26.5.17

Itinerário para estudo de Filosofia

Como alguns amigos me pediram dicas sobre como estudar ou que itinerário seguir para aprender Filosofia, seguem algumas considerações e uma bibliografia.


I) Considerações sobre Filosofia, Ciência e Teologia


Para estudar filosofia você deve ter um conceito, uma definição nominal, a respeito do que busca. Eu diria, seguindo a Zubiri, que filosofia é "metafísica" ou estudo da totalidade do real.

"Metafísica" aqui não é "estudo de realidade transcendentes ou suprassensíveis" mas do "transcendental", que não é o que está "além", mas o que "perpassa todas as coisas". Pode (e deve) nos levar ao Fundamento Transcendente e ajudar a Teologia.



As Ciências (modernas) são as antigas "filosofias segundas" (Aristóteles) que se dedicam aos seres ou entes particulares ou a regiões particulares do ser, com um peculiar método (matemático-experimental/observacional).


E a Teologia é mais do que a Filosofia/Metafísica, porque ela se debruça (com a necessária ajuda da razão filosófica e podendo também ter o apoio dos dados das ciências) sobre os mistérios revelados (Trindade, Encarnação, Pecado, Redenção etc.) que não estão ao alcance da razão natural, mas somente à mesma razão iluminada pela virtude teologal da fé e os dons intelectuais do Espírito Santo (a fé não se sobrepõe à razão, mas a eleva; não é um "órgão" acrescentado, mas um "hábito" que aumenta a capacidade racional natural; quem não a tem não pode entender a Teologia).


Filosofia, aprofundando, é o estudo dos "princípios primeiros da realidade". Todo filósofo tem que fazer isso. E nesse sentido, todo filósofo é metafísico. Mas a Filosofia se constitui na busca desse Fundamento ou Princípio.


"Mas Nietzsche nega a metafísica!"


Nietzsche nega a metafísica que coloca o Fundamento no Deus transcendente (filosofia medieval) ou na Razão ou Sujeito transcendental (modernidade). Mas a "Vontade de Potência" perpassa todas as coisas e assim é o "fundamento" nietzschiano da totalidade do real. Para Marx é a matéria e o conflito; para a filosofia analítica é a linguagem; para a hermenêutica pós-moderna é o texto, etc.


TODA FILOSOFIA É METAFÍSICA: a Gnosiologia é "metafísica do conhecimento" (o que é conhecer a verdade sob todo conhecimento concreto); a Ética é "metafísica da ação" (o que é agir bem em qualquer circunstância); a Filosofia da Arte é "metafísica da produção" (artística ou técnica).


A Metafísica por excelência é o estudo da realidade primeira ou "arché" ou fundamento: "physis" (jônios)?, "número" (pitagóricos)?, "devir" (Heráclito)?, "átomo" (Demócrito)?, "Ideia" (Platão)?, "substância" (Aristóteles)? etc.


A filosofia medieval é uma abstração que se deve realizar no afazer teológico (como indicou Étienne Gilson): os intelectuais (cristãos, judeus e árabes) da Idade Média refletiram filosoficamente a partir de conceitos gregos para justificar suas "revelações" (sic). Mas realizaram verdadeiros engrandecimentos da filosofia.


II) Bibliografia básica



Deve-se começar pelo começo. E isto significa por Sócrates. Os "pré-SOCRÁTICOS" só são filósofos porque sua atividade redundou em Sócrates, como diz Julián Marías (a partir de Hegel são sobrevalorizados por motivos ideológicos).


Entendendo ou assumindo o dito supra, pode-se começar diretamente pelos textos socráticos de Platão, que são acessíveis, diretos, com temas interessantes; assim somos inseridos no discurso filosófico pelo filósofo mais fundamental. Ademais são textos curtos e nós experimentamos a alegria de avançar! Ensinam-nos a necessária busca de razões e de expressão rigorosa, lógica, do pensamento.


1) Apologia de Sócrates - defesa que ele faz no seu julgamento (aparecem o o "só sei que nada sei" e o "conhece-te a ti mesmo" em seus contextos)
2) Críton - questionamento sobre o "dever"
3) Eutífron - questionamento sobre a "piedade" (religiosidade)
4) Livro I de A República - questionamento sobre a "justiça"


Depois alguns textos de Platão e Aristóteles (não se choque com algumas opiniões estranhas; eles eram sábios mas não conheciam a Revelação):


5) Livro I de Ética a Nicômaco (A) - apresentação do problema ético ao modo clássico: o problema antropológico ou do que é que faz o homem ser humano

6) Livro I de Política (A) - apresentação do problema político ao modo clássico (a questão do "bem comum")
7) Fédon (P) - sobre a imortalidade da alma
8) Banquete (P) - sobre o amor


Depois alguns textos medievais mais acessíveis de Agostinho e Tomás:

9) A vida feliz (A)

10) S.Th. I, q. 85 - sobre o conhecimento humano (acostume-se com o método da quaestio: primeiro Tomás apresenta argumentos contrários ao que ele defenderá; depois sua tese e as respostas às objeções supra; num primeiro momento, comece sempre pelas soluções para não se confundir)
11) Livro II de O livre-arbítrio (A) - prova da existência de Deus pela verdade
12) Livro VII de As Confissões - sobre o problema do mal (resposta ao maniqueísmo, que é uma espécie de gnose dualista)
13) S. Th. I-II, qq 90-95 - sobre a Lei (Eterna, Natural e humana)


Depois, leia algumas obras sistemáticas e históricas que poderão dar uma visão geral:



14) A parte histórica de Fundamentos de filosofia: lições preliminares (Manuel García Morente) - para entender bem a diferença fundamentalíssima entre "realismo" clássico (o ser funda a verdade) e "idealismo" moderno (a verdade forjada pela mente é a medida do ser); vc terá uma boa e clara visão sobre Kant, o autor moderno mais fundamental, que Morente apresenta da forma mais didática que conheço
15) História da Filosofia de Julián Marías - é sumária e só vai até Ortega y Gasset e a "Escola de Madri", mas é bem razoável e é filosófica [vá lendo paralelamente ao que se segue]
16) El pensamiento de Santo Tomás (Frederick Coplestone) - de acordo com seu interesse, escolha alguns capítulos para ler (mas não perderá tempo se ler o livro todo!)
17) O capítulo sobre "sociedade cristã" de Introdução ao estudo de Santo Agostinho (Étienne Gilson) - para compreender a que considero a melhor perspectiva política cristã (se quiser, vá em frente e leia outros capítulos)
18) Encíclica Fides et Ratio (S. João Paulo II) - para entender a relação fé e razão (Wojtyla, além de santo, é bom filósofo)
19) A psicologia da fé e o problema de Deus (Pe. Leonel Franca) - boa explanação do problema filosófico fundamental

Antes ainda de encarar a modernidade, leia algumas obras para aprofundar o sentido da vida filosófica e a filosofia clássica (e releia o Morente até ficar bem claro o assunto do idealismo):



20) A vida intelectual (Pe. Sertillanges) - passe os olhos no sumário e leia o que lhe chamar a atenção
21) O espírito da filosofia medieval (Gilson) - leia pelo menos os dois primeiros capítulos (sobre a noção de filosofia cristã) e veja os capítulos que lhe interessam mais
22) A perspectiva cristã (Julián Marías) - leia todo
23) Parte de filosofia antiga da Historia da Filosofia de Reale e Antiseri - a parte de antiga desta obra é boa; leia se quiser complementar alguma lacuna do Marías [se depois quiser aprofundar mais ainda em filosofia antiga veja os tomos de Filosofia Antiga do Reale]
24) O livro do Enrico Berti sobre a Metafísica de Aristóteles
25) A filosofia na Idade Média (Gilson) - veja o sumário e escolha o que lhe chamar a atenção; mas não deixe de ler sobre os padres gregos (para ver uma perspectiva distinta da teologia) e sobre Escoto e Ockham (para entender a dobradiça com a Modernidade)
26) Introdução às artes do belo (Gilson) - veja o sumário e se introduza às concepções clássicas sobre o belo ("kalologia") e a arte
27) O livro das Eneadas de Plotino que fala do Belo (é efetivamente bonito)
28) Opcionais místicos: Itinerário da mente a Deus de S. Boaventura; Tratado da Santíssima Trindade de Ricardo de São Vítor (encontrará partes em português no site "cristianismo.org")


Encaremos os modernos:



29) A liberdade do cristão e Da autoridade temporal de Lutero

30) Discurso do Método de Descartes (a 4a parte é um resumo das Meditações Metafísicas) - se conseguir ler a 5a parte (provavelmente o texto mais chato já escrito por alguém, sobre a circulação do sangue), vc é um mártir do pensamento!
31) Capítulos I e XVII-XVIII de O Leviatã de Hobbes - para compreender o empirismo sensualista e o Estado Moderno
32) Espinosa de Roger Scruton (bem didático e correto) - para entender a origem do panteísmo moderno
33) Capítulos I-VIII de Do Contrato Social de Rousseau - para entender a origem do totalitarismo
34) Releia a parte do idealismo alemão do Morente e encare a Parte I do Hegel de Charles Taylor - parece-me a introdução mais didática ao filósofo alemão, que faz a dobradiça com o pensamento contemporâneo (mostra a articulação do iluminismo, do cristianismo, da grecidade e do romantismo na obra hegeliana)
35) Volte no tempo e leia o capítulo sobre Nicolau de Cusa em Indivíduo e Cosmos no Renascimento de Ernst Cassirer (vc verá que muito está lá...)
36) Leia a Monadologia de Leibniz (mais fácil de entender após ler Cusa)


* Por enquanto, continue se contentando com o Kant do Morente...


* Leia concomitantemente algum livro que possa lhe dar uma ideia geral da Ciência moderna, como o Dança do Universo do Marcelo Gleiser


Pós-modernos (pós-hegelianos):


37) Leia o Capítulo I de A essência do cristanismo de Feuerbach - para entender o ateísmo contemporâneo
38) Leia a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel de Marx, para entendê-lo por ele mesmo (está curiosamente no final da edição; passe por alto os dados da cultura alemã, se for o caso) - veja também como a tática política deste sociólogo e economista se universalizou (é a mesma com a qual a esquerda brasileira foi derrotada pela "nova direita")
39) Leia a "Primeira Dissertação" de A genealogia da moral de Nietzsche - para entender a origem do relativismo atual e a redução do moral ao biológico ou vital operada pelo filólogo alemão
40) Leia O mal-estar da civilização de Freud - para entender a perspectiva psicanalítica do médico austríaco


* Releia a parte do Morente sobre a fenomenologia como tentativa de recuperar a relação da consciência com a realidade objetiva



41) Leia A ideia da fenomenologia (Husserl) - síntese muito mais acessível que Investigações lógicas
42) Leia o capítulo sobre Wittgenstein e Heidegger na Primeira Parte de A transformação da filosofia de Karl Otto Apel
43) Veja o sumário de O discurso filosófico da modernidade do Habermas e escolha alguns capítulos (por exemplo, Foucault)
44) Leia O fim da modernidade de Gianni Vatimmo - é um pós-moderno que escreve que nem gente e explica direitinho o assunto, sem chamar o nihilismo de "meu louro"
45) Veja o sumário e leia os capítulos que lhe interessarem de O que é ser conservador de Roger Scruton - embora conservador britânico pragmático, o autor é generoso e explica com objetividade os prós e contra dos vários espectros ideológicos de direita e esquerda [se quiser uma visão da estética mais atualizada leia o seu Beleza]


* * *

Complemente com leituras de filósofos contemporâneos que são pontos fora da curva:



46) Natureza, História, Deus de Xavier Zubiri (olhe o sumário e escolha; não deixe de ler "Em torno do problema de Deus" e o texto sobre São Paulo e os padres gregos)
47) El corazón de Dietrich von Hildebrand - um bom livro sobre o tema esquecido do "sentimento" enquanto ato espiritual
48) Do mesmo autor, O amor entre o homem e a mulher - tema importantíssimo na cultura atual e tratado com maestria por um filósofo que certamente se santificou no casamento e pela vida intelectual profunda [vc ganhará muito se ler seu tratado espiritual chamado Nossa transformação em Cristo]
49) Antropologia metafísica de Julián Marías - provavelmente o melhor livro de antropologia filosófica já escrito
50) El hombre y Dios de Zubiri - na minha opinião o livro mais importante de quem considero o filósofo mais profundo do século XX (tem um resumo de sua filosofia na primeira parte)

* Escolha livros de Ratzinger e os leia à vontade (o homem mais inteligente do século e um dos mais amorosos; ele realiza um diálogo profícuo entre teologia, filosofia e ciência)


PS: se quiser, vc poderá ler o Kant, vida e doctrina de E. Cassirer; e aí vc entenderá melhor o que veio depois...

"Filosofia" (1484-93), de Antonio del Pollaiuolo

2 comentários:

Anônimo disse...

Três perguntas, com sua licença:

1) Que é necessário saber antes de começar esse itinerário (que capacidades o senhor pressupôs dos leitores que seguirão o itinerário)? Particularmente, tive uma educação débil e tenho algumas dificuldades de interpretação, principalmente se se trata de raciocínio lógico-matemático.

2) Há algo a acrescentar no itinerário, agora que se passaram 2 anos?

3) Observei que não há nenhum manual de lógica nas listas. Não é necessário estudá-la nesse primeiro momento?

Agradeço pelo itinerário. Tomarei o senhor como meu mestre. Deus o abençoe.

Joathas disse...

Perdão pelo atraso. Demorei a ver as perguntas... Seguem as respostas:

1) Eu pressupus uma certa maturidade intelectual que incluía um razoável conhecimento e domínio da lógica formal aristotélico-porfiriana, e uma boa capacidade imaginativa.

2) É possível, mas preciso realizar a revisão.

3) Vide 1. O manual do Maritain ("Introdução Geral à Filosofia", vol. 2) é suficiente para suprir as carências, num primeiro momento.

Um abraço!