15.10.18

São João Clímaco e a Escada Santa (1)


Excertos de: SÃO JOÃO CLÍMACO. A Santa Escada. São Paulo: Cultor de Livros, 2014.

Nota preliminar: foi escrita especialmente para os monges, mas aplica-se a todo aquele que queira viver com profundo amor a vida cristã. Sobretudo, tem uma perspectiva que considero superior à de muitas espiritualidades modernas, muitas vezes marcadas por certo tom sombrio que está presente na própria Modernidade, ao lado do otimismo e do progressismo ingênuos e imprudentes  (a renovação carmelita, sem prejulgar de outras, é obviamente uma exceção, à altura do sabor espiritual da espiritualidade patrística): S. João Clímaco não elide em nenhum momento as enormes dificuldades do combate, a vileza de nossos vícios e os riscos para nossa alma, mas não apresenta um tom pessimista ou moralista. Na medida em que me for possível, irei postando alguns trechos. Este é um momento histórico em que é imprescindível voltar ao essencial.

* * *

Capítulo I: Da renúncia e menosprezo do mundo

Deus, em sua incompreensível bondade infinita, houve por bem honrar com a dignidade do livre-arbítrio as suas criaturas racionais. Destas, umas podem ser chamadas amigas suas, outras fiéis e legítimas servas, outras de todo e qualquer modo inúteis, outras bárbaras e apartadas dele, outras seus inimigos e adversários.

Amigos de Deus são aquelas intelectuais e espirituais substâncias que com ele moram. Servos fiéis são aqueles que, sem preguiça e sem cansaço, obedecem à sua santíssima vontade. Servos inúteis são aqueles que, depois de haverem sido lavados com a água do santo batismo, não guardam o que nele assentaram e capitularam. Bárbaros são aqueles que estão arredados de sua santa fé. Adversários e inimigos são aqueles que, não contentes de ter sacudido de si o jugo da Lei de Deus, perseguem aos que procuram guarda-la.

Cada uma destas classes de pessoas requer especial tratado; mas, o nosso propósito é tratar somente daquelas que justamente merece ser chamadas fidelíssimos servos de Deus. [...] (p. 35)

E, verdadeiramente, aquele que, vestido desta carne mortal, deseja subir ao Céu, tem necessidade de suma violência. Contínuos e infatigáveis trabalhos, especialmente nos princípios, para conseguir desabituar-se de deleites, e para que o coração, que antes era impassível ao sentimento de seus males, venha a afeiçoar-se a Deus e a ser santificado com a castidade, mediante o atentíssimo estudo e exercícios das lágrimas e da penitência. [...] Até que o nosso miserável ânimo, acostumado à carniceira e à guloseima dos vícios, torne-se amante da contemplação e da castidade, ajudando-nos para isso as virtudes da simplicidade, da mortificação da ira, e de uma grande e discreta diligência.

Porém, com tudo isto, nós que somos combatidos de vícios, conquanto não tenhamos alcançado bastantes forças contra eles, confiemos em Jesus Cristo. E, com fé firmíssima, lhe apresentemos humildemente a fraqueza e a enfermidade de nossa alma, e, sem dúvida, alcançaremos seu favor e graça, procurando sumir perpetuamente o nosso merecimento no abismo da humildade. [...] (p. 38)

Ouvi uma vez a certos negligentes que, vivendo no mundo, me diziam:

- Como poderemos nós, morando com nossas mulheres e cercados de cuidados e negócios de república, viver vida monástica?

Aos quais respondi:

- Fazei todo o bem que puderdes; não injurieis a ninguém, não digais mentira, não tomeis o alheio, não queirais mal a ninguém, não vos levanteis contra ninguém, frequentai as igrejas e os sermões, usai de misericórdia com os necessitados, não escandalizeis, nem deis mal exemplo a ninguém, nem sejais favorecedores de bandos de malfeitores, nem vos empregueis em meter discórdias, senão em desfazê-las, e contentai-vos com o uso legítimo de vossas mulheres: porque, se isto fizerdes, não estareis longe do reino de Deus.

Preparemo-nos com alegria e sem temor para esta gloriosa batalha, não acovardando-nos, nem desanimando pelo temor de nossos adversários: pois Deus está conosco. Os nossos adversários, posto que de nós não sejam vistos, veem muito bem a figura de nossas almas, e, se nos virem acovardados e medrosos, tomam armas mais fortes contra nós, apesar de contarem com a nossa fraqueza e covardia. Portanto, com grande ânimo devemos tomar contra eles as armas da alegria e da coragem, porque ninguém é poderoso para vencer a quem alegre e animosamente peleja.

Nosso Senhor costuma usar de uma maravilhosa concessão aos principiantes e novos guerreiros, temperando e moderando-lhes as primeiras batalhas, a fim de que não voltem ao mundo, espantados da grandeza do perigo. [...] (pp. 42-43)


Capítulo II: Da mortificação das paixões e vitória sobre apetites e afetos

Aquele que ama verdadeiramente a Deus e que verdadeiramente deseja gozar do reino dos Céus; aquele que verdadeiramente se arrepende de seus pecados e que deveras está impressionado com a memória das penas do inferno e do juízo final, e com o temor da morte, este coisa alguma amará desordenamente. [...] (p. 46)

Quem tiver perfeito ódio ao mundo estará livre de tristeza do mundo; mas quem está tocado da afeição das coisas do mundo, não estará de todo livre desta paixão, e dificilmente deixará de entristecer-se quando se achar privado do que ama. Em todas as coisas temos necessidade de grande temperança e vigilância; mas, sobretudo, nos havemos de extremar em procura desta liberdade e pureza de coração (p. 48).

Estreito caminho é a aflição do ventre, a perseverança nas vigílias, a água por medida, o pão por taxa, o beber a purga saudável das ignomínias e injúrias, a mortificação de nossas próprias vontades, o sofrimento das ofensas. O menosprezo de nós mesmos, a paciência sem murmuração, o tolerar fortemente as injúrias, e não indignar-se contra os que nos infamam, o não queixar-se dos que nos desconsideram, e o abaixar-se humildemente aos que nos consideram (p. 49).


Capítulo III: Da verdadeira peregrinação

Peregrinação é pôr de lado, desamparar, com toda a constância, tudo quanto nos impede o propósito e exercício de piedade, que é louvar e buscar a Deus. Peregrinação é um coração vazio de toda a vã confiança, sabedoria não conhecida, prudência secreta, fugida do mundo, vida invisível, propósito não revelado, amor do desprezo, apetite de angústias, desejo do divino amor, abundância de caridade, aborrecimento de passar como sábio ou como santo, e um profundo silêncio da alma. [...] (p. 51)

Consideremos que, como diz o Salvador, ninguém é louvado como profeta entre os seus e em sua pátria; e vejamos que não seja para nós ocasião de vanglória a peregrinação e saída da pátria. A peregrinação verdadeira é uma perfeita separação de todas as coisas, com intento de jamais, tanto quanto seja possível, separar de Deus o nosso pensamento. Peregrino é amador de perpétuo pranto, arraigado nas entranhas pela memória de seu Criador [...] (pp. 51-52)

Ninguém peregrinou tanto como aquele grande Patriarca, a quem foi dito: ‘Sai de tua terra e do meio de teus parentes e da casa de teus pais’. Assim foi ele chamado a viver entre gente rude e de língua estranha. Os que procuraram imitar essa tão admirável peregrinação, algumas vezes foram pelo Senhor levantados a grande glória; entretanto, aquele que é verdadeiramente humilde deve escusar-se a esta glória, e defender-se dela com o escuda da humildade, posto que divinamente lhe seja concedida” (p. 55).



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