Prévia de um artigo mais substancial que está "no forno" (não me preocupei em oferecer aqui as referências nas obras de Agostinho).
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"S. Agostinho em sua cela" (1490-94), de Botticelli
No texto Sobre a
intelecção, eu abordei a "iluminação" agostiniana nos termos das comparações com a "abstração" aristotélica, que eram realizadas pelos agostinianos medievais. Como indica Étienne Gilson, foram tentadas várias vias de conciliação: "Deus intelecto agente, supressão do intelecto agente em benefício do único intelecto possível, fusão dos dois intelectos, identificação do intelecto agente com a iluminação divina" (GILSON, Étienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. 2a ed. São Paulo: Discurso Editorial, 2010, pp. 178-179).
No meu texto mencionado, indiquei que a abstração poderia ser o efeito em nós (no nosso intelecto) da iluminação divina, possibilidade que Gilson também admite: "Sem dúvida, a iluminação aristotélica do sensível pelo intelecto humano pode pressupor uma iluminação da alma por Deus"; contudo, segue o autor: "o fato de que tal conciliação seja teoricamente possível não autoriza a concluir que santo Agostinho a tenha efetuado, nem que aqueles que a efetuam entendam a iluminação no mesmo sentido em que a entendia santo Agostinho" (Ibid., p. 181). Já havia dito o grande historiador medieval: "tantas soluções e todas puderam reivindicar-se de Agostinho precisamente porque ele não sustentou nenhuma delas" (Ibid., p. 179).
A verdade é que, nos termos estritos dos textos do santo bispo de Hipona, a "iluminação" se referia ao momento do juízo verdadeiro acerca das ideias, e não à abstração da forma e elaboração do conceito, como também diz Gilson: "o ponto de vista de Agostinho é menos o da formação do conceito que o do conhecimento da verdade" (Ibid., p. 177). Tratava-se da luz que nos permite encontrar a verdade dos conhecimentos da matemática e da sabedoria prática, como na famosa prova da existência de Deus que lemos em O livre-arbítrio. Em termos zubirianos, tal "encontro" corresponde à compreensão, ato pelo qual razão senciente conhece a estrutura profunda da realidade apreendida, e pelo qual a inteligência senciente se modula como entendimento (cf. ZUBIRI, Xavier. Inteligencia y razón. Madrid: Alianza, 1983, pp. 328-350).
Ocorre, todavia, que ao compreendermos uma dada realidade por uma teoria da razão, não se tem uma inteligência dela sem a apreensão (primordial) da realidade: esta não é uma apreensão que "fica para trás", como se fosse uma "primeira" apreensão inteligente em sentido meramente cronológico; ela é o pano de fundo de toda conceituação, afirmação, raciocínio, etc. Poderíamos então dizer que a "luz" da realidade que foi apreendida é agora compreendida à Luz da Realidade Fundamento: seu "reflexo" no real agora é visto formalmente integrado no sistema da realidade criada conforme as Ideias Eternas.
Vejam: nem Agostinho diz que a apreensão das coisas reais se dá pela luz do ser ou da realidade (isso quem o faz é Zubiri), nem Zubiri diz que a compreensão da verdade racional se dá à Luz da Realidade Absoluta (isso quem o faz é Agostinho); na realidade, muitos processos racionais (da ciência ou da filosofia modernas, por exemplo) podem perfeitamente terminar em erros acerca da realidade apreendida (em virtude do "esquecimento do ser", como já defendi diversas vezes alhures), mas, supondo o acerto e o encontro efetivo da verdade profunda do real percebido, houve um percurso que começou pela luz congênere da realidade e da inteligência humana (que também é reflexo da Luz Divina), e que terminou à Luz da Realidade/Inteligência na inteligência humana.
Xavier Zubiri em seu escritório
Penso que uma correlação mais exata entre os termos agostinianos e os zubirianos acerca do conhecimento deveria ser estabelecida da seguinte forma (aqui me sirvo da sistematização de Gilson sobre o conhecimento em Agostinho): o "pensamento" ou a mens agostiniana, "pela qual [o homem] conhece o inteligível, [e que] é também nele a marca deixada por Deus em sua obra" (GILSON, op. cit., p. 64) é simplesmente a inteligência zubiriana (cf. ZUBIRI. Natureza, História, Deus. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 92); a ratio agostiniana, "atividade que lhe é própria [ao pensamento] a fim de adquirir o conhecimento" (Ibid., loc. cit.) corresponde às modulações da inteligência zubiriana, que são o logos (formação dos conceitos e afirmações) e a razão propriamente dita (teorias); e a "inteligência" ou o intellectus agostiniano, que é "o próprio conhecimento obtido pela razão, ou visto da verdade enfim adquirida" (Ibid., loc. cit.) corresponde à compreensão e entendimento zubirianos (vide acima).
Poder-se-ia, entretanto, falar de uma "inteligência senciente" em Agostinho? Se entendermos que para o santo bispo, a "sensação" é uma "ação da alma", que atenta para a paixão corpórea pela qual nossos sentidos são modificados, e esta (sensação) é o ponto de partida de toda intelecção, não me parece um equívoco dizer que o Doutor da Graça se encontra aqui não muito distante da formulação zubiriana, embora não a possa emitir, devido à ambiência platônica. Veja-se o que diz Gilson: "a sensação tem total relação com o conhecimento e com o espírito, enquanto os sensíveis, ao contrário, encontram-se inteiramente relacionados ao corpo (GILSON, op. cit., p. 124). Os momentos analíticos da impressão de realidade zubiriana (cf. ZUBIRI. Inteligencia y realidad. 5a ed. Madrid: Alianza, 1998, pp. 31-39) estão em Agostinho: afecção de algo outro com força de imposição; o "outro" fica como algo "real" para a alma atenta, que não o encara só como mero "estímulo", mas elabora conhecimento a partir desta presença sentida/inteligida.
Agora, se a "verdade" é a atualidade ou presença na inteligência da realidade, e se Agostinho chega a Deus em virtude da verdade que requer a Verdade, então parece-me que a crítica que Zubiri faz à "via antropológica da verdade agostiniana" (sic) não é muito justa; o mestre espanhol considera que Agostinho parte: a) do homem como contraposto ao cosmos; b) de um aspecto da realidade humana, que é sua inteligência da verdade; c) e de uma inteligência da verdade entendida de forma (neo)platônica, num dualismo entre a sensibilidade e a intelecção. Ao fazê-lo, Agostinho "não partiria de um fato constatável, mas de uma teoria", e que "só poderia chegar a uma ideia insuficiente de Deus". Nas palavras de Zubiri:
Ora, para Agostinho, o conhecimento começa na sensação, enquanto ação da alma espiritual, pela qual o mundo está presente à mens; assim, sua antropologia não implica uma "separação" radical entre o mundo e o homem, mas nela está presente a "religação". O foco de Agostinho, em sua prova da existência de Deus, na presença da "verdade" na inteligência, deve ser entendido "à luz" de sua vida inteira: a vida de alguém em busca da verdade para ser feliz! Uma verdade que se busca com a inteligência, mas que envolve o ser inteiro do homem! Uma verdade na qual está presente o problema da felicidade integral da pessoa! O homem só se encontra ao encontrar a Verdade, e cada verdade depende da Verdade Absoluta, a ela está "religada".
No meu texto mencionado, indiquei que a abstração poderia ser o efeito em nós (no nosso intelecto) da iluminação divina, possibilidade que Gilson também admite: "Sem dúvida, a iluminação aristotélica do sensível pelo intelecto humano pode pressupor uma iluminação da alma por Deus"; contudo, segue o autor: "o fato de que tal conciliação seja teoricamente possível não autoriza a concluir que santo Agostinho a tenha efetuado, nem que aqueles que a efetuam entendam a iluminação no mesmo sentido em que a entendia santo Agostinho" (Ibid., p. 181). Já havia dito o grande historiador medieval: "tantas soluções e todas puderam reivindicar-se de Agostinho precisamente porque ele não sustentou nenhuma delas" (Ibid., p. 179).
A verdade é que, nos termos estritos dos textos do santo bispo de Hipona, a "iluminação" se referia ao momento do juízo verdadeiro acerca das ideias, e não à abstração da forma e elaboração do conceito, como também diz Gilson: "o ponto de vista de Agostinho é menos o da formação do conceito que o do conhecimento da verdade" (Ibid., p. 177). Tratava-se da luz que nos permite encontrar a verdade dos conhecimentos da matemática e da sabedoria prática, como na famosa prova da existência de Deus que lemos em O livre-arbítrio. Em termos zubirianos, tal "encontro" corresponde à compreensão, ato pelo qual razão senciente conhece a estrutura profunda da realidade apreendida, e pelo qual a inteligência senciente se modula como entendimento (cf. ZUBIRI, Xavier. Inteligencia y razón. Madrid: Alianza, 1983, pp. 328-350).
Ocorre, todavia, que ao compreendermos uma dada realidade por uma teoria da razão, não se tem uma inteligência dela sem a apreensão (primordial) da realidade: esta não é uma apreensão que "fica para trás", como se fosse uma "primeira" apreensão inteligente em sentido meramente cronológico; ela é o pano de fundo de toda conceituação, afirmação, raciocínio, etc. Poderíamos então dizer que a "luz" da realidade que foi apreendida é agora compreendida à Luz da Realidade Fundamento: seu "reflexo" no real agora é visto formalmente integrado no sistema da realidade criada conforme as Ideias Eternas.
Vejam: nem Agostinho diz que a apreensão das coisas reais se dá pela luz do ser ou da realidade (isso quem o faz é Zubiri), nem Zubiri diz que a compreensão da verdade racional se dá à Luz da Realidade Absoluta (isso quem o faz é Agostinho); na realidade, muitos processos racionais (da ciência ou da filosofia modernas, por exemplo) podem perfeitamente terminar em erros acerca da realidade apreendida (em virtude do "esquecimento do ser", como já defendi diversas vezes alhures), mas, supondo o acerto e o encontro efetivo da verdade profunda do real percebido, houve um percurso que começou pela luz congênere da realidade e da inteligência humana (que também é reflexo da Luz Divina), e que terminou à Luz da Realidade/Inteligência na inteligência humana.
Xavier Zubiri em seu escritório
Penso que uma correlação mais exata entre os termos agostinianos e os zubirianos acerca do conhecimento deveria ser estabelecida da seguinte forma (aqui me sirvo da sistematização de Gilson sobre o conhecimento em Agostinho): o "pensamento" ou a mens agostiniana, "pela qual [o homem] conhece o inteligível, [e que] é também nele a marca deixada por Deus em sua obra" (GILSON, op. cit., p. 64) é simplesmente a inteligência zubiriana (cf. ZUBIRI. Natureza, História, Deus. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 92); a ratio agostiniana, "atividade que lhe é própria [ao pensamento] a fim de adquirir o conhecimento" (Ibid., loc. cit.) corresponde às modulações da inteligência zubiriana, que são o logos (formação dos conceitos e afirmações) e a razão propriamente dita (teorias); e a "inteligência" ou o intellectus agostiniano, que é "o próprio conhecimento obtido pela razão, ou visto da verdade enfim adquirida" (Ibid., loc. cit.) corresponde à compreensão e entendimento zubirianos (vide acima).
Poder-se-ia, entretanto, falar de uma "inteligência senciente" em Agostinho? Se entendermos que para o santo bispo, a "sensação" é uma "ação da alma", que atenta para a paixão corpórea pela qual nossos sentidos são modificados, e esta (sensação) é o ponto de partida de toda intelecção, não me parece um equívoco dizer que o Doutor da Graça se encontra aqui não muito distante da formulação zubiriana, embora não a possa emitir, devido à ambiência platônica. Veja-se o que diz Gilson: "a sensação tem total relação com o conhecimento e com o espírito, enquanto os sensíveis, ao contrário, encontram-se inteiramente relacionados ao corpo (GILSON, op. cit., p. 124). Os momentos analíticos da impressão de realidade zubiriana (cf. ZUBIRI. Inteligencia y realidad. 5a ed. Madrid: Alianza, 1998, pp. 31-39) estão em Agostinho: afecção de algo outro com força de imposição; o "outro" fica como algo "real" para a alma atenta, que não o encara só como mero "estímulo", mas elabora conhecimento a partir desta presença sentida/inteligida.
Agora, se a "verdade" é a atualidade ou presença na inteligência da realidade, e se Agostinho chega a Deus em virtude da verdade que requer a Verdade, então parece-me que a crítica que Zubiri faz à "via antropológica da verdade agostiniana" (sic) não é muito justa; o mestre espanhol considera que Agostinho parte: a) do homem como contraposto ao cosmos; b) de um aspecto da realidade humana, que é sua inteligência da verdade; c) e de uma inteligência da verdade entendida de forma (neo)platônica, num dualismo entre a sensibilidade e a intelecção. Ao fazê-lo, Agostinho "não partiria de um fato constatável, mas de uma teoria", e que "só poderia chegar a uma ideia insuficiente de Deus". Nas palavras de Zubiri:
"Santo Agostinho parte da 'verdade' como de algo que mora no interior do homem, mas em oposição às 'verdades', as quais em sua pluralidade seriam tão só 'vero-símeis' (no setnido etimológico do vocábulo). O 'fato' do qual na realidade parte santo Agostinho não é precisamente a inteligência, senão o dualismo radical que há nela entre 'a' verdade e 'as' verdades. Este presumido 'fato' não é, pois, senão a filosofia de Platão e Plotino" (ZUBIRI. El hombre y Dios. 6a ed. Madrid: Alianza, 1998, p. 125)
Ora, para Agostinho, o conhecimento começa na sensação, enquanto ação da alma espiritual, pela qual o mundo está presente à mens; assim, sua antropologia não implica uma "separação" radical entre o mundo e o homem, mas nela está presente a "religação". O foco de Agostinho, em sua prova da existência de Deus, na presença da "verdade" na inteligência, deve ser entendido "à luz" de sua vida inteira: a vida de alguém em busca da verdade para ser feliz! Uma verdade que se busca com a inteligência, mas que envolve o ser inteiro do homem! Uma verdade na qual está presente o problema da felicidade integral da pessoa! O homem só se encontra ao encontrar a Verdade, e cada verdade depende da Verdade Absoluta, a ela está "religada".


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