8.6.17

"As fontes espirituais da angústia e da esperança" (Xavier Zubiri)

Tradução de trechos do Apêndice do livro: ZUBIRI. Sobre el sentimiento y la volición. Madrid: Alianza Editorial/Fundación Xavier Zubiri, 1992, pp. 395-405.


"A angústia é um dos temas que excedem a minha competência. Mas não por isso deixa de ser um ponto de reflexão importante, sobretudo pelo aspecto filosófico que desde há uns anos vem revestindo. A título, pois, de meras reflexões gerais sobre o tema, ofereço a vocês estas breves linhas.

A angústia, acabo de dizê-lo, tem um aspecto filosófico. Foi Heidegger quem quis fazer ver que a angústia é uma das têmperas de ânimo fundamentais da existência humana. A angústia se constitui para Heidegger por um duplo caráter. Por um lado seria um fenômeno de afundamento de todo terreno ou ponto de apoio; seria por outro, não um movimento de fuga, mas justamente ao contrário, uma especial quietude que deixa o angustiado como cravado e fixo no vazio em que fica. Este fenômeno tem para Heidegger um alance radical e fundante. O homem está apoiado na vida nos entes que o rodeiam. Seu afundamento total deixa patente ante os olhos daquela o nada de todo ente. Este vazio é em si mesmo algo positivo: é o 'ser' (das Sein). Sobre o abismo de todos os entes fica flutuando o puro ser. [...] a angústia é para Heidegger um fenômeno ontológico, é a patenteação do puro ser à diferença do ente. Esta interpretação é por demais problemática. Problemática, em primeiro lugar, porque não toca a estrutura concreta da angústia. Problemática, ademais, porque se move no fundo em uma petição de princípio: se não fosse porque o homem viu ou inteligiu de alguma maneira, antes de toda angústia, isto que chamamos ser, o afundamento do ente arrastaria o homem mesmo ou se produziria qualquer outro fenômeno, mas não uma patenteação do puro ser. De sorte que é o ser o fundamento da angústia, isto é, da patenteação do nada do ente, e não o revés. Esta vertente filosófica da angústia veio a impor-se em nossa época com uma força de arrasto que não responde a sua significação puramente filosófica. [...]

Como realidade, em seu aspecto mais externo, a angústia é, se não um fenômeno social em sentido estrito, sim, pelo menos, um estado tão generalizado que pode figurar entre as características de nosso mundo. O coeficiente de insegurança da vida atual em suas próprias estruturas sociais faz que a vida de todo homem em sua sociedade esteja orlada de um caráter de provisoriedade que ameaça dissolver suas mais elementares possibilidades. [...] a insegurança consecutiva à provisoriedade não seria em si angústia; poderia levar simplesmente ao infortúnio ou ao desespero. A angústia se produz quando apesar daquela insegurança a sociedade arrebata, sem embargo, o indivíduo e o empurra a ter de viver. Com o qual o inseguro quer parecer seguro, ainda sabendo-se incapaz de sê-lo. É uma 'imposição' de vida sem nada em apoiá-la com firmeza. É justamente a angústia. Não é certamente tudo o que constitui a angústia; por certo é pelo que disse que não é senão o aspecto mais externo dela. Mas este aspecto social nos deixa pelo menos orientados para o que é a angústia em si mesma como estado mental de cada indivíduo em sua própria vida espiritual.

Como estado mental da vida espiritual, o que se designa com o nome de angústia não é algo facilmente definível. Mas tampouco seja talvez necessário defini-lo: é suficiente assinalar os diversos ingredientes que intervém na angústia. Nenhum deles é exclusivo desta; mas todos juntos a constituem. Sobretudo há na angústia um momento de intensa 'preocupação'. Toda vida leva consigo um momento de preocupação pelo futuro, e em certa medida um momento de inquietude a respeito dele. Aqui não se trata simplesmente de um futuro remoto, senão formalmente de um futuro próximo. Na medida em que a preocupação aumenta e em que se encurta o prazo da futurição, ou seja, na medida em que o futuro se faz iminente e talvez ineludível, e por outro lado, na medida em que a inquietude vai alcançando a insegurança, a preocupação vai também mudando de matiz. Não é uma mera mudança quantitativa. Pelo aumento de proximidade, o futuro, com efeito, vai adquirindo uma forma própria e peculiar: não é algo como 'por-vir', senão algo que se 'joga em cima'. A futurição reveste aqui um caráter específico: é 'opressão'. E ao transformar-se a inquietude em insegurança crescente, a preocupação reveste uma nova qualidade: é 'ansiedade'. Não é uma agitação, uma hiperatividade; ao contrário, é uma germinal 'paralisia'. Esta sutil mistura de iminência, opressão e ansiedade, que nos deixa paralisados ante o futuro imediato, é característica da angústia. A este respeito, como estado mental da vida espiritual, a angústia descobre, ou quando menos situa o angustiado em uma situação peculiar: a 'impotência'. Eis aqui o primeiro momento da angústia.

Mas só o primeiro. Já o apontava ao referir-me à angústia como característica de nossa época. Esta impotência, com efeito, não seria propriamente angústia se a impotência, em qualquer de seus componentes, fosse apenas isso: mero 'não-poder'. Pela opressão, por exemplo, poderíamos deixar-nos esmagar pelo inevitável. isto não seria uma angústia. A impotência da angústia joga dentro de uma dimensão positiva. É a impotência na torrente vital que não só se nos 'oferece', senão que se nos 'impõe'. Como desde há muitos anos venho dizendo, a vida não é somente o que enunciava Shakespeare: ser ou não ser. Se assim fosse, a vida seria dura, mas simples: bastaria optar. A vida não é ser ou não ser, senão ter de ser. E esta positiva dimensão do ter de ser, é o que confere à impotência seu próprio caráter angustiante.

Isto é tudo? Certamente, não. É verdade que a isto é ao que todos em geral chamamos angústia, sem grande amor da precisão. Mas em definitivo tudo isso poderia dar-se e ocorrer sem que fosse propriamente angústia. Seria tão só, uma, talvez a suprema das tribulações. Mas nada mais. E a angústia não é só tribulação. É que todos estes momentos essenciais à angústia não constituem senão um aspecto dela: o aspecto que dá ao que de uma maneira genérica poderíamos chamar as tendências humanas. Toda 'tendência' nos dispara a um futuro, é uma 'tensão'. Mas a vida não és ó tensão. É também 'pré-tensão'. Nela não vamos disparados, senão que nos disparamos. E como tal a vida é a realização ou o malogro de umas possibilidades que a realidade das coisas, dos demais homens e de si mesmo oferecem, ou que a pessoa mesma descobre e até talvez cria. A realização destas possibilidades pende de uma condição suprema: sua aceitação, sua apropriação. O homem, portanto, não se move tão só por tendências que o levam, senão entre realidades que aceita ou descobre como possibilidades de sua vida pessoal E este entregar-nos ativa ou passivamente à realidade enquanto realidade possibilitante de minha própria realidade, é justamente o que a potiori constitui para mim a essência da vontade. A potiori tão só, porque não é nada separável das tendências. Ao contrário; a integridade disso que chamamos vontade envolve intrinsecamente as tendências mesmas. Costumo dizer por isto, que a vontade humana é, intrínseca e formalmente, uma vontade tendente. Sem tendências, a pura vontade, a voluntariedade não passaria de ser, no melhor dos casos, um belo ideal inoperante; mas sem voluntariedade propriamente dita, as tendências fariam do homem tão só o supremo dos seres sensitivos. O momento de voluntariedade propriamente dito consiste na apropriação de possibilidades. E a isto é ao que tematicamente chamo eu 'moral'. Moral não é só, nem em primeira linha, a ética das ações conformes ou desconformes com um bem moral. Antes que isso moral é o caráter de uma realidade, a realidade humana, caráter pelo qual esta tem algumas propriedades tão só por apropriação de possibilidades. [...] O bem moral é pura e simplesmente o bem do [ser] moral em que o homem consiste. Isto suposto, a angústia que descrevemos até agora em termos meramente tendenciais, não constitui senão um momento da angústia estrita. A angústia não é um fenômeno de meras tendências, é formalmente um fenômeno de vontade, de voluntariedade tendente. Isto é, sem impotência e sem estar arrastados pelo ter que viver, não haveria angústia; mas o que com isso há não seria sem mais angústia. A verdadeira e profunda angústia envolve algo mais: é sentir-nos impotentes no ter que viver havendo perdido o sentido das possibilidades apropriadas pelo homem, havendo perdido o sentido de sua própria realidade: a angústia é uma primária e radical desmoralização. Sem ela não passaria de ser, como apontava antes, uma tribulação. E não ha a menor dúvida de que a raiz profunda da angústia contemporânea está no vazio de possibilidades reais, na profunda desmoralização (na acepção precisa que dei a este termo) do homem atual. Não é só a insegurança, a opressão, a ansiedade, o ineludível ter de viver; é tudo isto mas com falta de apoio na ordem da realidade enquanto tal como possibilidade de minha vida.

A distinção é clara. Quando Cristo se dirigiu a Gethsemani, disse a seus apóstolos: 'No mundo tendes opressão, mas confiai, eu venci o mundo'. Esta confiada esperança é o que evitou que nos apóstolos a opressão se convertesse em estrita angústia. Não foi uma abolição do sentido da realidade e da vida, nem foi uma desmoralização. Totalmente o contrário; foi em sua hora o secreto motor de sua vida. Não passou de ser uma grande tribulação. E o próprio Cristo, atribulado, oprimido e afundado pela iminência de sua Paixão, não caiu em angústia; sentiu-se moralmente triste e abatido, mas lhe bastou com aceitar a vontade de seu Pai, tomar posse do sentido de sua vida terrena [...]

[...] Por baixo da opressão, da ansiedade, por baixo da impotência em que nos vemos forçados a viver ante o incerto do momento, estão a desorientação, o gemido e a inquietude da desmoralização, a perda do sentido da realidade. O mais angustiante da angústia é justamente sua ausência de razão para ser. A angústia não patenteia o ser, senão que deixa os entes sem sentido para nossa existência.

Daqui que a angústia possa ter origens muito diversas em nossa vida espiritual. Por um lado o momento tendencial da angústia não pode ser subestimado. Ao contrário. Desde as alterações puramente fisiológicas, até os acontecimentos biográficos individuais ou sociais, passando pelas estruturas psicológicas, tudo, e de forma muita séria, pode desencadear a angústia estrita.Ao fim e ao cabo a vontade desfalece e se desmoraliza ordinariamente quando falham ou se descoordenam as dimensões tendenciais que intrinsecamente lhe pertencem. A des-regulação das tendências pode deformar moralmente a vontade. Mas por outro lado, a desmoralização em si mesma pode gerar angústia, por exemplo, pela via da depressão e da indiferença. Sem embargo, mantenhamos sempre a unidade dos dois momentos no fenômeno da angústia. A angústia é sempre e só um fenômeno de vontade tendente. O animal não pode estar angustiado. Provavelmente nenhum anjo o esteve tampouco.

A angústia é o grande perigo do homem atual. Não é fonte de progresso; ao contrário. É em todos os seus aspectos e dimensões o paralisador da vida. Daí que a agudeza e extensão do fenômeno da angústia humana seja um dos mais graves e sutis males de nossa época. Não possui este traço excepcional que certas filosofias pretendem outorgar-lhe. Oprimido pela realidade e perdido nela, o homem intenta, às vezes, dar o sutil rodeio de comprazer-se na angústia. É tão só a suprema miragem da inteligência. [...] em sentido [...] de nihilismo moral no existencialismo. E isto não é só que não seja verdade, é que é fisicamente insustentável.

E justamente é este, talvez, o último momento da angústia integral: sua estrita insustentabilidade. O angustiado mais que ninguém volta os olhos aos demais. Como insustentável, a angústia é uma negação de si mesmo: remete-nos à realidade na que estamos angustiados, inclusive quando o homem a aceita comprazido. Por isto a angústia não é só um estado; é também e ao mesmo tempo um problema, se se quer um problema como estado. Como tal, a insustentabilidade da angústia, isto é, a angústia é já ela mesma a marcha incoativa para a solução do problema. Só a marcha; a solução está muito longe. Precisamente porque a angústia é o problema do sentido da realidade, vivido na impotência do ter de viver, sua solução não pode consistir senão na reconquista do sentido da realidade vivida na na regulação das tendências vitais. É quimérico pensar que esta solução pudesse ser somente ideológica; seria crer que a angústia é um fenômeno de simples derrubada de convicções morais. E não é isto; envolve também intrínseca e formalmente a dimensão tendencial. Daí que a solução da angústia como problema implica todos os fatores que jogam na estrutura tendencial psicobiológica do homem. Uma regulação por higiene, não só física senão fisiológica; não podem desprezar-se os tratamentos bioquímicos em nenhum problema que afeta profundamente a realidade humana. Uma regulação também psicológica, em forma de psicoterapia ou de outras. Uma higiene, ademais, da vida pessoal. O homem atual foge de si mesmo e para consegui-lo, querendo-o ou não, ou inclusive talvez querendo o contrário, cultivou um regime de aturdimento. O homem de hoje necessita entre outras coisas da higiene da tranquilidade. Necessita também da higiene da fruição. Parece que o homem atual se acha de tal forma disparado para o futuro que carece de tempo e de folga para saber onde tem apoiados seus pés; não tem fruições, senão perpétuos projetos em que se devora a si mesmo. O futurismo reage sobre o presente dissolvendo-o em angústia. O homem necessita ademais um mínimo de estabilidade social, jurídica e nacional. Mas isto não é tudo. O homem necessita ir reconquistando o sentido da realidade, isto é, recobrar intimamente sua moralização. E isto não se obterá sem a reconquista de convicções morais profundas. Isso não eliminará o aspecto aflitivo da angústia; mas o mero fato de dar-lhe sentido a redimirá de tribulações, e impedirá que a angústia nos dissolva. E como desconhecer que a raiz última da estabilidade é nossa vinculação à ultimidade do real como possibilidade de nossa vida, isto é, o que há muito chamei 'religação'? A religação leva à religião como a moralização leva a uma ética.

No sombrio quadro da angústia atual há clarões de desangustiamento; não procedem de um frívolo otimismo, senão que são sintomas autênticos de recuperação. Não se pode negar que por baixo da inquietude atual, o homem vai sentindo uma saudável fadiga que o empurra a estar cada vez mais em si mesmo, não em um si mesmo monacal, senão no si mesmos dos seus. Não se pode negar tampouco que através de tantas alterações sociais vai adotando figura cada vez mais estável um regime de mínima segurança econômica [nota: tenha-se em conta que o texto é de um curso oferecido em 1961!]. Não se pode negar finalmente que sob as crises externas de muitas estruturas religiosas -refiro-me ao catolicismo- assistimos a uma renovação de vidas vividas em profundidade católica, caladas quase sempre, mas às vezes mais eficazes precisamente por seu silêncio. E, por que não dizê-lo?, em última instância um dos tristes fundamentos de esperança é justamente a índole instável da própria angústia. Talvez haverá que apurar mais a experiência. E chegado o homem ao limite da angústia despertará um dia como de um sonho, e começará a ver que em sua própria angústia não fez outra coisa que estar na realidade e em Deus. A angústia última seria talvez o primeiro estádio da recuperação. Só Deus sabe o que em sua providência estabeleceu e o que nela permitiu".



"Esperança" (1306), das "Sete Virtudes" de Giotto

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