imutabilidade, o Primeiro Motor é uma realidade na qual o
homem pode encontrar um refúgio seguro, uma fortaleza inamovível e inexpugnável,
ou seja, uma Realidade Impelente, como Zubiri a conceitua.
Que Tomás não tenha
distinguido, nas vias, o caminho próprio da pessoa humana não significa que
Deus não seja experienciado pelo homem religioso como Motor, como Causa Incausada
Irrespectiva e Independente, como Fundamento Necessário e Incorruptível, como Perfeitíssima
Fonte da realidade (e da bondade, da verdade, da unidade e da beleza), ou como Inteligência
Ordenadora.
Seu Espírito nos move (Rm 8,14), d’Ele
dependemos (Jo 15,4), n’Ele conservamos nosso ser (At 17,28) e esperamos a Vida Eterna (Jo 3,16), a Ele
imitamos buscando a perfeição da Caridade (Mt 5,48), e a Sua Palavra confiamos a
orientação de nossas vidas (Sl 119,105).
Caminhemos, pois, por
estas vias inscritas na Via!
"O sonho de Jacó" (1518-19), de Rafael Sanzio

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