Friday, June 02, 2017

Ángel Amor Ruibal sobre o milagre, o ato sobrenatural, a criação e a "potência obediencial"

A filosofia espanhola do século XX, cumpriu um papel notável: em diálogo com Miguel de Unamuno, José Orrtega y Gasset inspirou a chamada, por Julián Marías, "Escola de Madrid": Xavier Zubiri, o próprio Marías, Manuel García Morente, José Ferrater Mora, María Zambrano, José Luís Aranguren, Pedro Laín Entralgo... 

À parte deste grupo de tendência mais contemporânea, houve, na filosofia espanhola, um autor menos conhecido e de tendência escolástica, o erudito sacerdote Ángel Amor Ruibal. Nesta postagem traduzo alguns trechos do livro Cuatro manuscritos inéditos, que revelam seu pensamento acerca de algumas questões situadas numa interface entre filosofia e teologia.

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Excertos de AMOR RUIBAL, Ángel. Cuatro manuscritos inéditos: Los principios de donde recibe el ente la existencia. Naturaleza y sobrenaturaleza. Existencia de Dios. Existencia de Dios según mi exposición. Madrid: Gregos: 1964.


"O que constitui, pois, lei comum da natureza na ordem atual dela poderia muito bem haver sido lei extraordinária em outra ordem possível, que, por seu turno, poderia constituir norma comum das coisas. No exercício não relativo da potência passiva ou da potência ativa, ou de ambas, mediante intervenção sobrenatural, está o fundamento da teoria dos milagres. Os milagres, que costumam dizer-se super, praeter, contra naturam, não são sobre, nem fora, nem contra a natureza considerada em absoluto, senão fora da ordem atual da natureza, e por conseguinte, super, praeter, contra a ordem relativa que se nos oferece nela. Se assim não fosse, a natureza não poderia ser jamais sujeito nem instrumento dos milagres, porque é absurdo que uma natureza seja sujeito ou instrumento daquio que está em absoluto fora de sua potencialidade, pois seria e não seria ao mesmo tempo instrumento e natureza. Deus não pode elevar a natureza a nenhuma ordem que repugne à natureza mesma sem destruí-la e, portanto, sem que deixe de ser instrumento de sua ação. Por conseguinte, toda elevação que não destrói a natureza, não repugna a ela, e tudo o que não repugna à natureza está dentro de suas leis absolutas ou possíveis..." (pp. 100-101).

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"É necessário para o ato sobrenatural o concurso divino ordinário, a eficiência humana e a divina especial da sobrenaturalidade do ato.

Se agora se formula a questão de se a natureza é causa parcial com a graça do ato sobrenatural, é necessário distinguir. Comparando a natureza com a graça, a questão não tem sentido, porque, como fica dito, a graça é uma modalidade do ato da natureza. Comparando o ato da vontade humana com Deus, nesse caso é mister admitir que Deus e o homem são causas parciais da ação, de tal sorte, sem embargo, que de um e outro é todo o efeito totalitate sua. Nem Deus só nem o homem só poderiam produzir um ato sobrenatural [realizado pelo homem]; por conseguinte, Deus e o homem não podem ser senão causas parciais do ato sobrenatural. Mas, ao mesmo tempo, sendo um mesmo o ato vital e o ato sobrenatural, todo o ato é ao mesmo tempo de Deus e da criatura, pelo qual, o efeito é total de ambas causas, como se verifica frequentemente nos efeitos da causalidade na natureza.

Pode-se estabelecer comparação entre a vontade e Deus, tomando a primeira como faculdade puramente natural a respeito do ato sobrenatural que mediante a elevação executa. Neste caso, deve-se dizer que o ato sobrenatural é exclusivo em sua totalidade de Deus, porque equivale a comparar um ato da natureza  com o ato da mesma enquanto elevada, ou seja, com o que há de sobrenatural no ato natural, e é claro que o ato enquanto natural nada significa na ordem sobrenatural que o informa; ou seja, a natureza, intervindo no ato sobrenatural, não dá nada de sobrenatureza, que exclusivamente é obra de Deus" (pp. 106-107).

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"A potência passiva supõe um sujeito dela, e se a toda potência ativa correspondesse sua potência passiva, a potência infinita não poderia exercer-se nunca como tal, ou seja, não existiria potência infinita; porque o atuar sobre uma potência passiva não requer potência infinita, senão que é próprio de toda potência finita. Portanto, toda criação, toda produção do nada, seria impossível naquela hipótese. Dá-se, pois, potência ativa à qual não corresponde potência passiva, senão a potência lógica ou de possibilidade pura. O lugar da potência passiva é ocupado pelo termo passivo do possível, sem o qual seria absurda a potência ativa" (p. 108).

"[...] À potência ativa como tal, não lhe corresponde um ato que seja perfeição dela, senão simplesmente um ato que dela procede, enquanto produz o efeito. Daqui que a potência ativa não pode contrapor-se ao ato, pois a divisão de ato e potência ativa é, na realidade, uma divisão do ato mesmo. Se é possível dividir a potência ativa e o ato é enquanto o ato significa o efeito, que é termo da potência ativa, da qual depende e necessariamente se distingue [nota: no caso da Ação criadora, este efeito é a criatura].

O ato próprio da potência ativa, enquanto cabe assinalar-lhe algum que não seja a potência mesma, é a ação, mais não o efeito; porque é claro que o ato da potência há de ser algo intrínseco a ela, e nenhum efeito constitui a potência ativa, senão que, enquanto é efeito a supõe constituída. O oposto acontece com a potência passiva, cujo ato é sempre perfectivo da potência, informando-a e atuando-a como tal potência" (p. 111). 

"O antes e depois estão sempre dentro do tempo e das coisas temporais, mas não fora delas e como medida exterior a que possam ajustar-se. Por isso, aumentar o antes ou o depois indefinidamente não é mais que aumentar indefinidamente o tempo, sem sair jamais dele. Se Deus pôde criar antes o mundo, e o mundo pôde preceder em sua existência àquela que tem, tudo isto diz respeito à duração na coisa mesma, nunca diz respeito à eternidade de Deus, o qual vê sua duração diversa nelas, mas sem que a tenham a respeito da eternidade [...]

[...] Não se pode dizer que Deus tenha podido criar o mundo desde a eternidade, nem tampouco que desde a eternidade não tenha podido criá-lo, porque a eternidade não pode ser tomada como ponto de partida para admitir maior ou menor duração nos seres criados sem incorrer em contradição. Pôde Deus fazer que o mundo tivesse uma duração imensamente maior, mas não que correspondesse mais à eternidade em si; de outra sorte, seria necessário admitir graus de mais ou menos eterno

O mundo, pois, é eterno atualmente com a mesma eternidade que podia ter em qualquer outro ordem de Providência, porque não estaria nunca nem mais longe nem mais próximo de toda eternidade em nenhuma hipótese possível que se imagine. E se ao remontar para atrás séculos indefinidos a existência do mundo pode servir para algo, não é certamente para aproximá-lo à eternidade, senão, de certo modo, para afastá-lo mais dela, pois, sendo o tempo a antítese da eternidade, quanto mais se multiplique aquele tanto mais se realiza a afirmação antitética desta ou exclusiva do eterno.

[...] "Não importa que a potência seja infinita ou eterna, se a natureza da coisa não permite que esta seja eterna ou infinita; neste caso, a natureza será sempre finita ou temporal, sem exceção possível. E, sendo a eternidade na potência um atributo essencialmente extrínseco ao ato de todo ser contingente, não pode em nenhum caso convir intrinsecamente a este sem deixar de ser o que é; desta sorte, o ato não pode menos que estar sempre em presença de toda a eternidade que corresponde à potência da qual depende, sem embargo de distar tanto de ser ato eterno como dista de ser a potência em ato que o produz" (pp. 118-119). 

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"A teoria da potência preternatural não pode se sustentar fixando um quadro das essências das coisas como tipos imutáveis dentro dos quais se reproduz cada objeto da natureza. Neste caso, ou a natureza não responde ao tipo de sua essência ou o tipo da essência não é imutável. Por outra parte, tais essências, como vimos, não são coisa alguma sem relação à existência real, senão a idealidade da existência, de sorte que aquelas só são imutáveis enquanto esta o seja. Se uma causa natural pode ser elevada a produzir um efeito sobrenatural, a natureza da causa se faz para aquele efeito verdadeiramente sobrenatural, porque nenhum efeito propriamente dito de uma causa pode superar a natureza dela. Segundo isto, é necessário concluir, ou que o efeito não é próprio da causa ou que natureza da causa não é imutável no círculo natural em que nos figuramos encerrada e determinada.

Dado isto, o nome de sobrenatural não é denominação absoluta que exclua em absoluto a natureza, senão simplesmente relativa, que exclui o tipo ou os tipos de atividade desenvolvida segundo a vontade de Deus nas coisas. [...] Dado o caráter absoluto do tipo natural das coisas e sua imutabilidade intrínseca, não há potência alguma extrínseca, sem excluir a de Deus, que a modifique para produzir outros efeitos que os que naturalmente lhe correspondem. Suposto o caráter obediencial da natureza, o tipo que a constituiu não depende das coisas, senão daquele a cuja vontade aparece subordinado em obediência...

[...] Na ordem dos fatos, temos nós duas classes de limitações que nos impedem definir o tipo das essências, que não é outra coisa que o tipo da ideia de uma existência realizada em toda sua plenitude. A primeira é nossa imperfeição cognoscitiva, a qual, salvo em muito poucas ocasiões, não nos permite dizer o que é a coisa, senão como é a coisa para nós, e isto num tempo dado. [...] Só as verdades abstratas, que são variantes do princípio de contradição, o que é, é, aparecem estáveis.

A segunda é o círculo da existência concreta da coisa, o qual, ainda que fosse conhecido em toda sua plenitude, não equivaleria a conhecer a ideia da coisa em sua plenitude, existindo outras múltiplas gradações possíveis de existência dentro do mesmo tipo que chamamos essencial e que depende da divina determinação.

A potência obediencial pode admitir, segundo isso, tantas gradações como são os círculos possíveis que podem constituir-se na natureza com subordinação à vontade que os determina" (pp. 132-135).

[...] A potência obediencial das coisas é a respeito de Deus tão ampla como seja a possibilidade de formas e relações em cada ente finito.

A potência obediencial, pois, é sempre natural nas coisas e não pode deixar de sê-lo sem que se converta em absurda. A diferença entre a potência obediencial natural e sobrenatural está, não em um tipo absoluto, senão na ordem respectiva do natural. Para o homem, o círculo natural está determinado pela natureza a que ele pertence também e pelo que ele pode transformar nela; para o espírito, o círculo natural abarca a ordem da natureza sensível, mais a própria [ordem] dos espíritos, e seu poder de transformação está dentro da natureza em sua categoria; para o Ente infinito, a natureza abarca as ordens existentes dos seres, mais as ordens possíveis neles, e toda a atividade divina que se exerça é propriamente natural nas coisas a respeito de Deus e em Deus a respeito das coisas. Resulta, pois, que o natural e o sobrenatural na potência obediencial são termos relativos e não absolutos.

Daqui que a coisa em si mesma e numa ordem dada da natureza seja sempre a base do sobrenatural que pode ser atuado na própria coisa. Por isso a potência obediencial passiva não é mais que a potência passiva natural do ente enquanto é atuada, ou de um modo sobrenatural, ainda que se trate de uma coisa natural (v.gr., quando um enfermo de gravidade cura repentinamente), ou por virtude sobrenatural, cujo termo está também fora da natureza, mas que necessita e exige a natureza como sujeito natural da potência que faz possível dita sobrenatural atuação.

Diga-se o mesmo da potência obediencial ativa, a qual é a potência ativa da natureza, exercendo-se em uma ordem de sobrenatureza, enquanto se translada a uma ordem que não responde a sua natural exigência e se termina em um ato que não é sua natural perfeição. Mas jamais poderia ser potência sobrenatural de um ente, sem que seja tão própria do ente qual o é sua potência natural para os atos habitualmente próprios.

Esta relação essencial que a potência obediencial diz à potência natural, e a potência natural à obediencial, não tem outro fundamento mais que o tratar-se de uma potência da própria natureza, que se diferencia pelas categorias que a vontade divina quis estabelecer. De outra sorte não seria possível relação alguma entre o natural e sobrenatural de parte da potência entitativa" (pp. 136-137 ).




Pe. Ángel Amor Ruibal

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