Capítulo do livro: VVAA. Conhecimento e Sociedade IV: O movimento da vida na variação das ideias. Rio de Janeiro: Real Engenho, 2014, pp. 13-51.
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Nota prévia:
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Nota prévia:
Apesar do que diz o então o Cardeal Ratzinger, conforme recolhido na nota 86, a verdade é que Buber, apesar de abandonar a "mística da identidade", não conseguiu superar uma dualidade de índole panenteísta, como podemos ver na passagem que cito aqui:
"O Cristo da tradição joanina, o Verbo que uma vez se encarnou, conduz ao Cristo de Mestre Eckart, que Deus engendra eternamente na alma humana. [...]
Que a invocação do 'somos um' é infundad, torna-se claro para quem ler imparcialmente, parágrafo por parágrafo, o Evangelho segundo João. É, sem dúvida, o Evangelho da relação pura. Há mais verdade qaqui do que na fórmula familiar dos versos místicos: 'Eu sou tu e tu és eu'. O Pai e o Filho consubstanciais - podemos afirmar: Deus e o Homem consubstanciais, constituem o par indestrutivelmente atual, os dois suportes da relação primordial [...]" (BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro Editora, 1977, pp. 98-99).
Uma relação Deus-Homem nestes termos só é real, desde uma metafísica iluminada pela Revelação cristã, no Homem Deus Jesus Cristo e naqueles que são deificados pela Graça.
Em todo caso, as correlações estabelecidas neste trabalho conservam validade. Algumas coisas mereceriam reparo, por exemplo: a excessiva confiança na possibilidade de se encontrar a Deus no "mundo", sem distinguir bem o que nele há de "criação" e o que há de "século" (no sentido negativo); ou a excessiva distinção entra a ação humana livre e a Graça Divina, quando o que há, de fato, é uma cooperação consciente. Deixarei, contudo, o texto em sua forma original.
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Introdução
A
“filosofia do diálogo” do filósofo judeu Martin Buber (1878-1965) se encontra
sintetizada em sua obra capital, Eu e Tu[1].
Seu tema principal é a “relação” constitutiva da vida humana, nos seus três
níveis: relação com as coisas da natureza, com os demais seres humanos e com
Deus. O homem não pode ser entendido como um “em si mesmo”, independente destas
relações. Para o filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), o tema da relação
é enfocado a partir do conceito de “respectividade”, que é a constitutiva
remissão de cada coisa real a todas as demais: nada começa existindo à parte,
para só depois entrar em relação com outras coisas, senão que todas as coisas
reais são intrinsecamente respectivas[2].
A
partir da constatação desta similitude entre os dois filósofos contemporâneos,
o presente artigo pretende investigar se e como o pensamento de Zubiri pode
ilustrar o pensamento de Buber. Para isso, utilizarei noções da noologia (filosofia
da intelecção), da metafísica, da antropologia e da filosofia teologal zubirianas[3]
para entender as modalidades da relação, que Buber denomina
“palavras-princípio” (“Eu-Tu” e “Eu-Isso”), e para compreender as relações que
o Eu estabelece com os outros homens e com Deus.
O fio condutor dessa
investigação será a o livro de Buber: à medida que as ideias de Eu e Tu forem sendo expostas na ordem em
que aparecem na obra, serão feitos comentários a partir da filosofia zubiriana.
Complementarmente, serão feitos alguns outros comentários desde uma ótica
cristã –que é a de Zubiri–, no intuito de apontar, bastante sumariamente, que a
perspectiva buberiana coincide fundamentalmente com a perspectiva cristã [tenha-se em conta a nota supra], sendo
o caso de Zubiri apenas um exemplo, quiçá o mais significativo, desta
confluência –na medida em que seu pensamento parece ser o mais apto para
patenteá-la.
1.
As palavras-princípio
Martin Buber
inicia seu clássico livro falando das duas atitudes que o homem pode ter, as quais
se expressam na dualidade das palavras-princípio que ele pode proferir: uma
palavra princípio é o par Eu-Tu, e a outra é o par Eu-Isso (Ele ou Ela). Assim,
o Eu humano também é duplo: o Eu da palavra-princípio Eu-Tu é distinto daquele
da palavra-princípio Eu-Isso.
Os
elementos das palavras-princípio são respectivos, não existem fora dessa
respectividade. Para Zubiri, toda coisa real é respectiva, no sentido de estar
aberta a toda outra realidade, existente ou possível, pelo simples fato de ser
real; nada existe de modo isolado em primeiro lugar, para só então “começar” a
referir-se às demais coisas[4].
No caso do homem, sua respectividade com as demais realidades (pessoas ou
coisas), em ordem à sua realização pessoal, recebe o nome especial de “religação”
(em última instância, estamos religados a Deus, através das coisas reais): “a
religação é a raiz mesma desta realidade pessoal minha”[5].
Assim, existimos religados, e ora podemos vivenciar esta religação como o Eu de
um Tu, ora, como o Eu de um Isso.
O ser profere essas
palavras-princípio, nos diz Buber, isto é, podemos considerar que o homem é,
como diz Zubiri, a “voz da realidade”[6].
“A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade”[7]:
quando o homem está plenamente presente a si, então encara o outro –a natureza,
as outras pessoas, o próprio Deus–, como Tu; quando não, o homem encara a
alteridade como Isso[8].
Não
há Eu em si, diz Buber, mas apenas o Eu das palavras-princípio; como já dito, o
homem não começa existindo à parte das outras coisas reais, mas ele é
constitutivamente religado à alteridade[9].
Proferir uma das palavras-princípio é identificar-se com uma das modalidades do
Eu, ou o Eu de um Tu, ou o Eu de um Isso: “Aquele que profere uma
palavra-princípio penetra nela e aí permanece”[10].
O
reino do Isso é o reino do objeto, onde cada Isso é limitado por outro Isso; o
outro reino é o reino do Tu, que não se confina a nada, não pode ser abarcado
pelo Eu, o qual, assim, permanece em relação, isto é, permanece vivenciando a
relação, não a suprime pela objetivação do Isso[11].
A modalidade de relação
Eu-Tu difere, portanto, daquela Eu-Isso: pela primeira, o homem vivencia
autenticamente sua relação, encara-se como um ser relacional, e reconhece o
outro como tal; pela segunda, o homem converte a alteridade em objeto, em algo
que pode ser utilizado e, em última instância, encapsulado pelo homem. Para
Zubiri, a inteligência humana, senciente, apreende no sentir, imediatamente, as
coisas como reais, como algo de suyo
(delas e não da intelecção), reconhecendo a independência das coisas, ao mesmo
tempo em que se mantém em respectividade com elas[12].
Já o puro sentir animal apreende as coisas como estímulo, como algo que, ainda
que seja objetivo, se esgota no processo senciente do animal. Dizer “Tu” é
apreender o outro como real, como de suyo;
dizer “Isso” é reduzi-la a estímulo, a mero objeto “para mim”, uma
possibilidade sempre à espreita.
Para Zubiri, a impressão
que caracteriza a sensação não é mera afecção, mas é afecção de algo “outro”, o
qual se impõe com determinada força ao senciente. O “momento de alteridade”
pertence ao processo senciente quer da pessoa humana, quer dos animais, e nesse
momento as coisas sentidas aparecem com uma determinada “formalidade” ou modo
de ficar na impressão: “realidade” (homem) ou “estimulidade” (animal). O ser
humano não suprime a estimulidade –a coisa continua servindo para que ele reaja
à situação–, mas essa é integrada à realidade, de modo que se reage a algo que
é de suyo, isto é, que não existe apenas
para que eu reaja, mas possui um conteúdo próprio. A possibilidade de encarar a
realidade (o Tu) como Isso (estímulo, algo “para mim” e não de suyo) pende desse caráter senciente
da inteligência humana.
O homem experiencia o seu
mundo: as coisas da experiência (as que são Isso, Ele, Ela) se realizam “nele”,
e não na unidade respectiva entre ele e o mundo: “O mundo não toma parte da
experiência”[13].
O mundo como experiência se opõe ao mundo da relação, o qual se realiza em três
esferas: a vida com a natureza, a vida com os homens, e a vida com os seres
espirituais. Estas esferas nos remetem a Deus, que é o fundamento último da
religação: “Em cada uma das esferas, graças a tudo aquilo que se nos torna
presente, nós vislumbramos a orla do Tu eterno, nós sentimos em cada Tu um
sopro provindo dele, nós o invocamos à maneira própria de cada esfera”[14].
Cada Tu, cada realidade considerada em sua irredutibilidade ao sujeito humano,
é um canal para o Tu eterno.
Buber
exemplifica a relação Eu-Tu a respeito de uma árvore, dizendo que ela não se
reduz a uma representação ou sentimento do Eu, mas que ela se apresenta “em
pessoa”[15].
Pode-se pensar, recorrendo à conceituação zubiriana, que a árvore apresenta-se
como algo de suyo, como algo “seu”, e
não da minha impressão. Diz-nos Buber que é “a árvore mesma” que se apresenta a
mim[16];
Zubiri diria: a árvore “em próprio”.
O
homem não é, para Buber, um simples Ele ou Ela, limitado por outros Eles ou
Elas. Ele é um Tu, sem limites, o que não significa que só exista ele, mas que
tudo o mais vive “em sua luz”[17];
como dissera Zubiri em “Hegel e o problema metafísico”, o homem é a “luz das
coisas”, não um troço do universo entre outros troços, nem o abarcador do
universo (as duas metáforas de Ortega y Gasset); é a luz porque as coisas, já
reais em e por si mesmas, só no homem adquirem a atualidade da verdade[18].
Esse mesmo homem, para o filósofo judeu, é uma unidade que antecede suas partes
constitutivas, como ensina Zubiri, ao dizer que a unidade é anterior ao sistema
de notas da substantividade, que é a coisa real[19].
Esse homem também transcende o tempo e o espaço nos quais está situado.
Não
se pode ter experiência do Tu, mas pode-se sabê-lo, não parcialmente, mas em
sua totalidade. O Tu vem ao meu encontro, mas devo lhe endereçar a
palavra-princípio, este é um ato de meu ser, meu ato essencial; da mesma forma,
Zubiri nos diz que a realidade é “óbvia”, sai ao caminho do homem[20],
mas a intelecção que apreende o de suyo é
um ato humano, nossa “habitude” ou modo de enfrentar-nos com as coisas. A
relação com o Tu é imediata, como é imediata a apreensão da realidade para
Zubiri. Não entra em cena o jogo dos conceitos –como na apreensão primordial de
realidade, que se dá no próprio sentir–, mas todo meio é abolido para que
aconteça o encontro que marca a vida atual.
O Tu é presença,
encontro, relação, enquanto o Isso é objeto, ausência de relação. No entanto,
podemos nos refugiar no mundo da objetividade, do palavreado, ao invés de
pronunciarmos a palavra Eu-Tu.
A relação Eu-Tu não é uma
relação sentimental: “Os sentimentos acompanham o fato metafísico e
metapsíquico do amor, mas não o constituem (...). Os sentimentos residem no
homem mas o homem habita em seu amor”[21].
O amor é a força que permite enxergar o Tu:
Àquele que habita e contempla no
amor, os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas; bons
e maus, sábios e tolos, belos e feios, uns após outros, tornam-se para ele
atuais, tornam-se Tu, isto é, seres desprendidos, livres, únicos, ele os
encontra cada um face-a-face. (...) Amor é responsabilidade de um Eu para com
um Tu[22].
Para
Zubiri, seguindo a Dionísio Areopagita, para quem “o bem é difusivo de si”, a
realidade enquanto tal é amor, é “doação”, é um “dar de si”[23].
O amor aproxima o Eu dos entes, e ao aproximar-se dos entes, o Eu atinge o Ser;
as coisas são canais da fundamentalidade divina, diria Zubiri. A contemplação amorosa
do Tu, contudo, é breve; nossa atenção é limitada, de modo que as coisas e as
pessoas são conduzidas ao mundo do Isso.
“No
começo é a relação”, diz Buber[24].
A princípio o que há é a unidade originária de Eu e Tu, e somente a partir dela
pode-se dar a decomposição. A respectividade originária entre inteligência e
realidade não se compõe dos elementos “sujeito” e “objeto”, mas ela se decompõe
nesses elementos, nos diz Zubiri[25].
Os conceitos, as representações, se “desligaram”, diz Buber, dos eventos de
relação e de estados de relação[26].
Veja-se, por contraste, a ressonância da religação[27].
A relação é um
“face-a-face”, é uma reciprocidade, dentro de cujo âmbito os seres aparecem “em
pessoa”, no sentido anteriormente mencionado. Buber refere que, na originária
relação, as coisas reais aparecem dotadas daquilo que muitos povos primitivos
chamaram de Mana, “poder”:
Os fenômenos, aos quais ele [o
pensamento primitivo] atribui “poder místico”, são todos fenômenos elementares
de relação, sobretudo aqueles sobre os quais ele medita, porque comovem seu
corpo e deixam nele uma impressão de emoção. Não só a lua e o morto que o
visitam durante a noite, trazendo-lhe dor ou prazer, possuem aquele poder, mas
também o sol que o queima, o animal selvagem que urra, uiva diante dele, o
chefe cujo olhar o domina e o chamane,
cujo canto o impele com força à caça. (...) O Mana é aquilo em virtude do que, uma vez possuído, por exemplo, em
uma pedra mágica, se pode agir. A “ideia de mundo” dos primitivos é mágica, não
pelo fato de ter como centro o poder mágico do homem, mas porque este poder é
unicamente uma variedade particular do poder mágico universal da qual provém
toda ação essencial[28].
Este “poder mágico
universal” adquire em Zubiri contornos metafísicos na sua ideia de “poder do
real”, que é a própria (formalidade de) realidade enquanto “domina” a vida do
homem, religando-o a ela como um poder último –o homem se encontra “na”
realidade–, possibilitante –o homem vive “desde” a realidade– e impelente –o
homem vive “pela” realidade–, veiculado pelas coisas reais, que são
“poderosidades”[29].
Como o poder do real é algo que está nas coisas reais, mas é um “mais” nelas,
nos remete à busca do fundamento da realidade, que não pode ser uma realidade
mais –a qual seria só mais um veículo do poder do real–, mas o Fundamento da
realidade: Deus.
A
ideia do “Eu” como um sujeito isolado surge, como já dito, da decomposição das
vivências primordiais. Essa decomposição torna possível a palavra-princípio
Eu-Isso. A palavra-princípio Eu-Tu, embora se decomponha em um Eu e um Tu, não
veio de sua justaposição, ao passo que a palavra-princípio Eu-Isso surge da
justaposição do Eu e Isso, é posterior ao Eu.
Da vivência da relação,
lembra Buber, parte um caminho para Deus; de sua ausência, somente um caminho
que leva ao nada[30].
Por isso Zubiri insiste tanto na necessidade da revivescência da religação, não
para que o homem fuja deste mundo ou de sua tarefa, escondendo-se em Deus, mas
para que, justamente, se encontre, encontre o verdadeiro valor de sua vida, e
possa realizar-se, escapando ao nihilismo que o espreita[31].
Buber exemplifica a
relação Eu-Tu com o vínculo natural da vida pré-natal das crianças, quando o
horizonte vital do bebê se inscreve no horizonte da mãe e, por ele, se une a todo
o universo. Tal vínculo natural expressa o vínculo espiritual ou a religação
que o homem tem com todos os seres, não sendo, portanto, sinônimo de uma
indistinção ou de uma assimilação, pela mãe, do filho; isso se daria se se
tratasse de uma relação Eu-Isso[32].
Para a criança, o instinto relacional é prévio a toda e qualquer objetivação da
realidade: a criança a tudo empresta vida, a tudo transforma em Tu[33].
Pode-se dizer que o Tu é “inato”, e que o desenvolvimento pessoal da criança
está ligando ao desenvolvimento da nostalgia do Tu.
O homem se torna Eu na
relação com o Tu, ou seja, o que o homem é inclui sua religação ao Tu. A
respectividade entre o Eu e o Tu é o âmbito de todas as relações concretas com
o Tu. O Isso só surge ao sentir-nos desligados. O Tu aparece no face-a-face,
que de tudo o mais faz cenário; Zubiri nos diz que a realidade aparece no
“campo de realidade”, que é a respectividade do real dada em impressão[34].
“O mundo é duplo para o
homem pois sua atitude é dupla”[35].
Para o homem que diz Tu, existe entre ele e o mundo a reciprocidade da doação:
“tu lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz Tu e se entrega a ti. (...)
ele te conduz até o Tu no qual se encontram as linhas, apesar de paralelas, de
todas as relações”[36].
O homem não pode viver
sem o Isso, isto é, ele necessariamente baixa a guarda da contemplação amorosa
–o que não significa dizer que a respectividade originária se desfaça, desde um
ponto de vista metafísico; ela apenas deixa de ser vivenciada enquanto tal– mas
não pode viver somente com o Isso, pois então não seria autenticamente homem.
2.
Relação e vida humana
Buber inicia a
segunda parte de seu livro falando como a história da humanidade manifesta um
progressivo crescimento do mundo do Isso. Zubiri diria que, hoje, é preciso
mostrar que o homem é religado, que essa realidade caiu no esquecimento, não
“se sabe mais que alguém vem”[37].
A capacidade de experimentação e de utilização se desenvolve, muitas vezes, em
detrimento de sua “força-de-relação”, pela qual o homem vive no Espírito, isto
é, em Deus[38].
A manifestação
humana do espírito é a palavra dirigida ao Tu. O espírito não está no Eu, mas
entre o Eu e o Tu. Viver no Espírito é poder responder ao Tu. Mas é o silêncio
diante do Tu que deixa a este sua liberdade. Isso nos recorda o caráter
inefável da apreensão primordial de realidade zubiriana, condição de todo logos e de toda ratio[39].
Diz
Buber: “O ser não se comunica na lei deduzida depois de aparecer o fenômeno,
mas sim no fenômeno mesmo”[40].
Da mesma forma que, para Zubiri, não é preciso sair do fenômeno, do fato, para
chegar à realidade, pois ela, enquanto de
suyo, se apresenta à percepção sensível do homem.
Aquele
que diz Eu-Isso pode perder seu poder de relação e separar-se das coisas, criando-se
um domínio do Eu, enquanto âmbito dos sentimentos, do “dentro”, e outro domínio
do Isso, enquanto âmbito das instituições, do “fora”[41].
Nenhum desses domínios conhece o homem, a pessoa, a comunidade, a presença: “As
instituições não geram a vida pública, os sentimentos não criam a vida pessoal”[42].
A impessoalidade das instituições gera angústia para o homem; quanto aos
sentimentos, os homens os têm como o que é mais pessoal. E eles julgam que
devem permear as instituições de sentimentos, mas a verdadeira comunidade não
nasce de sentimentos mútuos (ainda que não possa prescindir disso), mas sim
de estarem todos em relação viva e
mútua com um centro vivo e de estarem unidos uns aos outros em uma relação viva
e recíproca. A segunda resulta da primeira; porém não é dada imediatamente com
a primeira. A relação viva e recíproca implica sentimentos, mas não provém
deles. A comunidade edifica-se sobre a relação viva e recíproca, todavia o
verdadeiro construtor é o centro ativo e vivo[43].
As
palavras de Buber nos lembram as de Santo Agostinho, para quem uma sociedade
surge quando seus membros compartilham um mesmo amor. Sobre a comunhão pessoal,
Zubiri escreveu as seguintes belas palavras:
A comunhão pessoal se caracteriza
entre outras coisas pela absoluta insubstituibilidade de cada uma das pessoas:
cada qual ocupa seu lugar e é absolutamente insubstituível por outra. Não é
como uma sociedade, que, por ser impessoal, umas pessoas podem ser substituídas
por outras. Precisamente por isto, pode-se viver em uma sociedade de uma forma
muito mais profunda que a meramente impessoal, a saber: uma convivência na que
real e efetivamente as outras pessoas estejam convivendo comigo não enquanto outras
senão enquanto pessoas.
Agora, se é essencial ao homem por sua própria estrutura o ter um corpo social no qual conviva impessoalmente, não lhe é menos essencial ter um corpo social no qual viva em comunhão. É absolutamente quimérico, impossível, encontrar pessoas que de uma ou outra forma não vivam em comunhão pessoal entre si. […] a limitação do social à sociedade como contradistinta da comunhão pessoal é uma limitação não só arbitrária senão falsificadora, porque procede não de uma limitação, senão de uma ignorância da comunhão pessoal[44].
Agora, se é essencial ao homem por sua própria estrutura o ter um corpo social no qual conviva impessoalmente, não lhe é menos essencial ter um corpo social no qual viva em comunhão. É absolutamente quimérico, impossível, encontrar pessoas que de uma ou outra forma não vivam em comunhão pessoal entre si. […] a limitação do social à sociedade como contradistinta da comunhão pessoal é uma limitação não só arbitrária senão falsificadora, porque procede não de uma limitação, senão de uma ignorância da comunhão pessoal[44].
Na
comunhão pessoal eu trato os demais não somente como “outros”, mas como “outras
pessoas”; a alteridade também ocorre na relação Eu-Isso, mas a alteridade
pessoal só ocorre na relação Eu-Tu, em que o outro é alguém insubstituível.
Limitar as relações humanas às relações sociais impessoais é desconhecer o
dinamismo da relação Eu-Tu, é ignorar a realidade da comunhão pessoal,
possibilidade ao alcance de todo ser humano, sem a qual, para dizer a verdade,
ele não pode viver.
Sobre
o matrimônio, instituição da vida pessoal, e a relação que o fundamenta, disse
Buber: “O matrimônio por exemplo, nunca se regenerará senão através daquilo que
sempre fundamentou o verdadeiro matrimônio: o fato de que dois seres humanos se
revelam o Tu um ao outro”[45].
As verdadeiras vida pública e vida pessoal são duas formas de (re)ligação.
A
palavra-princípio Eu-Isso não tem nada mal em si, porque a matéria (condição
daquilo que pode ser objetivado) não é má em si mesma. O mal é que a matéria
objetivável tenha a pretensão de ser tudo o que existe (que é a pretensão do
racionalismo cientificista de nossos dias). Como diz Buber: “A vontade de
utilização e a vontade de dominação do homem [próprias da relação Eu-Isso] agem
natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de relação
e sustentadas por ela”[46].
Tendo a religação como pano de fundo, o homem pode empenhar-se nas tarefas
objetivantes da vida; mas não ao ponto de se desligar. Assim, “a economia,
habitáculo da vontade de utilizar e o Estado, habitáculo da vontade de dominar,
participam da vida enquanto participam do espírito”[47].
Economia e Estado, para serem projetos válidos, devem servir à pessoa humana –e
aqui talvez esteja a chave para compreender a inadequação das propostas liberal
e socialista, que veem essas realidades como fins em si mesmos, e não como
meios a serviço da pessoa. “As estruturas da vida humana em comum extraem a
própria vida da plenitude da força de relação que lhes penetra por todas as
suas partes e sua forma encarnada eles a devem à ligação desta força ao
espírito”[48].
Somente por sua religação com o homem e o mundo do espírito, podem as
estruturas econômica e política subsistir. “Somente a presença do espírito pode
infundir em todo trabalho, sentido e alegria, e, em toda propriedade, respeito
e dedicação, não de um modo pleno, mas satisfatoriamente”[49].
Importa “que as instituições do Estado se tornem mais livres e as da economia
mais justas”[50],
não por si mesmas –por algum tipo de autorregulação–, mas pelo espírito.
Na
relação Eu-Tu o homem encontra a garantia da liberdade de seu ser e do Ser.
Como diz Zubiri, a religação é a causa de nossa liberdade; somos livres “em” –e
não apenas “de” ou “para”–, ou seja, na realidade, em última instância, em Deus[51].
Conhecer a presença do Tu traz a aptidão para tomar uma decisão. E tomar uma
decisão livre é descobrir a ação que me requer: liberdade e destino vão de mãos
dadas[52].
Eles se unem mutuamente, são complementares; a liberdade não é limitada pelo
destino. Como diz Zubiri, a religação nos vincula à realidade ao mesmo tempo em
que nos deixa relativamente “soltos” para exercer nossa liberdade. A revelação
mais concreta da liberdade é a realidade da “conversão”, pela qual se rompem as
amarras dos impulsos de utilização[53].
Para Zubiri, a religação pode ser vivida “conversivamente” ou “aversivamente”,
isto é, voltados para Deus ou de costas para Ele.
Liberdade e destino se
opõem ao arbitrário e à fatalidade. O homem livre é aquele que quer sem
arbitrariedade, que crê na religação entre o Eu e o Tu, que vai ao encontro do
destino –o destino não é algo que inexoravelmente ocorre (fatalidade), mas algo
que pode ser traído. O homem livre se oferece ao encontro, ao passo que o
arbitrário, não. O homem arbitrário não tem destino, mas um ser-determinado
pelas coisas e instintos; ele não tem o grande querer. O homem arbitrário
precisa vivenciar o desespero, para que possa iniciar o caminho da conversão.
Quando ele se sentir mais “desligado”, defraudado pelo mundo de objetos que o
rodeia na relação Eu-Isso, então ele perceberá sua inelutável religação.
O Eu da palavra princípio
Eu-Tu é, repitamos mais uma vez, diferente daquele da palavra-princípio
Eu-Isso:
O Eu da palavra-princípio Eu-Isso
aparece como egótico e toma consciência de si como sujeito (de experiência e de
utilização).
O Eu da palavra-princípio Eu-Tu
aparece como pessoa e se conscientiza como subjetividade (sem genitivo dela
dependente).
O egótico aparece na medida em que
se distingue de outros egóticos.
A pessoa aparece no momento em que
entra em relação com outras pessoas.
O primeiro é a forma espiritual da
diferenciação natural, a segunda é a forma espiritual do vínculo natural.
A finalidade da separação é o
experienciar e o utilizar, cuja finalidade é, por sua vez, “a vida”, isto é, o
contínuo morrer no decurso da vida humana.
A finalidade da relação é o seu
próprio ser, ou seja, o contato com o Tu. Pois, no contato com cada Tu,
toca-nos um sopro da vida eterna.
Quem está na relação participa de
uma atualidade, quer dizer, de um ser que não está unicamente nele nem
unicamente fora dele. Toda atualidade é um agir do qual eu participo sem poder
dele me apropriar. Onde não há participação não há atualidade[54].
A
“atualidade”, em Zubiri, é a presença de uma realidade, desde si mesma, em
outra[55].
Assim, por exemplo, a “verdade” é a atualidade da realidade na inteligência
humana[56].
Esta conceituação parece bastante apropriada para compreender o conceito
buberiano de atualidade, pois o ser não está unicamente no participante, mas
está nele, ou seja, não está unicamente fora do participante. Não é possível
apropriar-se da realidade atual, como se ela fosse minha, independente daquilo
que Zubiri chama sua “atuidade”, isto é, sua realidade plena. Para o filósofo
basco, ainda, a primeira atualidade da realidade é o “ser”, isto é, a presença
respectiva da realidade no mundo[57].
A
pessoa se reconhece como um “ser-com”, como um ente; Zubiri dizia o mesmo: o
homem vive “com” as demais coisas, acrescentando: “na” realidade[58].
O egótico se reconhece como um ente-que-é-assim e não-de-outro-modo. A pessoa
diz “Eu sou” e o egótico, “eu sou assim”. Conhecer-se a si mesmo, para um é
conhecer-se como ser, e para o outro, conhecer o próprio modo de ser,
distanciado do Ser. Aqui está latente aquela distinção que Zubiri faz entre
“forma de realidade” e “talidade”, isto é, a coisa real como um momento da
realidade e a mesma coisa como uma “tal” ou específica realidade[59].
Homem
algum é puramente pessoa ou puramente egótico; cada um vive no seio de um duplo
Eu. Para alguns a dimensão pessoal é tão determinante que podem ser chamados
pessoas, e para outros a dimensão de egotismo é que predomina, podendo ser
chamados de egóticos. Se o egotismo for preponderante, o homem viverá na
inatualidade, e a pessoa terá uma existência velada.
O
homem é mais pessoa quanto mais pronuncie com intensidade o Eu da
palavra-princípio Eu-Tu. Sócrates é o exemplo de homem que vive na relação com
os homens, a qual se encontra no diálogo. Goethe é o exemplo da relação com a
Natureza, que a ele se oferece e fala constantemente. Jesus é o exemplo da
relação absoluta, a relação com Deus, relação das relações; seu Tu é o Pai, e
ele é o Filho.
Se
um homem não pode reconhecer qualquer relação com um Tu, isto é, se tudo que o
envolve é um Isso, então ele é um Tu demoníaco, que responde ao chamado com um
Isso; para ele nenhum ente pode tornar-se um Tu. Este homem demoníaco, que
Buber exemplifica em Napoleão, mas que poderíamos identificar em Hitler ou
Stálin (Eu e Tu é de 1923), é um
terceiro tipo de homem: nem pessoa, nem egótico; nem subjetividade, nem
sujeito.
3.
A relação com Deus
“As
linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no Tu eterno”[60].
Assim começa Buber a terceira parte de seu livro, dedicada à relação com Deus.
Para Zubiri, a religação à realidade, enquanto esta exerce uma fundamentalidade
na vida humana, também deve ser prolongada em direção à religação com Deus,
Fundamento do poder do real, fonte última de toda relação, de toda comunhão que
o homem vivencia. Cada Tu, diz Buber, é uma perspectiva para Deus; cada
invocação a um Tu é, em última instância, invocação ao Tu Eterno. O Tu Eterno é
aquele que não pode tornar-se Isso[61];
Ele é uma realidade-fundamento, no dizer do Zubiri[62].
Não se fala somente sobre Deus, mas também se fala com Ele.
A
relação ao Tu Divino engloba a relação com as demais coisas; as estarmos
religados às coisas, é a Deus que estamos religados, afinal. Também invoca a
Deus o que nELe não crê mas invoca, com o impulso de todo o ser, o Tu de sua
vida, como Tu ilimitado. Isso porque tal postura, ateísta, que proclama a
facticidade do poder do real e a autossuficiência da vida, é apenas um erro de
interpretação de qual é a fonte deste poder, mas se atinge essa fonte
“aberrantemente”, diz Zubiri[63].
Na
relação, só podemos conhecer a nossa parte, diz Buber: devemos nos ocupar da
vontade, não da graça, cuja presença aguardamos à medida que avançamos para
ela. Essa posição, que respeita tanto a liberdade divina quanto a humana,
lembra a regra de S. Inácio de Loyola, segundo o qual “devemos agir como se
tudo dependesse de nós, e rezar como se tudo dependesse de Deus”. A relação é
“ao mesmo tempo, escolher e ser escolhido, passividade e atividade”[64].
O homem deve agir totalmente, suprimindo as ações parciais, numa ação que se
torna semelhante a uma passividade; tal ação é a contemplação.
Quando
nos relacionamos com um Tu presente no mundo, essa relação é exclusiva; tudo
passa a ser visto à sua luz. Quando o Tu se torna um Isso, a universalidade
dessa relação parece injusta. Na relação com Deus, tudo vai incluído na
relação, vemos tudo no Tu; não renunciamos ao mundo, mas lhe proporcionamos
“fundamentação”[65].
Para Zubiri, vemos todas às coisas à luz da realidade-fundamento. “Afastar o
olhar do mundo não auxilia a ida para Deus”[66],
pois, como diz Zubiri, o mundo é o acesso a Deus. “Olhar fixamente nele [no
mundo] também não faz aproximar de Deus, porém aquele que contemplar o mundo em
Deus, está na presença d’Ele”: contemplar o mundo como fim em si mesmo não nos
leva a Deus, mas percebê-lo como “fundado” nos introduz na sua presença. “‘Aqui
o mundo, lá Deus’ tal é uma linguagem do Isso” [67]:
Deus não é o “grande ausente”, diz Zubiri, mas é transcendente “no” mundo[68].
“‘Deus no mundo’ é outra linguagem do Isso”: Deus não pertence imanentemente ao
mundo, diz Zubiri, refutando o panteísmo ao dizer que Deus, presente nas
coisas, está nelas fazendo com que sejam diferentes dEle[69].
“Não compreender nada fora de Deus, mas apreender tudo nele, isso é a relação
perfeita”[70]:
ver todas as coisas em Deus é a consequência inelutável da religação.
“Não
se encontra Deus permanecendo no mundo, e tão pouco encontra-se Deus
ausentando-se dele”[71]:
Deus está no mundo, mas transcendendo-o; não há que buscá-lo fora do mundo, mas
ele não se confunde com o mundo.
“Sem dúvida Deus é o
‘totalmente Outro’, Ele é, porém, o totalmente mesmo, o totalmente presente.
Sem dúvida, ele é o ‘mysterium tremendum”
cuja aparição nos subjuga, mas Ele é também o mistério da evidência que me é
mais próximo do que o meu próprio Eu”[72].
Deus é transcendente, mas é presente, é transcendente “no” mundo. Ele é algo
que supera totalmente a capacidade da mente humana, mas se dá a conhecer e se
aproxima de nós; ele está em nossa intimidade, como já o reconhecia Santo
Agostinho.
“Na
medida em que tu sondas a vida das coisas e a natureza da relatividade, chegas
até o insolúvel; se negas a vida das coisas e da relatividade, deparas com o
nada; se santificas a vida, encontras o Deus vivo”[73].
A Deus se chega pelas coisas reais, negá-las é negar a possibilidade de
encontrar a Realidade Absolutamente Absoluta[74],
como Zubiri define a realidade divina; no entanto, há que percebê-las como
veículos do poder divino.
“Na verdade, não há uma procura de
Deus, pois não há nada onde não se possa encontrá-lo”[75]:
o homem deve deixar-se encontrar por Deus, antes que buscá-lo; Deus está em
todas as coisas, e cada encontro, cada Tu, é ocasião para vislumbrá-lo. “Não significa
que Deus possa ser deduzido de alguma coisa, por exemplo, da natureza como o
seu autor ou da história, como seu guia ou então do sujeito, como o si-mesmo
que nele se reflete”[76]:
não se chega a Deus tomando isoladamente o cosmos ou o sujeito humano e sua
história, mas a Ele se chega pela via da relação, isto é, pela religação.
“Pretende-se
ver, como elemento essencial na relação com Deus, um sentimento chamado
‘sentimento de dependência’ ou mais claramente, em termos mais recentes, o
sentimento de criatura”[77]:
tal sentimento criatural, em todo caso, acompanha a relação com Deus, a
religação, mas não é a relação criatural[78],
na qual se funda.
A
prece e a oferta, a oração e o sacrifício da própria vontade, são duas ações do
homem religioso, isto é, do homem que vive formalmente a religação a Deus; elas
diferem da magia, que pretende agir à parte da relação. A prece e a oferta
colocam-se “diante da Face”. Para Zubiri, além da adoração (da qual a oferta é
parte) e da oração, há que se falar também do refugiar-se em Deus; estas três
atitudes referem-se, respectivamente, ao tríplice caráter de Deus como Último,
Possibilitante e Impelente[79].
“Querer
ver a relação pura como uma dependência é querer desatualizar um dos
sustentáculos da relação e por isso mesmo, ela própria”[80]:
a relação não é só dependência, porque nela entre em jogo também, como afirma
Zubiri, a fundamentalidade de Deus. E nessa relação, a dualidade nunca é
abolida, o divino e o humano não se identificam, não se confundem, o homem não
é absorvido em Deus; ainda que Deus e o homem sejam inseparáveis, mantém-se,
sempre, sua distinção. Para Buber, a relação indestrutível de homem e Deus é,
da parte de Deus, missão e mandamento, da parte do homem, escuta e
contemplação, e entre os dois, conhecimento e amor.
Para
Buber, não há pensante sem pensado, sujeito sem objeto, e o espírito não existe
no interior do homem, mas a partir do homem, entre ele e o que não é homem;
temos aqui o conceito clássico de “intencionalidade”, retomado na fenomenologia
por Brentano, e reinterpretado por Zubiri como “abertura”: a pessoa, ao possuir
inteligência, é uma realidade aberta, a si mesma e às demais pessoas e coisas[81],
o que lhe possibilita viver a respectividade como religação.
O
mundo habita no homem como representação, e o homem habita no mundo como uma
realidade entre outras. Mas nem o idealismo, nem um realismo que não
privilegiasse a relação, e visse o homem como um troço do universo, têm a
última palavra; esta é a da relação, a do “vínculo com o Tu que não me separa
do mundo senão para ligar-me a ele”[82]:
novamente temos a religação, pela qual somos livres ao mesmo tempo em que essa
liberdade é fruto do elo com o Tu.
“Se
amamos o mundo atual, que não quer deixar-se abolir, realmente, em todos os
seus horrores, se ousarmos enlaçá-lo com os braços de nosso espírito, então
nossas mãos encontrarão as mãos que suportam o mundo”[83]:
novamente, não há que fugir do mundo, pois é por meio dele, em meio a seus
horrores, mas também em meio a todas as realizações humanas, que podemos
encontrar seu Fundamento. Diz ainda, Buber, para esclarecer que tipo de vida no
mundo pode afastar de Deus: “Nada sei sobre um ‘mundo’ e sobre uma ‘vida no
mundo’ que separe alguém de Deus; o que assim se denomina é a vida com o mundo
do Isso”[84].
“Deus
envolve o universo, mas não é o Universo; do mesmo modo Deus abarca o meu
si-mesmo e não o é”[85]:
uma filosofia da relação não é uma “mística da identidade”, tal como a denominou
o então cardeal Ratzinger[86].
A situação religiosa do
homem é marcada por antinomias essenciais e insolúveis, que não são como as
antinomias filosóficas de Kant, cujos pares opostos são válidos em domínios
separados –por exemplo, a necessidade, no âmbito do fenômeno, e a liberdade no
âmbito do ser–; eu devo viver entregue nas mãos de Deus e, ao mesmo tempo e no
mesmo âmbito, devo viver como se tudo dependesse de mim –já foi recordada a
regra inaciana.
“Quem
conhece Deus, conhece, sem dúvida, o distanciamento de Deus, e o tormento da
seca que ameaça o coração angustiado, mas não a ausência de presença. Nós é que
não estamos sempre presentes”[87]:
Deus não deixa de estar presente –a nós e em nós–; nós é que podemos sair de
sua presença, vivendo “aversivamente” a inquebrantável religação, como diz
Zubiri.
Considera-se
que o homem religioso não precisaria da relação com o mundo, porque a vida
social seria determinada pelo exterior. Confunde-se, assim, a comunidade,
fundada na relação, e a massa amorfa de unidades humanas sem relação entre si
–aqui está a diferença apontada por Zubiri entre a comunhão pessoal e a
sociedade. A comunidade resulta da mesma força que atua na relação com Deus.
“Não se pode orar verdadeiramente a Deus e utilizar o mundo”[88]:
a relação utilitária com o mundo contaminaria a relação com Deus.
“Sem dúvida, aquele que
se apresenta diante da Face, ultrapassou o dever e a falta, não porque tenha se
afastado do mundo, mas pelo contrário, porque realmente dele se aproximou. Não
se tem dever e culpa senão para com os estranhos; para com familiares tem-se
afeição e ternura”[89].
Desde uma perspectiva cristã, pode-se dizer que a comunhão com Deus inaugura o
regime da graça, cessando o da Lei. Não é que deixe de existir a moral, mas ela
se torna conatural ao homem.
O encontro com a presença
de Deus encerra, em primeiro lugar, a plenitude da verdadeira reciprocidade; em
segundo lugar, a confirmação e a garantia do sentido, a partir do qual nada
mais pode ser sem sentido; em terceiro lugar, a verdade de que este sentido não
se refere a “outra vida”, ao “além”, mas deve ser colocado à prova nesta vida,
neste mundo. “Cada um só pode pôr à prova o sentido recebido com a unicidade de
seu ser e na unicidade de sua vida”[90]:
o homem é “experiência de Deus”[91],
no sentido zubiriano, de provação física (e não somente lógica) da realidade de
algo: prova-se, no campo de realidade, o que poderia ser o real além da
apreensão; não se trata de uma constatação[92].
Só a vida de cada um pode “provar” o sentido de Deus.
Zubiri diz que há vários
modos de “experiência”, e só o “experimento”, modalidade científica, poderia
ser comparado ao conceito buberiano, na medida em que implica uma manipulação
da realidade. O modo de experiência que se pode ter de uma pessoa, como, no caso,
Deus, é a “compenetração”: essa experiência, intento de ver a realidade desde
sua própria interioridade, é aquela que se expressa, por exemplo, quando se diz
que “uma pessoa vê pelos olhos da outra”; trata-se de uma espécie de perikhóresis (conceito teológico que expressa
o estar de uma Pessoa Divina na Outra no seio da Santíssima Trindade); como diz
Zubiri, esta é uma operação difícil, pois sempre se corre o risco de projetar
sobre o experienciado a índole do próprio experienciador[93].
Trata-se de uma experiência à qual não se pode furtar, por exemplo, o exercício
da amizade ou da Psicologia.
“O homem
só pode corresponder à relação com Deus, da qual ele se tornou participante, se
ele, na medida de suas forças, à medida de cada dia, atualiza Deus no mundo”[94]: ver as
coisas em Deus, chamá-las de Tu, amá-las. “O encontro com Deus não acontece ao
homem para que ele se ocupe de Deus, mas para que ele coloque à prova o sentido
na ação no mundo. Toda revelação é vocação e missão”[95]: assim
como os apóstolos não puderam permanecer no Tabor contemplando a glória de
Cristo, o homem religioso deve voltar-se para seus irmãos e para o mundo, e,
neles, reencontrar a Deus.
“A
degeneração das religiões significa a degeneração da prece nelas”[96]: orar é
dizer Tu, deixar de fazê-lo, é perder a capacidade de vivenciar a relação. Uma
religião cujos membros deixem de dirigir-se a Deus como Tu, de vê-lo como
Realidade Possibilitante à qual se deve clamar, perderá a capacidade de viver a
religação de modo pleno. E tratando a Deus como um objeto, converter-se-á em
idolatria.
“Enquanto
o subjetivismo absorve Deus na alma, o objetivismo faz dele um objeto; este é
uma falsa segurança, aquele uma falsa libertação”[97]: Deus apresenta-se,
na religação, como realidade-fundamento, e como tal é nosso refúgio e raiz de
nossa liberdade.
“Cada
espiral do caminho nos conduz igualmente a uma perdição mais profunda e a uma
conversão mais originária”[98]: o
avançar da história é promessa de maiores e piores males, bem como de maiores e
melhores bens. Desde a perspectiva cristã do apocalipse, quando a história
houver alcançado o ápice da maldade, então virá o juízo final e o bem triunfará
definitivamente.
Considerações
finais
O homem moderno se sentia
“desligado”, só, encapsulado em sua mente, sem o mundo e sem Deus, o qual
servia apenas como muleta epistemológica no pensamento idealista. Essa situação
não poderia durar indefinidamente, e uma parte importante da filosofia
contemporânea buscou recuperar a essencial relacionalidade da vida humana. Para
Buber e Zubiri, entre outros, o homem é uma realidade “aberta”: a si mesma, aos
outros homens, às coisas e ao Fundamento do mundo. A relação buberiana, bem
como a respectividade e a religação zubirianas, são respostas que indicam a
real condição da pessoa humana, que assim pode vislumbrar a possibilidade de
concretizar sua fome de comunhão. O presente trabalho tratou de comparar ambas
perspectivas, e agora trato de sintetizar seus resultados.
Nossa constitutiva
religação à realidade pode ser vivida de duas maneiras: podemos ser o “Eu” de
um “Tu” ou um “Eu” de um “Isso”. Jamais existimos à parte destas relações,
senão que, ora contemplamos a alteridade como algo que possui formalmente seu
caráter real, e ora utilizamos a realidade de modo a convertê-la num objeto;
ora as coisas apresentam-se como algo de
suyo, ora são tragadas no mundo da utilidade. No primeiro caso, da relação
Eu-Tu, a relação é vivenciada de modo formal, no segundo, da relação Eu-Isso, a
relação é ignorada, vivemos como se fôssemos “desligados” e não religados, e o
“outro” é convertido em mero objeto para mim.
A relação com os outros
homens se fundamenta não em sentimentos –ainda que estes sejam indispensáveis–
mas sim no amor, que só poderá ser recíproco se se compartilha o amor a um mesmo
centro ativo e vivo. Buber parece estar dizendo que a fraternidade entre os
homens requer, mais que um mesmo ideal, um Pai comum. A impessoalidade das
instituições e das relações sociais, onde se trata os outros homens como
meramente “outros”, não pode eliminar a necessidade do que Zubiri chama de
“comunhão pessoal”, onde o outro é visto como “outra pessoa”; entre os homens,
somente a comunhão pessoal realiza a relação Eu-Tu.
Todas as relações são
vividas no âmbito da grande relação com o Tu Eterno; nossa religação com as
coisas reais manifesta nossa religação com Deus: a cada Tu invocado, invocamos
a Deus. Encontramos a Deus no mundo: as coisas, dotadas de “poder”, ao qual
Zubiri chama “poder do real”, são manifestações do poder e do ser divinos. Deus
é transcendente “no” mundo, na expressão zubiriana; nem se confunde com o
mundo, nem está ausente dele. O que nos une a Deus não é um “sentimento de
dependência”, mas sim a base deste, que é nossa relação criatural, nossa
constitutiva religação ao Fundamento. Na religação não somos “absorvidos” em
Deus, como propõe a “mística da identidade”; mantém-se sempre o encontro, a
reciprocidade, um Eu e um Tu inseparáveis, porém distintos. Essa religação é a
raiz da nossa liberdade: somos livres “em” Deus, para acatar nosso destino, que
assim, não é fatalidade. Deus nos oferece o sentido de nossa vida aqui e agora,
e podemos “prová-lo”; somos “experiência de Deus” no sentido zubiriano. Viver
em Deus não nos afasta do mundo, mas nos ajuda a tudo conhecer como Tu, a tudo
amar; orar, dizer Tu a Deus, nos obriga a dizer Tu a toda realidade.
[1] BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro Editora, 1977.
[2] Zubiri tratou o tema da respectividade
principalmente no artigo “Respectividad de lo real” (cf. ZUBIRI,
Xavier. “Respectividad de lo real”. Realitas,
v. III-IV, 1976-79, 1979, pp. 13-43) e no livro Inteligência e
realidade (cf. Id., Inteligencia y realidad. 5ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1998, pp. 118-123). A respectividade entre a pessoa
humana as demais realidades é algo do qual o homem necessita para realizar-se
e, sob este aspecto, denomina-se “religação”, tema tratado
nos artigos “Em torno do problema de Deus” e “Introdução ao problema de Deus”
(recolhidos no primeiro livro de Zubiri, já traduzido no Brasil: cf. Id., Natureza, História, Deus. São Paulo: É
Realizações, 2010), e que recebeu sua formalização no libro póstumo El hombre y Dios (cf. Id., El hombre y Dios. 6ª ed. Madrid: Alianza
Editorial, 1998. Minha tese doutoral, El
hombre religado a Dios en Xavier Zubiri, faz um estudo detalhado da
religação enquanto problema teologal do homem (cf. BELLO, Joathas. El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri.
Tese Doutoral. Pamplona: Universidad de Navarra, 2009)
[3] A questão da
inteligência foi tratada por Zubiri em sua trilogia Inteligência senciente (Inteligência
e realidade, Inteligência e logos,
e Inteligência e razão). Em Inteligência e realidade encontra-se uma
atualização sumária da metafísica da realidade como de suyo (cf. ZUBIRI, Inteligencia
y realidade, pp. 189-228), que já havia sido exposta no tratado Sobre la esencia: cf. Id., Sobre la esencia. 5ª ed. de 1985. Madrid: Alianza Editorial, 1998
(1ª reimpressão). Zubiri
tratou do problema do homem em vários escritos, deixando-nos uma síntese de sua
antropologia em El hombre y Dios. A filosofia
teologal de Zubiri é aquela parte de seu pensamento que trata do “problema de
Deus” ou “problema teologal do homem”, e que está centrada no tema da religação.
[4] Para simplificar as coisas, refiro-me somente à respectividade
“remetente” ou “mundificante”, porém esta se funda na respectividade
“constituinte” ou “suificante”, pela qual a realidade está aberta a seu próprio
conteúdo, constituindo a coisa real.
[5] ZUBIRI, El hombre y Dios, p.
93.
[6] Cf. Ibid., p. 104.
[7] BUBER, Eu
e Tu, p. 3.
[8] Posteriormente, Buber diria que “Para o homem,
o existente é um ser situado frente a ele, ou bem um objeto passivo. A essência
do homem surge desta dupla relação com o existente. Não são dois fenômenos
externos, mas dois modos básicos de existir com o ser” (BUBER, Eclipse de Dios. México, D.F.: Fondo de
Cultura Económica, 1995, p. 71).
[9] Para Buber “o homem é um ente de relação ou
(...) a relação lhe é essencial ou fundamento de sua existência” (ZUBEN, Newton
Aquiles von. “Introdução”. In: BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora,
1977, p. XLIV).
[10] BUBER, Eu e Tu, p. 4.
[11] Essa supressão é aparente: o homem, no domínio
do Isso, vive como se não estivesse referido à alteridade, uma vez que ela,
objetivada, é “assimilada” ao Eu. Mas a religação é um vínculo inquebrantável,
e o idealismo é um erro filosófico.
[12] “Buber se aproxima da perspectiva
intuicionista na medida em que distingue radicalmente duas atitudes de situação
no mundo, dando primazia à atitude pré-cognitiva e pré-reflexiva (não
conceitual) existente entre o homem e o ente que se lhe defronta no evento da
relação dialógica” (ZUBEN, “Introdução”, p. XXIX). Zubiri
não é exatamente um intuicionista, porque sua “apreensão primordial de
realidade”, que se dá no próprio sentir (que assim é intelectivo) apreende o
caráter real das coisas (as coisas como algo de suyo), mas não apreende diretamente a “essência” da realidade, a
qual deve ser buscada pela intelecção racional, modulação da inteligencia
senciente. Entretanto, a apreensão do de
suyo é pré-conceitual, pré-judicativa e pré-racional, o que o aproxima do
pensamento buberiano.
[13] BUBER, Eu e Tu, p. 6.
[14] Ibid., p. 7.
[15] Cf. Ibid., p. 9.
[16] Cf. Ibid., loc. cit.
[17] Cf. Ibid., loc. cit.
[18] Cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 274.
[19] Cf. Id., Sobre
la esencia, p. 322.
[20] Cf. ZUBIRI, Los problemas fundamentales de la metafísica occidental. Madrid:
Alianza Editorial, 1994, pp. 18-19.
[21] BUBER, Eu
e Tu, p. 17.
[22] Ibid., loc. cit.
[23] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios,
p. 192.
[24] BUBER, op. cit., p. 20.
[25] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y
realidad, p. 165.
[26] Cf. BUBER, op. cit., p. 21.
[27] Na realidade, não é possível “desligar-se”,
num estrito sentido metafísico, da realidade, mas tão somente viver como se não
fôssemos religados, viver no mundo do Isso.
[28] BUBER, Eu e Tu, pp. 21-22.
[29] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios,
p. 81-91.
[30] Cf. BUBER, op. cit., p. 27.
[31] Cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 441-442; Id., El hombre y Dios, p. 160.
[32] Com o qual, todo aquele que procura ver na
condição intrauterina a ausência de personalidade do nascituro, não chegou a
compreender o vínculo religacional que toda criatura tem com as demais.
[33] Cf. BUBER, Eu
e Tu, pp. 29-31.
[34] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y logos,
Madrid: Alianza Editorial, 1982, pp. 21-43.
[35] BUBER, op. cit., p. 35.
[36] Ibid., p. 37.
[37] Respondendo a S. João Damasceno, que diz que o
homem tem um conhecimento natural de Deus, Sto. Tomás diz que o homem conhece a
Deus enquanto deseja ser feliz, e Deus é a felicidade, mas que nem todos o
reconhecem. Logo, é preciso demonstrar a existência de Deus, pois “saber que
alguém vem não é saber que Pedro vem”: cf. S.Th.
I, q.1, a.1 (AQUINO,
Sto. Tomás de. Suma Teológica, vol. I (I Parte – Questões 1-43). São Paulo: Edições Loyola, 2001). Zubiri comenta essa passagem dizendo que hoje
“não se sabe nem que alguém vem”, de modo que é preciso mostrar que o homem é
religado, para só depois demonstrar o fundamento da religação (cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 392-394).
[38] Cf. BUBER, Eu
e Tu, p. 45.
[39] Para Zubiri, a intelecção senciente se modula
em apreensão primordial de realidade (apreensão do caráter real das coisas), logos (âmbito das simples apreensões e
juízos) e razão (apreensão da essência real).
[40] BUBER, op. cit., p. 47.
[41] Trata-se do estranhamento e da separação entre dois âmbitos, o da
interioridade e o da exterioridade, que só poderiam estar unidos com a condição
do não esquecimento da relação Eu-Tu. A “experiencia”, no sentido buberiano,
não comunga de fato, com a alteridade, e então, com o tempo, essa realidade de
cisão se manifesta abertamente.
[42] BUBER, op. cit., p. 52.
[43] Ibid., p. 53.
[44] ZUBIRI, Tres dimensiones del ser humano: individual,
social e histórica. Madrid: Alianza Editorial, 2006, p. 59.
[45] BUBER, Eu e Tu, p. 53.
[46] Ibid., p. 56.
[47] BUBER, Eu e Tu, p. 57.
[48] Ibid., loc. cit.
[49] Ibid., p. 58.
[50] Ibid., loc. cit.
[51] ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 330.
[52] Cf. BUBER, op. cit., p. 62.
[53] Ibid., p. 67.
[54] BUBER, Eu e Tu, p. 73.
[55] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 137-141.
[56] Cf. Ibid., p. 230-231.
[57] O “ser” zubiriano
está mais para a “existência” dos modernos e contemporâneos, enquanto “presença
no mundo”, a qual é um efeito do “ato de ser” tomasiano, do que para o próprio
ato de ser (o qual estaria na linha da realidade ou de suyo de Zubiri).
[58] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 80.
[59] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 124.
[60] BUBER, Eu e Tu, p. 73. Do mesmo modo que em
Zubiri, a “dimensão teologal do homem” é o ponto de partida para o “problema de
Deus”, para Buber “a realidade humana [é] a via de acesso para a problemática
de Deus” (ZUBEN, “Introdução”, p. LXIII).
[61] “Deus nunca pode
chegar a ser para mim um objeto; não posso estabelecer com Ele outra relação
que a de um Eu a respeito a seu eterno Tu” (BUBER, Eclipse de Dios, p. 95).
[62] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 158-159.
[63] A “aberração” de
um astro é, em astronomia, a posição aparente que resulta de dois movimentos: o
da luz que do astro procede para a Terra e o da Terra sobre sua órbita.
Pode-se, entretanto, fazer a correção necessária para determinar a posição
efetiva do astro. Zubiri aplicava ao politeísmo e ao panteísmo esse conceito,
enquanto tais realidades são vias circundantes para chegar a Deus: cf. ZUBIRI, El problema filosófico de la história de las
religiones, Madrid: Alianza Editorial, 1993, pp. 200-201.
[64] BUBER, Eu e Tu, p. 89.
[65] Cf. Ibid., p. 91.
[66] Ibid., loc. cit.
[67] Ibid., loc. cit.
[68] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, pp. 174-175.
[69] Cf. Ibid., pp. 175-176.
[70] BUBER, op. cit., p. 92.
[71] Ibid., loc. cit.
[72] Ibid., loc. cit.
[73] Ibid., loc. cit.
[74] No post-scriptum
a Eu e Tu, de 1957, Buber chama a
Deus “pessoa absoluta” (cf. Ibid., p. 155).
[75] BUBER, op. cit., p. 93.
[76] Ibid., pp. 92-93.
[77] Ibid., p. 94.
[78] A “relação da
criatura a Deus” ou relação criatural é o vinculo inseparável entre o homem e
Deus, instaurado na criação, de acordo com Santo Tomás: cf. S.Th. I, q.45, a.3 (AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, vol. II: I Parte –
Questões 44-119. São Paulo: Edições Loyola, 2002). Tal vínculo é o mesmo que o da
religação.
[79] Assim como a
realidade tem esse tríplice caráter, Deus, seu Fundamento, o comparte.
[80] BUBER, Eu e Tu, p. 97.
[81] Cf. ZUBIRI, Sobre la esencia, p. 500.
[82] BUBER, op. cit.,
p. 108.
[83] Ibid., pp.
109-110.
[84] BUBER, Eu e Tu, p. 110.
[85] Ibid., loc. cit.
[86] Disse o agora
Papa Emérito: “Hoje gostaria de falar, em lugar disso, de ‘mística da
identidade’ e de ‘compreensão pessoal de Deus’. Trata-se, em última análise, de
saber se o divino, ‘Deus’, é alguém que está diante de nós, de modo que a
finalidade da religião, do ser do homem, é a relação –o amor– que resulta na
unidade (‘Deus é tudo em todos’: 1Cor 15,28), mas sem excluir a contraposição
do Eu e do Tu; ou se o divino ainda resta mais além da pessoa, a meta do homem
sendo a unificação e absorção no Todo-Uno”. E prossegue, citando J. Sudbrack
acerca de Buber: “Em sua obra Confissões
extáticas, o grande pensador judeu havia falado, em 1909, de um tipo de
mística da unidade. Depois da sua conversão, ‘rechaçou essa ideia tão
radicalmente que proibiu a reedição de seu livro’. Sua nova concepção era: ‘Não
a fusão na unidade, mas sim o encontro é o constitutivo básico da experiência
humana do ser’. Tinha chegado à visão de que, na compreensão da mística,
frequentemente se confundem dois tipos de acontecimentos: ‘Um deles é a
unificação da alma, que torna o homem apropriado para o trabalho do espírito. O
outro é a inescrutável índole do ato de relação, no qual se presume que de Dois
se faça Um’” (BENTO XVI, Fé, Verdade,
Tolerância. Trad. Sivar Hoeppner Ferreira. São Paulo: Instituto Brasileiro
de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, pp. 45-46).
[87] BUBER, op. cit.,
p. 114.
[88] Ibid., p. 124.
[89] BUBER, Eu e Tu, p. 125.
[90] Ibid., p. 128.
[91] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 325-345.
[92] Cf. Ibid., Inteligencia y razón, Madrid: Alianza
Editorial, 1983, pp. 223-227.
[93] Cf. Ibid., pp. 249-250.
[94] BUBER, op. cit., p. 132.
[95] BUBER, Eu e Tu, p. 133.
[96] Ibid., p. 136.
[97] Ibid., p. 137.
[98] Ibid., p. 138.

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