Tuesday, January 23, 2018

A vigília, relações entre inconsciente e consciente pela distinção entre ato e potência, a imaginação e seu sentido espiritual

Mais uma excelente meditação do caro amigo Lincoln Has Hein.

* * * 

"Vigiai e orai para não cairdes em tentação"

"O que vos digo, digo a todos: Vigiai!" "Eis que estou à porta e bato..."

O homem sendo criatura não possui em si tudo quanto pode ser de um só golpe. É mescla de potência e ato de ser, é composto de essência e ato de ser. No homem o ser em ato (em ato ou seja realizado, pleno, de fato, não apenas realmente possível) se dá mais que em qualquer coisa na operação do nous ( intelecto "agente" - em ato - dando luz ao intelecto possível, coração espiritual, memória espiritual profunda, centro ou cimo da alma). Essa operação se dá como atenção consciente à realidade, como intencionalidade cognitiva e afetiva voltada para o ser uno, verdadeiro, bom e belo ("intentio cordis"). Uma atenção consciente que é consciência mais plena que a mera percepção do fluxo de pensamentos e imagens através da imaginação. A possibilidade desse ato de consciência, inscrita no coração espiritual do homem também possibilita a consciência moral, a percepção da lei natural (essencial) que respeitando fundamentalmente a vida conduz à ações éticas que direcionam o ser humano para a felicidade.

A atenção consciente do intelecto (aqui entendido como "nous", não como razão discursiva) é que se pode chamar propriamente de ato humano e que humaniza nossas ações ao dar-lhes o direcionamento da inteligência e do afeto livre escolhido (fundamentando assim a ética). Considerando isso podemos pensar que os aspectos inconscientes da vida humana se ordenam a essa consciência elevada do nous operando em ato como a potência se ordena ao ato.

Por outro lado podemos também pensar que não há inconsciência completa exceto quando a atividade humana se reduz completamente ao nível vegetativo (e é preciso dizer que há controvérsias sobre a consciência mínima e as pesquisas científicas ainda não são conclusivas para saber até que ponto se atinge totalmente esse nível apenas vegetativo em situações como a do coma por exemplo).

Há graus de inconsciência e consciência relativos entre si, graus de realização da atenção consciente que pode se dar pelo influxo do intelecto ou por um seu refluir em potências anímicas inferiores. Na eternidade há a possibilidade da plena consciência humana que é inconsciência se comparada à autopresença inteligível de si que é em Deus.

A consciência plena e verdadeira é mais profunda, mais insondável e mais misteriosa que o inconsciente. Explicar e compreender o inconsciente iluminando-o com a luz da consciência é algo que com tempo e meditação se torna possível em grande medida, mas olhar a luz com a luz, perceber realmente o nous, o olho da alma, é dom divino concedido apenas a quem purifica o coração nos atos em que contemplamos os seres e nos atos em que recebemos algo de percepção do sobrenatural.

Quando se busca olhar para o próprio nous mediante uma ascese de libertação de imagens fantasiosas e pensamentos numa espécie de epoché (a qual afasta os pensamentos que surgem do hábito ou de uma primeira impressão algo inconsciente para permitir a contemplação atenta do real) é possível, quando não há a busca por Deus transcendente, uma confusão que toma o desprendimento e esvaziamento da mente como a realidade em si.

A confusão conduz à idolatria egoísta pela afirmação de si mesmo no lugar do divino. Nesta contemplação de si afastada da busca por Deus transcendente ocorre uma atenção consciente imperfeita que causa inconsciência espiritual, impede a contemplação de Deus tanto quanto esta é possível ao homem naturalmente ou sobrenaturalmente e consequentemente impede a tomada da consciência de si como imagem de Deus. Percebe-se assim a necessidade de um influxo contemplativo elevado para que se dê retamente o afastamento de imagens num recolhimento.

Não é pela entrega ao inconsciente seja espiritual seja sensível que o homem consegue atingir o pleno de si e a plena realização de si mesmo no seu ser pessoal. É pela conquista gradual de uma consciência sempre mais elevada e mais capaz de abarcar a realidade que o homem se realiza. Na consciência atenta o ser espiritual do homem estabelece relações de troca, experiências de encontro com os âmbitos de realidade que permitem uma ampliação da criatividade e da liberdade, permitem a descoberta de valores elevados. O inconsciente é uma base potencial para essa atualização da consciência nos encontros com o ser. Se invertemos a hierarquia caímos no erro e destruímos nossa vida. Quando porém respeitamos a hierarquia percebemos nas memórias (imaginação, reminiscência, memória espiritual e reflexividade substancial da alma) e em suas configurações um inconsciente positivo, um potencial para a luz.

No inconsciente encontramos o possível tanto do homem quanto dos seres criados: como imagem divina em si o homem contém virtualmente a imagem de todas as possibilidades de seres corpóreos, tanto num sentido de possível lógico como também (dentro do possível lógico) abarcando possibilidades reais vinculadas aos seres existentes. Essas possibilidades existem como contidas na capacidade para serem apreendidas pela consciência em algum grau, seja pela apreensão sensível, seja pela inteligível na mediação dos símbolos (pensamos sobre isso na primeira meditação). Num primeiro momento podem ser apreendidas através do contato com seres corpóreos existentes, num segundo momento através da atividade de ligação e separação entre imagens, palavras, conceitos, recordações, reminiscências, intencionalidades. Mas a apreensão em si não é esta atividade de ligação e separação e sim dada na atenção consciente contemplativa.

O unir-se a qualquer dessas possibilidades presentes virtualmente no inconsciente assim que se apresentam à consciência (seja a partir da realidade de um ser sensível percebido, seja a partir da combinação mental ou da lembrança) sem uma tomada de consciência adequada, sem uma conscientização mais profunda e livre, pode conduzir à autodestruição de si (enquanto pessoa livre). Porque nos possíveis temos não apenas a imagem da realidade íntegra possível mas também os graus de distorção, de desordem e de destruição relativa. Aqui temos a descrição da vertigem num ponto de vista distinto do da teoria dos âmbitos apresentada por Lopez Quintás, mas o fenômeno de perda do próprio recolhimento e ausência de temor e piedade na relação com o real é o mesmo; a inconsciência voluntária que equivale a não vigiar, a não ficar atento. A atenção consciente como se pode perceber do contexto geral das meditações está profundamente ligada com o espírito orante de combate ao domínio de um inconsciente carnal e entrega ao contrário à Providência divina que para nós é inconsciente até revelar-se, mas que ilumina sempre mais a nossa inteligência na atenção ao real.

Também outra causa de autodestruição é a ligação irracional (parcialmente consciente e parcialmente inconsciente em algum grau) das imagens de possibilidades mediante a combinação de palavras na mera justaposição: por exemplo podemos expressar mentalmente, em texto ou com a voz a combinação "circulo quadrado" ou a combinação "pedra tão grande que Deus onipotente não pudesse levantar", ambas completamente absurdas e irreais, sem real significado e sem possibilidade qualquer de um dia virem a significar porque nada é aquilo que exprimem, apenas existem as palavras justapostas mas sem conexão qualquer com o ser. Aqui temos uma falsificação da lógica, uma deturpação do "logos".

As possibilidades do ser presentes virtualmente na alma humana (como possíveis de serem visualizadas/percebidas em símbolos e possíveis origens de afetos ou movimentos das paixões) podem ser apreendidas em diversos graus de consciência nos vários graus de memória que foram meditados em outro lugar (quando se disse sobre as oito moradas da alma e as atividades das potências da alma). Há assim diversos graus de símbolos dos seres e do ser que estão virtualmente na alma e podem ser atualizados dando-se à consciência. Símbolos que vão desde imagens sensíveis até intelecções espirituais.

No grau mais baixo de consciência humana temos a atividade da imaginação. O fundamento para os atos de consciência imaginativa é a fantasia como grau mais baixo de memória reflexiva capaz de conter como possíveis lógicos as imagens sensíveis (na sua capacidade enquanto potência) e como hábitos potenciais (após atualizadas alguma vez essas imagens na consciência).

A imaginação pode ativar sua capacidade de recordação e de composição/divisão das imagens seja mediante estímulos advindos dos sentidos exteriores que despertam sua atividade (visão, audição, etc. após processamento pelo sentido comum), seja mediante um influxo interior da vontade, seja mediante um influxo interior das paixões ou necessidades instintivas, seja pelo seu impulso próprio apenas parcialmente controlável pela vontade e inteligência que surge espontaneamente (após a queda original, antes estava plenamente direcionada pelo nous). Há ainda a possibilidade do influxo mediado pela memória sensível (reminiscência) que tem a possibilidade de consciência logo acima da imaginação ou um influxo da memória espiritual. A fé cristã ensina que também há uma outra possível ativação mediante a ação angélica seja dos anjos bons seja dos demônios. É fundamental discernir essas origens da atividade imaginativa e afastar-se de ilusões.

Existe uma coerência simbólica envolvendo uma dada imagem ou um ser fictício que pode surgir da imaginação. Existem possibilidades de variação dadas por essa coerência assim como uma pessoa humana que é um único ser pode passar por transformações e pode se tornar diferente ao longo da vida (variações de si mesma). Mas há limites para as variações tanto no "âmbito real" quanto no "âmbito virtual" da imaginação. Essa coerência também delimita as possibilidades de interação entre as imagens e assim também as possibilidades de significação e simbolização.

Numa pessoa real a vocação pessoal espiritual e a genética biológica junto com algumas outras condicionantes histórico-social-familiares dão uma coerência específica da qual a pessoa não pode se livrar, pode apenas agir a partir dela. No caso de personagens ou imagens fictícias a combinação de determinadas imagens na imaginação é dada pelas possibilidades mesmas do ser, a imaginação não pode criar absurdos nas imagens apenas na narrativa verbal ou na associação forçada de palavras: não se pode imaginar um "círculo quadrado", mas se pode fazer uma falsa ligação de pensamento criando uma frase em que o adjetivo "quadrado" se associe com o substantivo "circulo".

Pela compreensão do "fundamento in re" da ficção podemos refletir sobre o porquê da imaginação criadora e capaz de múltiplas combinações, qual o sentido espiritual da imaginação.

Um unicórnio por exemplo é uma possibilidade do ser: se Deus quisesse ter criado seres que são como cavalos com um chifre espiralado na testa ele poderia ter criado, não há uma impossibilidade metafísica ou um absurdo no unicórnio.

Justamente essa capacidade da imaginação de mostrar o que poderia ser se Deus assim quisesse de outro modo é que permite uma percepção de que o universo não é fruto de um determinismo rígido mas de um poder divino criador e livre, um Artista Divino.

A imaginação criativa me parece tem um papel de iluminada pelo nous possibilitar a expansão do universo simbólico para uma melhor compreensão das realidades espirituais e os arquétipos que Jung e outros encontram num "inconsciente coletivo" na verdade são possibilidades simbólicas inscritas no ser (e na expansão do simbólico a linguagem do mito e da poesia aparece como um princípio de iluminação e percepção da verdade que pode ser conscientizado e depurado por uma atividade mais plena do logos e do nous) . Essas possibilidades simbólicas podem ser associadas a pensamentos retos ou pensamentos tortuosos, seja através de uma colagem imaginativa que une o universo verbal (através das "imagens" auditivas) ao imagético visual, seja num processo interpretativo. E além da associação com o universo verbal o imaginário pode se associar às paixões, emoções e afetos em pensamentos complexos e sentimentos. Pelo que tenho estudado dos padres gregos, somente com a pureza do nous iluminando e guiando uma distinção e união entre os símbolos, paixões e pensamentos é possível a sanidade. Mas é possível tanto à fantasia desregrada quanto ao demônio uma ação desorganizadora do psiquismo ou que leve ao pecado pela associação de pensamentos tortuosos com imagens e paixões. É preciso vigiar e afastar as imagens mescladas com pensamentos tortuosos e procurar gerar hábitos de pensamentos retos e ordenados que conduzam a um bom manejo das emoções, afetos e comportamentos. Um grau de vigília é dado pela operação lógica e discursiva mas a vigília é mais plena na contemplação atenta do nous que transcende o discurso.

Quando a fantasia desregrada em algum grau grave toma controle sobre a memória e o intelecto temos um estado psicótico. Mesmo nos estados psicóticos mais graves há nesse controle da imaginação um grau real de consciência que dirige o comportamento através das imagens e símbolos que se apresentam dominando a mente.

O desregramento da fantasia pode se dar seja por causas orgânicas e biológicas de doenças, seja por maus hábitos culposos, seja por hábitos dos quais não se tem culpa, seja por uma combinação de múltiplos fatores. Hábitos no sentido de comportamento que geram hábitos no sentido de predisposições para o aparecimento das imagens e das paixões (emoções).

Em nossa época repleta dos excessos de comunicação áudio-visual (ficcional ou não) é preciso redobrar os cuidados no que se refere à uma "higiene" mental de purificação de excessos imaginativos. A atividade artística guiada com inteligência pode ser de grande ajuda nesse processo de direcionar as imagens da fantasia para uma vida saudável. Também a atividade artística possibilita na utilização dos arquétipos e símbolos a construção de um universo moral ou imoral, hábitos de virtude ou vício que podem ampliar ou reduzir o potencial de cada ser humano para ser feliz na sua vida especificamente humana de ser capaz de simbolização e interpretação de símbolos.

Exemplo mais nobre dessa atividade ordenadora da arte guiando a imaginação é a sagrada arte dos ritos litúrgicos que engloba em si múltiplos símbolos icônicos que exercitam o nous na atenção contemplativa. A beleza como transcendental em que se une afeto e cognição numa alegria que expande o coração tem poder de transformar a alma conduzindo-a para a bondade. Através do temor reverencial e da piedade que a beleza exige se se quer contemplá-la. Contemplação que se faz num sentimento espiritual que é ato consciente pleno e fruitivo, participação da beatitude. Vigiai pois, vigiai, ó homens, para que vosso coração possa ouvir a beleza que bate à porta e quer cear convosco, vigiai para que vosso coração não confunda uma ilusão passageira unida a um pensamento tortuoso (um ídolo) com o dar-se da luz na transparência dos símbolos (os ícones).



"O Anjo da Guarda" (1656), de Pietro da Cortona

No comments: