Como alguns amigos me pediram dicas
sobre como estudar ou que itinerário seguir para aprender Filosofia, seguem
algumas considerações e uma bibliografia.
I) Considerações sobre Filosofia,
Ciência e Teologia
Para estudar filosofia você deve ter um
conceito, uma definição nominal, a respeito do que busca. Eu diria, seguindo a
Zubiri, que filosofia é "metafísica" ou estudo da totalidade do real.
"Metafísica" aqui não é
"estudo de realidade transcendentes ou suprassensíveis" mas do
"transcendental", que não é o que está "além", mas o que
"perpassa todas as coisas". Pode (e deve) nos levar ao Fundamento
Transcendente e ajudar a Teologia.
As Ciências (modernas) são as antigas
"filosofias segundas" (Aristóteles) que se dedicam aos seres ou entes
particulares ou a regiões particulares do ser, com um peculiar método
(matemático-experimental/observacional).
E a Teologia é mais do que a
Filosofia/Metafísica, porque ela se debruça (com a necessária ajuda da razão
filosófica e podendo também ter o apoio dos dados das ciências) sobre os mistérios revelados
(Trindade, Encarnação, Pecado, Redenção etc.) que não estão ao alcance da razão
natural, mas somente à mesma razão iluminada pela virtude teologal da fé e os
dons intelectuais do Espírito Santo (a fé não se sobrepõe à razão, mas a eleva;
não é um "órgão" acrescentado, mas um "hábito" que aumenta
a capacidade racional natural; quem não a tem não pode entender a Teologia).
Filosofia, aprofundando, é o estudo
dos "princípios primeiros da realidade". Todo filósofo tem que fazer
isso. E nesse sentido, todo filósofo é metafísico. Mas a Filosofia se constitui
na busca desse Fundamento ou Princípio.
"Mas Nietzsche nega a
metafísica!"
Nietzsche nega a metafísica que
coloca o Fundamento no Deus transcendente (filosofia medieval) ou na Razão ou
Sujeito transcendental (modernidade). Mas a "Vontade de Potência"
perpassa todas as coisas e assim é o "fundamento" nietzschiano da totalidade do
real. Para Marx é a matéria e o conflito; para a filosofia analítica é a
linguagem; para a hermenêutica pós-moderna é o texto, etc.
TODA FILOSOFIA É METAFÍSICA: a
Gnosiologia é "metafísica do conhecimento" (o que é conhecer a
verdade sob todo conhecimento concreto); a Ética é "metafísica da
ação" (o que é agir bem em qualquer circunstância); a Filosofia da Arte é
"metafísica da produção" (artística ou técnica).
A Metafísica por excelência é o
estudo da realidade primeira ou "arché" ou fundamento:
"physis" (jônios)?, "número" (pitagóricos)?,
"devir" (Heráclito)?, "átomo" (Demócrito)?,
"Ideia" (Platão)?, "substância" (Aristóteles)? etc.
A filosofia medieval é uma abstração
que se deve realizar no afazer teológico (como indicou Étienne Gilson): os
intelectuais (cristãos, judeus e árabes) da Idade Média refletiram
filosoficamente a partir de conceitos gregos para justificar suas
"revelações" (sic). Mas realizaram verdadeiros engrandecimentos da
filosofia.
II) Bibliografia básica
Deve-se começar pelo começo. E isto
significa por Sócrates. Os "pré-SOCRÁTICOS" só são filósofos porque
sua atividade redundou em Sócrates, como diz Julián Marías (a partir de Hegel
são sobrevalorizados por motivos ideológicos).
Entendendo ou assumindo o dito supra,
pode-se começar diretamente pelos textos socráticos de Platão, que são
acessíveis, diretos, com temas interessantes; assim somos inseridos no discurso
filosófico pelo filósofo mais fundamental. Ademais são textos curtos e nós
experimentamos a alegria de avançar! Ensinam-nos a necessária busca de razões e de expressão rigorosa, lógica, do pensamento.
1) Apologia de Sócrates - defesa que
ele faz no seu julgamento (aparecem o o "só sei que nada sei" e o
"conhece-te a ti mesmo" em seus contextos)
2) Críton - questionamento sobre o
"dever"
3) Eutífron - questionamento sobre a
"piedade" (religiosidade)
4) Livro I de A República -
questionamento sobre a "justiça"
Depois alguns textos de Platão e
Aristóteles (não se choque com algumas opiniões estranhas; eles eram sábios mas
não conheciam a Revelação):
5) Livro I de Ética a Nicômaco (A) -
apresentação do problema ético ao modo clássico: o problema antropológico ou do
que é que faz o homem ser humano
6) Livro I de Política (A) -
apresentação do problema político ao modo clássico (a questão do "bem
comum")
7) Fédon (P) - sobre a imortalidade
da alma
8) Banquete (P) - sobre o amor
Depois alguns textos medievais mais
acessíveis de Agostinho e Tomás:
9) A vida feliz (A)
10) S.Th. I, q. 85 - sobre o
conhecimento humano (acostume-se com o método da quaestio: primeiro Tomás
apresenta argumentos contrários ao que ele defenderá; depois sua tese e as
respostas às objeções supra; num primeiro momento, comece sempre pelas soluções
para não se confundir)
11) Livro II de O livre-arbítrio (A)
- prova da existência de Deus pela verdade
12) Livro VII de As Confissões -
sobre o problema do mal (resposta ao maniqueísmo, que é uma espécie de gnose dualista)
13) S. Th. I-II, qq 90-95 - sobre a
Lei (Eterna, Natural e humana)
Depois, leia algumas obras
sistemáticas e históricas que poderão dar uma visão geral:
14) A parte histórica de Fundamentos de filosofia: lições preliminares (Manuel García
Morente) - para entender bem a diferença fundamentalíssima entre "realismo"
clássico (o ser funda a verdade) e "idealismo" moderno (a verdade
forjada pela mente é a medida do ser); vc terá uma boa e clara visão sobre
Kant, o autor moderno mais fundamental, que Morente apresenta da forma mais
didática que conheço
15) História da Filosofia de Julián Marías - é sumária e só vai até Ortega y Gasset e a "Escola de Madri", mas é bem razoável e
é filosófica [vá lendo paralelamente ao que se segue]
16) El pensamiento de Santo
Tomás (Frederick Coplestone) - de acordo com seu interesse, escolha
alguns capítulos para ler (mas não perderá tempo se ler o livro todo!)
17) O capítulo sobre "sociedade
cristã" de Introdução ao estudo de Santo Agostinho (Étienne
Gilson) - para compreender a que considero a melhor perspectiva política cristã
(se quiser, vá em frente e leia outros capítulos)
18) Encíclica Fides et Ratio (S. João Paulo II) -
para entender a relação fé e razão (Wojtyla, além de santo, é bom filósofo)
19) A psicologia da fé e o problema
de Deus (Pe. Leonel Franca) - boa explanação do problema filosófico fundamental
Antes ainda de encarar a modernidade,
leia algumas obras para aprofundar o sentido da vida filosófica e a filosofia
clássica (e releia o Morente até ficar bem claro o assunto do idealismo):
20) A vida intelectual (Pe.
Sertillanges) - passe os olhos no sumário e leia o que lhe chamar a atenção
21) O espírito da filosofia medieval
(Gilson) - leia pelo menos os dois primeiros capítulos (sobre a noção de
filosofia cristã) e veja os capítulos que lhe interessam mais
22) A perspectiva cristã (Julián
Marías) - leia todo
23) Parte de filosofia antiga da
Historia da Filosofia de Reale e Antiseri - a parte de antiga desta obra é boa;
leia se quiser complementar alguma lacuna do Marías [se depois quiser
aprofundar mais ainda em filosofia antiga veja os tomos de Filosofia Antiga do
Reale]
24) O livro do Enrico Berti sobre a
Metafísica de Aristóteles
25) A filosofia na Idade Média
(Gilson) - veja o sumário e escolha o que lhe chamar a atenção; mas não deixe
de ler sobre os padres gregos (para ver uma perspectiva distinta da teologia) e
sobre Escoto e Ockham (para entender a dobradiça com a Modernidade)
26) Introdução às artes do belo
(Gilson) - veja o sumário e se introduza às concepções clássicas sobre o belo
("kalologia") e a arte
27) O livro das Eneadas de Plotino
que fala do Belo (é efetivamente bonito)
28) Opcionais místicos: Itinerário da mente a Deus de S. Boaventura; Tratado da
Santíssima Trindade de Ricardo de São Vítor (encontrará partes em
português no site "cristianismo.org")
Encaremos os modernos:
29) A liberdade do cristão e Da autoridade temporal de Lutero
30) Discurso do Método de Descartes
(a 4a parte é um resumo das Meditações Metafísicas) - se conseguir ler a 5a
parte (provavelmente o texto mais chato já escrito por alguém, sobre a
circulação do sangue), vc é um mártir do pensamento!
31) Capítulos I e XVII-XVIII de O Leviatã de Hobbes - para compreender o empirismo sensualista e o Estado Moderno
32) Espinosa de
Roger Scruton (bem didático e correto) - para entender a origem do panteísmo
moderno
33) Capítulos I-VIII de Do Contrato
Social de Rousseau - para entender a origem do totalitarismo
34) Releia a parte do idealismo
alemão do Morente e encare a Parte I do Hegel de Charles Taylor - parece-me a introdução mais didática ao filósofo alemão, que faz a dobradiça com o pensamento contemporâneo (mostra a articulação
do iluminismo, do cristianismo, da grecidade e do romantismo na obra hegeliana)
35) Volte no tempo e leia o capítulo
sobre Nicolau de Cusa em Indivíduo e Cosmos no Renascimento de
Ernst Cassirer (vc verá que muito está lá...)
36) Leia a Monadologia de Leibniz (mais fácil de entender após ler Cusa)
* Por enquanto, continue se
contentando com o Kant do Morente...
* Leia concomitantemente algum livro
que possa lhe dar uma ideia geral da Ciência moderna, como o Dança do
Universo do Marcelo Gleiser
Pós-modernos (pós-hegelianos):
37) Leia o Capítulo I de A essência do cristanismo de Feuerbach - para entender o ateísmo contemporâneo
38) Leia a Introdução à Crítica
da Filosofia do Direito de Hegel de Marx, para entendê-lo por ele mesmo
(está curiosamente no final da edição; passe por alto os dados da cultura
alemã, se for o caso) - veja também como a tática política deste sociólogo e
economista se universalizou (é a mesma com a qual a esquerda brasileira foi
derrotada pela "nova direita")
39) Leia a "Primeira Dissertação" de A genealogia da moral de Nietzsche - para entender a origem do
relativismo atual e a redução do moral ao biológico ou vital operada pelo filólogo alemão
40) Leia O mal-estar da
civilização de Freud - para entender a perspectiva psicanalítica do médico austríaco
* Releia a parte do Morente sobre a
fenomenologia como tentativa de recuperar a relação da consciência com a
realidade objetiva
41) Leia A ideia da fenomenologia (Husserl) - síntese muito mais acessível que Investigações lógicas
42) Leia o capítulo sobre Wittgenstein e Heidegger na Primeira Parte de A transformação da filosofia de Karl Otto Apel
43) Veja o sumário de O discurso filosófico da modernidade do Habermas e escolha alguns capítulos (por exemplo, Foucault)
44) Leia O fim da
modernidade de Gianni Vatimmo - é um pós-moderno que escreve que nem
gente e explica direitinho o assunto, sem chamar o nihilismo de "meu
louro"
45) Veja o sumário e leia os
capítulos que lhe interessarem de O que é ser conservador de Roger
Scruton - embora conservador britânico pragmático, o autor é generoso e explica
com objetividade os prós e contra dos vários espectros ideológicos de direita e
esquerda [se quiser uma visão da estética mais atualizada leia o seu
Beleza]
* * *
Complemente com leituras de filósofos
contemporâneos que são pontos fora da curva:
46) Natureza, História,
Deus de Xavier Zubiri (olhe o sumário e escolha; não deixe de ler
"Em torno do problema de Deus" e o texto sobre São Paulo e os padres
gregos)
47) El corazón de Dietrich
von Hildebrand - um bom livro sobre o tema esquecido do "sentimento"
enquanto ato espiritual
48) Do mesmo autor, O amor
entre o homem e a mulher - tema importantíssimo na cultura atual e
tratado com maestria por um filósofo que certamente se santificou no casamento
e pela vida intelectual profunda [vc ganhará muito se ler seu tratado
espiritual chamado Nossa transformação em Cristo]
49) Antropologia
metafísica de Julián Marías - provavelmente o melhor livro de
antropologia filosófica já escrito
50) El hombre y Dios de
Zubiri - na minha opinião o livro mais importante de quem considero o filósofo
mais profundo do século XX (tem um resumo de sua filosofia na primeira parte)
* Escolha livros de Ratzinger e os
leia à vontade (o homem mais inteligente do século e um dos mais amorosos; ele realiza um diálogo profícuo entre teologia, filosofia e ciência)
PS: se quiser, vc poderá ler o Kant, vida e doctrina de E. Cassirer; e aí vc entenderá melhor o que
veio depois...
"Filosofia" (1484-93), de Antonio del Pollaiuolo

2 comentários:
Três perguntas, com sua licença:
1) Que é necessário saber antes de começar esse itinerário (que capacidades o senhor pressupôs dos leitores que seguirão o itinerário)? Particularmente, tive uma educação débil e tenho algumas dificuldades de interpretação, principalmente se se trata de raciocínio lógico-matemático.
2) Há algo a acrescentar no itinerário, agora que se passaram 2 anos?
3) Observei que não há nenhum manual de lógica nas listas. Não é necessário estudá-la nesse primeiro momento?
Agradeço pelo itinerário. Tomarei o senhor como meu mestre. Deus o abençoe.
Perdão pelo atraso. Demorei a ver as perguntas... Seguem as respostas:
1) Eu pressupus uma certa maturidade intelectual que incluía um razoável conhecimento e domínio da lógica formal aristotélico-porfiriana, e uma boa capacidade imaginativa.
2) É possível, mas preciso realizar a revisão.
3) Vide 1. O manual do Maritain ("Introdução Geral à Filosofia", vol. 2) é suficiente para suprir as carências, num primeiro momento.
Um abraço!
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