Edward Schillebeeckx, holandês, foi
professor em Lovaina e perito do episcopado de seu país no Concílio Vaticano
II. Aqui comento alguns extratos de: SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus:
A história de um vivente. São Paulo: Paulus, 2008 (edição original de
1973).
O teólogo holandês escreveu seu livro "como
uma interpretação cristã de Jesus, uma cristologia [...] não escrito para
solucionar problemas sutis de teologia acadêmica [...] [mas como] uma ponte
sobre a ruptura entre a teologia acadêmica e a necessidade concreta dos fiéis
[...] [para] esclarecer a problemática que precede aquela ruptura" (p. 7).
Trata-se, na cristologia do autor, de entender por
que "a salvação de Deus é dada única e exclusivamente em Jesus" (p.
11).
"Ideias e expectativas de salvação e
felicidade humana sempre são projetadas a partir de uma realidade concretamente
experimentada e refletida de desgraça, sofrimento, miséria e alienação, a
partir de experiências negativas, acumuladas numa história secular de
sofrimento, permeada de lampejos de de experiências cheias de promessas de
felicidade, experiências parciais de salvação numa história, através de muitas
gerações de expectativas não realizadas, de culpa e de maldade: é o problema de
Jó, através da nossa história humana. Disso nasce então, com o tempo, um
projeto antropológico, uma visão do que seria o ideal de uma humanidade
verdadeira, feliz e boa. Os desejos ardentes de felicidade e salvação, sempre
de novo sujeitos a críticas, porém sempre sobrevivendo a qualquer crítica, vão
inevitavelmente assumindo, em diversas formas, o profundo matiz de 'ser salvo
de...' ou 'ser libertado de...' e ao mesmo tempo de entrar num 'mundo
inteiramente novo'. As experiências negativas e contrastantes da humanidade esboçam
assim as ideias e expectativas positivas sobre a salvação de um povo. Das suas
ideias a respeito de salvação podemos, por assim dizer, deduzir a história dos
sofrimentos de um povo, mesmo quando não podemos mais seguir, por outras
fontes, o trajeto exato desse sofrimento" (pp. 13-14).
Comentário: A
ideia do autor é de que a perspectiva da "salvação" se insere e se
compreende a partir de um contexto no qual há uma dialética entre as
experiências opostas de desgraça e de promessa de esperança. Só pode desejar
"ser salvo" quem vive, por um lado, uma experiência humana negativa
(que pela fé sabemos ser fruto do pecado) e, por outro, vê essa experiência
como não terminativa (já que a natureza humana, apesar da queda, segue
fundamentalmente boa e chamada à felicidade sobrenatural). Parece-me uma
perspectiva realista e válida. Os protestantes salientam a experiência de
negatividade, muitos contemporâneos só vêem o positivo da experiência humana, e
o Cristo como alguém que vem simplesmente "coroá-la" (também Xavier Zubiri, sob qualquer aspecto mais brilhante e correto que Schillebeeckx, tem essa tendência, ao acentuar, na sua doutrina da
"religação" ontológica, a fundamentação conservadora de Deus, sem se
preocupar muito em aprofundar acerca da questão da religação
"aversiva" à qual alude).
* * *
"A própria expectativa deles [os primeiros
cristãos] sobre salvação e o alegre reconhecimento de que ela se cumpriu em
Jesus, não se encontram separadamente nos evangelhos. As duas linhas se acham
entrelaçadas, quase inextrincavelmente. A pergunta pela verdadeira essência do ser
humano, e a resposta encontrada no homem histórico Jesus, são correlativas, no
sentido de que não são as anteriores expectativas de salvação que determinam
quem é Jesus; ao contrário, a partir da história própria e muito pessoal de
Jesus, as expectativas existentes de salvação foram reassumidas, sim, mas ao
mesmo tempo transformadas, recunhadas e corrigidas. O fato mostra que ao mesmo
tempo existe continuidade e descontinuidade entre a busca humana de salvação e
a resposta concreta, histórica, que é Jesus" (p. 15; grifo do autor).
Comentário: O
autor escreve bem a respeito de como Jesus supera nossas expectativas: o que
Ele nos traz é mais do que podemos humanamente esperar; nossa esperança é
redimensionada e dirigida à beatitude sobrenatural que não podemos imaginar
antes do regime explícito da Graça. Também hoje Jesus tem algo a dizer ao
homem, redimensionando suas esperanças tantas vezes imanentistas, ou recobrando
a esperança escatológica esquecida por tantos cristãos (mas veja-se o próximo
trecho).
* * *
"Uma primeira leitura do Novo Testamento nos
coloca grandes problemas. Nós não vivemos dentro de uma tradição que esteja
esperando um messias ou um misterioso Filho do Homem celestial; nem tampouco
vivemos na expectativa de um fim iminente deste mundo. Nos evangelhos somos
confrontados, não apenas com Jesus de Nazaré, mas também com pedaços de uma
cultura religiosa antiga. Nessas narrativas, de fato, Jesus está encoberto por
ideias religiosas da época, ideias aliás não estranhas a ele mesmo. Além disso,
nos evangelhos, a experiência original de salvação por Jesus ainda está
misturada também com problemas doutrinários e práticos das comunidades cristãs
posteriores. Tendo sido inicialmente comunidades dentro do judaísmo (ao lado de
muitas outras), foram depois se separando dele, paulatinamente, em oposição
polêmica contra as sinagogas dirigidas pelos fariseus; por outro lado, o
judaísmo, por sua vez, se distanciou oficialmente do fenômeno cristão,
excomungando-o, 'excluindo-o da sinagoga', por já não ser mais algo
autenticamente judaico. Nos evangelhos, Jesus de Nazaré, por assim dizer,
sumiu no fundo da polêmica entre 'Israel' , problema esse que Jesus, nessa
forma, não conheceu, e provavelmente não desejou" (pp. 15-16; grifos
meus).
Comentário: Certamente
não se vive hoje numa expectativa messiânica: o "grosso" da cultura
ocidental se afastou do ideal judaico-cristão; em outras palavras, muitíssimas
pessoas e mesmo cristãos (nominais) vivem como os romanos pagãos. E mesmo a
teologia e prática cristãs ordinárias muitas vezes abandonaram a tensão
escatológica em direção à Cidade de Deus, privilegiando a construção da
"cidade dos homens" (numa certa interpretação ou apropriação do
Concílio Vaticano II e do "diálogo com o mundo"). A pessoa humana,
contudo, deve ser reconduzida àquela experiência assinalada pelo autor, que
combina a finitude e o desejo de transcendência, para que possa ouvir e
entender o chamado de Deus.
Um problema que aparece aqui é a separação
artificial entre a "experiência original de salvação por Jesus" e as
vicissitudes doutrinárias e eclesiais dos primeiros cristãos. Não se justifica
dizer que "Jesus de Nazaré sumiu" na polêmica entre o judaísmo e a
Igreja, precisamente porque a separação se deu para que a salvação de Jesus brilhasse
além daquele contexto original. Toda a disputa da Igreja e seu afã por
distinguir-se foi para preservar e difundir aquela salvação. Aqui
já há uma estranha separação entre a obra de Jesus e a obra da Igreja, um
pressuposto implícito inaceitável para a fé (e para a teologia, portanto).
* * *
"Também de nossa própria história ocidental de
desgraças está brotando entre nós uma utopia, conforme sempre aconteceu. Essa
experiência concreta repercutiu em muitas formas de movimentos libertadores de
emancipação, movimentos que querem libertar a humanidade de suas alienações
sociais, enquanto diversas técnicas científicas [...] querem libertar as
pessoas de uma perda de identidade. Que fora de Jesus Cristo haja em nossa vida
numerosos fatores, que historicamente trazem de fato alguma salvação e efetivamente
curam ou completam o ser humano, é uma convicção que em nosso tempo, mais
do que nunca, se impôs como evidência. Esse fato coloca em contexto difícil e
pouco transparente, pelo menos estranho e inacreditável, a expressão: 'Toda
verdadeira salvação vem somente de Jesus Cristo'. Expressão que até pouco tempo
era candidamente usada em certos ambientes cristãos.
Enquanto isso, a crítica atual da cultura mostrou
que tal expectativa moderna de salvação [...] leva ela mesma a desvios e
alienações, pelo fato de se basear em conceito muito estreito do ser humano.
[...] Assim, a própria noção moderna de salvação fica sujeita a críticas.
Portanto, ficou bem claro que a falta de sintonia com o Novo Testamento não
deriva apenas do próprio Novo Testamento, mas também, e não menos
essencialmente, por uma falha na maneira como hoje entendemos a realidade e a
nós mesmos. Para a vida humana existem também fontes de libertação e salvação,
que não são científicas nem técnicas; é essa a nova compreensão científica de
hoje. Tanto assim que, paradoxalmente, toda espécie de vivências gratuitas,
inclusive as vivências religiosas, são reabilitadas como fatores de
salvação" (p. 18; grifos meus).
Comentário: O
homem não pode viver sem esperança; abandonada a grande esperança que nasce da
fé, abrir-se-á espaço para as esperanças terrenas ou as chamadas
"utopias". Ao mesmo tempo em que Schillebeeckx, junto com a cultura
atual, reconhece que estas expectativas (imanentistas) conduzem a alienações, o
que abre espaço para a reabilitação da religiosidade, nosso teólogo assume
ambiguamente que a salvação não viria total ou exclusivamente de Jesus
Cristo. E que uma afirmação contrária corresponderia a uma visão ingênua
("cândida") da salvação. Essa ambiguidade prossegue no texto que
continua:
"Em nosso tempo a noção religiosa de salvação,
em comparação com o Novo Testamento, ficou realmente empobrecida; foi obrigada
a ceder terreno a outras instâncias de salvação, real e visivelmente efetivas.
Tal situação traz para o centro da problemática atual esta pergunta: 'O que é
que serve realmente para o bem do ser humano?'
Pois constatamos que realmente deixa de estar
presente a possibilidade de acabarmos com toda espécie de alienação humana
através de ciências e técnicas [...] Surge daí a questão se não existe no ser
humano uma alienação mais profunda, conectada à sua finitude e à sua ligação
com a natureza [...] e se não existe, além disso, uma alienação em consequência
de culpa e pecado. De fato, a auto-redenção do ser humano continua sempre
limitada. E ai surge o problema novo: Não será exatamente essa a problemática
mais profunda que Jesus de Nazaré coloca em questão [...]?
Que toda salvação deva ser esperada somente de
Jesus Cristo, como muitas vezes tem sido afirmado por uma tradição cristã
representativa (sic), isso em todo caso é contestado por muitos fatos da
experiência atual e tem confundido muitos cristãos" (p. 19; grifos
meus).
Comentário: Há,
reitero, uma ambiguidade que consiste em constatar/descrever a visão dos homens
atuais, que contesta a exclusividade da salvação por meio de Jesus Cristo [a
qual foi reafirmada na declaração Dominus Iesus] e ao mesmo tempo não
negar que esta visão é errônea mas simplesmente indicar que há uma dimensão da
vida humana cuja salvação pertenceria somente a Cristo: aquela que corresponde
à alienação do pecado. Essa consideração é suficiente ou perfeitamente
correspondente à fé católica?
* * *
"Em nossa época, a sociedade ocidental já não
se sente como sendo o mundo inteiro, mas como pequena parte, muitas vezes por
demais pretensiosa, de um mundo humano bem maior. Além disso, este tem sofrido
dolorosamente as pretensões e práticas ocidentais, como também a declaração do
cristianismo: 'Em nenhum outro há salvação'. Ideia esta que encontra
resistência claramente perceptível: 'Imperialismo cristão'! é a censura sempre
ouvida, até mesmo e expressamente dos próprios ocidentais, que muitas vezes
julgam só poderem encontrar uma identidade pessoal distanciando-se do seu
próprio passado ocidental. [...] Uma reflexão cristã atual não pode deixar de
refletir criticamente sobre o problema da universalidade de Jesus, se não
quiser, de antemão, tornar-se suspeita de ser ideologia (sic)" (p.
20; grifos meus).
Comentário: Mais
uma vez a "universalidade" da salvação de Cristo é questionada. Não é
negada à primeira vista; diz-se que ela precisa ser refletida para que não
pareça ideológica...
* * *
"Com relação a 'Jesus de Nazaré' [...] não são
apenas pessoas pertencentes a uma Igreja que se interessam por Jesus de Nazaré.
[...] O Novo Testamento não é livro exclusivo da
cristandade. Esse documento de literatura é propriedade pública e pode ser
estudado historicamente. O conhecimento que dele resulta, e que pode ser
controlado por não-cristãos, fornece uma imagem de Jesus que pode também servir
de controle para as imagens que os fiéis fizeram a respeito dele no decurso do
tempo. De fato, um cristão não pode, soberanamente, ignorar tais pontos de
partida universalmente acessíveis para o conhecimento sobre Jesus. Com tais
pontos,o cristão pode enriquecer suas próprias ideias sobre o Cristo,
comparando-as e reformulando-as, se for preciso. Assim, o fato de que o
conhecimento sobre Jesus de Nazaré é acessível a todos presta um serviço à fé
dos cristãos, não como apologia, mas como confrontação crítica.
Essa interpretação extra-eclesial de Jesus tem
muitos aspectos. O filósofo marxista Roger Garaudy afirmou certa vez:
'Entregai-o a nós!' Devolvam Jesus de Nazaré também a nós (que somos
não-cristãos, ou mesmo ateus). Vocês, em suas Igrejas, não podem guardá-lo
somente para vocês'" (pp. 20-21; grifos meus).
Comentário: O
autor parece efetivamente reconhecer um valor do conhecimento "não
cristão" sobre Cristo, como se o mesmo pudesse de algum modo enriquecer a
fé dos fiéis. Como isso tem um sentido claramente verdadeiro quando se pensa na
filosofia grega clássica e suas "sementes do Verbo" (um conhecimento
"não cristão" que se referia implicitamente ao Logos Divino), a tese
do autor merece alguma atenção, embora não se possa estabelecer um paralelismo
perfeito entre os mundos antigo e o moderno em relação à fé: antes da
mesma havia um impulso em direção à Verdade cristã mas o mundo moderno enquanto
tal é um mundo cujos princípios filosóficos são incompatíveis com esta
(Verdade) e que formalmente se afasta da mesma (ainda que alguns de seus
desenvolvimentos possam ser úteis à compreensão da fé). Prossigamos...
* * *
"Quem hoje procura avaliar esse fenômeno do
ponto de vista da interpretação eclesiástica de Jesus, corre o perigo de
continuar cego, exatamente diante dos elementos em Jesus que são para muitos
significativa inspiração; enquanto pessoas da Igreja, durante séculos, não os
mencionaram ou simplesmente não os enxergaram. A interpretação sobre Jesus fora
das Igrejas chama a nossa atenção para o fato de que Jesus realmente tem algo a
dizer muito importante para todo ser humano (grifos do autor), pois é
significativo também para os não-cristãos. Isso coloca a questão da estreita
ligação entre o evangelho e tudo o que é religioso e humano. Além disso, a
interpretação eclesiástica sobre Jesus (grifos meus) -'nele a misericórdia
universal de Deus nos apareceu pessoalmente'- assim recebe talvez uma
atualização altamente moderna" (p. 21).
Comentário: Aqui
o autor contrapõe a "interpretação eclesiástica de Jesus" (sic) com
outras interpretações que jamais teriam sido mencionadas ou vistas pela Igreja!
Isso soa bastante estranho: porque tais visões sobre Jesus ou conduzem ao Cristo
anunciado pela Igreja, e então representariam uma verdadeira descoberta que vai
ao encontro do Evangelho, extraindo dele consequências que também a Igreja deve
assumir (e tais visões conduziriam as pessoas "de fora" para o
interior da Igreja, levando a ela os tesouros que lhe pertenceriam por
direito); ou contradizem esse Cristo e então não se pode saber exatamente em
que sentido poderiam representar uma "atualização" da mensagem
cristã... Jesus certamente importa a todo ser humano, precisamente porque é o
Salvador da humanidade. Mas o que o autor diz pode ser interpretado tanto no
sentido de que estes de fora são cristãos "anônimos" ou “membros
invisíveis da Igreja”, o que poderia ser, com algumas outras premissas,
reconduzido à Verdade cristã, ou que Jesus é o salvador universal mesmo que a
Igreja com sua visão "eclesiástica" (sic) não seja mais uma mediadora
necessária, o que é claramente errado.

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