Mais uma excelente meditação do caro amigo Lincoln Has Hein.
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"Vigiai e orai para não cairdes
em tentação"
"O que vos digo, digo a todos:
Vigiai!" "Eis que estou à porta e bato..."
O homem sendo criatura não possui em
si tudo quanto pode ser de um só golpe. É mescla de potência e ato de ser, é
composto de essência e ato de ser. No homem o ser em ato (em ato ou seja
realizado, pleno, de fato, não apenas realmente possível) se dá mais que em
qualquer coisa na operação do nous ( intelecto "agente" -
em ato - dando luz ao intelecto possível, coração espiritual, memória
espiritual profunda, centro ou cimo da alma). Essa operação se dá como atenção
consciente à realidade, como intencionalidade cognitiva e afetiva voltada para
o ser uno, verdadeiro, bom e belo ("intentio cordis"). Uma atenção
consciente que é consciência mais plena que a mera percepção do fluxo de pensamentos
e imagens através da imaginação. A possibilidade desse ato de consciência,
inscrita no coração espiritual do homem também possibilita a consciência moral,
a percepção da lei natural (essencial) que respeitando fundamentalmente a vida
conduz à ações éticas que direcionam o ser humano para a felicidade.
A atenção consciente do intelecto
(aqui entendido como "nous", não como razão discursiva) é que se pode
chamar propriamente de ato humano e que humaniza nossas ações ao dar-lhes o
direcionamento da inteligência e do afeto livre escolhido (fundamentando assim
a ética). Considerando isso podemos pensar que os aspectos inconscientes da
vida humana se ordenam a essa consciência elevada do nous operando em ato como
a potência se ordena ao ato.
Por outro lado podemos também pensar
que não há inconsciência completa exceto quando a atividade humana se reduz
completamente ao nível vegetativo (e é preciso dizer que há controvérsias sobre
a consciência mínima e as pesquisas científicas ainda não são conclusivas para
saber até que ponto se atinge totalmente esse nível apenas vegetativo em
situações como a do coma por exemplo).
Há graus de inconsciência e
consciência relativos entre si, graus de realização da atenção consciente que
pode se dar pelo influxo do intelecto ou por um seu refluir em potências
anímicas inferiores. Na eternidade há a possibilidade da plena consciência
humana que é inconsciência se comparada à autopresença inteligível de si que é
em Deus.
A consciência plena e verdadeira é
mais profunda, mais insondável e mais misteriosa que o inconsciente. Explicar e
compreender o inconsciente iluminando-o com a luz da consciência é algo que com
tempo e meditação se torna possível em grande medida, mas olhar a luz com a luz,
perceber realmente o nous, o olho da alma, é dom divino concedido apenas a quem
purifica o coração nos atos em que contemplamos os seres e nos atos em que
recebemos algo de percepção do sobrenatural.
Quando se busca olhar para o próprio nous mediante uma ascese de libertação de imagens fantasiosas e
pensamentos numa espécie de epoché (a qual afasta os pensamentos
que surgem do hábito ou de uma primeira impressão algo inconsciente para
permitir a contemplação atenta do real) é possível, quando não há a busca por
Deus transcendente, uma confusão que toma o desprendimento e esvaziamento da
mente como a realidade em si.
A confusão conduz à idolatria egoísta
pela afirmação de si mesmo no lugar do divino. Nesta contemplação de si
afastada da busca por Deus transcendente ocorre uma atenção consciente imperfeita
que causa inconsciência espiritual, impede a contemplação de Deus tanto quanto
esta é possível ao homem naturalmente ou sobrenaturalmente e consequentemente
impede a tomada da consciência de si como imagem de Deus. Percebe-se assim a
necessidade de um influxo contemplativo elevado para que se dê retamente o
afastamento de imagens num recolhimento.
Não é pela entrega ao inconsciente
seja espiritual seja sensível que o homem consegue atingir o pleno de si e a
plena realização de si mesmo no seu ser pessoal. É pela conquista gradual de
uma consciência sempre mais elevada e mais capaz de abarcar a realidade que o
homem se realiza. Na consciência atenta o ser espiritual do homem estabelece
relações de troca, experiências de encontro com os âmbitos de realidade que
permitem uma ampliação da criatividade e da liberdade, permitem a descoberta de
valores elevados. O inconsciente é uma base potencial para essa atualização da
consciência nos encontros com o ser. Se invertemos a hierarquia caímos no erro
e destruímos nossa vida. Quando porém respeitamos a hierarquia percebemos nas
memórias (imaginação, reminiscência, memória espiritual e reflexividade
substancial da alma) e em suas configurações um inconsciente positivo, um
potencial para a luz.
No inconsciente encontramos o
possível tanto do homem quanto dos seres criados: como imagem divina em si o
homem contém virtualmente a imagem de todas as possibilidades de seres
corpóreos, tanto num sentido de possível lógico como também (dentro do possível
lógico) abarcando possibilidades reais vinculadas aos seres existentes. Essas
possibilidades existem como contidas na capacidade para serem apreendidas pela
consciência em algum grau, seja pela apreensão sensível, seja pela inteligível na
mediação dos símbolos (pensamos sobre isso na primeira meditação). Num primeiro
momento podem ser apreendidas através do contato com seres corpóreos
existentes, num segundo momento através da atividade de ligação e separação
entre imagens, palavras, conceitos, recordações, reminiscências,
intencionalidades. Mas a apreensão em si não é esta atividade de ligação e
separação e sim dada na atenção consciente contemplativa.
O unir-se a qualquer dessas
possibilidades presentes virtualmente no inconsciente assim que se apresentam à
consciência (seja a partir da realidade de um ser sensível percebido, seja a
partir da combinação mental ou da lembrança) sem uma tomada de consciência
adequada, sem uma conscientização mais profunda e livre, pode conduzir à
autodestruição de si (enquanto pessoa livre). Porque nos possíveis temos não
apenas a imagem da realidade íntegra possível mas também os graus de distorção,
de desordem e de destruição relativa. Aqui temos a descrição da vertigem num
ponto de vista distinto do da teoria dos âmbitos apresentada por Lopez Quintás, mas o fenômeno de perda do próprio recolhimento e ausência de temor e piedade
na relação com o real é o mesmo; a inconsciência voluntária que equivale a não
vigiar, a não ficar atento. A atenção consciente como se pode perceber do
contexto geral das meditações está profundamente ligada com o espírito orante
de combate ao domínio de um inconsciente carnal e entrega ao contrário à Providência divina que para nós é inconsciente até revelar-se, mas que ilumina
sempre mais a nossa inteligência na atenção ao real.
Também outra causa de autodestruição
é a ligação irracional (parcialmente consciente e parcialmente inconsciente em
algum grau) das imagens de possibilidades mediante a combinação de palavras na
mera justaposição: por exemplo podemos expressar mentalmente, em texto ou com a
voz a combinação "circulo quadrado" ou a combinação "pedra tão
grande que Deus onipotente não pudesse levantar", ambas completamente
absurdas e irreais, sem real significado e sem possibilidade qualquer de um dia
virem a significar porque nada é aquilo que exprimem, apenas existem as
palavras justapostas mas sem conexão qualquer com o ser. Aqui temos uma
falsificação da lógica, uma deturpação do "logos".
As possibilidades do ser presentes
virtualmente na alma humana (como possíveis de serem visualizadas/percebidas em
símbolos e possíveis origens de afetos ou movimentos das paixões) podem ser
apreendidas em diversos graus de consciência nos vários graus de memória que
foram meditados em outro lugar (quando se disse sobre as oito moradas da alma e
as atividades das potências da alma). Há assim diversos graus de símbolos dos
seres e do ser que estão virtualmente na alma e podem ser atualizados dando-se
à consciência. Símbolos que vão desde imagens sensíveis até intelecções espirituais.
No grau mais baixo de consciência
humana temos a atividade da imaginação. O fundamento para os atos de
consciência imaginativa é a fantasia como grau mais baixo de memória reflexiva
capaz de conter como possíveis lógicos as imagens sensíveis (na sua capacidade
enquanto potência) e como hábitos potenciais (após atualizadas alguma vez essas
imagens na consciência).
A imaginação pode ativar sua
capacidade de recordação e de composição/divisão das imagens seja mediante
estímulos advindos dos sentidos exteriores que despertam sua atividade (visão,
audição, etc. após processamento pelo sentido comum), seja mediante um influxo
interior da vontade, seja mediante um influxo interior das paixões ou
necessidades instintivas, seja pelo seu impulso próprio apenas parcialmente
controlável pela vontade e inteligência que surge espontaneamente (após a queda
original, antes estava plenamente direcionada pelo nous). Há ainda
a possibilidade do influxo mediado pela memória sensível (reminiscência) que
tem a possibilidade de consciência logo acima da imaginação ou um influxo da
memória espiritual. A fé cristã ensina que também há uma outra possível
ativação mediante a ação angélica seja dos anjos bons seja dos demônios. É
fundamental discernir essas origens da atividade imaginativa e afastar-se de
ilusões.
Existe uma coerência simbólica
envolvendo uma dada imagem ou um ser fictício que pode surgir da imaginação.
Existem possibilidades de variação dadas por essa coerência assim como uma
pessoa humana que é um único ser pode passar por transformações e pode se
tornar diferente ao longo da vida (variações de si mesma). Mas há limites para
as variações tanto no "âmbito real" quanto no "âmbito
virtual" da imaginação. Essa coerência também delimita as possibilidades
de interação entre as imagens e assim também as possibilidades de significação
e simbolização.
Numa pessoa real a vocação pessoal
espiritual e a genética biológica junto com algumas outras condicionantes
histórico-social-familiares dão uma coerência específica da qual a pessoa não
pode se livrar, pode apenas agir a partir dela. No caso de personagens ou
imagens fictícias a combinação de determinadas imagens na imaginação é dada
pelas possibilidades mesmas do ser, a imaginação não pode criar absurdos nas
imagens apenas na narrativa verbal ou na associação forçada de palavras: não se
pode imaginar um "círculo quadrado", mas se pode fazer uma falsa
ligação de pensamento criando uma frase em que o adjetivo "quadrado"
se associe com o substantivo "circulo".
Pela compreensão do "fundamento
in re" da ficção podemos refletir sobre o porquê da imaginação criadora e
capaz de múltiplas combinações, qual o sentido espiritual da imaginação.
Um unicórnio por exemplo é uma
possibilidade do ser: se Deus quisesse ter criado seres que são como cavalos
com um chifre espiralado na testa ele poderia ter criado, não há uma
impossibilidade metafísica ou um absurdo no unicórnio.
Justamente essa capacidade da
imaginação de mostrar o que poderia ser se Deus assim quisesse de outro modo é
que permite uma percepção de que o universo não é fruto de um determinismo
rígido mas de um poder divino criador e livre, um Artista Divino.
A imaginação criativa me parece tem
um papel de iluminada pelo nous possibilitar a expansão do universo simbólico
para uma melhor compreensão das realidades espirituais e os arquétipos que Jung
e outros encontram num "inconsciente coletivo" na verdade são
possibilidades simbólicas inscritas no ser (e na expansão do simbólico a
linguagem do mito e da poesia aparece como um princípio de iluminação e
percepção da verdade que pode ser conscientizado e depurado por uma atividade
mais plena do logos e do nous) . Essas possibilidades simbólicas podem ser
associadas a pensamentos retos ou pensamentos tortuosos, seja através de uma
colagem imaginativa que une o universo verbal (através das "imagens"
auditivas) ao imagético visual, seja num processo interpretativo. E além da
associação com o universo verbal o imaginário pode se associar às paixões,
emoções e afetos em pensamentos complexos e sentimentos. Pelo que tenho
estudado dos padres gregos, somente com a pureza do nous iluminando e guiando
uma distinção e união entre os símbolos, paixões e pensamentos é possível a
sanidade. Mas é possível tanto à fantasia desregrada quanto ao demônio uma ação
desorganizadora do psiquismo ou que leve ao pecado pela associação de
pensamentos tortuosos com imagens e paixões. É preciso vigiar e afastar as
imagens mescladas com pensamentos tortuosos e procurar gerar hábitos de
pensamentos retos e ordenados que conduzam a um bom manejo das emoções, afetos
e comportamentos. Um grau de vigília é dado pela operação lógica e discursiva
mas a vigília é mais plena na contemplação atenta do nous que transcende o
discurso.
Quando a fantasia desregrada em algum
grau grave toma controle sobre a memória e o intelecto temos um estado
psicótico. Mesmo nos estados psicóticos mais graves há nesse controle da
imaginação um grau real de consciência que dirige o comportamento através das
imagens e símbolos que se apresentam dominando a mente.
O desregramento da fantasia pode se
dar seja por causas orgânicas e biológicas de doenças, seja por maus hábitos
culposos, seja por hábitos dos quais não se tem culpa, seja por uma combinação
de múltiplos fatores. Hábitos no sentido de comportamento que geram hábitos no
sentido de predisposições para o aparecimento das imagens e das paixões
(emoções).
Em nossa época repleta dos excessos
de comunicação áudio-visual (ficcional ou não) é preciso redobrar os cuidados
no que se refere à uma "higiene" mental de purificação de excessos
imaginativos. A atividade artística guiada com inteligência pode ser de grande
ajuda nesse processo de direcionar as imagens da fantasia para uma vida
saudável. Também a atividade artística possibilita na utilização dos arquétipos
e símbolos a construção de um universo moral ou imoral, hábitos de virtude ou
vício que podem ampliar ou reduzir o potencial de cada ser humano para ser
feliz na sua vida especificamente humana de ser capaz de simbolização e
interpretação de símbolos.
Exemplo mais nobre dessa atividade
ordenadora da arte guiando a imaginação é a sagrada arte dos ritos litúrgicos
que engloba em si múltiplos símbolos icônicos que exercitam o nous na atenção
contemplativa. A beleza como transcendental em que se une afeto e cognição numa
alegria que expande o coração tem poder de transformar a alma conduzindo-a para
a bondade. Através do temor reverencial e da piedade que a beleza exige se se
quer contemplá-la. Contemplação que se faz num sentimento espiritual que é ato consciente
pleno e fruitivo, participação da beatitude. Vigiai pois, vigiai, ó homens,
para que vosso coração possa ouvir a beleza que bate à porta e quer cear
convosco, vigiai para que vosso coração não confunda uma ilusão passageira
unida a um pensamento tortuoso (um ídolo) com o dar-se da luz na transparência
dos símbolos (os ícones).

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