Thursday, September 07, 2017

Teologia contemporânea (3): Edward Schillebeeckx

Edward Schillebeeckx, holandês, foi professor em Lovaina e perito do episcopado de seu país no Concílio Vaticano II. Aqui comento alguns extratos de: SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus: A história de um vivente. São Paulo: Paulus, 2008 (edição original de 1973).

O teólogo holandês escreveu seu livro "como uma interpretação cristã de Jesus, uma cristologia [...] não escrito para solucionar problemas sutis de teologia acadêmica [...] [mas como] uma ponte sobre a ruptura entre a teologia acadêmica e a necessidade concreta dos fiéis [...] [para] esclarecer a problemática que precede aquela ruptura" (p. 7).

Trata-se, na cristologia do autor, de entender por que "a salvação de Deus é dada única e exclusivamente em Jesus" (p. 11).

"Ideias e expectativas de salvação e felicidade humana sempre são projetadas a partir de uma realidade concretamente experimentada e refletida de desgraça, sofrimento, miséria e alienação, a partir de experiências negativas, acumuladas numa história secular de sofrimento, permeada de lampejos de de experiências cheias de promessas de felicidade, experiências parciais de salvação numa história, através de muitas gerações de expectativas não realizadas, de culpa e de maldade: é o problema de Jó, através da nossa história humana. Disso nasce então, com o tempo, um projeto antropológico, uma visão do que seria o ideal de uma humanidade verdadeira, feliz e boa. Os desejos ardentes de felicidade e salvação, sempre de novo sujeitos a críticas, porém sempre sobrevivendo a qualquer crítica, vão inevitavelmente assumindo, em diversas formas, o profundo matiz de 'ser salvo de...' ou 'ser libertado de...' e ao mesmo tempo de entrar num 'mundo inteiramente novo'. As experiências negativas e contrastantes da humanidade esboçam assim as ideias e expectativas positivas sobre a salvação de um povo. Das suas ideias a respeito de salvação podemos, por assim dizer, deduzir a história dos sofrimentos de um povo, mesmo quando não podemos mais seguir, por outras fontes, o trajeto exato desse sofrimento" (pp. 13-14).

Comentário: A ideia do autor é de que a perspectiva da "salvação" se insere e se compreende a partir de um contexto no qual há uma dialética entre as experiências opostas de desgraça e de promessa de esperança. Só pode desejar "ser salvo" quem vive, por um lado, uma experiência humana negativa (que pela fé sabemos ser fruto do pecado) e, por outro, vê essa experiência como não terminativa (já que a natureza humana, apesar da queda, segue fundamentalmente boa e chamada à felicidade sobrenatural). Parece-me uma perspectiva realista e válida. Os protestantes salientam a experiência de negatividade, muitos contemporâneos só vêem o positivo da experiência humana, e o Cristo como alguém que vem simplesmente "coroá-la" (até o grande Xavier Zubiri tem essa tendência, ao acentuar, na sua doutrina da "religação" ontológica, a fundamentação conservadora de Deus, sem se preocupar muito em aprofundar acerca da questão da religação "aversiva" à qual alude).

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"A própria expectativa deles [os primeiros cristãos] sobre salvação e o alegre reconhecimento de que ela se cumpriu em Jesus, não se encontram separadamente nos evangelhos. As duas linhas se acham entrelaçadas, quase inextrincavelmente. A pergunta pela verdadeira essência do ser humano, e a resposta encontrada no homem histórico Jesus, são correlativas, no sentido de que não são as anteriores expectativas de salvação que determinam quem é Jesus; ao contrário, a partir da história própria e muito pessoal de Jesus, as expectativas existentes de salvação foram reassumidas, sim, mas ao mesmo tempo transformadas, recunhadas e corrigidas. O fato mostra que ao mesmo tempo existe continuidade e descontinuidade entre a busca humana de salvação e a resposta concreta, histórica, que é Jesus" (p. 15; grifo do autor).

Comentário: O autor escreve bem a respeito de como Jesus supera nossas expectativas: o que Ele nos traz é mais do que podemos humanamente esperar; nossa esperança é redimensionada e dirigida à beatitude sobrenatural que não podemos imaginar antes do regime explícito da Graça. Também hoje Jesus tem algo a dizer ao homem, redimensionando suas esperanças tantas vezes imanentistas, ou recobrando a esperança escatológica esquecida por tantos cristãos (mas veja-se o próximo trecho).

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"Uma primeira leitura do Novo Testamento nos coloca grandes problemas. Nós não vivemos dentro de uma tradição que esteja esperando um messias ou um misterioso Filho do Homem celestial; nem tampouco vivemos na expectativa de um fim iminente deste mundo. Nos evangelhos somos confrontados, não apenas com Jesus de Nazaré, mas também com pedaços de uma cultura religiosa antiga. Nessas narrativas, de fato, Jesus está encoberto por ideias religiosas da época, ideias aliás não estranhas a ele mesmo. Além disso, nos evangelhos, a experiência original de salvação por Jesus ainda está misturada também com problemas doutrinários e práticos das comunidades cristãs posteriores. Tendo sido inicialmente comunidades dentro do judaísmo (ao lado de muitas outras), foram depois se separando dele, paulatinamente, em oposição polêmica contra as sinagogas dirigidas pelos fariseus; por outro lado, o judaísmo, por sua vez, se distanciou oficialmente do fenômeno cristão, excomungando-o, 'excluindo-o da sinagoga', por já não ser mais algo autenticamente judaico. Nos evangelhos, Jesus de Nazaré, por assim dizer, sumiu no fundo da polêmica entre 'Israel' , problema esse que Jesus, nessa forma, não conheceu, e provavelmente não desejou" (pp. 15-16; grifos meus).

Comentário: Certamente não se vive hoje numa expectativa messiânica: o "grosso" da cultura ocidental se afastou do ideal judaico-cristão; em outras palavras, muitíssimas pessoas e mesmo cristãos (nominais) vivem como os romanos pagãos. E mesmo a teologia e prática cristãs ordinárias muitas vezes abandonaram a tensão escatológica em direção à Cidade de Deus, privilegiando a construção da "cidade dos homens" (numa certa interpretação ou apropriação do Concílio Vaticano II e do "diálogo com o mundo"). A pessoa humana, contudo, deve ser reconduzida àquela experiência assinalada pelo autor, que combina a finitude e o desejo de transcendência, para que possa ouvir e entender o chamado de Deus.

Um problema que aparece aqui é a separação artificial entre a "experiência original de salvação por Jesus" e as vicissitudes doutrinárias e eclesiais dos primeiros cristãos. Não se justifica dizer que "Jesus de Nazaré sumiu" na polêmica entre o judaísmo e a Igreja, precisamente porque a separação se deu para que a salvação de Jesus brilhasse além daquele contexto original. Toda a disputa da Igreja e seu afã por distinguir-se foi para preservar e difundir aquela salvação. Aqui já há uma estranha separação entre a obra de Jesus e a obra da Igreja, um pressuposto implícito inaceitável para a fé (e para a teologia, portanto).

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"Também de nossa própria história ocidental de desgraças está brotando entre nós uma utopia, conforme sempre aconteceu. Essa experiência concreta repercutiu em muitas formas de movimentos libertadores de emancipação, movimentos que querem libertar a humanidade de suas alienações sociais, enquanto diversas técnicas científicas [...] querem libertar as pessoas de uma perda de identidade. Que fora de Jesus Cristo haja em nossa vida numerosos fatores, que historicamente trazem de fato alguma salvação e efetivamente curam ou completam o ser humano, é uma convicção que em nosso tempo, mais do que nunca, se impôs como evidência. Esse fato coloca em contexto difícil e pouco transparente, pelo menos estranho e inacreditável, a expressão: 'Toda verdadeira salvação vem somente de Jesus Cristo'. Expressão que até pouco tempo era candidamente usada em certos ambientes cristãos.

Enquanto isso, a crítica atual da cultura mostrou que tal expectativa moderna de salvação [...] leva ela mesma a desvios e alienações, pelo fato de se basear em conceito muito estreito do ser humano. [...] Assim, a própria noção moderna de salvação fica sujeita a críticas. Portanto, ficou bem claro que a falta de sintonia com o Novo Testamento não deriva apenas do próprio Novo Testamento, mas também, e não menos essencialmente, por uma falha na maneira como hoje entendemos a realidade e a nós mesmos. Para a vida humana existem também fontes de libertação e salvação, que não são científicas nem técnicas; é essa a nova compreensão científica de hoje. Tanto assim que, paradoxalmente, toda espécie de vivências gratuitas, inclusive as vivências religiosas, são reabilitadas como fatores de salvação" (p. 18; grifos meus).

Comentário: O homem não pode viver sem esperança; abandonada a grande esperança que nasce da fé, abrir-se-á espaço para as esperanças terrenas ou as chamadas "utopias". Ao mesmo tempo em que Schillebeeckx, junto com a cultura atual, reconhece que estas expectativas (imanentistas) conduzem a alienações, o que abre espaço para a reabilitação da religiosidade, nosso teólogo assume ambiguamente que a salvação não viria total ou exclusivamente de Jesus Cristo. E que uma afirmação contrária corresponderia a uma visão ingênua ("cândida") da salvação. Essa ambiguidade prossegue no texto que continua:

"Em nosso tempo a noção religiosa de salvação, em comparação com o Novo Testamento, ficou realmente empobrecida; foi obrigada a ceder terreno a outras instâncias de salvação, real e visivelmente efetivas. Tal situação traz para o centro da problemática atual esta pergunta: 'O que é que serve realmente para o bem do ser humano?'

Pois constatamos que realmente deixa de estar presente a possibilidade de acabarmos com toda espécie de alienação humana através de ciências e técnicas [...] Surge daí a questão se não existe no ser humano uma alienação mais profunda, conectada à sua finitude e à sua ligação com a natureza [...] e se não existe, além disso, uma alienação em consequência de culpa e pecado. De fato, a auto-redenção do ser humano continua sempre limitada. E ai surge o problema novo: Não será exatamente essa a problemática mais profunda que Jesus de Nazaré coloca em questão [...]?

Que toda salvação deva ser esperada somente de Jesus Cristo, como muitas vezes tem sido afirmado por uma tradição cristã representativa (sic), isso em todo caso é contestado por muitos fatos da experiência atual e tem confundido muitos cristãos" (p. 19; grifos meus).

Comentário: Há, reitero, uma ambiguidade que consiste em constatar/descrever a visão dos homens atuais, que contesta a exclusividade da salvação por meio de Jesus Cristo [a qual foi reafirmada na declaração Dominus Iesus] e ao mesmo tempo não negar que esta visão é errônea mas simplesmente indicar que há uma dimensão da vida humana cuja salvação pertenceria somente a Cristo: aquela que corresponde à alienação do pecado. Essa consideração é suficiente ou perfeitamente correspondente à fé católica?

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"Em nossa época, a sociedade ocidental já não se sente como sendo o mundo inteiro, mas como pequena parte, muitas vezes por demais pretensiosa, de um mundo humano bem maior. Além disso, este tem sofrido dolorosamente as pretensões e práticas ocidentais, como também a declaração do cristianismo: 'Em nenhum outro há salvação'. Ideia esta que encontra resistência claramente perceptível: 'Imperialismo cristão'! é a censura sempre ouvida, até mesmo e expressamente dos próprios ocidentais, que muitas vezes julgam só poderem encontrar uma identidade pessoal distanciando-se do seu próprio passado ocidental. [...] Uma reflexão cristã atual não pode deixar de refletir criticamente sobre o problema da universalidade de Jesus, se não quiser, de antemão, tornar-se suspeita de ser ideologia (sic)" (p. 20; grifos meus).

Comentário: Mais uma vez a "universalidade" da salvação de Cristo é questionada. Não é negada à primeira vista; diz-se que ela precisa ser refletida para que não pareça ideológica...

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"Com relação a 'Jesus de Nazaré' [...] não são apenas pessoas pertencentes a uma Igreja que se interessam por Jesus de Nazaré.

[...] O Novo Testamento não é livro exclusivo da cristandade. Esse documento de literatura é propriedade pública e pode ser estudado historicamente. O conhecimento que dele resulta, e que pode ser controlado por não-cristãos, fornece uma imagem de Jesus que pode também servir de controle para as imagens que os fiéis fizeram a respeito dele no decurso do tempo. De fato, um cristão não pode, soberanamente, ignorar tais pontos de partida universalmente acessíveis para o conhecimento sobre Jesus. Com tais pontos,o cristão pode enriquecer suas próprias ideias sobre o Cristo, comparando-as e reformulando-as, se for preciso. Assim, o fato de que o conhecimento sobre Jesus de Nazaré é acessível a todos presta um serviço à fé dos cristãos, não como apologia, mas como confrontação crítica.

Essa interpretação extra-eclesial de Jesus tem muitos aspectos. O filósofo marxista Roger Garaudy afirmou certa vez: 'Entregai-o a nós!' Devolvam Jesus de Nazaré também a nós (que somos não-cristãos, ou mesmo ateus). Vocês, em suas Igrejas, não podem guardá-lo somente para vocês'" (pp. 20-21; grifos meus).

Comentário: O autor parece efetivamente reconhecer um valor do conhecimento "não cristão" sobre Cristo, como se o mesmo pudesse de algum modo enriquecer a fé dos fiéis. Como isso tem um sentido claramente verdadeiro quando se pensa na filosofia grega clássica e suas "sementes do Verbo" (um conhecimento "não cristão" que se referia implicitamente ao Logos Divino), a tese do autor merece alguma atenção, embora não se possa estabelecer um paralelismo perfeito entre os mundos antigo e o moderno em relação à fé: antes da mesma havia um impulso em direção à Verdade cristã mas o mundo moderno enquanto tal é um mundo cujos princípios filosóficos são incompatíveis com esta (Verdade) e que formalmente se afasta da mesma (ainda que alguns de seus desenvolvimentos possam ser úteis à compreensão da fé). Prossigamos...

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"Quem hoje procura avaliar esse fenômeno do ponto de vista da interpretação eclesiástica de Jesus, corre o perigo de continuar cego, exatamente diante dos elementos em Jesus que são para muitos significativa inspiração; enquanto pessoas da Igreja, durante séculos, não os mencionaram ou simplesmente não os enxergaram. A interpretação sobre Jesus fora das Igrejas chama a nossa atenção para o fato de que Jesus realmente tem algo a dizer muito importante para todo ser humano (grifos do autor), pois é significativo também para os não-cristãos. Isso coloca a questão da estreita ligação entre o evangelho e tudo o que é religioso e humano. Além disso, a interpretação eclesiástica sobre Jesus (grifos meus) -'nele a misericórdia universal de Deus nos apareceu pessoalmente'- assim recebe talvez uma atualização altamente moderna" (p. 21).


Comentário: Aqui o autor contrapõe a "interpretação eclesiástica de Jesus" (sic) com outras interpretações que jamais teriam sido mencionadas ou vistas pela Igreja! Isso soa bastante estranho: porque tais visões sobre Jesus ou conduzem ao Cristo anunciado pela Igreja, e então representariam uma verdadeira descoberta que vai ao encontro do Evangelho, extraindo dele consequências que também a Igreja deve assumir (e tais visões conduziriam as pessoas "de fora" para o interior da Igreja, levando a ela os tesouros que lhe pertenceriam por direito); ou contradizem esse Cristo e então não se pode saber exatamente em que sentido poderiam representar uma "atualização" da mensagem cristã... Jesus certamente importa a todo ser humano, precisamente porque é o Salvador da humanidade. Mas o que o autor diz pode ser interpretado tanto no sentido de que estes de fora são cristãos "anônimos" ou “membros invisíveis da Igreja”, o que poderia ser, com algumas outras premissas, reconduzido à Verdade cristã, ou que Jesus é o salvador universal mesmo que a Igreja com sua visão "eclesiástica" (sic) não seja mais uma mediadora necessária, o que é claramente errado.



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