Texto oriundo de um capítulo de minha tese doutoral El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri, corrigido e publicado em The
Xavier Zubiri Review, Vol. 13, 2013-2015, pp. 77-86 e traduzido para o blog.
* * *
Introdução
Neste
artigo busco responder a duas críticas ao conceito de religação em Zubiri:
Gustavo Bueno [filósofo espanhol ateu, 1924-2016] sustentou que o próprio conceito é inconsistente, ao estar
fundado na noção “absurda” de causalidade criadora; e que é incapaz de
fundamentar uma filosofia da religião, pois, ademais de que não seria possível
provar a existência de um fundamento pessoal religador e criador, a religação
implicaria uma pansebeia ou religião
universal, o que, por un lado, tiraria o caráter antropológico da filosofia da religião
(todo ser seria religado) e, por outro, seria desmentido pelo fato de que há muitas
pessoas não religiosas. Tais críticas, que pretenden ser demolidoras, estão nas
questões 2ª e 5ª de seu livro Cuestiones
cuodlibetales sobre Dios y la religión, que recolhe um conjunto de conferências
“reconstruídas”, nas palavras do autor.
As respostas a estas duas críticas constituem as duas pequenas partes deste trabalho. Em primeiro lugar, considerarei em que sentido é possível assimilar a religação à criação, e se esta constitui uma noção “absurda”; depois, buscarei mostrar se, efetivamente, o fato de que tudo esteja religado implica uma pansebeia e não permite o fato da irreligiosidade, ou seja, esclarecerei o nexo entre religação e religião.
As respostas a estas duas críticas constituem as duas pequenas partes deste trabalho. Em primeiro lugar, considerarei em que sentido é possível assimilar a religação à criação, e se esta constitui uma noção “absurda”; depois, buscarei mostrar se, efetivamente, o fato de que tudo esteja religado implica uma pansebeia e não permite o fato da irreligiosidade, ou seja, esclarecerei o nexo entre religação e religião.
1. Tem consistência o conceito
de religação?
Em
sua questão 2ª (“O conflito entre a religião e a ciência”), Bueno afirma que a
filosofia teologal de Zubiri é uma “Teologia preambular”, porque considera que
tem uma origem teológica –para o autor, o pensamento de Zubiri é uma “filosofia
escolástica”, no sentido da ancilla
theologiae–, mas, com honestidade intelectual, reconhece que a crítica tem de apontar suas eventuais insuficiências ou contradições internas[1].
Bueno considera que a doutrina da religação de Zubiri é um exemplo do que ele
denomina “contra-modelo”: “Entendemos aqui por ‘contra-modelo’ a um sistema
inconsistente de termos e relações, dado que alguns de seus elementos são incompatíveis”[2].
A religação zubiriana seria um contra-modelo ontológico, porque estaria
edificada sobre a ideia da causalidade da pessoa, que supõe a ideia “errônea”
da causalidade como relação binária (causa-efeito), e a ideia “absurda” de
causalidade criadora[3].
Vejamos con mais detalhe sua interpretação, para depois analisá-la.
De
acordo com Bueno, o conceito de religação teria sido construído sobre o conceito
tradicional de “relação transcendental” (das criaturas a sua causa primeira) e
sobre o teorema kantiano da “apercepção transcendental”, segundo a qual, como
afirma Bueno, a consciência se dá originariamente no mundo exterior. Esta consciência
teria sido convertida em “existência”, na filosofia existencial; depois, a
existência teria sido convertida em “vida”, em Ortega y Gasset, e finalmente a
vida teria sido convertida em “pessoa”, em Zubiri[4].
O conceito de “apoderamento” estaria sobreposto ao de causa eficiente, em
particular à causalidade eficiente que se atribui ao ato de criação:
Se não entendemos mal (e entender aquí é encontrar o
modelo tradicional sobre o que se está construindo), apoderamento é um conceito
que se sobrepõe, ainda que lhe extravasando, em parte, ao de causa eficiente,
sobretudo criadora. Porque a causa (sobretudo criadora) tem um poder (dizer
“potência” induziria a confusão, dada a correlação aristotélica potência/ato).
Ademais, poder, por suas conotações políticas, pessoais, prepara muito bem a
silhueta de algo que está preparado para ser recheado por um ser pessoal, Deus,
como Causa criadora e conservadora, o Grande Poder[5].
Na
interpretação de Bueno, o apoderamento é o ato criador de Deus que põe e
conserva na existência o homem, que é “absoluto” enquanto “ente-em-si” e “para-si”, mas
que é “relativo” porque é efeito do “Poder da Causa” (o “Grande Poder”), mantendo
com este uma relação transcendental, que é a religação. Diz Bueno:
ainda que em seu núcleo, esta ideia é a tradicional
relação transcendental da criatura, e em particular, da pessoa livre a seu Criador,
que a põe no ser como livre (Bañez, Molina, Zumel) está justificado acudir a um
termo novo (religação), posto que o
que se quer sublinhar é que, por exemplo, há que atender, não só à subordinação
ou dependência (o que conduziria a uma teoria da religião afim à de
Schleiermacher), mas ao momento positivo, absoluto, da pessoa. Tampouco interessa
sublinhar a premoção física, divina, do ato livre da vontade, pois se trata de
abarcar o ser total do homem e não só a sua vontade, nem, menos ainda, a seu
entendimento. Por isso, re-ligação não
é ob-rigação [ob-ligación]. Porque a obrigação pressupõe o sujeito prévio ao
qual se obriga, enquanto que a religação
surge na constituição mesma do sujeito, como é próprio de uma relação transcendental.
Por outra parte, a eleição do termo religação
(que em princípio se justifica pelo ligare,
em composição oposta ao obligare,
como dissemos) tem a grande vantagem de que recorta, “em linha ponteada”, o que
quase imediatamente depois se chamará religião[6].
Uma
via mais fácil para responder a Bueno talvez fosse dizer que a religação ou o apoderamento
pelo poder do real se trata de “dominação” –do momento de realidade– e não de
“causalidade” (“funcionalidade do real”) –entre coisas reais–, e também que a
“fundamentalidade” ou “fontanalidade” de Deus –essência do fato da religação– não
é necessariamente criação, mas aqui escolhi otra via.
Para
Zubiri, a religação é o fato pelo qual o homem está vinculado às coisas reais
enquanto reais, fundando-se na realidade das coisas como algo último, possibilitante
e impelente, isto é, no “poder do real”. O homem se vê impelido a investigar o
fundamento do poder do real veiculado pelas coisas reais, e para Zubiri este
fundamento é Deus, Realidade Absolutamente Absoluta, sendo a essência da religação
a fontanalidade de Deus. Zubiri não identifica, no plano filosófico, esta
fontanalidade com a criação, que para ele é um tema teológico. Em outro lugar
sustentei que não há razão para não chegar filosoficamente ao tema da criação a
partir de uma análise da religação[7].
Aqui farei uma síntese do que ali desenvolvi.
Zubiri,
supostamente, seguiria a linha de Duns Escoto, o qual negaria a criação como
verdade racional. Mas, na realidade, Escoto, assim como Santo Tomás, simplesmente
nega que a verdade da criação no tempo seja objeto certo da razão[8].
Em qualquer caso, ainda que tivéssemos um universo eterno (como postulava
Aristóteles), este não seria incriado, mas estaria fundado num Princípio
metafísico, que é precisamente a Realidade-Fundamento zubiriana, que desde
sempre estaria criando, do nada, o mundo –eternidade e criaturalidade não se opõem
necessariamente. Com o qual a “tensão teologal” do homem para Deus pode ser
entendida como a clássica “relação criatural”.
[O restante do parágrafo, que segue como abaixo, deve ser lido tendo em conta o reparo que fiz a partir do texto Realidade, Religação, Criação, distinguindo a "religação categorial inseparável" no âmbito operativo e a "religação transcendental" no âmbito entitativo:
Mas esta não é uma “relação transcendental” –como pensa o próprio Zubiri no artigo “Respectividad de lo real”–, mas “categorial”[9]: a religação está na linha do que Zubiri chama “respectividade remetente” –toda coisa real está desde si mesma aberta às demais coisas reais–, a qual, ainda que seja inseparável da realidade, funda-se na “respectividade constituinte”[10]–a abertura da realidad a seu próprio conteúdo–, do mesmo modo que a relação categorial se funda na substância, ainda que a relação criatural seja um tipo de relação categorial especial, inseparável da própria criatura ou coisa real[11]. A relação transcendental, na verdade, nunca se dá entre realidades, mas entre co-principios reais (como matéria e forma, ato e potencia, etc.).] Dito isto, consideremos o conceito bueniano de causalidade.
[O restante do parágrafo, que segue como abaixo, deve ser lido tendo em conta o reparo que fiz a partir do texto Realidade, Religação, Criação, distinguindo a "religação categorial inseparável" no âmbito operativo e a "religação transcendental" no âmbito entitativo:
Mas esta não é uma “relação transcendental” –como pensa o próprio Zubiri no artigo “Respectividad de lo real”–, mas “categorial”[9]: a religação está na linha do que Zubiri chama “respectividade remetente” –toda coisa real está desde si mesma aberta às demais coisas reais–, a qual, ainda que seja inseparável da realidade, funda-se na “respectividade constituinte”[10]–a abertura da realidad a seu próprio conteúdo–, do mesmo modo que a relação categorial se funda na substância, ainda que a relação criatural seja um tipo de relação categorial especial, inseparável da própria criatura ou coisa real[11]. A relação transcendental, na verdade, nunca se dá entre realidades, mas entre co-principios reais (como matéria e forma, ato e potencia, etc.).] Dito isto, consideremos o conceito bueniano de causalidade.
Para
Bueno, a causalidade não é uma relação binária de causa (X) e efeito (Y), expressada
na função Y=f(X), porque causar é
produzir uma alteração (um efeito) num esquema material processual de identidade
(H, de hylé), o qual se expressa na função complexa Y=f(X,H):
para que algo se configure como efeito será preciso
contar com um esquema material processual de identidade cuja configuração
depende de diversos supostos de índole filosófica, científica ou cultural. O
esquema material de identidade poderia corresponder à causa material
aristotélica, sempre que ela ficasse determinada segundo critérios positivos E,
que expressaremos na fórmula E(H). O efeito se define então como uma interrupção,
ruptura, alteração ou desvio do esquema material processual de identidade
(ruptura que não afeta, em princípio, o sistema que, por assim dizê-lo, engloba
o efeito). Compreender-se-á, dada a relatividade do conceito de efeito, não já
imediatamente a sua causa, mas um esquema material de identidade (dado num
sistema complexo de referência) que, se não é possível determinar em cada caso
este esquema processual de referência, a noção de efeito [consequentemente a de
causa] se desvanece[12].
Se se traduz esta passagem a termos aristotélicos, a causalidade eficiente só poderia exercer-se num substrato material; onde não haja “matéria”, não pode haver causalidade. Assim, a ideia de “criação” seria absurda, pois seu esquema material processual de identidade seria “o nada” (creatio ex nihilo subjecti), e não a causa eficiente divina imutável. Consequentemente, admitindo-se a existência de Deus como ente infinito, todo “efeito” divino não poderia “sair” dele mesmo, por assim dizê-lo; por isso a crítica à possibilidade de causar um ser livre: este, de ser causado por Deus, não poderia ser algo distinto dele (tema que Bueno retoma na questão 5ª). A partir destas premissas, desde uma posição materialista, conclui-se que, como há o finito, “o que não é Deus”, não pode haver Deus. Esta conclusão é a consequência lógica da assunção do princípio de extranihilidade (“do nada, nada se faz, e nada pode voltar ao nada”); tal princípio, como ensina o professor Juan Cruz Cruz,
é uma negação da tese criacionista ou da produção do
finito pelo infinito mediante um ato livre […]. Com a admissão do princípio de
extranihilidade se expressa que há coincidência ou identificação entre o
infinito e a série ilimitada de coisas finitas[13].
Santo
Tomás já havia respondido, na Suma
Teológica, à objeção de Bueno, então formulada assim:
Porque, conforme o Filósofo, no livro I da Física,
os antigos filósofos admitiram como comum o axioma: do nada, nada se faz. Ora, o poder de Deus não se estende àquilo
que é contrário aos primeiros principios. Por exemplo, que Deus faça que o todo
não seja maior que a parte, ou que a afirmação e a negação sejam verdadeiras ao
mesmo tempo. Logo, Deus não pode fazer alguma coisa a partir do nada, ou seja,
criar[14].
Ao
qual Tomás respondeu:
Quanto ao 1º, portanto, debe-se dizer que os antigos
filósofos, como acima foi dito [q. 44, a. 2], consideravam só os efeitos
particulares a partir de causas particulares, às quais é preciso sempre pressupor
algo em suas ações. Donde o axioma que do nada nada se faz. Mas isso não se aplica
à emanação primeira a partir do princípio universal das coisas[15].
Na criação não se produz “tal” ou “qual” realidade particular, desde outra(s) realidade(s) particular(es), mas “a” realidade enquanto tal, desde a “Realidade absolutamente absoluta” –daí que Zubiri se refira alguma vez ao ato criador como “produção do real enquanto real”[16]. A aplicação da noção de causalidade de Bueno ao ato criador divino é uma incongruência, um “disparate”[17].
Ao
lado da razão de “produção”, de procedência artesanal, Santo Tomás atribuiu à
criação o caráter de “emanação”, despojada do paradigma “necessitarista” do
gnosticismo (imanência, falta de libertade e degradação do princípio originário).
Como o expõe Juan Cruz Cruz: “no interior divino a emanação é uma orden de origem
entre coincidentes ou concorrentes; no exterior divino, a emanação é uma ordem de
origem entre incoincidentes, especialmente no plano entitativo…”[18].
Em sentido semelhante, Zubiri, para quem a criação é “projeção ad extra da vida divina”, compara-a com as
processões trinitárias: “Assim como nas processões trinitárias se constitui a
essência infinita de Deus, assim também na processão criadora se constitui a essência
finita das coisas”[19].
2. Pode a doutrina da religação
fundamentar uma filosofia da religião?
Em
sua questão 5ª (“Religação e religião”), Bueno coloca duas críticas: por un
lado, repete a ideia, já presente na questão 2ª, de que a doutrina da religação
é uma réplica da doutrina kantiana da apercepção transcendental; por outro,
pretende mostrar que esta doutrina da religação não é apta para fundamentar una
verdadeira filosofia da religião, seja por suas premissas, seja por suas consequências.
Segundo
Bueno, Zubiri teria substituído a conexão transcendental entre a “consciência
de minha existência” e o “espaço dos objetos” pela conexão entre “pessoa” e “Deus” ou, com mais
cautela, entre pessoa e “ente fundamentante” ou “Poder último do real”. Da mesma
maneira que os objetos do espaço-tempo não são algo acrescido à consciência, mas
algo constitutivo dela, tampouco o Fundamento seria algo acrescido à pessoa, mas
constitutivo da mesma; assim como o mundo exterior não pode ser considerado
conteúdo de uma tese demonstrável, uma vez que sua presença está pressuposta em
toda demonstração, o poder do real não seria algo demonstrável. Mas a doutrina
da religação seria “heterodoxa” a respeito da filosofia crítica, segundo a qual
a ordem moral prática é o fundamento das ideias transcendentais (Alma, Mundo,
Dios), como se esta ordem
fosse o ens fundamentale; a doutrina
da religação passaria por cima da crítica da razão, percorrendo em sentido
contrário o caminho crítico, e recaindo nas posições escolásticas prekantianas[20].
Como responder a esta colocação?
Para
Zubiri, há uma respectividade, na intelecção, entre inteligência e realidade enquanto
“verdade real”, ou seja, realidade atualizada –e não realidade “além” da apreensão–;
e há outra na ação humana –considerada metafísicamente, enquanto constituinte
da “realidade humana sendo”–, entre a pessoa e o poder do real (que é a mesma
realidade como ultimidade, possibilitação e impelência), presente em cada coisa
real; esta segunda respectividade, que é a religação, também é algo dado na
intelecção primordial. Este poder do real é fundamento da pessoa humana, e não é
nada acrescido a ela, como afirma Bueno. Mas não se trata de algo “pressuposto”,
senão de algo “mostrável”, porque está presente na apreensão primordial de toda
ação do homem. A
partir desta presença do poder do real é que se pode “demonstrar” racionalmente
seu fundamento além da apreensão –o fundamento do poder do real ou da realidade
simpliciter além da apreensão também
é, forçosamente, o fundamento da pessoa humana. O poder do real enquanto
fundamento da realização humana dado em intelecção primordial não é formalmente
o mesmo que seu fundamento demonstrável em intelecção racional. Mas demonstrar
algo não é fazer este algo presente em intelecção primordial, senão “dar razão”,
através dele, daquilo presente nesta intelecção; ou seja, no caso que nos
ocupa, trata-se de pensar aquilo que possibilita que o poder do real seja
fundamento mostrável e mostrado da realização humana. Uma possibilidade seria
dizer que o poder do real é um puro factum,
que é justamente a posição ateia. Zubiri e Kant recorrem a vias distintas para chegar
a Deus, mas em ambos os casos, trata-se de partir do dado em apreensão –o poder
do real ou a ordem moral como a entende Kant– para justificar a Deus como
fundamento metafísico seja do fato da religação, seja dos fatos morais. Bueno
confunde aqui a ordem da fundamentação epistemológica –ou “noológica”, em termos
zubirianos– com a ordem da fundamentação real ou metafísica. No caso de Kant, a
ordem moral é fundamento do conhecimento de Deus como “Sumo Bem”, mas Deus mesmo
é o fundamento (postulado) da realidade moral: “a razão prática […] apoiada
sobre o fato moral tão inconcusso em seu gênero como o fato científico, vê-se
forçada a aceitar como condição de possibilidade do mesmo a existência de Deus”[21].
No caso de Zubiri, o poder do real é o fundamento do conhecimento de Deus como
“Realidade
absolutamente absoluta”, mas Deus é o fundamento da realidade como poder. A
perspectiva “crítica” kantiana está assumida na noología de Zubiri, e não
representa nenhum escolho para sua filosofia teologal. Dito isto, passemos à
crítica que Bueno faz da religação enquanto fundamento da filosofia da religião.
Segundo
Bueno, as duas premissas mais importantes da doutrina da religação são a premissa
da existência de um ens fundamentale de
natureza divina e a premissa de que este ens
fundamentale é o correlato da “relação transcendental” implicada na religião
–já vimos que não se trata de relação transcendental [tenha-se em conta a observação acima]. Na verdade, a existência
da realidade divina não é uma premissa, mas uma conclusão a partir do fato da
religação, e a segunda “premissa”, na verdade, reduz-se à primeira. Mas, prescindindo
disto, a crítica que Bueno faz é, em primeiro lugar, uma crítica geral a qualquer
prova da existência de Deus enquanto realidade pessoal, crítica que ademais tem
a pretensão de ser uma prova da inexistência de Deus no sentido indicado; e, em
segundo lugar, é uma crítica ao caráter fundamentante de um suposto Deus pessoal.
Para
Bueno, o Ser ou Fundamento do ser ao qual apontam os argumentos ontológicos ou
cosmológicos[22] não teria que ser un ente
de natureza pessoal, dotado de inteligência e vontade; ou melhor, não poderia
ser uma entidade pessoal, uma vez que consciência ou personalidade são
“figuras” do ente finito, cujos limites se perderiam ou desapareceriam, “como
desaparece, ou se desfigura, a figura da circunferência no momento em que seu
raio se faz infinito”[23].
A
comparação que Bueno estabelece entre circunferência e personalidade (ou
inteligência) como “figuras” não tem sentido: uma “figura” geométrica é, por
definição, algo delimitado, de modo que se o raio de uma circunferência se tornasse
infinito, não seria já raio, nem haveria circunferência, enquanto que a
“figura” pessoal ou a “figura” inteligente –se de “figuras” se quer falar–, ainda
que esteja delimitada em e por realidades finitas –falo de homens–, não se
define por esta limitação. A “inteligência” é mera atualização da realidade e a
“pessoa” é a realidade formalmente sua. A “figura” humana é o que deixaria de
existir no momento que sua inteligência se tornasse infinita; seguiríamos tendo
inteligência, mas não inteligência humana ou inteligência senciente. Um raio
infinito é um contra-ser, mas uma inteligência infinita é meramente uma inteligência
sem as limitações das condições humanas, algo que não destrói a essência mesma
da inteligência, ainda que não a possamos conhecer em si mesma.
Bueno
segue dizendo que, ainda que existisse o Deus pessoal, a “segunda premissa” não
seria verdadeira, porque um ser pessoal infinito não poderia ser “religador” da
pessoa humana, pois a absorveria em sua infinitude. O “apoderamento” seria um
absurdo, “como é absurda a posição extra
causas do efeito de uma causa que se supõe infinita e pessoal, e que teria que
conter, portanto, en sua consciência infinita, todas as consciências finitas
que estivessem religadas a ela”[24].
Esta crítica depende da noção de causalidade que Bueno supõe –pela qual algo
infinito só poderia produzir um efeito infinito–, e, portanto, fica respondida
com o que se disse acerca da criação na análise da 2ª questão[25].
Para
Bueno, as principais consequências da doutrina da religação seriam que todo
ente finito está religado (a ideia da religião universal ou pansebeia) e que nenhum ente finito pode
deixar de está-lo (em contradição com o fato do ateísmo e da irreligiosidade).
Bueno
sustenta que, uma vez que todo ente finito está religado, todas as coisas reais
seriam “religiosas”, o que apagaria a disciplina da filosofia da religião, que já
não seria antropológica, mas também geológica, astronômica, botânica,
zoológica, etc. A doutrina da religação necessitaria dar dois “saltos mortais”: passar desta pansebeia à religação pessoal (estrita),
e desta religação pessoal até as figuras das religiões positivas:
O “primeiro salto mortal” equivale a justapor ao conceito
genérico de religação universal, o conceito específico de uma religião própria
da raça humana, ou da pessoa, estabelecendo, por exemplo, que a religação do
ente inteligente-senciente, teria caracteres específicos (o que equivaleria a
afirmar que a religião tem várias espécies: geológica, botânica, humana) e, no
extremo, que a religião humana (a religião natural ou pessoal) é a religião em
sentido estrito (o que só poderia ser estabelecido em virtude de uma simples
estipulação arbitrária). O segundo “salto mortal” teria lugar ao passar da
religião natural às religiões positivas. Mas acaso é possível passar do conceito
de una religião “pessoal” aos conceitos das religiões positivas?[26]
O
poder religante domina também sobre as demais coisas reais, e não só sobre o
homem, mas só na pessoa humana esta respectividade adquire o caráter específico
de “religação”, que é a fundamentalidade enquanto dirigida à realização de um
ser pessoal, ou seja, a fundamentalidade formalmente experimentada:
Religados ao poder do real é como
estamos apoiados nele para ser relativamente absolutos. Em outros termos, o
sujeito formal da religação não é a natureza, mas a pessoa, ou melhor dito, a
natureza personificada. De si a religação afeta o homem não separadamente das
coisas, senão que de algum modo afeta a tudo. Mas só no homem é formalmente
religação, só nele é o acontecer formal da fundamentalidade. A pessoa não está
simplesmente vinculada às coisas ou dependente delas, mas está constitutiva
e formalmente religada ao poder do real[27].
Não
se trata de uma “arbitrariedade” dizer que só há religação em sentido estrito na
pessoa humana, pois esta afirmação integra a conceituação da religação, na
medida em que distingue,
por uma parte a fundamentalidade do poder do real sobre o homem como um apoio
para ser relativamente absoluto, e, por outra, a fundamentalidade material do
poder do real sobre o cosmos. Dentro de uma mesma respectividade fundante,
entre o poder do real e todas e cada uma das realidades concretas, cabe
distinguir a respectividade que acontece entre este poder e as pessoas humanas,
e o termo religação serve a este propósito: manifesta o peculiar desta ligadura
no que diz respeito a
ao homem. De modo que a religação não implica pansebeia alguma.
A
religação não é nem “religião natural” nem “religião pessoal”, senão um momento
constitutivo da pessoa humana (é “religação pessoal”). A religião é sua concreção[28],
não necessariamente em forma de “religião positiva” (verificável historicamente),
mas sempre como “religião pessoal”, porque é um ato (da entrega ao fundamento do
poder do real) da pessoa. Não há “salto mortal”, porque a religação não é
religião, senão que pode se concretizar em religião (que poderá ser
institucional ou não).
Mais
adiante, Bueno questiona como é possível explicar, desde a religação, a
impiedade e o ateísmo, uma vez que todos estão religados: “por que, se todos os
homens estão religados, segundo sua específica forma humana, nem todos os
hombres são religiosos…?”[29].
E diz que a única resposta é postular uma
hipótese ad hoc: o ateu é o homem
“desfundamentado”.
Na
realidade, as atitudes não-religiosas (indiferença, ateísmo, agnosticismo) se
explicam exatamente pelo fato de que a religação não é religião, nem se desdobra
necessariamente em religião, porque nem todos descobrem o fundamento do poder
do real na Realidade divina, ainda que sempre haja um processo intelectivo e uma
opção a respeito da fundamentalidade da vida. Bueno cita o termo
“desfundamentado”, referido ao homem ateu, e utilizado por Zubiri em seu artigo
“Em torno do problema de Deus”, quando deveria se fixar na análise de El hombre y Dios, que de certo modo
supera a perspectiva anterior[30].
Além disso, Bueno não explicita o contexto da expressão. Zubiri diz que o homem
pode “sentir-se” desligado em virtude do êxito de sua vida, “endeusando” a esta,
mas isto é uma interpretação do poder do real (que então era chamado “deidade”),
só possível em virtude do fato da religação (que o ateu pode “esquecer”), e na qual
o ateu identifica este poder com a faticidade de sua vida. Mas como o
fundamento real do ateu não é sua própria vida[31],
somente o “fracasso” desta o fará percebir esta realidade:
Em seu momento, a vida fundamentada sobre si mesma aparece internamente desfundamentada, e, portanto, referida a
um fundamento de que se vê privada.
[…] Por isso o ateísmo verdadeiro só pode deixar de sê-lo deixando-se que seja verdadeiro, mas obrigando-o a sê-lo até suas últimas consequências. Sem mais, o ateísmo se descobrirá a si próprio sendo ateu em e com Deus. O malogro que constitutivamente nos espreita assegura sempre a possibilidade de uma redescoberta de Deus[32].
[…] Por isso o ateísmo verdadeiro só pode deixar de sê-lo deixando-se que seja verdadeiro, mas obrigando-o a sê-lo até suas últimas consequências. Sem mais, o ateísmo se descobrirá a si próprio sendo ateu em e com Deus. O malogro que constitutivamente nos espreita assegura sempre a possibilidade de uma redescoberta de Deus[32].
Isto
é, o ateu não é uma sorte de homem “não-religado” –uma espécie de “não-predestinado”
que vive “solto” no mundo e que não poderia chegar a ser religioso–, senão que
vive a religação apoiado num fundamento aparente –seu próprio ser–, e seu possível
achado deste fato descobre que sua vida, enquanto
se apoiava en si mesma, não estava em seu verdadeiro fundamento e, nesta
medida, estava desfundamentada. Este
me parece o único modo possível de entender o que diz Zubiri, à luz do contexto
e de sua conclusão: este descobrimento descobre, ao mesmo tempo, que o ateu sempre
estevo “em” Deus e “com” Deus, podendo agora estar formalmente.
Considerações finais
Com
o dito, fica demonstrado que o motivo que Bueno aponta para considerar a religação
como um “contra-modelo” não se sustenta: o conceito de causalidade criadora é
perfeitamente razoável e, se é possível referi-lo à religação –como penso que é
e busquei apontá-lo–, não implica nenhuma dificultade.
Sobre
a crítica de Bueno acerca da religação como possível fundamento da religiosidade,
pode-se dizer que só a realidade humana se encontra estritamente religada, mas
esta religação não é ainda religião senão a raiz de todas as atitudes possíveis
frente ao poder do real, sejam religiosas ou não-religiosas (ateia, agnóstica ou
indiferente).
A
religação não é uma teoria, senão que Zubiri nos oferece a descrição do fato,
por todos constatável, em principio, da dependência que a pessoa humana tem em
relação à realidade, a qual nos remete ao problema do Fundamento desta realidade.
O ateísmo assumido por Bueno é uma possibilidade de interpretar o poder do
real: este seria mero factum, e a
vida humana seria autossuficiente. Mas tal ateísmo não é o ponto de partida na
experiência humana, e o teísmo zubiriano tem direito à cidadania filosófica: este
não é fruto de uma especulação “absurda”, baseada em sofismas, senão de uma possibilidade
ancorada no próprio fato da religação, pois o poder do real não é um poder de uma
realidade específica, e assim é razoável pensar que se funda na Realidade Divina.
Em
nossos dias, o problema de Deus, antes de ser o problema de sua existência, é a
questão de se a vida humana tem fundamento. A religação aponta a que “alguém vem”,
e justifica os esforços intelectuais para a demonstração da face concreta deste
Fundamento. A fecundidade filosófica desta ideia da religação, a meu ver, não fica
comprometida pela crítica de Gustavo Bueno, senão que esta foi ocasião para
estabelecê-la ainda mais firmemente.
[1] Cf. BUENO, Gustavo. Cuestiones
cuodlibetales sobre Dios y la religión. Madrid: Ed. Mondadori, 1989 (Col.
Enfoques 9), p. 105.
[2] Ibid., p. 109.
[3] Cf. BUENO, Cuestiones
cuodlibetales sobre Dios y la religión , p. 111.
[4] Cf. Ibid., p. 109.
[5] Ibid., p. 110.
[6] Ibid., p. 111.
[7] Cf. BELLO, Joathas. “A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e
Tomás de Aquino”. Coletânea: Revista
de Filosofia e Teologia da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, Ano XII –
Fascículo 24, Junho/Dezembro 2013, pp. 234-252.
[8] Sobre o problema da criação
em Escoto: GILSON, Étienne. Juan Duns
Escoto: Introducción a sus posiciones fundamentales, Pamplona: EUNSA, 2007,
pp. 328-341.
[9] “Só do termo da criação surge uma relação;
esse termo é a mesma coisa feita e produzida pelo creador; e a relação é um acidente categorial. Não é formalmente uma relação transcendental…”
(CRUZ CRUZ, Juan.
Creación, signo y verdad: Metafísica de
la relación em Tomás de Aquino. Pamplona:
EUNSA, 2006, p. 154). “Alguns autores afimavam, por exemplo, que a relação das
criaturas a Deus
deveria incluir-se dentro deste gênero [relação transcendental] e não entre os
acidentes. Santo Tomás sustenta, entretanto, que se trata de um acidente que as
criaturas têm por haver recebido o ser de Deus” (ALVIRA, Tomas; CLAVELL, Luis;
MELENDO, Tomas. Metafísica. Pamplona:
EUNSA, 2001, p. 75).
[10] ZUBIRI, Xavier. “Respectividad de lo real”. Realitas III-IV, 1976-79, 1979, p. 31.
[11] Para Zubiri, a “respectividade” é uma
dimensão mais profunda que a “relação”, quer categorial, quer transcendental, como
afirma em seu artigo “Respectividad de lo real” (cf. ZUBIRI, “Respectividad de
lo real”, pp. 13-43). Considero que Zubiri o diz movido pela polêmica com a
metafísica clássica, da qual quer manter certa distância, para afirmar a
novidade de seu pensamento. Penso, todavia, que a originalidade da inteligência
senciente não consiste em uma negação da gnosiologia clássica, tal como a
tomasiana, por exemplo, mas numa radicalização daquela proposta, possibilitada
pela interposição da crítica kantiana. No estudo citado mais acima (“A
religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e Tomás de Aquino”) trato de mostrar
mais amplamente como é possível alinhar o conceito zubiriano de respectividade
e a noção clássica de relação; para os efeitos do presente artigo, basta o dito
no corpo do texto.
[12] BUENO, “En torno a la doctrina filosófica de
la causalidad”. Disponível em: http://www.fgbueno.es/med/dig/meta89i.pdf (consulta: 02/03/2014). Ademais das “causas”,
Bueno admite “razões”, que respondem à pergunta “por quê?” quando se trata, não
já da identidade de processos individuais, mas de classes, como ocorre por exemplo
nas ciências históricas, cujas relações causais “se dão em múltiplas linhas de
sequências, cuja reunião, ainda sem ser aleatória, tampouco é necessariamente
causal: chamá-la-emos transcausal. Nelas, ainda que não haja causas, haverá razões”
(Ibid., loc. cit.).
[13] CRUZ
CRUZ, Creación, signo y verdad, p.
20.
[14]S. Th.
I, q. 45, a. 2, obj. 1 (AQUINO,
Sto. Tomás de. Suma Teológica, Vol. II (I
Parte – Questões 44-119). São Paulo: Edições Loyola, 2002).
[15]S. Th.
I, q. 45, a. 2, sol. 1. O fato de que a criação suponha
a onipotência divina não é o problema da polêmica anti-criacionista, porque a
única objeção que se pode fazer desde uma perspectiva formalista é a de que o
poder de Deus não poderia fazer algo contraditório (que é o suposto da crítica
de Bueno e dos “antigos filósofos”). Assim, é suficiente apontar que, em virtude
do objeto a ser conhecido (a criação da realidade desde a “Realidade absolutamente
absoluta”), a “causalidade eficiente”, enquanto sistema de referência, deve ser
utilizada de modo análogo.
[16] ZUBIRI, Xavier. El problema teologal del hombre: Cristianismo. Madrid: Alianza
Editorial, 1997, p. 154.
[17] Cf. Id., Inteligencia
y logos. Madrid: Alianza Editorial, 1982, pp. 284-285.
[18] CRUZ
CRUZ, Creación, signo y verdad, p.
137.
[19] ZUBIRI, El problema teologal del hombre: Cristianismo,
p. 177.
[20] Cf.
BUENO, Cuestiones cuodlibetales sobre
Dios y la religión, pp. 201-204.
[21]
ELLACURÍA, Ignacio. “Voluntad de fundamentalidad y voluntad de verdad:
conocimiento-fe y su configuración histórica”, en Revista Latinoamericana de Teología, año 3, mayo-agosto de 1986, p.
114.
[22] O
autor ignora a especificidade da via da religação.
[23]
BUENO, Cuestiones cuodlibetales sobre
Dios y la religión, p. 206.
[24]BUENO,
Cuestiones cuodlibetales sobre Dios y la
religión, p. 208.
[25]
Bueno também se refere aos problemas da “ciência” e da “moção” divinas, mas a
possibilidade de conciliá-las com a libertade de nossas ações, sem absorvê-las,
fica já fundada na razoabilidade mesma da criação. Aqui não me referirei às possíveis
soluções (tomista ou molinista, por exemplo), senão que remeto a um texto de
Zubiri no qual trata destas questões e propõe sua resposta particular: cf. SSV
155-193.
[26] BUENO, Cuestiones cuodlibetales
sobre Dios y la religión, pp. 210-211.
[27] ZUBIRI, El hombre y Dios, 6ª ed. Madrid: Alianza
Editorial, 1998, pp. 92-93.
[28] Cf. Id., El problema filosófico
de la historia de las religiones. Madrid: Alianza Editorial, 1993, p. 87.
[29] BUENO, Cuestiones cuodlibetales
sobre Dios y la religión, p. 212.
[30] Como
afirma Antonio Pintor-Ramos, “a explicação que em 1935 se dava do fenômeno do
ateísmo pela ‘soberba da vida’ pode sem dúvida explicar muitas formas concretas
de ateísmo, mas filosoficamente não pode ser considerada nem satisfatória nem
suficiente” (PINTOR-RAMOS, “Dios y el problema de la realidad en Zubiri”, en Cuadernos de Pensamiento, n. 1, 1997, p.
109).
[31]
Desde a compreensão de que o fundamento do poder do real é a Realidade divina.
[32] ZUBIRI, Natureza, História, Deus. São Paulo: É
Realizações, 2010, pp. 439-440.

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