1.6.17

Raimundo Lúlio sobre o Anticristo

Excertos de LLULL, Ramon. Livro contra o Anticristo. Trad. Hubert Jean Cormier. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2016.


"O Anticristo será um homem tão mau e perverso contra a verdade que, da mesma maneira que será amante da maior falsidade e erro, assim também será contrário à maior verdade nos dizeres e nas obras" (p. 32).

"Tão fortemente se multiplicarão os erros e os trabalhos no mundo e tão grandes serão a malícia e a falsidade do Anticristo, e tão pouca será a devoção e a caridade que se terá para com Deus e o próximo, que, se antes do Anticristo vir, não nos prepararmos e dispusermos a combatê-lo, assim como também às suas consequências, seguir-se-á grandioso dano naqueles que viverão no seu tempo, e a nós não será dada a glória pelo mérito que poderíamos ter ao restaurar grande parte dos danos que o Anticristo causaria se, antes de sua chegada, não se fizer a preparação..." (p. 33).

"O Anticristo será um rei muito poderoso no mundo e ofertará de diversas maneiras dons aos homens para que caiam em erros. Um desses falsos dons será a liberdade, considerada como um hábito da vontade que se encontraria mortificada pela Fé, pela Esperança, pela Caridade, pela Justiça, pela Prudência, pela Fortaleza e pela Temperança. Desta maneira estariam mortificados os atos das virtudes que serão declinados pela privação e exaltados pelos atos pecaminosos, pelos vícios e pelos hábitos das potências da alma. A oferta de dons do Anticristo terá como resultado a privação da liberdade para entender, amar e lembrar, e por isso o entendimento terá mais fortemente como objeto a imaginação das coisas sensuais do que à Caridade, à Justiça e às coisas intelectuais. E a lembrança terá como objeto muito mais as coisas e as prosperidades deste mundo do que a Bem-Aventurança do século futuro. Desta forma poder-se-á repreender ao Anticristo pelos seus dons, devido à má obra consequente contra o ato das Dignidades Divinas e das virtudes criadas; tal será a obra contra os Princípios pelos quais o homem é criado, recriado e sustentado neste mundo e no outro. Assim será demonstrado que o Anticristo não será Deus, nem profeta, nem filho da Caridade e da Justiça.

Juntamente com os dons que ofertará o Anticristo, convém lembrar que os dons que ofertou neste mundo nosso Senhor Jesus Cristo, pois o Anticristo dará terras, cavalos, vestidos, cidades, castelos e outras coisas semelhantes a estas, mas não dará Fé, Esperança, Caridade, etc., e nem dará a si mesmo coisas como pobreza, humildade, paciência, tormentos e morte, por amor e salvação de seu povo. Nosso Senhor Jesus Cristo deu pobreza, humildade, justiça, caridade, paciência, etc., para recriar-nos e por seus dons, que foram dons de Si mesmo, deu-nos atos de Fé, Esperança, Caridade, etc. Por isso, comparando-se os dons que Jesus Cristo nos deu, segundo a celestial Bem-aventurança, com os que ofertará o Anticristo, que serão contrários à vida eterna, poder-se-á vencer o Anticristo e seus dons, por esta contrariedade (pp. 95-96).

Aos homens que acreditarem nele (no Anticristo) e o adorarem como a um deus, prometerá muitas coisas neste mundo e no outro, pois aos homens que amarem as bondades temporais prometerá saúde, vida longa e filhos, satisfação dos trabalhos que tenham empreendido e muitas coisas semelhantes a estas. E aos homens que amarem a glória celestial, prometer-lhes-á dar conhecimento da Unidade e Trindade de Deus e da Encarnação e união da natureza incriada e criada, e prometerá muitas outras coisas que convém à glória de Deus; pois o Anticristo será contra a verdade da divina Unidade e Trindade e da Encarnação e, por isso, suas promessas serão realizadas de outra maneira, de tal modo que será coisa impossível ao homem dar glória a Deus. Por isso pode o Anticristo ser contrariado em suas promessas mediante a verdade significada pelos Princípios da Glória que os bem-aventurados darão à Unidade, Trindade e Encarnação de Deus.

Jesus Cristo prometeu por meio das virtudes gloriosas, e o Anticristo prometerá por meio dos vícios, bem-aventuranças neste mundo e a glória no outro. Jesus prometeu maior glória através da pobreza do que da riqueza e quis que seus apóstolos e discípulos fossem pobres. O Anticristo fará o contrário, pois tornará ricos e bem-aventurados neste mundo àqueles que nele crerem e obedecerem. Assim, da mesma forma que Jesus Cristo prometeu fortemente a Bem-aventurança no outro século o Anticristo fará o contrário, e é por isso que o Anticristo prometerá vencer, confundindo o que nosso Senhor Jesus Cristo prometeu, como se as promessas do Anticristo fossem contrárias aos atos das Dignidades Divinas e às virtudes criadas, e tudo o que Jesus Cristo lhes prometeu será concordante" (pp. 97-98).

"O Anticristo atormentará e matará os homens que o contestarem e que não crerem nele. Ora, Jesus Cristo sofreu tormentos para que o povo acreditasse n'Ele e Lhe obedecesse. O Anticristo matará impassivelmente homens, enquanto Jesus Cristo pacientemente sofreu dores muito graves e morte vergonhosa. O Anticristo ameaçará tão terrivelmente os homens que lhes tirará a caridade, multiplicando o temor à caridade e à justiça; Jesus Cristo, no entanto, predicou humildemente a caridade, por isso, os hábitos da liberdade, do temor e da caridade concordarão entre si, compreendendo-se a morte e os tormentos que Cristo padeceu. Os tormentos e as mortes que o Anticristo produzirá podem ser efetivamente reprendidos por suas mesmas obras.

Foi demonstrado que é mais conveniente Jesus Cristo ser Deus do que o Anticristo. Dirá o Anticristo que ele é Deus, mas mostrará por suas obras que ele não o é. Por isso matará os homens que não acreditarem nele, dando a entender que não voltará a morrer por amor ao homem. Por este motivo o Anticristo morrerá por morte não natural, demonstrando assim que não é Deus, pois se o fosse, iria à morte pacificamente e não coagido. [...] A morte horripilante, o temor e os tormentos que fará desabar sobre os homens serão enormes. Conforme a pregação que nosso Senhor realizou na Montanha das Bem-Aventuranças, não pediu que os homens se matassem, mas que se convertessem e se esperasse a sua conversão e, além disto, quis garantir a liberdade nos atos virtuosos, sem coagi-los por meio de tormentos, nem matando pessoas, por isso, o Anticristo poderá ser confundido nas suas obras, precisamente pelos tormentos que realizará nas pessoas" (pp. 99-100).


"Sermão e atos do anticristo" (1499-1502), de Luca Signorelli

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