Descoberto novo
diálogo platônico, “não escrito” [até agora], “intertemporal”, e “ecumênico”.
[Obs.: Eu não li o
livro do Peter Kreeft]
* * *
Livro I: O Embromador [a ordem dos livros e os títulos são de Andronico
de Rodes]
Sócrates e Descartes encontravam-se em Loreto, por ocasião de uma
festividade em honra de Nossa Senhora, a Sede da Sabedoria, à qual o pai da
filosofia clássica dedicou sua alma, e o pai da filosofia moderna dedicou sua
substância pensante e seu “método”.
SÓCRATES: -
Disseram-me que duvidas de tudo, caro Cartésio. É certo isto?
DESCARTES: [depois
de um tempo meditando] - Tenho dúvidas quanto a isto, prezado Sócrates... Mas,
diz-me: tu sabes alguma coisa?
SÓCRATES: - Esta
questão é muito pertinente, meu caro. Mas, antes, para que possa te responder,
gostaria que me dissesses o que entendes por “saber”? E o que entendes por
“coisa”?
DESCARTES: Sabia
que assim retrucarias, Sócrates! Nietzsche havia me dito para que me precavesse
de tuas artimanhas... “O que se pode saber?” é a questão que me parece mais
importante. E, ao que me consta, disseste que “nada sabes”.
SÓCRATES: - Sim, de
fato. Disse-o, conforme relatado por meu discípulo Platão em sua Apologia de
Sócrates, um personagem de cuja existência alguns duvidam (risos). Para
poder dizê-lo, contudo, precisei ter uma ideia do que é “saber”, para então
discernir que não possuía senão este parco saber sobre minha ignorância. Penso
poder dizer que “saber é reconhecer que o sabido nos ultrapassa”. Como, porém,
tenho o hábito de indagar os que são considerados sábios, para comparar sua
sapiência com minha ignorância, e assim poder me corrigir, se preciso for,
torno a perguntar-te: que entendes por “saber”?
DESCARTES: - Saber,
pois, é “ter ideias claras e distintas”.
SÓCRATES: - Certo.
Para que possa te compreender melhor, peço-te que “esclareças” e “distingas”
teu conceito: o que é uma “ideia”? Em que reside sua “clareza”? E sua
“distinção”?
DESCARTES: - Vejo
que estudaste bem o meu Discurso do Método, ateniense! De fato,
uma das regras consiste na “análise” do problema a ser resolvido. Pois bem: por
“ideia” entendo todo conteúdo de pensamento. E, antes que me perguntes,
antecipo-me dizendo que “pensamento” é toda ocorrência mental, como as
sensações, ficções, desejos, juízos ou as próprias “ideias claras e distintas”.
Clareza e distinção são as notas da “evidência”, da “certeza” ou da “verdade”
destas ideias: a precisão do conteúdo ideado e sua delimitação em face de outros
conteúdos.
SÓCRATES: Ótimo!
Ter uma ideia verdadeira é ver um conteúdo preciso e delimitado, segundo dizes.
Como podes vê-lo?
DESCARTES: - Como
assim? Ora, percebendo sua evidência!
SÓCRATES: - Sim,
percebendo sua clareza e distinção. Já me disseste. No entanto, não consigo
“ver” mais que uma definição nominal. Parece-me que estás rodando em
círculos... Poderias fornecer-me um exemplo?
DESCARTES: - Queria
que entendesses, antes, que a evidência é o princípio do saber.
SÓCRATES: - Mas,
então, porque deves buscá-lo através de uma meditação? Do modo como explicas,
tanto no Discurso quanto nas Meditações Metafísicas, ele parece
uma “conclusão”, e não um “princípio”...
DESCARTES: - É que
o contexto de minha filosofia é o ceticismo da época do Renascimento... Um
estado geral de incerteza, de dúvida... Precisei encontrar o “princípio”.
SÓCRATES: - Então
partiste da “dúvida”? E o que é a “dúvida”? Não seria ela, precisamente, teu
“princípio”?
DESCARTES: - A
dúvida é um fato. Um fato empírico: percebo minha confusão, vejo que não estou
certo sobre muitas coisas, e decido-me a duvidar de todas, para encontrar uma
verdade indubitável. Chamam a esta dúvida, “dúvida hiperbólica”, ou “dúvida
metódica”.
SÓCRATES: - E qual
verdade indubitável encontraste? É a questão acima, do exemplo...
DESCARTES: - Cogito,
ergo sum: “Penso, logo existo”. Percebi que “duvidar é pensar”, e que
“pensar é um ato de um existente”. Não por um silogismo, mas por intuição.
SÓCRATES: - E antes
de intuir-se, não existias?!
DESCARTES: -
Duvidava também disto.
SÓCRATES: - Mas,
Descartes, se duvidavas, já estavas pensando, se estavas pensando, já estavas
existindo (segundo a tua própria lógica). Creio que deverias ter concluído:
“Penso, logo tomo consciência de minha existência”, não? Pois parece-me que
fazes tua existência depender do ato de pensar, e não o contrário, como parece
evidente às pessoas mais ignorantes, como eu. Ademais, ao concluíres que
“existia”, forçosamente tinhas em tua mente a noção de “existência”, pois como
ela poderia surgir “do nada”? A “existência” seria, assim, um princípio mais
radical que a evidência.
DESCARTES: - Não
estou certo disto...
SÓCRATES: - De modo
que existes!
DESCARTES: - Devo
admitir que estás certo.
SÓCRATES: -
Parece-me que confundiste a ordem da verdade com a ordem do ser. O ser é o
fundamento real para que haja a verdade ou a evidência; esta (a verdade) é a
constatação daquilo que a fundamenta realmente.
DESCARTES: - Devo
reconhecer que tens razão.

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