Capítulo “Veracidade” de: Dietrich von
Hildebrand, Atitudes éticas fundamentais.
2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1995, pp. 32-41 (Temas cristãos):
“Entre os pressupostos fundamentais da
vida realmente moral da pessoa, figura também a veracidade. Um homem insincero, mentiroso, não é apenas portador
de uma grande desvalia moral, como o avarento ou o intemperante; toda a sua
personalidade está doente, toda a sua vida ética, tudo o que nele possa haver
de moralmente positivo está ameaçado, tudo é problemático. A sua atitude
perante o mundo dos valores como um todo foi atingida no nervo vital.
O mentiroso não tem respeito pelos
valores. Arrogando-se uma posição de soberania,
põe e dispõe de tudo o que existe como se se tratasse de uma quimera, como se
fosse um joguete do seu arbítrio. Ao valor inerente ao que simplesmente existe,
nega a dignidade que o existente possui em confronto com o nada,
recusa-lhe reconhecimento e resposta. O direito originário que todas as coisas
têm de serem reconhecidas na sua integridade, o dever de não ter por branco o
que é preto, de não ocultar um fato – tudo são coisas com que o mentiroso não
se entende. Comporta-se com o existente como se não existisse.
É evidente a espécie de atitude que temos
aqui, especialmente desrespeitosa, arrogante, atrevida. Tratar um homem como se
fosse vento, como se não existisse – eis aí talvez a máxima insolência e
desprezo. Pois é essa a atitude que o indivíduo falto de veracidade adota
perante o mundo. O louco não se importa com o que existe, porque não o capta
como tal. Mas o mentiroso capta-o perfeitamente, negando-lhe porém a resposta à
sua dignidade e ao seu valor, sempre que lhe convém ou que lhe é agradável. A
sua ignorância da criação é uma ignorância conscientemente culposa.
O mentiroso, de certa maneira, considera o
mundo inteiro como instrumento a serviço dos seus fins; tudo o que existe está
aí, simplesmente, à sua disposição; se não precisa de utilizá-lo, trata-o como
não existente ou dá-lhe esse rótulo.
Na falta de veracidade cumpre distinguir
três espécies.
A primeira é a daqueles que se propõem
enganar os outros por algum interesse egoísta. Referimo-nos ao mentiroso astuto, que não se importa
nada de afirmar o contrário da verdade, desde que lhe convenha aos objetivos.
Estamos em face de um homem consciente do seu propósito, que mente e engana os
outros para atingir o seu fito, à maneira de um Iago no Otelo de Shakespeare, ou de um Franz Moor nos Bandoleiros de Schiller; no caso dessas personagens, é verdade,
ainda acresce à finalidade da mentira uma maldade particular, que não é
essencial ao puro e simples mentiroso. Com efeito, há também mentirosos cujos
fins são inofensivos.
A segunda é a daqueles que se enganam a si mesmos, vivendo na
ilusão. Trata-se do mentiroso que só mente aos outros porque primeiro mente a
si mesmo. É o caso do homem que refuga sem mais tudo o que de difícil ou
desagradável encontra na vida; que, além de fazer de conta que não vê, como o
avestruz, tenta convencer-se de que a coisa é outra, ou de que fará isto ou
aquilo, muito embora não possa deixar de saber que lhe faltam forças para
tanto; que não admite os seus próprios erros; que, ao deparar com situações
humilhantes ou de alguma forma penosas, teima em torcê-las, de modo que percam
a sua aspereza.
É patente o que caracteriza esta espécie
de falsidade, se a confrontarmos com a do hipócrita e mentiroso. O embuste
dirige-se sobretudo contra ele próprio, e só indiretamente contra os outros.
Enganando-se a si mesmo, acaba por embair [iludir] os outros como que de boa fé. Não é
consciente do seu propósito, como o mentiroso típico, nem tem a sua maldade,
astúcia, vilania, pelo menos o mais das vezes. Desperta-nos muitas vezes
compaixão. Mas nem por isso fica isento de culpa, pois recusa-se a responder ao
valor e à dignidade do existente, arrogando-se também uma superioridade que não
lhe compete.
Decerto, não se deixa dominar por uma
insolência específica; e um resto de respeito pela verdade torna-lhe impossível
ignorá-la ou deturpá-la propositada e abertamente. Teme semelhante
responsabilidade: falta-lhe a coragem do hipócrita, e ladeia através da ilusão
o conflito entre comodidade e respeito pela verdade. Tem algo de covarde e de
fraco. Em vez da astúcia e da manha premeditada do mentiroso, o que nele
subsiste é mais uma manha instintiva.
O mentiroso deliberado e astuto da primeira espécie não nega o fato de mentir.
Mas este outro, que vive na ilusão, nega precisamente que esteja passando por
alto a verdade. E, enquanto deturpa e tergiversa esse fato, nas suas mentiras
não se dá conta do conflito com a verdade.
A não ser no caso do fingimento do
fariseu, que não vê a trave nos seus olhos – fingimento mau no mais profundo
sentido do termo –, esta segunda espécie de falsidade costuma ser menos
maliciosa. As suas consequências sobre a totalidade da vida ética são, no
entanto, incalculáveis. Os homens em quem ela se dá não podem ser levados a sério. Por mais que se comportem com
correção moral nalguns casos isolados, quando não está em jogo a sua soberba ou
cobiça, basta que os valores lhes exijam qualquer coisa de desagradável para
que, mesmo sem perceberem claramente essa exigência, se afastem dela, porque
logo se iludem, como se por qualquer razão essa exigência não lhes dissesse respeito, ou fosse apenas aparente, ou já a tivessem acatado.
Nestes homens, a vida da alma assemelha-se
a areia movediça; nunca os podemos apanhar, escapam-nos sempre. No mentiroso
consciente, ainda que moralmente seja muito negativo, é mais fácil uma
conversão do que nestes defraudadores de
si mesmos. Estes últimos, com efeito, estão mais doentes da alma, o seu mal
tem a sua sede numa camada psicologicamente mais profunda. Vivem num mundo de
ilusões. Ainda assim, a sua falsidade, em todo o caso culposa, pode-se apagar
através de uma livre e derradeira conversão, através de uma ruptura que se
traduza numa consagração sacrificada, incondicional, ao mundo dos valores.
Na terceira espécie aludida, enquadram-se
aqueles que, sem o propósito de enganar, pecam por falta de autenticidade. Aqui, embora o corte com a verdade seja
menos culposo ainda, é talvez mais profundo. Seu tipo é o do homem que é
incapaz de sentir verdadeira alegria, entusiasmo autêntico, amor autêntico, e
cujas atitudes estão marcadas inteiramente pelo caráter da aparência, do puro
‘como se’. Estes homens não querem mistificar e iludir os outros, e também não
mentem a si mesmos; mas não conseguem estabelecer nenhum contato real e
verdadeiro com o mundo porque, aprisionados no seu ‘eu’, sempre olham para si
mesmos, ainda que de través, viciando assim o conteúdo das suas atitudes. O seu
erro já não se estriba na deturpação do existente, na falta de correspondência
à sua dignidade, mas num egocentrismo geral,
que tira ao seu comportamento a vida interior e converte todo o seu ser numa
aparência.
Trata-se desses homens indefinidos, cujas
atitudes são objetivamente ‘inautênticas’, cuja alegria e tristeza são
artificiais. A falsidade, aqui, reside em que nada no seu comportamento é
motivado pelo objeto; apesar das suas pretensões, comportam-se teatralmente, e
as suas atitudes não passam de um simulacro oco.
Esta inautenticidade pode manifestar-se de
muitas maneiras e sobretudo numa extensão muito ampla e variável. É própria do
homem afetado, cuja conduta externa,
não sendo, efetivamente simulada, é porém muito pouco natural, fictícia. Dá-se
no homem sugestionável, cujas
opiniões e convicções são apenas as que os outros lhe impõem, para as repetir,
ratificando-as, sem nunca se definir por coisa alguma com base na realidade das
coisas. É própria do indivíduo exagerado,
que em tudo está subindo de ponto, na sua tristeza, na sua alegria, no seu
amor, no seu ódio, no seu entusiasmo, os quais agiganta artificialmente porque
se delicia nessas atitudes.
Neste tipo há menos malícia ainda que no
dos que mentem a si mesmos, mas não se vê nele nenhum fundamento donde possa
nascer uma vida moral. Tudo nesses homens é inválido, o bem e o mal; tudo é
irreal, tudo se reduz a uma frase, a uma aparência, a um nada. Também esta
falsidade substancial é muito profundamente culposa, pois deriva de uma atitude
fundamental de soberba.
Quem é realmente verdadeiro contrapõe-se a
qualquer desses três tipos de falsidade. É autêntico, não mente a si mesmo e
não mente aos outros. Respeitando profundamente a majestade de tudo o que
existe, entende a exigência fundamental do valor que lhe é inerente, para o
reconhecer na sua consistência, para lhe corresponder como sinal da verdade que representa, e não para montar um mundo de
aparência e nulidade.
O homem veraz corresponde à sua situação
metafísica de homem, situação que não lhe proporciona onipotência alguma, como
se o existente, qual pura quimera, tivesse que ceder aos seus desejos; isto é,
tem exatamente em conta a verdade, não apenas em relação às coisas e fatos
singulares que se lhe oferecem como objeto ao espírito, mas também em relação à sua posição enquanto homem no seio do
mundo. Entende a íntima rebelião contra o mundo dos valores – em última
análise contra Deus – que se esconde
em toda a falsidade. Compreende a responsabilidade que todo o homem tem, como
pessoa espiritual, em face da verdade, e que traduz na necessidade de
reproduzir a realidade nas suas declarações; compreende a solenidade inerente a qualquer afirmação, dado que nas suas
afirmações o homem é chamado a dar testemunha da verdade.
O homem veraz põe a exigência dos valores
acima de todos os desejos subjetivos que o seu egoísmo, a sua comodidade lhe
inspira. Detesta por isso toda a ilusão, apercebe-se perfeitamente da fuga
covarde à exigência objetiva do mundo dos valores, chegando mesmo a preferir a
verdade amarga a qualquer felicidade imaginária. Para ele, está perfeitamente
claro todo o sem-sentido de qualquer fuga par ao mundo das aparências, a completa
inutilidade e impotência da ilusão, o seu vazio e futilidade.
Homem veraz é, finalmente, o homem em quem
toda as posições tomadas e todo o comportamento são reais; o homem que não enfeita nem exagera o que há nele, que não
olha de través para si nem para os assuntos que lhe estão a exigir uma
resposta. É o modelo da lisura, é –
sem tirar nem pôr – o homem objetivo no
mais alto sentido da palavra, aquele que na sua atitude fundamental é senhor de
uma autêntica consagração aos valores, aquele que se conserva livre de si e da
própria soberba, com uma liberdade que
nunca o arrasta a usurpar no mundo uma posição diferente da que objetivamente
lhe compete, e que, na sua pessoa, não concede às vivências um lugar diferente
daquele que na verdade possuem, nem lhes imprime outro caráter.
O homem veraz não compensa nenhum sentimento de inferioridade. A interdependência
entre veracidade e humildade, que se traduz na conhecida frase ‘a humildade é a
verdade’, verifica-se também na ordem inversa: só o humilde é realmente
verdadeiro. Em toda a atitude de soberba, de ‘querer ser outra coisa’ – não,
naturalmente, no ‘querer vir a ser
outra coisa’, dentro dos limites que, por princípio, afetam o homem –, reside a
fonte de toda a inautenticidade e falsidade. O mais profundo ‘sim’ à verdade,
ao existente, é o fundamento da autenticidade e da veracidade.
Isto é amiúde mal entendido, tendo-se por especialmente
verdadeiro o indivíduo pessimista, o cético, o homem que não reconhece nenhuma
realidade acima da que lhe é palpável, o fatalista, que abdica de qualquer
intervenção modificadora do mundo e já não espera nenhum progresso e
desenvolvimento. Seria um mal-entendido rotundo. Pelo contrário, todos esses
tipos têm também o seu quê de falsidade.
O seu ‘sim’ é um sim dito apenas a um
recorte do existente, não ao existente na sua total plenitude. Não reconhecem o
mundo do bem, da justiça, da dedicação, e a promessa de desenvolvimento, de
modificação, de elevação do próprio ser que palpita nessas exigências;
desconhecem o sentido do homem e do
mundo, que sem dúvida pertence ao existente tanto como as pedras do chão ou o
ar que respiramos. Assim, não são pelo menos inteiramente verazes, porque dão o
seu ‘sim’ apenas à superfície da criação e não à sua camada mais profunda e própria.
No não-valor especial da mentira,
representante clássica da falsidade, temos uma multiplicidade de elementos a
considerar. Em primeiro lugar, a rebelião
contra a dignidade do existente enquanto tal, a arrogância insolente, a
ignorância da exigência elementar de corresponder ao existente com as
declarações que se fazem, o abuso da
condição de testemunhas do existente que nos é confiada na palavra.
Em segundo lugar, o engano de outrem que a mentira comporta. Verifica-se nisso uma
última desatenção, um não levar o próximo a sério. É uma ignorância do valor
inerente a cada homem enquanto pessoa espiritual, um passar por algo a sua
dignidade, o direito primordial que ele tem à verdade. É sobretudo um fundo desamor e um abuso da confiança que nos
manifestam. É o que se verifica em qualquer engano propositado enquanto tal e
tomado em si mesmo; mas muito especialmente no engano por meio de uma
declaração falsa. Porque, pela sua forma, a comunicação produz-se tão
expressamente de pessoa para pessoa, está-se nela tão expressamente em face do
outro como um ‘tu’, é tão penetrante o apelo com que essa comunicação se dirige
à confiança de homem para homem, que
o desamor e a traição aos outros se tornam aqui mais crus e evidentes do que no
engano por meio de um discurso equívoco ou de um comportamento enganoso.
Todavia, há casos em que o engano como tal
pode ser permitido e até necessário. É permitido se, por exemplo, um criminoso
nos persegue e o enganamos como quer que seja sobre o nosso paradeiro. É
necessário se, comunicando a verdade, pudéssemos prejudicar gravemente alguém,
no corpo ou na alma. Só que, nesta hipótese, não há qualquer desamor; pelo
contrário, há uma consideração cheia de amor.
Em qualquer desses casos, porém, só se
pode enganar mediante o silêncio, por meio de expressões ambíguas, pelo
comportamento, nunca através da mentira. Com efeito, o não-valor que a mentira
possui radicalmente – enquanto abuso da nossa qualidade de testemunhas da
verdade, enquanto insolente desatenção à dignidade de tudo o que existe – é de
tal magnitude que nenhuma situação do mundo nos poderia permitir passá-la por
alto. Mesmo que a consideração por outro homem exija um engano, impõe-se
desistir do engano, caso redunde necessariamente numa mentira.
A veracidade é, como o respeito, a
constância ou fidelidade e o senso de responsabilidade, um alicerce de toda a
vida moral. Como estas virtudes, encerra um alto valor e, como elas, é
igualmente pressuposto fundamental e imprescindível de uma personalidade em que
floresça a plenitude de autênticos valores éticos.
É o que se confirma em todas as esferas da
vida. A veracidade é o alicerce de toda a autêntica vida comunitária, das
relações de homem para homem, de todo o verdadeiro amor, de qualquer trabalho
profissional, do conhecimento autêntico, da auto-educação e das relações do
homem com Deus.
Sim, há um elemento básico de veracidade,
especialmente no fundo primordial de todo o ser que se relaciona com Deus.
Porque, no seu núcleo último, a falsidade significa negar a Deus, fugir de Deus”.
"Verdade e Justiça" (1669), de Melchior Balther

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