Monday, January 29, 2018

Notas zubirianas à obra Eu e Tu de Martin Buber

Capítulo do livro: VVAA. Conhecimento e Sociedade IV: O movimento da vida na variação das ideias. Rio de Janeiro: Real Engenho, 2014, pp. 13-51.

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Nota prévia:

Apesar do que diz o então o Cardeal Ratzinger, conforme recolhido na nota 86, a verdade é que Buber, apesar de abandonar a "mística da identidade", não conseguiu superar uma dualidade de índole panenteísta, como podemos ver na passagem que cito aqui:

"O Cristo da tradição joanina, o Verbo que uma vez se encarnou, conduz ao Cristo de Mestre Eckart, que Deus engendra eternamente na alma humana. [...]
Que a invocação do 'somos um' é infundad, torna-se claro para quem ler imparcialmente, parágrafo por parágrafo, o Evangelho segundo João. É, sem dúvida, o Evangelho da relação pura. Há mais verdade qaqui do que na fórmula familiar dos versos místicos: 'Eu sou tu e tu és eu'. O Pai e o Filho consubstanciais - podemos afirmar: Deus e o Homem consubstanciais, constituem o par indestrutivelmente atual, os dois suportes da relação primordial [...]" (BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro Editora, 1977, pp. 98-99).

Uma relação Deus-Homem nestes termos só é real, desde uma metafísica iluminada pela Revelação cristã, no Homem Deus Jesus Cristo e naqueles que são deificados pela Graça.

Em todo caso, as correlações estabelecidas neste trabalho conservam validade. Algumas coisas mereceriam reparo, por exemplo: a excessiva confiança na possibilidade de se encontrar a Deus no "mundo", sem distinguir bem o que nele há de "criação" e o que há de "século" (no sentido negativo); ou a excessiva distinção entra a ação humana livre e a Graça Divina, quando o que há, de fato, é uma cooperação consciente. Deixarei, contudo, o texto em sua forma original.


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Introdução

A “filosofia do diálogo” do filósofo judeu Martin Buber (1878-1965) se encontra sintetizada em sua obra capital, Eu e Tu[1]. Seu tema principal é a “relação” constitutiva da vida humana, nos seus três níveis: relação com as coisas da natureza, com os demais seres humanos e com Deus. O homem não pode ser entendido como um “em si mesmo”, independente destas relações. Para o filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), o tema da relação é enfocado a partir do conceito de “respectividade”, que é a constitutiva remissão de cada coisa real a todas as demais: nada começa existindo à parte, para só depois entrar em relação com outras coisas, senão que todas as coisas reais são intrinsecamente respectivas[2].
            
A partir da constatação desta similitude entre os dois filósofos contemporâneos, o presente artigo pretende investigar se e como o pensamento de Zubiri pode ilustrar o pensamento de Buber. Para isso, utilizarei noções da noologia (filosofia da intelecção), da metafísica, da antropologia e da filosofia teologal zubirianas[3] para entender as modalidades da relação, que Buber denomina “palavras-princípio” (“Eu-Tu” e “Eu-Isso”), e para compreender as relações que o Eu estabelece com os outros homens e com Deus.

O fio condutor dessa investigação será a o livro de Buber: à medida que as ideias de Eu e Tu forem sendo expostas na ordem em que aparecem na obra, serão feitos comentários a partir da filosofia zubiriana. Complementarmente, serão feitos alguns outros comentários desde uma ótica cristã –que é a de Zubiri–, no intuito de apontar, bastante sumariamente, que a perspectiva buberiana coincide fundamentalmente com a perspectiva cristã [tenha-se em conta a nota supra], sendo o caso de Zubiri apenas um exemplo, quiçá o mais significativo, desta confluência –na medida em que seu pensamento parece ser o mais apto para patenteá-la.



1. As palavras-princípio

Martin Buber inicia seu clássico livro falando das duas atitudes que o homem pode ter, as quais se expressam na dualidade das palavras-princípio que ele pode proferir: uma palavra princípio é o par Eu-Tu, e a outra é o par Eu-Isso (Ele ou Ela). Assim, o Eu humano também é duplo: o Eu da palavra-princípio Eu-Tu é distinto daquele da palavra-princípio Eu-Isso.
            
Os elementos das palavras-princípio são respectivos, não existem fora dessa respectividade. Para Zubiri, toda coisa real é respectiva, no sentido de estar aberta a toda outra realidade, existente ou possível, pelo simples fato de ser real; nada existe de modo isolado em primeiro lugar, para só então “começar” a referir-se às demais coisas[4]. No caso do homem, sua respectividade com as demais realidades (pessoas ou coisas), em ordem à sua realização pessoal, recebe o nome especial de “religação” (em última instância, estamos religados a Deus, através das coisas reais): “a religação é a raiz mesma desta realidade pessoal minha”[5]. Assim, existimos religados, e ora podemos vivenciar esta religação como o Eu de um Tu, ora, como o Eu de um Isso.

O ser profere essas palavras-princípio, nos diz Buber, isto é, podemos considerar que o homem é, como diz Zubiri, a “voz da realidade”[6]. “A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade”[7]: quando o homem está plenamente presente a si, então encara o outro –a natureza, as outras pessoas, o próprio Deus–, como Tu; quando não, o homem encara a alteridade como Isso[8].
            
Não há Eu em si, diz Buber, mas apenas o Eu das palavras-princípio; como já dito, o homem não começa existindo à parte das outras coisas reais, mas ele é constitutivamente religado à alteridade[9]. Proferir uma das palavras-princípio é identificar-se com uma das modalidades do Eu, ou o Eu de um Tu, ou o Eu de um Isso: “Aquele que profere uma palavra-princípio penetra nela e aí permanece”[10].
            
O reino do Isso é o reino do objeto, onde cada Isso é limitado por outro Isso; o outro reino é o reino do Tu, que não se confina a nada, não pode ser abarcado pelo Eu, o qual, assim, permanece em relação, isto é, permanece vivenciando a relação, não a suprime pela objetivação do Isso[11].

A modalidade de relação Eu-Tu difere, portanto, daquela Eu-Isso: pela primeira, o homem vivencia autenticamente sua relação, encara-se como um ser relacional, e reconhece o outro como tal; pela segunda, o homem converte a alteridade em objeto, em algo que pode ser utilizado e, em última instância, encapsulado pelo homem. Para Zubiri, a inteligência humana, senciente, apreende no sentir, imediatamente, as coisas como reais, como algo de suyo (delas e não da intelecção), reconhecendo a independência das coisas, ao mesmo tempo em que se mantém em respectividade com elas[12]. Já o puro sentir animal apreende as coisas como estímulo, como algo que, ainda que seja objetivo, se esgota no processo senciente do animal. Dizer “Tu” é apreender o outro como real, como de suyo; dizer “Isso” é reduzi-la a estímulo, a mero objeto “para mim”, uma possibilidade sempre à espreita.

Para Zubiri, a impressão que caracteriza a sensação não é mera afecção, mas é afecção de algo “outro”, o qual se impõe com determinada força ao senciente. O “momento de alteridade” pertence ao processo senciente quer da pessoa humana, quer dos animais, e nesse momento as coisas sentidas aparecem com uma determinada “formalidade” ou modo de ficar na impressão: “realidade” (homem) ou “estimulidade” (animal). O ser humano não suprime a estimulidade –a coisa continua servindo para que ele reaja à situação–, mas essa é integrada à realidade, de modo que se reage a algo que é de suyo, isto é, que não existe apenas para que eu reaja, mas possui um conteúdo próprio. A possibilidade de encarar a realidade (o Tu) como Isso (estímulo, algo “para mim” e não de suyo) pende desse caráter senciente da inteligência humana.

O homem experiencia o seu mundo: as coisas da experiência (as que são Isso, Ele, Ela) se realizam “nele”, e não na unidade respectiva entre ele e o mundo: “O mundo não toma parte da experiência”[13]. O mundo como experiência se opõe ao mundo da relação, o qual se realiza em três esferas: a vida com a natureza, a vida com os homens, e a vida com os seres espirituais. Estas esferas nos remetem a Deus, que é o fundamento último da religação: “Em cada uma das esferas, graças a tudo aquilo que se nos torna presente, nós vislumbramos a orla do Tu eterno, nós sentimos em cada Tu um sopro provindo dele, nós o invocamos à maneira própria de cada esfera”[14]. Cada Tu, cada realidade considerada em sua irredutibilidade ao sujeito humano, é um canal para o Tu eterno.
            
Buber exemplifica a relação Eu-Tu a respeito de uma árvore, dizendo que ela não se reduz a uma representação ou sentimento do Eu, mas que ela se apresenta “em pessoa”[15]. Pode-se pensar, recorrendo à conceituação zubiriana, que a árvore apresenta-se como algo de suyo, como algo “seu”, e não da minha impressão. Diz-nos Buber que é “a árvore mesma” que se apresenta a mim[16]; Zubiri diria: a árvore “em próprio”.
            
O homem não é, para Buber, um simples Ele ou Ela, limitado por outros Eles ou Elas. Ele é um Tu, sem limites, o que não significa que só exista ele, mas que tudo o mais vive “em sua luz”[17]; como dissera Zubiri em “Hegel e o problema metafísico”, o homem é a “luz das coisas”, não um troço do universo entre outros troços, nem o abarcador do universo (as duas metáforas de Ortega y Gasset); é a luz porque as coisas, já reais em e por si mesmas, só no homem adquirem a atualidade da verdade[18]. Esse mesmo homem, para o filósofo judeu, é uma unidade que antecede suas partes constitutivas, como ensina Zubiri, ao dizer que a unidade é anterior ao sistema de notas da substantividade, que é a coisa real[19]. Esse homem também transcende o tempo e o espaço nos quais está situado.
            
Não se pode ter experiência do Tu, mas pode-se sabê-lo, não parcialmente, mas em sua totalidade. O Tu vem ao meu encontro, mas devo lhe endereçar a palavra-princípio, este é um ato de meu ser, meu ato essencial; da mesma forma, Zubiri nos diz que a realidade é “óbvia”, sai ao caminho do homem[20], mas a intelecção que apreende o de suyo é um ato humano, nossa “habitude” ou modo de enfrentar-nos com as coisas. A relação com o Tu é imediata, como é imediata a apreensão da realidade para Zubiri. Não entra em cena o jogo dos conceitos –como na apreensão primordial de realidade, que se dá no próprio sentir–, mas todo meio é abolido para que aconteça o encontro que marca a vida atual.

O Tu é presença, encontro, relação, enquanto o Isso é objeto, ausência de relação. No entanto, podemos nos refugiar no mundo da objetividade, do palavreado, ao invés de pronunciarmos a palavra Eu-Tu.

A relação Eu-Tu não é uma relação sentimental: “Os sentimentos acompanham o fato metafísico e metapsíquico do amor, mas não o constituem (...). Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor”[21]. O amor é a força que permite enxergar o Tu:

Àquele que habita e contempla no amor, os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas; bons e maus, sábios e tolos, belos e feios, uns após outros, tornam-se para ele atuais, tornam-se Tu, isto é, seres desprendidos, livres, únicos, ele os encontra cada um face-a-face. (...) Amor é responsabilidade de um Eu para com um Tu[22].

Para Zubiri, seguindo a Dionísio Areopagita, para quem “o bem é difusivo de si”, a realidade enquanto tal é amor, é “doação”, é um “dar de si”[23]. O amor aproxima o Eu dos entes, e ao aproximar-se dos entes, o Eu atinge o Ser; as coisas são canais da fundamentalidade divina, diria Zubiri. A contemplação amorosa do Tu, contudo, é breve; nossa atenção é limitada, de modo que as coisas e as pessoas são conduzidas ao mundo do Isso.
            
“No começo é a relação”, diz Buber[24]. A princípio o que há é a unidade originária de Eu e Tu, e somente a partir dela pode-se dar a decomposição. A respectividade originária entre inteligência e realidade não se compõe dos elementos “sujeito” e “objeto”, mas ela se decompõe nesses elementos, nos diz Zubiri[25]. Os conceitos, as representações, se “desligaram”, diz Buber, dos eventos de relação e de estados de relação[26]. Veja-se, por contraste, a ressonância da religação[27].

A relação é um “face-a-face”, é uma reciprocidade, dentro de cujo âmbito os seres aparecem “em pessoa”, no sentido anteriormente mencionado. Buber refere que, na originária relação, as coisas reais aparecem dotadas daquilo que muitos povos primitivos chamaram de Mana, “poder”:

Os fenômenos, aos quais ele [o pensamento primitivo] atribui “poder místico”, são todos fenômenos elementares de relação, sobretudo aqueles sobre os quais ele medita, porque comovem seu corpo e deixam nele uma impressão de emoção. Não só a lua e o morto que o visitam durante a noite, trazendo-lhe dor ou prazer, possuem aquele poder, mas também o sol que o queima, o animal selvagem que urra, uiva diante dele, o chefe cujo olhar o domina e o chamane, cujo canto o impele com força à caça. (...) O Mana é aquilo em virtude do que, uma vez possuído, por exemplo, em uma pedra mágica, se pode agir. A “ideia de mundo” dos primitivos é mágica, não pelo fato de ter como centro o poder mágico do homem, mas porque este poder é unicamente uma variedade particular do poder mágico universal da qual provém toda ação essencial[28].

          
Este “poder mágico universal” adquire em Zubiri contornos metafísicos na sua ideia de “poder do real”, que é a própria (formalidade de) realidade enquanto “domina” a vida do homem, religando-o a ela como um poder último –o homem se encontra “na” realidade–, possibilitante –o homem vive “desde” a realidade– e impelente –o homem vive “pela” realidade–, veiculado pelas coisas reais, que são “poderosidades”[29]. Como o poder do real é algo que está nas coisas reais, mas é um “mais” nelas, nos remete à busca do fundamento da realidade, que não pode ser uma realidade mais –a qual seria só mais um veículo do poder do real–, mas o Fundamento da realidade: Deus.
            
A ideia do “Eu” como um sujeito isolado surge, como já dito, da decomposição das vivências primordiais. Essa decomposição torna possível a palavra-princípio Eu-Isso. A palavra-princípio Eu-Tu, embora se decomponha em um Eu e um Tu, não veio de sua justaposição, ao passo que a palavra-princípio Eu-Isso surge da justaposição do Eu e Isso, é posterior ao Eu.

Da vivência da relação, lembra Buber, parte um caminho para Deus; de sua ausência, somente um caminho que leva ao nada[30]. Por isso Zubiri insiste tanto na necessidade da revivescência da religação, não para que o homem fuja deste mundo ou de sua tarefa, escondendo-se em Deus, mas para que, justamente, se encontre, encontre o verdadeiro valor de sua vida, e possa realizar-se, escapando ao nihilismo que o espreita[31].

Buber exemplifica a relação Eu-Tu com o vínculo natural da vida pré-natal das crianças, quando o horizonte vital do bebê se inscreve no horizonte da mãe e, por ele, se une a todo o universo. Tal vínculo natural expressa o vínculo espiritual ou a religação que o homem tem com todos os seres, não sendo, portanto, sinônimo de uma indistinção ou de uma assimilação, pela mãe, do filho; isso se daria se se tratasse de uma relação Eu-Isso[32]. Para a criança, o instinto relacional é prévio a toda e qualquer objetivação da realidade: a criança a tudo empresta vida, a tudo transforma em Tu[33]. Pode-se dizer que o Tu é “inato”, e que o desenvolvimento pessoal da criança está ligando ao desenvolvimento da nostalgia do Tu.

O homem se torna Eu na relação com o Tu, ou seja, o que o homem é inclui sua religação ao Tu. A respectividade entre o Eu e o Tu é o âmbito de todas as relações concretas com o Tu. O Isso só surge ao sentir-nos desligados. O Tu aparece no face-a-face, que de tudo o mais faz cenário; Zubiri nos diz que a realidade aparece no “campo de realidade”, que é a respectividade do real dada em impressão[34].

“O mundo é duplo para o homem pois sua atitude é dupla”[35]. Para o homem que diz Tu, existe entre ele e o mundo a reciprocidade da doação: “tu lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz Tu e se entrega a ti. (...) ele te conduz até o Tu no qual se encontram as linhas, apesar de paralelas, de todas as relações”[36].

O homem não pode viver sem o Isso, isto é, ele necessariamente baixa a guarda da contemplação amorosa –o que não significa dizer que a respectividade originária se desfaça, desde um ponto de vista metafísico; ela apenas deixa de ser vivenciada enquanto tal– mas não pode viver somente com o Isso, pois então não seria autenticamente homem.


2. Relação e vida humana

Buber inicia a segunda parte de seu livro falando como a história da humanidade manifesta um progressivo crescimento do mundo do Isso. Zubiri diria que, hoje, é preciso mostrar que o homem é religado, que essa realidade caiu no esquecimento, não “se sabe mais que alguém vem”[37]. A capacidade de experimentação e de utilização se desenvolve, muitas vezes, em detrimento de sua “força-de-relação”, pela qual o homem vive no Espírito, isto é, em Deus[38].
            
A manifestação humana do espírito é a palavra dirigida ao Tu. O espírito não está no Eu, mas entre o Eu e o Tu. Viver no Espírito é poder responder ao Tu. Mas é o silêncio diante do Tu que deixa a este sua liberdade. Isso nos recorda o caráter inefável da apreensão primordial de realidade zubiriana, condição de todo logos e de toda ratio[39].
            
Diz Buber: “O ser não se comunica na lei deduzida depois de aparecer o fenômeno, mas sim no fenômeno mesmo”[40]. Da mesma forma que, para Zubiri, não é preciso sair do fenômeno, do fato, para chegar à realidade, pois ela, enquanto de suyo, se apresenta à percepção sensível do homem.
            
Aquele que diz Eu-Isso pode perder seu poder de relação e separar-se das coisas, criando-se um domínio do Eu, enquanto âmbito dos sentimentos, do “dentro”, e outro domínio do Isso, enquanto âmbito das instituições, do “fora”[41]. Nenhum desses domínios conhece o homem, a pessoa, a comunidade, a presença: “As instituições não geram a vida pública, os sentimentos não criam a vida pessoal”[42]. A impessoalidade das instituições gera angústia para o homem; quanto aos sentimentos, os homens os têm como o que é mais pessoal. E eles julgam que devem permear as instituições de sentimentos, mas a verdadeira comunidade não nasce de sentimentos mútuos (ainda que não possa prescindir disso), mas sim

de estarem todos em relação viva e mútua com um centro vivo e de estarem unidos uns aos outros em uma relação viva e recíproca. A segunda resulta da primeira; porém não é dada imediatamente com a primeira. A relação viva e recíproca implica sentimentos, mas não provém deles. A comunidade edifica-se sobre a relação viva e recíproca, todavia o verdadeiro construtor é o centro ativo e vivo[43].
        
As palavras de Buber nos lembram as de Santo Agostinho, para quem uma sociedade surge quando seus membros compartilham um mesmo amor. Sobre a comunhão pessoal, Zubiri escreveu as seguintes belas palavras:

A comunhão pessoal se caracteriza entre outras coisas pela absoluta insubstituibilidade de cada uma das pessoas: cada qual ocupa seu lugar e é absolutamente insubstituível por outra. Não é como uma sociedade, que, por ser impessoal, umas pessoas podem ser substituídas por outras. Precisamente por isto, pode-se viver em uma sociedade de uma forma muito mais profunda que a meramente impessoal, a saber: uma convivência na que real e efetivamente as outras pessoas estejam convivendo comigo não enquanto outras senão enquanto pessoas.

Agora, se é essencial ao homem por sua própria estrutura o ter um corpo social no qual conviva impessoalmente, não lhe é menos essencial ter um corpo social no qual viva em comunhão. É absolutamente quimérico, impossível, encontrar pessoas que de uma ou outra forma não vivam em comunhão pessoal entre si. […] a limitação do social à sociedade como contradistinta da comunhão pessoal é uma limitação não só arbitrária senão falsificadora, porque procede não de uma limitação, senão de uma ignorância da comunhão pessoal[44].
       
Na comunhão pessoal eu trato os demais não somente como “outros”, mas como “outras pessoas”; a alteridade também ocorre na relação Eu-Isso, mas a alteridade pessoal só ocorre na relação Eu-Tu, em que o outro é alguém insubstituível. Limitar as relações humanas às relações sociais impessoais é desconhecer o dinamismo da relação Eu-Tu, é ignorar a realidade da comunhão pessoal, possibilidade ao alcance de todo ser humano, sem a qual, para dizer a verdade, ele não pode viver.
            
Sobre o matrimônio, instituição da vida pessoal, e a relação que o fundamenta, disse Buber: “O matrimônio por exemplo, nunca se regenerará senão através daquilo que sempre fundamentou o verdadeiro matrimônio: o fato de que dois seres humanos se revelam o Tu um ao outro”[45]. As verdadeiras vida pública e vida pessoal são duas formas de (re)ligação.
            
A palavra-princípio Eu-Isso não tem nada mal em si, porque a matéria (condição daquilo que pode ser objetivado) não é má em si mesma. O mal é que a matéria objetivável tenha a pretensão de ser tudo o que existe (que é a pretensão do racionalismo cientificista de nossos dias). Como diz Buber: “A vontade de utilização e a vontade de dominação do homem [próprias da relação Eu-Isso] agem natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de relação e sustentadas por ela”[46]. Tendo a religação como pano de fundo, o homem pode empenhar-se nas tarefas objetivantes da vida; mas não ao ponto de se desligar. Assim, “a economia, habitáculo da vontade de utilizar e o Estado, habitáculo da vontade de dominar, participam da vida enquanto participam do espírito”[47]. Economia e Estado, para serem projetos válidos, devem servir à pessoa humana –e aqui talvez esteja a chave para compreender a inadequação das propostas liberal e socialista, que veem essas realidades como fins em si mesmos, e não como meios a serviço da pessoa. “As estruturas da vida humana em comum extraem a própria vida da plenitude da força de relação que lhes penetra por todas as suas partes e sua forma encarnada eles a devem à ligação desta força ao espírito”[48]. Somente por sua religação com o homem e o mundo do espírito, podem as estruturas econômica e política subsistir. “Somente a presença do espírito pode infundir em todo trabalho, sentido e alegria, e, em toda propriedade, respeito e dedicação, não de um modo pleno, mas satisfatoriamente”[49]. Importa “que as instituições do Estado se tornem mais livres e as da economia mais justas”[50], não por si mesmas –por algum tipo de autorregulação–, mas pelo espírito.
            
Na relação Eu-Tu o homem encontra a garantia da liberdade de seu ser e do Ser. Como diz Zubiri, a religação é a causa de nossa liberdade; somos livres “em” –e não apenas “de” ou “para”–, ou seja, na realidade, em última instância, em Deus[51]. Conhecer a presença do Tu traz a aptidão para tomar uma decisão. E tomar uma decisão livre é descobrir a ação que me requer: liberdade e destino vão de mãos dadas[52]. Eles se unem mutuamente, são complementares; a liberdade não é limitada pelo destino. Como diz Zubiri, a religação nos vincula à realidade ao mesmo tempo em que nos deixa relativamente “soltos” para exercer nossa liberdade. A revelação mais concreta da liberdade é a realidade da “conversão”, pela qual se rompem as amarras dos impulsos de utilização[53]. Para Zubiri, a religação pode ser vivida “conversivamente” ou “aversivamente”, isto é, voltados para Deus ou de costas para Ele.

Liberdade e destino se opõem ao arbitrário e à fatalidade. O homem livre é aquele que quer sem arbitrariedade, que crê na religação entre o Eu e o Tu, que vai ao encontro do destino –o destino não é algo que inexoravelmente ocorre (fatalidade), mas algo que pode ser traído. O homem livre se oferece ao encontro, ao passo que o arbitrário, não. O homem arbitrário não tem destino, mas um ser-determinado pelas coisas e instintos; ele não tem o grande querer. O homem arbitrário precisa vivenciar o desespero, para que possa iniciar o caminho da conversão. Quando ele se sentir mais “desligado”, defraudado pelo mundo de objetos que o rodeia na relação Eu-Isso, então ele perceberá sua inelutável religação.

O Eu da palavra princípio Eu-Tu é, repitamos mais uma vez, diferente daquele da palavra-princípio Eu-Isso:

O Eu da palavra-princípio Eu-Isso aparece como egótico e toma consciência de si como sujeito (de experiência e de utilização).
O Eu da palavra-princípio Eu-Tu aparece como pessoa e se conscientiza como subjetividade (sem genitivo dela dependente).
O egótico aparece na medida em que se distingue de outros egóticos.
A pessoa aparece no momento em que entra em relação com outras pessoas.
O primeiro é a forma espiritual da diferenciação natural, a segunda é a forma espiritual do vínculo natural.
A finalidade da separação é o experienciar e o utilizar, cuja finalidade é, por sua vez, “a vida”, isto é, o contínuo morrer no decurso da vida humana.
A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o Tu. Pois, no contato com cada Tu, toca-nos um sopro da vida eterna.
Quem está na relação participa de uma atualidade, quer dizer, de um ser que não está unicamente nele nem unicamente fora dele. Toda atualidade é um agir do qual eu participo sem poder dele me apropriar. Onde não há participação não há atualidade[54].
             
A “atualidade”, em Zubiri, é a presença de uma realidade, desde si mesma, em outra[55]. Assim, por exemplo, a “verdade” é a atualidade da realidade na inteligência humana[56]. Esta conceituação parece bastante apropriada para compreender o conceito buberiano de atualidade, pois o ser não está unicamente no participante, mas está nele, ou seja, não está unicamente fora do participante. Não é possível apropriar-se da realidade atual, como se ela fosse minha, independente daquilo que Zubiri chama sua “atuidade”, isto é, sua realidade plena. Para o filósofo basco, ainda, a primeira atualidade da realidade é o “ser”, isto é, a presença respectiva da realidade no mundo[57].
            
A pessoa se reconhece como um “ser-com”, como um ente; Zubiri dizia o mesmo: o homem vive “com” as demais coisas, acrescentando: “na” realidade[58]. O egótico se reconhece como um ente-que-é-assim e não-de-outro-modo. A pessoa diz “Eu sou” e o egótico, “eu sou assim”. Conhecer-se a si mesmo, para um é conhecer-se como ser, e para o outro, conhecer o próprio modo de ser, distanciado do Ser. Aqui está latente aquela distinção que Zubiri faz entre “forma de realidade” e “talidade”, isto é, a coisa real como um momento da realidade e a mesma coisa como uma “tal” ou específica realidade[59].
            
Homem algum é puramente pessoa ou puramente egótico; cada um vive no seio de um duplo Eu. Para alguns a dimensão pessoal é tão determinante que podem ser chamados pessoas, e para outros a dimensão de egotismo é que predomina, podendo ser chamados de egóticos. Se o egotismo for preponderante, o homem viverá na inatualidade, e a pessoa terá uma existência velada.
            
O homem é mais pessoa quanto mais pronuncie com intensidade o Eu da palavra-princípio Eu-Tu. Sócrates é o exemplo de homem que vive na relação com os homens, a qual se encontra no diálogo. Goethe é o exemplo da relação com a Natureza, que a ele se oferece e fala constantemente. Jesus é o exemplo da relação absoluta, a relação com Deus, relação das relações; seu Tu é o Pai, e ele é o Filho.
            
Se um homem não pode reconhecer qualquer relação com um Tu, isto é, se tudo que o envolve é um Isso, então ele é um Tu demoníaco, que responde ao chamado com um Isso; para ele nenhum ente pode tornar-se um Tu. Este homem demoníaco, que Buber exemplifica em Napoleão, mas que poderíamos identificar em Hitler ou Stálin (Eu e Tu é de 1923), é um terceiro tipo de homem: nem pessoa, nem egótico; nem subjetividade, nem sujeito.


3. A relação com Deus

“As linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no Tu eterno”[60]. Assim começa Buber a terceira parte de seu livro, dedicada à relação com Deus. Para Zubiri, a religação à realidade, enquanto esta exerce uma fundamentalidade na vida humana, também deve ser prolongada em direção à religação com Deus, Fundamento do poder do real, fonte última de toda relação, de toda comunhão que o homem vivencia. Cada Tu, diz Buber, é uma perspectiva para Deus; cada invocação a um Tu é, em última instância, invocação ao Tu Eterno. O Tu Eterno é aquele que não pode tornar-se Isso[61]; Ele é uma realidade-fundamento, no dizer do Zubiri[62]. Não se fala somente sobre Deus, mas também se fala com Ele.
            
A relação ao Tu Divino engloba a relação com as demais coisas; as estarmos religados às coisas, é a Deus que estamos religados, afinal. Também invoca a Deus o que nELe não crê mas invoca, com o impulso de todo o ser, o Tu de sua vida, como Tu ilimitado. Isso porque tal postura, ateísta, que proclama a facticidade do poder do real e a autossuficiência da vida, é apenas um erro de interpretação de qual é a fonte deste poder, mas se atinge essa fonte “aberrantemente”, diz Zubiri[63].
            
Na relação, só podemos conhecer a nossa parte, diz Buber: devemos nos ocupar da vontade, não da graça, cuja presença aguardamos à medida que avançamos para ela. Essa posição, que respeita tanto a liberdade divina quanto a humana, lembra a regra de S. Inácio de Loyola, segundo o qual “devemos agir como se tudo dependesse de nós, e rezar como se tudo dependesse de Deus”. A relação é “ao mesmo tempo, escolher e ser escolhido, passividade e atividade”[64]. O homem deve agir totalmente, suprimindo as ações parciais, numa ação que se torna semelhante a uma passividade; tal ação é a contemplação.
            
Quando nos relacionamos com um Tu presente no mundo, essa relação é exclusiva; tudo passa a ser visto à sua luz. Quando o Tu se torna um Isso, a universalidade dessa relação parece injusta. Na relação com Deus, tudo vai incluído na relação, vemos tudo no Tu; não renunciamos ao mundo, mas lhe proporcionamos “fundamentação”[65]. Para Zubiri, vemos todas às coisas à luz da realidade-fundamento. “Afastar o olhar do mundo não auxilia a ida para Deus”[66], pois, como diz Zubiri, o mundo é o acesso a Deus. “Olhar fixamente nele [no mundo] também não faz aproximar de Deus, porém aquele que contemplar o mundo em Deus, está na presença d’Ele”: contemplar o mundo como fim em si mesmo não nos leva a Deus, mas percebê-lo como “fundado” nos introduz na sua presença. “‘Aqui o mundo, lá Deus’ tal é uma linguagem do Isso” [67]: Deus não é o “grande ausente”, diz Zubiri, mas é transcendente “no” mundo[68]. “‘Deus no mundo’ é outra linguagem do Isso”: Deus não pertence imanentemente ao mundo, diz Zubiri, refutando o panteísmo ao dizer que Deus, presente nas coisas, está nelas fazendo com que sejam diferentes dEle[69]. “Não compreender nada fora de Deus, mas apreender tudo nele, isso é a relação perfeita”[70]: ver todas as coisas em Deus é a consequência inelutável da religação.  
            
“Não se encontra Deus permanecendo no mundo, e tão pouco encontra-se Deus ausentando-se dele”[71]: Deus está no mundo, mas transcendendo-o; não há que buscá-lo fora do mundo, mas ele não se confunde com o mundo.

“Sem dúvida Deus é o ‘totalmente Outro’, Ele é, porém, o totalmente mesmo, o totalmente presente. Sem dúvida, ele é o ‘mysterium tremendum” cuja aparição nos subjuga, mas Ele é também o mistério da evidência que me é mais próximo do que o meu próprio Eu”[72]. Deus é transcendente, mas é presente, é transcendente “no” mundo. Ele é algo que supera totalmente a capacidade da mente humana, mas se dá a conhecer e se aproxima de nós; ele está em nossa intimidade, como já o reconhecia Santo Agostinho.
            
“Na medida em que tu sondas a vida das coisas e a natureza da relatividade, chegas até o insolúvel; se negas a vida das coisas e da relatividade, deparas com o nada; se santificas a vida, encontras o Deus vivo”[73]. A Deus se chega pelas coisas reais, negá-las é negar a possibilidade de encontrar a Realidade Absolutamente Absoluta[74], como Zubiri define a realidade divina; no entanto, há que percebê-las como veículos do poder divino.
            
“Na verdade, não há uma procura de Deus, pois não há nada onde não se possa encontrá-lo”[75]: o homem deve deixar-se encontrar por Deus, antes que buscá-lo; Deus está em todas as coisas, e cada encontro, cada Tu, é ocasião para vislumbrá-lo. “Não significa que Deus possa ser deduzido de alguma coisa, por exemplo, da natureza como o seu autor ou da história, como seu guia ou então do sujeito, como o si-mesmo que nele se reflete”[76]: não se chega a Deus tomando isoladamente o cosmos ou o sujeito humano e sua história, mas a Ele se chega pela via da relação, isto é, pela religação.
            
“Pretende-se ver, como elemento essencial na relação com Deus, um sentimento chamado ‘sentimento de dependência’ ou mais claramente, em termos mais recentes, o sentimento de criatura”[77]: tal sentimento criatural, em todo caso, acompanha a relação com Deus, a religação, mas não é a relação criatural[78], na qual se funda.
            
A prece e a oferta, a oração e o sacrifício da própria vontade, são duas ações do homem religioso, isto é, do homem que vive formalmente a religação a Deus; elas diferem da magia, que pretende agir à parte da relação. A prece e a oferta colocam-se “diante da Face”. Para Zubiri, além da adoração (da qual a oferta é parte) e da oração, há que se falar também do refugiar-se em Deus; estas três atitudes referem-se, respectivamente, ao tríplice caráter de Deus como Último, Possibilitante e Impelente[79].
            
“Querer ver a relação pura como uma dependência é querer desatualizar um dos sustentáculos da relação e por isso mesmo, ela própria”[80]: a relação não é só dependência, porque nela entre em jogo também, como afirma Zubiri, a fundamentalidade de Deus. E nessa relação, a dualidade nunca é abolida, o divino e o humano não se identificam, não se confundem, o homem não é absorvido em Deus; ainda que Deus e o homem sejam inseparáveis, mantém-se, sempre, sua distinção. Para Buber, a relação indestrutível de homem e Deus é, da parte de Deus, missão e mandamento, da parte do homem, escuta e contemplação, e entre os dois, conhecimento e amor.
            
Para Buber, não há pensante sem pensado, sujeito sem objeto, e o espírito não existe no interior do homem, mas a partir do homem, entre ele e o que não é homem; temos aqui o conceito clássico de “intencionalidade”, retomado na fenomenologia por Brentano, e reinterpretado por Zubiri como “abertura”: a pessoa, ao possuir inteligência, é uma realidade aberta, a si mesma e às demais pessoas e coisas[81], o que lhe possibilita viver a respectividade como religação.
            
O mundo habita no homem como representação, e o homem habita no mundo como uma realidade entre outras. Mas nem o idealismo, nem um realismo que não privilegiasse a relação, e visse o homem como um troço do universo, têm a última palavra; esta é a da relação, a do “vínculo com o Tu que não me separa do mundo senão para ligar-me a ele”[82]: novamente temos a religação, pela qual somos livres ao mesmo tempo em que essa liberdade é fruto do elo com o Tu.
            
“Se amamos o mundo atual, que não quer deixar-se abolir, realmente, em todos os seus horrores, se ousarmos enlaçá-lo com os braços de nosso espírito, então nossas mãos encontrarão as mãos que suportam o mundo”[83]: novamente, não há que fugir do mundo, pois é por meio dele, em meio a seus horrores, mas também em meio a todas as realizações humanas, que podemos encontrar seu Fundamento. Diz ainda, Buber, para esclarecer que tipo de vida no mundo pode afastar de Deus: “Nada sei sobre um ‘mundo’ e sobre uma ‘vida no mundo’ que separe alguém de Deus; o que assim se denomina é a vida com o mundo do Isso”[84].
            
“Deus envolve o universo, mas não é o Universo; do mesmo modo Deus abarca o meu si-mesmo e não o é”[85]: uma filosofia da relação não é uma “mística da identidade”, tal como a denominou o então cardeal Ratzinger[86].

A situação religiosa do homem é marcada por antinomias essenciais e insolúveis, que não são como as antinomias filosóficas de Kant, cujos pares opostos são válidos em domínios separados –por exemplo, a necessidade, no âmbito do fenômeno, e a liberdade no âmbito do ser–; eu devo viver entregue nas mãos de Deus e, ao mesmo tempo e no mesmo âmbito, devo viver como se tudo dependesse de mim –já foi recordada a regra inaciana.
            
“Quem conhece Deus, conhece, sem dúvida, o distanciamento de Deus, e o tormento da seca que ameaça o coração angustiado, mas não a ausência de presença. Nós é que não estamos sempre presentes”[87]: Deus não deixa de estar presente –a nós e em nós–; nós é que podemos sair de sua presença, vivendo “aversivamente” a inquebrantável religação, como diz Zubiri.
            
Considera-se que o homem religioso não precisaria da relação com o mundo, porque a vida social seria determinada pelo exterior. Confunde-se, assim, a comunidade, fundada na relação, e a massa amorfa de unidades humanas sem relação entre si –aqui está a diferença apontada por Zubiri entre a comunhão pessoal e a sociedade. A comunidade resulta da mesma força que atua na relação com Deus. “Não se pode orar verdadeiramente a Deus e utilizar o mundo”[88]: a relação utilitária com o mundo contaminaria a relação com Deus.

“Sem dúvida, aquele que se apresenta diante da Face, ultrapassou o dever e a falta, não porque tenha se afastado do mundo, mas pelo contrário, porque realmente dele se aproximou. Não se tem dever e culpa senão para com os estranhos; para com familiares tem-se afeição e ternura”[89]. Desde uma perspectiva cristã, pode-se dizer que a comunhão com Deus inaugura o regime da graça, cessando o da Lei. Não é que deixe de existir a moral, mas ela se torna conatural ao homem.

O encontro com a presença de Deus encerra, em primeiro lugar, a plenitude da verdadeira reciprocidade; em segundo lugar, a confirmação e a garantia do sentido, a partir do qual nada mais pode ser sem sentido; em terceiro lugar, a verdade de que este sentido não se refere a “outra vida”, ao “além”, mas deve ser colocado à prova nesta vida, neste mundo. “Cada um só pode pôr à prova o sentido recebido com a unicidade de seu ser e na unicidade de sua vida”[90]: o homem é “experiência de Deus”[91], no sentido zubiriano, de provação física (e não somente lógica) da realidade de algo: prova-se, no campo de realidade, o que poderia ser o real além da apreensão; não se trata de uma constatação[92]. Só a vida de cada um pode “provar” o sentido de Deus.

Zubiri diz que há vários modos de “experiência”, e só o “experimento”, modalidade científica, poderia ser comparado ao conceito buberiano, na medida em que implica uma manipulação da realidade. O modo de experiência que se pode ter de uma pessoa, como, no caso, Deus, é a “compenetração”: essa experiência, intento de ver a realidade desde sua própria interioridade, é aquela que se expressa, por exemplo, quando se diz que “uma pessoa vê pelos olhos da outra”; trata-se de uma espécie de perikhóresis (conceito teológico que expressa o estar de uma Pessoa Divina na Outra no seio da Santíssima Trindade); como diz Zubiri, esta é uma operação difícil, pois sempre se corre o risco de projetar sobre o experienciado a índole do próprio experienciador[93]. Trata-se de uma experiência à qual não se pode furtar, por exemplo, o exercício da amizade ou da Psicologia.
            
“O homem só pode corresponder à relação com Deus, da qual ele se tornou participante, se ele, na medida de suas forças, à medida de cada dia, atualiza Deus no mundo”[94]: ver as coisas em Deus, chamá-las de Tu, amá-las. “O encontro com Deus não acontece ao homem para que ele se ocupe de Deus, mas para que ele coloque à prova o sentido na ação no mundo. Toda revelação é vocação e missão”[95]: assim como os apóstolos não puderam permanecer no Tabor contemplando a glória de Cristo, o homem religioso deve voltar-se para seus irmãos e para o mundo, e, neles, reencontrar a Deus.
            
“A degeneração das religiões significa a degeneração da prece nelas”[96]: orar é dizer Tu, deixar de fazê-lo, é perder a capacidade de vivenciar a relação. Uma religião cujos membros deixem de dirigir-se a Deus como Tu, de vê-lo como Realidade Possibilitante à qual se deve clamar, perderá a capacidade de viver a religação de modo pleno. E tratando a Deus como um objeto, converter-se-á em idolatria.
            
“Enquanto o subjetivismo absorve Deus na alma, o objetivismo faz dele um objeto; este é uma falsa segurança, aquele uma falsa libertação”[97]: Deus apresenta-se, na religação, como realidade-fundamento, e como tal é nosso refúgio e raiz de nossa liberdade.
            
“Cada espiral do caminho nos conduz igualmente a uma perdição mais profunda e a uma conversão mais originária”[98]: o avançar da história é promessa de maiores e piores males, bem como de maiores e melhores bens. Desde a perspectiva cristã do apocalipse, quando a história houver alcançado o ápice da maldade, então virá o juízo final e o bem triunfará definitivamente.


Considerações finais

O homem moderno se sentia “desligado”, só, encapsulado em sua mente, sem o mundo e sem Deus, o qual servia apenas como muleta epistemológica no pensamento idealista. Essa situação não poderia durar indefinidamente, e uma parte importante da filosofia contemporânea buscou recuperar a essencial relacionalidade da vida humana. Para Buber e Zubiri, entre outros, o homem é uma realidade “aberta”: a si mesma, aos outros homens, às coisas e ao Fundamento do mundo. A relação buberiana, bem como a respectividade e a religação zubirianas, são respostas que indicam a real condição da pessoa humana, que assim pode vislumbrar a possibilidade de concretizar sua fome de comunhão. O presente trabalho tratou de comparar ambas perspectivas, e agora trato de sintetizar seus resultados.

Nossa constitutiva religação à realidade pode ser vivida de duas maneiras: podemos ser o “Eu” de um “Tu” ou um “Eu” de um “Isso”. Jamais existimos à parte destas relações, senão que, ora contemplamos a alteridade como algo que possui formalmente seu caráter real, e ora utilizamos a realidade de modo a convertê-la num objeto; ora as coisas apresentam-se como algo de suyo, ora são tragadas no mundo da utilidade. No primeiro caso, da relação Eu-Tu, a relação é vivenciada de modo formal, no segundo, da relação Eu-Isso, a relação é ignorada, vivemos como se fôssemos “desligados” e não religados, e o “outro” é convertido em mero objeto para mim.

A relação com os outros homens se fundamenta não em sentimentos –ainda que estes sejam indispensáveis– mas sim no amor, que só poderá ser recíproco se se compartilha o amor a um mesmo centro ativo e vivo. Buber parece estar dizendo que a fraternidade entre os homens requer, mais que um mesmo ideal, um Pai comum. A impessoalidade das instituições e das relações sociais, onde se trata os outros homens como meramente “outros”, não pode eliminar a necessidade do que Zubiri chama de “comunhão pessoal”, onde o outro é visto como “outra pessoa”; entre os homens, somente a comunhão pessoal realiza a relação Eu-Tu.

Todas as relações são vividas no âmbito da grande relação com o Tu Eterno; nossa religação com as coisas reais manifesta nossa religação com Deus: a cada Tu invocado, invocamos a Deus. Encontramos a Deus no mundo: as coisas, dotadas de “poder”, ao qual Zubiri chama “poder do real”, são manifestações do poder e do ser divinos. Deus é transcendente “no” mundo, na expressão zubiriana; nem se confunde com o mundo, nem está ausente dele. O que nos une a Deus não é um “sentimento de dependência”, mas sim a base deste, que é nossa relação criatural, nossa constitutiva religação ao Fundamento. Na religação não somos “absorvidos” em Deus, como propõe a “mística da identidade”; mantém-se sempre o encontro, a reciprocidade, um Eu e um Tu inseparáveis, porém distintos. Essa religação é a raiz da nossa liberdade: somos livres “em” Deus, para acatar nosso destino, que assim, não é fatalidade. Deus nos oferece o sentido de nossa vida aqui e agora, e podemos “prová-lo”; somos “experiência de Deus” no sentido zubiriano. Viver em Deus não nos afasta do mundo, mas nos ajuda a tudo conhecer como Tu, a tudo amar; orar, dizer Tu a Deus, nos obriga a dizer Tu a toda realidade.




[1] BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro Editora, 1977.
[2] Zubiri tratou o tema da respectividade principalmente no artigo “Respectividad de lo real” (cf. ZUBIRI, Xavier. “Respectividad de lo real”. Realitas, v. III-IV, 1976-79, 1979, pp. 13-43) e no livro Inteligência e realidade (cf. Id., Inteligencia y realidad. 5ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1998, pp. 118-123). A respectividade entre a pessoa humana as demais realidades é algo do qual o homem necessita para realizar-se e, sob este aspecto, denomina-se “religação”, tema tratado nos artigos “Em torno do problema de Deus” e “Introdução ao problema de Deus” (recolhidos no primeiro livro de Zubiri, já traduzido no Brasil: cf. Id., Natureza, História, Deus. São Paulo: É Realizações, 2010), e que recebeu sua formalização no libro póstumo El hombre y Dios (cf. Id., El hombre y Dios. 6ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1998. Minha tese doutoral, El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri, faz um estudo detalhado da religação enquanto problema teologal do homem (cf. BELLO, Joathas. El hombre religado a Dios en Xavier Zubiri. Tese Doutoral. Pamplona: Universidad de Navarra, 2009)
[3] A questão da inteligência foi tratada por Zubiri em sua trilogia Inteligência senciente (Inteligência e realidade, Inteligência e logos, e Inteligência e razão). Em Inteligência e realidade encontra-se uma atualização sumária da metafísica da realidade como de suyo (cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidade, pp. 189-228), que já havia sido exposta no tratado Sobre la esencia: cf. Id., Sobre la esencia. 5ª ed. de 1985. Madrid: Alianza Editorial, 1998 (1ª reimpressão). Zubiri tratou do problema do homem em vários escritos, deixando-nos uma síntese de sua antropologia em El hombre y Dios. A filosofia teologal de Zubiri é aquela parte de seu pensamento que trata do “problema de Deus” ou “problema teologal do homem”, e que está centrada no tema da religação.
[4] Para simplificar as coisas, refiro-me somente à respectividade “remetente” ou “mundificante”, porém esta se funda na respectividade “constituinte” ou “suificante”, pela qual a realidade está aberta a seu próprio conteúdo, constituindo a coisa real.
[5] ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 93.
[6] Cf. Ibid., p. 104.
[7] BUBER, Eu e Tu, p. 3.
[8] Posteriormente, Buber diria que “Para o homem, o existente é um ser situado frente a ele, ou bem um objeto passivo. A essência do homem surge desta dupla relação com o existente. Não são dois fenômenos externos, mas dois modos básicos de existir com o ser” (BUBER, Eclipse de Dios. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1995, p. 71).
[9] Para Buber “o homem é um ente de relação ou (...) a relação lhe é essencial ou fundamento de sua existência” (ZUBEN, Newton Aquiles von. “Introdução”. In: BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora, 1977, p. XLIV).
[10] BUBER, Eu e Tu, p. 4.
[11] Essa supressão é aparente: o homem, no domínio do Isso, vive como se não estivesse referido à alteridade, uma vez que ela, objetivada, é “assimilada” ao Eu. Mas a religação é um vínculo inquebrantável, e o idealismo é um erro filosófico.
[12] “Buber se aproxima da perspectiva intuicionista na medida em que distingue radicalmente duas atitudes de situação no mundo, dando primazia à atitude pré-cognitiva e pré-reflexiva (não conceitual) existente entre o homem e o ente que se lhe defronta no evento da relação dialógica” (ZUBEN, “Introdução”, p. XXIX). Zubiri não é exatamente um intuicionista, porque sua “apreensão primordial de realidade”, que se dá no próprio sentir (que assim é intelectivo) apreende o caráter real das coisas (as coisas como algo de suyo), mas não apreende diretamente a “essência” da realidade, a qual deve ser buscada pela intelecção racional, modulação da inteligencia senciente. Entretanto, a apreensão do de suyo é pré-conceitual, pré-judicativa e pré-racional, o que o aproxima do pensamento buberiano.
[13] BUBER, Eu e Tu, p. 6.
[14] Ibid., p. 7.
[15] Cf. Ibid., p. 9.
[16] Cf. Ibid., loc. cit.
[17] Cf. Ibid., loc. cit.
[18] Cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 274.
[19] Cf. Id., Sobre la esencia, p. 322.
[20] Cf. ZUBIRI, Los problemas fundamentales de la metafísica occidental. Madrid: Alianza Editorial, 1994, pp. 18-19.
[21] BUBER, Eu e Tu, p. 17.
[22] Ibid., loc. cit.
[23] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 192.
[24] BUBER, op. cit., p. 20.
[25] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 165.
[26] Cf. BUBER, op. cit., p. 21.
[27] Na realidade, não é possível “desligar-se”, num estrito sentido metafísico, da realidade, mas tão somente viver como se não fôssemos religados, viver no mundo do Isso.
[28] BUBER, Eu e Tu, pp. 21-22.
[29] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 81-91.
[30] Cf. BUBER, op. cit., p. 27.
[31] Cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 441-442; Id., El hombre y Dios, p. 160.
[32] Com o qual, todo aquele que procura ver na condição intrauterina a ausência de personalidade do nascituro, não chegou a compreender o vínculo religacional que toda criatura tem com as demais.
[33] Cf. BUBER, Eu e Tu, pp. 29-31.
[34] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y logos, Madrid: Alianza Editorial, 1982, pp. 21-43.
[35] BUBER, op. cit., p. 35.
[36] Ibid., p. 37.
[37] Respondendo a S. João Damasceno, que diz que o homem tem um conhecimento natural de Deus, Sto. Tomás diz que o homem conhece a Deus enquanto deseja ser feliz, e Deus é a felicidade, mas que nem todos o reconhecem. Logo, é preciso demonstrar a existência de Deus, pois “saber que alguém vem não é saber que Pedro vem”: cf. S.Th. I, q.1,  a.1 (AQUINO, Sto. Tomás de. Suma Teológica, vol. I (I Parte – Questões 1-43). São Paulo: Edições Loyola, 2001). Zubiri comenta essa passagem dizendo que hoje “não se sabe nem que alguém vem”, de modo que é preciso mostrar que o homem é religado, para só depois demonstrar o fundamento da religação (cf. ZUBIRI, Natureza, História, Deus, p. 392-394).
[38] Cf. BUBER, Eu e Tu, p. 45.
[39] Para Zubiri, a intelecção senciente se modula em apreensão primordial de realidade (apreensão do caráter real das coisas), logos (âmbito das simples apreensões e juízos) e razão (apreensão da essência real).
[40] BUBER, op. cit., p. 47.
[41] Trata-se do estranhamento e da separação entre dois âmbitos, o da interioridade e o da exterioridade, que só poderiam estar unidos com a condição do não esquecimento da relação Eu-Tu. A “experiencia”, no sentido buberiano, não comunga de fato, com a alteridade, e então, com o tempo, essa realidade de cisão se manifesta abertamente.
[42] BUBER, op. cit., p. 52.
[43] Ibid., p. 53.
[44] ZUBIRI, Tres dimensiones del ser humano: individual, social e histórica. Madrid: Alianza Editorial, 2006, p. 59.
[45] BUBER, Eu e Tu, p. 53.
[46] Ibid., p. 56.
[47] BUBER, Eu e Tu, p. 57.
[48] Ibid., loc. cit.
[49] Ibid., p. 58.
[50] Ibid., loc. cit.
[51] ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 330.
[52] Cf. BUBER, op. cit., p. 62.
[53] Ibid., p. 67.
[54] BUBER, Eu e Tu, p. 73.
[55] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 137-141.
[56] Cf. Ibid., p. 230-231.
[57] O “ser” zubiriano está mais para a “existência” dos modernos e contemporâneos, enquanto “presença no mundo”, a qual é um efeito do “ato de ser” tomasiano, do que para o próprio ato de ser (o qual estaria na linha da realidade ou de suyo de Zubiri).
[58] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 80.
[59] Cf. ZUBIRI, Inteligencia y realidad, p. 124.
[60] BUBER, Eu e Tu, p. 73. Do mesmo modo que em Zubiri, a “dimensão teologal do homem” é o ponto de partida para o “problema de Deus”, para Buber “a realidade humana [é] a via de acesso para a problemática de Deus” (ZUBEN, “Introdução”, p. LXIII).
[61] “Deus nunca pode chegar a ser para mim um objeto; não posso estabelecer com Ele outra relação que a de um Eu a respeito a seu eterno Tu” (BUBER, Eclipse de Dios, p. 95).
[62] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 158-159.
[63] A “aberração” de um astro é, em astronomia, a posição aparente que resulta de dois movimentos: o da luz que do astro procede para a Terra e o da Terra sobre sua órbita. Pode-se, entretanto, fazer a correção necessária para determinar a posição efetiva do astro. Zubiri aplicava ao politeísmo e ao panteísmo esse conceito, enquanto tais realidades são vias circundantes para chegar a Deus: cf. ZUBIRI, El problema filosófico de la história de las religiones, Madrid: Alianza Editorial, 1993, pp. 200-201.
[64] BUBER, Eu e Tu, p. 89.
[65] Cf. Ibid., p. 91.
[66] Ibid., loc. cit.
[67] Ibid., loc. cit.
[68] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, pp. 174-175.
[69] Cf. Ibid., pp. 175-176.
[70] BUBER, op. cit., p. 92.
[71] Ibid., loc. cit.
[72] Ibid., loc. cit.
[73] Ibid., loc. cit.
[74] No post-scriptum a Eu e Tu, de 1957, Buber chama a Deus “pessoa absoluta” (cf. Ibid., p. 155).
[75] BUBER, op. cit., p. 93.
[76] Ibid., pp. 92-93.
[77] Ibid., p. 94.
[78] A “relação da criatura a Deus” ou relação criatural é o vinculo inseparável entre o homem e Deus, instaurado na criação, de acordo com Santo Tomás: cf. S.Th. I, q.45, a.3 (AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, vol. II: I Parte – Questões 44-119. São Paulo: Edições Loyola, 2002). Tal vínculo é o mesmo que o da religação.
[79] Assim como a realidade tem esse tríplice caráter, Deus, seu Fundamento, o comparte.
[80] BUBER, Eu e Tu, p. 97.
[81] Cf. ZUBIRI, Sobre la esencia, p. 500.
[82] BUBER, op. cit., p. 108.
[83] Ibid., pp. 109-110.
[84] BUBER, Eu e Tu, p. 110.
[85] Ibid., loc. cit.
[86] Disse o agora Papa Emérito: “Hoje gostaria de falar, em lugar disso, de ‘mística da identidade’ e de ‘compreensão pessoal de Deus’. Trata-se, em última análise, de saber se o divino, ‘Deus’, é alguém que está diante de nós, de modo que a finalidade da religião, do ser do homem, é a relação –o amor– que resulta na unidade (‘Deus é tudo em todos’: 1Cor 15,28), mas sem excluir a contraposição do Eu e do Tu; ou se o divino ainda resta mais além da pessoa, a meta do homem sendo a unificação e absorção no Todo-Uno”. E prossegue, citando J. Sudbrack acerca de Buber: “Em sua obra Confissões extáticas, o grande pensador judeu havia falado, em 1909, de um tipo de mística da unidade. Depois da sua conversão, ‘rechaçou essa ideia tão radicalmente que proibiu a reedição de seu livro’. Sua nova concepção era: ‘Não a fusão na unidade, mas sim o encontro é o constitutivo básico da experiência humana do ser’. Tinha chegado à visão de que, na compreensão da mística, frequentemente se confundem dois tipos de acontecimentos: ‘Um deles é a unificação da alma, que torna o homem apropriado para o trabalho do espírito. O outro é a inescrutável índole do ato de relação, no qual se presume que de Dois se faça Um’” (BENTO XVI, Fé, Verdade, Tolerância. Trad. Sivar Hoeppner Ferreira. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, pp. 45-46).
[87] BUBER, op. cit., p. 114.
[88] Ibid., p. 124.
[89] BUBER, Eu e Tu, p. 125.
[90] Ibid., p. 128.
[91] Cf. ZUBIRI, El hombre y Dios, p. 325-345.
[92] Cf. Ibid., Inteligencia y razón, Madrid: Alianza Editorial, 1983, pp. 223-227.
[93] Cf. Ibid., pp. 249-250.
[94] BUBER, op. cit., p. 132.
[95] BUBER, Eu e Tu, p. 133.
[96] Ibid., p. 136.
[97] Ibid., p. 137.
[98] Ibid., p. 138.

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