Excertos de: SÃO JOÃO CLÍMACO. A Santa Escada. São Paulo: Cultor de
Livros, 2014.
Nota
preliminar: foi escrita especialmente para os monges,
mas aplica-se a todo aquele que queira viver com profundo amor a vida cristã.
Sobretudo, tem uma perspectiva que considero superior à de muitas
espiritualidades modernas, muitas vezes marcadas por certo tom sombrio que está presente na própria Modernidade, ao lado do otimismo e do progressismo ingênuos e imprudentes (a renovação carmelita,
sem prejulgar de outras, é obviamente uma exceção, à altura do sabor espiritual da
espiritualidade patrística): S. João Clímaco não elide em nenhum momento as enormes dificuldades do
combate, a vileza de nossos vícios e os riscos para nossa alma, mas não apresenta um tom pessimista ou moralista. Na medida em que me for possível,
irei postando alguns trechos. Este é um momento histórico em que é imprescindível voltar ao essencial.
* * *
“Capítulo
I: Da renúncia e menosprezo do mundo
Deus, em sua incompreensível bondade
infinita, houve por bem honrar com a dignidade do livre-arbítrio as suas
criaturas racionais. Destas, umas podem ser chamadas amigas suas, outras fiéis
e legítimas servas, outras de todo e qualquer modo inúteis, outras bárbaras e
apartadas dele, outras seus inimigos e adversários.
Amigos de Deus são aquelas intelectuais e
espirituais substâncias que com ele moram. Servos fiéis são aqueles que, sem preguiça
e sem cansaço, obedecem à sua santíssima vontade. Servos inúteis são aqueles
que, depois de haverem sido lavados com a água do santo batismo, não guardam o
que nele assentaram e capitularam. Bárbaros são aqueles que estão arredados de
sua santa fé. Adversários e inimigos são aqueles que, não contentes de ter
sacudido de si o jugo da Lei de Deus, perseguem aos que procuram guarda-la.
Cada uma destas classes de pessoas requer
especial tratado; mas, o nosso propósito é tratar somente daquelas que
justamente merece ser chamadas fidelíssimos servos de Deus. [...] (p. 35)
E, verdadeiramente, aquele que, vestido
desta carne mortal, deseja subir ao Céu, tem necessidade de suma violência.
Contínuos e infatigáveis trabalhos, especialmente nos princípios, para
conseguir desabituar-se de deleites, e para que o coração, que antes era
impassível ao sentimento de seus males, venha a afeiçoar-se a Deus e a ser
santificado com a castidade, mediante o atentíssimo estudo e exercícios das
lágrimas e da penitência. [...] Até que o nosso miserável ânimo, acostumado à
carniceira e à guloseima dos vícios, torne-se amante da contemplação e da
castidade, ajudando-nos para isso as virtudes da simplicidade, da mortificação
da ira, e de uma grande e discreta diligência.
Porém, com tudo isto, nós que somos combatidos
de vícios, conquanto não tenhamos alcançado bastantes forças contra eles,
confiemos em Jesus Cristo. E, com fé firmíssima, lhe apresentemos humildemente
a fraqueza e a enfermidade de nossa alma, e, sem dúvida, alcançaremos seu favor
e graça, procurando sumir perpetuamente o nosso merecimento no abismo da
humildade. [...] (p. 38)
Ouvi uma vez a certos negligentes que,
vivendo no mundo, me diziam:
- Como poderemos nós, morando com nossas mulheres
e cercados de cuidados e negócios de república, viver vida monástica?
Aos quais respondi:
- Fazei todo o bem que puderdes; não
injurieis a ninguém, não digais mentira, não tomeis o alheio, não queirais mal
a ninguém, não vos levanteis contra ninguém, frequentai as igrejas e os
sermões, usai de misericórdia com os necessitados, não escandalizeis, nem deis
mal exemplo a ninguém, nem sejais favorecedores de bandos de malfeitores, nem
vos empregueis em meter discórdias, senão em desfazê-las, e contentai-vos com o
uso legítimo de vossas mulheres: porque, se isto fizerdes, não estareis longe do reino de Deus.
Preparemo-nos com alegria e sem temor para
esta gloriosa batalha, não acovardando-nos, nem desanimando pelo temor de
nossos adversários: pois Deus está conosco. Os nossos adversários, posto que de
nós não sejam vistos, veem muito bem a figura de nossas almas, e, se nos virem
acovardados e medrosos, tomam armas mais fortes contra nós, apesar de contarem
com a nossa fraqueza e covardia. Portanto, com grande ânimo devemos tomar
contra eles as armas da alegria e da coragem, porque ninguém é poderoso para
vencer a quem alegre e animosamente peleja.
Nosso Senhor costuma usar de uma
maravilhosa concessão aos principiantes e novos guerreiros, temperando e moderando-lhes
as primeiras batalhas, a fim de que não voltem ao mundo, espantados da grandeza
do perigo. [...] (pp. 42-43)
Capítulo
II: Da mortificação das paixões e vitória sobre apetites e afetos
Aquele que ama verdadeiramente a Deus e
que verdadeiramente deseja gozar do reino dos Céus; aquele que verdadeiramente se
arrepende de seus pecados e que deveras está impressionado com a memória das
penas do inferno e do juízo final, e com o temor da morte, este coisa alguma
amará desordenamente. [...] (p. 46)
Quem tiver perfeito ódio ao mundo estará
livre de tristeza do mundo; mas quem está tocado da afeição das coisas do
mundo, não estará de todo livre desta paixão, e dificilmente deixará de
entristecer-se quando se achar privado do que ama. Em todas as coisas temos
necessidade de grande temperança e vigilância; mas, sobretudo, nos havemos de
extremar em procura desta liberdade e pureza de coração (p. 48).
Estreito caminho é a aflição do ventre, a
perseverança nas vigílias, a água por medida, o pão por taxa, o beber a purga
saudável das ignomínias e injúrias, a mortificação de nossas próprias vontades,
o sofrimento das ofensas. O menosprezo de nós mesmos, a paciência sem
murmuração, o tolerar fortemente as injúrias, e não indignar-se contra os que
nos infamam, o não queixar-se dos que nos desconsideram, e o abaixar-se
humildemente aos que nos consideram (p. 49).
Capítulo
III: Da verdadeira peregrinação
Peregrinação é pôr de lado, desamparar,
com toda a constância, tudo quanto nos impede o propósito e exercício de piedade,
que é louvar e buscar a Deus. Peregrinação é um coração vazio de toda a vã
confiança, sabedoria não conhecida, prudência secreta, fugida do mundo, vida
invisível, propósito não revelado, amor do desprezo, apetite de angústias,
desejo do divino amor, abundância de caridade, aborrecimento de passar como
sábio ou como santo, e um profundo silêncio da alma. [...] (p. 51)
Consideremos que, como diz o Salvador, ninguém
é louvado como profeta entre os seus e em sua pátria; e vejamos que não seja
para nós ocasião de vanglória a peregrinação e saída da pátria. A peregrinação
verdadeira é uma perfeita separação de todas as coisas, com intento de jamais,
tanto quanto seja possível, separar de Deus o nosso pensamento. Peregrino é
amador de perpétuo pranto, arraigado nas entranhas pela memória de seu Criador
[...] (pp. 51-52)
Ninguém peregrinou tanto como aquele
grande Patriarca, a quem foi dito: ‘Sai de tua terra e do meio de teus parentes
e da casa de teus pais’. Assim foi ele chamado a viver entre gente rude e de
língua estranha. Os que procuraram imitar essa tão admirável peregrinação,
algumas vezes foram pelo Senhor levantados a grande glória; entretanto, aquele
que é verdadeiramente humilde deve escusar-se a esta glória, e defender-se dela
com o escuda da humildade, posto que divinamente lhe seja concedida” (p. 55).

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