Friday, January 26, 2018

"Arteterapia e canto gregoriano: terapia da alma a partir da antropologia de místicos e filósofos cristãos"

Comunicação do amigo Lincoln Haas Hein, pós-graduando em Arteterapia pelo ITECNE, apresentada no evento "I Jornada de Música e religiosidades" na PUC-PR.

Palavras-chave: canto gregoriano, arteterapia, espiritualidade, teologia mística, terapia da alma.

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Qual o sentido atribuído pelos medievais e renascentistas aos modos gregorianos? Como compreender em profundidade o efeito do canto gregoriano na alma e o significado dos modos gregorianos dentro do seu contexto litúrgico e a partir da cultura que elaborou essa música ritual? É possível que esses efeitos e significados possam ter sentido também entre cristãos de hoje e em especial no Brasil? Foi buscando também aprofundar estas questões e encontrar respostas para elas que ingressei numa pós em arteterapia na qual posso procurar compreender como o fenômeno estético e as artes atuam no ser humano.

Hierotheus de Nafpaktos em seu livro Psicoterapia ortodoxa argumenta a partir dos padres da Igreja que o cristianismo pode ser considerado antes de mais nada uma terapêutica para a cura da alma. Bento XVI compara o rito litúrgico a um jogo que tem papel terapêutico e curativo e lembra o papel que a música sacra e litúrgica exerce nesse aspecto. Martin Echavarria mostra que a filosofia prática consistia para os antigos numa terapêutica da alma e que no cristianismo também a antropologia teológica atua na compreensão dessa terapêutica. Pensando nos elementos teóricos que apontam para uma terapia da alma presente na prática e na teoria da teologia cristã seria possível buscar uma compreensão dos efeitos terapêuticos da música litúrgica.

São João Crisóstomo, São Basílio e Evágrio Pôntico escreveram que o canto da salmodia tem efeitos terapêuticos no sentido do direcionamento das emoções. O tipo específico de música que era utilizado na salmodia e que no ocidente evoluiu para as múltiplas formas do gregoriano tinha para os padres um efeito real de ordenar o psiquismo facilitando a operação do intelecto ou nous na atividade da oração. Uma compreensão melhor de como os místicos cristãos entendem o ser da alma, suas operações e sua união com o corpo possibilitam idéias sobre como a estética se relaciona com isso, como a música em geral se relaciona com isso e em especial o canto salmódico que fazia parte dessa tradição terapêutica.

Os primeiros direcionamentos desta pesquisa vão no sentido de tentar compreender como se dá a apreensão estética e qual sua relação com as operações da alma se partirmos dos conceitos apresentados pelos místicos e filósofos cristãos. Compreender o conceito de núcleo da alma, de coração, a noção de vontade e de afeto, enfim das várias potências da alma e também as noções de beleza, de bem e de verdade segundo a antropologia filosófico-teológica. Uma busca neste sentido mostra em especial dois conceitos-chave para uma resolução das questões: o conceito de sentimento e o conceito de coração. O sentimento como algo que inclui tanto a cognição quanto a afetividade numa impressão afetiva que atinge a capacidade receptiva da alma (o coração em seus níveis de operação desde o mais sensível até o mais espiritual). Num segundo momento é importante buscar relações entre o canto e os aspectos da vida espiritual e os três melos (sistáltico, diastáltico e hesicástico) da teoria musical grega podem servir de ponto de partida.

Que é a beleza e a apreensão estética para os filósofos e místicos cristãos? Para os filósofos cristãos o belo é um dos transcendentais do ser, ou seja, se identifica com o próprio ser como um aspecto ou modo de apreendê-lo. Na filosofia patrística e escolástica há duas maneiras de dizer o belo que se complementam e que buscam exprimir esse aspecto do ser: "o belo é a igualdade numerosa" e o "belo é o que à vista agrada". A beleza é o ser visto enquanto integridade de forma, enquanto totalidade que une múltiplos aspectos em uma ordem e que agrada ao dar conhecimento desta ordem múltipla. Esse agradar ao dar conhecimento exprime uma igualdade numerosa não só no ser belo enquanto bem, verdade e unidade ordenados mas também no ato da apreensão estética do belo que une em si a cognição e o afeto, a fruição da verdade enquanto bem e a compreensão do bem enquanto verdade (bem e verdade como a beleza são considerados transcendentais do ser).

Para compreender a apreensão estética segundo pensada pelos filósofos cristãos é necessário entender a ideia de conhecimento por conaturalidade. Quando se ama um "objeto" visto como bem cria-se no amante uma inclinação para o amado que é participação no bem deste amado e na intimidade do amante esse amado presente torna-se conhecido. E na unidade entre conhecer e amar chamada "consensio" ou sentimento tem-se a unidade entre bem e verdade que caracteriza o ser como belo e igualdade numerosa. Eis aqui a apreensão estética caracterizada como sentimento, ou seja, emoção ou afeto conscientizado e conhecido e que dá a conhecer o objeto que causou emoção ou afeto. O sentimento é uma impressão afetiva na alma.

Essa possibilidade do afeto redundar, transbordar para o conhecimento ou percepção e vice-versa depende porém de uma base no ser humano em que isso se realiza. Essa base é o fato de que as potências cognitivas e afetivas emanam, nascem da memória enquanto capacidade para reter em si o conhecimento e o afeto e da memória enquanto reflexividade, enquanto possibilidade de auto-percepção e consciência. Há graus diversos de memória desde a fantasia ou imaginação, passando pela memória sensível, o intelecto possível como memória dos conhecimentos até o núcleo da alma: a própria mente como fundo da alma, como reflexividade substancial de si mesma.

Esses diversos graus de memória são alterados pelos diversos hábitos (no sentido escolástico de predisposições estáveis a algo) e assim os sentimentos, as experiências estéticas são diferentes para cada pessoa na medida em que as disposições são diferentes e na mesma pessoa a cada experiência estética modifica-se a disposição. Essas diversas disposições nos diversos graus de memória são influenciadas pela atenção livre e influenciam a atenção. A memória mais íntima, a intimidade mais profunda da consciência é o coração das escrituras, o nous essencial dos padres gregos do qual nasce a atenção às realidades que pode retornar ou não a si, pode se prender nos graus inferiores de memória, conhecimento e afeto ou pode se dirigir até a percepção de si como imagem de Deus na intimidade profunda do coração espiritual.

Existe por causa desta reflexividade da memória um caráter de liberdade no modo como o homem pode interagir com a realidade. As diversas coisas e as obras culturais podem ser para homem, segundo o filósofo personalista cristão Lopez Quintás, âmbitos de realidade com os quais o homem pode interagir ludicamente e criativamente. Nessa interação lúdica pode acontecer a apreensão estética pela troca de verdade e de bem, pode acontecer o sentimento espiritual como algo que une sensível e meta-sensível em experiências reversíveis de encontro com a beleza e os valores. Mas também é possível ao homem o não realizar essas experiências dependendo dos ideais que tenha dentro de si.

Que são os modos gregorianos a partir destas noções? São âmbitos de realidade que podem interagir com o homem de modo a que o homem responda com um sentimento, com uma apreensão estética que envolve a memória, a cognição e o afeto em diversos graus de consciência dependendo do modo como cada homem se configurou a si próprio na sua interação com a realidade. Ao mesmo tempo, pelo caráter sensível da arte musical que afeta a sensibilidade de quem ouve, é possível que o contato com o canto gregoriano associado à uma cultura específica de ascese cristã gradualmente altere a configuração de si que o homem realiza, através da redundância e transbordar da emoção e consciência sensível para o afeto e consciência espiritual. Os padres da Igreja, as gerações de monges que plasmaram o canto gregoriano com seus âmbitos de realidade a partir de sua própria auto-consciência espiritual e experiência de oração puderam por meio da interação entre corpo e espírito estabelecer modos musicais que ao interagirem com a consciência humana livre podem (ou não, dependendo da liberdade humana e da cultura) conduzir ao recolhimento do nous, à uma consciência mais plena da reflexividade da alma e seu caráter de imagem de Deus.

Os sentimentos que podem ser causados pelo canto gregoriano variam conforme os vários modos e as várias melodias e assim os medievais e renascentistas exprimiram por palavras de diversas maneiras algo do significado de cada modo como âmbito de realidade. Um modo é mais sério e consegue exprimir todos os afetos, outro é jovem, angelical, outro veemente, etc. São palavras que trazem um indício de como compreender a relação entre os sentimentos estéticos provocados pela música e os sentimentos da vida interior de oração. Para nós que vivemos em outro contexto esses indícios são muito pouco para expressar os modos porque não temos a vivência cultural em que os modos se realizavam. Assim se quisermos ampliar nossa consciência para uma experiência estética mais frutuosa dos modos gregorianos precisamos estabelecer relações que os medievais não deixaram explícitas textualmente mas que poderiam ser deduzidas do contexto místico, teológico e musical da época de formação do canto gregoriano.

A base metafísica filosófica para essas relações simbólicas é segundo os filósofos cristãos a analogia do ser e os diversos graus de participação que os entes possuem do ser divino. Os medievais liam todas as criaturas e todas as coisas inclusive as obras culturais como degraus de uma mesma escada cósmica, diversos graus de semelhança e diferença entre si e com Deus que conduzem ao criador como último referente simbolizado.

Partindo do contexto da teoria musical da época e da época que a precedeu é possível verificar três sentimentos principais na música segundo a teoria dos gregos apresentada por exemplo por Quintiliano: o melos (melodia) sistáltico, o melos diastáltico e o melos hesicástico. Cada um está relacionado à uma maneira específica de ser do coração que é afetado pela música: 1- sístole, contração metafórica afetiva e cognitiva do coração, da consciência; 2- diástole, expansão afetiva e cognitiva; 3 - hesíquia ou repouso, tranquilidade afetiva e cognitiva do coração num movimento ordenado.

A partir dos significados atribuídos pelos gregos a três tetracordes principais, o tetracorde em ré, o em mi, e o em dó ou fá é possível associar cada um destes três melos a um dos chamados três modos primitivos. Pelas modulações destes modos primitivos nos 8 modos posteriores e pelos indícios dados pelos significados atribuídos pelos medievais é possível compreender de modo mais amplo os sentimentos de cada modo.

Nesse compreender os movimentos do coração associados aos movimentos musicais de cada modo uma possível leitura seria compreender os vários possíveis movimentos do coração a partir das relações que os medievais estabelecem entre diversos aspectos da vida espiritual: as virtudes, os vícios, os dons do Espírito Santo, os pedidos do Pai-nosso e as bem-aventuranças. Segundo Evágrio Pôntico 8 eram os espíritos de tentação, também 8 são as bem-aventuranças, os dons do Espírito Santo são 8 se considerarmos como São Tomás o próprio Espírito Santo como dom, no Pai-Nosso se consideramos a primeira invocação ("Pai-nosso que estais no céu") também são 8 invocações. Talvez a partir disso seja possível relacionar a esses conjuntos de 8 também o conjunto dos 8 modos gregorianos.

Por seu caráter ligado aos afetos da alma e às experiências místicas dos sentimentos espirituais, a teologia dos dons do Espírito Santo é especialmente interessante para a busca da compreensão das melodias gregorianas. Há três dons que são afetivos, o dom de temor, o dom de piedade e o dom de fortaleza que podem ser associados aos movimentos de sístole do coração espiritual, diástole do coração espiritual e hesíquia do coração espiritual e assim se relacionar aos três modos primitivos. Esses dons se relacionam de modo especial com três dons intelectuais, ciência, entendimento e conselho. O dom de sabedoria é especial unindo em si afeto e e inteligência e pode ser relacionado com as cadências em sol, do modo tetrardus que na evolução modal completa os três modos primitivos para formar com as finais em ré, mi, fá e sol os 4 modos principais protus, deuterus, tritus e tetradus que se subdividem cada qual em autêntico e plagal.

Há muito a ser explorado ainda nessas relações entre a vida espiritual e o canto gregoriano, mas extrapolaria os limites para um pré-projeto e projeto de trabalho de conclusão de curso da pós-graduação em arteterapia. Assim como extrapolaria os limites dessa breve comunicação em que tento resumir umas cinquenta páginas de meditações informais que estão servindo de pontapé inicial para a elaboração mais acadêmica do pré-projeto.


"Quatro Anjos Musicais" (c. 1345), de Bernardo Daddi


Bibliografia mais relevante:

Bento XVI - O Espírito da Música

Martin F. Echavarría - La praxis de la psicología y sus niveles epistemológicos segun Santo Tomas de Aquino

Hierotheus de Nafpaktos - Orthodox Psychotherapy

Alfonso Lopez Quintás - La experiencia estetica y su poder formativo

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