15.1.18

Sócrates x Descartes



Descoberto novo diálogo platônico, “não escrito” [até agora], “intertemporal”, e “ecumênico”.

[Obs.: Eu não li o livro do Peter Kreeft]

* * *
Livro I: O Embromador [a ordem dos livros e os títulos são de Andronico de Rodes]

Sócrates e Descartes encontravam-se em Loreto, por ocasião de uma festividade em honra de Nossa Senhora, a Sede da Sabedoria, à qual o pai da filosofia clássica dedicou sua alma, e o pai da filosofia moderna dedicou sua substância pensante e seu “método”.

SÓCRATES: - Disseram-me que duvidas de tudo, caro Cartésio. É certo isto?

DESCARTES: [depois de um tempo meditando] - Tenho dúvidas quanto a isto, prezado Sócrates... Mas, diz-me: tu sabes alguma coisa?

SÓCRATES: - Esta questão é muito pertinente, meu caro. Mas, antes, para que possa te responder, gostaria que me dissesses o que entendes por “saber”? E o que entendes por “coisa”?

DESCARTES: Sabia que assim retrucarias, Sócrates! Nietzsche havia me dito para que me precavesse de tuas artimanhas... “O que se pode saber?” é a questão que me parece mais importante. E, ao que me consta, disseste que “nada sabes”.

SÓCRATES: - Sim, de fato. Disse-o, conforme relatado por meu discípulo Platão em sua Apologia de Sócrates, um personagem de cuja existência alguns duvidam (risos). Para poder dizê-lo, contudo, precisei ter uma ideia do que é “saber”, para então discernir que não possuía senão este parco saber sobre minha ignorância. Penso poder dizer que “saber é reconhecer que o sabido nos ultrapassa”. Como, porém, tenho o hábito de indagar os que são considerados sábios, para comparar sua sapiência com minha ignorância, e assim poder me corrigir, se preciso for, torno a perguntar-te: que entendes por “saber”?

DESCARTES: - Saber, pois, é “ter ideias claras e distintas”.

SÓCRATES: - Certo. Para que possa te compreender melhor, peço-te que “esclareças” e “distingas” teu conceito: o que é uma “ideia”? Em que reside sua “clareza”? E sua “distinção”?

DESCARTES: - Vejo que estudaste bem o meu Discurso do Método, ateniense! De fato, uma das regras consiste na “análise” do problema a ser resolvido. Pois bem: por “ideia” entendo todo conteúdo de pensamento. E, antes que me perguntes, antecipo-me dizendo que “pensamento” é toda ocorrência mental, como as sensações, ficções, desejos, juízos ou as próprias “ideias claras e distintas”. Clareza e distinção são as notas da “evidência”, da “certeza” ou da “verdade” destas ideias: a precisão do conteúdo ideado e sua delimitação em face de outros conteúdos.

SÓCRATES: Ótimo! Ter uma ideia verdadeira é ver um conteúdo preciso e delimitado, segundo dizes. Como podes vê-lo?

DESCARTES: - Como assim? Ora, percebendo sua evidência!

SÓCRATES: - Sim, percebendo sua clareza e distinção. Já me disseste. No entanto, não consigo “ver” mais que uma definição nominal. Parece-me que estás rodando em círculos... Poderias fornecer-me um exemplo?

DESCARTES: - Queria que entendesses, antes, que a evidência é o princípio do saber.

SÓCRATES: - Mas, então, porque deves buscá-lo através de uma meditação? Do modo como explicas, tanto no Discurso quanto nas Meditações Metafísicas, ele parece uma “conclusão”, e não um “princípio”...

DESCARTES: - É que o contexto de minha filosofia é o ceticismo da época do Renascimento... Um estado geral de incerteza, de dúvida... Precisei encontrar o “princípio”.

SÓCRATES: - Então partiste da “dúvida”? E o que é a “dúvida”? Não seria ela, precisamente, teu “princípio”?

DESCARTES: - A dúvida é um fato. Um fato empírico: percebo minha confusão, vejo que não estou certo sobre muitas coisas, e decido-me a duvidar de todas, para encontrar uma verdade indubitável. Chamam a esta dúvida, “dúvida hiperbólica”, ou “dúvida metódica”.

SÓCRATES: - E qual verdade indubitável encontraste? É a questão acima, do exemplo...

DESCARTES: - Cogito, ergo sum: “Penso, logo existo”. Percebi que “duvidar é pensar”, e que “pensar é um ato de um existente”. Não por um silogismo, mas por intuição.

SÓCRATES: - E antes de intuir-se, não existias?!

DESCARTES: - Duvidava também disto.

SÓCRATES: - Mas, Descartes, se duvidavas, já estavas pensando, se estavas pensando, já estavas existindo (segundo a tua própria lógica). Creio que deverias ter concluído: “Penso, logo tomo consciência de minha existência”, não? Pois parece-me que fazes tua existência depender do ato de pensar, e não o contrário, como parece evidente às pessoas mais ignorantes, como eu. Ademais, ao concluíres que “existia”, forçosamente tinhas em tua mente a noção de “existência”, pois como ela poderia surgir “do nada”? A “existência” seria, assim, um princípio mais radical que a evidência.

DESCARTES: - Não estou certo disto...

SÓCRATES: - De modo que existes!

DESCARTES: - Devo admitir que estás certo.

SÓCRATES: - Parece-me que confundiste a ordem da verdade com a ordem do ser. O ser é o fundamento real para que haja a verdade ou a evidência; esta (a verdade) é a constatação daquilo que a fundamenta realmente.

DESCARTES: - Devo reconhecer que tens razão.

SÓCRATES: - Vamos, amigo, agradeçamos à Mãe do Logos por esta nossa descoberta! 

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