Introdução
De um modo inicial, podemos dizer que
“autêntica” é a vida “sincera”, “sem máscaras”, “verdadeira”; a vida que é
“própria”, e não “alienada”. Xavier Zubiri (1898-1983), importante filósofo
espanhol contemporâneo, disse, acerca da realidade humana, que o mais próprio
dela é ser “própria”! Ele chama a “pessoa” de “suidade” (um neologismo),
realidade que é explicitamente “sua” realidade. Este caráter pessoal requer ser
atualizado pela “apropriação” de possibilidades reais, perfazendo nossa
“personalidade”. “Que vai ser de mim?” e “Que vou fazer de mim?” são as
perguntas feitas por toda pessoa que busca uma vida autêntica. A antropologia
filosófica de Zubiri é um intento de trazer alguma luz para essa constitutiva
inquietude inquiridora da vida.
Seguiremos aqui os seguintes passos: na primeira parte desta nossa exposição, veremos em que consiste o ser humano e seu caráter “pessoal” segundo Zubiri; em seguida, o caráter de “inquietude” desta vida pessoal, tomando a história do filme Show de Truman como ilustração para o nosso problema; finalmente, assistiremos, na parte conclusiva, as cenas finais do filme referido, e refletiremos sobre a resposta pessoal intransferível que cada um de nós deve dar às questões levantadas por Zubiri.
1. A pessoa humana
Desde sempre, a filosofia caracterizou o
homem como um ser “racional” ou “inteligente”. Na Modernidade, a filosofia
idealista encerrou de tal modo o homem em sua mente, que mesmo as perspectivas
materialistas derivadas do pensamento moderno revelam um certo desprezo pela
condição corpórea: uma das consequências disso, por exemplo, é a falta de
reconhecimento da humanidade dos nascituros, nos quais já se pode reconhecer
uma base genética humana desde o primeiro instante de sua existência; ou o
curioso e paradoxal “espiritualismo”, que é, mais ou menos conscientemente, a
condição de possibilidade para se pensar a ideia de “gênero” à parte da
anatomia e da fisiologia humanas. Certamente, muitas concepções contemporâneas
resgataram o valor da corporeidade na existência humana. Uma dessas concepções
é a de Xavier Zubiri, filósofo espanhol que nos legou uma peculiar visão sobre
a inteligência humana como “inteligência senciente”. Antes de entrar em sua
filosofia, um breve relato biográfico.
Zubiri nasceu em 1898, ordenou-se sacerdote
e doutorou-se em filosofia com uma tese orientada por José Ortega y Gasset sobre
o pensamento de Edmund Husserl, o pai do método fenomenológico em filosofia. Foi
admitido como professor catedrático de História da Filosofia na Universidad de
Madrid. Depois de um momento conturbado em sua vida (havia se ordenado padre
sob pressão familiar), solicitou sua secularização e se casou com Carmen Castro
na Igreja Católica, momento em que verdadeiramente experimentou uma profunda
conversão, como relatado por seus biógrafos. Ao não querer se submeter às
exigências do governo espanhol, de lecionar em Barcelona, e também por estar
descontente com o regime franquista, deixou a academia e passou a oferecer
cursos privados, de onde têm saído grande parte de sua obra póstuma. Ele
faleceu em 1983. Em vida, publicou Natureza,
História, Deus (traduzido ao português), Sobre la esencia, Cinco
Lições de Filosofia (traduzido ao português), e a trilogia Inteligência senciente (traduzida ao
português).
Segundo Zubiri, o próprio da inteligência
é “apreender a realidade” já nas percepções sensíveis: a inteligência é
“senciente”, não é um “segundo andar” justaposto à sensibilidade, mas a
apreensão do caráter “real” dos conteúdos sensíveis ou empíricos, e não apenas a
conceituação ou construção lógica e racional posterior. Em outras palavras,
nossos sentidos são “intelectivos”: sente-se o conteúdo sensível e intelige-se
a “formalidade de realidade”, isto é, que as coisas são algo de suyo e não da inteligência. Em
espanhol, diz-se de suyo para
significar uma característica própria de algo: el calor es de suyo caliente. Zubiri tornou a expressão um termo
técnico, para indicar que na percepção atenta mesma nós vemos que o visto não é
algo feito pela nossa inteligência; do contrário, jamais o conceituaríamos,
julgaríamos, pensaríamos acerca dele, mas simplesmente reagiríamos como a um
estímulo, a um signo de resposta, como os animais não humanos em seu “puro
sentir”. Certamente, grande parte de nossas sensações não constituem sentires
inteligentes, mas somente aquelas em que nos damos conta atentamente do que é
sentido, pois é nelas que é suspensa a resposta pronta de índole animal. Esta
apreensão da realidade ou “apreensão primordial da realidade” não é uma
intelecção pontual ou primeira cronologicamente, mas é o pano de fundo
permanente de todo discurso, raciocínio filosófico, experiência científica,
construção artística, etc. Julgo que corresponde ao sentido correto da
“abstração” aristotélica, que não deve ser confundida, como se faz a partir dos
modernos empiristas, com a “conceituação”: abstrair ou apreender a realidade é
captar a formalidade real a ser conceituada, julgada, pensada, teorizada, etc.
Apreende-se antes o “essenciado”, para que se possa depois, conceber e afirmar
as definições nominais, investigar racionalmente as essências ou porquês ou
razões ou causas profundas. Todo o drama dos modernos é o esquecimento do
sentido autêntico da abstração e sua transformação em “conceituação”, com a
consequente transformação da “forma” em ideia lógica. Tanto o chamado
“empirismo”, que é a concepção moderna que entende que as ideias nascem da
experiência sensível, quanto o chamado “racionalismo”, que entende que as ideias
são inatas, são, nesse sentido, “idealistas”: a verdade nasceria da concepção
da mente. Para os empiristas, a ideia é uma imagem esvanecida (seja em Hobbes,
seja em Locke ou em Hume), e para os racionalistas, a ideia é um construto
ideal a modo matemático (cujo paradigma é o cogito
cartesiano); os empiristas são, antes, “sensualistas”, porque a realidade é
reduzida ao momento sensível, e os racionalistas são, antes, “conceitualistas”,
porque a realidade é reduzida aos conceitos claros e distintos forjados pela
mente. Tal ignorância da abstração é, ao mesmo tempo, o esquecimento do “ato de
ser” ou da realidade da forma, com a adoção de uma perspectiva metafísica
essencialista ou logicista, cuja culminância seria Hegel, para quem o “ser” é
tão somente o conceito mais indeterminado, equivalente a nada! Abstrair não é
“desrealizar” a coisa real, mas prescindir de seus aspectos empíricos sentidos para
ficar com o “mais real” na coisa, que é justamente seu “caráter real”, o qual,
portanto, é algo realíssimo, concretíssimo, por assim dizer. Seguir aprofundando
neste problema gnosiológico, contudo, nos levaria demasiado longe do tema
central. O dito agora apenas pretende indicar a possibilidade de vivermos desde
e na verdade real, que se oferece ao olhar atento que busca uma vida autêntica.
Ao ter inteligência senciente, o ser
humano, que Zubiri define como “animal de realidades”, apreende-se como sua
própria realidade, e esta característica é, precisamente, o que nos faz ser
“pessoas”: pessoa é a realidade que, por ter inteligência, apreende-se como
“sua” realidade, é “suidade”. O conceito mais clássico de “pessoa”, de Boécio,
definiu-a como “substância individual de natureza racional”; “pessoa” não é uma
essência, mas um modo de ter essência, um modo de ser, melhor dizendo: ser
sendo dono daquilo que se é. A definição zubiriana parece-me, portanto, mais
adequada, e ela é um eco da definição do autor medieval Ricardo de São Vítor de
“existência”: o ex-istente é aquele que tem formalmente uma natureza. Nesse
sentido, todas as coisas “são”, mas só a pessoa “existe”, está “sobre” si mesma,
é dona de si. Toda realidade é algo de
suyo; a pessoa é formal ou explicitamente “sua”, é reduplicativamente de suyo.
O homem tem como forma de realidade
isto que chamei suidade, o ser “seu”.
Isto não ocorre às demais realidades. Todas as demais realidades têm de suyo [de si mesmas] as propriedades
que têm, mas sua realidade não é formal e explicitamente sua. Em contrapartida, o homem é formalmente seu, é suidade.
[...]
Toda pessoa, contudo, tem uma existência
encarnada, sua realidade pessoal está “presente no mundo” (Heidegger) pelo seu
ser corpóreo, o qual vai “se realizando”, e esta realização é a construção da
própria “personalidade” no tempo: “Se chamamos pessoalidade (ou ‘personeidade’)
a este caráter que tem a realidade humana enquanto sua, então as modulações
concretas, que esta pessoalidade vai adquirindo é o que chamamos personalidade”. Nós somos “nossa
realidade”, mas este fato não é ainda a solução para o enigma de nossa
existência: o que chegaremos a ser? Em termos zubirianos: “o que vai ser de
mim?” e “que vou fazer de mim?”.
Apreendemos todas as outras pessoas e as
coisas como “realidades”, estamos “religados” à realidade, como diz o autor
basco, em nossa “religação” aos outros e ao que nos cerca. Não somos átomos
isolados, como pretende o liberalismo individualista, e tampouco estamos
diluídos numa massa, como pretende o socialismo coletivista. Como dizia Ortega
y Gasset, mestre de Zubiri, “Eu sou eu e minha circunstância” (Meditaciones del Quijote). Como diz o
nosso filósofo: “Viver é possuir-se a si mesmo como realidade estando com as
coisas na realidade. [...] O homem se funda na realidade como realidade”.
Somos “reais”, mas não somos ainda tudo
aquilo que chegaremos a ser. Em nossa religação à realidade, devemos optar por
uma forma de estar na realidade: é uma questão moral, uma vez que nossas opções
devem ser justificadas em face dos demais, pois, embora sejamos, como pessoas, realidades
“relativamente absolutas”, como diz Zubiri, não somos “absolutamente absolutos”;
e é uma questão metafísica ou ontológica, já que o que está em jogo em nossas
opções é nosso próprio ser real. Esta questão se constitui como um “engima”,
segundo o filósofo espanhol: “Toda coisa real impõe que adotemos uma forma
determinada de realidade. E aqui está o enigma. Enigma é sobretudo um modo de significar
o real, mas não declarando o que é, senão tão só indicando-o
significativamente, como o faz um oráculo”.
A possibilidade de assumirmos a direção de
nossas vidas, e de respondermos por nossa conta e risco ou de modo pessoal
–ainda que apoiados em nossa constitutiva religação aos demais e à realidade– é
precisamente o que propicia uma existência autêntica, uma existência eleita, querida,
justificada. Abrir mão desta possibilidade ou ignorá-la é viver de modo
alienado, viver uma existência “outra”, que não escolhemos, mas nos foi
imposta: deste modo as circunstâncias não seriam um âmbito de possibilidades
reais, uma fonte de liberdade, mas uma prisão invisível, do tipo da “matrix” do
conhecido filme homônimo, ou da cidade cenográfica onde se desenrolava o “Show
de Truman”.
2. A inquietude da vida
A realidade humana tem uma vida, e
esta vida é constitutivamente inquieta porque a realidade em que se vive é
enigmática. Por isso é que a vida do homem padece de inquietude. Esta
inquietude se expressa em duas perguntas, elementares mas que nenhum homem pôde
negar. Sobretudo, a pergunta de ‘que vai ser de mim?’ E como esta realidade que
eu sou não me é dada, senão que tenho de fazer, aquela pergunta adquire um
sentido todavia mais premente: ‘que vou fazer de mim?’ Cada ação humana, por
modesta que seja, envolve esta interrogação e é uma resposta a ela.
Um dos maiores dramas atuais do ser humano
é a possibilidade de não reconhecer esta “inquietude” constitutiva da vida. A
possibilidade de não perceber o “enigma” da realidade. Um exemplo literário
clássico é o sr. Mersault do Estrangeiro de
Camus, ontem trabalhado pela professora Lívia: nada o comove, está no velório
da mãe como se estivesse em qualquer outra situação. A existência absurda é
aquela existência que não encontra “sentido”, e uma existência sem sentido é
aquela em que não há um liame entre os acontecimentos, mas tudo são fatos
isolados; uma existência em que não se apreende a continuidade da vida; em
termos metafísicos, a pessoa que não encontra sentido é aquela que não
encontrou sua “alma”, sua “memória espiritual”; não há uma direção (uma
finalidade), porque não há uma origem da qual se brota (uma natureza):
paradoxalmente, ao eliminar a “essência” e absolutizar a “liberdade”, certo
existencialismo ateu, ainda que, teoricamente, preconize a responsabilidade,
gera, na prática ou em sua vulgarização, e para além de suas intenções formais,
a morte da autêntica liberdade que é possível a uma inteligência finita, pois acaba-se
vivendo ao sabor das circunstâncias ou segundo o impulso do momento, e isto é,
precisamente, o mesmo que viver uma existência absolutamente determinada (pelas
circunstâncias, sejam os apelos externos ou as paixões internas) e
infra-humana, uma existência de bicho, e não de gente. É o tipo de existência que
pode conduzir ao suicídio, ou que já se constitui como um “suicídio existencial”,
ainda que não físico; em termos de Ricardo de São Vítor, nem mesmo é uma
existência, pois consiste numa coisificação da pessoa.
De outra parte, existe a possibilidade de que
a ausência de sentido não seja o fruto de um não encontro que conduz ao
absurdo, mas de uma ingenuidade que ainda não despertou para um possível logos ou sentido da vida. Podemos encaixar neste caso a alienação vivida por Truman
Burbank, personagem de Jim Carrey, no famoso filme O Show de Truman: o show da vida.
Uma breve sinopse do filme, para quem não o viu: Truman participa, sem o saber, de um reality show, que é sua “própria” vida, filmada desde a gestação, e assistida por toda parte. Ele vive numa cidade cenográfica, da qual não pode sair; inclusive, é forjada a falsa morte de seu pai num passeio de barco, para que ele jamais tivesse a coragem de sair da cidade onde mora. Seu casamento é arranjado e sua vida toda é uma rotina pré-determinada, tudo sendo cuidado para que o personagem não se dê conta. Não falarei sobre todos os detalhes do filme, mas apenas sobre alguns que ilustram o meu argumento.
Truman começa o filme vivendo essa existência imposta, não livre, em que os gestos se repetem mecanicamente sem que ele possa perceber, em que os traumas foram criados para limitar sua liberdade de escolha. Mas, por algum “milagre” desses que são perceptíveis a quem “tem olhos para ver”, ou seja, em virtude da capacidade da inteligência apreender o real e não só a aparência, a verdade e não só a construção teórica, Truman começa a “estranhar” certas coisas: em primeiro lugar, o spot de luz que cai do cenário! Aristóteles dizia que a filosofia começa com a “admiração”, com o dar-se conta dos problemas, daquilo que nos “lança” a pensar. Truman então começa a filosofar, brota para ele a possibilidade de uma existência autêntica, que se pergunta pelos “porquês”. A realidade “dá o que pensar”, quando percebida em seu ser, e não só em sua aparência. Percebê-la não é ver ainda “o que ela é”, mas é ver “que ela é” ou tem uma consistência enigmática a ser desvelada pela busca da inteligência. A queda do refletor do estúdio o faz refletir!
Diz Zubiri: “Esta inquietude [...] tem de
certo modo sua contrapartida, por assim dizer, em outro fenômeno também
inegável [...] que se chama voz da
consciência”. A verdade é que Truman não estava totalmente alheio à
possibilidade de uma existência íntima e autêntica: tinha saudades da
personagem Silvia, por quem se apaixonara e que o avisara que sua vida era um
show televisivo. Aquela experiência amorosa marcou-o, porque por mais que
tivesse sido breve, havia sido autêntica, verdadeira, ao contrário de tudo que
lhe sucedia em “sua” vida. Ele sempre pensava em viajar para as ilhas Fiji
porque Silvia gostava do oriente, e ele pensava que lá poderia encontrá-la.
Este amor real era como uma vocação que ele não podia simplesmente recusar ou
abafar sob as camadas periféricas da
vida planejada por outrem. A amada
funcionava como sua “voz da consciência”, como um chamado irresistível a
transcender sua situação, a tornar-se senhor de sua vida. Ele passa parte de
seu tempo montando um quebra-cabeças com partes de fotos de mulheres de
revistas de moda, para tentar formar o rosto de Silvia. Para ele, a vida,
portanto, apesar de todas as manipulações vindas de fora, não havia perdido o
caráter enigmático: o enigma de sua realidade era a questão do amor que o havia
tocado.
Indico, de passagem, que o psiquiatra
judeu-austríaco Viktor Frankl desenvolveu a teoria psicológica da Logoterapia,
ou “terapia do sentido”, em que indicou que a existência humana padece de
doenças “noológicas” (de “nous”: doenças espirituais) quando não encontra
“sentido”, o qual pode ser tríplice, segundo o autor: um amor, uma tarefa ou
missão e a assunção do próprio sofrimento em solidariedade com os que padecem. Frankl
também afirmava, como de outra parte Zubiri, que a voz da consciência era a voz
da transcendência em nós, já que “devemos ser donos de nossa vontade e servos
de nossa consciência”.
Segue Zubiri:
Esta voz me dita algo. Que é este
ditar, e que dita? [...] Uma forma de realidade que hei de adotar. Nisto consiste
formalmente o ditado da voz da consciência.
O homem se encontra, pois, inexoravelmente
lançado a ter de determinar a forma de realidade que adotará. Esta determinação
é justamente o que constitui a volição.
[...]
[...] E isto é o que formalmente constitui
a volição: adoção ou apropriação de uma possibilidade de forma de realidade.
[...]
A realidade tem um caráter
“possibilitante”, como nos diz o filósofo espanhol: e a volição ou vontade
consiste em apropriar-se daquelas possibilidades que consideramos justas em
ordem à boa configuração de nossa personalidade, em ordem a uma perfectio, isto é, para que sejamos “bem
feitos”. A imagem da perfeição é aquilo que a tradição clássica chamou de
“felicidade”, não enquanto mero bem-estar ou prazer hedonista, pois não se
trata de “sentir-se bem”, mas de estar realmente bem disposto (não falo de
disposição anímica simplesmente, mas real ou metafísica), realizar-se, ou seja,
realizar aquilo que se é ou, antes, aquilo a que se está chamado a ser,
apoiados na realidade. É aquilo que, na teologia do Advento, se diz como o “já
e o ainda não”, ou seja, no nosso caso, a essência ou natureza e o fim ou
felicidade. Nada mais longe da visão clássica, de certo modo atualizada por
Zubiri, que uma visão “coisista” da pessoa, como se ela fosse um “dado” ou
realidade meramente “fática”. É a imagem da felicidade que idealizamos que
determina os deveres a serem cumpridos: estamos obrigados a tais ou quais
deveres por estarmos ligados a uma determinada visão da felicidade.
Antes, porém, desta apropriação volitiva
de possibilidades constituir o problema moral da pessoa humana, ela é um
problema metafísico: antes da “obrigação” dos deveres (ob-ligación em espanhol) e da “ligação” à felicidade, experienciamos,
como já visto, a “religação” à realidade das pessoas e das coisas, isto é,
vivemos religados ao real. A realidade, ademais de seu caráter possibilitante,
também tem um caráter de “ultimidade”, pois ela é a última instância na qual
nos apoiamos, e um caráter de “impelência”, pois forçosamente temos de nos
realizar na realidade. Mesmo o suicida, como nos lembrou ontem a professora
Lívia, procura na própria morte uma suposta “realidade melhor” que a desta vida
sofredora ou que aparenta ser absurda – penso que psicologicamente é assim que
lhe aparece à consciência a suposta possibilidade da “aniquilação”.
A realidade como apoio último,
possibilitante e impelente é o que Zubiri chamou de “poder do real”, ou a
realidade como “poder”: um poder que nos domina, não qual um tirano, mas como
âmbito de realização, fonte de possibilidades. “Dominar” não é “causar”: a
realidade nos abre o espaço espiritual da liberdade. Ser livre não é apenas,
como já salientou a filosofia, estar livre “de” (coações) e “para” (um
sentido), mas ser livre “em”: somos livres na
realidade, para sermos realmente felizes, autênticos, buscando o fundamento
de nossa autenticidade.
No seu primeiro trabalho sobre o tema da
“religação” (o artigo En torno al
problema de Dios), Zubiri dizia que o homem não só “tem” uma “missão” na
vida, mas que nossa vida “é missão”: estamos “enviados” pela realidade para
buscarmos o fundamento de nossa realização na realidade. Assim, nossa
existência não é uma existência “jogada” ou “arrojada” no mundo (Heidegger e os
existencialistas ateus, como Sartre), mas constitutivamente “religada”. A vida
humana não é uma “queda” do ser no mundo, nem somos “sem desculpa”: o ser ou a
realidade é nosso apoio inexorável, e para quem atende à experiência da
religação, a existência já não pode mais ser vista como um “absurdo”.
Descobrimo-nos, pois, religados ao poder do real, “contamos” com a realidade.
[...] Esta vontade radical não é vontade de viver, senão vontade de
realidade pessoal. [...] Esta realidade está atualizada em minha intelecção, e
enquanto atualizada nela é justamente o que chamamos verdade. A vontade de
realidade é vontade de verdade. [...]
A autenticidade é autenticidade enquanto expressão de uma realidade. [...]
[...] A vontade de verdade real se
concretiza em busca [...] uma
experiência de busca de fundamento [...].
Vivemos inquietos, lançados pela voz da
consciência, que é a voz da realidade a ressoar em nosso coração, e nossa inquietude
só descansará quando encontrar, na realidade, aquele fundamento último ou
felicidade que dará sentido a todos os nossos afazeres, nossas fadigas, nossas
dores e alegrias. O Fundamento da realidade é absoluta riqueza, que pode ser
atualizada em cada pessoa humana que vive essa busca, sem jamais se esgotar.
Riqueza multiforme que pode ser encarnada de diversos modos finitos. Como diz
Santo Agostinho, este Fundamento é aquele a quem chamamos de Deus, em quem
nossa alma pode alcançar descanso: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração inquieto
está enquanto não repousa em Ti”.
A religação, em Zubiri, não é só o fato
mais básico de nossa existência, mas também é uma “via” para se chegar, através
do poder do real, ao Fundamento Divino desta existência e de sua religação. Antes,
porém, de entrarmos nos detalhes de seu argumento, vejamos as distintas
dimensões do ser ou personalidade humana religada, que são, nas palavras do
mestre espanhol, três: a individual, a social e a histórica. Tais dimensões,
relidas a partir do problema tomasiano clássico e muitas vezes mal compreendido
da “Lei Natural”, nos ajudarão a visualizar critérios de uma vida autêntica,
como indicarei logo a seguir.
Todo ser humano é membro da espécie
biológica humana, cada um é um “eu” de um “tu”, um “ele”, etc. Não se trata
aqui da “individualidade” metafísica, que é própria de toda realidade e mais
especialmente da realidade pessoal, e que coincide com aquilo que classicamente
foi denominado o transcendental “uno”; trata-se, simplesmente, do “indivíduo”
da espécie.
Também estamos estruturalmente voltados
para a convivência social, quer seja a convivência impessoal da “sociedade”,
quer seja a convivência pessoal da “comunidade”, isto é, ou como meros
concidadãos ou como amigos.
Finalmente, estamos ligados também às
gerações passadas e futuras, através da “história”, que é tradição ou entrega
de possibilidades reais em ordem à capacitação do ser humano: recebemos
possibilidades dos antepassados e as entregamos aos pósteros. Possibilidades
que assim vão se tornando “reais” e “verdadeiras”: a história é, assim, o
âmbito da entrega de verdades e esclarecimento da verdade sobre o enigma da
realidade – o que não elimina a possibilidade de determinados obscurecimentos e
regressões.
Parece-nos conveniente associar estas
dimensões com aquelas inclinações que Santo Tomás descobriu em sua reflexão
sobre a chamada “Lei Natural” que governa a existência humana. Lei Natural que
é o “reflexo da Lei Eterna” nas criaturas, segundo o Aquinate, e que antes
mesmo do Cristianismo já era conhecida no paganismo, como podemos constatar na
tragédia Antígona, de Sófocles, em que
a protagonista enterra o irmão contra as leis civis e em virtude das “leis não
escritas” (também Aristóteles e os estoicos afirmam explicitamente a existência
da Lei Natural). Esta Lei Natural, reflexo de Deus nas criaturas, seria, como
já indiquei mais profundamente em outro trabalho, o que Zubiri denomina “Poder
do Real”, que, como veremos adiante, é, segundo o filósofo espanhol,
precisamente este mesmo reflexo da presença do Fundamento da realidade nas
pessoas e coisas reais.
Tomás diz que a pessoa humana tem, em
primeiro lugar, e como toda realidade, a inclinação a “permanecer no ser”;
depois, como é uma espécie animal, esta permanência é também uma inclinação ao
exercício da sexualidade, para a geração e educação da prole; finalmente, como
animal racional ou inteligente, o homem tem as seguintes outras duas
inclinações: viver em sociedade, na qual encontra apoio para suas necessidades,
e conhecer a Verdade, que em última instância é Deus. Destas inclinações surgem
os direitos à vida, ao casamento, à vida social, à educação (incluindo a
educação religiosa) e à adoração do Fundamento da realidade, e os respectivos
deveres de respeitar esses direitos nos demais e de vê-los cumpridos.
Em sua dimensão individual, a pessoa deve
não só buscar a preservação de sua existência própria, mas estender essa
preocupação a todos as demais pessoas, igualmente “suidades” e portadoras da
mesma dignidade. Em sua dimensão social, a pessoa deve buscar a preservação da
instituição familiar, garantia da continuidade da existência humana, que no lar
encontra seu refúgio e fortaleza contra imposições ideológicas; deve também trabalhar
por uma boa sociedade, através de uma convivência pacífica e justa com os
demais cidadãos na comunidade política; e deve buscar a salutar da experiência
da amizade (na própria família e nas instâncias comunitárias propícias). Em sua
dimensão histórica, o homem deve buscar a Verdade e partilhá-la com os demais,
pois ela é a raiz possibilitante de nossa existência ao longo do tempo e em
direção à meta transcendente.
Cada uma dessas inclinações e dimensões
podem ser atualizadas por cada pessoa de diversas formas, mas em qualquer caso,
esta reflexão, que toma unitariamente a questão tomasiana das inclinações da
Lei Natural e as dimensões zubirianas do ser humano religado ao Poder do Real,
esclarece que não podemos ser felizes ou viver autenticamente sem a experiência
da religação à nossa própria realidade, à realidade familiar, dos amigos, dos
concidadãos, à verdade da realidade, que é desvelada historicamente, e ao que
se mostre como o Fundamento da realidade.
“Que vai ser de mim?” e “Que vou fazer de
mim?” são perguntas que não podem ser pronunciadas separadamente de “Que vai
ser do próximo?” e “Que vou fazer para o próximo?”; ou ainda: “Que realidades
devo desbravar em busca de sua verdade?” e “Como partilhar as verdades e os
bens encontrados?”
A partir da interpretação que aqui faço,
não é possível negar racionalmente, sem que essa negação destrua o próprio
caráter pessoal do ser humano e a possibilidade de uma existência autêntica, a
vocação à felicidade no amor: ao próximo, aos concidadãos (incluindo os
“inimigos”), à verdade e ao Fundamento da realidade e Fonte última de nossa
realização. Vamos, então, ao argumento zubiriano que busca justificar tal
Fundamento como a Realidade Divina.
O poder do real religa todas as coisas
reais entre si, mas não existe “fora” ou “à parte” delas. Todas as
coisas são reais, “têm” realidade, mas nenhuma é “a” realidade. Assim, existe
outra realidade em que se funda o poder do real das coisas, e esta não é uma
coisa real mais, nem a “soma” das realidades, mas o “Fundamento” da realidade
das coisas: Deus. A “realidade” das coisas reais não é a Realidade Divina, mas funda-se nEla, que está presente no
íntimo das realidades. Deus está em nós e nas coisas fazendo que sejamos reais
sem que sejamos Sua Realidade. Eis a “prova” zubiriana, que não é uma
inferência lógica, como toda justificação racional da existência de Deus. Como
poderia ser? Se fosse, isso significaria que Deus está “contido” no mundo, o
que seria a negação de sua Transcendência e, portanto, de seu caráter divino
autêntico (Deus está no mundo como seu Conservador, mas não é “parte” do
mundo). Toda via filosófica para Deus requer uma peculiar acuidade metafísica
para perceber o plus em relação à
constituição empírica, este “mais” que é o “ser” ou “realidade” dos entes ou
das coisas reais.
Como pessoas, como “suidades”, somos realidades
de certo modo “absolutas”, mas somos absolutos em face das demais pessoas e da
realidade, isto é, somos, no dizer de Zubiri, “relativamente absolutos”, como
já antecipei. Deus, Fundamento da realidade, da religação ao poder do real, e
de nossa realidade relativamente absoluta, é, assim, a “Realidade Absolutamente
Absoluta”, Última, Possibilitante e Impelente, raiz destes caracteres da
realidade que nos circunda e na qual nos apoiamos para viver (há aqui, um
“analogia do absoluto”, como em Tomás há uma analogia do ser).
Passemos à última parte de nossa
exposição, onde voltaremos ao filme Show
de Truman.
A modo de conclusão: a coragem de ser autêntico num mundo de ilusão
A modo de conclusão: a coragem de ser autêntico num mundo de ilusão
Nesta parte conclusiva, quero convidá-los
a assistir as cenas finais do filme Show
de Truman, para que desbravemos com o personagem o mar tempestuoso da
aventura da autenticidade.
Decidido a tomar as rédeas de sua vida, de
sua realidade, decidido a viver como autêntica pessoa e pessoa autêntica,
Truman decide partir. Tenta pela ponte, mas inventam um acidente nuclear na
floresta do outro lado. Assim, ludibriando a direção do show, toma coragem e
parte de barco em direção ao desconhecido. Tentam demovê-lo, forjando uma
tempestade e apelando ao medo que ele tem, mas ele resiste e não desiste.
Vejamos.
Cena
final
Christof, o diretor de o Show de Truman, funciona como uma
espécie de “deus”. Evidentemente, é um falso deus, um ídolo, um tirano, um
manipulador. Algum pastor adventista, segundo li, interpretou seu nome como um
“Christ-off”, um “fora-Cristo” ou Anticristo. Tanto faz. De fato, o nome da
embarcação que Truman toma é “Santa Maria”, uma das naus de outro Cristóvão, o
Colombo, em sua viagem ao “Novo Mundo”. O verdadeiro Deus é aquele ao qual
clama Silvia, a amada de Truman, para que este se liberte do jugo que lhe
impuseram. Deus é a Verdade e a Verdade liberta (cf, Jo 8,32).
Os assistentes de O Show de Truman reagem
de um modo tríplice: alguns se alegram com sua conquista, outros são
indiferentes (à espera de um novo programa de tv), e outros queriam que ele
ficasse. Três reações que denotam três distintas atitudes existenciais: a de
quem vibra com a possibilidade de uma vida autêntica, a de quem não despertou
para essa possibilidade, e a de quem está mergulhado na inautenticidade.
Ultrapassar a barreira do cenário, subir
as escadas e sair pela porta é um símbolo da transcendência que todos estamos
chamados a buscar e encontrar; é mais cômodo viver sem essa busca, sem essa
inquietude, sem atentar à voz da consciência. É mais cômodo não tentar, fazer o
que todos fazem, seguir a rotina, não arriscar. Mas isto é a morte da alma, é a
demissão da própria humanidade. Ser pessoa humana é dirigir-se, em meio ao mar
tempestuoso de circunstâncias que muitas vezes se mostram hostis, a um
horizonte de liberdade. Só a liberdade é o “porto seguro”; não a falsa
segurança da praia, mas o “fazer-se ao largo”, avançar ao alto mar, como
convidou o Cristo a seus primeiros discípulos.
O que vai ser de mim? O que vou fazer de
mim? O que vou fazer com a ajuda da realidade? O que posso fazer sem a
realidade?! Sem aquela esperança de reencontrar o rosto da amada, no caso de
Truman? Sem a esperança de encontrar o Amado da alma?
Afirmar que a vida tem um sentido é
afirmar, como diria Bento XVI, que há uma Razão ao início da realidade. Uma
Razão que também é Amor, que doa realidade e que atrai, através da realidade,
para a vida feliz, autêntica, portadora de vida para os demais.
Que nós experimentemos o chamado à
auto-transcendência, que a voz da realidade ecoe em nossos corações e guie
nossos passos; que as tormentas não sejam mais fortes que nosso desejo de
autenticidade. Se é grande o “mistério da iniquidade” que nos rodeia, muito
maior é o “mistério da piedade”.
Nietzsche falava da vinda do
“super-homem”. Parece-me, contudo, que, sob muitos aspectos, vivemos numa era do
“infra-humano”. Mas há também – sempre haverá!–, o germe imorredouro da Notícia
sempre Nova, que nos convida simplesmente a sermos pessoas autênticas, homens e
mulheres de verdade, à imagem do Verbo Encarnado. Se a noite parece muito
escura, e é a noite do ser e da verdade, um novo amanhecer só depende da
disposição de receber com gratidão aquele bimilenar convite gratuito à fé, que nos
chama a criar as pontes necessárias para que o Logos ou Sentido da existência seja cada vez mais conhecido, vivido
e comunicado, dissipando assim as sombras da inautenticidade. Convite que é
dirigido aos corajosos, aos que não temem afirmar, contra os gritos histéricos
de quem só tem, como diz Zubiri, “vontade de ideias”, e ideias insensatas –
ideias cristãs amputadas de sua fonte, na Modernidade, como “liberdade,
igualdade e fraternidade”, e tornadas ensandecidas, no dizer de Chesterton –,
aos que não temem afirmar, digo, que a vida tem sentido, que “o amor é mais
forte do que a morte”, como nos ensina o Truman do filme, que não prevalece a
“angústia diante do nada”, mas a esperança que nasce da certeza de uma
existência religada àquele cuja Caridade não decepciona.
Não temamos, não há temor no amor. A
falsidade, ilusão, a cegueira voluntária diante do ser e da verdade serão
julgadas; mas a coragem de ser autênticos, de viver na verdade nos abriga a
salvo no Amor. Atravessemos a porta estreita da felicidade e da autenticidade.
Nada vale mais a pena.
Referência bibliográfica básica:
ZUBIRI, Xavier. El hombre y Dios. 6ª ed. Madrid: Alianza
Editorial; Fundación Xavier Zubiri, 1998, pp. 48-108.


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