19.1.18

Finitude e transcendência do ser humano

Artigo originalmente publicado em A Ordem. número 99, vol. 1, 2015, pp. 113-145.

Introdução

O título desta palestra[1] sugere que o ser humano, por um lado, é uma realidade limitada: todos nós podemos perceber isto, porque nosso corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, porque ignoramos muitas coisas que gostaríamos de saber, porque não somos tão bondosos como gostaríamos de ser, porque padecemos doenças, porque, enfim, todos nos deparamos com o limite da morte: somos “seres para a morte”, como dizia Heidegger[2]. Por outro lado, também experimentamos que nossa inteligência nos permite ultrapassar o “aqui e agora”, formando ideias, prevendo fatos com nossas teorias científicas, ou que nossa vontade pode eleger entre distintas possibilidades (não todas as que quereríamos...), isto é, possuímos um conhecimento e alguma margem de liberdade que nos elevam acima da animalidade pura e simples.

Desde uma perspectiva mais metafísica, podemos dizer que temos certa determinação, mas não somos algo pronto, acabado, como os exemplares das espécies animais; pelo contrário, aquilo que “seremos” é ainda mais determinante para a nossa realização! Sartre dizia que “a existência precede a essência”[3]; julgo mais correto dizer, com Xavier Zubiri, que possuímos uma essência “aberta”[4], que não se resolve univocamente.

Pela inteligência, percebemos os atos psíquicos que realizamos, bem como o organismo que os suporta, como “nossos”, ou, melhor, como “nós mesmos”: somos nossa própria realidade, somos “pessoas”, e isto faz de nós realidades de certo modo “absolutas”: “separadas” das outras coisas reais e das demais pessoas, ainda que não sejamos “absolutamente absolutos”, mas “relativamente absolutos”, absolutos em face do real: é o problema da “religação” à realidade, trabalhado pelo já citado Zubiri[5].

Nossa pessoa, nosso caráter pessoal ou “pessoalidade” desenvolve-se através de distintas modulações, que formam a nossa “personalidade”[6]: nesse desdobramento que é nosso existir podemos superar nossa situação atual ou decair. Permanência e (é) desenvolvimento ou frustração e (é) impermanência.

Assim, vemos que, por um lado, transcendemos à realidade que nos cerca; e, por outro lado, viver é a possibilidade de ir transcendendo a si mesmo (ou de decair a ponto de nem mais permanecermos em nós...). A filosofia poderia ir mais além, estabelecendo ao menos a possibilidade de ultrapassarmos o limiar da morte e encontrarmos aquele Fundamento transcendente da realidade que “todos chamam Deus”? Como poderia isto se dar?

Estas são as questões à qual proponho esboçar uma resposta neste texto. A fim de cumprir tal propósito, buscarei, numa primeira parte, explicar com mais detalhe a relação da pessoa humana com a realidade que nos cerca; na segunda parte, tratarei da relação da pessoa humana com a Pessoa Divina.


1. A pessoa humana aberta à realidade

a) Inteligência e abertura à realidade

A modernidade filosófica nasceu com o cogito cartesiano[7]: o homem seria uma coisa pensante isolada da (suposta) realidade a sua volta. Meu ponto de partida é a asserção de que esta ideia é absolutamente falsa! Nós não estamos separados da realidade, não necessitamos chegar a ela; nós nos movemos na realidade; “realidade” é o caráter formal de tudo que apreendemos já em nossas sensações: qualquer que seja o conteúdo sensível captado por qualquer de nossos sentidos vem revestido de uma formalidade distinta daquela presente no puro sentir dos animais: lá eles sentem o conteúdo como mero estímulo para a resposta; cá nós sentimos o mesmíssimo conteúdo como algo que se autopertence, no interior mesmo da sensação, isto é, sem ainda pressupor um ser extramental (o qual, de existir, só poderia estar fundado nesta formalidade inteligida)[8]. Lá, a resposta instintiva, cá, a possibilidade da “admiração” (digo possibilidade porque não é forçoso que não nos deixemos arrastar pela força de um estímulo real).

De saída, então, a pessoa humana transcende a sensibilidade meramente animal; assim, não estamos simplesmente envoltos no curso cego da natureza, mas somos aquela espécie em que a realidade se faz consciente, falando hegelianamente. Nossa inteligência, atuando já na sensação, é a potência que capta o caráter formal de realidade das coisas, antes e para poder dizer o que elas são; ela nos abre ao real, não nos mantém em uma subjetividade fechada. A filosofia cartesiana é uma arbitrariedade: os sentidos não nos enganam; é a inteligência judicativa que afirma mais do que os sentidos mostram.

Os sentidos humanos, por serem inteligentes, é que nos abrem à aventura do conceituar e do afirmar, do teorizar e do provar. Percepção, linguagem, razão, ou sentir/apreender o real, conceber/julgar o real percebido e pensar/provar o real profundo são as três modulações da inteligência.

Poderia haver realidade sem homens, mas não homens sem realidade; a pessoa, como disse Heidegger, é um “ser-com”[9]: com as coisas reais e com as demais pessoas. Vivemos no âmbito da realidade, sem a qual não somos. É o que Zubiri chama de “religação” à realidade, ao “poder do real”, o poder que é possibilitação de nosso existir.

Transcendência e finitude: não somos meros joguetes da realidade, mas ao mesmo tempo, somos dependentes da mesma: nossa liberdade é uma liberdade situada, uma liberdade “na” realidade: dela não podemos nos livrar, sob o risco de ficarmos sem chão, de cairmos no abismo. Navegamos na realidade mais ou menos como aqueles desbravadores portugueses que iam beirando a costa da África, sem se afastarem demais: não é questão de falta de coragem, é que a realidade é nosso porto seguro. Ou como os novos desbravadores navegam pelo espaço: no momento, não podemos ir tão longe ao ponto de não podermos regressar para a Terra: estamos a ela religados.

b) Realização no amor

 Construímos nosso existir na realidade. Já somos reais, mas ainda não somos o que seremos. Somos nossa própria realidade diante das coisas reais e dos demais inteligentes, isto é, somos pessoas; mas nossa personalidade se desenvolve ao longo de toda a vida. Adquirimos, a partir das possibilidades ancoradas na realidade, nosso ser real: a pessoa humana é uma realidade “sendo”, se desdobrando, transcendendo sua situação atual rumo a uma nova situação; vivemos buscando (deveríamos viver buscando) um modo real que acalme nossa inquietude, a inquietude por saber “que será de nós?”.

Se não vivemos a dinâmica da realização pessoal, e optamos por ficar no estado em que nos encontramos, tendemos a cair deste estado, com o risco de nos despersonalizarmos, isto é, de sermos cada vez menos senhores de nossa vida, reduzindo-a ao estado animalesco de quem só responde aos estímulos de maneira imediata, isto é, irrefletida. Só à medida que nos aventuramos na conquista de nós mesmos é que permanecemos como pessoas autênticas, isto é, que vivem um relativo autodomínio. E se todas as possibilidades de nossa realização pessoal pendem da realidade, das coisas e das pessoas que nos cercam –dizia Ortega: “Eu sou eu e minha circunstância”[10]–, isto também significa que somos fonte de possibilidades reais para a felicidade das demais pessoas, e para a harmonia do cosmos material –aqui vai todo o tema da ecologia, do “cuidado da casa comum”.

A dignidade pessoal implica em que não podemos usar ou ser usados pelos demais; de modo que é somente a autodoação, o dar de si, que em última instância se verifica no amor e na comunhão interpessoal, o caminho pelo qual as pessoas se ajudam mutuamente numa caminhada de autotranscendência, que assim não é somente individual, mas tem uma dimensão social. É daqui, precisamente, na recuperação do ideal político clássico da amizade, que deveria partir toda preocupação pela justiça social: o “outro” não é um inimigo que deve ou ser mantido à distância ou ser mantido sob controle. Não somos “mônadas sem janela”, mas constitutiva abertura aos demais. É este sair de nós mesmos que nos realiza, que revela potências insuspeitadas presentes em nossa intimidade, as quais, sem esta acolhida do real e do outro, ficariam inermes.

c) Ultrapassar o solipsismo e o niilismo

A inteligência é abertura à realidade, que implica uma abertura à nossa própria realidade, a qual se desdobra dando de si no amor. Mas esta realidade –trata-se aqui da descrição do ato de intelecção, não de uma teoria metafísica sobre a faculdade da inteligência– é, com muita facilidade, obscurecida e esquecida. Pode-se passar por cima do momento apreensivo da realidade, de modo que o esforço intelectual seja centrado nos momentos judicativo ou especulativo, e a inteligência se transforme, assim, numa faculdade de conceber ideias e criar teorias sem apoio na realidade. Foi toda a aventura da filosofia moderna, a qual, mais do que propriamente racionalista, foi voluntarista: tratava-se, pois, de uma inteligência demiúrgica, que na esteira do esquecimento nominalista das ideias eternas, mal ocultava sua vontade de poder. Mas a volição é o ato de eleger livremente entre possibilidades reais abertas pelo ato intelectivo. O obscurecimento da inteligência leva ao obscurecimento da vontade e da liberdade. A solução pós-moderna é a assunção do horizonte niilista: não existe o sujeito transcendental –o que, efetivamente, é verdade, pois o que existe são as pessoas concretas, de carne e osso–, não existe um sentido para a história, mas apenas um poder transcendental que se encarna em discursos sem compromisso algum com a noção de verdade, um jogo de forças cujo sentido resulta do próprio embate, sem submissão a finalidade alguma. Neste marco, a transcendência da pessoa humana desaparece, e esta nem é mais “momento” de uma realidade absoluta, mas simplesmente um “episódio” de um enredo sem autor e sem desenlace.

Vivemos uma época em que predomina um novo tipo de sofística, que ao criticar –com algum acerto– a razão moderna, toma-a como a razão simplesmente, ignorando a especificidade do pensamento clássico (antigo e medieval). Se na modernidade o homem se refugia em sua mente, como critério exclusivo da verdade –seja pela via racionalista, seja pela via empirista, seja pela via criticista ou pelo idealismo alemão–, perdendo-se do mundo e de Deus, e tendo dificuldade até para apreender outros sujeitos humanos, o pensamento clássico não é assim: sensações e afetos eram elementos constitutivos dos processos intelectivos e volitivos; e tais processos estavam abertos a uma dimensão espiritual transcendente. Em suma: unidade entre corpo, alma (mente) e espírito. O humano era considerado uma interface entre o cósmico e o divino; a intimidade tinha um “fora” (acessível mediante o corpo) e um “acima”. O filósofo moderno se refugia na mente, diviniza-a e reconstrói a realidade a partir de si, a partir de sua inteligência concipiente, excluindo o “fora” e o “acima”. O filósofo pós-moderno dissipa o homem no “fora”, que então passa a estar “acima”: é a vontade cega, é o inconsciente, é o poder irracional, são as condições materiais, é a coletividade, é a escritura, são as interpretações, etc. A ideia de transcendência da pessoa humana simplesmente desaparece neste horizonte niilista, e nossa finitude é unilateralmente afirmada. Evidentemente, num mundo assim, em que somos esmagados por forças físicas, o filósofo que desenha esse quadro de coisas só pode impor seu ponto de vista –que não pode ter pretensão de verdade– pela força da retórica (que também é física, a seu modo). Vivemos no mundo da verossimilhança. Um mundo paradoxal em que perdemos o direito de ultrapassar nossas opiniões em direção à verdade, e ganhamos aquele outro de expressar toda e qualquer impostura[11].

Como recuperar a realidade? O contato com a realidade verdadeira geralmente ocorre a partir do encontro com uma pessoa veraz e virtuosa (coerente com a verdade que professa). A prova deste encontro é o nascimento de uma atitude ascética de purificação das opiniões mais imediatas e do impacto da primeira impressão, uma atitude de estudo e reflexão constante em permanente diálogo com a realidade, pois ela –e não os textos– é que é o objeto formal da inteligência humana.

d) Excurso: o verdadeiro esquecimento do ser

É conhecido o mote heideggeriano do esquecimento do “Ser”, bem como a sua ideia da “diferença ontológica”: uma coisa é o “ente”, outra, o “Ser”. Porém, mais radical do que a “posição no mundo” e o “existir temporal”, é o “ato de ser” do qual falava Santo Tomás. O ato de ser é o mais íntimo que há num ente, sendo, inclusive, causa do ser enquanto posição no mundo. Se chamarmos a ambos de “existência”, teríamos de dizer que a “existência tomasiana” é mais radical que a “existência heideggeriana”. Esta existência ou ato de ser tomasiano está na linha do que eu venho chamando “realidade”: parece-me que a gnosiologia zubiriana possibilita, melhor que a gnosiologia aristotélica seguida por Tomás, a apreensão intelectual do ato de ser, que na filosofia do Aquinate é inferido a partir da diferença entre o Ser incriado e o ser criado. A filosofia moderna constituiu-se a partir do esquecimento ou da ignorância deste ato de ser. E tal ignorância implica necessariamente no imanentismo moderno. Recuperar a realidade é, pois, recuperar o ato de ser. Recuperar o ato de ser é recuperar a noção de “participação” e, assim, recuperar a Deus.

O esquecimento do ato de ser reduz o real à essência, uma essência considerada logicamente, que passa a pender da mente humana. O ser, por seu lado, é transformado num acidente desta essência –como na filosofia aviceniana–, e a própria essência, ao estar desenraizada –a partir da filosofia nominalista– das Ideias eternas divinas, se converte em acidente da razão. O homem se torna duplamente demiurgo: das próprias ideias e da realidade, ancorada nestas ideias: eis o idealismo, cujo iniciador é o já citado Descartes: não saber o que uma coisa é, ou seja, ignorar sua quididade, sua essência, é não poder afirmar sua existência! Por outro lado, forjar uma ideia “clara e distinta” é determinar a existência de algo, começando pela própria existência (pela existência do eu pensante). O homem se torna o “continente” da realidade.

A percepção de que o ser é uma excedência em relação ao conteúdo faz-nos ver que a inevidência da essência não é um sintoma de irrealidade do conhecido, mas tão somente da insuficiência de nossa inteligência primordial na ordem da quididade, mas não da (formalidade de) realidade[12].


2. A transcendência e o divino

a) Religação e existência de Deus

Por possuirmos inteligência, vivemos no âmbito da realidade, estamos religados à realidade, que exerce uma fundamentalidade em nossas vidas. Esta fundamentalidade não é uma causalidade (eficiente), mas uma espécie de “domínio”: neste sentido, a realidade é um “poder”, como nos fala a filosofia da religião[13]; ela é o “poder do real”. A realidade é sempre algo “último” em nossas ações: com as coisas reais, encontramo-nos na realidade; é também algo “possibilitante”: as diversas coisas reais são as possibilidades com as quais contamos para realizar-nos; e é também algo “impelente”: é forçoso que nos realizemos pela realidade[14]. Este poder não é o poder de determinadas coisas –nesse sentido, as religiões politeístas erigiram as “poderosidades”–, mas é um poder que perpassa todo o real, e que, não estando “fora” das coisas reais, ao mesmo tempo excede estas coisas, sendo um plus, um “mais”, que remete a um Fundamento que não é uma coisa real mais, senão a própria Realidade Absoluta, isto é, Deus, simultaneamente transcendente e presente nas coisas, fonte do poder real que elas exercem em nossas vidas[15].

A inteligência humana, cujo objeto formal é a realidade das coisas reais, chega assim ao Fundamento transcendente desta realidade. A nossa vida, a vida pessoal humana, que consiste em realizar-nos religadamente ao poder do real, lança-nos problematicamente ao Fundamento deste poder, desta realidade. Se pela inteligência nos descobrimos como pessoas em face da realidade, isto é, como realidades relativamente absolutas, nosso fundamento só pode ser a Pessoa Absolutamente Absoluta.

Cabe perguntar-nos: o acesso a esta Realidade Divina é meramente intelectual, ou seria possível um acesso vital, existencial, isto é, poderíamos participar da própria Vida de Deus? É neste ponto que o problema da finitude e da transcendência atinge sua culminância: aquele ente, o homem, que por sua inteligência transcende a realidade natural, e que por seu caráter perfectivo transcende sempre a si mesmo, poderia, efetivamente, transcender a própria finitude, isto é, transcender, de certo modo, sua própria natureza, e participar da “natureza divina”?

b) Religação, criação e graça

A essência da realidade da religação é a chamada “relação criatural” ou relação de dependência da criatura para com Deus. No meu artigo “A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e Tomás de Aquino” eu procurei demonstrar esta tese[16]; aqui, assumirei sua verdade[17]

"Ascensão" (1304-06), de Giotto
Como criaturas, isto é, como realidades dependentes do poder criador de Deus, que através do poder do real nos conserva na existência, somos seres finitos; porém, ao sermos pessoas relativamente absolutas, somos, como diz a Bíblia, “imagem” de Deus, uma “reprodução finita” da Divina Pessoa Infinita, isto é, somos seres “deiformes”[18]. Toda a realidade criada é deiforme ou “como Deus”, uma expressão finita da riqueza infinita de Deus; a pessoa humana é o grau mais alto nesta deiformidade: se assumirmos as Ideias divinas como causas exemplares, teríamos que dizer que a “Ideia” através do qual Deus fez o homem é Sua própria Ideia, ou seja, o próprio Verbo! Isto já delineia a possibilidade da Encarnação de Deus: a mesma é possível porque a pessoa humana já é Deus finitamente, e esta realidade é a fonte de todo, poderíamos dizer, “upgrade”. O homem não é ainda Deus, não participa da sua natureza divina por direito, digamos assim, mas pode vir a participar, porque a natureza humana é, com o perdão da palavra, “sobrenaturalizável”. Mas esta sobrenaturalização é uma intensificação do amor de Deus por nós: Deus, que “já” nos ama ao ponto de doar-nos nossa existência e natureza, “passa” a nos amar ao ponto de doar-nos a Si mesmo, habitar em nosso espírito e assim fazer com que O conheçamos e amemos com uma força da qual nós não dispomos inicialmente, mas que não violenta a realidade humana: a graça supõe a natureza[19]. Uma tal doação não pode ser limitada nem mesmo pela morte: eis a promessa da ressurreição, que é muito mais do que a mera imortalidade, pois é a assunção na própria Vida Eterna, que só a Deus pertence[20].

Pela religação ou criação, Deus já habita o espírito humano, como seu fundamento. Pela graça, Deus passa a ser conhecido e amado pelo homem; sua presença deixa de ser meramente material, Ele passa a estar formalmente presente. A teologia tradicionalmente ensina que sem esta presença formal da graça, não podemos amar e realizar o bem moral. Agora, se a verdade metafísica, a verdade do ser ou da realidade, é aquela que nos permite aceder ao conhecimento explícito de Deus como Fundamento transcendente, esta verdade tem uma significação religiosa: ela nos abre o âmbito de uma possível entrega a este Deus –entrega, diga-se de passagem, que é a única atitude razoável. Ou seja, embora a fé religiosa não dependa da verdade metafísica –é evidente que a maioria dos fiéis não crê por conhecer as cinco vias de Santo Tomás ou o argumento zubiriano da religação–, esta implica, para o metafísico, o compromisso da fé. Em termos mais claros: o conhecimento da verdade metafísica sobre Deus (Deus como Fundamento)[21] é uma graça preparatória para o ato de fé.

Considerarei, por fim, uma teoria sobre a possível estrutura essencial do espírito humano, a qual poderia dar razão de nossas intelecções da verdade metafísica e do bem moral, bem como de nossa situação além da morte.

c) O espírito: voz da consciência e intelecto agente

[Para uma reta interpretação e compreensão desta epígrafe, tenha-se em conta o que escrevi aqui, onde os conceitos estão melhor formalizados: Sobre o Intelecto e questões correlatas]

A voz da consciência, que nos indica fazer o bem e evitar o mal, é um fenômeno real. O psiquiatra Viktor Frankl, em seu livro A presença ignorada de Deus defende que esta voz é uma instância que está acima de nós, uma vez que “temos de ser senhores da nossa vontade e servos de nossa consciência”[22]. A consciência, tal como o umbigo é um registro de nossa pré-história biológica, seria um indício de nossa proveniência de Deus. Sócrates testemunha que em nossa vida moral devemos estar atentos à voz do daimon, que intervém para desviar-nos do mau caminho[23]. Não se trata, assim, de mera introjeção da educação moral; ao contrário, o corpo de deveres ou valores objetivados é que é um precipitado da experiência da audição ou da voz da consciência ou da voz daquilo que a teologia chama de “concupiscências”: trata-se de seguir a voz do Alto ou a voz do abismo, de atender ao inconsciente espiritual do qual fala Frankl ou ao inconsciente estudado pela psicanálise[24]. Cada um pode fazer a experiência do “filho pródigo” do Evangelho de S. Lucas e “cair em si”, ou realizar a trágica opção por “cair de si”.

A filosofia clássica explicava o fenômeno do conhecimento intelectual recorrendo seja à noção de Intelecto agente (Aristóteles), seja à noção da “iluminação” divina (Agostinho). Se considerarmos que Aristóteles chamava tal intelecto como “algo de divino em nós”[25], tais noções não são assim tão distantes. A filosofia árabe, de um modo geral, pensou que o Intelecto agente, “separado”[26], fosse um anjo, o anjo que governa o mundo sub-lunar, o qual infundiria as formas nos intelectos possíveis dos indivíduos humanos[27]. Santo Tomás defendeu que cada pessoa tem seu próprio intelecto agente. Penso que ambas as perspectivas devem se complementar: o Intelecto agente, que é para a inteligência especulativa o que a voz da consciência é para a prática, se é algo “separado”, poderia ser compreendido como aquilo que a teologia católica chama de nosso “anjo da guarda”, responsável por guiar nossa vida moral e intelectual[28]. Assim, fica mais fácil entender a visão tripartida que S. Paulo apresenta ao final da Primeira Carta aos Tessalonicenses, com a distinção entre espírito e alma[29]. Um breve excurso sobre a inteligência e sua capacidade abstrativa nos ajudará a visualizar melhor o lugar e o papel do intelecto agente ou espírito.

Classicamente, falava-se dos três graus de abstração: o da física, o da matemática e o da metafísica. Aqui exponho brevemente minha visão, dentro de um contexto mais abrangente: em primeiro lugar, há a inteligência perceptiva, que apreende um “conteúdo sensível real”. Entre a inteligência perceptiva e a abstrativa, intervém a inteligência imaginativa ou esquemática, que dispõe o conteúdo sensível para a inteligência abstrativa construir seus conceitos e afirmar o percebido [aqui trato a “abstração” como o momento da “conceituação”, coisa que já não faço mais; penso que a abstração, em sentido clássico, coincidiria com aquilo que Zubiri chama de “apreensão primordial de realidade”, que acompanha todo o processo da inteligência; ela é o “pano de fundo” de toda intelecção, e não uma intelecção pontual; a confusão entre abstração e conceituação começou no nominalismo e acentuou-se no empirismo]. No seu primeiro grau, da física, separa o conteúdo essencial do conteúdo acidental ou particular (perceba-se que o conteúdo essencial, aqui, é de algo material, ou seja, o “conceito” está transido de materialidade); no segundo grau, matemático, separa a pura materialidade dos conteúdos essenciais específicos (aqui se atinge o “espaço” da construção matemática); em terceiro lugar, no grau metafísico, separa-se, da materialidade, o puro existir (que, de fato, não existe à parte daquela). Finalmente, pode intervir a inteligência pensante ou razão, que desde o sistema de referência de nossos conceitos e juízos, constrói teorias para encontrar experiencialmente a estrutura profunda da realidade, de um ponto de vista material ou empírico (conhecimento científico) ou de um ponto de vista transcendental (filosofia ou metafísica). Vejamos melhor a questão da abstração metafísica.

É pela abstração metafísica que vemos as coisas reais como simplesmente “reais”, e não como “tais” coisas. De um modo geral, para conceituarmos e calcularmos, não precisamos considerar a realidade formalmente, isto é, não faz falta sermos metafísicos; porém, a apreensão de verdades como a existência de Deus, a existência e imortalidade da alma, a existência da Lei Natural, ou a criação do mundo, está intrinsecamente ligada ao terceiro grau de abstração: só quem consegue ver que “ser” é “mais” do que “ser isto ou aquilo concreto e material”, pode chegar a apreender as realidades mencionadas[30]. O mais genial cientista, se não está aberto ao poder metafísico, não poderá atinar para a existência de Deus, por exemplo; todo o aparato lógico-matemático-experimental que ele vier a utilizar para justificar seu ateísmo ou agnosticismo será visto como despropositado por quem compreender isto que venho expondo[31]. Sem esta abstração metafísica –que tão somente separa o que já está apreendido compactamente na sensação –, a “máxima” instância real formalmente conhecida será a da materialidade pura matemática, que se converterá em matéria-prima para a recriação do real segundo o modelo geométrico. Bem, estamos ao ponto de compreendermos a relação entre esta abstração metafísica e o intelecto agente.

Por um lado, é um fato que há pessoas que conseguiram e conseguem realizar ou entender o terceiro grau de abstração, mas há muitos filósofos que não o fazem (praticamente todos os da atualidade); o poder fazê-lo está ao alcance de todos, mas isto exige uma atitude de humildade perante a realidade, uma atitude de receptividade e gratidão; esta atitude possibilita a abertura à luz do intelecto agente, que intensifica o poder de nossa inteligência natural, a qual, deste modo, se torna apta a apreender as realidades espirituais. Em poucas palavras: a base da abstração metafísica é o “realismo ingênuo”: só esta atitude “infantil”, oposta à desconfiança cética, ao orgulho idealista e ao irracionalismo pós-moderno, possibilita à inteligência humana os seus mais altos voos.

Finalmente, podemos dizer que nosso anjo ou espírito (voz da consciência e intelecto agente) corresponde à “sétima morada” do castelo interior de Santa Teresa[32], ao “sacrário da alma”, onde o Deus ao mesmo tempo transcendente e onipresente habita[33]. Não se deve ver no espírito, portanto, a “centelha divina” gnóstica (apenas o Espírito de Jesus é o Verbo, o qual, ademais, é Deus por inteiro). “Perder a alma”, na realidade, poderia ser entendido como perder-se a alma do espírito (e assim não alcançar a estatura de “homem pneumático”, mas submergir como “homem psíquico”[34]). E o milagre que, segundo Santo Tomás, é requerido para que nossa alma imortal tenha a visão beatífica no céu[35] poderia ser sua incorporação ou assunção pelo seu anjo, no qual ela vê a Deus[36].


3. A modo de conclusão

O ser humano, por possuir inteligência, que é a capacidade de apreender a realidade do real, transcende a natureza material, e por possuir liberdade, que é a capacidade de eleger entre possibilidades reais abertas pela inteligência, transcende a si mesmo, em direção à plena realização de suas potencialidades, podendo, contudo, frustrar sua existência. Ao se apreender como sua própria realidade, o homem é “pessoa”, realidade de certo modo absoluta, “sua”, porém em face da realidade, à qual está religado. Assim, a realidade é um “poder” que, em última instância, está fundamentado na Realidade Absolutamente Absoluta, Deus. Como realidades relativamente absolutas, isto é, pessoas finitas, somos imagens de Deus, somos deiformes, somos um modo finito de ser Deus. Deste modo, somos “capazes” de receber a doação divina, que é a graça; podemos participar da Vida e do Amor eternos de Deus, podemos transcender a própria morte, a própria finitude.

Este horizonte de transcendência ficou obscurecido pela filosofia moderna idealista, imanentista, e, posteriormente, pelo niilismo pós-moderno. Urge recuperar a vida do espírito, ouvir a voz da consciência que clama em nós, o que dispõe nossa alma para uma autêntica vida intelectual, capaz de apreender formalmente o ato de ser, a luz da realidade. Somente assim nos realizaremos, recebendo do poder do real, reflexo do Poder de Deus, a força para nos doarmos aos demais, não nos encerrando em nós mesmos, e ajudando outras pessoas a viverem esse dinamismo da transcendência. Através dele, nós vivemos no espírito e, nele, com o Espírito.


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[1] Nota do editor: O presente artigo foi apresentado primeiramente em forma de conferência, na XXV Semana de Filosofia do Seminário São José do Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro de 2015.
[2] Cf. HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo, §§ 46-53.
[3] Cf. SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo, p. 6.
[4] Cf. ZUBIRI, Xavier. Sobre la esencia, p. 500.
[5] Cf. Id., El hombre y Dios. 6a edição. Madrid: Alianza Editorial/Fundación Xavier Zubiri, 1998.
[6] Cf. Ibid., pp. 46-59.
[7] Cf. DESCARTES, René. Discurso do método, pp. 37-38; Id. Meditações metafísicas, pp. 41-43.
[8] Cf. ZUBIRI, Xavier. Inteligencia sentiente: Inteligencia y realidad. 5ª edição. Madrid: Alianza Editorial/Fundación Xavier Zubiri, 1998. Realidade não é o que está “fora” ou “dentro” da mente, mas é aquilo que Zubiri chama formalidade do de suyo (de si próprio): algo é real por ser de suyo, independentemente de que seja conteúdo sensível intra-apreensivo ou conteúdo extramental. Neste sentido, uma alucinação ou miragem, por exemplo, devem ser consideradas perfeitamente “reais”, no sentido de que elas não são fruto da imaginação, mas se impõem à percepção, ainda que a elas nada corresponda no mundo fora da mente. Esta formalidade do de suyo se inspira remotamente na physis pré-socrática, enquanto aquilo que “brota de si mesmo” e na ousía aristotélica, enquanto “autossuficiência”, “riqueza própria” (o homem é “alguém” na medida em que possui ousía, “bens”, “haveres”); e, uma vez que se distingue do conteúdo real, reificando-o, identifica-se com o “ato de ser” tomasiano, distinto da essência real.
[9] Cf. HEIDEGGER, Ser e tempo, § 26.
[10] ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones del Quijote, pp. 43.
[11] Habermas procura responder ao problema da razão moderna –o encerramento do sujeito em si mesmo– através de sua “razão comunicativa (cf. HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade, pp. 411-453). Tal razão, no entanto, desconhece a formalidade de realidade, concernindo tão somente ao conteúdo real, e considerando a inteligência somente a partir do logos ou da linguagem, elidindo o momento intelectivo inerente à percepção sensível. No fundo, a proposta habermasiana permanece ainda no horizonte moderno da inteligência concipiente, pois o que ela pretende é salvar a razão moderna.
Minha crítica à modernidade, todavia, não significa o não reconhecimento da grandiosidade da ciência moderna na sua ordem de conhecimento, nem do valioso que há na democracia moderna, por exemplo. Julgo, porém, que tais realidades (a ciência e a democracia) não dependem exclusivamente da filosofia moderna, sendo, antes, uma consequência tardia da síntese greco-cristã.
[12] A acentuação do “ser” em sentido heideggeriano também é importante, não pretendo negá-lo. Toda realidade finita inclui, intrinsecamente, o momento de sua presença no mundo, com seu desdobramento temporal. Zubiri, que não leva suficientemente em consideração o conceito tomasiano de ato de ser, denomina “ser” a este princípio de atualidade da realidade no mundo; mas este ser, assim, é menos radical que a “realidade” (a qual, na minha interpretação, está na linha do ato de ser tomasiano).
[13] Cf. BUBER, Martin. Eu e Tu, pp. 22-24.
[14] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, pp. 82-84.
[15] Cf. Ibid., pp. 134-150.
[16] Cf. BELLO, Joathas. “A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e Tomás de Aquino”, em Coletânea. Ano XII, Fascículo 24, 2013.
[17] O texto seguia assim: “Trata-se de uma relação 'categorial', e não 'transcendental' (como defendem alguns autores, entre eles, por exemplo, Karl Rahner [RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé, p. 100]. Sem dúvida é uma relação inseparável da criatura, mas se ela fosse transcendental, teríamos que nossa essência (a essência de toda criatura) seria a relação a Deus; não haveria diferenças específicas nem individuais, o mundo sendo uma grande “relação subsistente (a Deus)”, definição que só cabe ao Verbo e ao Espírito Santo. Assim, a religação ou relação criatural é uma relação categorial, necessária a e inseparável de todas as criaturas, mas não a própria substância destas. Isto é importante para evitar uma concepção panteísta ou gnóstica de nossa relação com Deus, e para, assim, situar corretamente o problema da graça e da elevação à vida sobrenatural"
Tenha-se em conta, porém, o que escrevi em: Realidade, Religação, Criação
[18] Cf. BELLO, Joathas. “Deiformidade e graça na teologia de Xavier Zubiri”, em Synesis, v. 6, n. 2, 2014, disponível em: http://seer.ucp.br/seer/index.php?journal=synesis&page=article&op=view&path%5B%5D=653&path%5B%5D=322.
[19] Cf. S.Th. I, q2, a2, ad1.
[20] A possibilidade da graça, da vida sobrenatural, pode ser teorizada filosoficamente, é o que pretendi demonstrar; sua efetivação, contudo, é do âmbito da Revelação e da Teologia sobrenatural.
[21] Zubiri pensa, e estou de acordo, que sua “prova” da existência de Deus chega ao Deus “das religiões”, fundamento da vida, e não ao “’deus ocioso’ dos filósofos”.
[22] Cf. FRANKL, Viktor. A presença ignorada de Deus, pp. 40-46.
[23] Cf. PLATÃO, Defesa de Sócrates, p. 41.
[24] A pessoa não é um “ego” entre as solicitações de um “id” e as convenções de um “superego” [mais correto seria dizer "rigores" ou "severidade" do superego: cf. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011, p. 69], mas é caixa de ressonância daquilo que é o seu mais íntimo, o seu espírito.
[25] Cf. ARISTÓTELES, Da alma, 430 a 10-25.
[26] Cf. Ibid., loc. cit.
[27] Cf. GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média, pp. 423-452.
[28] Os anjos, as substâncias suprassensíveis que eram consideradas as Inteligências moventes dos astros, foram excluídos da cosmologia filosófica uma vez que a física moderna demonstrou que a matéria do céu era a mesma do mundo sublunar, e que a força de gravidade explicava o movimento dos astros. A sorte dos anjos na cosmologia filosófica seria outra se os teólogos e filósofos cristãos levassem em conta que o “céu” (a beatitude) presente é provisória... O presente esboço teórico sobre o espírito humano tenta recuperar o papel destes seres angélicos na vida humana desde uma perspectiva filosófica.
[29] 1Ts 5,23: “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita; e que o vosso ser inteiro, o espírito, a alma e o corpo sejam guardados de modo irrepreensível para o dia da Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Tradicionalmente, interpreta-se o espírito como a parte espiritual ou racional da alma, ficando a alma ou psique como o conjunto formado pelas almas sensitiva e vegetativa.
[30] É ingênuo crer que a ciência moderna poderia conhecer formalmente a realidade da criação, por exemplo, através da teoria do Big Bang. O que aí se conhece é que houve um início temporal do Universo em que nos encontramos, e umas condições iniciais que explicam o desenvolvimento material posterior. A cosmologia científica não tangencia o problema da criação, pois ela não concerne à questão da existência ou realidade do Universo, mas tão somente à configuração das estruturas cósmicas. O problema da criação não tem a ver com um princípio cronológico do Universo: como Santo Tomás demonstrou, o Universo poderia ser eterno, e ainda assim seria criado, pois a criação é simplesmente a dependência existencial do mundo em relação a um Princípio Ontológico; na ordem das essências, as causalidades intra-cósmicas (as chamadas “causas segundas”) quase sempre são suficientes (digo “quase sempre” por conta da questão da origem da alma). Para aceder à criação é necessário reconhecer a diferença entre realidade e conteúdo real ou entre ser e essência, ou seja, é preciso ser metafísico. A ciência matemático-experimental não pode conhecer a alma, Deus ou a criação do mundo, e nisto é verdadeira a Crítica da Razão Pura. O problema começa quando se toma o conhecimento científico estudado pelo filósofo de Konigsberg como todo o conhecimento.
[31] O conhecimento da suposta estrutura profunda da inteligência não implica, evidentemente, que não se deva analisar, caso a caso, os argumentos aduzidos pelos pensadores não metafísicos. Mas deve-se vencer todo complexo de inferioridade que crê no clichê da “superação” do pensamento metafísico. Esta ideia é meramente resultado do marketing mais eficiente dos modernos e pós-modernos. Trata-se, no máximo, de um dado de “fato”: os filósofos abandonaram o pensamento metafísico clássico; mas não se trata de uma situação de “direito”, pois o pensamento idealista e cientificista, primeiramente, e o pensamento pós-moderno, depois, não venceram nenhuma disputa intelectual, até porque jamais confrontaram diretamente a filosofia clássica. A física moderna, por exemplo, não superou a física antiga, ela simplesmente mudou de assunto: a física aristotélica era uma ontologia do movimento (a melhor que se fez até hoje), enquanto a física newtoniana é uma medição do fenômeno do deslocamento (que é só um dos tipos de movimento). A metafísica que efetivamente Kant, Nietzsche, Heidegger ou o pensamento pós-moderno confrontaram foi a metafísica racionalista que se iniciou com Descartes, a qual prescindia da sensibilidade e pretendia investigar a verdade a partir do interior de uma mente encerrada em si mesma. A crítica daqueles autores projeta o racionalismo moderno no movimento iniciado por Sócrates, Platão e Aristóteles, e que se prolongou na patrística e na escolástica –movimento de certo modo recuperado por Zubiri, o qual tem em conta a crítica kantiana e efetivamente a supera com sua noção de “formalidade de realidade” (com a qual não pode ser acusado de “realista ingênuo”). Assim, por exemplo, a refutação kantiana ao argumento ontológico só diz respeito à versão cartesiana; o problema em Santo Anselmo é outro: ele não parte de uma construção racional a-histórica, simplesmente, mas do conceito que nasce da experiência da fé (mesmo a crítica de Tomás a Anselmo não considera atentamente o contexto de sua prova). E ainda: Heidegger julga que o ser, para Santo Tomás, é o “ser simplesmente dado”; ignora que, para o Aquinate, o ser é “ato”, é o “ato de ser”. A “crítica à metafísica” é, na realidade, uma crítica sem critério, que não discerne as diferenças entre a metafísica realista e a racionalista.
[32] Cf. GABRIELE DI SANTA MARIA MADDALENA, Frei. Santa Teresa de Jesus: Mestra de vida espiritual, pp. 117-119.
[33] Cf. Compêndio do Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16.
[34] Cf. 1Cor 2,14-15.
[35] Cf. TOMÁS DE AQUINO. Questões disputadas sobre a alma, q15.
[36] É preciso evitar o dualismo oriental e grego: a alma humana está acima do organismo humano (se não estivesse, não seria sua vida e sua forma), mas, não assumida no seu anjo ou espírito, não pode ter uma subsistência separada de toda corporeidade: o “purgatório” poderia ser entendido como a situação de uma alma presa a uma matéria que já não é seu corpo (portanto, não adequada para a mesma), porém com a esperança certa da salvação, enquanto o “inferno” poderia ser esta prisão de modo definitivo.  

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