Comunicação do amigo Lincoln Haas Hein, pós-graduando em
Arteterapia pelo ITECNE, apresentada no evento "I Jornada de
Música e religiosidades" na PUC-PR.
Palavras-chave: canto gregoriano, arteterapia, espiritualidade, teologia mística, terapia da alma.
* * *
Qual o sentido atribuído pelos
medievais e renascentistas aos modos gregorianos? Como compreender em
profundidade o efeito do canto gregoriano na alma e o significado dos modos
gregorianos dentro do seu contexto litúrgico e a partir da cultura que elaborou
essa música ritual? É possível que esses efeitos e significados possam ter
sentido também entre cristãos de hoje e em especial no Brasil? Foi buscando
também aprofundar estas questões e encontrar respostas para elas que ingressei
numa pós em arteterapia na qual posso procurar compreender como o fenômeno
estético e as artes atuam no ser humano.
Hierotheus de Nafpaktos em seu livro
Psicoterapia ortodoxa argumenta a partir dos padres da Igreja que o
cristianismo pode ser considerado antes de mais nada uma terapêutica para a
cura da alma. Bento XVI compara o rito litúrgico a um jogo que tem papel
terapêutico e curativo e lembra o papel que a música sacra e litúrgica exerce
nesse aspecto. Martin Echavarria mostra que a filosofia prática consistia para
os antigos numa terapêutica da alma e que no cristianismo também a antropologia
teológica atua na compreensão dessa terapêutica. Pensando nos elementos
teóricos que apontam para uma terapia da alma presente na prática e na teoria
da teologia cristã seria possível buscar uma compreensão dos efeitos
terapêuticos da música litúrgica.
São João Crisóstomo, São Basílio e
Evágrio Pôntico escreveram que o canto da salmodia tem efeitos terapêuticos no
sentido do direcionamento das emoções. O tipo específico de música que era
utilizado na salmodia e que no ocidente evoluiu para as múltiplas formas do
gregoriano tinha para os padres um efeito real de ordenar o psiquismo
facilitando a operação do intelecto ou nous na atividade da oração. Uma
compreensão melhor de como os místicos cristãos entendem o ser da alma, suas
operações e sua união com o corpo possibilitam idéias sobre como a estética se
relaciona com isso, como a música em geral se relaciona com isso e em especial
o canto salmódico que fazia parte dessa tradição terapêutica.
Os primeiros direcionamentos desta
pesquisa vão no sentido de tentar compreender como se dá a apreensão estética e
qual sua relação com as operações da alma se partirmos dos conceitos
apresentados pelos místicos e filósofos cristãos. Compreender o conceito de
núcleo da alma, de coração, a noção de vontade e de afeto, enfim das várias
potências da alma e também as noções de beleza, de bem e de verdade segundo a
antropologia filosófico-teológica. Uma busca neste sentido mostra em especial
dois conceitos-chave para uma resolução das questões: o conceito de sentimento
e o conceito de coração. O sentimento como algo que inclui tanto a cognição
quanto a afetividade numa impressão afetiva que atinge a capacidade receptiva
da alma (o coração em seus níveis de operação desde o mais sensível até o mais
espiritual). Num segundo momento é importante buscar relações entre o canto e
os aspectos da vida espiritual e os três melos (sistáltico, diastáltico
e hesicástico) da teoria musical grega podem servir de ponto de partida.
Que é a beleza e a apreensão estética
para os filósofos e místicos cristãos? Para os filósofos cristãos o belo é um
dos transcendentais do ser, ou seja, se identifica com o próprio ser como um
aspecto ou modo de apreendê-lo. Na filosofia patrística e escolástica há duas
maneiras de dizer o belo que se complementam e que buscam exprimir esse aspecto
do ser: "o belo é a igualdade numerosa" e o "belo é o que à
vista agrada". A beleza é o ser visto enquanto integridade de forma,
enquanto totalidade que une múltiplos aspectos em uma ordem e que agrada ao dar
conhecimento desta ordem múltipla. Esse agradar ao dar conhecimento exprime uma
igualdade numerosa não só no ser belo enquanto bem, verdade e unidade ordenados
mas também no ato da apreensão estética do belo que une em si a cognição e o
afeto, a fruição da verdade enquanto bem e a compreensão do bem enquanto verdade
(bem e verdade como a beleza são considerados transcendentais do ser).
Para compreender a apreensão estética
segundo pensada pelos filósofos cristãos é necessário entender a ideia de
conhecimento por conaturalidade. Quando se ama um "objeto" visto como
bem cria-se no amante uma inclinação para o amado que é participação no bem
deste amado e na intimidade do amante esse amado presente torna-se conhecido. E
na unidade entre conhecer e amar chamada "consensio" ou
sentimento tem-se a unidade entre bem e verdade que caracteriza o ser como belo
e igualdade numerosa. Eis aqui a apreensão estética caracterizada como
sentimento, ou seja, emoção ou afeto conscientizado e conhecido e que dá a
conhecer o objeto que causou emoção ou afeto. O sentimento é uma impressão
afetiva na alma.
Essa possibilidade do afeto redundar,
transbordar para o conhecimento ou percepção e vice-versa depende porém de uma
base no ser humano em que isso se realiza. Essa base é o fato de que as
potências cognitivas e afetivas emanam, nascem da memória enquanto capacidade
para reter em si o conhecimento e o afeto e da memória enquanto reflexividade,
enquanto possibilidade de auto-percepção e consciência. Há graus diversos de
memória desde a fantasia ou imaginação, passando pela memória sensível, o
intelecto possível como memória dos conhecimentos até o núcleo da alma: a
própria mente como fundo da alma, como reflexividade substancial de si mesma.
Esses diversos graus de memória são
alterados pelos diversos hábitos (no sentido escolástico de predisposições
estáveis a algo) e assim os sentimentos, as experiências estéticas são
diferentes para cada pessoa na medida em que as disposições são diferentes e na
mesma pessoa a cada experiência estética modifica-se a disposição. Essas
diversas disposições nos diversos graus de memória são influenciadas pela
atenção livre e influenciam a atenção. A memória mais íntima, a intimidade mais
profunda da consciência é o coração das escrituras, o nous essencial dos
padres gregos do qual nasce a atenção às realidades que pode retornar ou não a
si, pode se prender nos graus inferiores de memória, conhecimento e afeto ou
pode se dirigir até a percepção de si como imagem de Deus na intimidade
profunda do coração espiritual.
Existe por causa desta reflexividade
da memória um caráter de liberdade no modo como o homem pode interagir com a
realidade. As diversas coisas e as obras culturais podem ser para homem,
segundo o filósofo personalista cristão Lopez Quintás, âmbitos de realidade com
os quais o homem pode interagir ludicamente e criativamente. Nessa interação
lúdica pode acontecer a apreensão estética pela troca de verdade e de bem, pode
acontecer o sentimento espiritual como algo que une sensível e meta-sensível em
experiências reversíveis de encontro com a beleza e os valores. Mas também é
possível ao homem o não realizar essas experiências dependendo dos ideais que
tenha dentro de si.
Que são os modos gregorianos a partir
destas noções? São âmbitos de realidade que podem interagir com o homem de modo
a que o homem responda com um sentimento, com uma apreensão estética que
envolve a memória, a cognição e o afeto em diversos graus de consciência
dependendo do modo como cada homem se configurou a si próprio na sua interação
com a realidade. Ao mesmo tempo, pelo caráter sensível da arte musical que
afeta a sensibilidade de quem ouve, é possível que o contato com o canto
gregoriano associado à uma cultura específica de ascese cristã gradualmente
altere a configuração de si que o homem realiza, através da redundância e transbordar
da emoção e consciência sensível para o afeto e consciência espiritual. Os
padres da Igreja, as gerações de monges que plasmaram o canto gregoriano com
seus âmbitos de realidade a partir de sua própria auto-consciência espiritual e
experiência de oração puderam por meio da interação entre corpo e espírito
estabelecer modos musicais que ao interagirem com a consciência humana livre
podem (ou não, dependendo da liberdade humana e da cultura) conduzir ao
recolhimento do nous, à uma consciência mais plena da reflexividade da
alma e seu caráter de imagem de Deus.
Os sentimentos que podem ser causados
pelo canto gregoriano variam conforme os vários modos e as várias melodias e
assim os medievais e renascentistas exprimiram por palavras de diversas
maneiras algo do significado de cada modo como âmbito de realidade. Um modo é
mais sério e consegue exprimir todos os afetos, outro é jovem, angelical, outro
veemente, etc. São palavras que trazem um indício de como compreender a relação
entre os sentimentos estéticos provocados pela música e os sentimentos da vida
interior de oração. Para nós que vivemos em outro contexto esses indícios são
muito pouco para expressar os modos porque não temos a vivência cultural em que
os modos se realizavam. Assim se quisermos ampliar nossa consciência para uma
experiência estética mais frutuosa dos modos gregorianos precisamos estabelecer
relações que os medievais não deixaram explícitas textualmente mas que poderiam
ser deduzidas do contexto místico, teológico e musical da época de formação do
canto gregoriano.
A base metafísica filosófica para
essas relações simbólicas é segundo os filósofos cristãos a analogia do ser e
os diversos graus de participação que os entes possuem do ser divino. Os
medievais liam todas as criaturas e todas as coisas inclusive as obras
culturais como degraus de uma mesma escada cósmica, diversos graus de
semelhança e diferença entre si e com Deus que conduzem ao criador como último
referente simbolizado.
Partindo do contexto da teoria
musical da época e da época que a precedeu é possível verificar três
sentimentos principais na música segundo a teoria dos gregos apresentada por
exemplo por Quintiliano: o melos (melodia) sistáltico, o melos
diastáltico e o melos hesicástico. Cada um está relacionado à uma maneira
específica de ser do coração que é afetado pela música: 1- sístole, contração
metafórica afetiva e cognitiva do coração, da consciência; 2- diástole,
expansão afetiva e cognitiva; 3 - hesíquia ou repouso, tranquilidade afetiva e
cognitiva do coração num movimento ordenado.
A partir dos significados atribuídos
pelos gregos a três tetracordes principais, o tetracorde em ré, o em mi, e o em
dó ou fá é possível associar cada um destes três melos a um dos chamados
três modos primitivos. Pelas modulações destes modos primitivos nos 8 modos
posteriores e pelos indícios dados pelos significados atribuídos pelos
medievais é possível compreender de modo mais amplo os sentimentos de cada
modo.
Nesse compreender os movimentos do
coração associados aos movimentos musicais de cada modo uma possível leitura
seria compreender os vários possíveis movimentos do coração a partir das
relações que os medievais estabelecem entre diversos aspectos da vida
espiritual: as virtudes, os vícios, os dons do Espírito Santo, os pedidos do
Pai-nosso e as bem-aventuranças. Segundo Evágrio Pôntico 8 eram os espíritos de
tentação, também 8 são as bem-aventuranças, os dons do Espírito Santo são 8 se
considerarmos como São Tomás o próprio Espírito Santo como dom, no Pai-Nosso se
consideramos a primeira invocação ("Pai-nosso que estais no céu")
também são 8 invocações. Talvez a partir disso seja possível relacionar a esses
conjuntos de 8 também o conjunto dos 8 modos gregorianos.
Por seu caráter ligado aos afetos da
alma e às experiências místicas dos sentimentos espirituais, a teologia dos
dons do Espírito Santo é especialmente interessante para a busca da compreensão
das melodias gregorianas. Há três dons que são afetivos, o dom de temor, o dom
de piedade e o dom de fortaleza que podem ser associados aos movimentos de
sístole do coração espiritual, diástole do coração espiritual e hesíquia do
coração espiritual e assim se relacionar aos três modos primitivos. Esses dons
se relacionam de modo especial com três dons intelectuais, ciência, entendimento
e conselho. O dom de sabedoria é especial unindo em si afeto e e inteligência e
pode ser relacionado com as cadências em sol, do modo tetrardus que na
evolução modal completa os três modos primitivos para formar com as finais em
ré, mi, fá e sol os 4 modos principais protus, deuterus, tritus e tetradus
que se subdividem cada qual em autêntico e plagal.
Há muito a ser explorado ainda nessas
relações entre a vida espiritual e o canto gregoriano, mas extrapolaria os
limites para um pré-projeto e projeto de trabalho de conclusão de curso da
pós-graduação em arteterapia. Assim como extrapolaria os limites dessa breve
comunicação em que tento resumir umas cinquenta páginas de meditações informais
que estão servindo de pontapé inicial para a elaboração mais acadêmica do
pré-projeto.
Bibliografia mais relevante:
Bento XVI - O Espírito da Música
Martin F. Echavarría - La praxis de
la psicología y sus niveles epistemológicos segun Santo Tomas de Aquino
Hierotheus de Nafpaktos - Orthodox
Psychotherapy
Alfonso Lopez Quintás - La experiencia estetica y su poder formativo

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