5.6.17

Dietrich von Hildebrand sobre o amor entre o homem e a mulher

Excertos de HILDEBRAND. O amor entre o homem e a mulher. Trad. Carlos Nougué. Campo Grande/MS e Nova Friburgo/RJ: Co-Redentora, 2002.

"O amor entre o homem e a mulher não é uma invenção romântica dos poetas, mas um fator extraordinário na vida humana desde o início da história da humanidade, a fonte de felicidade mais intensa na vida humana terrestre. Dele diz o Cântico dos Cânticos: 'Se por amor um homem desse todos os bens da sua casa, haveria de desprezá-los como a bagatelas'. Com efeito, só este amor é a chave para uma compreensão da verdadeira natureza do sexo, do seu valor e do mistério que personifica" (p. 14).

"O amor [em geral] é uma resposta a uma pessoa que nos comoveu o coração pelo belo e precioso da sua personalidade. O amor é uma resposta ao valor" (p. 15).

"A resposta que damos à preciosidade e beleza do ente amado manifesta-se no desejo de união com ele, a intentio unionis, e no interesse pela sua felicidade ou bem-estar, a intentio benevolentiae" (p. 15).


"[...] este enriquecimento do universo resultante da diferença complementar entre homem e a mulher, só poderá desenvolver-se se entre eles reinar uma atmosfera de respeito e reverência. Só se mantém certa distância, franqueável unicamente no casamento sem no entanto sacrificar-se o respeito e a reverência, é que este enriquecimento mútuo se dá. [...] Tão logo uma espécie de camaradagem tediosa domine a relação entre os dois sexos, tão logo a mera presença de uma pessoa do sexo oposto já não reclame da nossa parte um comportamento diferente, ou tão logo a relação com o outro sexo se impregne de comodismo e se verifique uma incursão na sensualidade extraconjugal, necessariamente nos tornamos cegos à dádiva desta dualidade -estamos, então, embotados para ela" (p. 18).

"[...] o autêntico estar apaixonado é uma feliz e desperta condição da alma. Torna-nos mais atentos para o mundo inteiro dos valores; vive-se então em estado mais autêntico, como admiravelmente escreveu Platão, em Fedro" (p. 19).

"Tão logo um homem experimenta um amor verdadeiro, real, uma aventura feliz como é todo e qualquer amor, vê-se que se liberta das malhas do egoísmo, que se torna generoso, que supera a sua própria insignificância. Com efeito, não é senão no amor que se vive verdadeiramente" (p. 20).

"No amor conjugal, o corpo da pessoa amada assume um encanto especial, como o receptáculo da sua alma, e também personifica, de modo único, o encanto comum e a atração que a feminilidade tem para o homem, ou a virilidade para a mulher. O amor conjugal aspira a uma união física, como a uma realização específica da união total, como a uma singular, profunda e recíproca autodoação. Se se ama alguém com este amor, compreende-se então o mistério da união física, e anseia-se por ela, porque se ama a alguém.

Aqui a disposição física para o sexo, a sensualidade em sentido positivo, é claramente apreendida na sua função instrumental. O seu verdadeiro significa é tornar-se uma expressão do amor conjugal e uma realização da almejada união" (p. 21).

"Para o amante, a pessoa amada é o tema; a mais íntima e profunda união com ela constitui o desejo fundamental; e todo o encanto e deleite que a esfera sexual personifica, a atração do sexo oposto, estão indissoluvelmente vinculados à união com a pessoa amada" (p. 22).

"O sexo tem um caráter misterioso, algo irradiante, na vida psíquica, o qual nem o desejo de comer nem o prazer que a satisfação desse desejo proporciona têm. O êxtase sexual atinge principalmente o cerne da nossa existência física" (p. 22).

"[...] é característico do sexo incorporar-se às experiências de ordem superior, que são puramente psicológicas e espirituais [...]. Demonstra-se suficientemente a profundidade singular do sexo pelo simples fato de que diante dele a atitude de qualquer homem tem significação incomparavelmente maior para a sua personalidade do que diante dos demais apetites físicos.

A esfera do sexo, além disso, tem também caráter de intimidade, que nenhum dos outros instintos tem. [...] Em certo sentido, o sexo é o segredo do indivíduo. Cada manifestação do sexo é a relação de algo íntimo e pessoal..." (p. 23) 

"Almejando uma união física com a pessoa amada, compreende-se claramente a intimidade única desta esfera" (p. 23).

"[...] para amar verdadeiramente, é preciso aprender a fazê-lo" (p. 34).

"Quando se compreende que uma completa expressão emocional não é de modo algum incompatível com a atividade espiritual, e que no homem existem três centros espirituais -intelecto, vontade e coração- como corretamente mostrou Haecker, já não há nenhum motivo para aderir a uma interpretação do amor que o transforme em ato de vontade, como frequentemente mais indevidamente sucede. Outrora, acreditava-se ser necessário converter o amor em ato de vontade a fim de preservar-lhe a espiritualidade. O amor, todavia, é clara e indubitavelmente uma resposta do coração" (p. 37; grifos do autor) 

[Nota: pessoalmente entendo que o "coração" é, mais do que uma "terceira" faculdade somada ao intelecto e à vontade, a unidade superior de ambos, em que a realidade conhecida intelectualmente e desejada volitivamente é alcançada, havendo então um conhecimento por intimação e uma adesão por comunhão; se para a inteligência a realidade é "forma"/"verdade" e para a vontade é "fim"/"bem", se para a primeira ela é conhecida de modo abstrato e para a segunda ela é querida de modo distante, para o coração é o próprio "coração" da realidade em sua pulcritude -como entendo o que DvH chama de "valor"- que é atingido; aqui estamos a milhas de distância de qualquer concepção romântica, gnóstica ou irracionalista, de alguma espécie de "fusão" ou algo que o valha; trata-se simplesmente da experiência que Zubiri chama "compenetração", que é o modo de conhecimento tipicamente interpessoal, um análogo da "pericorese" trinitária].


"A felicidade é uma consequência do amor, nunca o seu motivo. Quando alguém é amado, ele é um fim em si mesmo e, por certo, não um meio para algo mais. Por conseguinte, é da essência do amor, onde quer que se encontre, que o ente amado se mostre precioso, belo e digno de amor [...] O amor é uma resposta ao valor (o "importante em si mesmo"). (p. 40; grifos meus).

"Em todo o amor, o sujeito movimenta-se espiritualmente, por assim dizer, na direção do ente amado a fim de o 'encontrar'; em todo o amor notamos este gesto de 'apressar-se' na direção da pessoa amada" (p. 44).

"Não obstante, a missão do amor -alcançar a união- não se limita ao poderoso movimento na direção da pessoa amada. Implica igualmente uma abertura de si mesmo, o compartilhar a sua vida espiritual com o outro, ocorrência que não se verifica senão no amor" (p. 45).

"Quando alguém ama, e tão somente então, é que admite tal acesso a ele próprio; só então é que se verifica aquela genuína 'doação' de si mesmo, das profundezas do seu ser" (p. 45).

"A intentio benevolentia [...] envolve um interesse todo especial pelo que é importante para a outra pessoa -a sua felicidade e o seu destino" (p. 45).

"Que todavia a felicidade da outra pessoa deva ser de grande interesse, isto absolutamente não é óbvio, mas é exclusivamente uma consequência do amor" (p. 45).

""A intentio benevolentia [...] revela a disposição de zelo que se tem para com o outro. [...] É um sopro da bondadev pelo qual, no ato de amar, alguém faz de si mesmo uma dádiva totalmente única e inestimável" (p. 45).

"Sem embargo, se a intentio unionis de modo algum se pode compreender como desejo de fusão, tampouco pode a doação do eu (como intentio benevolentiae) interpretar-se como doação ontológica do próprio eu. A individualidade das pessoas é objetivamente mantida em ambos os casos" (p. 46).

"Antes, o ato de doação faz com que a pessoa seja mais verdadeiramente ela própria" (p. 47).

"Encontra-se um dos mais representativos sinais do amor genuíno sempre que as qualidades meritórias da outra pessoa se vejam como realmente suas, como típicas dela, ao passo que os seus defeitos se vêem como inusitados desvios de seu verdadeiro eu" (p. 47).

"[...] o amor responde à imagem de Deus (a imago Dei) no outro, vendo-o à luz daquela semelhança com Deus (a similitude Dei) que um dia lhe deverá pertencer. Longe de considerar os desvalores qualitativos com parte de sua personalidade, este amor os vê como uma traição à nobre essência da imago Dei" (p. 48).

"O amor torna-nos sensíveis às faltas do outro, porque a beleza da sua personalidade está presente como um todo no nosso espírito. Para nós, por conseguinte, é de máxima importância que permaneça fiel ao que é verdadeiramente, e que o seu eu real se manifeste por completo" (p. 48).

"O amor faz acreditar somente no melhor da outra pessoa" (p. 49).

"Papa Pio XII: 'O sobrenatural não destrói, por sublimação, nem altera o que é natural. Ao contrário, glorifica-o e conduz à perfeição" (p. 53).

"Ao dizermos que é preciso aprender a amar, quisemos dizer, especificamente, que sempre convém nos esforcemos por deixar a caridade permear-nos o amor" (p. 54).

"Só nos empenhando permanentemente em prescrutar o mais profundo e, deste modo, alcançar a Cristo e à realidade última, é que podemos, constantemente, ter esperança de aprender a amar de verdade. Só continuando a considerar a pessoa que amamos e o seu amor por nós como dádivas gratuitas -e isto com profunda gratidão, nunca as tomando por fato consumado- é que podemos alcançar o verdadeiro amor" (p. 54).

"É só no amor que a pessoa humana desperta totalmente, é só no amor que alcança a transcendência a que é chamada" (p. 55).

"[...] vem à baila uma comum, ainda que radicalmente errônea, concepção do homem. Ela tenta compreender o homem partindo de baixo, da semelhança animal, em vez de ver nele a imagem de Deus, e, consequentemente, considera que no homem os aspectos mais intrínsecos e mais reais são tudo quanto se possa liar à esfera físico-biológica. Tenta interpretar os atos espirituais - amar, querer, sentir saudade ou entusiasmo etc. - como meros impulsos, ainda que altamente desenvolvidos..." (p. 58)

"[...] a diferença entre o homem e a mulher não somente é de ordem biológica, mas traduz dois diferentes tipos originais da pessoa espiritual que é o ser humano" (p. 59).

"Iríamos demasiado longe se aqui enumerássemos em pormenor todas as particularidades espirituais quer da pessoa feminina, quer da masculina. Na mulher, a específica fusão orgânica do coração e da mente, dos centros afetivo e intelectivo, a unidade de toda a sua natureza, a delicadeza e a receptividade de todo o seu ser, a precedência do ser como personalidade sobre as realizações objetivas; no homem a específica capacidade de desvincular a mente de toda a sua vitalidade, a habilidade para a objetividade pura que o predestina aos cargos oficiais, a específica adequação à eficiência e à realização de trabalhos objetivos, a clareza, a força, a determinação. Estas diferenças marcam os dois sexos na sua própria e respectiva natureza peculiar" (p. 61).

"O contato espiritual entre o homem a mulher tem também uma missão positiva, a saber, a singular emulação e fecundação espiritual. Em ambos, este contato faz emergir virtudes particulares que de outro modo permaneceriam pouco desenvolvidas. A atitude cavalheiresca desperta no homem um maior domínio de si mesmo, uma posição mais humilde, maior delicadeza e pureza, certo enternecimento e vitalização da sua natureza. Com a mulher, por outro lado, sucede um alargamento do intelecto, um fundamento mais amplo, e mais vinculado à causa primária, para a percepção de valores, uma nobre reserva, por um lado e específicos fervor e dedicação, por outro" (p. 63).

"O homem fará mais pela transformação espiritual de uma mulher, assim como a mulher o fará com relação a um homem" (p. 63).

"A transcendência da pessoa, ou seja, a sua capacidade de amoldar-se a um objeto, ou a um tu, de apreender-lhe a natureza, de responder-lhe ao valor, de interessar-se naquilo, ou nele, por sua própria causa (propter ipsum), de superar a si mesmo e a todas as suas tendências e necessidades intrínsecas, constitui o traço característico mais profundo de uma pessoa" (p. 73).

"No amor, a pessoa amada é inteiramente temática: amando-a, tomamo-la inteiramente a sério como pessoa, e de maneira nenhuma como meio para alguma outra coisa. Jamais o interesse pela minha própria felicidade pode motivar-me o amor. A união com o ente amado não é deleitosa senão porque lhe temos amor. A felicidade é uma consequência do amor, mas nunca a sua razão e o seu motivo" (p. 75; grifos do autor).

"[...] quando analisamos integralmente as mais altas formas de experiência afetiva -como a alegria pela conversão de um pecador, ou a admiração por uma nobre ação moral, ou o entusiasmo por uma grande obra de arte, ou a veneração por uma grande e nobre personalidade -vemos nitidamente que estas respostas afetivas possuem todas as marcas de espiritualidade que caracterizam como espirituais a convicção ou um ato de vontade. Têm a mesma relação significativa e inteligível para com o seu objeto; são uma adaequatio do nosso coração ad valorem, numa rigorosa analogia com a adaequatio intellectus ad rem no conhecimento" (p. 75).

"[...] Sejamos existenciais; vejamos que o amor entre o homem e a mulher é uma categoria e um tipo de amor específicos, que é uma realidade bela e gloriosa, destinada pela vontade de Deus a desempenhar missão fundamental na vida do homem, e que este amor é o motivo normal para o casamento; que o casamento é justamente a realização deste amor" (pp. 77-78).



"As bodas de Caná" (c. 1500), de Gerard David

Nenhum comentário: