Prefácio de: ZUBIRI, Xavier. Natureza, História, Deus. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2010, pp. 11-18.
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Natureza, História, Deus (doravante NHD), um clássico na literatura filosófica espanhola do século XX, foi o primeiro livro publicado pelo filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), e é também o primeiro cuja tradução vem a lume no Brasil[1]. Zubiri é um dos autores mais importantes de nosso tempo, possuindo uma filosofia dotada de originalidade e extremo rigor, enraizada num profundo conhecimento da história da filosofia (da qual foi catedrático na Universidad de Madrid) e das ciências contemporâneas (especialmente física, biologia, matemática, filologias clássica e oriental). Sua vida filosófica foi dedicada a mostrar, principalmente, por um lado, que o caráter metafísico do que há é “realidade” e, por outro, que o órgão que capta essa realidade é uma inteligência unida estruturalmente à sensibilidade, uma “inteligência senciente”. Junto a esses dois temas principais, destacam-se outros dois: a realidade humana e a realidade divina.
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Natureza, História, Deus (doravante NHD), um clássico na literatura filosófica espanhola do século XX, foi o primeiro livro publicado pelo filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), e é também o primeiro cuja tradução vem a lume no Brasil[1]. Zubiri é um dos autores mais importantes de nosso tempo, possuindo uma filosofia dotada de originalidade e extremo rigor, enraizada num profundo conhecimento da história da filosofia (da qual foi catedrático na Universidad de Madrid) e das ciências contemporâneas (especialmente física, biologia, matemática, filologias clássica e oriental). Sua vida filosófica foi dedicada a mostrar, principalmente, por um lado, que o caráter metafísico do que há é “realidade” e, por outro, que o órgão que capta essa realidade é uma inteligência unida estruturalmente à sensibilidade, uma “inteligência senciente”. Junto a esses dois temas principais, destacam-se outros dois: a realidade humana e a realidade divina.
O projeto zubiriano busca superar o criticismo
e o imanentismo modernos, seguindo o lema da fenomenologia de Husserl, de
“voltar às coisas mesmas”[2].
Sua trajetória pode ser dividida em três etapas: a) a etapa de inspiração
fenomenológico-objetivista (1921-1928), onde Zubiri faz sua dissertação de
licenciatura e sua tese doutoral sobre Husserl; b) a de inspiração
existencialista-ontológica (1931-1944), que é de influxo heideggeriano; c)
finalmente, a etapa metafísica (1945 até a morte) da filosofia madura de
Zubiri, que tem seus pontos fortes, por um lado, no tratado Sobre la Esencia, na qual ressaltam as
influências aristotélica, escolástica e científica, e por outro lado, na trilogia
Inteligencia sentiente (Inteligencia y Realidad, Inteligencia y Logos e Inteligencia y Razón), sua obra mais
original.
NHD é uma recopilação de artigos publicados
entre 1932-44 (com exceção de “Introdução ao Problema de Deus”, que é de 1963),
situando-se, portanto, na segunda etapa da filosofia de Zubiri. Convém iluminar
sua leitura com alguns dados básicos a respeito da doutrina madura do autor.
Antes, pois, de referir-nos ao conteúdo de NHD, vejamos brevemente o
significado da inteligência senciente e da realidade como formalidade do de suyo e como algo real[3].
Inteligência
e realidade
Em Inteligencia
Sentiente, Zubiri dirá que a impressão sensível não é mera afecção
subjetiva, mas tem também um momento de alteridade e outro de força de
imposição. No momento de alteridade, não sentimos simplesmente um conteúdo, mas
a coisa sentida tem um modo de ficar na impressão, ou “formalidade”:
“estimulidade”, no “puro sentir” animal, que só sente a coisa como estímulo
para sua resposta; “realidade”, no “sentir inteligente” humano, que sente a coisa
como algo de suyo (dela, e não do processo senciente). Não interveio ainda a
inteligência enquanto formadora de idéias, juízos e raciocínios, mas essa
apreensão do de suyo, da coisa se pertencendo, do calor como quente e não só
esquentando, já é apreensão intelectiva[4]. Estamos diante do que Zubiri chama apreensão
primordial de realidade, pré-lógica, pré-racional, mas intelectiva. A
inteligência é impressão de
realidade, por isso é inteligência senciente[5].
Essa inteligência senciente tem outras duas modulações: o logos senciente, que apreende o que é uma coisa a respeito de
outras no campo de realidade apreendido, e a razão senciente, que apreende o
que a coisa é profundamente, no mundo além da apreensão. A verdade da apreensão
primordial é a “verdade real”, “atualidade” ou presença desde si mesma da
realidade na inteligência, que não admite falsidade. A verdade real dá lugar à
verdade dual do logos e da razão.
O real é o que é de suyo independente e uno, é
a “substantividade”. A substantividade é um sistema de notas coerentes entre si
e suficientes para ser algo de suyo. O núcleo da substantividade é o subsistema
denominado essência, que não é uma questão de definição. A essência é formada
pelas notas constitutivas, as quais são infundadas e necessárias para que a
coisa real tenha as demais notas. A substantividade que, por ter inteligência,
possui a si mesma como sua própria realidade, é a pessoa ou “suidade”. A
realidade tem sua primeira atualidade no ser: o homem é uma realidade pessoal
ou personeidade cujo ser é a personalidade, que corresponde às modulações
concretas que a personeidade adquire ao longo da vida.
Conspecto
de Natureza, História, Deus
Em “Nossa
situação intelectual”, Zubiri expõe uma possibilidade que sempre está à
espreita da vida intelectual: o paradoxo da existência de uma enorme quantidade
e qualidade de conhecimentos científicos, contrastante com a confusão, a
desorientação e o descontentamento entre os intelectuais. A verdadeira ciência
só pode existir quando o homem está possuído pela verdade. Para isso, a
filosofia é condição necessária, mas não suficiente, pois o desarraigamento
intelectual do homem é só um aspecto do desarraigamento da existência inteira.
Daí a necessidade que o homem tem de viver formalmente a religação ao Fundamento
de sua existência, tema dos artigos “Introdução ao problema de Deus” e “Em
torno do problema de Deus”. Aparecem antecipações das idéias de inteligência
senciente e verdade real, quando se diz que “pensamento e sensibilidade não são
funções necessariamente separadas” (p. 57), bem como que “há uma verdade radical e primária da
inteligência: sua constitutiva imersão nas coisas” (p. 57-58). Por fim, há uma importantíssima
nota sobre a “verdade”, que seria repetida em Inteligencia y Realidad.
Em “Que
é saber?”, Zubiri responde a essa pergunta dizendo que saber é ter
“impressão de realidade”. Mais uma vez antecipando sua doutrina madura, nos
dirá, mostrando a diferença entre o puro sentir e a inteligência senciente: “A mente não é justaposta ao sentir sensível. O animal ‘sente’ o vinho:
o homem sente que ‘parece ou é’ vinho. Esta é uma diferença essencial: a
diferença entre o ‘nu’ sentir e o ‘sentir que parece’, ou ‘sentir que é’ vinho.
Não teríamos isto sem a mens. A mente
se compenetra com a impressão sensível” [p. 92]. O artigo apresenta ainda uma série de elementos que permanecem
inalterados na filosofia madura de Zubiri: a noção de sentido comum (p. 86), o homem como “porta-voz”
das coisas (p. 87)
–idéia que retorna em El hombre y Dios,
onde Zubiri diz “voz da realidade”–, a importância do sentido do tato (p. 88), a noção de
consciência (p. 91).
Em “Ciência
e realidade”, podemos ler como a epistémē grega e a ciência moderna são dois modos de conhecimento distintos, que
não devem ser comparados em função dos resultados positivos da segunda. Para a
ciência, realidade é fazer parte do mundo dos fenômenos, enquanto para a epistémē é ousía, substância, entidade. Não faz
sentido dizer que a ciência moderna “superou” a antiga, pois o que houve foi
uma mudança de assunto. A realidade não pode ser esgotada pelo tratamento da
ciência moderna, e não se cingir a ela não é sinônimo de opção pelo irracional.
“A idéia
de filosofia em Aristóteles” mostra
como o esforço aristotélico para construir uma ciência filosófica o levou a
encontrar um objeto que fosse próprio da mesma: o ser enquanto ser, a realidade
enquanto tal.
Em “O
saber filosófico e sua história”, vemos como a história da filosofia não é
extrínseca à filosofia. Em seu transcurso, a filosofia busca seu método e
objeto, o qual se encontra latente em todo objeto. A filosofia é constituição
ativa de seu próprio objeto. Sua obra é a conquista de sua própria ideia.
Em “Notas
históricas”, Zubiri nos diz, de Suárez, que seu conhecimento é fator
imprescindível para o conhecimento da filosofia moderna. Sobre Descartes, indica que o voluntarismo, e
não o apregoado racionalismo, é sua principal característica. A respeito de Pascal ensina, entre outras coisas, que
o “coração” do qual o autor francês fala não tem a ver com sentimentalismos ou
irracionalismos. Quanto a Hegel,
Zubiri afirma que a iniciação à filosofia deve ser uma inquisição da situação
em que o filósofo alemão nos deixou instalados. Finalmente, de Brentano nos diz que sua oposição a toda
forma de idealismo transcendental o conduziu a uma reforma do filosofar.
“Sócrates
e a sabedoria grega” mostra
como Sócrates aplica o noûs, a mens, às coisas usuais da vida, livrando-as da retórica dos
sofistas e permitindo, assim, a continuidade da filosofia em seus discípulos Platão
e Aristóteles.
“Hegel
e o problema metafísico" é uma
exposição crítica da metafísica hegeliana: o homem não projeta o universo
dentro de si, mas diante de si. Termina citando as conhecidas “duas metáforas”
de Ortega: o homem é um pedaço do universo (filosofia grega), ou então é o
envolvente do universo (filosofia moderna); Zubiri propõe uma terceira
metáfora: o homem é a autêntica luz das coisas.
“A
idéia de natureza: a nova física” reporta a crise da nova física, com o princípio de indeterminação de
Heisenberg, a qual só poderia ser sanada com um conceito ontológico de
Natureza. A função da luz na física quântica, a qual, como claridade, permite
ver as coisas,
seria associada metaforicamente à função da realidade, na obra madura.
Em “O
acontecer humano: a Grécia e a sobrevivência do passado filosófico”, vemos
como o passado sobrevive sob forma de possibilidade do presente. Somos gregos e
medieviais porque nossa filosofia tem ingredientes helênicos ou do medievo, e
somos todos pré-socráticos, pelo simples fato de filosofar. A história aparece
conceituada como um acontecer de possibilidades, o que seria posteriormente
corrigido pela noção de história como capacitação, como Zubiri esclarece no
prólogo à tradução inglesa. Ao referir-se aos jônios e ao problema da natureza (p. 376), Zubiri menciona
a fonte de onde tiraria seu conceito de realidade como algo de suyo.
Em “Introdução
ao problema de Deus” e “Em torno do
problema de Deus”, Zubiri afirma que,
na atualidade, o primeiro a ser esclarecido é que há um problema de Deus a
ser investigado pelo homem. Toda demonstração da existência de Deus deve partir
da prévia “mostração” da existência humana religada a seu fundamento. Na
distinção entre o ser do homem e sua vida anuncia-se a distinção entre
realidade e ser da filosofia madura de Zubiri. O conceito de religação e toda a
filosofia “teologal” de Zubiri –a que trata do problema de Deus– alcançaria sua
formalização no livro El hombre y Dios.
Finalmente, “O ser sobrenatural: Deus e a deificação na teologia paulina” é um
estudo histórico sobre a teologia dos padres gregos, na qual o ser de Deus aparece
como um amor efusivo. Sua efusão tem lugar em três formas: as processões
trinitárias, a criação e a deificação. Nessas reflexões aparecem conceitos que
influenciariam a filosofia e a teologia zubirianas, como por exemplo: a noção
do ser como extático (p. 459) –posteriormente Zubiri dirá que a realidade é “doação”–; a noção de
causalidade formal (p. 462), que influi no conceito de criação e na noção de “poder do real”; a
noção de essência como “atividade do ser mesmo enquanto raiz de todas as suas
notas” (p. 465).
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O problema que de certo modo pulsa em todos os
artigos é o problema mesmo da filosofia: qual é seu objeto? Zubiri está
constituindo sua filosofia, então em cada artigo, em cada ensaio, está
respondendo a essa questão. Ao final de “Sócrates e a sabedoria grega” Zubiri
pergunta: “o último das coisas é seu ser?”. E ao final de “Hegel e o problema
metafísico”: “que está para além do ser?”. Alude, quiçá
sem sabê-lo claramente, à realidade, ao de suyo. NHD é uma tensão em direção à
metafísica da realidade e da inteligência senciente, e com seu estilo
ensaístico, de leitura mais agradável que os tratados da etapa madura,
constitui uma excelente introdução à filosofia de Zubiri e às questões
metafísicas cruciais: a natureza e a realidade enquanto tal, a história e seu
autor (o homem e sua inteligência), e o problema de Deus.
A
paixão pela verdade está patente em cada um dos escritos, mas não uma verdade
meramente especulativa, de um idealismo desencarnado, que não leva em
consideração a constituição corpórea da pessoa humana, mas a verdade real,
aquela “verdade primária” da qual o homem de carne e osso tem experiência e à
qual não se pode renunciar em nome de construções teóricas que não respeitam o
dado real. Urge abandonar a “logificação da inteligência” promovida pela
modernidade, para ater-nos à impressão de realidade, única garantia de
mover-nos genuinamente no real. Como nos diz Zubiri: “saber não é raciocinar
nem especular: saber é ater-se modestamente à realidade das coisas” (“Que é
saber?”, p. 82).
Como
o autor escreve em “Nossa situação intelectual”, a via racionalista deixou o
homem só, sem mundo (Grécia), sem Deus (cristianismo) e sem si mesmo
(modernidade). Essa ainda é a situação em que nos encontramos. Mas se o homem
consegue recolher-se em si mesmo, descobre, como Zubiri indica, uma solidão
sonora, onde ressoam as questões fundamentais da existência; descobre que não
se encontra arrojado entre as coisas e sim implantado na realidade, constitutivamente
religado ao Fundamento que o faz ser.
Que
a leitura de Zubiri nos seja propícia para empreender o caminho de retorno à situação
metafísica que engrandece o horizonte de nossas vidas. Que a tradução de NHD
seja a primeira de outras. Que Zubiri tenha vindo para ficar.
[1] Anteriormente, fora
publicado o artigo “O Problema Teologal do Homem” (cf. M. Oliveira; C. Almeida (org.). O Deus dos
Filósofos Modernos. Petrópolis: Vozes, 2002, pp. 13-20). Sobre Zubiri, foram
publicados no Brasil: J. Fernandez Tejada, A Ética da inteligência em Xavier Zubiri. Londrina : UEL, 1998; e O. de Carvalho, Xavier
Zubiri e a Escolástica. São Paulo: É Realizações, 2006 (Col. História
Essencial da Filosofia).
[2] Cf. E. Husserl, Investigaciones lógicas. Madrid: Alianza Editorial, 1999, v. I, p. 218.
[3] Praticamente a
unanimidade dos estudiosos de Zubiri concorda com a tese de Diego Gracia, exposta
em Voluntad de Verdad, de que a
trilogia sobre a inteligência humana deve ser o critério hermenêutico para ler
a obra anterior. Inteligencia Sentiente apresenta
o pensamento final de Zubiri sobre os temas da inteligência e da realidade.
[4] “Já não se trata do calor como mera alteridade pertencente signitivamente
ao processo do sentir, mas de uma alteridade que como tal não pertence senão ao
calor por si mesmo. O calor apreendido agora não consiste já formalmente em ser
signo de resposta, mas em ser quente de suyo’” (Xavier Zubiri, Inteligencia y Realidad. 5ª ed., Madrid, Alianza Editorial, 1998, p. 57). Não se trata da realidade “em si”, além da apreensão. “Realidade”
não é uma zona de coisas, mas a formalidade que caracteriza o real tanto na
apreensão quanto além da apreensão. O que possa ser o real além da apreensão (investigação
que cabe à intelecção racional, que é uma modulação da intelecção primordial),
só pode ser buscado a partir do real apreendido. Mas não temos que buscar a
realidade, estamos sempre nela.
[5] Não se trata de uma
“inteligência emocional”: a inteligência é senciente, porque entende através
dos sentidos, e não através dos sentimentos, afetos ou emoções. A inteligência
clássica seria intelecção do sensível;
já a inteligência senciente é uma intelecção no sentir.

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